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Dois caminhos de um mesmo movimento: programas de incentivo à
leitura e cursos comunitários de pré-vestibular
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O estabelecimento e manutenção de círculos de leitura, num curso comunitário
de pré-vestibular em Vila Isabel, trabalho que venho desenvolvendo desde 2000,
constitui o tema desta pesquisa. A oportunidade, oferecida aos alunos do curso, de
participar de práticas leitoras coletivas, resulta de duas iniciativas integradas de
promoção da educação e cidadania: os cursos comunitários de pré-vestibular e o
Programa Nacional de Incentivo à Leitura. Ambos os movimentos buscam
democratizar seja o acesso ao ensino superior, seja o hábito da leitura – prática
cultural historicamente relacionada, no Brasil, à elite econômico-social.
Como muitos jovens universitários brasileiros dos anos noventa, eu me senti
bastante angustiado, durante os três semestres iniciais do curso de História da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Percebia uma clara divisão entre o
universo de teorias e conteúdos dos estudos históricos e uma realidade, fora dos
muros da universidade, configurada, basicamente, pelo estilo de vida consumista,
despolitizado e individualista, muito incentivado pelas políticas neoliberais. Além
disso, todas as certezas que o modelo historiográfico marxista me fornecia para
compreender o passado, o presente e até, de certa forma, o futuro, foram desfeitas no
momento que entrei em contato com visões teóricas que criticam a pretensão de tal
corrente historigráfica em estabelecer a verdade histórica apenas em termos de
produção material das riquezas e da luta de classes.
Ao lado dos problemas que enfrentava para encontrar a finalidade e importância
dos estudos históricos, o reconhecimento de muitos valores e preocupações de caráter
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elitista - expressos em atitudes, discursos e até na escolha dos temas de pesquisa de
muitos professores e alunos -- me permitiu compreender melhor a origem da divisão
entre a vida universitária e a realidade social. No plano da ação política, fiquei mais
desmotivado ao perceber também que o movimento estudantil universitário estava e
está completamente distanciado do cotidiano da sociedade, por sua exclusiva
preocupação com eleições e disputas internas referentes ao comando dos DCEs ou à
administração universitária.
Porém, nos semestres seguintes, fiquei menos angustiado em relação ao estudo
da história, porque resolvi ampliar meu campo de estudos, buscando ler e assistir
aulas de antropologia, filosofia, ciências sociais. Nesse caminho, passei a estudar
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obras de historiadores que buscam diálogo com outras áreas, com destaque para os
representantes da nova história cultural que foram muito influenciados por
antropólogos, sociólogos e filósofos. Dentro das várias ramificações da nova história
da cultura, me identifiquei mais com os estudos sobre a história dos livros, das
práticas leitoras e representações sociais através da cultura. A partir desses textos,
passei a me preocupar com a produção e recepção dos produtos culturais e suas
ligações com a política em vários contextos.
Minhas explorações do horizonte acadêmico estavam acontecendo nos meados
de 1995, quando fui selecionado para participar do Programa Nacional de Incentivo à
Leitura, como um agente de leitura. Essa foi uma oportunidade perfeita para fazer
interagir o que eu estava estudando com uma ação social. O objetivo desta parte do
trabalho do Programa Nacional de Incentivo à Leitura foi preparar vinte estagiários
da UERJ para atuarem como agentes de leitura nas vinte Bibliotecas Populares do
Município do Rio de Janeiro, visando promover atividades de incentivo ao ato da
leitura junto à comunidade próxima de cada biblioteca.
O Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) faz parte de um conjunto
de instituições de pesquisa, programas de difusão do ato da leitura, clubes de leitura,
existentes em várias partes do mundo, orientadas pelo princípio de que a leitura é
um fator determinante para o desenvolvimento social, cultural e profissional de
qualquer pessoa. Em decorrência de sua proposta, as atividades do Proler dirigem-se,
principalmente, à pessoas que sofrem qualquer tipo de exclusão devido a sua classe,
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gênero, raça, idade ou outro fator. Por essa razão, considero que, apesar de ser uma
instituição vinculada ao Ministério da Cultura e à Biblioteca Nacional, o Programa de
Incentivo à Leitura é um movimento de resistência contra a história de exclusão do
acesso à leitura que marca toda a história da formação da sociedade brasileira.
