1 CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL HABILITAÇÃO EM JORNALISMO ALEXSANDRA CATHERINNE MAGALHÃES MONTENEGRO LITERATURA, JORNALISMO E O DISCURSO DA VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE DO LIVRO A SANGUE FRIO FORTALEZA 2013 2 ALEXSANDRA CATHERINNE MAGALHÃES MONTENEGRO LITERATURA, JORNALISMO E O DISCURSO DA VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE DO LIVRO A SANGUE FRIO Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social da Faculdade Cearense como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharela em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, sob a orientação da Profa . Espa. Klycia Fontenele Oliveira. FORTALEZA 2013 3 ALEXSANDRA CATHERINNE MAGALHÃES MONTENEGRO LITERATURA, JORNALISMO E O DISCURSO DA VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE DO LIVRO A SANGUE FRIO Trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de Bacharela em Jornalismo, outorgado pela Faculdade Cearense – FaC, tendo sido aprovado pela banca examinadora composta pelos professores. Data de aprovação: ____/ ____/ ____ Monografia apresentada à Banca Examinadora: ____________________________________ Profa . Espa. Klycia Fontenele Oliveira (Orientadora) ____________________________________________ Profa . Lenha Diógenes (Examinadora) ____________________________________________ Profa . Espa. Ana Luíza Almeida do Monte (Examinadora) FORTALEZA 2013 4 M772l Montenegro, Alexsandra Catherinne Magalhães Literatura, jornalismo e o discurso da violência: uma análise do livro a sangue frio / Alexsandra Catherinne Magalhães. Fortaleza – 2013. 83f. Il. Orientador: Profª. Esp. Klycia Fontelene Oliveira. Trabalho de Conclusão de curso (graduação) – Faculdade Cearense, Curso de Comunicação Social, com Habilitação em Jornalismo, 2013. 1. Novo jornalismo - literatura. 2. Discurso da violência. 3. Análise de discurso – a sangue frio. I. Oliveira, Klycia Fontelene. II. Título CDU 070 Bibliotecário Marksuel Mariz de Lima CRB-3/1274 5 “O jornalismo é, antes de tudo e, sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.” (Cláudio Abramo) “Jornalismo e literatura são irmãos gêmeos que nasceram muito diferentes e que hoje são mais parecidos do que nunca.” (Zuenir Ventura) 6 AGRADECIMENTOS Muitos contribuíram para este sonho se tornar realidade, pois não conseguimos conquistar nada sozinhos. Portanto, nas próximas linhas, expresso meus sinceros agradecimentos aos que de alguma forma me ajudaram a chegar aqui. À minha mãe, Edwa Magalhães Montenegro, que sempre esteve ao meu lado em todos os momentos da minha vida, com o amor que só uma mãe pode oferecer, além de seu apoio moral e financeiro que foram imprescindíveis para a conclusão do curso. À minha querida irmã, Waleska Montenegro Moreira Sampaio, por sempre me incentivar a estudar e a ler e mesmo sem saber, foi quem mais me incentivou, torcendo pelo meu crescimento e sucesso, mostrando-se sempre um pouco irmã e um pouco mãe. Aos meus verdadeiros amigos, Antônio Lucas Silva, Leandro Alencar Alves e Júnior Rocha, que são os irmãos que Deus me permitiu escolher, por todas as conversas, confidências e risadas, o que eu sou hoje devo em parte a vocês. Às minhas amigas de faculdade, Marcília Sousa, Jorsandra Cunha, Karol Miranda, Maila Gomes e Gessika Vasconcelos, que trilharam comigo um caminho árduo, mas gratificante, obrigada por me proporcionarem tantos momentos felizes e de boas gargalhadas, além de compartilharem comigo o grande amor pelos livros. Aos professores, que ao longo desses quatro anos muito me ensinaram e contribuíram para a profissional que me tornei. À minha querida orientadora, Klycia Fontenele Oliveira, por quem tenho uma grande admiração, tanto pela professora, quanto pela pessoa que é. Por sua paciência comigo, por me apoiar na escolha do meu tema, por me escutar nas horas de desespero da monografia, por sua dedicação e atenção e por tratar seus alunos com respeito e amor, motivos esses que fazem com que seja uma das professoras mais queridas da faculdade. Ao bom Deus, por me dar forças para conquistar esse sonho e não me deixar desistir, colocando pessoas especiais no meu caminho e me tornando forte, para realizar todos os meus sonhos. Ao meu amado irmão, Alfredo Azevedo Montenegro Neto (in memoriam), que me proporcionou felizes lembranças de minha infância e tenho certeza de que, onde estiver, estará levando a alegria de suas brincadeiras e irradiando a bondade que sempre fez parte dele, nunca lhe esquecerei, presente em meu coração para sempre. 7 RESUMO O presente trabalho realiza uma análise de discurso do livro A Sangue Frio, de Trumam Capote – publicado em 1965, nos Estados Unidos – para refletir sobre como o livro em questão, cuja narrativa é própria do Novo Jornalismo, apresenta o discurso da violência. Para tanto, apresentam-se alguns pressupostos teóricos da relação entre jornalismo e literatura, e entre mídia e violência. Tendo como ponto de partida a leitura de diversos autores, entre eles, Amoroso Lima (1990), Marques de Melo (2003), Felipe Pena (2006), Aparecida Baccega (1998) e Carlos Vicchiatti (2005). Ao final, é possível encontrar elementos ficcionais nos textos de jornalismo e os fatos reais no literário, concluindo-se que a partir da relação entre Jornalismo e Literatura, tem-se o chamado jornalismo literário que trás de forma inovadora uma visão muito mais ampla e completa da notícia para o leitor. Diante da análise do livro que aborda o tema da violência, ficam evidentes em seu discurso, as semelhanças e diferenças entre esse tema tratado no jornalismo literário e na mídia comum. No livro, os detalhes estão desde a forma como Capote pesquisou suas informações, as conversas com as fontes e o envolvimento com o caso. Percebe-se a diferença com que a mídia padrão tratou do assunto, uma vez que a exploração das vítimas e dos assassinos só aumentou a dramaticidade, além disso, o livro ressalta o despreparo desses jornais, estampando nas manchetes títulos que não eram coerentes com os acontecimentos, apenas visavam à vendagem e ao sensacionalismo. Em consequência, um jornalismo baseado somente no sensacionalismo e no exagero, peca por não se comprometer com a busca pela verdade e a formação social, já que a base do jornalismo está em levar a informação para as pessoas, de forma clara e justa. Palavras-chave: Literatura. Novo Jornalismo. Discurso da Violência. Análise de Discurso. A Sangue Frio. 8 RESUMEN El presente trabajo realiza un análisis de discurso del libro A Sangue Frio, de Trumam Capote, – publicado en 1965, en los Estados Unidos – para reflejar sobre como el libro en cuestión, cuya narrativa es propia del Nuevo Periodismo, presenta el discurso de la violencia. Para tanto, se presentan algunos presupuestos teóricos de la relación entre periodismo y literatura, y entre prensa y violencia. Teniendo como punto de partida la lectura de diversos autores, entre ellos, Amoroso Lima (1990), Marques de Melo (2003), Felipe Pena (2006), Aparecida Baccega (1998) y Carlos Vicchiatti (2005).. Al final, es posible encontrar elementos ficcionales en los textos de periodismo y los hechos reales en el literario, concluyéndose que a partir del Periodismo y de la Literatura, se tiene el nombrado periodismo literario que tras de forma innovadora una mirada mucho más amplia y completa de la noticia para el lector. Delante de la análisis del libro que aborda el tema de la violencia, se pone en evidencia en su discurso, las semejanzas y diferencias entre ese tema tratado en el periodismo literario y en la prensa común. En el libro, los detalles están desde la forma como Capote investigó sus informaciones, las charlas con las fuentes y el envolvimiento con el caso. Se percibe la diferencia con que la prensa patrón trató del asunto, una vez que la exploración de las víctimas y de los asesinos sólo aumentó el catastrofismo, además, el libro pone en relieve la falta de preparación de esos periódicos, presentando titulares que no eran coherentes con los acontecimientos, sólo miraban a la venta y al sensacionalismo. En consecuencia, un periodismo basado solamente en el sensacionalismo y en el exagero, peca por no se comprometer con la búsqueda por la verdad y la formación social, ya que la base del periodismo está en llevar la información para las personas, de forma clara y justa. Palabras-llave: Literatura. Nuevo Periodismo. Discurso de la Violencia. Análisis de Discurso. A Sangue Frio. 9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................10 2 O ENCONTRO DOS GÊNEROS .....................................................................................11 2.1 Entre a realidade e a arte ...................................................................................................11 2.2 Conhecendo o Jornalismo Literário ..................................................................................18 3 INFORMO, LOGO OPINO ..............................................................................................26 3.1 Discursar é necessário ........................................................................................................26 3.2 As duas faces do discurso ..................................................................................................29 3.3 Sensacionalismo ou realidade? ..........................................................................................31 4 INVESTIGANDO Á SANGUE FRIO ..............................................................................37 4.1 Por dentro da obra ..............................................................................................................37 4.1.1 O New Gênero ................................................................................................................39 4.2 Para além do jornalismo, para além da literatura ..............................................................40 4.3 Ao analisar, conclui-se ......................................................................................................58 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................61 6 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................62 ANEXOS .................................................................................................................................65 10 1 INTRODUÇÃO Este trabalho tem como objetivo analisar o discurso da violência no livro A Sangue Frio, de Truman Capote, com base nos conceitos do jornalismo e da literatura, uma vez que estamos tratando de uma obra do jornalismo literário. O tema foi escolhido por ser um assunto que sempre me fascinou, além de unir minhas duas maiores paixões: jornalismo e livros. A pesquisa bibliográfica foi utilizada para compor a metodologia da análise do discurso, envolvendo um levantamento de referências, que permitiu conhecer melhor o assunto estudado. Para isso, no primeiro capítulo, foram necessários autores como Cristiane Costa (2005), Alceu Amoroso Lima (1990) e Marques de Melo (2003), que serviram para conceituar e caracterizar jornalismo e literatura. Desse modo, possibilitou-se fazer um parâmetro para o jornalismo literário e suas técnicas, identificando as semelhanças e diferenças entre jornalismo convencional e literário. Já no segundo capítulo, ao abordar o tema da mídia e seu discurso, refletiu-se sobre como a violência é apresentada, através do discurso midiático, em especial sobre como o sensacionalismo é muitas vezes adotado de forma exagerada e maliciosa. Para dar embasamento a essa abordagem, construiu-se um diálogo com os autores: Ana Rosa Ferreira Dias (2003), Michel Foucault (1996), Carlos Alberto Vicchiatti (2005), entre outros. No terceiro capítulo, analisaram-se trechos do livro, a partir de questionamentos que levam à reflexão sobre o papel do jornalista na comunicação com a sociedade. Dominique Maingueneau (2010) e Marilena Chauí (2006) foram autores cujos estudos fundamentaram pensamentos na análise em questão. A escolha do livro foi propositalmente feita com o intuito de demonstrar claramente a sutil diferença entre o jornalismo padrão e o jornalismo literário, por muitas vezes, este último ser descriminado ao ter seus métodos descredenciados. Desde que me foi viável conhecer o jornalismo mais profundamente, fui despertando para outras possibilidades de levar a informação com meu próprio estilo de escrita. Antes de tudo, o jornalismo tem como papel social não apenas informar, mas também conscientizar as pessoas de forma clara e objetiva, uma vez que dentre suas principais características destacam-se o respeito e a confiança. Nas considerações finais abordou-se o papel do jornalismo literário para com a sociedade, uma vez que é possível notar vários aspetos de um fato, sem que seja feito um julgamento pré-estabelecido por parte da mídia. 11 2 O ENCONTRO DOS GÊNEROS Este capítulo apresenta discussões relacionadas ao gênero Jornalismo Literário, com base em autores como Vicchiatti (2005), Olinto (1960), Lima (1990) e Costa (2005). Inicialmente, apresenta-se breve histórico da literatura e do jornalismo, abordando o conceito de ambos os gêneros e, em seguida o surgimento do jornalismo literário. Discute-se, ainda, uma conceituação da prática jornalística, relacionada à pauta, apuração da notícia e escrita, desenvolvendo uma reflexão sobre o jornalismo literário. Tais discussões são importantes, pois este trabalho pretende analisar o discurso da violência no livro A Sangue Frio, de Truman Capote. 2.1 Entre a realidade e a arte Ao longo da história, a relação entre jornalismo e literatura foi discutida por pesquisadores que buscam conceituar os dois gêneros, traçando divergências e consensos entre ambos. O jornalismo trazia a informação baseada no que estava acontecendo de mais importante nas ruas. Os acontecimentos do mundo real serviram como pano de fundo para que a ficção acolhesse esses relatos verídicos e contasse na sua versão os fatos. É importante, portanto, considerar os dois gêneros, jornalismo e literatura, para que se possa entender o que eles representam separadamente, além do que os une, e assim, ser possível captar a sutil união de jornalismo e literatura, importante para este estudo. Os dois gêneros estão conectados através das palavras e do que elas representam. Para Lima (1990, p. 43), “a palavra, como natureza, é um simples instrumento de comunicação. Como arte é um meio de transmissão, com caráter de fim. É arte da palavra. É literatura.”. A palavra literatura, segundo o dicionário Michaelis, refere-se ao “conjunto de conhecimento e competências para escrever e ler bem”, relacionando-se, assim, com a arte da retórica e da poética. Este termo também é usado para definir o conjunto das produções literárias de um país, de uma época ou de um gênero. [...] não exclui nem a verdade, nem o bem, nem a história, nem a autobiografia, nem a filosofia, nem as ciências, nada. Tudo é literatura desde que no seu meio de expressão, a palavra, haja uma acentuação, uma ênfase no próprio meio de expressão, que é seu valor de beleza (LIMA, 1990, p. 36-37). A definição de literatura, para Jorge Wanderley (1992), confunde-se com a definição de estética, onde gosto e ideologia estão ligados, dificultando assim, “saber em que momento um texto jornalístico, por exemplo, (e por definição não-literário, não-artístico) 12 passe a apresentar, por méritos de seu autor e/ou de sua feitura, características que façam dele um texto literário – vale dizer, um texto artístico.” (WANDERLEY, apud JOBIM, 1992, p. 253). A literatura, porém, acaba sendo não somente um conceito estético, mas também, um produto social, como afirma Candido (1967), ao dizer que a literatura relata a realidade no contexto ao qual está inserida, independente do seu escritor. A literatura, por conseguinte, “depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais.” (CANDIDO, 1967, p. 24). Com o passar dos anos, a literatura foi se moldando e ganhando espaço ao se manifestar de acordo com os acontecimentos da época. O romantismo e o modernismo, de acordo com Candido (1967), foram momentos de extrema importância para a literatura, ao construir uma ciência literária. Convém assinalar que a Literatura brasileira no século XX se divide quase naturalmente em três etapas: a primeira vai de 1900 a 1922, a segunda de 1922 a 1945 e a terceira começa em 1945. A primeira etapa pertence organicamente ao período que se poderia chamar Pós-romântico e vai, grosso modo, de 1880 a 1922, enquanto as duas outras integram um período novo, em que ainda vivemos: sob este ponto de vista, o século literário começa para nós com o Modernismo (CANDIDO, 1967, p. 133). Passado o Modernismo, começou o que Santiago (1967) chamou de “anos democráticos”, quando a literatura volta-se para o desenvolvimentismo, com influência da industrialização e tecnologias. Com a ditadura em 19641, a literatura invadiu os jornais para refletir sobre o poder na sociedade e, como afirma Santiago (1967) esse período na história literária encerra o Modernismo para começar o que se chamou de literatura Pós-Moderna cuja influência maior vem do realismo da década de 1930. O que não é estranho é que, sendo exercida majoritariamente por jornalistas, essa Literatura tenha tomado emprestado da imprensa várias de suas técnicas. Esse misto de ficção e Jornalismo podia resultar numa Literatura esteticamente inovadora, como o caso de A Festa2, de Ivan Ângelo. Ou gerar um faction [grifo nosso], 1 A Ditadura Militar foi o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. 2 A Festa, romance de Ivan Ângelo, publicado em 1976, é uma obra que discorre, através de artimanhas e gradativos jogos de revelações, uma festa que está o tempo todo implícita. O autor utiliza metáforas para explorar o cotidiano de um Brasil sob a ditadura, temas como a censura, cerceamento da privacidade das pessoas e violência são exploradas com naturalidade, além de romance. 