GLAUBER ROCHA
Memórias da fome e do Sonho
“A Idade da Terra”, de Glauber Rocha: invenção e atualidade
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Rocha que Voa, premiado filme de Eryk Rocha sobre a
passagem de seu pai em Cuba, não é simplesmente um
documentário de memória. Inversamente, trata-se de um filme
cuja cinética é a memória de um novo cinema, um filme sobre
a invenção da memória e da plástica do cinema novo. Plástica
arqueológica de vozes compondo diferentes personagens
sonoros da história do cinema Latino. Palimpsesto de camadas,
transparências de imagens, fusões, sobreposições, falas de
Glauber em off misturadas às cores e às vozes e rostos de
outros cineastas, fotos, remontagens, imagens de rostos
anônimos na cidade imaginária entre Havana/Rio, fotogramas
digitalizados da memória esquecida, imagem em fogos, tiros,
bombas, barbárie, revolução e imaginação. A revolução
cubana, Glauber, Che, cinema, poesia, política e amor, no
mesmo fluxo de telas pinturas da memória. A imaginação na
cabeça de um homem que atravessa os 3 continentes não
deixa só as obras grandiosas, mas os vestígios, as marcas,
as memórias dos encontros e das passagens. A memória
que faz do afeto, cinema, vestígios do sonho, restos de utopias.
- O que o cinema pode fazer da memória?
dilacerada pelo em transe/ em si mesmas as obras de arte
são como manifestações e testemunho do seu tempo/ gesto
estéticos com a força de reconfigurar toda a história passada.
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“Parto do princípio que a maioria do público brasileiro não conhece
meus filmes, que são mais conhecidos no exterior do que no Brasil.
A minha obra vive uma espécie de constante pirataria e sabotagem
cultural… o cinema novo não morreu... o cinema novo sou…”
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“...tentarei produzir meu próximo filme o mais rápido
possível. O filme se chama A Idade da Terra, deve ser filmado
na África, Ásia, América e Europa. É um projeto de grande
ambição, o maior que já saiu da minha cabeça, mas custa
um milhão de dólares, nenhum produtor daqui se arrisca.”
“É um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse
numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É
um novo cinema, anti-literário e metateatral, que será gozado,
e não visto e ouvido como o cinema que circula por aí.”
Escreveu em uma das viagens através do novo mundo
As ruínas européias E a grande afryka continental “um cangaceiro
surrealista a luta anti-imperalista”
“A Idade da Terra desenvolve os temas de Terra em
Transe e desdobra muito mais a forma. Esse filme
estaria para a pintura acadêmica como um quadro
de Picasso. Os críticos estão querendo uma pintura.”
- O que a memória pode fazer do cinema?
“O mar explode em estilhaços sobre os sentidos, meu corpo
transmutado em Guernica” Rocha que Voa é o interlúdio, o intervalo da transformação da
memória em terra. A memória transformada em matéria artística é o nosso maior
inventário contra a diluição da história. O artista não submete a
memória ao realismo histórico, faz da memória aquilo que pode
ser intercambiável com o presente/ faz da memória invenção
de movimentos, plásticas de sons, músicas, a memória e arte,
faz da linguagem adormecida do mito um traço estético que
passa entre dois tempos, o da ficção e da realidade, no
intervalo histórico de uma amnésia e outra. Há uma memória a
ser traduzida e re-inventada pelos artistas / a memória do
sertão nos sertões, nos grandes sertões veredas, a memória
da terra em deus e o diabo, / a memória de uma geração
“Não quero nem vou explicar meus filmes. Eu improviso
meus filmes, tenho direito de não explicar. O cinema é
uma materialização audiovisual de idéias e o cineasta é um
pintor de sons, não me interesso pela realidade imediata.
A arte é a materialização de impulsos do inconsciente.”