Da minha perspectiva, o Proler assumiu uma atitude decisiva contra o elitismo
que envolve a leitura no Brasil, pois elaborou estratégias de ataque aos mecanismos
que privam muitas pessoas de formar o hábito da ler. A base deste módulo do Proler
que atuei foi estruturada em duas atividades: a “contação” de histórias e os círculos
de leitura. Ambas as atividades envolvem a preocupação de retomar práticas leitoras,
do passado onde as pessoas encontravam prazer em ouvir ou ler histórias
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coletivamente. A crença na possibilidade de socializar o ato da leitura, reativando
antigas formas de ler, foi responsável pela estratégia de mudança do perfil elitista e
individualista a que o ato da leitura tradicionalmente correspondeu em muitas culturas
do ocidente e principalmente no Brasil.
A “contação” de histórias é um claro resgate dos hábitos populares de se reunir
para ouvir alguém que memoriza e conta velhas e novas histórias como
entretenimento ou transmissão de experiências e conselhos. Por outro lado, o círculo
de leitura é uma prática na qual um grupo de pessoas lê coletivamente textos,
imagens, filmes, pinturas ou qualquer forma de discurso, enquanto vai sendo
provocado, questionado e, em certa medida, orientado por um leitor-guia.
Durante um ano, realizei vários círculos de leitura, atividade do programa que
mais me identifiquei e escolhi para trabalhar, na Biblioteca Popular do Rio Comprido.
Entre os muitos erros e acertos desse período, aprendi a importância de provocar
diferentes interpretações e valorizar aquelas que os participantes formulavam. Pude
também compreender as dificuldades para levar adiante práticas de leitura
comunitária, já que são muitos os empecilhos a qualquer tentativa de se fazer de uma
biblioteca pública um espaço de discussão e encontros e não apenas um depósito de
livros.
De um modo geral, naquela situação, não consegui desenvolver um trabalho
significativo em termos sociais, pois, por ter pouca experiência, esbarrarei num sólido
muro que isolava a biblioteca da comunidade; muro este construído tanto de dentro da
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biblioteca para fora como de fora para dentro. Ou seja, os funcionários burocratizados
da biblioteca se mostraram completamente céticos em relação à possibilidade de criar
um espaço de leitura e debate na biblioteca e, por sua vez, a comunidade se
apresentava muito resistente a participar de qualquer evento na biblioteca. Digo isso,
porque os diretores e professores das escolas não demonstravam grande interesse
pelos convites para levar os alunos ao círculo de leitura. Ao mesmo tempo, os leitores
que freqüentavam a biblioteca apenas apareciam para renovar o empréstimo de livros
e aqueles que liam nas salas de leitura não queriam ser importunados.
Porém, a partir de agosto de 1996, quando iniciei as atividades de leitura no
curso pré-vestibular da Mangueira, consegui vivenciar de fato o potencial político das
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rodas de leitura. Após seis meses dando aulas de História nesse pré-vestibular, resolvi
implantar os círculos de leitura, aproveitando um espaço vago no horário do curso de
Cultura e Cidadania, espaço destinado a apresentação de palestras, exibição de filme,
realização de oficinas e outras atividades voltadas para o tema da cidadania e
diferenças culturais.
Ao contrário da maior parte do público das atividades na Biblioteca do Rio
Comprido, os alunos e os coordenadores do pré-vestibular da Mangueira se
interessaram muito pela idéia dos círculos de leitura. Acredito que a ótima recepção
dos alunos do curso à prática leitora aconteceu porque eles formaram, nesse prévestibular, uma sólida preocupação social e, ao mesmo tempo, estavam construindo
uma identidade coletiva a partir de um movimento contra a exclusão do acesso ao
conhecimento.
