UM MODELO DE USO E CIRCULAÇÃO HUMANA NA REGIÃO DA SERRA DE SANTANA,
RIO GRANDE DO NORTE: UM EXERCÍCIO DE ARQUEOLOGIA DA PAISAGEM
POR WALTER MORALES1 E FLAVIA MOI2
Resumo
Esse art igo apresent a um modelo de uso e ocupação do espaço para
a região de Serra de Sant ana, Rio Grande do Nort e. Para t ant o,
emprega o arcabouço t eórico-met odológico da Arqueologia da
Paisagem, com o obj et ivo f inal de t raçar ant igos caminhos, rot as de
passagem, pont os de parada e marcos na paisagem que teriam sido
ut ilizados desde t empos ancest rais pel as diversas popul ações que
habitaram essa região ao longo dos séculos
Palavras chave: Arqueologia, Arqueologia da Paisagem, Arqueologia Regional, Art e
Rupestre, Padrões de Assentamento, Serra de Santana.
Introdução
As análises, hipóteses e modelos aqui apresent ados est ão baseados na Arqueologia da
Paisagem, perspect iva que procura det ect ar e ent ender as variadas ocupações
exist ent es em uma dada região por int ermédio da análise dos vest ígios arqueológicos
e sua dist ribuição na paisagem regional. Essas variáveis são as referências básicas
para ident ificar e apont ar algumas caract eríst icas dos sist emas sociocult urais que
configuram a ocupação de uma determinada região ao longo do tempo.
Essa possibilidade de conexão ent re vest ígios arqueológicos e a implant ação na
paisagem faz com que a Região Arqueológica de Sant ana e seu ent orno t enha
especial int eresse, j á que os est udos desenvolvidos nesse t recho nos últ imos anos,
ident ificaram mais de uma cent ena de sít ios arqueológicos de diferent es
procedências cult urais e épocas (Laroche 1983, Robrahn-González, Morales &
Nasciment o 2004a e 2004b, Robrahn-González, Sousa Net o & Morales 2005, Santos
Junior 2005, Sousa Net o & Bert rand 2005, Santos Junior, Porpino & Silva 2007,
1
Arqueólogo e Cientista Social (FFCLH/USP), com Mestrado e Doutorado em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e
Et nologia da Universidade de São Paulo (MAE/ USP). Professor da Universidade Est adual de Sant a Cruz (UESC) e
coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Bahia (NEPAB/UESC).
2
Etno-arqueóloga e Cient ist a Social (FFCH/ USP), Mest re em Arqueologia (MAE/ USP) e Dout oranda em Ambient e e
Sociedade pelo Núcleo de Est udos e Pesquisas Ambient ais (NEPAM/ Unicamp). Pesquisadora do Núcleo de Est udos e
Pesquisas Arqueológicas da Bahia (NEPAB/UESC).
Morales, Sousa Neto & Viva 2007).
Esses assentamentos – sít ios lít icos, cerâmicos, hist óricos e abrigos e laj edos com
grafismos rupest res – estão associados aos diferent es horizont es de ocupação humana
que ali ocorreram nos permitiram avançar nos estudos sobre Arqueologia da Paisagem
e formular um modelo de uso e circulação dessa região, que apresentamos a seguir.
Arcabouço teórico-metodológico
A perspect iva t eórica fundament al é que a Arqueologia é uma Ciência Social e que,
por meio dos vest ígios mat eriais recuperados, considerados como vet ores de
informação, é possível inferir os comport ament os humanos e as caract eríst icas
sociocult urais dos grupos que os produziram (Binford 1983 e Renfrew & Bahn 1996).
Assim, devem ser analisadas t odas as informações disponíveis, que podem est ar
represent adas por apenas um art efat o ou por um conj unt o de sít ios arqueológicos
(Hodder e Orton 1990).