13 acrescentando ao fato um pouco de ficção, caso do romance-reportagem3 (COSTA, 2005, p. 156). Essa literatura, que se estendeu na época, além de atrair um grande público, também deu início a uma narrativa baseada não mais na ficção. Mas sim, nos fatos e em fontes, relatando o que acontecia em plena época de censura, chamada por Costa (2005) de “literatura nova”. Houve uma primeira e camuflada resposta da Literatura às imposições do regime militar: a prosa de intriga fantástica e estilo onírico em que o intrincado jogo de metáforas e símbolos transmitia uma crítica radical das estruturas de poder no Brasil, tanto a estrutura ditatorial centrada em Brasília como as microestruturas que reproduziam no cotidiano o autoritarismo do modelo central. Houve ainda o romance-reportagem (com nítida influência da faction de Truman Capote e outros, mistura de fact e fiction), em que se denunciavam os arbítrios da violência militar e policial nos anos duros do AI-5 4, arbítrios estes que tinham sido escondidos da população em virtude da censura imposta às redações de jornal e aos estúdios de televisão (SANTIAGO, 1989, p. 32). É nessa época que as redações de jornais são tomadas por profissionais do jornalismo, desligando-se dos escritores literários que escreviam para os jornais antes, tornando, segundo Costa (2005), os próprios jornalistas protagonistas de suas histórias. Entre os anos 60 e 80 [século XX], por ser menos censurada, a Literatura passou a exercer a função de informar, própria do Jornalismo. “Se nos jornais e meios de comunicação de massa a informação era controlada, cabia à Literatura exercer uma função parajornalística” aponta Flora Süssekind (COSTA, 2005, p. 154). Essa nova literatura sofre influência da literatura americana, que passava por uma fase realista e os escritores literários usavam de técnicas do jornalismo nos seus textos, como a apuração dos fatos e as técnicas de investigação, sendo chamado assim, de New Journalism, sobre o qual falaremos mais adiante. O início do jornalismo está atrelado à literatura, mas para se entender melhor essa relação, faz-se necessário voltar para quando o jornalismo começou, e mostrar que não foi meramente ao acaso que a literatura e o jornalismo se interligaram em dado momento da história. 3 Romance-reportagem é uma linguagem lida como romance, porém, mantendo-se fiel aos fatos, garantindo conceitos objetivos moldados pela subjetividade da narrativa. 4 O AI-5 (Ato Institucional número 5) foi o quinto decreto emitido pelo governo militar brasileiro (1964-1985). É considerado o mais duro golpe na democracia e deu poderes quase absolutos ao regime militar. Redigido pelo então ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, o AI-5 entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do então presidente Artur da Costa e Silva. 14 Segundo historiadores, o início do jornalismo se deu através dos grandes governantes da idade média, como Júlio César e outros militares que tinham o intuito de informar ao povo suas conquistas militares e, à medida que a tecnologia cresceu, essa forma de comunicação também fez avanços pelo mundo todo. A palavra Jornalismo significa hoje, todas as formas nas quais as notícias e seus comentários chegam ao público. Todos os acontecimentos mundiais, desde que interessem ao público, e todo o pensamento, ação e ideias que esses acontecimentos estimulam, constituem material básico para o jornalismo (BOND, 1962, p. 15). Com a profissionalização do jornalismo no século XVII, começou a surgir uma necessidade de regulamentar a profissão e assim, surgia o conceito da Liberdade de Imprensa, envolvendo o compromisso com a realidade e o combate a difamação. Ao mesmo tempo em que acontecia essa modernização, surgia também o telégrafo, que possibilitava aos profissionais do jornalismo repassar seus textos para a redação em minutos, permitindo que a imprensa se tornasse mais ágil e assim as notícias fossem transmitidas praticamente na mesma hora. O jornalismo traz um fato real e a literatura uma realidade com traços da ficção. Lima (1990) aponta que os textos jornalísticos são literários, assim como a crítica, a biografia e a conversação. “Trata-se apenas de um andaime. De uma caderneta de campo. De um rascunho. Não tem a mínima pretensão a ser uma carta de marear, de terrear ou de arear para pilotos. É apenas um roteiro primitivo para uso próprio.” (LIMA, 1990, p. 42). A imprensa chegou tardiamente ao Brasil e isso só foi mudado a partir do século XX. Já o começo das preparações acadêmicas dos profissionais de jornalismo, ocorreu no fim dos anos 1940, esses estudos, porém, não eram voltados para técnicas jornalísticas e sim, para temas como política e ética (MARQUES DE MELO, 2006). Os homens de letras buscavam encontrar no jornal o que não encontravam no livro: notoriedade, em primeiro lugar; um pouco de dinheiro, se possível. O Jornal do Comércio pagava as colaborações entre 30 e 60 mil réis; o Correio da Manhã, 50. Bilac e Medeiros de Albuquerque, em 1907, tinham ordenados mensais, pelas crônicas que faziam para a Gazeta de Notícias e O País, respectivamente; em 1906, Adolfo Araújo oferecia 400 mil réis por mês a Alphonsus de Guimaraens para ser redator de A Gazeta, em São Paulo (SODRÉ, 1977, p. 334). Ao mesmo tempo em que o jornalismo se tornava mais técnico, também existia a preocupação de passar as notícias de uma forma clara para todos. Essa também era outra diferença entre jornalismo e literatura, já que o jornalismo tende a usar uma linguagem simplificada que aproxima o leitor do entendimento dos textos jornalísticos, enquanto a 15 literatura faz uso de uma linguagem cuja preocupação estética predomina, tornando-a poética. Assim, a Literatura é sem dúvida o domínio privilegiado em que a linguagem se exerce, se precisa e se modifica. Do mito à Literatura oral, do folclore e da epopeia ao romance realista e à poesia moderna, a linguagem literária oferece uma diversidade cujos gêneros são estudados pela ciência literária, mas continua a estar unida por uma mesma e única característica que a diferencia da linguagem e da comunicação simples (KRISTEVA, op. Cit., 1969, p. 399). No Brasil, a questão econômica também foi outro fator para a ligação entre o jornalismo e a literatura, uma vez que muitos escritores tinham dificuldade em viver somente da literatura e ao escrever para jornais, ganhava-se tanto notoriedade quanto a garantia de pagamento, muito incerto no mercado literário da época. Como ressalta Costa (2005), ao dizer que o escritor acabava alugando sua escrita para os jornais, a fim de ter uma forma para se sustentar, às vezes, até deixando a literatura pela falta de tempo para se dedicar a ambas as escritas. Assim, com a predominância de escritores no jornalismo, a literatura estava marcada nos textos de jornal, distanciando-se somente quando o jornalismo passa a se tornar mais profissionalizado e a procura por jornalistas tornou-se mais frequente, fazendo com que a literatura perdesse seu espaço nas redações. Começava então um jornalismo mais comercial, para o qual características foram impostas, baseadas na: atualidade, universalidade, fidelidade aos fatos, publicidade, multiplicidade e natureza institucional (BOND, 1962). O que, segundo este autor, são regras que levariam o leitor à formação de opinião. São quatro leis que regem o fenômeno: atualidade, periodicidade, universalidade e difusão. Com isso, nenhuma pauta é processada se não tiver “gancho”, gíria de redação para, de uma só tacada, qualificar o fato de atualidade e universalidade (amplo interesse humano, para além das próprias barreiras locais, regionais, nacionais). Por outro lado, se não mantiver o ritmo dessa presentificação, através da periodicidade, não se sustenta nem economicamente como empresa jornalística nem quanto à credibilidade na recepção do mercado. É também da natureza da comunicação coletiva contemporânea o propósito de que seu produto se difunda ao maior número possível de indivíduos ou coletividades (MEDINA, 2008, p. 22). Essas características estão relacionadas diretamente com o objetivo do jornalismo, que, segundo Bond (1962), serve para difundir a informação, tendo como função informar, interpretar, entreter e orientar o leitor. Para tanto, é necessário trabalhar muito em cima da notícia, uma vez que a objetividade 5 é de suma importância para um texto jornalístico. 5 Objetividade entendida como a correspondência entre realidade social e realidade midiática (Bentele, 1988) é um dos princípios centrais do jornalismo. A idéia de objetividade em jornalismo está diretamente ligada à função deste como mediador entre a realidade social e o público. 16 O caráter efêmero do texto jornalístico não implica que ele seja estilisticamente pobre e descuidado, como pensam algumas pessoas, pois em geral ocorre justamente o inverso. Para funcionar jornalisticamente, uma notícia precisa ser trabalhada e retrabalhada muitas vezes, até chegar a um nível desejável de objetividade. A compreensão de qualquer matéria é condição indispensável à sua publicação. Frases herméticas, períodos longos e cheios de adjetivos ou com palavras inusitadas devem ser sistematicamente evitadas (ERBOLATO, 2008, p. 107). Entrando em um jornalismo mais técnico nas apresentações da redação jornalística, Erbolato (2008) nos exemplifica certas regras impostas como padrão para o texto jornalístico, tais como: pirâmide invertida, forma literária (conhecida como pirâmide normal) e sistema misto. A regra mais utilizada é a da pirâmide invertida, cujas principais informações são colocadas logo no primeiro parágrafo, oferecendo assim um resumo dos fatos mais importantes. Já a forma literária traz detalhes da notícia na introdução e logo em seguida, os fatos importantes e o final da matéria. A terceira regra seria o sistema misto, mostrando os fatos relacionados em ordem cronológica do acontecimento. Segundo Vicchiatti (2005), o jornalismo de redação acaba não se comprometendo com a sociedade, além de não mostrar soluções aos problemas da coletividade no qual vivemos e que a preocupação em somente informar de qualquer maneira, acaba comprometendo um bem de interesse público. Esses valores e essas técnicas cumprem bem sua função naquele segmento do Jornalismo dedicado a registrar, de modo puramente informativo, um fato social. [...] Nem sempre percebe, claramente, que a base dessa abordagem, proveniente dos procedimentos científicos de mais de um século atrás e de perspectivas filosóficas empoeiradas no tempo, está sendo questionada em vários núcleos de pensamento científico e filosófico que propõe um novo conjunto de valores e premissas para a atuação do homem em busca da compreensão de si mesmo, bem como do mundo que o rodeia (LIMA, 2000, p. 26). Marques de Melo (1985) aponta certos “valores” adquiridos no jornalismo de hoje, como o mecanismo e a atualidade, os quais obrigam os veículos de imprensa a trabalharem em cima do tempo. Desse modo, o jornalismo se modernizou junto com seu tempo e consequentemente atribuiu valores para sua atividade e esses valores acabam se unindo às obrigações estipuladas pelo jornalismo de hoje, que tem como alvo o público. Vicchiatti (2005) aponta ainda que o jornalismo deve ser voltado para seu objetivo principal na sociedade, que seria o de integração. Ao se prender muito às técnicas e às necessidades do mercado, acaba deixando de se importar com a informação que está sendo passada, dificultando uma abordagem mais ampla. 17 Se os gêneros são determinados pelo estilo e se este depende da relação dialógica que o jornalista deve manter com o seu público, aprendendo seus modos de expressão (linguagem) e suas expectativas (temáticas), é evidente que a sua classificação restringe-se a universos culturais delimitados (MELO 1985, p.33). Lima (2000) diz que o jornalismo nasceu dos valores intrínsecos à sociedade, onde também com o tempo foi se transformando e adotando técnicas, conhecidas como a “linguagem jornalística”, ou jornalismo convencional. A “factualidade” é outro valor tido como sagrado nas redações dos veículos impressos e nas emissoras do jornalismo eletrônico de nossos dias. A notícia – unidade primordial de informação, a partir da qual a mensagem jornalística é construída – bem como outras modalidades de expressão do relacionamento jornalístico, como a reportagem, o comentário, o ensaio, tomam o fato social como matéria- prima vital para sua razão de ser (LIMA, 2000, p. 31). Assim, a instantaneidade dos fatos tornou-se de suma importância para o jornalismo, já que as notícias, que são a base jornalística, podem ser transmitidas rapidamente, junto com a participação do indivíduo, logo, complementando a função do jornalismo. Jornalismo e literatura são gêneros distintos, que apesar de terem semelhanças, possuem métodos e características muito específicas. As relações entre eles sempre foram motivo de estudos de várias pesquisas. Mendel (2002) defende o uso do jornalismo com a literatura, visando à qualidade dos textos. O autor acredita que os que preferem usar das técnicas de jornalismo literário, assimilam a humanização e a concisão jornalística. Portando, o uso da literatura nos textos jornalísticos instigam os leitores, já que “as representações ficcionais da realidade permanecem no imaginário por muito tempo do que as narrativas baseadas em compromissos com a verdade factual, como é o caso do jornalismo.” (PENA, 2006, p. 117). Os repórteres devem seguir o caminho inverso e serem mais subjetivos. Não precisam ter a personalidade apagada e assumir a encarnação de um chato de pensamento prosaico e escravo do manual de redação. O texto deve ter valor estético, valendo-se sempre de técnicas literárias (PENA, 2006, p. 54). Dentre as características do jornalismo literário, Pena (2006) ressalta o tom informal com elegância estilística e o desejo de se expressar livremente, aproximando assim o escritor do leitor, com a realidade contada. Pois, ao ter mais liberdade para se expressar, também será apurada a criatividade e as palavras serão mais aproximadas do leitor, que se identificará ou sentirá uma empatia pela situação ocorrida ou pelos personagens dessa obra do jornalismo literário. 18 Segundo Piza (2002), o jornalismo literário quase não é aproveitado nos jornais brasileiros devido ao medo de fugir do padrão, do convencional. Precisa-se perder esse medo de usar a ironia, o lirismo, o óbvio, para que se comece uma nova mudança. Para ser mais exata, Vicchiatti (2005) explica as frequentes dúvidas entre jornalismo e literatura, abordando a humanização no texto: “O que parece suscitar dúvidas na maioria dos teóricos que veem barreiras, e não limites, entre a literatura e o jornalismo, é a chamada humanização dos textos e o uso de outros recursos que buscam conferir veracidade aos fatos que estão sendo narrados.” (VICCHIATTI, 2005, p. 91). Logo, quando os profissionais de jornalismo tiverem espaço longe de textos préestabelecidos e consequentemente se expressarem de forma mais própria, as futuras produções começarão a ser elaboradas com mais aproveitamento por parte das redações, que também se beneficiarão com bons textos. Para Castro (2002) jornalismo e literatura são gêneros bem parecidos, já que ambos trabalham com palavras e comunicam uma história, além disso, o jornalista não deixa de ser um escritor. Para o autor, escritor jornalista ou jornalista escritor procuram a mesma finalidade, seja em uma reportagem ou em um poema, esse é o futuro, a união dos dois gêneros em busca do mesmo interesse. Entende-se então, que desde muito tempo, os escritores de literatura e os profissionais de jornalismo eram os mesmos, uma vez que esses escritores escreviam para os jornais, antes de serem substituídos por jornalistas mais técnicos e assim, começava a ligação entre ambos os gêneros. Logo, veremos no próximo tópico o resultado dessa união de gêneros. 2.2 Conhecendo o Jornalismo Literário Para alguns, jornalismo e literatura possuem características que se confundem e se completam, principalmente no século XIX, quando era, segundo Montoro (1973, p. 44), “difícil encontrar um escritor que não fosse jornalista, e a história do Jornalismo conta com múltiplas participações diretas de escritores, tanto na gênese do meio de comunicação como em seu desenvolvimento.”. Como aborda Marcondes Filho (2000), na história da imprensa brasileira, a influência da literatura esteve presente ao ser usada para relatar o que acontecia nas ruas, sem sofrer censuras. Ao traçar um quadro evolutivo sobre as fases do jornalismo, este autor apontou um jornalismo feito em 1930, que era caracterizado pelo conteúdo literário e político, usando de textos críticos e feitos por escritores e intelectuais que dentro das redações determinavam a linguagem e o conteúdo dos jornais. 