Por esse motivo, eles logo entenderam e incorporaram os fundamentos teóricometodológicos apresentados na realização dos círculos de leitura. Em outras palavras,
o fato de que, no círculo de leitura, cada leitura é respeitada, não se estabelecendo
qualquer tipo de hierarquia entre as interpretações dos participantes, agradou tanto
alunos quanto coordenadores do curso comunitário da Mangueira. A orientação
democrática da leitura coletiva possibilitou o reconhecimento das semelhanças entre
os fundamentos que configuram a prática leitora e os objetivos políticos e sociais do
curso pré-vestibular comunitário.
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1.2
Cursos pré-vestibulares comunitários: uma resposta
Como registrei antes, o Programa de Incentivo à Leitura está ligado à
administração federal, de onde recebe os recursos para manter um conjunto de
profissionais, professores, acadêmicos, escritores e ilustradores e para realizar todas
as suas atividades: congressos, simpósios e publicações. Os cursos comunitários de
pré-vestibular, ao contrário, não estão ligados a nenhum setor do governo e, com
algumas exceções, também não recebem auxílio financeiro de qualquer outra
instituição. Na maior parte dos casos, são organizados e administrados por moradores
das próprias comunidades e são mantidos com pequenas contribuições mensais dos
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alunos e com o apoio de estudantes universitários que se tornam professores
voluntários. Com relação ao local, geralmente os cursos comunitários se instalam em
espaços cedidos por igrejas, escolas, sindicatos ou prédios de instituições públicas
que possuem salas de aula ou auditórios.
Antes de qualquer análise, não podemos esquecer que os cursos prévestibulares comunitários surgem a partir da ação de vários grupos de pessoas que,
devido às suas condições sociais e econômicas, não conseguem ter acesso às
universidades públicas. Após anos em que o Estado brasileiro, conivente com a
privatização lucrativa do ensino, negligenciou a escola pública, os alunos das mais
importantes universidades brasileiras são, em grande parte, oriundos das classes
média e alta.
A exclusão foi aumentada com o estabelecimento das políticas neoliberais dos
últimos dez anos. Dessa forma, a educação não escapou das manobras controladoras
do mercado, onde a tradicional forma de acesso à universidade, o vestibular,
possibilitou a criação de um perfeito comércio do conhecimento através
dos
chamados cursinhos pré-vestibulares. Os alunos das melhores escolas das grandes
cidades são treinados, nesses cursos, para acertar o maior número das questões do
vestibular, através, muitas vezes, da memorização dos conteúdos das disciplinas ou
até de truques que professores performáticos ensinam.
Todos os mecanismos mencionados contribuíram muito para a atual ausência
de participação política das universidades e principalmente dos estudantes
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universitários. Isso porque, geralmente, a Universidade é encarada por esses setores
sociais de renda mais alta apenas como meio de conseguir melhores salários e status
social, ou seja, construir seu projeto privado de vida. Assim, os estudantes das
universidade estão cada vez mais distantes das ações políticas ou até de reflexões
sobre a importância política e cultural da universidade.
Porém, não devemos esquecer que essas características se apresentam com
maior intensidade entre os alunos das ciências exatas, nas áreas de administração e
finanças e principalmente nas carreiras tradicionais como medicina, direito ou
engenharia. Por outro lado, nos cursos de ciências humanas, existe um número maior
de estudantes provenientes das classes médias e baixas.
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Esse grupo de alunos também sofrem os efeitos da intensa comercialização dos
bens culturais e da falta de crença nas atividades políticas das universidades. Sendo
assim, encontramos muitos estudantes dos cursos de graduação em História, Ciências
Sociais, Letras e outros cursos afins, procurando fazer parte de uma elite intelectual,
que freqüenta os espaços culturais da cidade, é leitora dos dos suplementos literários
e científicos dos grandes jornais e geralmente segue a carreira acadêmicas fazendo
cursos de pós-graduação. Seu objetivo, no entanto, é muito mais o reconhecimento
social do que a produção de reflexões renovadoras e úteis.