Procedendo dessa maneira a análise recai mais sobre as possibilidades de art iculação
espacial e funcional dos sít ios em âmbit o local e regional (Dincauze 2000). Além dos
diversos at ribut os observados habit ualment e nos vest ígios arqueológicos, nest e t ipo
de análise é dada ênfase à maneira como eles se dispõem no espaço, evidenciando
caract eríst icas de
t errit orialidade,
organização
e
int eração
socioeconômicas
(Gorenflo & Gale 1990).
Procura-se ent ender cult ura/ sociedade – constit uídas das int er-relações ent re as
comunidades humanas e o ambient e –, quando a análise do uso do espaço assume
import ância fundament al (Binford 1982). Somada às caract eríst icas das at ividades e
processos em que as t ecnologias est iveram envolvidas para a capt ação de recursos, a
análise do uso do espaço leva a inferências sobre as est rat égias de subsistência
adot adas pelas sociedades e sobre a razão da escolha dessas est rat égias dent ro de um
número finito de opções (Billman & Feinman 1999).
Dent ro desse enfoque a abordagem da Arqueologia Regional apresent a-se como uma
das mais int eressant es para t rat ar dessas evidências arqueológicas (Morales 2005).
Ela
foi
conceit ualment e
definida
por
Willey
(1953),
como
“ padrões
de
assent ament o” , aprimorada por Wint ers (1968) para “ sist emas de assent ament o” e
post eriorment e difundida por pesquisadores que buscaram aproximar a relação
existente entre natureza, tecnologia e sistema social (Chang 1972).
A questão central passou a ser a distribuição dos sítios arqueológicos na paisagem, ou
sej a, sua análise espacial (Clarke 1977, Johnson 1977, Hodder & Ort on 1990), que é
um reflexo diret o das formas de int eração dos assent ament os humanos com o seu
ambient e circundant e e dos padrões de art iculação ent re eles. Por meio deles é
possível ent ender os processos relacionados à est rut uração sociocult ural das
sociedades humanas que um dia ocuparam um det erminado lugar. Essa perspect iva e
t odos os seus desdobrament os post eriores fizeram com que os sít ios arqueológicos
deixassem de ser vist os como um fim em si mesmo e passassem a serem incluídos em
uma rede art iculada de significados, onde cada assent ament o t em um papel
complementar dentro de um sistema maior (Kroll & Price 1991).
De acordo com essa abordagem os sít ios ident ificados são inseridos no espaço maior
de que fazem part e por meio do exame das int erações do homem com seu ambient e
imediat o, quando uma das referências iniciais é o cont ext o t ecnológico e sua
implantação. Em seguida poder-se-á proceder à int erpret ação da implant ação dos
sít ios em função dos element os nat urais e simbólicos que podem est ar definindo seu
posicionament o na paisagem, t ais como o relevo, visibilidade das áreas de ent orno,
font es d' água perene, font es de mat éria-prima, a formação veget al, facilidade de
acesso ou a presença de abrigos rochosos (Morales 2005).
Para esses est udos são ut ilizados como referência alguns dos mét odos e discussões
propost as inicialment e por Plog & Hill (1971) e Flannery (1976) sobre a análise da
dist ribuição espacial em relação as variáveis ambient ais. A art iculação de cada sít io
em relação ao conj unt o de sít ios localizados deve ser feit a por meio da semelhança
dos at ribut os e pela art iculação espacial exist ent e ent re eles. Busca-se dessa forma
inferir
padrões de
dist ribuição
e
localização
dos sít ios em
relação
aos
compart iment os da paisagem para, a part ir daí, caract erizar e organizar as unidades
que fazem part e do sist ema de assent ament o (Gummerman 1971 e Hodder & Orton
1990).
Ainda que est e nível de análise dos dados est ej a volt ado à compreensão das
necessidades de subsist ência e aos aspect os econômicos, a present e análise sobre a
região de Sant ana agrega fat ores simbólicos e cognit ivos na forma de ocupar o
espaço, abordagem que t em sido int ensament e aplicada nos dias at uais pela
Arqueologia da Paisagem (Thomas 2001). Esse t ipo de abordagem pressupõe uma
percepção diferenciada sobre o meio ambiente ao ponderar que a paisagem não é um
simples recort e do meio ambient e nat ural. Ela deve ser vist a ant es de t udo como um
fenômeno cult ural. A paisagem é ent ão percebida como um produt o cult ural e
hist órico de um dado grupo sobre a qual exist e uma rede de int erações e t odo um
universo de elementos que são transmitidos de geração a geração (Morales 2005).
