Plural e Singulares
Shauara David
Plural e Singulares
“Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na
infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos
tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.”
Rubem Alves
“O Homem distingue-se dos homens. Nada se diz de essencial acerca da
catedral se apenas falarmos das pedras. Nada se diz de essencial a
respeito do Homem se procurarmos defini-lo pelas qualidades humanas.”
Antoine de Saint-Exupéry
“ A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida”
Vinicius de Moraes
Shauara David
Plural e Singulares
Índice
(2009 a 2011)
( 2012 a 2015)
Carlos Drummond, 2
Ordem da verdade, 3
Soneto Infantil ,4
Acróstico Olavo, 5
Cortando a literatura, 6
As horas absurdas,7
Domingo de páscoa, 8
Desencontro de sangue, 10
Pe(s)car, 11
Há uma gota de sangue, 12
Eis o que és, 13
Gêmeos, 14
Existência (in) sólida, 15
A casa amarela, 16
Flor da paixão, 17
Espanca alma, 18
Acróstico Silbat, 19
Aos doentes e abandonados, 20
Ausência de ninar, 21
A paixão segundo SC, 22
Corpo coberto de tinta, 23
Balé, passos em escrito, 24
Pétalas ao vento, 25
Intemperança modernista, 26
Fosse bom, 27
Anauá, árvore florida, 28
Anonimato, 29
A cada encontro far-te-ei poesia, 30
Maurício, 31
Sylvia Plath, 32
Teorias inúteis, 33
Bem aventurados os delicados, 34
Os anos tais, 35
O aprendiz de espantos, 36
Clóvis, 37
A S. Silva, 38
Pedra do infinito, 39
Ressaca, 40
Ingênua paixão, 41
Você... 42
Soneto monogâmico, 43
Luck, 44
Maternidade, 45
Os versos de Cecília Meireles, 46
Destino das mares, 47
Triste euforia, 48
Wagner, o caso- A Nietzsche, 49
Aprendizaje, 50
Os signos de Bernardo, 51
Singela homenagem, 52
Cem anos de solidão, 53
Fantasmagórica realidade, 54
Universo paralelo, 55
O doce amargo, 56
Shauara David
Plural e Singulares
Carlos Drummond
A poesia de Drummond me soa como uma música hipnotizante,
um barco distante sem despedidas no porto
vem como cidades, engajadas nos braços os discursos inúteis
uma pedra na retina fatigada, um anjo torto
anunciando a morte do leiteiro
os poucos beijos, as ruas sinuosas, a máquina do mundo...
É tudo teu, Drummond, esse nome que funde
língua e lábio na delicadeza cruel da poesia,
e faz de ti mais forte o quanto nem imaginavas...
Ah! Drummond, como me faz bem repetir teu nome!
é a confirmação que a festa acabou, por que houve festa
em nenhum momento permaneceste desarmado
contasses as casas mais nostálgicas
e nem precisaste catar o verme nem curar a sarna.
Teu peito de artista incha, sem que a flor desapareça
não te esqueças, meu caro, que a sentença
do poeta é ver que além do orfanato, do muro
os segredos anunciam-se ligeiramente
enquanto as palavras refugiam-se na noite, mas não canso!
Ainda procuro a mesma flor que rompeu o asfalto;
façamos silêncio! Ele avisa:
Através das buzinas nasce o medo,
para que ruas tão retas? Porque ruas tão largas?
Ah Carlitos! Não esconda tua rosa do povo!
mesmo em Itabira, percorreste o mundo;
vida dupla, tripla, infinitas vidas...
Devias estar certo: A solidão de Deus é incomparável
triste como a riqueza da poesia
ser um sinal de menos,
infinda quanto o insuportável cheiro da memória
porque a vida é gorda, oleosa, mortal
mas permaneceste vivo nos áureos tempos, coisa rara!
Ainda mais escasso é colher versos das boas árvores
colocá-las num cestinho verde
e degustar sem urgência essa tarde
branda
ausente.
2011
2
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Ordem da verdade
Ao Ney Kelson Linhares
Tu que sempre buscou a verdade
numa roda de amigos
falavas tão conciso
tuas Palavras!
Firme era teu olhar
tão doce era teu olhar...
tantas tardes procuramos...
tantas luas observamos
atrás de descobrir
as verdades do mundo
das pessoas
de tudo.
Aonde andas amigo?
aonde anda tuas ideias bíblicas
teus passos longos
teu abraço!
teu abraço...
E teu sorriso de goiaba?
tão verdadeiro, tão doce
como eras tu
tão surreal como tua
verdade
nossa amizade
minha saudade.
2007
3
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Soneto infantil
A Cinthia Danielle
Ah! Se essa menina deixasse sementinhas;
os caminhos seriam flores de primavera
os sorrisos doces, infantis, semblantes brandos
não se regaria ali, a violência!
É tão frágil essa menina, quase
não suporta as desumanidades deste mundo!
Quase não anda, quase não chora
ama e obedece à alma, ao cansaço e ao sono;
Tão linda, minha menina...
irradia à minoria através do abraço sincero
dom de anjo no brilho dos olhos...
Ah! Se essa menina deixasse sementinhas;
a vida não seria mais que sonhos
transbordaria Luz na união dos povos!
• Poema escrito em 2011. Cinthia difundiu-se em Luz dois anos depois.
4
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Acróstico
Ao Olavo Oliva
O homem das teorias, das habilidades
Louças e trouxas sobre a mesa
Alguns resquícios do dia anterior...
Vasta percepção o rodeia
O “cigarrinho” de sempre e suas manias...
O inquietamento não falta nas rimas
Líder e livre de tudo
Inteligência é mais um ponto
Vá Artista! Mas volte logo a nos ensinar
Alguma planta que depois de bem tratada
volta sempre a nos tratar.
2009
5
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Cortando a Literatura
Aos literatos brasileiros
Traga aqui a faca mais potente
para eu cortar da literatura
todas as póstumas escrituras
a prosa boa e o verso latente.
Apuro depressa Bandeira
o cidadão de Itabira e os capitães de areia
devoro Graciliano, mastigo o Machadiano
não me escapam Adélia Prado, Hilda Hilst
ou Nelson Rodrigues
Vinícius, qual a chave do segredo?
Cruz e Souza simbolista
Quintana e os modernistas
ou a perfeição de Álvares de Azevedo?
Traga aqui a faca mais potente
para eu comer da literatura
Raquel de Queiroz, Ariano Suassuna
Augusto dos Anjos e todas as sementes...
2010
6
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
As horas absurdas
Ao Fernando Pessoa
A nau traga junto ao leito dos abandonos
seus vícios insanos, as tarjas de pranto
alimentam os mares e por um engano qualquer
trafegam à segurança da loucura e do tédio.
Creio que entrará alguém pela porta perdida
(trazendo um candelabro pomposo, relíquia arruinada pelo novo)
e então, chorará pelo tempo perdido;
engolido pelos leões e outros signos
cravando em Pessoa suas tantas outras pessoas...
Soam passos! Ouço gritos e o relógio avisa:
a vida não deixa sobra e sobra tempo
exilado em fatos inconstantes e confusos, como sou agora
a transitar pelos portos, pelos leitos das infinitas verdades
tudo está em ruínas e os palácios sumiram
talvez nem tenham existido. Como as cidades;
ruídos da inquietude, da ganância inata
somos sós, nas horas das horas das horas das horas...
Quem sabe se no fundo da caverna não há abrigo?
Quase intacto pela dizimação externa
voam pernas apressadas, sem chão inteiro
contentam-se em mostrar que ao menos entendem
estão a salvo, por um momento inseguro.
Precisamos dessa filosofia, embora seja inútil o pensamento
vago e distante como ilhas e desertos
fico deserta e sigo fingindo medos, atrasando desencontros
mas no momento preciso dou um giro
a árvore cai, cai a chuva vertical e o vaga lume ilumina
cá dentro, descanso de uma longa caminhada...
