12 1 Dois caminhos de um mesmo movimento: programas de incentivo à leitura e cursos comunitários de pré-vestibular PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA O estabelecimento e manutenção de círculos de leitura, num curso comunitário de pré-vestibular em Vila Isabel, trabalho que venho desenvolvendo desde 2000, constitui o tema desta pesquisa. A oportunidade, oferecida aos alunos do curso, de participar de práticas leitoras coletivas, resulta de duas iniciativas integradas de promoção da educação e cidadania: os cursos comunitários de pré-vestibular e o Programa Nacional de Incentivo à Leitura. Ambos os movimentos buscam democratizar seja o acesso ao ensino superior, seja o hábito da leitura – prática cultural historicamente relacionada, no Brasil, à elite econômico-social. Como muitos jovens universitários brasileiros dos anos noventa, eu me senti bastante angustiado, durante os três semestres iniciais do curso de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Percebia uma clara divisão entre o universo de teorias e conteúdos dos estudos históricos e uma realidade, fora dos muros da universidade, configurada, basicamente, pelo estilo de vida consumista, despolitizado e individualista, muito incentivado pelas políticas neoliberais. Além disso, todas as certezas que o modelo historiográfico marxista me fornecia para compreender o passado, o presente e até, de certa forma, o futuro, foram desfeitas no momento que entrei em contato com visões teóricas que criticam a pretensão de tal corrente historigráfica em estabelecer a verdade histórica apenas em termos de produção material das riquezas e da luta de classes. Ao lado dos problemas que enfrentava para encontrar a finalidade e importância dos estudos históricos, o reconhecimento de muitos valores e preocupações de caráter 13 elitista - expressos em atitudes, discursos e até na escolha dos temas de pesquisa de muitos professores e alunos -- me permitiu compreender melhor a origem da divisão entre a vida universitária e a realidade social. No plano da ação política, fiquei mais desmotivado ao perceber também que o movimento estudantil universitário estava e está completamente distanciado do cotidiano da sociedade, por sua exclusiva preocupação com eleições e disputas internas referentes ao comando dos DCEs ou à administração universitária. Porém, nos semestres seguintes, fiquei menos angustiado em relação ao estudo da história, porque resolvi ampliar meu campo de estudos, buscando ler e assistir aulas de antropologia, filosofia, ciências sociais. Nesse caminho, passei a estudar PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA obras de historiadores que buscam diálogo com outras áreas, com destaque para os representantes da nova história cultural que foram muito influenciados por antropólogos, sociólogos e filósofos. Dentro das várias ramificações da nova história da cultura, me identifiquei mais com os estudos sobre a história dos livros, das práticas leitoras e representações sociais através da cultura. A partir desses textos, passei a me preocupar com a produção e recepção dos produtos culturais e suas ligações com a política em vários contextos. Minhas explorações do horizonte acadêmico estavam acontecendo nos meados de 1995, quando fui selecionado para participar do Programa Nacional de Incentivo à Leitura, como um agente de leitura. Essa foi uma oportunidade perfeita para fazer interagir o que eu estava estudando com uma ação social. O objetivo desta parte do trabalho do Programa Nacional de Incentivo à Leitura foi preparar vinte estagiários da UERJ para atuarem como agentes de leitura nas vinte Bibliotecas Populares do Município do Rio de Janeiro, visando promover atividades de incentivo ao ato da leitura junto à comunidade próxima de cada biblioteca. O Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) faz parte de um conjunto de instituições de pesquisa, programas de difusão do ato da leitura, clubes de leitura, existentes em várias partes do mundo, orientadas pelo princípio de que a leitura é um fator determinante para o desenvolvimento social, cultural e profissional de qualquer pessoa. Em decorrência de sua proposta, as atividades do Proler dirigem-se, principalmente, à pessoas que sofrem qualquer tipo de exclusão devido a sua classe, 14 gênero, raça, idade ou outro fator. Por essa razão, considero que, apesar de ser uma instituição vinculada ao Ministério da Cultura e à Biblioteca Nacional, o Programa de Incentivo à Leitura é um movimento de resistência contra a história de exclusão do acesso à leitura que marca toda a história da formação da sociedade brasileira. Da minha perspectiva, o Proler assumiu uma atitude decisiva contra o elitismo que envolve a leitura no Brasil, pois elaborou estratégias de ataque aos mecanismos que privam muitas pessoas de formar o hábito da ler. A base deste módulo do Proler que atuei foi estruturada em duas atividades: a “contação” de histórias e os círculos de leitura. Ambas as atividades envolvem a preocupação de retomar práticas leitoras, do passado onde as pessoas encontravam prazer em ouvir ou ler histórias PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA coletivamente. A crença na possibilidade de socializar o ato da leitura, reativando antigas formas de ler, foi responsável pela estratégia de mudança do perfil elitista e individualista a que o ato da leitura tradicionalmente correspondeu em muitas culturas do ocidente e principalmente no Brasil. A “contação” de histórias é um claro resgate dos hábitos populares de se reunir para ouvir alguém que memoriza e conta velhas e novas histórias como entretenimento ou transmissão