Diant e de t al abordagem, onde ent ra em cena a “ paisagem social” , a visão da
paisagem é cultural e compartilhada pelos grupos sociais que a utilizam (Toren 1995).
Ela é compost a por locais que est ão relacionados no espaço e no t empo por um
sist ema de at ividades (Rossignol & Wandsnider 1992). A área de pesquisa, palco para
at ores diversos, passa a ser percebida como um local cuj a ut ilização vai além da
necessidade de sobrevivência, como área de assent ament o, capt ação de recursos e
expressão
simbólica,
exibindo
múlt iplas
possibilidades
de
ut ilização
e,
conseqüentemente, de interpretação (Hodder 1986).
No Brasil, o enfoque da Arqueologia da Paisagem vem sendo ut ilizado em vários
proj et os de pesquisa e discut ido dent ro do ambient e acadêmico de forma bast ant e
positiva nos últimos anos.
A Serra de Santana como um marco na paisagem
O pont o de part ida para nossas análises regionais é considerar a Serra de Sant ana
uma barreira para aqueles povos e sociedades que t ransit aram por essa região ao
longo do t empo. Seu posicionament o sent ido lest e-oest e fez dessa serra um
obst áculo nat ural de difícil t ransposição desde t empos pret érit os. Ela não pode ser
t ranspost a em qualquer t recho e sua t ravessia est á rest rit a a alguns locais mais
acessíveis exist ent es nos escarpados alcant ilados ou nos fundos de vale mais abert os
que foram erodidos pela força das águas e que hoj e são ocupados por cursos de água
intermitentes.
Acredit amos que para aqueles que circulavam pela região desde t empos mais
recuados3, part indo, por exemplo, de onde nos dias de hoj e é Currais Novos, rumo
Açu, Santana de Matos ou Lajes, as opções seriam pouco numerosas. Para atingir Açu,
3
Toponímia const ant e nas Folhas de Açu (escala 1:100.000) SB 24-L-III, de Pedro Avelino (escala
1:100.000) SB.24-L-IV, Currais Novos (escala 1:100.000) SB.24-R-I e Cerro Cora (escala 1:100.000) SB.24R-II, para a porção Central do Estado do Rio Grande do Norte, na região Nordeste Oriental do Brasil.
essas pessoas – quer sej am em grupos sociais, a pé ou em lombo de muares e eqüinos
– t eriam que passar ent re as serras da Siriema e Pret a, prosseguindo por um largo
t recho plano, t omando rumo oest e e cruzando pequenos córregos int ermit ent es de
fundo arenoso, passando ao largo do pont o onde hoj e est á a vila de São Vicent e, at é
at ingir a bacia do rio Quiproró. Nesse pont o, t eriam a escarpada serra de Sant ana
pelo lado direit o e, bem mais ao longe, poderiam avist ar a serra da Formiga. Mas
para chegar ao seu destino – Açu – teriam que percorrer um largo trecho entre a serra
da Gargant a e a do Tapuio, cruzando por onde hoj e est á sit uada a cidade de
Florânia. Após esse desfiladeiro em cuj a base est á Florânia, at ingiriam uma área bem
mais aberta e plana que levaria direto até Açu.
LEGENDA: ÁREAS PLANAS E ABERTAS NO ENTORNO DA SERRA DE SANTANA EM
SANTANA DO MATOS
Cont udo, caso a opção fosse um caminho mais curt o at é a cit ada Açu, bast aria seguir
a visada dos pequenos e áridos serrotes Pindoba e Branca que se destacam no terreno
nessa direção. Caso preferissem acompanhar um curso de água de maior port e,
deveriam rumar à esquerda e caminhar por cerca de 20km até chegar às barrancas da
margem direit a do rio Piranhas-Açu. A part ir daí, seguiriam à j usant e, superando
pequenas e sucessivas barras dos córregos, at é chegar ao local onde hoj e est á
implantada a cidade de Açu.