O desespero só ensurdece e cega, nega a si a próxima etapa
um corpo entorpece e desmorona
quem se importa que nesta escura multidão
uma estrela esteja morta e ainda brilhe?
Exibe a confirmação: loucura e lucidez são a mesma
terna certeza simulada pelo inverso...
Agora peço que enriqueça a alma, aturdida
e tão abstrata quanto a sétima empatia dos que se atraem,
o que explicaria os céus a um ser inofensivo?
As pedras não passam de objetos naturais
e os pássaros obras ainda mais divinas?
Quanto ao homem foram inventadas as horas...
desde então rachamos o espelho, numa manhã estranha
e vivemos claustrofóbicos, sem saber de nós.
2010
7
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Domingo de páscoa (e a despedida dum outro grande homem)
Ao avô paterno João David
I
Fecha teus olhos e descansa
não serão desmanchados
os ensinamentos das tuas crianças
hoje adultas, promovem triste enterro
com as mais belas flores;
vertem lágrimas de desespero e saudade
do tempo em que pouco sorriste
e quando fluía nos sinceros risos
o amor e fidelidade aos teus;
construía da alma a própria realidade.
II
Ao cortejo, o silêncio das tuas lembranças
não me dizia nada além do que não soube
a face endurecida, as mãos gélidas
pálida estava sua pele de menino
o terno e as flores brancas...
As dores tantas... As ternas lembranças!
Traços delicados de uma velhice quase não aceita
permanecendo no gesto oculto, um ensinamento
que simplesmente não posso exprimir
e nem preciso! Apenas sinto com a perda
e a dor no momento de te ver partir...
III
Seu passado e história estão escritos
nas trilhas urbanas do trem das cinco
anunciava o fim da tarde, a despedida
e uma sisudez fingida por não saber
se valia extrair as dores da ausência
as ruas que vagou feito mendigo
um pão e um copo de água
um trabalho e uma personalidade de felino
os calos feitos pela fuga do abandono
e da existência.
8
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
IV
E não apenas fugiu por falta de causa
além da causa, além do medo
uma vontade de se tornar o braço direito
e constituir uma família linda
de gente forte e fina...
O patriarca, o grande nome da família!
Respeitado pela honra de o ser
por imposição menos que por respeito
e então se dedicou por inteiro
ao povo que muito bem cresceu
além de não sair de perto do seu leito.
V
Fecha teus olhos e descansa
não será deserdado teu legado
os sete palmos contados, as pás de terra
sobre teu frágil corpo...
Aliás, tinhas razão; tudo vira terra!
Mas valeu a pena o teu concreto
teu eterno semblante de marrento
e infantil coração de protetor e amante
apenas dos teus... Só para os teus...
2009
9
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Desencontro de sangue
A Tainah David
Bateu a porta, à meia noite, a minha irmã (tão linda!)
e eu enclausurada no cubículo que me abrigava
acordada pela penitência da manhã insone
das tardes sem nome e sem milagres
que me salve os pecados de fugir da realidade
pois não tenho para onde ir!
Lágrimas salgadas demarcavam no rosto
os traços de uma história incompreensível;
enquanto a culpa tem um princípio desconhecido
o ódio desperta numa dualidade idosa.
Bateu francamente à porta, e por sorte,
ainda não estava morta. Levantei e fui abrir;
de encontro ao desencontro dos sangues
Fui sem esperança, sem sofrimento ou mágoa
sem a carga aprisionada em nossos sobrenomes...
Não sei o porquê, mas nos abraçamos
nada precisou ser dito, os corações colados
encontravam conforto no pulsar desesperado
passado o desconforto, ela se foi
por ali fiquei, mal dormi, e logo o céu acuou.
Mudou de paisagem, era neblina e vento
e o intento também era outro.
2010
10
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Pe(s)car
Ao Rodrigo Sena
Nossa saudade não compreende o espaço
em que nos encontramos agora
tu me querias levar, pelas águas
para ficar perto de ti (havíamos combinado)
teu ciúme transformou minha liberdade:
tenho ainda mais desespero em voar
se não me engano, estás intermediando
aquilo que houve de breve
entre eternidade e clausura;
como uma carta aberta em abrupta
complacência.
Roubei a carência de outros homens
para construir um trono,
sugar o leito da impossibilidade:
Nós, perdidos dentre as vaidades
tentando preencher as horas
que não nos cabem mais, tu morreste,
herdei o encontro a qualquer hora e a dúvida:
Quem me garante que foi real?
Porque inexiste data e espaço
no deserto da saudade adiantada
desde que nos vimos pela primeira vez,
não importa quantas humanidades existam
os olhos diferentes sempre se reconhecerão
a gente só vai perdendo a coragem
de encarar, de fato
aqueles que permanecerão.
2011
11
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Há uma gota de sangue em cada poema
Ao Mário de Andrade
Assim como há resquício de barro
nas estradas asfaltadas
e ruínas pelo impacto das guerras
e catástrofes
há em cada poema uma lágrima;
Assim como ecoa aplausos e vaias
da grande semana! Onde sobram
pedaços mastigados na antropofagia
Mário não desperdiçaria uma ideia
sem que esfacelasse fontes, rituais e oferendas.
Há uma gota de suor em cada letra
e em cada verso um gozo de dor
por que sempre a dor do poeta?
Simples... É exatamente aí que sucumbe
as mágoas de exprimir pelo dom;
e despedir a força vital paulatinamente...
Mas há de deixar cada poeta, em cada página seca
a ata boêmia, razão difusa e
sua vida latente!
2011
12
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Eis o que és
Ao Alex Beigui
Sei o que você pensa, suas intenções
está tudo tão claro! És um artista!
És um momento meu, e de cada qual
que te observa e te imita.
É ousadia ser você, mas é também
cômodo e convencional
ser só tudo e ainda ser de pó
ser ou não ser, eis o que és...
Eis o que és então! (ririas de mim!)
Te copio; te mancho
chamo-te; beijo e te fumo
mas tua percepção me encontra
eis a mim pois em ti;
distante, presente, uma pobre tonta!
2009
13
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Gêmeos
Ao Cosme e Damião
O sangue ladino que perpassa entre eles
mostra o cheiro do abismo
proporciona a graça
espelhada na imagem distorcida
o choro, o despregar umbilical
e o bordão “pra sempre interligados!”
Mas o tempo agoniza. Noite e dia
experimenta-se solidão na companhia;
calma na correria, infância na maturidade...
Juntos, tropeçam os pés pelo caminho
no delírio fatal da intimidade.
Omi! Omi! O domingo insípido e lúgubre
chama a alegria das crianças;
não sou o corpo, mas o gesto; diz um
não sou a escolha, mas o passo; retruca o outro
além dos doces, as cores: azul
verde e rosa traduzem os sons ambíguos
vagamente sonorizados pelos anjos,
protetores da cumplicidade
útero, história, família, genética,
mas não os desejos...
Pois não sendo os mesmos
diante o vazio cristalizado, uma teoria;
a vida não se traduz no espelho!
2009
14
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Existência (In) sólidaAo Luís Carlos Guimarães
Meu coração é muito frágil para
só ter saída numa porta de vidro
não posso costurar verdades num lugar abandonado
não há nada moderno em ser a voz
dentro de uma imagem imprecisa...
O mundo não precisa desse mal,
bastasse que fossem mais coloridas as casas
menos cinza atemporal seus moradores...
Meu coração é um poço. Oásis de pedras
enquanto o mar revolto se desequilibra
conflitando os seres da mesma espécie
inútil disputa: quem ganha mais solidão?
O deserto me vence a prova, me desafia;
o amor se conforta nos olhos azuis
e não há perdão em quem se desconfia!
A vida é essa página virada no impulso
na escolha de gastar as horas, passam tantas tardes...