19 Desde o romantismo, desde Vítor Hugo tende a ser, simplesmente, reportagem impressionista e documentada. É a sua força. A poesia conservou-se no ideal, e por isso, como bem disse Clóvis, tem os seus moldes gastos. – Ainda outro dia um homem, para fazer sucesso em verso na França, teve que fazer uma reportagem poética sobre a vida dos galinheiros […] (RIO, 1994, p. 296). Para Gastão (1959), o texto jornalístico exige certos requisitos como clareza e concisão. Mas isso não deve prejudicar a criação desses textos. Ainda segundo este autor, o jornalista não pode se preocupar somente com o estilo, para assim, convertê-lo em uma literatura diária. Desse modo, o jornalismo se direciona para um campo mais comercial, com uma tendência empresarial, que visava ao faturamento com as notícias publicadas, motivo esse que levou o jornalismo a ser mais conciso, perdendo as formas da literatura inseridas pelos escritores da época. Alguns autores questionam o futuro do jornalismo e o empobrecimento de seus textos. Vicchiatti (2005) reflete o cotidiano mecânico do jornalismo e o despreparo para com a carência de reflexões da sociedade ao ler as notícias nos jornais. É necessário então, que o jornalista esteja cada vez mais preparado em vários setores, para que dessa forma, seja capaz de abordar os diversos ângulos das informações, interpretando a notícia por ele produzida. Cada vez mais se exigirá do profissional um pleno conhecimento do setor temático de sua responsabilidade para transmitir, pela televisão e pelo rádio, as informações essenciais do dia ou conduzir entrevistas e debates. Ou para ser capaz de investigar, contextualizar ou interpretar acontecimentos e processos no jornal impresso, que penosamente vai descobrindo, após a perda do controle do fato em bruto, alternativas mais nobres e sofisticadas de informação, para assegurar a sua sobrevivência (VICCHIATTI, 2005, p. 102). O jornalismo é composto por todos os fatos que, para alguém, acaba sendo pertinente e informativo. Seria, então, uma busca por tudo que possa ter significado no cotidiano. O importante para um, não é para outro, mas ainda é para alguém, com isso, faz-se necessária uma análise mais aprofundada do tema. Considera-se ainda o seguinte, com referência às notícias, elas têm importância quando algo ocorre pela primeira vez e desperta pouco interesse durante a rotina. Um serviço público, ao ser inaugurado com extinto, constitui boa matéria jornalística, porém, poucas vezes a imprensa se preocupará em falar sobre ele, durante os anos em que funcionar, a menos que apresente irregularidades e provoque indignação dos usuários (ERBOLATO, 2008, p. 60). Durante as décadas de 1960 e 1970, o regime militar no Brasil perseguiu vários jornalistas, mas isso não foi motivo para que eles deixassem de escrever sobre o que estava acontecendo no país naquela época. Muitos publicaram livros que tinham características literárias, mas baseados em fatos e personagens reais. Respeitando porém o jornalismo, mas 20 com uma narrativa nos moldes da ficção. Assim, os autores relatavam o que queriam dizer, ao mesmo tempo em que fugiam da censura. Logo, o jornalismo literário adquiria a função de abordar assuntos sobre manifestações e a insatisfação da sociedade, em forma de crônicas e críticas nas obras literárias publicadas nos jornais, podendo ser abordadas inclusive através do humor, como as caricaturas que mesmo sem nenhuma escrita refletia a imagem do que de fato estava acontecendo. No Brasil, o Jornalismo Literário também é classificado de diferentes maneiras. Para alguns autores, trata-se simplesmente do período da história do jornalismo em que os escritores assumiram as funções de editores, articulistas, cronistas e autores de folhetins, mais especificamente o século XIX. Para outros, refere-se à crítica de obras literárias veiculadas em jornais. Há ainda os que identificam o conceito com o movimento conhecido como New Journalism, iniciado nas redações americanas da década de 1960. E também os que incluem as biografias, os romances-reportagem e a ficção-jornalística (PENA, 2006, p. 21). Nessa época, ficava conhecido o romance-reportagem, mas cuja “expressão se vulgariza rapidamente e passa a ser denominação tanto de um tipo particular de narrativa que mistura literatura e jornalismo, quanto uma das tendências dominantes na ficção brasileira da década de 1970.” (CASTRO, 2002, p. 60). Vale ressaltar os títulos que foram aparecendo conforme esse gênero se expandia: jornalismo literário, romance de não-ficção, livro-reportagem e romance-reportagem. Todos usados conforme o que o texto se propunha a abordar. Pena (2006) ressalta o que seria jornalismo literário, relacionando-o à veiculação de textos literários em jornais. A preocupação do jornalismo literário, então, é contextualizar a informação da forma mais abrangente possível, o que seria muito mais difícil no exíguo espaço de um jornal. Para isso, é preciso mastigar as informações, relacioná-las com outros fatos, compará-las com diferentes abordagens e, novamente, localizá-las em um espaço temporal de longa duração (PENA, 2011, p. 14). Para se falar de jornalismo literário, é preciso entender o jornalismo e sua forma de apurar os fatos. Pena (2011) nos apresenta sete temas, que ele denomina de “Estrela de Sete Pontas”, ou seja, itens que tornam um texto tanto confiável quanto harmônico. São eles: potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites do acontecimento cotidiano, exercitar a cidadania, evitar os definidores primários6, contextualizar a informação da forma 6 Entrevistados que falam para jornais, como autoridades e especialistas famosos. 21 mais abrangente possível, romper com as correntes do lead7, e a perenidade. Afinal, uma obra formada das técnicas do jornalismo literário não pode ser superficial. Defendendo o jornalismo literário como um gênero, Pena (2006) diz que ele é uma “linguagem de transformação expressiva e informacional [..] não se trata nem de jornalismo, nem de literatura, mas sim de melodia.” (PENA, 2006, p. 21). A beleza é uma integração de todos os valores. Não um valor em si. É tudo mais, com uma acentuação primacial na sua forma de expressão, seja a palavra, na literatura, seja o som na música, seja a cor na pintura e assim por diante. Sendo assim, não vejo como negar ao jornalismo o seu cartão de entrada no recinto literário (LIMA, 1969, p. 22). A literatura ligada ao jornalismo tomou moldes que eram reconhecidos nos textos jornalísticos. Ao falar sobre jornalismo literário, Lima (1990) ressalta que o profissional teria um texto mais preciso e preocupado com a veiculação da informação honesta. Mas sem abdicar da criatividade, permitindo aos repórteres, desenvolver textos mais parecidos com seus estilos, além de fazer seu papel social, que segundo o autor, ultrapassa a beleza estética. Outro autor que discorre sobre os textos do jornalismo literário é Cotta (2005). Em seu estudo, ele afirma que formas e gêneros literários podem ter uma narração e descrição romântica e dramática, dependendo do modo como o fato é narrado pelo autor. Os textos produzidos nas redações procuram sempre informar e passar algo ao leitor, porém, esses profissionais também são capazes de produzir textos literários. Afinal, tudo vem das palavras e através delas é possível expressar o que o escritor está sentindo e o objetivo real. Lembremo-nos, antes de tudo, de que a base do que faz o jornalista, a matéria-prima de que se utiliza, é a palavra. O que serve de caminho para a poesia, transmite também a notícia da morte de uma criança sobre o asfalto. Entre os dois elementos, não há diferença técnica, a não ser em espécie e intensidade. Espécie e intensidade, no entanto, separam também uma forma literária de outra, um ensaio de um romance (OLINTO, 2008, p. 19). Vimos, então, que o que aproxima e também irá distanciar o jornalismo da literatura é a narratividade, pois produzir textos narrativos que contam fatos que aconteceram, depende tanto da vivência literária quanto jornalística. Para tanto, é necessário certa criatividade ao escrever sobre os fatos, mostrando cuidado com o texto, uma vez que para Brito (2007) o jornalista é: 7 Parte principal da matéria, que apresenta as clássicas perguntas: o que, quem, quando, onde, como e por quê. Corresponde à abertura do texto, por isso, possui fundamental importância, pois deve trazer as principais informações, além de instigar o leitor a prosseguir na leitura. 22 [...] aquele que desenvolve, de forma mais marcante, o sentido expressivo da linguagem [...] Pode-se dizer que um jornalista criativo e imaginativo (pois a imaginação é, ao contrário do que muitos pensam, um elemento importante da atividade jornalística) pode ser melhor ‘escritor’ do que um ficcionista medíocre (BRITO, 2007, p. 55). Sobre tantos paradigmas, o jornalismo literário tem trilhado seu caminho, provando para muitos que é possível jornalismo e literatura coexistirem em um só texto e levarem à sociedade um pensamento que se explorado separadamente por cada gênero, não seria possível de ser apresentado. Ao escrever sobre algo violento, como as notícias policiais, por exemplo, os jornalistas conseguiram uma válvula de escape para narrar suas reportagens. Afinal, abordaram nos livros de forma romanceada o que era proibido nos jornais, “como o romance que vem das páginas de polícia dos jornais, que teria sido uma das áreas menos expostas à censura” (FERREIRA, 2004, p. 303). Assim, o conceito de jornalismo literário é amplo, já que ele irá potencializar os recursos do jornalismo, sem se limitar aos acontecimentos do dia a dia, garantindo visões amplas da realidade e possivelmente exercendo a cidadania e assim, garantindo profundidade às informações. Mais do que uma escrita que flerta com técnicas típicas do labor literário e se propõe a instigar, seduzir, provocar sensações e despertar o interesse do leitor, o chamado jornalismo literário foge de olhares pré-formatados e rende textos – sejam reportagens ou perfis – que surpreendem a partir de uma pauta que rompe com visões óbvias ou hegemônicas sobre a realidade (NECCHI, 2007, p. 5). Apesar de ser uma atividade feita já desde muito tempo, o jornalismo literário é visto como algo recente, pois “os livros de memórias, as narrativas ou relatos de movimentos políticos e revolucionários, também podem estar enquadrados na classe do jornalismo em forma literária” (OLINTO, 2008, p. 95). A cerca disso, o jornalismo literário mostrou outro jornalismo, capaz de informar, com base em fatos reais, porém, à sua maneira. O New Journalism, explorado fora do Brasil, foi feito principalmente por jornalistas que estavam insatisfeitos com suas limitações e com determinados padrões estipulados para o jornalismo. O que vai proporcionar o advento do Novo Jornalismo [New Journalism] contemporâneo na década de 1960, nos Estados Unidos, é a insatisfação de muitos profissionais da imprensa com as regras de objetividade do texto jornalístico, expressas nas famosas figuras do lead, uma prisão narrativa que recomenda começar a matéria respondendo às perguntas básicas do leitor (PENA, 2006, p. 53). 23 Em 1966, Truman Capote publicou um livro nos Estados Unidos, denominado pelo próprio autor de romance de não ficção, chamado A Sangue Frio (In Cold Blood). Este livro se tornou o marco do New Journalism que se utilizava de uma história real, usando, porém, técnicas literárias para a construção da narrativa. Essas técnicas já eram utilizadas por outros escritores, mas o new journalism fez caminho inverso, adaptando técnicas ficcionais às reportagens, como as variações de ponto de vista, os monólogos interiores de um narrador autoconsciente e participante, a ênfase na composição dos personagens, e, principalmente, na transcendência da objetividade (COSTA, 2005, p. 267). Desse modo, o jornalista levava ao leitor um ponto de vista mais emotivo e ao mesmo tempo relatava tudo a sua volta, estando alerta para cada detalhe. Com o jornalismo literário, o autor pode ser observador ou até mesmo um participante da ação. Além do visto, o não-visto – pensamentos, sentimentos, emoções – é descrito a partir de um trabalho de campo efetivo, de uma apuração vigorosa, de uma entrevista pautada pelo tempo farto, pela atenção e pela acuidade. Os sentidos do repórter se encontram permanentemente alertas na leitura dos acontecimentos – seja uma cor esmaecida, um sopro quente, um aceno interrompido, uma textura áspera, um aroma inesperado, um suspiro que se liberta, um ranger intermitente (NECCHI, 2007, p. 6). O New Journalism, então, trazia uma narrativa nascida das páginas policiais dos jornais, com fatos apurados a partir de técnicas jornalísticas e com um texto objetivo. No caso de Capote, sua reportagem foi trabalhada por longos cinco anos – publicada, em quatro capítulos, na revista The New Yorker, em 1965 – para só então, ser lançada em formato de livro, em 1966, como o próprio livro A Sangue Frio cita. Para isso, ele precisou viajar até o interior de Kansas para fazer entrevistas e capturar todo material necessário para escrever esses capítulos, contando com o apoio financeiro do jornal para o qual trabalhava. O que vemos hoje, porém, não é um retrato dessa época, já que muitos jornalistas não recebem o mesmo suporte e incentivo para tal trabalho, pelo contrário, é exigido por diversas vezes que o profissional dessa área busque a informação e a repasse instantaneamente, interrompendo esse processo de pesquisa do jornalista. Desde o fenômeno Realidade8, pouco se praticou jornalismo literário no Brasil, pelo menos na grande imprensa. Os dirigentes dos jornais costumam alegar equipes reduzidas, falta de espaço para textos caudalosos, orçamentos minguados a impedir 8 Realidade foi uma revista brasileira lançada pela Editora Abril em 1966. Circulou até janeiro de 1976. Apresentava características inovadoras para a época, com matérias em primeira pessoa, fotos que deixavam perceber a existência do fotógrafo e design gráfico pouco tradicional. Destacou-se também por suas grandes reportagens, permitindo que o repórter 'vivesse' a matéria por um mês ou mais, até a publicação. 24 que um repórter permaneça semanas ou meses investigando uma história e falta interesse dos leitores por textos longos (NECCHI, 2007, p. 8). O New Journalism adaptou-se ao momento jornalístico e literário que o Brasil vivia, trazendo um jornalismo literário que iria se fixar por sua particularidade e diversidade ao narrar um fato, tendo assim, jornalismo e literatura dividindo um espaço mais igualitário que nas redações. Esse jornalismo literário usa do mesmo estilo do jornalismo no fator principal da narrativa, que é a verossimilhança. Afinal, “há uma regra sagrada no jornalismo. O repórter não pode inventar” (COSTA, 2005, p. 274). Assim, o jornalismo literário conta com características tanto do jornalismo quanto da literatura, porém, com um toque do que Pena (2011) chamava de “melodia”. Defino jornalismo literário como uma linguagem musical de transformação expressiva e informacional. Ao juntar os elementos presentes e dois gêneros diferentes, transformo-os permanentemente em seus domínios específicos, além de formar um terceiro gênero, que também segue pelo inevitável caminho da infinita metamorfose. Não se trata de dicotomia ficção ou verdade, mas sim de uma verossimilhança possível. Não se trata de oposição entre informar ou entreter, nem de Jornalismo, nem de Literatura, mas sim de melodia (PENA, 2011, p. 21). Sendo assim, o jornalismo literário é considerado por muitos como arte, porém, uma arte com o intuito de informar e levar para sociedade a possibilidade de uma conscientização. Age, também, como forma de denúncia social, que irá combater e denunciar, mostrando todos os lados do fato. Logo, além de informar, esse jornalismo também tem como missão mostrar a notícia pelo olhar da literatura, adaptando-se a ambos os gêneros ao ser usado. O jornalismo absorve assim, elementos do fazer literário, mas, camaleão, transforma-se, dá um aproveitamento direcionado a outro fim. [...] E é esta tarefa, a de sair do real para coletar dados e retratá-los, a missão que o jornalismo exige das formas de expressão que passa a importar da literatura adaptando-as, transformandoas (LIMA, 1995, p. 138). De acordo com Pena (2011), os textos jornalísticos carecem de criatividade, elegância e estilo. Sendo assim é preciso fugir da fórmula do lead e usar da narrativa própria da literatura para se fazer um jornalismo mais humanizado. Com isso, o jornalista adapta a seu modo à notícia, sem se desfazer dos elementos jornalísticos. A prioridade do jornalista que usa do jornalismo literário está em revelar as informações, que muitas vezes não são ditas de forma aberta nos jornais das redações e a literatura, nesses casos, faz um papel de apoio para com o escritor que levará a 25 verossimilhança. Não ignorando, assim, o que foi aprendido no jornalismo diário, apenas desenvolvendo tal aprendizado para assim chegar a uma nova abordagem, porém, com uma apuração rigorosa e uma observação atenta. O objetivo, então, do autor de jornalismo literário é levar para a sociedade a realidade do que acontece nas ruas e que o leitor, muitas vezes, não sabe ou acaba por ignorar, por ser mais cômodo. Realidade que, muitas vezes, traz o futuro da nossa sociedade, sendo necessário se manter consciente dos fatos para que possamos mudá-los, analisando assim as palavras desse novo jornalismo e procurando soluções e melhorias para fazermos, também, nosso papel na sociedade. 26 3 INFORMO, LOGO OPINO As discussões feitas neste capítulo têm como intuito perceber as diferentes formas de manifestação da violência refletidas na mídia e os discursos usados pelos meios de comunicação. Abordam-se também o sensacionalismo na mídia e a forma como o discurso jornalístico e o discurso literário são influenciados nas notícias. 3.1 Discursar é necessário O discurso pode estar em uma simples frase ou em um conjunto delas, tudo dependerá do contexto em que ele aparece. Segundo Dijk (1987), existem muitos tipos de discursos e cada um com sua característica de organização. Essas características tendem a sofrer mudanças durante o discurso, além disso, cada tipo de linguagem tem seus próprios propósitos sociais e culturais. Percebe-se que há uma banalização do vocábulo, uma vez que é usado em uma linguagem mais padronizada por um tipo de mídia que aborda a violência. Podemos, porém, definir o discurso do ponto de vista de sua natureza quando ele se caracterizaria, inicialmente, por uma maior ou menor participação das relações entre um “eu” e um “tu”; em segundo lugar, o discurso caracteriza-se por uma maior ou menor presença de indicadores de situação; em terceiro lugar, tendo em vista sua pragmaticidade, o discurso é necessariamente significativo na medida em que só se pode conceber sua existência enquanto ligada a um processo pelo qual “eu” e “tu” se aproximam pelo significado; e, finalmente, o discurso tem sua semanticidade garantida situacionalmente, isto é, no processo de relação que se estabelece entre suas pessoas (eu/tu) e as pessoas da situação, entre seus indicadores de tempo, lugar etc. e o tempo, lugar etc. da própria situação (OSAKABE, 1979, p. 3). Nessa mesma linha de pensamento, o discurso pode estar ligado a um único enunciado, como a muitos, já que o considerado não é o fenômeno da extensão e sim o da natureza, pois o importante está na intenção de uma pessoa influenciar a outra. Assim, a “influência” é um processo complexo, o qual envolve transformações, imediatas ou demoradas de modelos de situação, enredos, opiniões, atitudes e, finalmente, ideologias. Esse processo pode ser tão complexo que pode não ter nenhum vínculo direto com a notícia original que influencia os leitores, mas antes com o modelo é essencialmente “subjetivo”, no sentido de que ele pode incorporar opiniões pessoais e experiências prévias, mas pode também ser influenciado de modo desfavorável numa forma estrutural e social, isto é, por meio dos objetivos do grupo, normas, valores, interesses e atitudes e, consequentemente, por preconceitos compartilhados pelo leitor como um membro do grupo (DIJK, 1987, p. 10). Assim, essa influência sobre determinada pessoa está ligada ao discurso relatado, presente também no discurso jornalístico, com o intuito de influenciar o público. Quanto ao 27 discurso jornalístico, ou discurso da notícia 9, este está relacionado ao fator real como uma função ou atenção e compreensão especial e de uma representação ideologicamente determinada, primeiro nas mentes dos agentes de notícias ou das fontes de notícias e, então, realmente formulado em possíveis histórias, depois de uma interpretação similarmente ideológica e da representação pelo jornalista (DIJK, 197, p. 5). Segundo Caldas (1999), é preciso estar atento ao discurso utilizado pela mídia, uma vez que ele sofre diversos processos para chegar à sociedade, com um determinado objetivo a passar. Além disso, o discurso pode ser visto como “espaço do jogo estratégico e polêmico”, que não pode ser analisado “simplesmente do ponto de vista linguístico, como uma relação de dominação e de assujeitamento.” (FOUCAULT, apud CALDAS, 2002, p. 137). Os jornais, as notícias, procedem por redundância, pelo fato de nos dizerem o que é ‘necessário’ pensar, reter, esperar etc. A linguagem não é informativa nem comunicativa, não é comunicação de informação, mas – o que é bastante diferente – transmissão de palavras de ordem, seja de um enunciado a um outro, seja no interior de cada enunciado, uma vez que o enunciado realiza um ato e que o ato se realiza no enunciado (DELEUZE e GUATTARI, 1995, p. 16-17). Gomes (2003) declara que os discursos, tanto pró/contra, têm estratégias comuns com as quais pretendem eliminar outros métodos. Essa estratégia de exclusão ou oposição é implicada tanto em discurso quanto em ideologia. E, conforme sinaliza Foucault (1996), eles estão imbricados na relação com o poder. Os discursos são elementos ou blocos táticos no campo das correlações de força; podem existir discursos diferentes e mesmo contraditórios dentro de uma mesma estratégia. Podem, ao contrário, circular sem mudar de forma entre estratégias opostas (FOUCAULT, 1997, p. 97). Com relação ao Brasil e o discurso da violência, Gomes (2003) nos mostra que é implantada uma visão enganosa de que o Brasil é um lugar não agressivo e com pessoas não violentas. Não somente as condições sociais, como relações de produção que delimitam um campo de deserdados e excluídos, que são esquecidas como motor de violência. Também as relações sociais (todas e quaisquer), enquanto inevitáveis relações de poder que delineiam o campo do ordenador e do ordenado, sua contrapartida no 9 Expressão usada por Teun A. van Dijk (1987), que, ao estudar o discurso da mídia, apresentou o termo discurso da notícia com o qual quis dizer que os relatos de notícia são, na verdade, uma forma de narrativa pública, além de serem diferentes das notícias convencionais ou das narrativas literárias, não representando as experiências pessoais do autor/narrador. 