Por out ro lado, para se alcançar Angico a t arefa seria pouco mais árdua. O caminho
mais curt o seria seguir em frent e subindo as encost as da serra de Sant ana pelas
pequenas e sinuosas t rilhas. Após superar as encost as cascalhent as replet as de blocos
soltos que dificultam o caminhar, atingiriam a parte mais alta, plana e de visibilidade
ímpar. Do t opo plano, quase uma meset a, pode-se avist ar dezenas de quilômetros
nas direções sul e nort e. Todos os pont os da paisagem que ent endemos como
“ marcos
na
paisagem”
com
significados
t ant o
simbólicos
quant o
de
georeferenciament o, podem ser vist os em t odo o seu esplendor: a pont a do morro do
Cabuj i, o Mirant e, a gargant a de São José da Passagem, a serra do Cruzeiro, do Cuit é
e as bacias do rio Cachoeira e do rio Piranhas-Açu. Além, é claro, dos serrot es de
menor port e e dos pequenos mat acões espalhados por t odos os lados, t odos fért eis
em inscrições rupestres.
Após esses moment os de contemplação, o viaj ant e t eria que descer novament e as
encost as da serra de Sant ana, só que agora em sua face nort e, seguindo quase em
linha ret a at é Angico, distante não mais do que 50km. Nesse t raj et o os obst áculos
seriam poucos e facilment e superáveis. Se est ivessem na época das chuvas, os rios,
apesar de rápidos em vários t rechos, são rasos. Se fosse um período de est iagem,
soment e t eríamos seus leit os secos e arenosos. Nesse t raj et o em linha ret a passariam
exatamente entre duas serras: a do Cajarana e do Gado.
Por fim, o últ imo dest ino. Se o caminho a seguir fosse a região onde est á a cidade de
Laj es, sempre part indo de Currais Novos, o t recho seria um caminho onde há uma
baixa visibilidade das áreas de ent orno em vários moment os. Esse t raçado oferece
longas caminhadas em áreas planas, cercadas por encost as escarpadas, íngremes.
Vales encaixados se sucedem, que no começo e no final do dia, podem bloquear
parte da luz do sol.
Partindo de Currais Novos as opções seriam duas. A mais curt a margearia a vert ent e
esquerda da serra do Cruzeiro até chegar ao local conhecido como Pé do Morro. Daí é
possível seguir por pequenas t rilhas at é a área plana no t opo da serra de Sant ana e,
um pouco depois, passando por onde hoj e est á Cerro Corá. De Cerro Corá at é Laj es a
serra do Feiticeiro acompanha esse trajeto por largos trechos pelo seu lado esquerdo,
impedindo qualquer descaminho at é o final do t raj et o onde est á Laj es. Nesse t recho
final, à esquerda, se dest aca na paisagem o morro Cabuj i. Vale dest acar que no meio
desse t raj et o, após a serra da Macambira e ant es da do Cirino, pode-se seguir entre
vales pela gargant a que dá acesso a São José da Passagem e, a part ir daí, at é as
áreas planas que permitem alcançar a bacia do rio Piranhas-Açu.
LEGENDA: LADO SUL DA SERRA DE SANTANA SENTIDO A PARAÍBA
A Arqueologia da Paisagem: um modelo de uso e circulação humana
O reconhecimento extensivo efetuado em largos trecho da serra de Santana, da bacia
do rio Piranhas-Açu e t errit órios dos municípios de Açu, Sant ana do Mat os, Laj es,
Cerro Cora, Angicos e Currais Novos, somado àquelas informações obt idas nas
pesquisas j á realizadas ou em andament o nessa região (Laroche 1983, RobrahnGonzáles, Morales & Nasciment o 2004a e 2004b, Robrahn-González, Sousa Net o &
Morales 2005, Sant os Junior 2005, Sousa Net o & Bert rand 2005, Santos Junior,
Porpino & Silva 2007, Morales, Sousa Net o & Viva 2007), permit iu elaborar um
modelo bast ant e consist ent e sobre uso e circulação desse t errit ório e que pode servir
como um modelo preditivo a ser testado em futuras pesquisas.
