Diário do Alentejo
16 outubro 2015
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Reportagem
Unidade militar de Beja recebeu exercício Trident Juncture 2015
RI 1 apontado como anfitrião
“modelo” pela NATO
O Regimento de Infantaria
n.º1, em Beja, tem sido
palco, ao longo das duas últimas semanas, do Trident
Juncture 2015, tido como
o maior exercício da história recente da NATO. Na espécie de pequena aldeia ali
montada, dentro de uma
zona com medidas de segurança excecionais, um
efetivo médio de 125 militares, representando 22
nacionalidades, pôde apurar e demonstrar competências no âmbito do comando logístico, através de
cenários hipotéticos simulados por computador. Esta
primeira fase da operação,
bem discreta, “sem tropas
no terreno”, termina hoje,
sexta-feira, e deixa boas
recordações aos visitantes.
Que, dizem, vieram encontrar “um modelo de campo
anfitrião”.
Texto Carla Ferreira
Fotos José Serrano
M
udou a designação mas
não a divisa. “Conduta
brava e em tudo distinta”.
É assim que se apresenta a quem
o visita, desde o edifício central, o
Regimento de Infantaria n.º1 (RI 1)
que, apesar de agora aquartelado em
Beja, não deixou cair o lema da unidade que ali funcionou até há bem
pouco tempo, o RI 3, entretanto extinto por decreto do Exército. O processo de transferência de Tavira para
Beja teve início no passado mês de
agosto, mas não têm sido estas as
únicas mudanças na rotina do quartel do Vale do Aguilhão, que, desde
há quase 60 anos, mora a um passo
da capital de distrito.
Agosto foi também o mês em que,
discretamente, a parada, aquela espécie de praça desafogada onde os
militares cumprem as formaturas diárias, e espaço “quase sagrado” para
cerimónias e eventos, se viu transformada numa pequena aldeia multicultural para exercícios militares
ao mais alto nível. Mal os contentores chegaram aos portos próximos,
desde Itália, houve um período de
três semanas para a montagem das
22 tendas de campanha verde militar
que agora vemos devidamente resguardadas por uma cerca debruada a
arame farpado. O aviso, que se exibe
num encarnado proibitivo, é claro:
“Só para pessoal autorizado. Área de
segurança de classe 2”.
Desde finais de agosto que “todo”
o regimento bejense está mobilizado como anfitrião deste que é assumido como “o maior exercício da
história da NATO [North Atlantic
Treaty Organization] desde 2002”,
o chamado Trident Juncture 2015
(TRJE15), cuja primeira fase, que ali
decorre desde o passado dia 3, termina hoje, sexta-feira. O objetivo
principal, segundo a documentação
oficial sobre o evento, é “demonstrar
a capacidade da NATO em planear,
gerar, preparar, projetar e sustentar
forças e meios atribuídos”, estando
envolvida toda a estrutura de comando da Aliança Atlântica e implicados, no global do exercício, que
decorre até 6 de novembro (fase de
treino tático, com “tropa no terreno”,
denominada Livex), 36 mil militares
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das componentes terrestre, marítima e aérea, de mais de 30 países da
Aliança e parceiros. Portugal, a par
de Itália e Espanha, é uma das nações
hospedeiras desta “operação musculada”, o que, na simbologia militar,
é o mesmo que dizer “um exercício
destinado a exercer um grande efeito
dissuasor perante potenciais inimigos”. É esta a mensagem “clara” da
NATO, “em tempos de crise”, como
se pode ler nos documentos explicativos do Trident Juncture 2015.
Beja, além de Santa Margarida,
Pinheiro da Cruz e Troia (onde, no próximo dia 5 de novembro decorrerá uma
demonstração marítima e anfíbia) está
na rota deste importante exercício militar, uma escolha que muito orgulha
o RI 1, que, desde dezembro último,
vem recebendo reuniões preparatórias
e visitas de reconhecimento por parte
do staff do quartel-general da NATO
Joint Force Command Brunssum, na
Holanda, até à instalação das tropas,
em finais de agosto.
“Nós disponibilizámos o espaço e
colaborámos na montagem das tendas e dos equipamentos. A vida das
tropas decorre cá dentro do quartel –
disponibilizámos alojamentos, salas
de reunião, ginásio, serviços de cafetaria, refeitórios”, introduz o comandante, coronel de infantaria Carlos
Faria, de cujo gabinete se pode observar a pequena aldeia interdita, que
tem sido espaço de trabalho para um
efetivo que, salvo as oscilações próprias do exercício, tem rondado os
125 militares, de 22 nacionalidades,
entre as quais a portuguesa, à qual
pertencem 10 elementos, que chegaram para reforço da força internacional. De A a Z, podemos contar
países como a Alemanha, Canadá,
Dinamarca, Espanha, Finlândia,
Noruega ou Turquia.
Beja, cuja Base Aérea n.º11 também está envolvida nas operações,
assume-se como um ponto estratégico, que oferece condições “excelentes” para exercícios desta “envergadura e complexidade”, avança o
coronel, justificando a escolha do regimento que está sob o seu comando.
“Temos aqui excelentes condições. O
RI 1 é, do conjunto das unidades do
Exército, um regimento com infraestruturas que, nos dias de hoje, com
60 anos de idade, é ainda considerado
moderno quando comparado com os
outros regimentos”. E não são apenas tidas em conta as condições internas, ao longo de uma área de cerca
de 20 hectares. É também fulcral a
localização, “fora da cidade mas tão
perto que quase está dentro da cidade”, isto para além da proximidade com “uma base aérea, e de portos como o de Sines e de Setúbal, para
onde convergiram cargas para serem
utilizadas neste exercício”. “Tudo isto
potenciou a utilização do regimento”,
sublinha, dando a palavra ao “pessoal estrangeiro” que, melhor do que
ninguém, poderá avaliar as condições oferecidas pelo anfitrião.