Vagam mudos os sentenciados,
em terna adoração aos que partiram;
fazem-se os “narcisos espíritas”
reconstruindo e exaltando suas outras vidas.
Meu coração não me percebe nunca
quase sem razão, faz a pauta do dia
sem consulta com toda autoridade de me ser
ah! Lula Guimarães, o teu miocárdio
deixou uma certa ponte de safena desavisada
sujeita à tropeções de um dia festivo.
O mesmo dia que torna extinto, passa...
Ninguém escapa poeta,
atravessas a ponte
que confirma
nossa inexistência.
2011
15
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
A casa amarela
Ao avô materno João Câmara
O dia só tem vinte e quatro horas
e me perdi das casas amarelas
que costumava construir meu avô
reflexivas ruas antigas
onde ele caminhou cheio de pensamentos;
Preocupado com o que hoje
não passa de descanso
a criação preta e branca de seus filhos
embaçaram os fatos com o tempo.
O dia só tem vinte e quatro horas
e as horas realmente passam
em pouco viram anos, séculos
e nunca estou preparada
alheia a tudo, não me importa nada
apenas encontrar a casa
dentro do beijo do meu avô
que se inclinava até a testa e saía...
(indiferente e carinhoso)
O dia só tem vinte e quatro horas
e vejo que termino sempre só
meus pais embarcaram no último trem
sorrindo e acenando com as mãos
eles brigavam, mas o cordão umbilical
foi desproposto e amarelado
como a casa que nem cheguei a visitar
pois estava sem luz, sem móveis
e sem a ideia de construção e cimento
O dia só tem vinte e quatro horas
gira mundo em meu redor à toa
colorido, cinza, verde, talvez amarela
como a espera de voltar à felicidade que faltou
mas os risos ainda bem funcionam
raspa... Passa... Para... Desaba
só não a casa amarela
que construiu o meu avô.
2009
16
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Flor da Paixão
À flor do maracujá
"A flor é o mistério único das flores... formou a natureza como um teatro dos mistérios
da redenção do mundo”
A trepadeira foi criada por Deus
(flor roxa, branca, estranha maravilha!)
para perpetuar a lembrança do sacrifício do calvário
com os instrumentos da paixão de Cristo:
coroa, açoites, cravos, chagas...
a esta por isso é conhecida ‘paixão’
maracujá para encher a cuia dos nativos
fazer doce, remédio, chá, suco... Trazer a Paz!
Iluminada graça; branda e nobre alma
caminha calma ao coração...
Pois enquanto Ele findava na cruz
seu sangue descia pela madeira
para fundir ao solo infértil
vingou na terra que não possuía virtude
tornou-a de poderoso espanto.
A passiflora vive e morre com o sol
ostenta beleza, brilho e encanto!
2010
17
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Espanca alma
A Florbela Espanca
Flor tão bela anda perdida
e penso tão parecido a sua dor
vim ao mundo pra conhecer-te, Flor!
a visão que sonhei, enlouquecida.
2008
18
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Acróstico
Ao Rodrigo Silbat
Receba em versos a razão de um sentimento!
O Amor que por ti sinto, a alegria de te ver...
Demasiadamente não cansarei de pronunciar em
Risos, em lágrimas que escondo ao te ver dançar
Imagino que antes de ti, jamais fui feliz, és
Grito que me dói em ausência, és amigo e
O ouro que a criatividade alcança
Sim! Nossas mãos entrelaçadas, teus olhos!
Imagina! Nossos sonhos perpetuados eternamente em
Liberdade de todos os gestos exagerados
Basta! Cansa-me repetir as lamúrias doentias da
Amizade que brotou feito flor bonita, e tu
Tatuado em meu peito; por toda minha vida!
2009
19
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Aos doentes e abandonados
Aos ausentes da saúde:
aos inocentes da barra dura
não se preocupem em falar
o importante é ouvir e não ser artista
Aos carentes abandonados:
e ainda contentes por maus tratos
antes ser morador das vilas sujas
catador das ruas e vielas imundas
que ser um poeta
ser um técnico, um médico
um profeta que se renega
em nome de Deus
antes ser o próprio deus
em favor e nome dos seus.
Aos que são como eu:
pensamentos em turbilhão
um mundo de planos e enganos
a doença crônica
o pouco tempo que resta
as etapas de cada palavra serão estudadas
e devolvidas ao silêncio
intituladas inúteis e incompreensíveis
O tempo de sobra não renova meu leito
nem contempla meus dedos
palhaços se aposentam dos risos
e minhas lágrimas não param
como um rio violento
São esses meus votos aos sofridos
filhos vencidos , abandonados
são esses meus versos brancos
sem mantos para abrandar o frio
travados na indiferença
de um poema falido.
2009
20
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Ausência de ninar
Ao Rômulo Stânrley
Desde quando a única flor
do jardim murchou
a angústia me faz derrotado e vencido
e por onde passo, sozinho
o chão gélido
o terraço de areia
o marrom dos dias
nos meus braços um filho
cujo o amor não reconheço
os traços
o sangue
o leite da mãe
o leito
e meu berço
antigo.
2009
21
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
A paixão segundo S. C
A Clarice Lispector
Eu entendia que o meu reino é deste mundo, pelo lado do inferno em mim,
pois vi como é o inferno, comia a vida e era comida por ela, o inferno é a dor do gozo
da matéria.
Tentara eu apagar o cigarro no plástico, e o cigarro entrava, assim como
entrava em mim; o trago, a lágrima de regozijo. O riso é o próprio sangue inaudível e o
tempo iluminado do tempo torna- se infinito e remoto, e assim torno-me remota,
inalcançável alma. Somos uma máscara de hereditariedade, e o que é dito torna-se
visível, e o que é lido torna- se agora uma forte perfeição no olfato, pois vejo na
parede a tua luz branca, a tua alma inexistente preta e ainda todos os pensamentos
que por ti passaram, sinto um horrível odor daquilo que descreveste, talvez tenha sido
a própria barata que te descreveu, no deserto silencioso estamos como a noite de um
eterno
verão.
Ah!
aquela
imortal
noite
que
matou
o
verão!
O inferno é meu máximo inumano e dele já não quero sair, nele sinto minha
alegria horrível e assustadora, abraço o demônio sem piedade e com amor, vivo aqui
por te sido jogada e esquecida como eterna menina feliz...
Ser humano é o orgasmo da natureza, Clarice entenderia e mais ninguém, pois
o cheiro de vida e também do seu fim, reina em meu nariz, tenho qualquer coisa para
esquecer do inferno que é aquela barata. A barata é o mundo infinito e iluminado, elas
são palhaços que nos fazem chorar e sorrir, e no fundo do riso há uma tristeza de noite
de natal, pois a noite alegre é minha vida em parte triste, uma vez que a noite se cala,
a minha loucura resplandece e logo após o regozijo ela ascende sem me deixar
lembranças.
A loucura é o sinônimo da liberdade, a livre alma de um corpo louco preso ao
mundo, e esse momento jamais será com cor, intensidade, velocidade, luz, dor, medo,
alegria e eternidade, pois o momento eterno é passado e único, jamais ele se repetirá.
2008
22
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Corpo coberto de tinta
Ao Olavo Oliva
Quis me conhecer e consegui!
Pintei a alma de cores diversas
até que atravessou o corpo
extravasou num sopro ao ouvido
uma fala docemente amansada:
sobre as dúvidas e quantas almas;
meus pés e a calma que refleti...
Quis me conhecer e não entendi!
O corpo nu, no entanto a mente
coberta de tudo que vivi
mil latas de tintas... risos ligeiros
dentre os devaneios, os dias perdidos
as telas que fiquei por colorir
e os brancos que foram escondidos.
Quis me conhecer e permaneci
sem decifrar quais cores me cobriam
sem me importar se alguém via
ou se a sede de mudar o piso
era aviso de pouca moeda.
Assim passei anos e anos de tintas
das histórias tantas que restam.