28 crime e no castigo e seu papel na constituição do humano, são apagadas (GOMES, 2003, p. 70). Assim, Gomes (2003) nos questiona, ao dizer que mídia e palavras de ordem teriam como objetivo operar como dispositivos disciplinares. Para ela, estamos sendo educados para aceitar um fato como situação de fato, já que a educação proporciona uma visão do mundo. O exercício pleno de uma cidadania, só é feito se existir compreensão clara do papel da indústria cultural e do educador como agentes transformadores. Sendo assim, o conteúdo abordado nas mídias deveria ter como prioridade a disciplina de quem lhe assiste, já que o objetivo deveria ser a educação da sociedade, porém, essa educação nada mais é do que uma possível alienação por parte da mídia. O discurso, portanto, acaba assumindo dois papéis: um instrumento de poder e uma intervenção. Por isso, “é preciso admitir um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser ao mesmo tempo, instrumento e feito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta.” (FOUCAULT, 1997, p. 96). De acordo com Gomes (2003), a visibilidade nas mídias trata do espetáculo, que está ligado à cena. Com isso, há sempre um “maquiamento” para que as pessoas entrem em cena e convivam com o cenário que nos é imposto, algo que Foucault (1997) fundamenta. A visibilidade na mídia está relacionada com as táticas de majoração. Portanto, a mídia serve como um suporte para os governantes manifestarem a sua vontade, tornando assim a sociedade reprimida, pois nos é mostrado aquilo que nos conforta, baseado em uma comunicação que é mandada pelo poder. “[...] os circuitos da comunicação são os suportes de apoio do poder; a totalidade do indivíduo não é amputada, reprimida, alterada por nossa ordem social, mas o indivíduo é cuidadosamente fabricado, segundo uma tática das forças e dos corpos.” (FOUCAULT, 1999, p. 179). Já, nas observações de Gomes (2003), como anteriormente observado, devido à visibilidade, a mídia assume o papel de disciplinar e controlar. A mídia disciplina pela maneira do mostrar, pois enquanto a mídia mostra, ela controla ao mesmo tempo. Então, vemos o papel da mídia na sociedade e suas consequências: ela acaba orientando a sociedade. Assim, o que realmente acontece é nada mais que imposição por parte desta mídia, imposição essa que usa de camuflagem para que as pessoas não percebam o que acontece ao seu redor. Segundo Chauí (2006), existe uma obscuridade proposital no discurso da mídia, para assim, fazer com que a sociedade se sinta informada, ao mesmo tempo em que a mantem sob a ignorância dos fatos, uma vez que o cidadão acredita que tudo está nas mãos de especialistas confiáveis, que lidam com problemas que os leigos não entendem. 29 Além disso, a imagem do Mal e a da vítima são dotadas de poder midiático: são poderosas imagens de espetáculo para nossa indignação e compaixão, acalmando nossa consciência. Precisamos das imagens da violência e do Mal para nos considerarmos sujeitos éticos (CHAUÍ, 1999)10. Segundo Gomes (2003), a escolha do que é transmitido na mídia coloca o jornalismo em uma posição privilegiada com relação à disciplina, já que toda produção jornalística é construída com base no que é importante, visando assim à disciplinariedade. Neste caso, o jornalismo tem como base o que será transmitido, o que for de fato mais relevante para o público. Afinal, “as noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo” (DELEUZE, 1998, p. 162). Gomes (2003) aponta que o jornalismo funciona em desdobramento à função originária da linguagem: organiza o espaço social. Os discursos que colocam o dizer como informação são justamente os que não pretendem deixar margem a contrapontos ou a um diálogo, sendo disciplinares por excelência como causa de sua forma de construção. O jornalismo teria como obrigação conscientizar uma sociedade, tornando-a mais justa e humanizada com relação ao seu papel social. Logo, a hierarquização das notícias estaria relacionada com o que é de relevância para o espaço público que o jornalismo delineia. O próximo tópico aborda os discursos usados pelo jornalismo e pela literatura, como uma introdução ao discurso feito pela mídia. 3.2 As Duas Faces do Discurso De acordo com Castro (1994), jornalismo e literatura são discursos que apesar dos elementos comuns, mantêm técnicas diferenciadas. “A literatura pode ensinar algo ao jornalismo, como a cuidar da forma, a escrever e reescrever, como a privilegiar a imaginação, mas não demais: realidade é realidade, ficção é ficção.” (CASTRO, 1994, p. 14). Para Olinto (1960), a diferença do jornalismo em relação a literatura está nas diferentes técnicas utilizadas para narrar a mesma informação. O discurso literário tem como principal característica a estética e poesia, mas sem descartar a função referencial, que por sua vez está ligada ao discurso jornalístico. Apesar de possuírem bases de discursos diferentes, ambos acabam interligados por transmitir informações objetivas e sem fazer avaliações, além de informar fatos reais para o indivíduo. 10 Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_1_4.htm>. Último acesso: 08/06/2013. 30 As relações entre jornalismo e literatura são múltiplas e extraordinariamente variadas. Não se trata apenas de que, em um e outro caso, o instrumento fundamental – a palavra e suas estratégias discursivas verbais – seja comum. Resulta inegável a influência de pautas e escrituras e modelos literários para a construção de determinados discursos jornalísticos (MENDEL, 2002, p. 15). Vicchiatti (2005) ressalta que para dar vida aos personagens e seus textos, é preciso primeiramente entendê-los. Segundo o autor, existem casos comprovados em que a emoção é recuperada por meio dos textos jornalísticos, utilizando recursos literários. Esses recursos literários ligam pessoas ao discurso, espaços, datas, locais, tornando-os mais reais. Um texto com toda a veracidade do caso e a subjetividade que o olhar pode carregar. Diferente da maioria das formas de narrativa ficcional, o discurso da notícia é, de qualquer maneira, destinado ao informe, relato, isto é, à representação de eventos verdadeiros. Aparentemente, pelo menos, não é sua intenção primeira pretender divertir, mas informar o leitor. Dessa forma, há diferenças semânticas e pragmáticas entre histórias de notícias e outras formas de narrativa (DIJK, 1987, p. 6). Logo o jornalismo literário ultrapassa barreiras impostas pelo jornalismo padrão para levar a sociedade uma ampla visão da realidade, algo que irá potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas de realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lead, evitar as definições primárias e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos (PENA, 2006, p. 13). Já, segundo Resende (2002), o discurso literário é visto como ocupante dos múltiplos discursos que se cruzam e se transformam. Refletir sobre o factual, para o autor, é deixar sobressair uma dessas vozes que ecoam no universo literário (RESENDE, 2002). O discurso literário acaba por sua vez, oferecendo uma visão importante do que está acontecendo ao nosso redor, levando-nos a refletir sobre esses acontecimentos e garantir uma ampla visão da realidade em que estamos vivendo. A diferença, porém, é que na literatura essa realidade não é obrigatória, e se podem criar histórias, baseadas no real. Assim, o escritor ou jornalista que aborda essas realidades estimulam uma reflexão na sociedade. Para Vicchiatti (2005), com o avanço da tecnologia, os leitores demandaram para os jornais de qualidade, informações e notícias diferenciadas, permitindo uma leitura mais culta e complexa, fugindo dos textos rápidos criados nas redações. O comunicador é criador de novas realidades. Assim também o historiador e o escritor. Mas as novas realidades que o comunicador cria têm público imediato. Elas já estarão hoje ou amanhã nos jornais, na televisão, no rádio. Tanto no discurso histórico quanto literário, o sujeito tem tempo para checar, rever, burilar ou até reescrever, no jornalístico não – o fato é colhido no calor da emoção e o texto redigido na velocidade que as máquinas e o mercado consumidor exigem. Os dois 31 primeiros discursos são produto do estudo e/ou reflexão, de longa durabilidade, enquanto o jornalístico é destinado, aparentemente, à breve vida que intermedeia uma edição e outra [...]. Terá de saber usar a palavra enquanto mediação. (BACCEGA, 1998. p. 65). Maingueneau (2010) defende que a padronização das formas de produção de sentido, feitas pelos discursos midiáticos, e a espetacularização dos conteúdos enfocados são prejudiciais à formação da opinião de cidadania e ao convívio social, posto que, a mídia atua de forma alienante para com a sociedade. Em vista disso, Charaudeau (2006) chama a atenção para a responsabilidade de o cidadão reivindicar maior neutralidade do discurso midiático e a heterogenização mais significativa dos conteúdos abordados. Para Caldas (1999), a mídia jornalística opera um discurso de legitimação para garantir a transparência das informações. Para isso, é necessária uma postura crítica com relação aos discursos, uma vez que eles estão ligados diretamente com o público. Assim, os discursos literários e jornalísticos são analisados para que haja uma noção sobre o discurso que é produzido pela mídia, assim como as suas estratégias, que são usadas com o intuito de difundir as informações que veiculam. Logo, é inevitável entrarmos no campo do que é produzido pela mídia, estudando melhor suas intenções. Assunto esse abordado no próximo tópico, no qual refletimos sobre a sociedade em que vivemos e as estratégias da mídia para abordar assuntos como a violência. 3.3 Sensacionalismo ou realidade? Para falar sobre o discurso da violência na mídia, é importante conceituar essa violência, para que se possa diferenciar o que de fato estamos vivendo de violento na sociedade, do exagero mostrado na mídia, como a simples forma de ganhar audiência. De acordo com Sodré (2002), ao falar de violência, a mídia, de certa forma, participa na produção discursiva com suas narrativas e seus textos. A relação entre violência e mídia está na forma como o meio de comunicação retrata as condições de vida das pessoas. A violência faz parte de um cenário de questões sociais e políticas, além de expressar conflitos e provocar várias discussões. É necessário notar, entretanto, que o termo violência 11 é bastante complexo se visto como um produto de massa, o qual muda de acordo com a sociedade e sua cultura. A 11 “Violência vem do latim violentia, que significa violência, caráter violento ou bravio, força. O verbo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. Tais termos devem ser referidos a “vis”, que quer dizer força, vigor, mas também quantidade, abundância, essência ou caráter essencial de uma coisa.” (DIAS, 2008, p. 102). 32 abordagem feita pela mídia com relação à violência faz um uso frequente de determinadas palavras como crise, surto, epidemia. Gomes (2003) ressalta que essas palavras direcionam o público a entender que essa violência é uma exceção e que nosso país é bom e não violento, descartando uma necessidade de aprofundamento no problema e em reflexões sobre os reais causadores da violência. A violência deve ser entendida como qualquer “ato físico, psíquico, moral ou político pelo qual um sujeito é tratado como coisa ou objeto. A violência é a brutalidade que transgrede o humano dos humanos e que, usando a força, viola a subjetividade (pessoal, individual, social), reduzindo-a a condição de coisa.” (CHAUI, 2006, p. 123). Ainda segundo a autora, para muitos, a violência é vista somente como chacina ou massacre, decorrentes de crimes. A violência estaria expressa nessa forma, porém, ela nos lembra que, violência é tudo que age usando a força para ir contra a natureza de algo ou alguém, ou para manchar algo considerado sagrado. É interessante pensarmos que, sob a perspectiva de Chauí (2006), a mídia na violência pode ser vista como uma perda de julgamento para decidirmos sobre uma imagem, uma ideia, um sentimento, ou discurso. Logo, ao recebermos um determinado direcionamento de ideias imposto pela mídia, estamos abdicando de uma formação de opinião própria, que também poderia ser caracterizado como um ato violento dirigido à sociedade, ao lhe tirarem o direito de pensar por si só. Assim, percebe-se que o conteúdo elaborado pela mídia está ligado diretamente à escolha de temas violentos e que instigam a sociedade a pensar e agir como manda os meios de comunicação. Já, de acordo com Sodré (2002), o “grotesco” sofre mudanças ao longo dos séculos, tornando-se um adjetivo do gosto generalizado, qualificando figuras da vida social como discursos, roupas e comportamentos. O grotesco não é somente algo monstruoso ou uma aberração, no contexto do espetáculo ou da literatura, ele pode ser visto como efeitos do medo ou do riso nervoso, criando um estranhamento no mundo (SODRÉ, 2002). O autor é apontado aqui, pois ele explica o aparecimento do grotesco na mídia, abordando o tema de violência e sensacionalismo. O grotesco revela-se na captação dos fatos publicamente inconfessáveis da existência humana [...], aparece no teatro, nas crônicas jornalísticas, nas narrativas romanescas, nos contos, sempre onde os personagens violem perversamente as regras de uma moralidade por sua vez distorcida e perversa (SODRÉ, 2002, p. 78). 33 Quando se fala sobre esse tipo de discurso na mídia cita-se, por exemplo, as reportagens com temas violentos como assassinatos e outros do gênero. Alguns dizem que esse tipo de notícia é mostrado por ser essa a nossa realidade, enquanto outros asseguram que os jornalistas têm consciência de que esses textos ou reportagens são produzidos para atingir determinado objetivo e público. O sensacionalismo está na manipulação da informação de modo incompleto ou completo e na forma como essa informação é mostrada com exagero ou distorções ao público. As notícias sensacionalistas acabam gerando audiência, mas também podem acarretar em mais sensacionalismo dependendo da forma como são repercutidas. Segundo Chauí (2006) essa concorrência acaba quebrando a regra do jornalismo onde se deve participar da formação da opinião pública de modo claro e sensato. De fato, a imprensa sensacionalista tem uma forma polêmica de abordar determinadas notícias, principalmente quando se trata de violência. Essa linguagem no jornalismo, construída baseada na violência, acaba sendo uma característica da realidade em que vivemos. As notícias que os jornais julgam importantes para o público têm como função despertar no leitor determinados pontos de interesse, encaminhando assim a sociedade para uma determinada linha de raciocínio, já que nada é colocado por acaso na mídia, mostrando assim, suas verdadeiras estratégias para a recepção da notícia. Um exemplo disso foi Trumam Capote, que teve como inspiração para sua investigação jornalística as notícias publicadas nos jornais sobre o assassinato da família Clutter, em Kansas, Estados Unidos. Assim, vemos que as informações passadas pelos jornais afetam e instigam a curiosidade dos leitores, que acabam fazendo parte desse sistema midiático. O que muitas vezes deixamos passar, entretanto, é que a força expressiva do que é dito, em certos discursos da comunicação, potencializa no jornalismo o registro sensacionalista dos fatos. O escândalo, no sentido de exposição chocante de fatos, coisas, acontecimentos e ideias, é um instrumento básico do sensacionalismo. Trata-se de expor o que é oculto ou proibido, ou extremar o que é vulgar e corriqueiro, para emocionar além dos graus normais de tensão psicológica em que vive (BARROS, 1969, p. 74). Com isso, vem a banalização dos conteúdos de violência e até a exploração desse cenário, onde a mídia faz questão de mostrar essa realidade de forma pitoresca, com o intuito de conseguir audiência e público, que acabam sendo atraídos pela desgraça alheia e se acostumando com essas cenas vistas diariamente. Diante disso, “a excrescência e o nojo são conotados como o antídoto para a banalidade da existência humana.” (SODRÉ, 2002, p. 79). 