Owen Tudor confirma e ainda
acrescenta pontos. O oficial britânico, que está na missão como comandante de destacamento, garantindo a ligação entre a organização
do exercício e o regimento anfitrião,
tem a seu cargo uma equipa de sete
pessoas, instalada num dos edifícios à entrada do RI 1, onde o acesso
é permitido. “Viemos do quartel-general da NATO, em Brunssum, na
Holanda, e a nossa missão foi criar
em Beja um campo de exercício para
um dos nossos comandos. Temos trabalhado com o regimento para estabelecer as condições necessárias para
que os nossos militares possam trabalhar, eficientemente, e viver aqui
durante estas duas semanas e meia
de exercício”, explica. E não deixa de
sublinhar as “condições de muito boa
qualidade” que veio encontrar no regimento bejense, além da preciosa
ajuda dos soldados “muito competentes” que foram disponibilizados
pelo anfitrião para a montagem das
tendas. “Tudo teve que ser montado
num período muito curto de tempo.
Desde que os primeiros contentores chegaram, de Itália, tivemos três
semanas para instalar o campo, as
tendas, garantir o abastecimento de
energia, instalar os computadores,
com todas as ligações que são necessárias. Isto teria sido impossível apenas com as pessoas desta equipa e
com mais 26 elementos que vieram
dar apoio técnico”.
A parada do RI 1 é o sítio “perfeito”
e com o “tamanho certo” para a instalação do campo de exercício, um cenário que se completa com o facto de ter
à distância de “uns passos” as zonas
de refeitório e alojamento. “Estamos
muito satisfeitos com a experiência”,
conclui o militar inglês.
As operações, na área de segurança de classe 2, não são espetaculares. Aliás, através da cerca fortificada
pouco mais se pode observar do que
alguns militares entrando e saindo
das tendas. Tudo se passa lá dentro,
em cenários simulados por computador, num exercício “sem tropas no
terreno”, informa o tenente-coronel Branquinho, segundo comandante do RI 1. Nesta fase, o que está
a acontecer em Beja é um exercício
de postos de comando (na gíria, em
inglês, Command Post Exercise –
CPX), cujo objetivo, diz a informação oficial, é a certificação da NATO
Response Force 16 (NRF16) e do staff
do quartel-general da NATO Joint
Force Command Brunssum.
“Este exercício, com esta unidade
que aqui está, é do âmbito logístico.
E é assistido por computador, sendo
simulados alguns dos incidentes
As operações, na
área de segurança
de classe 2, não
são espetaculares.
Aliás, através da
cerca fortificada
pouco mais se pode
observar do que
alguns militares
entrando e saindo
das tendas. Tudo se
passa lá dentro, em
cenários simulados
por computador,
num exercício
“sem tropas no
terreno”, informa
o tenente-coronel
Branquinho,
segundo
comandante do RI 1.
que podem acontecer na realidade”,
prossegue o segundo comandante,
descrevendo uma situação hipotética respeitante à componente logística. “Imaginemos que é necessário
fazer uma assistência com materiais
num determinado país. Mas, entretanto, um determinado porto, devido a uma detonação, deixou de estar operacional. Ora, este incidente
é criado no sistema e tem que se encontrar uma solução para abastecer
as tropas que estão, se calhar, a dois
ou três mil quilómetros de distância,
e que têm que ter os meios logísticos
para apoio. Todo o planeamento estava feito para aquele porto, com desembarque naquele porto, entretanto
houve um problema e tem que se arranjar uma solução alternativa para
que as tropas que estão no terreno
consigam, de alguma forma, cumprir as suas missões”.
Voltando ao RI 1 e ao seu envolvimento neste exercício, o coronel
Carlos Faria não esconde o “imenso
trabalho” que tal implica para o seu
efetivo, sobretudo nesta fase de mudança de Tavira para Beja, que ainda
não terminou. Ter dentro de muros
uma área de segurança de classe 2 implicou, em primeiro lugar, a revisão de
“todos os nossos planos de segurança
e a sua atualização para que estivessem em conformidade com as exigências de um exercício desta natureza”,
reconhece o comandante do RI 1. E,
além disso, obrigou ao pedido de reforços junto de outras unidades, nomeadamente do Regimento de Lanceiros
n.º 2, com 16 elementos da Polícia do
Exército para garantir a segurança
na área interdita, e do Regimento de
Cavalaria n.º 3, que disponibilizou 27
militares “prontos, com uma força
de reação, para intervir em qualquer
acontecimento na área do regimento”.
Por último, são também a “cidade
e a região” que veem a sua rotina alterada, e também num sentido positivo. “Os hotéis estão cheios” garante,
com os elementos civis e militares
que não estão a pernoitar no RI 1, e
foi também “contratado pessoal civil
aqui de Beja e da nossa região” para o
trabalho de retaguarda, ou seja, para
os serviços de limpeza e de cozinha.
Os visitantes estão hoje de abalada mas vão satisfeitos, a avaliar pelo
sorriso grato do oficial inglês Owen
Tudor. Para ele, a unidade militar
de Beja é “um modelo de campo anfitrião para os exercícios na NATO”.
A prova de fogo parece estar superada e, para o comandante Carlos
Faria, fica a “garantia de que, no futuro, este regimento vai continuar a
ser uma mais-valia do Exército, das
Forças Armadas, para a realização de
atividades militares como esta”.
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Diário do Alentejo Nº 1747 ~ 16 de outubro de 2015