2009
23
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Balé, passos em escritos
Aos versos
(tem coisas que penso e não escrevo, há outras que nem sei se penso e acabo
escrevendo...)
Como se a escrita me tomasse pela mão
e dissesse: compõe-me em versos!
Cochichando em meu ouvido
conduzindo o poema
com cautela e compromisso
esquiando com facilidade
e sem maiores barreiras!
Apenas dançando magicamente
em outras existências...
Tem tantas coisas... Mas me encolho
me belisco! É verdade?! Já não arrisco
e me escondo, não percebo...
mas ela volta e me toma pela mão
delicadamente contornando sua doçura
em meus dedos...
Acariciando meus nervos a calma
de uma nova dança.
2009
24
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Pétalas ao vento
Ao Juliano Petrovich
Uma pétala se desvencilha
de seu encanto em minhas mãos.
No interior amarelado é possível
entender das paixões, embora tantas,
não há motivo que culmine traição
pois se permitir vivê-las é como versejar:
expor silêncios para aliviar o nada
um tropeço onde se desconstrói o amor.
Ah! Nosso amor de incensos, areia e pedras
tanto mais repele a sensatez das mágoas
inevitáveis, aumenta necessário o desejo
(ainda que absurdo) revestido de consciência
à entrega de dúvidas e distâncias...
Do branco do jasmim apenas a proeza
inútil dos cheiros agradáveis, quem sabe
soprar em fim de tarde as mentiras dos livros
engolidos por nós, embaixo de árvores frondosas,
testemunhas cruéis de que a maciez
do tato seja também o doce inferno
de caminhar no amanhã incontestavelmente solitário
(embora não desprovido de ternura)
não precisam nos explicar à noite,
é canção jogar ideias sem desferir palavras
não nos indaguem sobre a paz,
é caos como tais tormentos
nos deixam mais leves a tatear o céu
apenas nos embriague a natureza com a calma
pueril de conformar o entendimento
pois não é preciso entender
o irresistivelmente inusitado,
nem questionar a verdade de um falso
arco-íris palpável;
já que o amor se torna flor. E retorna vento.
25
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Intemperança modernista
Ao Manuel Bandeira
quanta tristeza nos espreita, Manuel Bandeira
teu olhar tênue e pernambucano se estende
no nariz longo e completa-se dentuço tua boca
carnuda, o teu semblante puro!
É do beco provinciano, essa coisa que tens
de não se fazer mal a ninguém...
O café, o cigarro e as mulheres que amaste
não desfeitos, mas imersos no passado
de alusões, nostalgias das perdas precoces
saturado de ausências. Ficasse só,
mais cheio de tudo tal qual varria o vento;
as canções de tua vida...
Tal qual caminhava nas ruas
a libertinagem trazia alumbramentos
junto ao mau destino, nem foi tão ruim assim!
Cada coisa em seu lugar, te lembras?
Quando tudo parecia impregnado de eternidade
as tosses cessaram
trouxeram as reminiscências da infância
como se fosse outra vida.
26
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Fosse bom
Ao Bernardo Silva
Dispersas de ti a honrosa luxúria intelectual
na autenticidade sábia do simples:
“Cada cabeça é um mundo em extinção”
Bem verdade, meu amigo Berna. Tu tão leve
passas inteligentemente impregnado de sorrisos
aliviados e breves conversas roucas.
Fosse bom apaixonar a dor seria prêmio
Fosse bom o amor, desentender obviamente
não seria nada demais. Porque sempre haverá divergências.
É alerta que os livros causam precipitações internas
bem percebi o quanto nada te atormentas,
meu amigo Berna, tua beleza é clara
chama viva afoita feito chuva e neve.
Caminhar sobre essas ruas servem para
não se abster das pedras, mas refazer memórias...
imprevisto foi apagar antigos amores,
choros sem consolos, dores sem porquês
agora me faz falta o domínio dos outros;
fosse bom sentimentalizar não se fazia poesia
do sangue, seria vinho embebedar angústias.
A amizade há de conter o desejo, em pleno fim
poucos souberam que acabaria o mundo.
Fosse bom o inútil progresso, não fecharíamos os olhos
pensando noutras divindades.
É estado de alegria dispensar as legendas,
uma visão me sucedeu a tirania, são precisos flores
não mais algemas. Flores nascidas no asfalto,
no constante sorriso do amigo Bernardo.
Plantar jarros, depenar o sol, desprender a pele
fluir à noite sem violência ou medo.
É preciso suspender o medo na janela do vizinho
mas sem arranhar o vizinho.
É preciso, tá se vendo o quanto
domingos ressacados de semanas,
apenas Berna, meu amado amigo,
sutilmente nos encanta.
27
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Anauá, árvore florida
“Não há o que se ensinar às crianças, mas delas aprender tudo.” Dostoievski
Não te precipites minha pequena
com os contratempos da família
o porvir é tão pontual que cerca
teu riso sereno, o corpinho preguiçoso
inunda de brilho na sabedoria
dos teus olhos que sabem de tudo!
Ah, meu doce anjo, de tudo sabes...
(nem imaginas, esquecerás um dia?)
Lembro-me de tuas pequenas mãos
e tenho que rir; não demais, a sociedade
nos corrompe a longo prazo, mas nãos
os culpe, não deve haver esse sintoma
não julgues, não percas teu tempo!
Inexiste ódio se te abrandas o verão
inexiste dor se te consola a chuva;
não chore em vão, mas por motivo ausente
é boa a solidão se as lágrimas te sentem
há um jardinzinho na tristeza
frutifica com o silêncio (preza-o bem!)
floresce no perdão e à passos leves
então torna amor o que te parecer estranho
não confia nos normais, mas nos insanos
porque apesar de ti havia o passado
eu inocente, declarando pergaminhos
quando o presente é um sudário
não o santo, mas o viciado em sentimentos
expondo a carência da humanidade
e a inutilidade do mundo (mortos os conselhos!)
experiências constroem as lembranças:
únicas chances de sabermos da vida
(admitir o quão nada sabemos!)
pensamento é perfeito,
felicidade é o caminho do meio
enfim, faz o que bem queres
deste vazio
fragmentado
que te escrevo.
28
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Anonimato
Aos anônimos
Na esquina do mundo bifurcam becos;
tiros, vácuos, bichos, braços, casais e anônimos
barrigas soltas carregam, além dos quadris, sacolas
ovos, pães, bolachas, algumas roupas
e uma incrível transparência.
Existem também as traições e Silva Neto;
o funcionário da farmácia, dos olhos inquietos
apenas uma noticia: Foi atropelado
mal fechou as mãos e substituíram o coitado
a quem mais perto chegou da dor, os vizinhos
durou os poucos instantes
em que reconheciam seus destinos,
o silêncio, a solidão e o aterro invisível;
Logo em seguida uma procissão de anônimos
sofridos, porém enaltecidos pela fé
seguem cômodos um caminho pré-determinado
pela ordem do bem infalível:
o cansaço anunciado nas pálpebras
carregando a despedida dos anos...
Sem aparatos comoventes, sem sementes
para frutificar esperança em seus quintais
bem cuidados, armazenando o sabor da terra
nas mesas, fruteiras e bacias.
Mas eles também vão até o centro;
as cidades caminham para acomodar os seus
os cheiros se misturam e formam-se num só;
cheiro dos anônimos, das ruas, ruas do anonimato
o chão anda o mesmo, as paredes apenas sujam
em algumas casas o dia amanhece, outras, no entanto
o sol esquece de anunciar a liberdade
sentenciada aos carmas insanos;
doenças, brigas comuns, os mesmos dilemas;
e as casas vão dominando tudo
no pouco desse mundo sem dono
mas os becos não se esquecem de existir
energizados pelas quedas alheias;
conversas nas calçadas atravessam muros
acrescentando-lhe um pouco de nada
já que a Terra anda perdida de sua rotina
e nenhum buraco é coberto na estrada.