Esse modelo, alicerçado em aspect os paisagíst icos, ambient ais e t opográficos, alguns
dos quais descrit os no t ópico ant erior, t eve como pont o cent ral a serra de Sant ana e
incorporou os vários cenários present es ao seu redor, dent re os quais o morro do
Cabuj i, o Mirant e, a gargant a de São José da Passagem e da região de Florânia e a
bacia do rio Cachoeira. Acredit amos que essas formações, diant e de especificidades
apresent adas no t ranscorrer do t ext o, fizeram part e do universo simbólico e cult ural
dos povos que ali viveram e influenciaram diret ament e na implant ação dos sít ios
arqueológicos já identificados.
Essas análises permitiram elaborar uma hipótese de que a região onde está o povoado
de São José da Passagem represent a um pont o de convergência e at ração, desde
t empos pré-coloniais, para aqueles que ut ilizaram essa região como área de
passagem ou t errit ório de circulação. Por est arem localizadas ent re a serra do
Macambira e a do Saco do Tigre, as áreas de entorno de São José da Passagem seriam
ut ilizadas como um local para descanso, pont o de encont ro ou reunião onde seriam
desenvolvidas as mais diversas at ividades sociais, simbólicas ou econômicas. O
mot ivo para que esse local t enha sido ou servido como um pont o de at ração de
pessoas e grupos sociais é que ali existe uma falha nat ural no relevo que possibilita
cruzar facilmente as elevadas escarpas das serras ali presentes.
Esse t recho teria servido como passagem para aqueles que vêm margeando, desde as
bandas de Florânia, t oda a encost a nort e da serra de Sant ana com o obj et ivo de
chegar onde é hoj e a cidade de Laj es. O canyon do vale de São José da Passagem
t ambém foi ut ilizado por aqueles que vinham das t erras que hoj e fazem part e do
est ado da Paraíba. Para os oriundos do lado sul, cort ando a serra de Sant ana em seu
sent ido sul\nort e, esse seria um excelent e caminho para ser percorrido rumo a locais
conhecidos nos dias de hoje como as cidades de Lajes, Angicos ou Açu.
Outra hipótese que levantamos é que o leito do rio Cachoeira teria servido como uma
espécie de baliza do caminho a seguir para aqueles que circulavam (indo ou vindo)
das parcelas de relevo mais acident ado represent ado pela serra de Sant ana ou seus
prolongamentos, em direção ao rio Piranhas-Açu. Ou sej a, dent ro do modelo de uso e
circulação que est amos propondo t eríamos um caminho nat ural com início na barra
do rio Piranhas-Açu e rio Cachoeira at é a região de São José da Passagem. Esse
caminho que margearia o rio Cachoeira, foi ut ilizado por grande part e daqueles que
circulavam pela região com o obj et ivo final de chegar à região do Saquinho. Esse
local, não por acaso, é uma área conhecida pela quant idade e qualidade dos
grafismos rupest res (Sant os Junior 2005). As pesquisas realizadas por Morales, Sousa
Neto & Viva (2007) revelaram que, nesse t recho de aproximadament e 50km,
entrecortado por pequenas elevações em forma de meia laranja, morros testemunhos
de cont orno mais irregulares e aflorament os de mat acões, j unt o às barrancas da
margem direit a e esquerda do rio Cachoeira est ariam os vest ígios arqueológicos que
t est emunham os pequenos acampament os daqueles que cruzavam o t recho. Os
vest ígios seriam mais fugazes, expedit os, caract eríst icos mais de at ividades pont uais
e não t ant o de uma permanência mais demorada ou de uma gama de at ividades mais
diversificada e completa.