34 Lima (1990) sugere uma relação entre violência e o jornalismo muito além de um simples desvio de imprensa. De tudo isso deveríamos depreender, como lição que a violência não é apenas um desvio da imprensa, muito mais que isso, é uma tendência universal do jornalismo. De qualquer aspecto que se considere o problema e qualquer que seja a natureza da imprensa, as mais legítimas seduções a arrastaram para a invectiva, que está de acordo com a psicologia popular e o jornal se faz para o povo e precisa por isso falar a linguagem apropriada ao elemento a que se dirige (LIMA, 1990 p. 26). A sociedade vive em um clima de medo e insegurança, principalmente nas grandes capitais, com sentimento de impunidade e impotência, paralelo ao governo, que põe em risco a sobrevivência social ao ignorar os apelos da população. As manifestações12 que estão acontecendo atualmente em todo o Brasil são prova disso, uma vez que a sociedade diante das constantes agressões sofridas foi forçada a reagir de forma inovadora em uma mescla de organização pacífica e descontrolada força popular. O jornalismo é uma área que, desde seu surgimento, passou por várias transformações e acabou adaptando-se de acordo com a modernização. Muito foi contribuído para isso, desde a economia, política ao ambiente social de determinado leitor. Segundo Vicchiatti (2005) atualmente, impera a errada visão de que o jornalismo deva abordar as notícias de forma sensacionalista e fria. Sendo assim, o jornalismo acabou por se moldar ao presente momento. Cada vez mais, ele tem explorado as situações em que a sociedade vive, informando e até mesmo ressaltando os piores acontecimentos intencionalmente. A violência exposta pelos jornais sensacionalistas vem consolidando-se com base na realidade vivida, uma forma de distorcer ao ser amenizado por um fato que está no cotidiano de muitas pessoas. Ora, se vivemos a violência no dia a dia, logo acreditamos que o mundo realmente está tão violento como a mídia relata. Porém, é preciso estar atento e consciente, já que a mídia tende a exagerar e a espetacularizar quando aborda a violência. Mas é preciso entender que a desigualdade social também é responsável por essa violência e cabe à mídia abordar essa realidade de forma correta, uma vez que a notícia faz parte de uma construção social. Logo, de acordo com Dias (2003) a sociedade acaba sendo culpada pelo desejo da violência na mídia, e assim, essa mesma mídia se vê satisfazendo esse público, servindo-se de uma boa dosagem para atender a ambos os lados, uma vez que a mídia instiga o público a se 12 Em junho de 2013, enquanto o Brasil sediava as Copas das Confederações, ocorreram várias manifestações populares em todo o país, que reivindicavam uma pluralidade de demandas que iam desde a diminuição do preço da passagem de ônibus até melhorias na educação e saúde. 35 interessar pelo que ocorre de violento no mundo, esse mesmo público se vê envolvido pela notícia, esperando cada vez mais informações. A mídia, por sua vez, produz mais informações espetacularizadas, com base em uma realidade muitas vezes distorcida pela própria imprensa. Ou seja, é um círculo vicioso, onde notícia violenta e desejo de ver essa notícia são elementos que se completam e se impulsionam num jogo de interesses entre imprensa e sociedade. Para Sodré (2002), o texto jornalístico carrega o julgamento de valor até se encontrar com o conhecimento, para então produzir um efeito de desvelamento grotesco da realidade. No discurso mais popular, a violência não está só relacionada ao “crime”, mas também a vários delitos que as classes populares sofrem, representados na mídia, que por sua vez distorce os fatos para melhor se adequar à comunicação noticiosa. Os meios de comunicação denunciam os fatos de violência diariamente, porém, os casos menos violentos acabam sendo deixados de lado, pois não se podem abordar todos os casos de violência ocorridos todos os dias, eles já fazem parte da sociedade. O discurso da violência e o discurso da notícia estão atrelados, segundo Djik (1987), revelando um processo de elaboração presente na sociedade, porém, mais direcionado para determinadas pessoas, acostumadas a esse tipo de abordagem noticiosa, compreendendo assim os fatos apresentados na mídia. Segue-se então uma tendência a instigar o público com os dramas e violências abordados na mídia. Fatos esses que compõe a vida das classes populares, logo, o crime em si não interessa tanto quanto a curiosidade por detalhes banais referentes à vida dos envolvidos. Nesse contexto noticioso, as imagens e palavras, juntas, são usadas para atrair a atenção do leitor, que recebe com muita naturalidade os fatos. Costa (2005) ressalta o modo como o jornalismo literário é abordado e o olhar da sociedade e dos leitores sobre essa versão menos agressiva da violência na mídia é um diferencial. E cabe ao jornalista buscar essa interação com a sociedade, por meio do seu trabalho e técnica, podendo sim, informar uma notícia trágica ou violenta, sem enaltecer esse lado. Segundo Sodré (2002), esse estilo se vê presente nas crônicas jornalísticas cujos textos irão antecipar a abordagem da violência nas mídias de comunicação jornalística, estando relacionado à “comunicação grotesca”. O estranho e o repulsivo comparecem apenas como recursos de choque perceptivo, sem outra intenção que a de captar a atenção do leitor/espectador, encaminhando-a para um clímax sensacionalista. No texto, o teratológico e o escatológico apenas referendam o clima gótico-fantástico da narrativa, alheios a qualquer entrelinha crítica (SODRÉ, 2002, p. 81). 36 Para Costa (2005), podemos abordar esse discurso da violência na mídia no jornalismo literário, onde a própria literatura se encarrega de suavizar esse discurso e imagem para o leitor, tornando não somente mais suportável esse contato com a violência na mídia, mas também abrindo novos caminhos para essa narrativa. A imprensa tem o dever de informar à sociedade o que acontece de verdade pelo mundo, porém, a forma como isso é passado ao público torna questionável se essa mídia está em busca da verdade e com o verdadeiro objetivo de mostrar o que se passa ao nosso redor, ou se estamos sendo manipulados por ela. Analisamos, no próximo capítulo, o livro A Sangue Frio, no qual é possível notar através de trechos, perfis e elementos que o jornalismo literário cria sua própria forma de abordagem da violência. 37 4 INVESTIGANDO Á SANGUE FRIO Este estudo tem como objetivo analisar o discurso do livro A Sangue Frio, escrito por Truman Capote, no qual foi publicado em 1965, pela revista The New Yorker. Inicialmente em quatro partes, para só então, no ano seguinte, ser lançado no formato de livro, denominado pelo próprio autor como romance de não-ficção. A Sangue Frio é considerado um marco na relação entre jornalismo e literatura, inaugurando o chamado New Journalism. A história se refere ao assassinato da família Clutter, cometido por Perry Smith e Dick Hickcock, em Holcomb, Kansas, Estados Unidos. Antes da análise, que tem como foco o discurso da violência, apresentamos breve contextualização da obra e do autor, a construção do corpus da análise, a partir dos personagens, espaço, foco narrativo, recursos de linguagem, estilo do autor e relação com a verossimilhança; e a análise propriamente dita. 4.1 Por Dentro da Obra O livro A Sangue Frio retrata o assassinato da família Clutter, ocorrido em 1959, na cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos, e cometido por Perry Smith e Dick Hickcook. Os dois criminosos se conheceram na prisão e planejaram o roubo depois que um ex-empregado da família Clutter contou muitos detalhes sobre a propriedade e um possível cofre cheio de dinheiro. Porém, essa seria a grande frustração dos assassinos, uma vez que chegaram ao lugar e não encontraram o cofre que esperavam achar e ao final, tiraram quatro vidas – o marido Herbert Clutter, a esposa Bonnie Clutter e os dois filhos: Nancy Clutter e Kenyon Clutter –, por um rádio e quarenta dólares, segundo aponta o livro de Capote (2011). Jornais norte-americanos da época informavam sobre a tragédia que abalara toda a cidade do Kansas. A mídia sensacionalista se fez presente ao supor detalhes do crime e explorar as vítimas, os assassinos e o medo e revolta dos moradores do pequeno lugar. Herbert Clutter, o patriarca da família Clutter, tinha 48 anos e segundo os relatos que Capote recolheu, era um fazendeiro muito bondoso e amado na comunidade. Sua esposa, Bonnie Clutter, estava com 45 anos e sofria de problemas psicológicos. O casal, que tinha quatro filhos, vivia apenas com os dois filhos mais novos, Kenyon, de 15 anos e Nancy, com 16 anos. Os quatro foram amarrados e amordaçados, sendo que Herbert sofreu torturas antes de ter a garganta cortada; depois os outros foram mortos a tiros de espingarda. A polícia 38 passou a procurar incansavelmente os criminosos, que só foram presos meses depois, devido aos descuidos dos assassinos. Truman Capote chegou a Holcomb um mês após o crime, depois de ter lido uma pequena notícia sobre o caso no New York Times. Ele entrevistou familiares das vítimas e dos assassinos, recolheu documentos oficiais, leu cartas e diários, observou a rotina dos moradores e por fim, assistiu ao enforcamento dos criminosos, depois de cinco anos. Capote passou mais de um ano na região, entrevistando os moradores e investigando todas as circunstâncias do crime, a partir de conversas com os assassinos. Para narrar essa história, ele não se limitou aos habitantes da pacata cidade, foi mais além ao procurar os assassinos e até obter a amizade e confiança dos criminosos, e assim, conseguir o relato do que aconteceu naquela noite. Ele foi ainda buscar, no passado de ambos, uma explicação para tal violência. Fez uso, portanto, de seu olhar investigativo, próprio de um bom jornalista. Buscou informações desde a rotina da comunidade, os últimos momentos de vida das vítimas e os relatos dos jovens assassinos até a cena do crime, julgamento e o corredor da morte. É importante ressaltar que o autor em nenhum momento fez uso de gravador, caneta e bloco de anotações – recursos usados pelos jornalistas convencionais, mas que para Capote, eram dispensáveis, uma vez que era possível para ele descrever em detalhes o assassinato que chocou a pequena cidade, usando somente sua “excelente memória”, como disse em entrevista ao jornal The New Yorker, pois havia treinado com um amigo uma técnica de prestar atenção a tudo que ouvia, gabando-se de conseguir guardar na memória cerca de 95% de total precisão. A técnica de anotações e gravação, segundo Capote, prejudica tanto na observação do ambiente e dos personagens, quanto intimidam as fontes, que muitas vezes deixam de fazer relatos importantes, perdendo assim, a naturalidade do momento. Ao “conversar” com uma fonte e não entrevistá-la, o jornalista está mais atento ao que ela lhe diz e se de fato aquilo é verdade, já que alguns entrevistados acabam ficando mais reservados com relação ao que irão dizer, perdendo-se assim, boas informações. De acordo com a introdução do livro A Sangue Frio, Truman Streckfus Persons nasceu em Nova Orleans, em 1924. Seus pais se divorciaram quando ele tinha apenas quatro anos, logo, foi mandado para Monroeville, no Alabama, onde cresceu com seus parentes maternos. Sendo uma criança solitária e criada rigorosamente, Capote aprendeu sozinho a ler e escrever antes de entrar na primeira série. Aos onze anos, adotava por conta própria o sobrenome do padrasto, Joseph Garcia Capote. 39 Como consta em seu livro A Sangue Frio, de 1941 a 1944, trabalhou como officeboy na editoria de arte da The New Yorker, onde chegaria a trabalhar como escritor. Em 1945, publicou dois contos: na revista Mademoiselle e outro na revista Harper’s Bazaar. Aos 24 nos, Capote era descrito como baixo, voz suave e irônica. Publicou em 1949, a coletânea de seus contos góticos, A tree of night e em 1951, um romance, A harpa de erva, que virou uma peça. Mas, seria em 1958, que ele chegaria ao sucesso publicando uma noveleta intitulada de Breakfast at Tiffany’s, que três anos mais tarde, viraria filme com a estrela Audrey Hepburn, e que no Brasil ganhou o nome de Bonequinha de Luxo13. Em 1959, ao folhear o The New Yorker, com seu olhar jornalístico, leu sobre um assassinato brutalmente cometido na cidade de Holcomb, Kansas e segundo seu próprio relato, pensou que isso poderia dar um excelente livro sobre crime e sobre um estado que desconhecia. Partia então, para Holcomb, com sua amiga e escritora Harper Lee, atrás de mais informações. Nessa época, os assassinos ainda eram desconhecidos, assim como a causa do crime. Truman Capote batizou seu livro A Sangue Frio, como um “romance não-ficção”, já que como o próprio autor relata no livro, o jornalismo era uma fotografia literária e ele ambicionava um novo gênero, que ele dizia ser preciso mais que “bater à máquina”, e sair às ruas, procurando informações e interagindo com as fontes. A Sangue Frio foi lançado em 1966, virando um estrondoso sucesso de crítica e vendas, levando o autor ao ápice de seu reconhecimento e notoriedade. Um dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara por toda vida a um senhor nobre, porém implacável. Quando Deus lhe dá um dom, ele também lhe dá um chicote; e o chicote se destina apenas à auto-flagelação [...] Estou aqui sozinho na escuridão de minha loucura, sozinho com meu baralho – e, é claro, o chicote que Deus me deu (CAPOTE, 1965, p. 12). Faleceu em 1984, na Califórnia, deixando um legado literário que até hoje fascina e inspira muitos autores e jornalistas, sendo considerado por muitos o pai do New Journalism. 4.1.1 O New Gênero O New Journalism apareceu durante a década de 1960, nos Estados Unidos, sendo uma alternativa ao jornalismo mais padronizado das redações, que estava presente na 13 Holly Golightly é uma garota de programa nova-iorquina que está decidida a casar-se com um milionário. Perdida entre a inocência, ambição e futilidade, ela toma seus cafés da manhã em frente à famosa joalheria Tiffany`s, na intenção de fugir dos problemas. Seus planos mudam quando conhece Paul Varjak, um jovem escritor bancado pela amante que se torna seu vizinho, com quem se envolve. Apesar do interesse em Paul, Holly reluta em se entregar a um amor que contraria seus objetivos de tornar-se rica. 40 imprensa americana. Logo, a reportagem passava a ser mais que uma simples notícia, para se transformar em um texto literário, que, a partir da vivência do jornalista, relatava os acontecimentos desde suas origens, ao desfecho. A vida e o mundo não se cansam de mostrar que não cabem em, nem suportam, uma pirâmide invertida. Inútil arrochar o cinto do presente imediato para tentar fazê-lo entrar, aos tapas e empurrões, na cela forte do pensamento monocausal redutor e determinista, das técnicas e vícios que desse pensamento emergem e nele se sustentam. Pessoas, fatos e situações não se deixam reproduzir simbolicamente nos estreitos limites da certeza que pretende se revestir um conceito (DIMAS, 2000, p. 17). Inicialmente intitulado como um “jornalismo de autor”, o novo gênero não fazia uso dos dogmas do jornalismo tradicional, abordando assim, outros elementos para libertar o jornalista durante os acontecimentos, investindo na criatividade e no olhar atento, além da sensibilidade, exercidos no Novo Jornalismo. “A ideia era dar a descrição objetiva completa, e um algo mais que os leitores sempre tiveram de buscar nos romances e contos, ou seja, a vida subjetiva ou emocional dos personagens.” (WOLFE, 1993, p. 06). O New Journalism consagrou escritores-jornalistas como, Gay Talese14, Tom Wolfe 15 e Truman Capote, chegando ao Brasil em meados dos anos 1960, carregado de notícias que se aproximavam da literatura, assim como as obras de Graciliano Ramos. Antes de o estilo existir e ser reconhecido como gênero, vários escritores já haviam utilizado as técnicas que o jornalismo literário apresenta, como a observação de detalhes e da informação narrada de forma literária, antes presentes nas redações somente através de crônicas, artigos ou relatos de viagens. 4.2 Para além do jornalismo, para além da literatura Primeiramente é imprescindível entender o papel da análise e de quem a faz, já que para isso, é necessário que a análise não seja imparcial, uma vez que é preciso descobrir as intenções do autor e estar atento a cada detalhe do que é dito. Logo, “o analista não pode ser neutro: ele deve resistir à sedução enganosa do texto, e cada descoberta bem-sucedida o 14 Gay Talese, nasceu em 07 de fevereiro de 1932. É um escritor norte-americano, que tem como obras perfis que entraram para a história do jornalismo, como os do cantor Frank Sinatra, o jogador de baseball Joe DiMaggio e os boxeadores Floyd Patterson e Joe Louis. Foi o convidado de honra da Festa Literária Internacional de Paraty em 2009. 15 Thomas Kennerly Wolfe, mais conhecido como Tom Wolfe, nasceu em 02 de Março de 1931. É um jornalista e escritor norte-americano, conhecido por seu estilo marcadamente irônico. Nos EUA, é considerado um dos fundadores do new journalism, um dos mais notáveis exemplos dessa idéia é The Electic Kool-Aid Acid Test, escrito por Wolfe. 