29
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Os meninos correm pela rua, as mães instalam
um grito armado de terror e cuidado
os mais delicados esperam despreocupados
que tarde, e fiquem apenas as sombras
dos gatos se entreolhando abusados, desatentos!
Os últimos bêbados, os mais fiéis ao desleixo
conversam sem que pareçam ser vistos
o jeito é ficar de qualquer jeito
ratos, formigas, escorpiões e baratas
também obedecem às suas funções, velhos anônimos
de bueiros, não se extinguem esses animais!
Na esquina do mundo bifurcam mil universos
alinhados na diferença de cada cabeça
um tufão, uma tempestade, um tsunami
as placas tectônicas se movimentam sem nome
empurram-se cansadas de carregar o mar...
Ah, Natureza anônima! Mãe Terra, Deus mar...
A diversidade mata a individualidade das espécies;
a biografia do sapo? Do lagarto? Do jacaré?
instintivamente permanecem anônimos
sem genealogia, signo ou data de comemorações
a poesia não, se isenta das tragédias, das alegrias
vive presa no quartinho sem número, na penumbra
sem expectativa de encontros, debilmente
desarmada, vestindo um par de asas quebradas
e o quebranto dos fins de tardes, madrugadas.
A solidão gera poesia escondida, concentrada
já as pessoas são todas estranhas
surreais, insistentes de si mesmas
na esquina do mundo bifurcam becos
outros surgirão, bastam alguéns em algures
está pronta uma cidadezinha!
fofocas e intrigas que não cabem nas avenidas
nem nas cidades, nas poltronas, nos países
aonde vão parar os tantos? Não cabem nos continentes!
não cabem nas camas, nos carros, nas filas
não cabem na poesia.
Em locomotivas não cabem borboletas,
só a revolução e seus bens preteridos
os telégrafos desistiram de comunicar-se
já que o anonimato dominou o planeta.
30
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
A cada encontro far-te-ei poesia
Ao Juliano Petrovich
Não vou sobrecarregá-lo meu bem
com abordagens vãs, já conhecemos o desejo
atraído pelo outro, o estranho nos espreita
para dizer que o ideal não existe
então aceita o acaso e torna sincero
o infinito do momento.
A cada encontro dar-te-ei poesia
sente a magia plantar também a arte?
Não te precipites, me é dispensável respostas;
tua boca pequena já sussurra silêncios
conversas ao mar os pensamentos infindos
e isso satisfaz perguntas e não promessas
desconhecemos o futuro, mas o seguimos
fielmente
pisando coisas
arrastando o chão
tropeçando sentimentos
Não quero sobrecarregá-lo, amor
com minhas desventuras, é suave tua cor
e se tua coluna reclama onde minha
mão não alcança, que águas desnudas
hão de aliviar tuas súplicas?
Levita que a grama nos acomoda essas noites
a lua testemunha o esmorecer do encanto
mas teu semblante, a cada encontro
bem servirá por tu a alimentar a poesia.
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Maurício
“tem pessoas que se cabem”
Não tenha medo de jogar teu passado
o que nos pertence são apenas lembranças.
O concreto se desfaz fragilmente à ação do tempo
tão inadequado quanto a felicidade;
o que são tempo e felicidade diante o mar?
Por que o abstrato é imutável, imortal
fragmenta-se em meus braços teu abraço cru
e teu sorriso de menino.
O mundo é teu, embora não percebeste...
É importante questionar, ainda mais
é não se envolver na poeira dos outros;
é insana a ideia de cidade, busca tua felicidade
onde a busca não se alcança
descansa. Não espera, respinga
nada traduz, também não há enigmas
somente nosso silêncio, sem constrangimentos
porque criamos portas e jogamos fora as chaves
até as engolimos com espasmos
sem que escape qualquer suspiro de cansaço,
mas estamos cansados.
Aprendemos-nos esta noite
convém ao amanha nos reinventar.
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Sylvia Plath
Um sonho azul de faísca
retido na madrugada
alguém, em outra história,
ferida da morte de si mesma
alguém; comportadamente esquizofrênica
alcança as primeiras luas
isso não basta!
Uma taça sem brinde, poema
pega a folha, anota, abre aspas
sem reticências, joia rara
feita de papel e nuvem
e mais umas besteiras.
Não foi acidente,
morrer é uma arte
três décadas aniquiladas, uma a uma
na excepcional vocação
de nunca mais querer voltar...
Não há jeito; Sylvia
o teu sono atravessa séculos.
33
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Teorias inúteis
Ao Marcel Arthur e Jady Tariane
Naquela casa aonde ia
o acaso de vizinhos companheiros
conversas ligeiras
e uns vinte minutos de drink
calmamente ia, em períodos constantes,
até colidir com os mais reservados
em que se faz necessário parar
manter uma convivência agradável
(por isso sofrem os casais!)
Inclusive, naquela casa que ia dizendo,
morava um casal.
Comungávamos teorias físicas e existenciais
checávamos, analisávamos, discutíamos
criávamos planetas , astros e estrelas;
café e casaco nas cordilheiras do Himalaia
ervas proibidas nos coffee shops de Amsterdam
contemplação artística no museu do Louvre
jazz em New Orleans, a Bossa de Copacabana
escalávamos metodicamente as pirâmides do Gizé
catando cogumelos em tribos indígenas remanescentes
entre outras substâncias descerradas
havíamos feito um tour pelo universo, buraco negro
no fim, estávamos sentados, contemplando
os olhos dilatados, os gestos decididos do gato.
34
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Bem aventurados os delicados
Ao Elly Lima
Sosseguei meu contrato com a pressa
de engolir a boemia, quando aos trinta e três
foi me dado um pouco mais.
Descanso autenticamente aos quarenta
porque não quero atropelar o próximo passo
legado de família: O olhar de martelada,
nordestinamente determinado.
Serenidade amadurecida, atenta
talhada numa juventude perfeita.
Fui o décimo segundo anônimo
de uma descendência impaciente
(reminiscências do cangaço)
na poeira da prateleira que adornava a cozinha
todo dia, o quilo de arroz, outro de feijão
e bastante farinha.
A verdade ética de cada conceito
permitiu-me viver a revelia,
tornei-me autodidata e impreciso
na idade digna de minha barba preta
abdicaria da própria existência
para ser só das mulheres essa vida
e se não sinto a minha se esvaindo
é porque fui me intimando um não suicida
minha filha não merece ver luzir
as chamas que livrou a dor de meu avô;
Por isso superei o talento de família
deixei de manusear volantes pesados
para colecionar as estórias mais inéditas
dentro de meus carros velhos;
culpa da vitrola que emana músicas
dando vida aos meus três mil discos.
Nos incontáveis pedaços do mundo (careta)
me destaquei apenas com a ilusão,
meu velho pai tinha razão;
estou reduzido a ossos de borboleta.
35
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Os anos tais
Ao Ailton Medeiros
Diga ao amigo dos velhos tempos
que lhes deixo um ok.
Basta em entender que a pressa
de fugir do futuro, ainda sentencia
minha mania de regar pedras e espinhos
em vez de flores;
elas fustigam os asfaltos
para talvez amarelecerem,
quem sabe te sirva de uma quase morte
para rejuvenescer contrariedades?
Diga ao amigo que não me escapa saudade
me entedia a clausura das histórias
no entanto, vos deixo um abraço
desses distantes, sinceramente libertos
de sentimentos passados
outrora hostilizados, agora negligenciados
pela maturidade do conformismo
outros fatos é que são importantes
veja bem; ao redor é festa, mas eles
não sabem andar sozinhos.
Uma idiotice a mais, abafando espaços onde piso.
O amigo perdoa os trocadilhos
já vai anoitecer e nem serão empalhados
os teus tesouros. Tuas taças de vidro
antipatizadas pela escolha de nossos casamentos
as mulheres não podiam nos suportar
mas cuidado amigo, não quer dizer nada demais
as tais malditas palavras:
são farpas, não sinais
são altares, não carnavais.