“Um dos papéis importantes do filme é o de cristo. Mas o cristo
do Apocalipse. É Jece Valadão num inversão de papeis”
“Mauricio do Vale tem um personagem totalmente contrário
ao de Antonio das Mortes. Provavelmente fará um americano
louro, falando inglês.” “Por que cinema não pode ser filosofia? Filosofia
e cinema não seriam a mesma coisa? Meu filme é
rio por onde se passam muitas coisas, um riverum”
“O filme representa abertura do Brasil de hoje. O filme é
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mais um ensaio de ficção do que uma ilustração do romance”
“O filme foi realizado em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro...
fala das tentativas do terceiro mundo… fala do mundo em que
vivemos. Não é para ser contado. Só para ser visto e ouvido.”
“Filme que se expressa audivisualmente, sem diálogos
narrativos. É revolucionário do ponto de vista da
linguagem e do tema, já que retoma a linha do cinema
político,
abandonado
pelos
cineastas
brasileiros”
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A poética de Glauber Rocha desde de seu primeiro
longa, Barravento (61), se insurgiu contra um cinema
dominado por uma linguagem colonizadora. O cinema
novo é a invenção dessa linguagem de libertação cultural,
a síntese cinematográfica de um movimento mais geral.
Logo em 1964, Deus e o Diabo na Terra do Sol consagra o
cinema novo mundialmente, dando início à época de abertura
cultural em meio à ditadura militar que começara. De Terra em
Transe (67), Câncer (68) ao Dragão da Maldade contra o Santo
Guerreiro (68), as artes no Brasil vivem uma verdadeira explosão
criativa. Terra em Transe desencadeia o movimento tropicalista
simultaneamente com Hélio Oiticica, que lança sua instalação
Tropicália no MAM do Rio de Janeiro, Zé Celso Martinez monta
Oswald de Andrade, O Rei da Vela, Caetano Veloso e Gilberto Gil
na música com o maestro Rogerio Duprat, no cinema marginal
de Rogerio Sganzerla, com O Bandido da Luz Vermelha.
Uma nova constelação da arte de vanguarda no Brasil - cinema novo, cinema marginal, antropofagia, tropicalismo,
neo-concretismo. O cinema não era só um mercado, mas
fazia parte desse processo mais amplo de transformação
cultural que foi dilacerado pela ditadura militar, implacável na
repressão. Já em 1970, depois da premiação em Cannes de
melhor direção com o Dragão, Glauber começa as filmagens
de Cabezas Cortadas na Espanha, marcando o início de seu
exílio. Período que marca uma fase de novas pesquisas
estéticas, desmistificando a fase anterior, em busca de um
cinema Tricontinental e de uma Estética do Sonho. Filma Claro
na Itália e O Leão de Sete Cabeças no Congo, África. Em 1976, Glauber volta ao Brasil depois do exílio disposto a
continua a sua alquimia poética, realizando DI em um impulso
preparatório de A Idade da Terra, que explodiu nas telas do
Festival de Veneza resultando em grande polêmica e protesto
do cineasta contra os organizadores do festival. A Idade da Terra é um filme sobre a ressurreição de um cristo
livre da cruz em que o cinema é o próprio milagre. Cinema, arte
sagrada que incorpora o mito e transforma o antigo narrador em
artista e o artista no inventor de novas formas. O narrador, antigo
cancioneiro de Deus e o Diabo, e mesmo o jornalista/poeta de
Terra em Transe, se transformam no nômade que cria sua Terra. O
cineasta não está interessado em nos transmitir simples estórias,
mas inventar formas, plásticas e sonoridades! As antigas formas
de que somos herdeiros, a memória, a cultura, não pertencem
mais à linearidade e à linguagem do poder. Agora é necessário
fazer do mito e do cinema uma linguagem nova e transgressora
para a representação de um espaço e um povo por vir.
Essa passagem de uma esztética da fome a uma esztética do
sonho - do Sertão, Eldorado a “América, Europa, Asia, Africa”, é
o movimento contínuo que explode em novas dimensão
em A Idade da Terra. A diferença desse filme de Glauber em
relação ao seus filmes mais conhecidos está nesta passagem
que o filme representa dentro da gênese da obra. A Idade da
Terra materializa a travessia entre o cinema novo das origens
e um novo cinema voltado para seu futuro, lugar onde seu
cinema deságua. Poética que joga com o futuro de uma arte
ainda em construção. A épica glauberiana é a épica desse movimento germinal que está desde de seu primeiro filme,
Pátio. Uma busca infinita por outro cinema - sua revolução
fílmica não é uma política mas uma estética, uma arte.