LEGENDA: SERRAS NA REGIÃO DO SAQUINHO SANTANA DO MATOS
O adensament o de painéis rupest res na região do Saquinho soment e reforça essa
hipót ese sobre a circulação humana na região, seus pont os de parada e áreas de
encont ro. As pessoas paravam para descansarem, recuperarem as forças ou se
reunirem nesse local de passagem nat ural por ent re as serras e elevações. Teríamos
aí um local de encont ro, uma área de at ração, que servia como um marco na
paisagem e que ainda é ut ilizada nos dias de hoj e. Ali encont ros seriam marcados e
teríamos pessoas à espera. Um reflexo dessa permanência maior est aria na cult ura
mat erial ident ificada nesse local, que ao exibir uma maior quant idade de art efat os e
t odas as et apas de uma cadeia operat ória de lascament o indicaria uma permanência
mais duradoura (Morales, Sousa Neto & Viva 2007).
Corroborando esse modelo de uso e ocupação do espaço est á a quant idade
significat iva de grafismos rupest res ident ificados nas pesquisas de Sant os Junior
(2005). Mas essa circulação de pessoas e mercadorias não est aria restrita apenas ao
período pré-colonial. A região teria sido utilizada em larga escala também no período
histórico. O povoado de São José da Passagem, implant ado na port a da gargant a,
corrobora essa última assertiva (Morales & Moi 2007).
LEGENDA: GARGANTA EM SÃO JOSÉ DA PASSAGEM
Considerações finais: um modelo preditivo de uso e organização do espaço
Os dados e premissas expost os nas páginas ant eriores permitem esboçar um modelo
preditivo preocupado em identificar áreas com adensamento de sít ios arqueológicos
de forma a articular interpretações regionais de alcance mais amplo.
A partir dos pressupost os da Arqueologia da Paisagem ut ilizados nessa pesquisa e
aplicados ao conheciment o e às informações levantadas por pesquisas ant eriores
(Laroche 1983, Robrahn-Gonzáles, Morales & Nasciment o 2004a e 2004b, RobrahnGonzález, Sousa Net o & Morales 2005, Santos Junior 2005, Sousa Net o & Bert rand
2005, Santos Junior, Porpino & Silva 2007, Morales, Sousa Net o & Viva 2007), pode-se
perceber um adensament o de sít ios rupest res e a céu-abert o na área de passagem
natural que exist e ent re as serras da região do povoado de São José da Passagem. O
mot ivo para que esse local t enha sido ou servido como um pont o de at ração de
pessoas e grupos sociais é que ali o relevo apresent a uma falha nat ural que
possibilita cruzar facilmente as elevadas escarpas das serras existentes.
Diant e dessas informações, propomos um modelo de uso e ocupação do espaço
focado em predizer outras áreas com caract eríst icas semelhant es e que t ambém
possam ser locais de passagem e pont os preferenciais de parada, descanso e reunião
dos grupos sociais que utilizaram essa região ao longo dos séculos.
Esses novos t rechos com caract eríst icas semelhant es à gargant a de São José da
Passagem também t eriam propiciado adensament os de sít ios rupest res e lít icos a céu
aberto semelhantes àqueles do Saquinho, que permit iriam det erminar vários dos
horizontes de ocupação dessa região.
Assim, nosso modelo propõe cinco áreas como pont os pot enciais para com
significativa variabilidade, quantidade e importância de vestígios arqueológicos:
Área 1: As duas áreas de passagem exist ent es ent re as serras da Gargant a e a da
Velha, no curso superior do riacho Saco Grande e do rio da Gargant a. Essa área seria
de grande import ância para aqueles que seguiam da ou para a bacia do rio PiranhasAçu.
Área 2: A região de ent orno da gargant a que há ent re a cidade de Florânia e a serra
Pintada e do Cajueiro.
Área 3: A região que segue ent re a serra Vermelha e a serra do Verde.
Vale a
ressalva do alt o pot encial arqueológico propiciado pelas caract eríst icas de “ corredor
inter-vales“ por onde segue o córrego Riachão.
Área 4: Temos aqui um t recho de menor expressão, sit uado ent re a serra do Ronca e
a Serra da Gameleira por onde passam os riachos da Gameleira e Jacu.