36
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
O aprendiz de espantos
Ao Mário Quintana
“O tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que
basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira".
Eu que nem sei quantos minutos são
porque pouco importa se atrás da porta
chove ou faz sol.
Venho do sul desde prematuro
não sou tímido, tenho senso
só não pude voar sozinho
porque embora mudem as andorinhas
não muda o meu amor,
e se tu me amas, ama-me baixinho
e deixa que eu faça das tuas cartas
barquinhos de papel
pois o tempo trama as expectativas
faz agilizar as pendências urgentes
nas horas certas, porque as coisas
se controlam sem nós,
são elas que comandam os destinos
dos que passarão à passarinho.
Um poeta satisfeito não satisfaz.
Há duas idades; ou se está vivo ou morto
no último caso é idade demais
já que nos foi prometido a eternidade
aliás, além dos tais, me libertei;
despeço-me, não das letras, mas do cansaço
posso enfim, estar deitado de sapatos.
37
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Clóvis
A Juliana Câmara
I
Ela sou eu com a liberdade que julgava ter.
Ela ri de mim porque me reconhece,
apenas nós identificamos essa lucidez
ela ri, vê em mim outras pessoas
mania de associações
permanecemos em cima da linha
que divide dois grandes abismos;
distorcer imagens de rostos, propositalmente
para testar a capacidade de adivinhar retratos;
a loucura nos permite caminhar
por incontáveis realidades
na genialidade de fugir do óbvio
o infinito transforma as perturbações
em fragmentos de nós três,
ímpar contemplação estremece
mas não isenta os dias de ressaca.
II
Não é engraçado os acontecimentos, Clóvis?
enquanto a cidade se excita, pinta a cara
umas horas de conversa marcham de dia
eu canso, Clóvis, só de imaginar!
Bem conheces o tanto sou preguiçosa!
Conhece, ou não, as tuas criações?
Somos tão nômades enraizados
nessa coragem de ser deus!
me encarece tua grave inocência!
Espanta o agito de tuas perseguições
o que não vês, o que não sabes?
III
Eu só devia te tratar diferenciado, Clóvis
se fosse por reverência,
38
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
mas a tua soberba anula o meu orgulho
depois, só posso contra teu nome
nenhum desabafo, ah! Clóvis...
quase o vomito, quase o devoro
enquanto exercito complexos
tive de ser outra pessoa por causa
do meu nariz, por causa de ti.
Observo a sinuosidade da tua leitura
e adquiro uma percepção extraordinária
quanto mais grávida estivesse
mais linda seria, mas tu condenou
o amor a vestir mentiras verdes
desde então o ar tornou-se sufocante;
lembra Clóvis? Diante às farsas
tornava-me cúmplice na abstração
na única intenção de me prejudicar!
Como pode tanto atrevimento?
a esquizofrenia criou para me rotular
não é justo Clóvis, a difamação, é desnecessário.
(do riso ao choro, petulância tua!)
vigiar tanto, ao ponto de fundir
a mim essa tua psicologia besta!
Controlas a humanidade através da luz
mas ainda não consumiu toda infelicidade.
IV
Fui me tornando menos vaidosa
mais musical minha voz macia
mas só em pronunciar meus nomes
deixo de identificá-la,
tenho saudade dela, que fizeste com ela?
Sabes o quanto me irrita não saber
de quem é a voz na qual estou falando!
Depois dei para ficar distraída
não posso fugir, sequer me mover
39
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
tenho perdido minhas coisas
e rido da leveza que é não tê-las
sozinha, como se mantivesse a dor
de dar boa noite a alguém que não existe.
Começo a crer teus absurdos!
Se me obriga a admitir, Clóvis
sinto que teu lado esquerdo
causa-me certo desconcerto,
logo percebo que absolutamente (tudo)
cada gesto teu é combinado
na genialidade da manipulação;
entrego-te o troféu, Clóvis, tu vences;
ninguém é mais inteligente!
V
Nem sempre minha lucidez acerta
às vezes ela entra no beco e some
ou é tua voz sangrando em algum lugar?
Não preciso que me encarem, Clóvis,
até parece! Estuprar meus pensamentos...
Não tem mais o que fazer?
Esse Clóvis! Chantageia até o cão!
Quem dá credibilidade a ti
corre o risco de ser sugado
vai, Clovis, exímio pescador
não descuida a pescaria, cabe-me a função
de fazer o peixe deixar de ser peixe;
diria a tu ainda, Clóvis,
no auge do delírio que me fizeste:
Deus pode ser a pintura pichada no muro
o coqueiro, a grama, pode ser a tua cara;
aniquilada minha identidade
tu ri, inexpressivamente
enquanto rumo ao arco de teu céu.
40
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
A Sueli Silva
Nunca aprendeu a ler, mas sabia
identificar qualquer número
de qualquer pessoa na agenda telefônica.
Desde os quinze trabalhava numa
casa de família, tradicionalmente antiga
hora de dormir, comer e chorar
determinadas pelos donos
com direito a um banho por dia,
meia hora de rádio e apenas noticiários
no qual assistia distante, sem se sentir
parte, senão pela dor.
Não era bonita. Faltavam-lhe dois dentes
o que não lhe privava a vaidade
cedo perdeu o pai
a mãe sofria de pobreza extrema
morria de medo de lagartixa
e nada lhe emocionava a formação das teias
nunca aprendeu a escrever,
mas era boa em história de vida
dinheiro não lhe despertava interesse
tanto quanto fazer reluzir a panela da patroa.
Um dia faria da panela de sua casa
o objetivo de polir a própria família.
41
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Pedra do infinito
Ao Juliano Petrovich
Caminhava pela praia
ao encontro do mar
pra desmedir segredos.
Se a busca racionaliza,
e a racionalização afasta
como podia conter minha sanidade?
não fiquei sem respostas
uma pequena e branca pedra me encontrou
tão logo sentia em meus dedos
seu infinito.
Percebi que era você, macio
(como as nuvens dispersas)
os cabelos desgrenhados
barba mais cumprida
e um gênio sagaz
compatível com o meu; irônicos
me perguntaste o que era “o nada”
o nada é aquela palavra
que não pede questionamentos
mas como você inverte os interesses, completo:
nada se faz tudo quando somos juntos
nesses momentos raros,
infinitos.
42
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Ressaca
A Zila Mamede
Da outra vez que me arrependi
não foi tão ruim;
rodopiava ensandecida pela areia
(porque a diversidade de suas cores?)
clamando anonimamente àquela
que só existia em íntimo desconhecimento,
enquanto agonizava a existência de clichês
buscava adaptar os anseios comuns
aos navegos conformados do mar.
Estava só. Até que esbarrando na ressaca
do feriado, me vi (imaginei) rodeada
de pessoas amadas, fortes ausentes
(é preciso não tê-las perto para senti-las!)
de repente a melancolia salina
envolvia a névoa da tarde
em memória falha, antiga
não bastava a preguiça
de arar o corpo ao relento
alheia aos afogamentos
inerte às ideias
tratando de emergir a carcaça
calma dos problemas...
Hesita o sol se o tempo nos abriga
noutros tantos dias;
quando o tédio
assume
e surta
qualquer
esperança;
não permaneces nem passas
flutuas cada vez mais tranquila
em mistérios.
43
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Ingênua paixão
Ao Daniel César
Tão ingênuo acreditar que sempre haverá você!
tal qual nos permite a sucessão de instantes
pulsando o veludo alaranjado
de cada espera, entrega obliqua
não dissimulada peregrinando no limbo
de nossas distâncias.
Assusta a natureza do bom entendimento
(risonhos, estaqueados, esquizofrênicos...)
tão bonito pensar nesses momentos;
O tempo quente aconchega a dor futura
inexistente nos dias de choro
a chuva delgada vem com a necessidade
clichê de derreter-me em seus braços
e ver bailar na tua boca perturbadora
a voz tão suave, tão máscula!
