MÉTODO ALTERNATIVO À VIVISSECÇÃO NA DISCIPLINA DE TÉCNICA CIRÚRGICA E ANESTESIOLOGIA VETERINÁRIA ALTERNATIVE METHOD TO VIVISECTION USED DURING THE CLASSES OF VETERINARY SURGICAL TECHNIQUE AND ANESTHESIOLOGY Silvio Henrique de Freitas1, Renata Gebara Sampaio Dória2, Mariana Bueno Carvalho1, Marco Aurélio Molina Pires1, Andréia Straglioto1, Resumo O presente trabalho tem como objetivo relatar o uso de um modelo cirúrgico abdominal veterinário (MCAV) na disciplina de técnica cirúrgica e anestesiologia veterinária (TCAV) da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cuiabá (FMVET/UNIC), em substituição ao uso de animais vivos nas aulas TCAV no período de 2009 a 2010. O método alternativo foi aprovado por 100% dos alunos envolvidos na disciplina, podendo, nesse caso, ser uma opção a mais à prática da vivissecção. Palavras-chave: Modelo cirúrgico, vivissecção, bem-estar animal Summary This paper aims at reporting the use of a Veterinary Abdominal Surgical Model (VASM) during the classes of Veterinary Surgical Technique and Anesthesiology (VSTA) in the School of Veterinary Medicine, University of Cuiabá (SVM/UNIC), replacing the use of live animals during the VSTA classes from 2009 to 2010. This alternative method was approved by 100% of the students involved in the discipline, and the VASM became one more option to the practice of vivisection. Key words: surgical model, vivisection, animal welfare Introdução: A vivissecção é uma prática frequente no ensino, principalmente nos cursos de biologia, psicologia, medicina, medicina veterinária, educação física, zootecnia, entre outros (BASTOS et al., 2002; SOUZA, 2007; FEIJÓ et al., 2008). Nesses cursos, ainda prevalecem o conceito de que o treinamento das técnicas operatórias em animais vivos é a melhor opção, pois entendem-se que essa prática seja fundamental para o aprendizado do aluno (PAIXÃO, 2001). Por isso, mesmo sabendo que essa forma de ensina é prejudicial aos animais, a maioria das universidades ainda a utiliza nas disciplinas de seus cursos, pois acredita que o seu uso seja fundamental no processo de ensino e aprendizado (MAGALHÃES e ORTÊNCIO FILHO, 2006). Atualmente, a prática da vivissecção na Medicina Veterinária, tem mobilizado professores, alunos, entidades protetoras dos animais e, também, empresas empenhadas na elaboração dos chamados métodos alternativos, que poderão ser utilizados em substituição ao emprego de animais nas aulas práticas. No Brasil, os aspectos legais vigentes ainda permitem o uso da vivissecção no ensino, provavelmente isso se deve à falta de consciência dos educadores e, também, pela indisponibilidade de métodos alternativos viáveis a sua substituição (TUDURY e PORTIER, 2008; MATERA, 2009; ZANETTI, 2010). Dessa _______________________ 1 Professor das Disciplinas de Técnica Cirúrgica e Anestesiologia e Clínica Cirúrgica do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cuiabá (FMVET UNIC) e-mail: [email protected]. 2 Professora da Disciplina de Clínica e Cirurgia de Equinos do Curso de Medicina Veterinária da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA), da Universidade de São Paulo (USP). forma, é proposto a confecção e o uso de um modelo cirúrgico abdominal veterinário (MCAV) na disciplina de TCAV. Metodologia: Para confecção do MCAV, utilizou-se o EVA (etil, vinil e acetato), espuma revestida com tecido (poliuretano), cola e fios de algodão. A parede externa do MCAV foi montada em três camadas: pele, confeccionada com EVA; o subcutâneo, com poliuretana e o peritônio, por tecido revestido da espuma, os quais foram unidos com cola. Inicialmente, criou-se os moldes dos órgãos com metilmetacrilato autopolimerizável e barra oca alumínio, os quais em seguida receberam retalhos de EVA aquecido para moldar o baço, a bexiga, os rins, o estômago e o intestino delgado,. Diferentemente dos órgãos anteriores, o sistema reprodutor feminino foi montado manualmente. Na sequência, os órgãos já montados foram distribuídos e fixados de acordo com a anatomia topográfica na base do MCAV (Figura 1B), e envolvidos pela parede externa previamente confeccionada (Figura 1A). Nas aulas práticas, cada grupo, formado por dois alunos (cirurgiões chefe e auxiliar), recebeu um modelo cirúrgico onde foram realizadas as principais técnicas cirúrgicas envolvendo os órgãos abdominais. Figura 1 – Modelo cirúrgico abdominal veterinário (MCAV) (A). Órgãos confeccionados com EVA e distribuídos sobre a plataforma do modelo. Notar: baço (a), bexiga (b), rins (c) e ureteres (d), estômago (e), intestino delgado (f) e sistema reprodutor feminino: cornos uterinos (g) (B) e aplicação da ovariosalpingohisterectomia (OSH) no MCAV. Uso da técnica da três pinças aplicadas no pedículo ovariano (1 e 2) e no ligamento próprio (3). Notar: ovário (1preto), corno uterino (2preto) e ligamento largo (3preto). Resultados e Discussão: O modelo cirúrgico abdominal veterinário (MCAV) foi aceito por todos os alunos (100%) presentes nas aulas práticas de TCAV, onde foram realizadas técnicas cirúrgicas como a esplenectomia parcial e total, ovariosalpingohisterectomia (Figura 1 C), nefrectomia total, gastrotomia e gastrectomia parcial, enterotomia, enterectomia, enteroanastomose e cistotomia. Estudos reslizados por Mirault-Pinto e Odalia-Rímoli (2005) mostrou que a maioria dos alunos que tem aulas envolvendo animais vivos, prefere não usá-los, desde que tenham disponíveis outros recursos alternativos que possam substituí-los, sem causar prejuízo ao ensino. Provavelmente, a aceitação do MCAV por parte dos alunos se deu porque a implantação dessa metodologia de ensino foi gradativa e discutida a importância de substituir o uso de animais vivos por outros métodos viáveis que não causassem prejuízo ao ensino. Além do mais, as estruturas anatômicas do MCAV eram muito semelhantes às de um canino vivo. Sendo assim, os alunos não demonstraram dificuldades em executar as principais técnicas cirúrgicas no MCAV. Conclusões: O uso do MCAV nas aulas práticas da disciplina TCAV contribuiu com o aprendizado dos alunos. Logo, pode ser utilizado como uma opção a mais no ensino da Medicina Veterinária, reduzindo dessa forma a vivissecção. 2 Referências BASTOS, J.C.F.; RANGEL, A.M.; PAIXÃO, R.L. et al. Implicações éticas no uso de animais no processo de ensino-aprendizagem nas faculdades de medicina do Rio de Janeiro e Niterói. Revista Brasileira de Educação Médica, v.26, p.162-170, 2002. FEIJÓ, A.G.S.; SANDERS, A.; CENTURIÃO, A.D.; et al. Análise de indicadores éticos do uso de animais na investigação científica e no ensino em uma amostra universitária da Área da Saúde e das Ciências Biológicas. Scientia Medica, v.18, p.10-19, 2008. MAGALHÃES, M.; ORTÊNCIO FILHO, H. Alternativas ao uso de animais como recurso didático. 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