41 legitima, preservando a distância em relação ao que deve rejeitar.” (MAINGUENEAU, 2010, p. 71). Um assassinato brutal pode não despertar a mesma emoção de um final feliz contado em tantas histórias, mas ainda assim deve ser relatado. Não para apenas se escrever algo, mas para despertar seus leitores, para que as pessoas vejam as várias faces de um mesmo fato. Em determinados trechos do livro A Sangue Frio, é possível notar características presentes tanto no jornalismo quanto na literatura. Assim, a presente análise procura fazer essa comparação, sobre pontos abordados no jornalismo literário para o jornalismo padrão. Como afirma Maingueneau (2010), todo texto exige do leitor que ele capte o que é passado, ou seja, é esperado do receptor da mensagem o entendimento do que é dito no texto, que por sua vez, tem sempre um determinado objetivo e intenção. Além disso, o texto a interpretar não precisa ser extraordinário; pode-se então analisar não importa qual corpus: da conversação ordinária ao texto religioso, passando pelos jornais. Mesmo quando o texto se pretende extraordinário, é considerado ordinário (MAINGUENEAU, 2010, p. 70). Nesta pesquisa, seguindo a orientação de Costa (2005), os trechos escolhidos para compor o corpus da análise se baseiam, especialmente, em: Tempo... A presença do tempo cronológico e psicológico se faz presente no livro e teve importância para a construção da sequência narrativa do autor: Até uma certa manhã de meados de novembro de 1959, poucos americanos – e bem poucos habitantes do Kansas, na verdade – jamais tinham ouvido falar de Holcomb [...] Nas primeiras horas daquela madrugada de novembro, porém, sons nada costumeiros sobrepuseram-se aos ruídos noturnos normais de Holcomb [...] (CAPOTE, 1965, p. 23-24). A passagem de tempo e construção do ambiente servem para situar o leitor, assim como, possibilitam uma ampla visão do clima que se estabeleceu entre as pessoas envolvidas. Essa sutil diferença de narração, faz-se presente na literatura, mas com traços do jornalismo ao apresentar a estrutura do lead, de uma forma poética e delicada, como observamos no trecho seguinte: “Aquela segunda-feira, 16 de novembro de 1959, foi mais uma amostra de um clima bom para a caça ao faisão nas planícies plantadas de trigo do oeste do Kansas – um dia com o céu gloriosamente claro, reluzente como mica.” (p. 108). Ao longo do livro, é notório como Capote informa os acontecimentos de forma detalhada e ao mesmo tempo se permite usar uma linguagem mais livre, com um olhar mais 42 humanizado, cujo detalhamento aproxima o leitor do lugar, dos personagens e de toda a história. Perfil dos Personagens... Nota-se que o autor fez uso tanto de personagens esféricos, como foi usado para descrever Perry, um dos assassinos, quanto planos, como é o caso de alguns habitantes da cidade de Kansas, que foram citados, superficialmente, para falar sobre o ponto de vista de algumas pessoas, utilizando assim, descrições sobre as mudanças que eles sofreram ao longo dos anos, tanto psicológicas, quanto físicas. Entende-se por personagens esféricos, personagens que são aprofundados, tanto fisicamente, quanto psicologicamente e personagens planos, os que os que são descritos de forma superficial, destacando-se apenas traços comuns dentro da sociedade, como o autor aborda no livro, ao falar de alguns membros da cidade. É possível notar também, que Capote elegeu um dos criminosos para ser seu protagonista, tornando-o um personagem importante e levando o leitor a se interessar pelo que o autor tem a contar sobre o assassino e seu passado. Essa escolha é notada em diversas passagens do livro, principalmente no segundo capítulo, o qual Capote dedicou especialmente para relatar a vida de Perry, da infância até o momento em que ele se torna um criminoso. Muitas críticas foram feitas na época do lançamento do livro quanto à ética dessa pesquisa, uma vez que o autor teria se envolvido intimamente com Perry, segundo pessoas próximas aos dois. Esse fato, porém, é questionável, uma vez que o próprio Capote relata no livro conversas e histórias em que o assassino era homofóbico devido a traumas do passado. Além disso, o criminoso fala sobre a relação com um grande amigo que era homossexual, no qual muitos dizem ser o próprio Capote. Mas as bichas do navio não me deixavam em paz. Um garoto de dezesseis anos, e baixinho. Eu era capaz de cuidar de mim, é claro. Mas muitas bichas não são afeminadas, sabia? Já conheci uma bicha capaz de jogar uma mesa de bilhar pela janela. [...] Essas meninas podem criar problema, especialmente quando são mais de uma, elas se juntam e vêm para cima de você, se você for só um garoto. Praticamente dá vontade de se matar. Anos, mais tarde, quando entrei para o Exército – quando fui mandado para a Coréia –, o mesmo problema tornou a acontecer. [...] nunca fui promovido. Sabe por quê? Porque o nosso sargento era um deles. E porque eu não me deixava seduzir. Meu Deus, eu detesto essas histórias. Não aguento. Mas – não sei. De algumas bichas eu gostava de verdade. Contanto que não se metessem comigo. O melhor amigo que eu já tive, sensível e inteligente, acabei descobrindo que era bicha (p. 175-176). 43 Essa seria talvez, uma das grandes diferenças entre o jornalismo padrão para o jornalismo literário: o envolvimento com a fonte. Para ser feito um jornalismo mais humanizado, é necessário essa proximidade com as fontes e uma ligação que faz o jornalista sentir e entender melhor os fatos. Não se trata de perder por completo certo distanciamento entre quem narra e quem é a história, mas o jornalista de redação não tem tempo nem oportunidade para se envolver da mesma forma com os entrevistados. Afinal, ele precisa produzir diversas matérias ao longo do dia e isso impossibilita o profissional de estabelecer uma proximidade que gere de fato a confiança mútua do jornalista e sua fonte. Capote descreve as pessoas da cidade para que assim possa situar o leitor sobre a vida que aquelas pessoas levavam no lugar, logo, podemos também ter uma noção do porquê de elas se chocarem tanto com o crime. Como observamos na citação seguinte: “Ao lado da estação do trem, uma mulher magra de calças jeans, botas de caubói e jaqueta de couro cru comanda uma agência dos Correios caindo aos pedaços.” (p. 22). Logo, ao detalhar a aparência física e seus comportamentos, Capote passa ao leitor como a vida de qualquer pessoa pode ser interrompida, como mostra o trecho em seguida, de um pai de família saudável, que levava sua vida pacificamente. [...] O proprietário da fazenda River Valley, Herbert William Clutter, tinha 48 anos de idade e, graças aos resultados de exames médicos que fizera recentemente para um seguro de vida, sabia estar em perfeitas condições de saúde (p. 24) [...] Sempre seguro do que queria da vida, o sr. Clutter conseguira praticamente tudo o que desejava. Em sua mão esquerda, no que lhe restava de um dedo esmagado por um equipamento agrícola, usava uma aliança de ouro, que simbolizava, havia um quarto de século, seu casamento com uma mulher que tinha escolhido – a irmã de uma colega da faculdade, uma moça tímida, religiosa e delicada chamada Bonnie Fox, três anos mais jovem do que ele [...] (p. 25). Ao ressaltar a personalidade das vítimas e determinados detalhes físicos, o autor começa a traçar uma empatia com o leitor em pequenos detalhes como “um dedo esmagado”, ou “uma moça tímida”. Essa empatia permite ao jornalista explorar o fato de forma mais humanizada, uma vez que ele se coloca no lugar dos personagens e da situação e convida o leitor a fazer a mesma coisa. No que dizia respeito à sua família, o sr. Clutter só tinha um motivo sério de preocupação – a saúde da mulher. Ela tinha “problemas nervosos”, sofria “pequenas crises” – de acordo com as expressões delicadas usadas pelos que lhe eram próximos. Não que a verdade acerca dos “problemas da pobre Bonnie” fosse mantida em segredo; todos sabiam que volta e meia ela vinha consultando psiquiatras nos últimos seis anos (p. 25-26). 44 Esses detalhes também são possíveis de notar na descrição dos próprios criminosos, quando Capote salienta suas características físicas e psicológicas, criando também essa empatia com o leitor. Levando-os a questionar que, mesmo assassinos, também podem ter elementos que qualquer outra pessoa tem. Logo, o autor desperta no leitor esse olhar capaz de comparar e igualar em determinados gestos, os criminosos aos leitores, a qualquer pessoa ou até mesmo às vítimas. Como o trecho que segue, referindo-se a Perry: [...] porque aquele jovem era um incansável planejador de viagens, algumas das quais tinha efetivamente chegado a fazer [...]. Agora, graças a uma carta, a um convite para participar de uma “jogada”, ali estava ele com tudo o que possuía no mundo: uma mala de papelão, um violão e duas caixas grandes cheias de livros, mapas, canções, poemas e antigas cartas, num peso de 250 quilos (p. 35). Essa descrição também feita sobre o físico dele mostrava não somente a impressão que ele causava nos demais, mas também possibilitava ao leitor se sensibilizar com seu estado. [...] Sentado, dava a impressão de ser um homem forte, maior que o normal, com os ombros, os braços e o tronco largos e modelados de halterofilista – e o seu hobby era de fato o levantamento de peso. Mas algumas partes de seu corpo não estavam em proporção com as demais. Seus pés pequenos, enfiados em botinas pretas com fivelas de metal, poderiam caber nas delicadas sapatilhas de uma bailarina; quando se pôs de pé, revelou que sua altura não era maior que a de um menino de doze anos, e agora, atarracado sobre as pernas tortas que pareciam grotescas de tão inadequadas para o tronco crescido que sustentavam, não lembrava mais um corpulento motorista de caminhão e sim um jóquei aposentado, desenvolvido além da conta e cheio de músculos (p. 36-37). De acordo com Chauí (2006) se prestarmos atenção nas matérias dos jornais, os criminosos são sempre descritos de forma negativa, mas sua semelhança com pessoas de bem nunca são mostradas, ou para não ofender alguém, ou para se ganhar mais audiência, uma vez que se cria um monstro e o joga na sociedade, para que ela o julgue, abstendo-se de seus próprios defeitos. Certamente, este aspecto seja um dos motivos que causou estranhamento entre a sociedade e o A Sangue Frio. É interessante também, observar como Capote notava alguns detalhes do comportamento de Perry, ao descrever suas ações e o propósito por trás delas, traçando assim um perfil dele. Perry era fascinado pelo próprio rosto. Cada ângulo produzia uma impressão diferente. Seu rosto era mutável, e experiências conduzidas diante do espelho lhe haviam ensinado a controlar aquelas mudanças de expressão a adquirir uma aparência assustadora, depois maliciosa e depois nobre; bastava uma inclinação da cabeça, uma torção dos lábios, para o cigano perverso transforma-se num romântico inofensivo (p. 37). 45 Ao atrelar essas características ao criminoso, o autor lembra a todo o momento as condições em que Perry cresceu, já que era muito desprezado pelo fato de ser meio índio. Logo o leitor acaba remetendo o assassino que ele se tornou à infância difícil e violenta que teve. [...] Parecia que o sangue índio tinha anulado qualquer vestígio da origem céltica. Ainda assim, a ascendência era confirmada pelos lábios rosados e pelo nariz atrevido, além de um cero ânimo velhaco, um petulante egoísmo irlandês, que muitas vezes se percebia por trás da máscara cherokee e assumia totalmente o controle quando ele pegava o violão e cantava. Cantar, e cultivar o projeto de um dia fazê-lo diante de uma plateia, era outra maneira hipnótica de ir passando as horas. Perry sempre usava o mesmo cenário imaginário – uma boate em Las Vegas, por acaso sua cidade natal. Era uma sala elegante, repleta de celebridades animadas e atentas à sensacional versão que o novo astro criara para “I’ll be seeing you”, com acompanhamento de violinos, e depois à última balada que ele próprio compusera” (p. 37-38). Nas descrições de Capote, percebemos que ele manteve no livro a personalidade sonhadora de Perry, seus sonhos, talvez até infantis e suas esperanças de uma vida bem diferente da qual sempre viveu. Mesmo assim, seu devaneio com o sucesso em Las Vegas, por mais agradável que fosse, não se comparava a outra de suas visões. Desde a infância, por mais da metade de seus 31 anos, Perry vinha pedindo o envio de folhetos [...] e respondendo aos anúncios [...] que despertassem o desejo de uma aventura que sua imaginação logo lhe permitia repetir vezes sem conta: o sonho de descer ao fundo de águas desconhecidas, de mergulhar cada vez mais nas profundezas verdes e sombrias, passando diante dos olhos selvagens dos peixes guardiães de um casco de navio que o esperava mais adiante, um galeão espanhol – com sua carga submersa de diamantes e pérolas, arcas e mais arcas repletas de ouro (p. 38-39). Por mais que Capote mostrasse certa preferência por Perry, era impossível não descrever Dick, o outro assassino, que como dito pelo autor, era bem menos educado que Perry. Além de ser um típico pervertido, como o próprio autor cita em diversos trechos do livro, dando a impressão que ele lhe causou e a dos relatos de Perry e a de outros com quem o criminoso teve contanto. Embora carregasse um humor e aceitação ao ser tantas vezes ensinado e corrigido por seu parceiro de crime mais culto, porém, como o autor mesmo ressalta, Dick era muito inteligente e até mesmo um exame de QI na prisão revelou 130 pontos, onde a média era de 90 a 110. Duas vezes casado, duas vezes divorciado, agora com 28 anos e pai de três meninos, Dick conseguira a condicional contando que ficasse morando com os pais; a família, que incluía ainda um irmão mais novo, vivia numa pequena propriedade rural perto de Olathe (p. 47). 46 Essa descrição que Capote faz de ambos os assassinos, serve também como comparação entre eles, uma vez que o autor deixa claro suas impressões sobre a personalidade de cada um. Mas nem o físico de Dick nem a galeria de desenhos que o adornava causavam uma impressão tão notável quanto o seu rosto, que parecia composto por duas partes desencontradas. Era como se a cabeça tivesse sido cortada ao meio como uma maçã, e depois remontada um pouco fora do alinhamento. [...] um acidente que entortara seu rosto estreito e de queixo comprido, fazendo com que o lado esquerdo ficasse um pouco mais baixo que o direito, o que por sua vez tinha deixado os lábios um pouco enviesados, o nariz torto e seus olhos não só desnivelados como com tamanhos díspares, o olho esquerdo francamente viperino, com uma expressão franzina e venenosa, e uma cor azul doentia que, embora involuntariamente adquirida, parecia ainda assim anunciar o sedimento amargo que havia no fundo de sua natureza. Mas Perry lhe dissera: “O olho não tem importância. Porque o seu sorriso é uma beleza. É um desses sorrisos que realmente funcionam”. E era verdade (p. 55-56). Assim, notamos que mesmo tendo uma vida difícil, as marcas deixadas em ambos tiveram consequências diferentes. Dick, mesmo com ferimentos, ainda teve uma vida mais normalizada, com esposa e filhos. Já em Perry, as marcas de seu acidente o impossibilitaram de ter uma convivência comum com outras pessoas, uma vez que ele mesmo tinha vergonha do corpo e se mantinha afastado das pessoas por isso. Perry também sofrera um acidente grave, e seus ferimentos, produzidos por uma queda de motocicleta, tinham sido mais graves que os de Dick; passara meio ano num hospital no estado de Washington e mais seis meses andando de muletas, e embora o acidente tivesse ocorrido em 1952, suas pernas grossas e semelhantes às de um anão, quebradas em cinco lugares e cobertas de cicatrizes, ainda lhe causavam dores tão fortes que ele ficara viciado em aspirina. Ostentava menos tatuagens que seu companheiro, mas as suas eram mais sofisticadas – não a obra auto-infligida de algum amador, mas produtos superiores da arte praticada pelos mestres de Honolulu e Yokohama (p. 56-57). Em muitas passagens, é possível para alguns, ter uma noção dos homens que Perry e Dick poderiam ter sido, caso tivessem uma vida diferente. Presente em determinadas falas ou gestos dos dois, ou para outras pessoas, a visão “correta” seria a de que eles simplesmente já haviam nascido com um mau caráter e que a sociedade em nada tem culpa, se o instinto já estava nos dois. [...] quando ele tinha sete anos, uma criança mestiça detestada e cheia de ódio que vivia em num orfanato da Califórnia dirigido por freiras – disciplinadoras de hábito que o açoitavam por fazer xixi na cama. Foi depois de uma dessas surras, uma que ele jamais conseguiu esquecer (“Ela me acordou. Estava com uma lanterna, e bateu em mim com ela. E quando a lanterna quebrou, continuou a me bater no escuro”) [...] (p. 127). 47 Em uma conversa com sua irmã, é possível notar o ressentimento de Perry quanto à educação e às chances que lhe foram negadas e a consequência disso. É interessante como Capote frisa determinadas palavras para mostrar todo o desespero e rancor de Perry. Por favor, Bobo. Por favor, escute. Você acha que eu gosto de mim? Ah, o homem que eu podia ter sido! Mas aquele desgraçado não me deu a menor chance. Não me deixava ir à escola. Eu sei, eu sei, eu me comportei bem mal. Mas houve um momento supliquei para ir à escola. Eu sou muito inteligente. Se te interessa saber. Sou brilhante e muito talentoso. Mas ignorante, porque ele não queria que eu aprendesse nada, só a trabalhar para ele. Burro. Analfabeto. Era assim que ele queria que eu fosse. Para eu nunca poder fugir dele. Mas você, Bobo. Você foi para a escola. Você, Jimmy e Fern. Todos vocês se instruíram. Todos, menos eu. E eu detesto vocês, todos – Papai e todo mundo (p. 233). Por sua vez, o autor também relata a personalidade doce e altruísta de Nancy, uma das vítimas e que possivelmente a mais sentida por muitos. Normalmente, Nancy teria ensinado de boa vontade Jolene a preparar um jantar inteiro; julgava ser sua obrigação pôr-se às ordens sempre que meninas mais novas a procurassem para aprender a cozinhar, costurar ou estudar para as aulas de música – ou ainda, o que acontecia muito, para fazer-lhe confidências. Como arranjava tempo, e ainda continuava a “praticamente tomar conta daquela casa enorme” e a tirar sempre nota máxima, a ser representante de sua turma, líder no programa do 4-S e na Liga Jovem Metodista, uma boa amazona, excelente instrumentista (piano e clarineta), vencedora todo ano da quermesse do condado (tortas, conservas, bordados, arranjos florais) – como aquela moça com menos de dezessete anos conseguia dar conta de tudo isso, e sem “ficar metida”, na verdade com uma simplicidade lépida e radiosa, era um enigma com que a comunidade sempre se defrontava, e a costumavam responder dizendo: “Ela tem caráter. Herdou do pai”. E não há dúvida de que seu traço mais marcante, o dom que sustentava todos os demais, vinha de seu pai: um apurado senso de organização (p. 39-40). Essas características despertam no leitor uma emoção, ao se colocarem no lugar da vítima, ou pensar que de fato, todo esse horror do crime aconteceu e as consequências disso. [...] Nancy era uma bela moça, magra e ágil como um menino, e as coisas mais bonitas que tinha eram seu reluzente cabelo castanho aparado curto ( escovado cem vezes toda manhã e mais cem à noite) e sua pele lustrosa, ainda um pouco sardenta e bronzeada pelo sol do verão passado. Mas eram seus olhos, muito afastados, castanhos e translúcidos como um copo de cerveja escura levantado contra a luz, que a tornavam adorável de imediato, que anunciavam desde o início sua falta de malícia, sua gentileza ponderada mas ainda assim tão fácil de despertar (p. 41-42). Outra personagem que acabou tendo bastante destaque no livro, devido ao final polêmico que o autor escreveu e que será falado mais adiante, é a melhor amiga de Nancy, Susan Kidwell, que também é descrita pelo autor. [...] Assim que chegara a Holcomb, uma criança melancólica e imaginativa, volúvel, frágil e sensível, então com oito anos, um a menos do que Nancy, os Clutter a 48 haviam adotado com tamanho ardor que aquela pequena californiana sem pai em pouco tempo passou a ser considerada membro da família. Por sete anos as duas tinham sido amigas inseparáveis, cada uma delas, em virtude da escassez de sensibilidades semelhantes e em mesmo grau, insubstituível para a outra (p. 43-44). Notando assim, que em todas as passagens do livro, o autor foi criando ligações entre os acontecimentos e preparando o leitor para o desfecho, com diversos detalhes ao longo dos capítulos. Espaço... O espaço é importante para o significado geral da obra. Além disso, o espaço físico e social, em que se passam os fatos, influencia e condiciona a ação dos personagens. Sendo assim, a “cidadezinha perdida no Kansas”, como é descrita pelo autor, tem ligação direta com o perfil das vítimas e dos criminosos. A cidade de Holcomb fica nas planícies do oeste do Kansas, lá onde cresce o trigo, uma área isolada que mesmo os demais habitantes do Kansas consideram distante. A uns 110 quilômetros da divisa entre o Kansas e o Colorado, a paisagem, com seu céu