Aceitar tua doçura é conviver o vendaval de teu outro eu
um amor inteiro me prende à liberdade
na chance de rodopiar os amores
imperfeitos.
44
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Você...
Ao Daniel César
Em mais um amanhecer de lua
espectro encarando a realidade do meu desejo,
caos de sentimentos encarnados
na promessa de um futuro perfeito.
Você, perfeito, na masculinidade bruta
de um sorriso infantil
o vulto que desperta ciúmes alheios
o surto que funde minha lucidez
estranho exílio de nobres purezas
percorrendo comigo nos antigos trilhos
das incertezas;
Você... Martírio sutil de acontecimentos
um céu de infinito engarrafamento
no encontro desmarcado da aurora
orvalho em flor,
rejuvenescer de timidez
basta um corte inaudível na pele
para sobressaltar teu beijo.
Você, no festejar pulsante de fim de ano
sem a melancolia das luzes acesas
um rio carregado, sem porém,
mergulhar tristezas
autenticidade dos alvoroços passageiros
mel da minha dor, dúvida dos meus segredos
olhos de amendoim
tocando no porvir, desarma -me a bruxaria
no embriagante trago de curandeiro;
Você! Cálice levemente febril
pecado fatal das mais escondidas angústias
em meu doce reino de sal
as mil e uma noites
apenas nós e todo o resto de nada
sem pronunciar palavras
permitindo-nos o deleite da contemplação.
45
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Soneto Monogâmico
Aos amores verdadeiros
Meus amantes são muitos
tantos que quase não os reconheço!
e me atormento, ah, tanto sofro!
Pois tão sincero herdou tal sentimento!
Eles não fazem fila, não se bicam
são especiais em seus momentos
com cor, cheiro e horas específicas
(as horas quem dita sou eu!)
me chamam petulante, mesquinha
planejo com cuidado os futuros sinceros
e assumo cada pelo de defeitos,
mas aos meus amores sou fiel
a cada qual um amor único
e verdadeiro.
46
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Luck, meu filho
Teus olhinhos de brinquedo
desarmam a maldade do mundo inteiro
teus olhinhos de jabuticaba
inundam a existência e torna-a intacta
ah, como brilham teus olhinhos
de longe os vejo arrancando meu riso
orgulhoso, materno.
Luck, meu filho
meu amor eterno.
47
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Maternidade
A Jady Tariane
Uma forte ventania anunciava
a sombra de alguém que viria,
tomou um susto, a pobre moça fragilizada!
Deixou-se derreter o corpo em choro
como julgar uma perseguição invisível?
Logo outros adiantavam suposições
das mais diversas, sendo concreta
a audácia da surpresa:
nada haveria de ser o mesmo!
Seria outro piso, outro teto, outro lar
o cheiro de talco substituiria o odor
dos animais, a rua ladrilhada
teria nome de pássaro ou flor
os gritos novos, euforia das novidades!
Longa agitação internamente calma
experiência única (diriam algumas mães
desafogadas das frustrações no amor de seus filhos)
outras descordariam tensas
afinal, foram tantas primaveras
que tornou-se comum o florir.
Confirmada a gravidez, a mãe suspira
descansada às boas-novas, nova vida.
48
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Os versos de Cecília Meireles
(Não posso mudar teus poemas, Cecília, nem creia que desejo fazê-los! São tão
perfeitos os teus versos... )
Mesmo onde não há poesia
esconde-se um verso branco
por detrás dessas montanhas
são versos das grandezas
dos tamanhos aos ínfimos grãos das areias
estão os versos
escorrendo da chuva,
inundando o universo
nas histórias reais onde jamais
imaginava poesia, estão teus versos
simplesmente uma aparição embaraçosa
um cisco, um presságio
não convém procurá-lo, o verso
porque ele não se esconde,
ao contrário, se mostra
ali, na nuvem, nas cores, no segredo
das sensações remotas
o verso explora um sentido
descontente, necessário, livre
o verso é livre porque aquele
que é preso, é fingido e foge de si mesmo
o verso não foge, ele galga a frente
contemplado, silencioso, eterno;
este é o verso, sagrado como a natureza
se basta e se alimenta da própria leveza
não é preciso buscá-lo, na dormência
que precede o sono está o verso
insone, inquieto.
49
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Destino das marés
Ao Juliano Petrovich
A vaidade e languidez da multidão
reafirmam o abismo da tua ausência
porque perto nos fazemos tão longe?
Teu lado menos sutil responde faminto:
Não há sentimento em ti, senão o desejo
de consumir apenas os bons frutos!
Se pouco te conheço, mais te vejo
esfumaçado, assumindo vários rostos
os quais reconheço em pedaços...
Há algo em nós que permanece resignado
será desperdiçar o contexto,
desejados pelo resto dos outros,
despejar as cinzas dos momentos?
Será zelo das lembranças
variar lábios, nos ansiando em vão
na correnteza dos dias que não são?
Talvez não lembrasse, não mais ansiava
só contemplava o nada
sem porém, proferir palavras
na contrapartida de produzir insultos,
sentidos recíprocos de individualidade
tu na rede, eu nas pedras;
(mesma hora, em nadas diferentes)
ambos colecionando um amor egoísta
balançando exauridamente o verão
incomodando a falta do que não houve
suavizado, porém, pela originalidade da fuga
porque nada se eleva diante os clichês;
nem teus olhos, nem teus pés
(já não os mesmos)
inconcluem o destino das marés.
50
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Triste euforia
Ao Alexon Fonseca
“ Trata-se de um amor puro, simplesmente, ameaçado pelo toque das coisas humanas.
Assim, céticos de nascença o definiriam como transcendental e por um instante
creriam no entrelaçamento de almas”
Que sentido nos inunda, senão identificarmo-nos?
Resolvi que não leria aquele capítulo
nem outra coisa qualquer
que confundisse mais a madrugada;
pilares sustentam lembranças recentes
apenas gosto de você
porque não me sinto tão só
nadando contra a corrente.
Felizes nós que conseguimos sentir
o cheiro da noite, carimbado
na dispersa languidez social
caminho doído, irrecobrável
ou se quer dizer amor, logo
tu harmoniza a dor à descoberta
e cai na triste euforia do endeusamento!
Bem te disse, não há consolo na fome da criança:
atenuamos o tédio por ingenuidade
matamos as estrelas por descompromisso;
e o céu fica omisso a nós,
um fumaceiro branco, impreciso.
51
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Wagner, o caso
Ao Nietzsche
“ Somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável
o que há de terrível na vida”
O eterno retorno do mesmo é teu,
nasceste póstumo para fragilizar as certezas
e ainda indagamos pra que, Nietzsche?
teus olhos me assaltam quando distraída
vejo duas bolas imensas, submersas
na brancura infantil entre as pálpebras
como negras ilhas gêmeas
desarmadamente preparadas
e ainda equipada de um fatalismo paradoxal
Ah, Wagner! Como queria pronunciar
alto teu nome! quem incitou essa vontade
nos diria tão bem como tudo é nada
e o vice versa a música resplandece
nas veredas do amor;
com nós não, foi a poesia que nos encarnou
quem sabe, Wagner, apaixonamo-nos
por vício, egoísmo ou procura
talvez até desejo e incerteza
percebes a malícia perfeitamente
cruel de sua boa escrita, Nietzsche?
Quiseste matar a tua dor, ao contrário
eternizaste-a de boca em boca, permeando
quase todos graus de cultura e até asneiras
teu nome estático, difícil, malhado
quem há de nos defender? Formamos um trio
desconhecido, distantes de datas, corpos
e línguas. Ninguém há de tomar nossas dores
mas embebedam-se delas, a procurar
preencher um vazio que só aumenta.
52
SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Aprendizaje
Ao Gilberto Antonio Gorrichátegui Vásquez
Falei que tu devias comer maçã todo dia.