“A arte revolucionária deve ser uma magia capaz de enfeitiçar o
homem a tal ponto que ele não mais suporte viver nesta realidade
absurda. Borges, superando esta realidade, escreveu as mais
liberadoras irrealidades de nosso tempo. Sua estética é a do sonho.
Para mim é uma iluminação espiritual que contribui para dilatar
a minha sensibilidade afro-índia na direção dos mitos originais
da minha raça” (trecho do manifesto eztética do sonho, 1971)
Com esse filme, a estética e a luta política por uma arte livre toma
os contornos de um Guernica cinematográfico, um grande
mural mexicano em cinemascope cujas partes compõem
internamente os fragmentos do corpo metamorfoseado de
toda uma geração. O próprio cinema como revolução, o
transe, a passagem a outras formas, imagens e sons.
“A Idade da Terra é uma impossibilidade grandiosa, uma
travessia do mundo e do tempo, uma descoberta da América na
contramão, um Encouraçado Potemkin negro, ou seja, informe,
cheio de gestos e ritmado, anti-clássico ao extremo – um escarro
de sangue na cara do cinema atual, dominado pela doçura .....”
(Pascal Bonitzer, 22 de agosto de 1981)
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A força poética de A Idade da Terra nasce não só de sua atualidade
estética mas do germe do Cinema de invenção que nasce com
Limite (30) de Mário Peixoto, filme marco do cinema poético
no Brasil, insurge com cinema novo, floresce com o cinema
marginal, explode com a vídeo-arte e segue subterrâneo até
o último filme de Rogerio Sganzerla, Sob o Signo do kaos.
A contemporaneidade de um ‘cinema expandido’ no Brasil
passa necessariamente pela memória de Glauber e de A Idade
da Terra e pelos signos fundadores de um cinema de invenção.
A Idade da Terra é um filme fundamental para compreendermos
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o ruído cultural que separa atualmente (por um abismo) o
cinema de invenção e um tipo de cinema de mercado. Abismo
que marca profundamente a memória mais recente do cinema
brasileiro - abismo que separa e protege o mercado de uma nova
arte tão recente e vigente em nosso cultura artística nos anos
60 e 70. Arte na qual o cinema foi corpo e alma de uma geração.
A Idade da Terra é ao mesmo tempo fonte e testemunha mais
recente da história do cinema novo, é a sua raiz mais
nova. Memória viva da atualidade estética do Cinema Novo de
Glauber Rocha, o filme é o último gesto radical do artista por um
novo cinema, livre e revolucionário. Esse filme é sobretudo o
signo poético desse gesto artístico. Filme que materializa
esteticamente as décadas de 60 e 70 de toda uma geração de
artistas e pensadores. Representa a passagem entre o cinema
moderno e sua face mais radical com outras formas artísticas.
A Idade da Terra insere o cinema novo na vasta paisagem das
artes contemporâneas/ território nômade onde cinema, vídeo,
artes plásticas, música estão cada vez mais se misturando
em diferentes situações artísticas. A Idade da Terra é
uma experiência completamente nova em termos de
cinema, sugere um espetáculo de imagem e som que faz do
espectador parte da constelação filmica - parte do corpo
da pintura. Um cinema que já está na invenção de uma
arquitetura audiovisual em movimento, ultrapassando o
mero contéudo dramático para liberar o tempo-espaço de
um outro cinema, arquitetura audiovisual em movimento.
Para Glauber o cinema novo é a invenção de uma arte nova
catalizadora das revoluções e transformações de seu tempo. O
cinema não pertence só ao reino de ilusões do cinema. Arte, cinema e
sociedade integram um mesmo movimento de invenção do Brasil. “Antropofagia e tropicalismo: são as coisas mais importante
hoje na cultura brasileira. O tropicalismo, a descoberta
antropofágica, foi uma revelação: provocou consciência, uma
atitude diante da cultura colonial (…) O Cinema do futuro
é ideogramático. É uma difícil pesquisa sobre os signos
(símbolos). Para isso não basta uma ciência mas é necessário
um processo de conhecimento e de autoconhecimento que
investe toda a existência e sua integração com a realidade.. o
surrealismo para os povos latinos-americano é o tropicalismo.”