de experiências e conselhos. Por outro lado, o círculo de leitura é uma prática na qual um grupo de pessoas lê coletivamente textos, imagens, filmes, pinturas ou qualquer forma de discurso, enquanto vai sendo provocado, questionado e, em certa medida, orientado por um leitor-guia. Durante um ano, realizei vários círculos de leitura, atividade do programa que mais me identifiquei e escolhi para trabalhar, na Biblioteca Popular do Rio Comprido. Entre os muitos erros e acertos desse período, aprendi a importância de provocar diferentes interpretações e valorizar aquelas que os participantes formulavam. Pude também compreender as dificuldades para levar adiante práticas de leitura comunitária, já que são muitos os empecilhos a qualquer tentativa de se fazer de uma biblioteca pública um espaço de discussão e encontros e não apenas um depósito de livros. De um modo geral, naquela situação, não consegui desenvolver um trabalho significativo em termos sociais, pois, por ter pouca experiência, esbarrarei num sólido muro que isolava a biblioteca da comunidade; muro este construído tanto de dentro da 15 biblioteca para fora como de fora para dentro. Ou seja, os funcionários burocratizados da biblioteca se mostraram completamente céticos em relação à possibilidade de criar um espaço de leitura e debate na biblioteca e, por sua vez, a comunidade se apresentava muito resistente a participar de qualquer evento na biblioteca. Digo isso, porque os diretores e professores das escolas não demonstravam grande interesse pelos convites para levar os alunos ao círculo de leitura. Ao mesmo tempo, os leitores que freqüentavam a biblioteca apenas apareciam para renovar o empréstimo de livros e aqueles que liam nas salas de leitura não queriam ser importunados. Porém, a partir de agosto de 1996, quando iniciei as atividades de leitura no curso pré-vestibular da Mangueira, consegui vivenciar de fato o potencial político das PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA rodas de leitura. Após seis meses dando aulas de História nesse pré-vestibular, resolvi implantar os círculos de leitura, aproveitando um espaço vago no horário do curso de Cultura e Cidadania, espaço destinado a apresentação de palestras, exibição de filme, realização de oficinas e outras atividades voltadas para o tema da cidadania e diferenças culturais. Ao contrário da maior parte do público das atividades na Biblioteca do Rio Comprido, os alunos e os coordenadores do pré-vestibular da Mangueira se interessaram muito pela idéia dos círculos de leitura. Acredito que a ótima recepção dos alunos do curso à prática leitora aconteceu porque eles formaram, nesse prévestibular, uma sólida preocupação social e, ao mesmo tempo, estavam construindo uma identidade coletiva a partir de um movimento contra a exclusão do acesso ao conhecimento. Por esse motivo, eles logo entenderam e incorporaram os fundamentos teóricometodológicos apresentados na realização dos círculos de leitura. Em outras palavras, o fato de que, no círculo de leitura, cada leitura é respeitada, não se estabelecendo qualquer tipo de hierarquia entre as interpretações dos participantes, agradou tanto alunos quanto coordenadores do curso comunitário da Mangueira. A orientação democrática da leitura coletiva possibilitou o reconhecimento das semelhanças entre os fundamentos que configuram a prática leitora e os objetivos políticos e sociais do curso pré-vestibular comunitário. 16 1.2 Cursos pré-vestibulares comunitários: uma resposta Como registrei antes, o Programa de Incentivo à Leitura está ligado à administração federal, de onde recebe os recursos para manter um conjunto de profissionais, professores, acadêmicos, escritores e ilustradores e para realizar todas as suas atividades: congressos, simpósios e publicações. Os cursos comunitários de pré-vestibular, ao contrário, não estão ligados a nenhum setor do governo e, com algumas exceções, também não recebem auxílio financeiro de qualquer outra instituição. Na maior parte dos casos, são organizados e administrados por moradores das próprias comunidades e são mantidos com pequenas contribuições mensais dos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA alunos e com o apoio de estudantes universitários que se tornam professores voluntários. Com relação ao local, geralmente os cursos comunitários se instalam em espaços cedidos por igrejas, escolas, sindicatos ou prédios de instituições públicas que possuem salas de aula ou auditórios. Antes de qualquer análise, não podemos esquecer que os cursos prévestibulares comunitários surgem a partir da ação de vários grupos de pessoas que, devido às suas condições sociais e econômicas, não conseguem ter acesso às universidades públicas. Após anos em que o Estado brasileiro, conivente com a privatização lucrativa do ensino, negligenciou a escola pública, os alunos das mais importantes universidades brasileiras são, em grande parte, oriundos das classes média e alta. A exclusão foi aumentada com o estabelecimento das políticas neoliberais dos últimos dez anos. Dessa forma, a educação não escapou das manobras controladoras do mercado, onde a tradicional forma de acesso à universidade, o vestibular, possibilitou a criação de um perfeito comércio do conhecimento através dos chamados cursinhos pré-vestibulares. Os alunos das melhores escolas das grandes cidades são treinados, nesses cursos, para acertar o maior número das questões do vestibular, através, muitas vezes, da memorização dos conteúdos das disciplinas ou até de truques que professores performáticos ensinam. Todos os mecanismos mencionados contribuíram muito para a atual ausência de participação política das universidades e principalmente dos estudantes 17 universitários. Isso porque, geralmente, a Universidade é encarada por esses setores sociais de renda mais alta apenas como meio de conseguir melhores salários e status social, ou seja, construir seu projeto privado de vida. Assim, os estudantes das universidade estão cada vez mais distantes das ações políticas ou até de reflexões sobre a importância política e cultural da universidade. Porém, não devemos esquecer que essas características se apresentam com maior intensidade entre os alunos das ciências exatas, nas áreas de administração e finanças e principalmente nas carreiras tradicionais como medicina, direito ou engenharia. Por outro lado, nos cursos de ciências humanas, existe um número maior de estudantes provenientes das classes médias e baixas. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA Esse grupo de alunos também sofrem os efeitos da intensa comercialização dos bens culturais e da falta de crença nas atividades políticas das universidades. Sendo assim, encontramos muitos estudantes dos cursos de graduação em História, Ciências Sociais, Letras e outros cursos afins, procurando fazer parte de uma elite intelectual, que freqüenta os espaços culturais da cidade, é leitora dos dos suplementos literários e científicos dos grandes jornais e geralmente segue a carreira acadêmicas fazendo cursos de pós-graduação. Seu objetivo, no entanto, é muito mais o reconhecimento social do que a produção de reflexões renovadoras e úteis. Muitos universitários, que participam da política estudantil, não estabelccem um canal satisfatório de interferência na vida acadêmica, muito menos na ordem da sociedade. Trata-se de uma conseqüência do vazio em que se move a política estudantil, que não tem mais um diálogo significativo com o conjunto dos estudantes, pois, muitos diretórios, submissos às determinações dos partidos, tornam-se palco de incansáveis disputas entre grupos, deixando de lado os problemas da universidade e da região. Porém, no meio do elitismo dos que estão apenas preocupados com o status de suas carreiras ou com as palavras de ordem dos militantes dos DCEs, existem alguns alunos que procuram aplicar seus conhecimentos em novas formas de participação política, artística e pedagógica no mundo extra-universidade. Esse outro grupo de universitários é, em sua maioria, formado de estudantes das áreas humanas e sociais ligados ao magistério. 18 Embora não disponho de dados numéricos, acredito, com base em minhas observações, que o surgimento desses cursos comunitários possibilitou o ingresso de muitos estudantes de baixa renda e moradores de bairros da periferia ou das favelas nas universidades públicas. E podemos encarar isso como uma importante forma de resistência a todos os métodos de exclusão social que o sistema de educação brasileiro produz. Pois os ex-alunos desses cursos, tornando-se professores voluntários, abriram um caminho fértil de interação entre os universitários e as comunidades. Em minha avaliação, os estudantes que se deram conta dos efeitos sociais negativos, produzidos por valores elitistas e posições autoritárias ou mesmo reacionárias da universidade, tomaram atitudes práticas contra tais efeitos, como a de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA tornar-se um agente contra a exclusão. Nessa perspectiva, os surpreendes resultados dos encontros de leitura no curso comunitário da Mangueira, realizados sempre aos sábados à tarde, me impulsionaram a uma série de reflexões sobre o caráter político de leituras coletivas e a uma longa busca de cursos, oficinas e principalmente de informações bibliográficas interdisciplinares sobre práticas leitoras. Acabei reunindo uma bibliografia satisfatória que incluía estudos de historiadores, teóricos da literatura, sociólogos, antropólogos e filósofos. Após esse período de experiências, ficou muito claro, que a leitura de textos ficcionais tornava os participantes mais ativos, críticos e criativos. O reconhecimento deste aspecto me levou à tentativa de associar campos de estudos que, apesar de serem próximos, geralmente são abordados separadamente: de um lado, a história da leitura e do livro, temas muito comuns na nova história cultural, de outro, os novos rumos da teoria literária iniciada com a estética da recepção e a teoria do efeito estético, nos quais o eixo do exame de textos literários e até da própria História da Literatura, é deslocado para o leitor. Devido à necessidade de conhecer um corpo teórico, que me possibilitasse produzir reflexões mais profundas sobre os fenômenos com que eu estava lidando e, ao mesmo tempo, permitisse um maior diálogo como outras disciplinas das áreas humanas e sociais, resolvi continuar os estudos sobre os encontros de leitura no Mestrado de Estudos de Literatura da PUC-Rio, no segundo semestre de 2000. No 19 mesmo ano, fui convidado para desenvolver essa mesma prática leitora no recém inaugurado curso pré-vestibular de Vila Isabel. Finalmente, acabei decidindo fazer dos encontros de leitura o objeto de pesquisa da dissertação de mestrado. A partir dessas experiências, percebi que a questão da importância política das práticas leitoras está ligada ao conflito entre o modelo de vida individualista e as formas de relações humanas coletivas. A burocracia e o desânimo dos funcionários da biblioteca , dos professores e diretores das escolas, como também o desinteresse dos leitores da biblioteca por participar de práticas leitoras coletivas podem ser PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0024154/CA entendidos como reflexo de uma espécie de ideologia da “vida privada”.