A rouquidão de tua alegria paira na sala
com o brilho de uma estrela inofensiva.
Amanhã de manhã, por favor, te lembras!
Não é preciso colher as rosas
sem que tenha chegado a hora
depois, que te vale acumular sorrisos?
É pertinente a desintegração para recompor saúde
tuas cordas vocais priorizaram o aprendizado
qualquer intervenção teria sido inútil!
Tomas nota;
falar outras línguas embaralha o idioma,
mas expande a linguagem:
Dá-me um guia para escrever meus versos
e entrego-te essa homenagem.
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Os signos de Bernardo
Ao Bernardo Silva
Tudo em ti revela a naturalidade do tom
o porto ilha, no mar de Areia Branca
registra teu descontraído passo, Bernardo
mostra teus signos, conta teus casos
tua vivacidade torna o movimento do mundo
bem mais interessante, teus dentes grandes
calmo estar, vasto horizonte!
pensar em ti é submergir em águas tranquilas
(com os pássaros dos mais variados cantarolando!)
estar contigo é abrir um caminho de flores
tua beleza é tanta que te confunde ao santo
que a luz intensa do luar
abençoe sempre o teu caminho
e que caminhemos juntos!
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Singela homenagem
Ao Anchieta Rolim
Anchieta é um projeto artístico em plena desconstrução
um bom coração,
inquieto à eterna busca do inacabado.
Ávido por justiça
farto de talento, fácil de sorriso
delicado com provocação.
Atento, obstinado, rebelde, emocionado;
criança frágil de uma alma forte
(feliz ambiguidade!)
sua principal fonte brota da sinceridade.
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Cem anos de solidão- A família Buendía
“ não se morre quando se deve, mas quando se pode."
O casal deixou Riohacha, mas não se livrou do fantasma
que José Arcadio Buendia um dia matou,
Prudêncio Aguilar, e Macondo fundou.
Sonhador e visionário, obcecado pela alquimia,
morreu louco, amarrado ao castanheiro da família.
Melquíades cigano, sábio, louco e santo!
com as novidades do mundo; o gelo, a dentadura
e os misteriosos pergaminhos, imortalizou-o.
A coragem lúcida e as peripécias numa casa de loucos,
fizeram da matrona centenária , uma cega que via tudo.
Morre Úrsula Iguarán, numa branda tarde
depois da grande chuva em Macondo...
O coronel das 32 revoluções, dos 17 filhos
nasceu de olhos abertos e nunca conheceu o amor;
morreu sozinho em casa com seus peixinhos de ouro.
A solidão impenetrável da virgem rancorosa, Amaranta;
atadura na mão e a penitência ao suicídio de Pietro Crespi.
O saco de ossos dos pais à incompletude da bastarda
ávida por cal e terra; Rebeca.
A doença da insônia, o sangue que atravessou as ruas,
um forte eterno cheiro de pólvora...
A puta amada, Pilar Ternera, via o futuro nas cartas.
Remédios, de tão bela, matava os homens de amor
ascendeu ao céu com o lençol, sem saber seu esplendor!
A esposa trocada pela concubina, Fernanda del Carpio,
perfeccionista e neurótica, uma fanática religiosa, e seu penico de ouro.
Pelo telhado do banheiro, Maurício Babilônia sofre um tiro
sua invalidez não espanta as borboletas,
Meme foi grávida para um convento.
Os gêmeos idênticos trocados de identidade;
Josés Arcadios impulsivos e determinados
Aurelianos estudiosos pacatos, tristes e ensimesmados.
Santa Sofía de la Piedad vai para a sua cidade,
após a morte dos três filhos.
Um emaranhado de acontecimentos, mortes e nascimentos,
aos segredos da estirpe e de seu povo.
Dos amantes que não conheciam seus laços de sangue
e concretizaram a maldição da família:
Nasce um com rabo de porco e é morto por formigas.
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Fantasmagórica realidade
Ao tio Beto
A lembrança da tua calma é bem mais forte
que a ausência de nossas falas.
Emudeces em distintas situações
na discreta evidência de tua presença;
sei que a ti foi dado o dom de perceber
por isso o silêncio de conhecer aquela íntima resposta
(protegido aos serenos, exposta nos desesperados)
quando rememoras o cuidado de teus pais
o amor aflora em lágrimas de gratidão, ternura e saudade.
As voltas colidem e bifurcam nossa estrada
mas para sempre hei de carregar o teu nome:
O amado, o preferido de sorriso largo
miúda, diante de teu passo, meu respeito!
Assim sempre te vejo,
na mais fantasmagórica realidade.
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
Universo Paralelo
Ao Psilocybe Cubensis
O silêncio, a música, a interação, a contemplação.
Absolutamente tudo se sincroniza,
porque tudo é amor.
Há uma movimentação surpreendente no mundo
marítimo e toda superfície esconde uma intensa
potencialidade: A putrefação que aduba a terra,
o singular mundo estrelar, o submundo dos mundos
a incrível naturalidade dos ciclos.
Tudo é amor.
A flor, o pasto, o boi, o cuidado,
a crudelíssima nitidez das pedras compartilha
a real imponência das montanhas.
As pétalas que voam, borboletas
a nascente, a geleira, o mangue, o deserto,
a capacidade de pulsar. Tudo é amor.
Em cada partícula invisível há vida
a vida é plena em transformação e o homem
quando se nega à própria natureza não se permite amor.
O sol na chuva, a beleza de todas as coisas
que já são, que se mostram incansavelmente
a cada instante de forma que transcende ao tempo.
E por isso não amadurece, visto que é soberano
porque é espaço, é imagem
Porque é. Simplesmente.
Sem perguntar a quem, sem revidar nem detestar
nem planejar, o amor ecoa como uma trovoada
e expande magnificamente de cima para baixo
(de dentro para fora) Tudo é amor.
O cardume é sempre nômade? Como
pouco se percebe a divindade da água?
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
O passado do céu é permanecer céu?
de onde veio as areias, até onde se estendem?
e o exuberante verde que rastejam as iguanas?
Ah, se não fosse tudo repleto de cor
no amor havia menos sentido. Felicidade tem mais
haver com brandura. Fora da ilusão há verdade.
A diversidade de peles, texturas, aromas, infinitas vidas
invisíveis, discretas, sensatas, calmamente
acontecidas na surpresa imprevista da vida.
Todos os mundos se cabem, porque existem;
são complementos, são partes, e é o todo
(todas as frutas são primas?) tudo se faz família!
Os esporos voam. A água engravida.
O sol dá a luz. Até a lua é luz. E alcança tudo.
Tudo é dor. Mas a dor compensa o amor.
Sejamos nítidos como a expansão da praia
livres como o fluir do rio, e o bater de asas
sejamos, apenas sejamos!
Serenos, transparentes, em desarmados silêncios
porque a paz é inteira e a vaidade é uma arma
e nenhuma arma pode fazer bem ao homem.
Não existem necessidades, já que somos todos supridos
a natureza se serve de si mesma,
porque o banquete está sempre posto.
O universo inteiro e sua inexplicável variedade
pulsa. Pulsa e pulsa, ciclicamente;
isso é amor. Pura originalidade.
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SHAUARA DAVID
Plural e Singulares
O doce amargo
Ao Jânio Lima
O equilíbrio foi uma conquista
depois de muitos anos de chumbo
meus ombros também curvaram
acumulando o peso do mundo
confortável é aceitar os fatos
e deixar que eles escorram
sem apegar-se a dor do que não foi
nem à glória do embevecer
desde quando a estrada é uniforme?
Caminhar ainda que os calos reclamem
descansar ainda que o tempo apresse
sempre haverá pedras no sapato
e cinza entre as cores mais alegres
doces amargos invisíveis
a decomposição renasce
de almas
penhascos
e pontes
existíveis.
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SHAUARA DAVID
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