(Tropicalismo, Antropologia, Mito, Ideograma, 69 / Glauber Rocha)
Glauber não quer reproduzir um cinema populista que faz
do público fantoche, mas antes propor o cinema como uma
percepção integral, uma mágica, um sonho. Sua Guernica faz
curto-circuito nos conceitos e preconceitos sobre cinema de
público/ subvertendo por completo o código cinematográfico
e o equilíbrio horizontal das imagens. Contra esse modelo que
esvaziou as salas de cinema das invenções formais, A Idade da
Terra se levanta como ROCHA viva, rocha que voa, memória viva
do cinema novo. Toda a obra de Glauber é um vasto legado de
luta por um cinema novo, vivo e atual. A importância de se revisitar
ou conhecer Glauber é de uma novidade mais do que recente,
sua obra pertence à música do futuro das novas gerações.
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“A Idade da Terra é uma declaração antiimperalista , a
favor da revolução popular. No filme, uso uma montagem
nuclear, isto é, o mesmo tipo de montagem de DI, só
que desta vez levada às conseqüências máximas.”
“Uma obra de arte não se explica. Um poema você lê e sente.
Um quadro você vê. Filme que se explica é filme que tem história
para contar. Seria cabotino eu tentar explicar o filme, se ele é
colocado como um corpo novo, um objeto não identificado.
Trata-se de novas visões, captações até metafisicas que marcam
uma revolução em minha obra. Do filme DI para cá eu o rompi
com o cinema teatral e ficcional que fiz de Barravento até Claro.
A Idade da Terra é a desintegração da seqüência narrativa
sem perda do discurso da infra-estrutura que vai materializar
os signos mais representativos do terceiro mundo, ou seja: o imperalismo, as forças negras, os índios massacrados, o
catolicismo popular, o militarismo revolucionário, o terrorismo
urbano, a prostituição da alta burguesia, a rebelião das
mulheres, as prostitutas que se transformam em santas, das
santas em revolucionárias. Trata-se de um filme que joga
com o futuro do Brasil, por meio de uma arte nova, como se
fosse Villa-Lobos, Portinari, Di Cavalcanti ou Picasso. O filme
oferece uma sinfonia de sons e imagens ou uma anti-sinfonia
que coloca os problemas fundamentais de fundo. A colocação
do filme é uma só: é o meu retrato junto ao retrato do Brasil”
Pedro Paulo Rocha
Cineasta, poeta e artista multimídia
Pedro Paulo Rocha é cineasta, artista eletrônico, multimídia, criador do
grupo MZ Midia <Midia Zero> onde pesquisa e experimenta projetos
em arte-mídia, poéticas de fluxos, mídia-arquitetura e design sonoro.
Realiza também laboratório de mídia/zonas de ação para constituição
de redes de troca e criação digital com oficinas, plataforma virtual e
ocupação do espaço urbano e derivas. Cross over, fluxo-situacionista,
seu trabalho consiste em realizar experimentos plásticos e sonoros
com a imagem digital para criar on line hipernarrativas através de
roteiros de derivas na cidade e de montagem e remontagens dos
fragmentos espalhados em redes. As sucessivas transformações do
material fílmico compõem no conjunto inacabado de uma obra em
movimento, mapas de trajetos, disponíveis em forma de memórias
eletrônicas de filmes ininterruptos, palimpsestos de montagem,
fusões e direções dentro do território híbrido de múltiplas linguagens.
O artista também vem trabalhando no lançamento de uma exposição
“Kynemas, Zero Mil Frames”, que pretende lançar conjuntamente
com seu primeiro longa, Kynemas, uma obra in progress em forma de
manifesto plástico sobre cinema expandido.
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