Muitos universitários, que participam da política estudantil, não estabelccem
um canal satisfatório de interferência na vida acadêmica, muito menos na ordem da
sociedade. Trata-se de uma conseqüência do vazio em que se move a política
estudantil, que não tem mais um diálogo significativo com o conjunto dos estudantes,
pois, muitos diretórios, submissos às determinações dos partidos, tornam-se palco de
incansáveis disputas entre grupos, deixando de lado os problemas da universidade e
da região.
Porém, no meio do elitismo dos que estão apenas preocupados com o status de
suas carreiras ou com as palavras de ordem dos militantes dos DCEs, existem alguns
alunos que procuram aplicar seus conhecimentos em novas formas de participação
política, artística e pedagógica no mundo extra-universidade. Esse outro grupo de
universitários é, em sua maioria, formado de estudantes das áreas humanas e sociais
ligados ao magistério.
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Embora não disponho de dados numéricos, acredito, com base em minhas
observações, que o surgimento desses cursos comunitários possibilitou o ingresso de
muitos estudantes de baixa renda e moradores de bairros da periferia ou das favelas
nas universidades públicas. E podemos encarar isso como uma importante forma de
resistência a todos os métodos de exclusão social que
o sistema de educação
brasileiro produz. Pois os ex-alunos desses cursos, tornando-se professores
voluntários, abriram um caminho fértil de interação entre os universitários e as
comunidades. Em minha avaliação, os estudantes que se deram conta dos efeitos
sociais negativos, produzidos por valores elitistas e posições autoritárias ou mesmo
reacionárias da universidade, tomaram atitudes práticas contra tais efeitos, como a de
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tornar-se um agente contra a exclusão.
Nessa perspectiva, os surpreendes resultados dos encontros de leitura no curso
comunitário da Mangueira, realizados sempre aos sábados à tarde, me impulsionaram
a uma série de reflexões sobre o caráter político de leituras coletivas e a uma longa
busca de cursos, oficinas e principalmente de informações bibliográficas
interdisciplinares sobre práticas leitoras. Acabei reunindo uma bibliografia
satisfatória que incluía estudos de historiadores, teóricos da literatura, sociólogos,
antropólogos e filósofos.
Após esse período de experiências, ficou muito claro, que a leitura de textos
ficcionais tornava os participantes mais
ativos, críticos
e criativos. O
reconhecimento deste aspecto me levou à tentativa de associar campos de estudos
que, apesar de serem próximos, geralmente são abordados separadamente: de um
lado, a história da leitura e do livro, temas muito comuns na nova história cultural, de
outro, os novos rumos da teoria literária iniciada com a estética da recepção e a teoria
do efeito estético, nos quais o eixo do exame de textos literários e até da própria
História da Literatura, é deslocado para o leitor.
Devido à necessidade de conhecer um corpo teórico, que me possibilitasse
produzir reflexões mais profundas sobre os fenômenos com que eu estava lidando e,
ao mesmo tempo, permitisse um maior diálogo como outras disciplinas das áreas
humanas e sociais, resolvi continuar os estudos sobre os encontros de leitura no
Mestrado de Estudos de Literatura da PUC-Rio, no segundo semestre de 2000. No
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mesmo ano, fui convidado para desenvolver essa mesma prática leitora no recém
inaugurado curso pré-vestibular de Vila Isabel. Finalmente, acabei decidindo fazer
dos encontros de leitura o objeto de pesquisa da dissertação de mestrado.
A partir dessas experiências, percebi que a questão da importância política das
práticas leitoras está ligada ao conflito entre o modelo de vida individualista e as
formas de relações humanas coletivas. A burocracia e o desânimo dos funcionários da
biblioteca , dos professores e diretores das escolas, como também o desinteresse dos
leitores da biblioteca por participar de práticas leitoras coletivas podem ser
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entendidos como reflexo de uma espécie de ideologia da “vida privada”.
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