Área 5: Entre a serra do Espinheiro e a Oiticica e junto ao córrego Pedra Preta.
Por out ro lado, t eríamos t rechos onde a quant idade e a variedade dos vest ígios
arqueológicos em sítios a céu abert o seria bem menor. Dent ro do nosso do modelo de
uso e circulação, haveria um caminho nat ural com início na barra do rio Piranhas-Açu
e rio Cachoeira que seguiria at é a região de São José da Passagem. Esse caminho,
que margearia o rio Cachoeira, t eria sido ut ilizado por grande part e daquelas
populações que percorreram essa região com o obj et ivo final de chegar às áreas do
Saquinho e São José da Passagem. Acredit amos que os vest ígios lít icos present es
nesse t raj et o correspondem a assent ament os mais t ênues, expedit os, com uma gama
menor de art efat os, espécies de acampament os provisórios e de at ividades pont uais
(Morales, Sousa Neto & Viva 2007).
Somado aos significados simbólicos e socioculturais que essas áreas de possam ter
para análise dos caminhos t e ant anho, não pode ser deixado de lado um recurso vit al
para essa região: a disponibilidade de água. Isso porque, essa região, de clima
quent e, seco e semi-árido, passa por períodos de seca que impedem a exist ência de
cursos de águas perenes, quando at é mesmo os rios de maior port e secam. Essa
situação não acont ece soment e em t empo recent e. Ela t ambém se processou, com
algumas variações de intensidade, em períodos ao longo de todo o quaternário.
Sabe-se de locais com t anques nat urais onde esse precioso recurso demora mais
t empo para secar e que as pesquisas arqueológicas j á revelaram serem pont os de
at ração humana e animal de recuada dat a (Sant os Junior 2005 e 2007). Cont udo,
exist em out ros pont os onde esse recurso est á present e: são os poços nat urais,
também conhecidos como cacimbas.
LEGENDA: OLHO D`ÁGUA EM CERRO CORÁ
LEGENDA: TANQUES NATURAIS EM CERRO CORÁ
No t ranscorrer dos mapeament os de campo da pesquisa de Morales, Sousa Net o &
Viva (2007), ident ificou-se um dos principais deles: o da comunidade Olho D´ água,
em Cerro Cora. Segundo a lembrança dos moradores ant igos que residem ao seu
redor, esse olho de água não secou nem mesmo nos períodos das piores est iagens.
Eles revelaram t ambém que nos períodos das grandes secas hist óricas moradores de
um raio de pelo menos 20km vieram em busca de água e, apesar da ret irada
constante do líquido, seu nível pouco se altera. Em nosso entendimento, esse olho de
água localizado no t ranscorrer da pesquisa deve ser vist o não só como um pont o de
at ração. Ele deve ser ent endido em um cont ext o maior de circulação humana e
inserido em uma malha de contexto simbólico mais abrangente.
Assim, para essa região, as análises de uso e ocupação do espaço dent ro do viés da
Arqueologia da Paisagem, devem ser pensados cenários pret érit os onde est ej am
inseridos marcos da paisagem como a serra de Santana, o morro Cabuji, o mirante, as
gargant as de São José da Passagem e de Florânia, os t anques de água e os olhos de
água. Esses element os são os pont os de part ida para o ent endiment o da circulação
humana, da presença dos assentamentos e da t eia simbólica das populações humanas
que percorreram esses trechos quentes e semi-áridos desde tempos imemoriais.
Agradecimentos
Agradecemos aos arqueólogos Daniel Bert rand, Luiz Dut ra de Sousa Net o, Valdeci Santos
Junior e ao t écnico em arqueologia Gilson Luis da Silva pelas valiosas informações
disponibilizadas em campo e gabinet e sobre a região arqueológica de Sant ana, Rio Grande do
Norte. Somos gratos também ao sociólogo Edison Rodrigues pelos comentários e sugestões.
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UM MODELO DE USO E CIRCULAÇÃO HUMANA NA REGIÃO DA