muito azul e o límpido ar do deserto, tem uma aparência que está mais para o Velho Oeste do que para a do Meio-Oeste (p. 21). Como foi abordado por Sodré (2002), é possível notar, logo nesse começo da descrição do autor, a preparação que ele fez para contar a vida das vítimas, algo dispensável no jornalismo de redação. Foco Narrativo... O foco narrativo está baseado diretamente no olhar do autor e seu ponto de vista. Uma vez que no jornalismo a imparcialidade faz-se obrigatória e é necessária uma narrativa em 3º pessoa, no jornalismo literário já é possível haver essa variação entre 1ª e 3ª pessoas, assim, nota-se quando o autor interfere ou influencia no texto, com comentários ou ironias. Esse foco narrativo também se faz presente quanto às atitudes do autor na sua narração e o que ele de fato quer passar para o texto. No caso de Capote, o autor optou por manter-se discreto quanto ao seu ponto de vista, mesmo que ele estivesse presente no rumo de sua obra, mas ainda assim, fez apenas com o papel de um observador que somente colhia detalhes para serem revelados mais tarde. Durante a leitura, o leitor coloca-se na pele tanto das vítimas, quanto dos assassinos, familiares, policiais e da sociedade ali afetada, mas em nenhum momento o autor 49 contou a história sob sua própria pessoa, ou comentou que fez parte de muitas cenas relatadas no livro. Em determinados trechos, o autor faz um gancho entre as conversas do dia do assassinato em cima de algumas palavras, tendo essas passagens sido colocadas propositalmente, a fim de que para o leitor, que sabe o que acontecerá com as vítimas, sinta empatia e tenha suas emoções despertadas, deixando um ar triste, ao ver a rotina de uma família e os planos para o futuro serem interrompidos. Isso é possível notar na citação seguinte: “[...] E depois, tocando a aba de seu boné, tomou a direção de casa e do trabalho daquele dia, sem saber que seria o último de sua vida.” (p. 34). A forma como o autor casa determinados trechos e prepara o leitor para as próximas cenas é o que mais tem de marcante em sua escrita, uma vez que ele cria todo um cenário melancólico e sentimental. Embora assinasse vários periódicos [...], nenhum deles se encontrava em sua mesade-cabeceira – só uma Bíblia. Havia um marcador entre suas páginas, um pedaço endurecido de seda desbotada em que fora bordada uma advertência: “Prestai atenção, observai e rezai: pois não sabeis quando chega a hora” (p. 55). Desse modo, além de preferir a neutralidade, Capote deixava que o leitor se colocasse nas cenas, juntamente com os envolvidos e construísse seus próprios sentimentos de dor, raiva, pesar e empatia. [...] comentando uma das características do sr. Clutter que era reconhecida por todos: uma destemida segurança de si que o destacava, e que ao mesmo tempo que impunha respeito também limitava um pouco a afeição dos outros. “Não consigo imaginar você com medo. Aconteça o que acontecer, você sempre há de dar um jeito de sair da situação só na conversa” (p. 62). Ao relatar a rotina e a convivência que algumas pessoas tiveram com as vítimas no último dia de suas vidas, o autor causa no leitor um choque, uma vez que é notável o quão inocente e desprovida de violência a família levava suas vidas. O sr. Helm pegou a pá. Os corvos crocitavam, o crepúsculo estava próximo, mas sua casa não; a aléia de olmos chineses se transformara num túnel verde-escuro, e ele morava no final dela, a quase um quilômetro de distância. “Boa noite”, disse ele, e começou sua jornada. Mas olhou para trás uma vez. “E foi”, testemunharia ele no dia seguinte, “a última vez que vi os dois. Nancy levando a velha babe para o celeiro. Como eu disse, nada fora do comum.” (p. 68). Essas passagens são citadas propositadamente pelo autor, para que assim se crie um clima de pesar, preparando e lembrando o leitor a todo o tempo sobre o que irá acontecer. 50 Nancy era invariavelmente a última pessoa da família a se recolher [...]. Naquela noite, depois de secar e escovar os cabelos, prendendo-os com um lenço vaporoso, deixou separadas as roupas que pretendia usar na manhã seguinte para ir à igreja: meias de náilon, sapatos pretos sem salto, um vestido vermelho de veludo – o mais bonito que tinha, que ela mesma fizera. Seria o vestido com que a enterrariam (p. 86). Somente no jornalismo literário é possível relatar os fatos reais com uma sensibilidade e riqueza de detalhes, algo que acabou se tornando dispensável no jornalismo convencional, uma vez que é necessário a agilidade da criação das informações, mantendo assim uma notícia mais direta. Estilo do autor... Aqui a abordagem está no olhar e cuidado que Capote teve durante todos os anos de sua pesquisa, para colocar vários detalhes, marcando o leitor e levando o suspense até o final da narração. Esses trechos mostram as peças que o autor encaixou e a evolução da história, quando o leitor vai descobrindo o que de fato aconteceu naquela trágica noite. Mesmo sendo acusado de pender para o lado dos assassinos, Capote demostrou fazer uma descrição justa e não poupou ao relatar as cenas da morte dos Clutters e o horror e choque das pessoas que os encontraram, sendo impossível ao leitor não se sentir angustiado e tocado com certos detalhes. Era uma cena horrível. Aquela moça maravilhosa – mas não dava nem pra reconhecer. Tinha levado um tiro de espingarda na nuca, a uma distância de uns cinco centímetros. Estava deitada de lado, de frente para a parede, e a parede ficara coberta de sangue. As cobertas estavam puxadas até os ombros. O xerife Robinson desceu-as, e vimos que ela vestia um roupão de banho, um pijama, meia soquete e chinelos – como se, na hora em que tudo aquilo aconteceu, ainda não tivesse ido para a cama. Suas mãos estavam amarradas atrás das costas, e os tornozelos atados com o tipo de cordão usado para abrir e fechar venezianas. O xerife perguntou: “É essa a Nancy?” – ele nunca tinha visto a moça. E eu respondi: “É, é Nancy” (p. 93). Descrever detalhadamente a cena do crime é uma forma de sensacionalismo, porém, o que diferencia a narrativa de Capote das dos jornais de redação, é o objetivo, já que no Jornalismo literário é necessário abordar todos os ângulos de forma justa, sem tender para nenhum lado, enquanto que nos jornais, o intuito está não na imparcialidade ao relatar os dois lados, mas sim, na exploração da violência e do drama, para atrair as pessoas a essas cenas. Esse acompanhamento dos fatos demonstra o motivo da cidade ter se chocado tanto com o crime, uma vez que todos eram próximos, causando revolta em todos pela brutalidade das cenas. 51 Então seguimos até o final do corredor, a última porta, e lá, na cama dela, encontramos a senhora Clutter. Também tinha sido amarrada. Mas de maneira diferente – com as mãos à frente do corpo, de maneira que parecia estar rezando – e numa das mãos estava segurando, agarrando, um lenço. [...] Sua boca tinha sido fechada com fita adesiva, mas ela tinha levado um tiro à queima-roupa, no lado da cabeça, e o disparo – o impacto – tinha arrancado a fita. Os olhos estavam abertos. Bem abertos. Como se ainda estivesse olhando para os assassinos. Porque ela deve ter visto quando ele se aproximou e apontou a arma. Ninguém disse nada. Estávamos perplexos demais (p. 94). Na época, vários meios de comunicação relataram a tragédia que abalara toda a cidade. É possível assim, saber segundo a própria sociedade do local, como a mídia abordou o caso, que, aliás, foi através dessa abordagem que Capote inteirou-se sobre o acontecido, despertando nele a vontade de escrever. A informação terrível, anunciada dos púlpitos das igrejas, distribuída pelos fios telefônicos, divulgada pela estação de rádio de Garden City, a KIUL (“Uma tragédia, inacreditável e muito mais chocante do que as palavras conseguem exprimir, atingiu quatro membros da família de Herb Clutter no fim da noite de sábado ou no início do dia de hoje. A morte, brutal e sem motivo aparente...”) (p. 102). A exploração da mídia em cima do caso se deve também, pelo fato desse tipo de crime nunca ter ocorrido antes e aparentemente sem nenhum motivo, o que só causou indignação por parte de todos. Nesse trecho, podemos notar um exemplo: “O caso, que chegou às manchetes até de Chicago, a leste, e de Denver, a oeste, tinha de fato atraído para Garden City uma quantidade considerável de jornalistas” (p. 112). Vale ressaltar que mesmo Capote não se mencionando em nenhum momento, há certas cenas em que o próprio estava presente, não sendo apenas relatos ou entrevistas, mas sua própria experiência no caso, que o dava margem para falar sobre o que viu e a reação dos que estavam envolvidos. [...] Desde o anúncio da confissão de Hickock, na noite de domingo, jornalistas de todos os estilos tinham se reunido em Garden City: representantes das maiores agências, fotógrafos, cinegrafistas de cinejornais e da televisão, repórteres de Missouri, Nebraska, Oklahoma, Texas e, é claro, de todos os principais jornais do Kansas – no total de uns 25 homens (p. 308). Também é notável o despreparo de alguns jornais ao abordar o caso, ressaltando mais ainda as diferenças entre o jornalismo da redação, que soltava as notícias e nem percebia a forma errônea em que se referia, estampando as manchetes da época. [...] Um repórter, Richard Parr, do Star de Kansas City, obtivera um exemplar do Sun de Las Vegas datado de segunda-feira. A manchete do jornal provocou muitas risadas: POSSÍVEIS LINCHADORES À ESPERA DOS SUSPEITOS DE CHACINA. 52 O Capitão Murray observou: “Acho que o clima aqui não é exatamente esse”. (p. 309). Através do autor, também é possível termos noção sobre o comportamento dos jornalistas, que por muitas vezes instigavam as pessoas, a violência e o modo como tratavam o caso, estabelecendo assim um clima de medo e revolta. [...] Um agitado repórter de rádio entrevistava diversos habitantes locais, perguntando-lhes qual seria, na opinião deles, a punição correta “para os autores de uma tamanha desgraça”, e enquanto a maioria de seus entrevistados respondia com simples interjeições, um estudante respondeu: “Acho que deviam ficar trancados na mesma cela pelo resto da vida. Sem receber nenhuma visita. Só sentados lá, olhando um para o outro até morrer.” E um sujeito baixinho, forte e meio gago disse: “Acredito na pena capital. É como diz a Bíblia – olho por olho. E mesmo assim vão ficar faltando dois pares!” (p. 309-310). Logo, o que podemos notar, é o exagero da notícia, baseada no choque de um crime, em uma pequena cidade, onde todos se conhecem, o resultado seria uma sensação de horror, medo e tristeza. [...] Mas quando a multidão viu os assassinos, com sua escolta de policiais rodoviários de casaco azul, ficou em silêncio, como se espantada de constar que os dois tinham forma humana. Os homens algemados, com o rosto pálido e piscando cegamente, apareciam em clarões à luz de flashes e refletores. Os cinegrafistas, perseguindo os prisioneiros e os policiais para dentro do tribunal e pelos três andares que subiram de escada, fotografaram a porta da cadeia do condado fechando à sua frente (p. 310). Após o drama da morte da família Clutter, Capote começou a explorar o drama dos assassinos. Se na primeira parte do livro, intitulada Os últimos a vê-los com vida, ele abordava o fim da família. Na segunda parte, Pessoas desconhecidas, ele começava uma abordagem sobre o fim dos assassinos, ou o começo desse fim, com o foco no percurso deles antes de serem presos e sobre suas vidas, infância, problemas, especialmente sobre a vida de Perry. Agora era verdade – estavam a caminho – a caminho, e nunca mais iam voltar – sem arrependimentos, pelo menos no que lhe dizia respeito, porque não deixava nada para trás e ninguém que pudesse se perguntar onde ele tinha desaparecido. O mesmo já não se podia dizer de Dick. Havia as pessoas que ele garantia amar: seus três filhos, sua mãe, seu pai, o irmão – pessoas a quem ele não se atrevera a revelar seus planos ou dizer adeus, embora julgasse que nunca mais tornaria a vê-las – não nesta vida (p. 143). Já a terceira parte, com o título Resposta, Capote abordaria o real motivo dos assassinos terem ido até essa pequena cidade do Kansas, para matar toda uma família, que eles nem ao menos conheciam. Esse começo vem com um relato de Floyd Wells, um ex- 53 empregado dos Clutter, que havia comentado com Dick, seu parceiro de prisão, sobre o senhor Clutter, despertando o interesse do parceiro sobre o possível dinheiro no cofre que estaria na fazenda. Não me lembro exatamente da primeira vez que falei do senhor Clutter. Deve ter sido numa conversa sobre emprego, sobre os vários trabalhos que tínhamos feito. [...] contei a ele como tinha trabalhado um ano numa imensa plantação de trigo no oeste do Kansas. Ele quis saber se o senhor Clutter era rico. Era, eu disse. Era, sim. E contei que o senhor Clutter uma vez me disse que já tinha desembolsado 10 mil dólares em uma semana. Quer dizer, que às vezes tinha de gastar 10 mil dólares por semana para tocar os negócios dele. Depois disso Dick nunca mais parou de me perguntar sobre a família. [...] Daí Dick começou a dizer que ia matar o senhor Clutter. [...] Mas, com toda honestidade, não posso dizer que eu tenha tentado convencê-lo a mudar de ideia. Porque eu jamais acreditei, nem por um minuto, que ele tivesse mesmo a intenção de fazer isso. Achei que era conversa fiada. [...] Foi por isso que, quando ouvi o que eu ouvi no rádio – mal pude acreditar. Ainda assim, aconteceu. Exatamente do jeito que Dick dizia (p. 204-205). O que se mostrou na verdade uma conversa inocente, sem planos para um assassinato, como o próprio Floyd afirmara que nunca acreditou quando Dick comentou que iria matar a família e roubar todo o dinheiro deles, com a ajuda de Perry. Fiquei com medo, mas me lembrei do senhor Clutter, que ele nunca tinha me feito mal nenhum, de como no Natal ele tinha me dado uma bolsinha com uma nota de cinquenta dólares dentro. E falei com o subdiretor. Depois contei para o diretor também. E enquanto ainda estava sentado lá, no gabinete do diretor Hand, ele pegou o telefone (p. 207). Em seguida, Capote detalha como foi fácil para a polícia localizar os criminosos, indo na casa de Dick e descobrindo pelas datas e encontrando a arma do crime, que eles eram de fato os assassinos. Logo após, o autor, que tinha ouvido do próprio assassino a versão do crime, conta em detalhes a confissão de Perry ao detetive Dewey e a reação do policial ao, finalmente, ouvir como tudo tinha sido planejado. [...] Mas as confissões, embora respondessem às perguntas de “como” e “por que”, não satisfaziam sua noção de propósito racional. O crime era um acidente psicológico, virtualmente um ato impessoal; para as vítimas, era o mesmo que terem sido mortas por um raio. Com uma única diferença: tinham vivido um horror prolongado, tinham sofrido. E Dewey era incapaz de esquecer seus tormentos. Ainda assim, achou possível olhar para o homem sentado a seu lado sem raiva – e até com certa dose de compaixão – porque a vida de Perry Smith nunca tinha sido um mar de rosas, e sim uma caminhada lamentável, feia e solitária em busca de uma ilusão atrás da outra. A compaixão de Dewey, porém, não era profunda o bastante para acomodar o perdão ou a misericórdia. Ele esperava ver Perry e o comparsa enforcados – lado a lado (p. 307). Por ter ficado com os diários pessoais de Perry, o autor conseguiu entrar de fato na cabeça do assassino, resgatando conversas e pensamentos que até então somente o 54 criminoso sabia, mas que por algum motivo Capote se negava a deixar que certos detalhes morressem com Perry, mesmo que se mostrasse frio por diversas vezes, também era solitário e não tinha ninguém em quem confiar. [...] Se eu me sinto arrependido? Se é isso que você quer saber – não. Não sinto nada. Bem que eu queria. Mas nada daquilo me incomoda nem um pouco. Meia hora depois que acabou – Dick já estava fazendo piadas e eu já estava rindo delas. Talvez nem eu nem ele sejamos humanos. Sou humano o bastante para sentir pena de mim mesmo. Pena de não poder também sair andando daqui quando você for embora. Más é só. [...] Soldados não perdem o sono. Matam gente e ganham medalha por matar. Os bons habitantes do Kansas querem me matar – e algum carrasco vai ficar bem satisfeito de ser encarregado da tarefa. Matar é fácil – muito mais fácil do que passar um cheque sem fundos. Lembre-se: eu só tinha conhecido os Clutter mais ou menos uma hora antes. Se eu conhecesse aquelas pessoas de verdade, acho que o meu sentimento seria outro, e talvez eu não conseguisse viver em paz comigo mesmo (p. 359). Muitos julgaram que o autor acabou se relacionando de forma exagerada e íntima com Perry, uma vez que seus relatos sempre pendiam mais para ele, mesmo mostrando também os vários lados de Dick, mas, ao analisar as descrições de Capote sobre os criminosos, conversas e pensamentos, percebe-se que talvez essa preferência por Perry tenha se desenvolvido devido ao fato de que ele não tinha ninguém para interferir por ele, alguém que o amasse e lhe protegesse. Diferente de Dick, que sempre teve os pais ao seu lado, lhe visitando e dando entrevistas sobre a bondade que ele também possuía. Além disso, em uma auto descrição feita pelos dois criminosos, é possível notar a diferença de vida dos dois, o estilo social desde suas infâncias até aquele momento, os traumas. Quando Dick relata, que mesmo pobres, seus pais nunca brigaram e sempre lhe deram vários brinquedos, sobre as bolsas para faculdades que ele conseguiu, diferentemente de Perry, que sempre foi cercado pelas traições de sua mãe na frente dos filhos, das brigas dos pais, resultando sempre em extrema violência, além dos abandonos quando criança e de sempre apanhar brutalmente, como também, de não ter tido oportunidade de estudar e de se envergonhar disso. Na narrativa de Capote, é possível ver certo mau caráter em Dick, desde jovem e por mais maligno que Perry possa ter sido, em alguns momentos, dos dois, era quem mais parecia ter consciência e compaixão e até mesmo um limite para seus crimes. Capote acompanhou todos os momentos dos criminosos, desde o julgamento até a condenação e a morte e descreveu sobre o que eles sentiam e viveram. [...] os condenados foram levados embora. Quando chegaram à porta, Smith disse a Hickock: “Esses não tiveram coração acovardados!”. Os dois riram alto, e um 55 fotógrafo captou o flagrante. O retrato apareceu num jornal do Kansas, acima de uma legenda que dizia: “A última risada?” (p. 379). Após irem para o corredor da morte, entre apelações, anos se passaram. Outros presos que estavam no mesmo corredor com a dupla e que acabaram se tornando amigos foram para a forca e ao ser perguntado sobre seu fim, Dick relatou suas esperanças de um dia sair da prisão, mesmo no corredor da morte, ele acreditava até o último segundo que iria escapar. O que posso dizer sobre a pena de morte? Não sou contra. Não passa de vingança, mas eu não vejo problema nenhum na vingança. É uma coisa muito importante. [...] As pessoas escrevem essas cartas para os jornais. Saíram duas num jornal de Topeka outro dia – uma delas de um pastor. Perguntando que farsa legal é essas, por que esses filhos-da-puta Smith e Hickock ainda não foram pendurados pelo pescoço, por que esses assassinos filhos-da-puta ainda estão comendo às custas do dinheiro dos contribuintes? Bem, eu entendo o lado deles. Estão danados porque ainda não conseguiram o que querem – vingança. E não vão conseguir, se depender de mim. Eu acredito na forca. Contanto que não seja eu o enforcado (p. 413-414). Logo após, Capote faz um contraste das esperanças de Dick, com o que de fato viria a acontecer. Em março de 1965, quando já fazia quase 2 mil dias que Smith e Hickock estavam confinados no Corredor da Morte, a Suprema Corte do Kansas decidiu que suas vidas deveriam ter um fim entre meia noite e duas da manhã de quarta-feira 14 de abril de 1965. Em seguida, um pedido de clemência foi apresentado ao governador recém-eleito do Kansas, William Avery, mas Avery, um rico proprietário rural sensível à opinião pública, recusou-se a interferir – uma decisão que julgava atender ao “mais alto interesse do povo de Kansas”. (Dois meses mais tarde, Avery negou o pedido de clemência também para York e Latham, que também foram enforcados em 22 de junho de 1965.) (p. 415). Encerrando esse longo drama cuja leitura deixa notória até as últimas páginas, a literatura e o jornalismo juntos, sendo contados de uma forma que só o jornalismo literário torna possível. E foi assim que, ao amanhecer daquela manhã de quarta-feira, Alvin Dewey, tomando seu café-da-manhã na cafeteria de um hotel de Topeka, leu, na primeira página do Star de Kansas City, a manchete que havia muito ele esperava: MORTE NA FORCA POR CRIME SANGRENTO. A matéria, escrita por um repórter da Associated Press, começava assim: “Richard Eugene Hickock e Perry Smith, comparsas no crime, foram enforcados hoje na prisão por um dos crimes mais sangrentos dos anais criminais do Kansas. Hickock, de 33 anos, morreu primeiro, à 0h41; Smith, de 36, morreu à 1h19 [...]” (p. 415). O jornalismo literário tem como característica contar os fatos, através de vários ângulos. Mas, além disso, esse jornalismo está mais interessado não apenas em jogar em 56 nossas mãos várias notícias e seguir adiante, ele tem o intuito de resgatar toda a trajetória das pessoas envolvidas no caso, de contar os fatores que levaram aquele fato a acontecer. Foi o caso do livro A Sangue Frio, que mesmo com um título que remete a um crime brutal, o autor teve o interesse e foi até o fim com uma obstinação incrível para saber sobre a vida das vítimas e dos assassinos, dos habitantes da cidade, da família dos envolvidos, do passado deles, tudo que de alguma forma contribuiu para a peça final do crime. Para Capote, um crime tinha muito mais a ser desvendado do que somente saber quem o cometeu. A superficialidade não fazia parte deste livro, uma vez que o autor relata tão profundamente a personalidade de todos e pequenos detalhes que não foram deixados de lado, como teria acontecido em um jornalismo mais enxuto. Prova disso são as cartas que o pai de Perry lhe escrevia, contando sobre um tempo não muito distante, em que seu filho sempre fora motivo de orgulho para ele, mesmo tendo uma infância difícil, com uma mãe alcoólatra, que por ventura acabou morrendo pelo próprio vômito; da morte dos irmãos, do tempo em que viveu em orfanatos e era espancado pelas freiras ou afogado até ficar com pneumonia e até mesmo da época em que serviu ao exército e ganhou medalha por honra. De sua juventude, no qual ensinava as crianças a ler e tocar, todas essas visões que de alguma forma remetem qualquer leitor para essa época, como se pudesse ver o menino e o homem que Perry chegou a ser, antes de se desviar. Nesse ponto, o jornalismo também está presente, uma vez que ele também faz o papel de denúncia social, então não seria seu dever mostrar todas as faces da verdade e deixar o leitor tomar sua própria decisão, ao invés de fazer o papel de juiz e julgar culpadas outras pessoas? Muitas vezes, essa encenação toda da mídia serve apenas para garantir audiência, quando deveria servir para conscientizar a sociedade. Verossimilhança... Para Vicchiatti (2005), esse talvez seja o elemento mais importante, uma vez que deve estar presente tanto no jornalismo padrão, quanto no jornalismo literário, para que assim seja possível averiguar a coerência interna da obra, garantindo a verdade dos fatos. No livro de Capote, essa verossimilhança fez-se presente tanto pelo caso real do crime, quanto pelas fontes usadas, os relatos e suas fundamentações nas pesquisas, exigidas até pelos leitores da obra. É importante, porém, ressaltar que em nenhum momento esta pesquisa teve como intuito dar razão ou defender o crime cometido pelos assassinos. De fato, o objetivo do trabalho é mostrar como um mesmo fato pode ser descrito com olhares distintos. Logo, deve- 57 se dar ao leitor o direito de ver todos os ângulos dos fatos, ou, as várias faces da verdade, para que assim, ele possa criar sua própria opinião. Assim como nos textos jornalísticos que clamam a objetividade, Capote evitou deixar suas evidências na narrativa, esquivando-se de comentários e opiniões, que faziam parte da retórica do silêncio, sem intervenções diretas. O próprio autor comentou sobre isso: “Acredito que, para a forma do romance de não-ficção ser inteiramente bem-sucedida, o autor não deve aparecer na obra” (CAPOTE, 1965, p. 429). No próprio livro de Capote, o autor começa suas considerações relatando que tudo que foi escrito no livro está baseado em fontes e fatos reais garantindo a verossimilhança da história. Essa citação aborda exatamente isso: “Todo material contido neste livro que não provém de minha própria observação, ou foi retirado dos registros oficiais ou resulta de conversas com as pessoas diretamente envolvidas, entrevistas em geral realizadas ao longo de um extenso período” (p. 17). Porém, não se deve esquecer a “polêmica” cena final e tentar entender sobre a atitude de Capote ao inserir essa parte, uma vez que o autor inventou que Alvin Dewey encontrava-se casualmente com Susan Kidwell no cemitério de Garden City, onde os mortos da família Clutter estavam enterrados. Alvin Dewey era o investigador que trabalhou no caso e auxiliou as pesquisas de Capote, e Susan Kidwell era a melhor amiga de Nancy Clutter, uma das vítimas. Essa informação está em “Capote - Uma Biografia” (1988), de Gerald Clarke, onde segundo o autor, o próprio Truman teria lhe confessado a mentira. Talvez Capote tenha se perguntado sobre o destino de Nancy se ela estivesse viva, já que se envolveu tanto com a história e a morte da família, ou o real objetivo do autor tenha sido tocar o leitor, uma vez que a conversa remete-o ao que Nancy poderia ter se tornado, se sua vida não tivesse sido interrompida tão brutalmente. Algo pelo qual muitos leitores possam sentir empatia, ao ter perdido um conhecido ou um ente querido e também se perguntar que pessoa ele teria se tornado. [...] Estou no primeiro ano da Universidade do Kansas” disse ela. “só vim passar uns dias em casa”. “Que beleza, Sue. E o que você está estudando?” “Tudo. Principalmente artes, que eu adoro. Estou muito feliz.” Ela olhou para a pradaria. “Nancy e eu planejávamos ir juntas para a faculdade. Íamos morar no mesmo quarto. Às vezes eu penso nisso. De repente, quando eu fico muito feliz, eu me lembro dos planos que a gente fazia.” Dewey olhou para a lápide cinzenta onde estavam inscritos quatro nomes, e a data da morte: 15 de novembro de 1959. [...] “[...] É um prazer para mim encontrar você, Sue. Boa sorte”, gritou ele enquanto ela desaparecia pela alameda, uma linda moça apressada, os cabelos macios balançando e brilhando ao sol – exatamente como a moça que Nancy teria sido. E então, 58 tomando o caminho de casa, ele voltou para a sombra das árvores, deixando para trás o vasto céu e o murmúrio das vozes do vento que curvava o trigo (p. 422). É aqui então que um clássico do jornalismo literário entra em contradição, uma vez que o único mandamento de qualquer narrativa de não-ficção é exatamente não inventar situações, lugares, objetos e pessoas, prezando sempre a verdade dos fatos. As críticas mais pesadas ao jornalismo literário vêm exatamente pela exigência da objetividade, contestado por alguns tradicionalistas do jornalismo, que por sua vez, limitaramse aos textos burocráticos, pobres de espírito, de vocabulário e de história. No final das contas, o caráter tendencioso dos noticiários termina obscurecido pela suposta neutralidade. 4.3 Ao analisar, conclui-se... Capote escreveu um livro no qual foram empregados seus requintes narrativos, levando o A Sangue Frio para entre os grandes momentos da literatura americana do século XX, ao mostrar um fato da tão chocante realidade e ser capaz de reinventá-la em uma obra do jornalismo literário. De acordo com Cotta (2005), ao analisar o livro e seus presentes elementos, podese comparar o exemplo claro da narrativa jornalística com traços literários, principalmente sobre a diferença da narrativa do jornalismo padrão, no qual não se possibilita levar a delicadeza em determinados momentos descritos do fato. Capote descreveu no próprio livro, que o jornalismo era “uma fotografia literária”, tentando reproduzir os trechos. Nas mãos do autor, era possível entender essa analogia, uma vez que ele pegava fatos reais e os descrevia com um olhar humanizado e sutil, marca essa do autor. Com base nos princípios do jornalismo literário, o autor gastou horas, durante anos, investigando e entrevistando as mesmas pessoas, fazendo o mesmo percurso que os assassinos haviam feito, mergulhando no tema de sua pesquisa fielmente, atrás de informações, sendo esse um dos procedimentos do Jornalismo literário. Segundo Capote, ao terminar toda sua pesquisa, ele tinha cerca de oito mil páginas, sobre todos os momentos, conversas, depoimentos compilados pela justiça, laudos médicos, psiquiátricos dos criminosos, pesquisas e tudo que pôde recolher sobre o caso durante todos aqueles anos. Porém, fez uso apenas de 20% de tudo, especialmente porque o próprio jornal para o qual trabalhava na época ter se voltado contra todo o conteúdo. Dessa forma, ele foi obrigado a fazer um recorte detalhado e voltar ao começo de todas as suas anotações, para conseguir encaixar peça por peça, até o final de sua história. 59 É interessante então, pensar que o livro como um todo, ou pelo menos trechos fundamentais da obra, seriam descritos de uma maneira mais direta e fria nas mãos de um jornalista convencional, limitando assim a visão do leitor. Mesmo sendo bastante criticado por outros jornalistas também consagrados, a magnitude das palavras de Capote não pode ser ignorada. Apesar de ser um relato de um crime aparentemente comum dentre tantos outros crimes, o livro acaba prendendo a atenção dos leitores a cada momento, tanto pelos detalhes minuciosos, quanto pelo poder de segurar o leitor pela linguagem fluida e penetrante da obra. A cada momento é necessário prosseguir a leitura para saber como o autor chegou a um final, dessa maneira, o leitor se vê envolvido pelos personagens e os acontecimentos. O que se vê nas reportagens ditas objetivas de hoje é que estas estão baseadas em “aconteceu ontem” ou “fulano disse” e que por diversas vezes enfrentam reações iradas das fontes. No jornalismo literário, essas fontes também podem se tornar um problema, ao se arrependerem de dizer algo, como o ocorrido com alguns personagens de A Sangue Frio, que se queixaram de cenas, diálogos, pensamentos e atitudes que não lembravam ter mencionado. Porém, ao voltar à cena final, é no mínimo curioso e estranho que os dois protagonistas dessa tal cena inventada, ao que se sabe, nunca reclamaram de terem seus nomes em conversas nunca ditas. Vale lembrar que o jornalismo literário também faz uso de determinados elementos usados para descrever um fato real, como Gastão (1959) estabeleceu. São eles: envolvimento total do autor no tema abordado, estrutura narrativa que capte a atenção do início ao fim, linguagem aprimorada, exatidão, responsabilidade, uma visão ampla do mundo para que vários pontos sejam emitidos. Outras características também são de suma importância para o autor levar em conta, como criatividade, inovação, relação de confiança com as fontes, compromisso com os fatos, humanismo, muitos desses elementos estão também presentes no jornalismo padrão. Capote foi o confidente de Perry e Dick por seis anos, como conta no livro. Para o autor, a última parte, em que relata a morte dos dois assassinos, foi o mais marcante de sua vida e muito difícil de ser escrito, afirmando que sua mão ficou paralisada. Na véspera da execução, os dois pediram para que o autor os visse pela última vez, o que teria abalado seriamente Capote, estando às lágrimas o tempo todo e dizendo que não conseguiria fazer isso. Por fim, foi ao encontro dos dois na antecâmara da morte: eles que foram os principais personagens do seu Best Seller, A Sangue Frio, um livro que foi o seu auge, como também seu tormento, uma vez que ele nunca mais conseguiu escrever como em 60 A Sangue Frio, atormentado por todos os acontecimentos dessa história, especialmente por ter assistido de perto à execução daqueles criminosos que para o autor também foram pessoas. Entretanto, seria questionável a delicadeza da literatura, contida em um caso que deveria ser somente mais uma matéria jornalística, de um crime em uma pequena cidade, mas que em vez disso ganhou o universo do jornalismo de uma forma arrebatadora? Para além das colinas distantes,/Os sons plangentes dos curiangos,/Reverberam em rochas e regatos,/Esse gemido tão plangente!/É o tordo tantas vezes ouvido,/Pretendendo fazer de si um absurdo,/Ou apenas um pássaro melancólico,/Na verdade, triste como eu (Poema de Perry enviado a Trumam Capote, apud SMITH, 1965). A violência está sim presente neste livro, porém, é importante lembrar, que o tema abordado, é um crime e respeitando as normas do jornalismo em sempre relatar a verdade, no jornalismo literário isso não poderia ser modificado, mas é na visão do autor, que esse crime pode ser relatado de forma poética e ainda sim, justa, sem perder o realismo do momento, não para expor e criar um espetáculo, mas para despertar no leitor algum sentimento diante de notícias, que aos poucos se tornam banais, como se mais uma vida perdida fosse normal. Espera-se que esta pesquisa tenha contribuído de alguma forma, para a reflexão que muitos acabam tendo, sobre o jornalismo literário, ampliando assim, outra visão sobre esse jornalismo que mesmo intitulado de “novo”, tem trilhado um longo caminhando, levando às pessoas a conscientização pela busca da humanização não somente na comunicação, mas também no crescimento da sociedade. 61 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho foi possível apontar os parâmetros do jornalismo literário, tão controverso para alguns, através de uma análise da obra de Truman Capote, A Sangue Frio, com o objetivo de se fazer um contraponto entre o jornalismo convencional e o jornalismo literário, ou New Journalism, tendo como foco o discurso da violência tão presente na mídia. Para tanto, foi necessário frisar o início do jornalismo e o início da literatura, descrevendo características de ambos, além de abordar os discursos que o jornalismo utiliza na mídia e suas intenções. O tema da violência também foi essencial, uma vez que a violência é abordada no livro analisado, portanto, o entendimento da violência como um todo era crucial como ponto de vista. Além do sensacionalismo para com a sociedade, para que se possa ter consciência de até onde a violência é real e onde a mídia por muitas vezes exagera. Portanto, encerra-se esta etapa da pesquisa salientando que, além de aprender e refletir sobre muitos aspectos do jornalismo literário, este estudo despertou mais a vontade de pesquisar sobre esse tema e seguir adiante, evoluindo esta pesquisa e fazendo novas descobertas. Para muitos jornalistas, o jornalismo literário é mal visto por ser considerado um gênero que não atende aos padrões do jornalismo convencional, desprezando muitos profissionais que atuam nesse campo. Isso foi um dos maiores fatores que contribuíram para minha pesquisa, uma vez que tinha o desejo de mostrar que se pode levar informação, acrescentando nas pessoas, o reflexo sobre muitos problemas sociais, tudo sendo narrado de forma humanizada e justa para a sociedade. Assim como Truman Capote, acreditava que a função do escritor poderia ser estendida para o jornalista, espera-se que futuramente esse caminho esteja mais receptivo para todos que desejam se tornar um jornalista-escritor. 62 6 REFERÊNCIAS BACCEGA, Maria Aparecida. Comunicação e Linguagem: Discursos e Ciência. São Paulo: Editora Moderna, 1998. BOND, Frank Fraser. Introdução ao jornalismo: uma análise do quarto poder em todas as suas formas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1962. BRITO, José Domingos de (org.). Literatura e jornalismo. São Paulo: Novera, 2007. CALDAS, Graça. Comunicarte, v.1, n. 1, São Paulo: CLC, 1999. CANDIDO, Antônio. Literatura e sociedade: os estudos de teoria e história literária. 2ª ed. 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Último acesso: 07/07/2013. 66 Anexo 01: Jornais norte-americanos da época em que o crime aconteceu 67 68 Anexo 02 - Fotos da família Clutter 69 Anexo 03 - Foto do Cemitério onde a família Clutter foi enterrada 70 Anexo 04 - Fotos da Cidade de Holcomb, Kansas 71 Anexo 05 - Foto de Trumam Capote durante suas pesquisas 72 Anexo 06 - Fotos dos criminosos: Perry Smith e Dick Hickock 73 Anexo 07 - Foto de Perry em uma sessão fotográfica com Capote 74 Anexo 08 - Fotos do Julgamento 75 Anexo 09 - Ficha Criminal 76 Anexo 10 - Foto de Perry com Psiquiatra 77 Anexo 11 - Foto de Perry durante o julgamento 78 Anexo 12 - Fotos de Dick sendo carregado pelos policiais depois do julgamento 79 Anexo 13 - Foto intitulada pelo Jornal Star como: A Última Risada? 80 Anexo 14 - Foto do detetive que trabalhou no caso Clutter: Alvin Dewey 81 Anexo 15 - Lista de testemunhas autorizadas para assistir o enforcamento dos assassinos: Capote estava na lista 82 Anexo 16 - Telegramas trocados entre Perry e Capote 83 Anexo 17 - Foto do local onde Perry e Dick foram sepultados 84 Anexo 18 - Capa do livro A Sangue Frio (In Cold Blood)