UM MODELO DE USO E CIRCULAÇÃO HUMANA NA REGIÃO DA SERRA DE SANTANA, RIO GRANDE DO NORTE: UM EXERCÍCIO DE ARQUEOLOGIA DA PAISAGEM POR WALTER MORALES1 E FLAVIA MOI2 Resumo Esse art igo apresent a um modelo de uso e ocupação do espaço para a região de Serra de Sant ana, Rio Grande do Nort e. Para t ant o, emprega o arcabouço t eórico-met odológico da Arqueologia da Paisagem, com o obj et ivo f inal de t raçar ant igos caminhos, rot as de passagem, pont os de parada e marcos na paisagem que teriam sido ut ilizados desde t empos ancest rais pel as diversas popul ações que habitaram essa região ao longo dos séculos Palavras chave: Arqueologia, Arqueologia da Paisagem, Arqueologia Regional, Art e Rupestre, Padrões de Assentamento, Serra de Santana. Introdução As análises, hipóteses e modelos aqui apresent ados est ão baseados na Arqueologia da Paisagem, perspect iva que procura det ect ar e ent ender as variadas ocupações exist ent es em uma dada região por int ermédio da análise dos vest ígios arqueológicos e sua dist ribuição na paisagem regional. Essas variáveis são as referências básicas para ident ificar e apont ar algumas caract eríst icas dos sist emas sociocult urais que configuram a ocupação de uma determinada região ao longo do tempo. Essa possibilidade de conexão ent re vest ígios arqueológicos e a implant ação na paisagem faz com que a Região Arqueológica de Sant ana e seu ent orno t enha especial int eresse, j á que os est udos desenvolvidos nesse t recho nos últ imos anos, ident ificaram mais de uma cent ena de sít ios arqueológicos de diferent es procedências cult urais e épocas (Laroche 1983, Robrahn-González, Morales & Nasciment o 2004a e 2004b, Robrahn-González, Sousa Net o & Morales 2005, Santos Junior 2005, Sousa Net o & Bert rand 2005, Santos Junior, Porpino & Silva 2007, 1 Arqueólogo e Cientista Social (FFCLH/USP), com Mestrado e Doutorado em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Et nologia da Universidade de São Paulo (MAE/ USP). Professor da Universidade Est adual de Sant a Cruz (UESC) e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Bahia (NEPAB/UESC). 2 Etno-arqueóloga e Cient ist a Social (FFCH/ USP), Mest re em Arqueologia (MAE/ USP) e Dout oranda em Ambient e e Sociedade pelo Núcleo de Est udos e Pesquisas Ambient ais (NEPAM/ Unicamp). Pesquisadora do Núcleo de Est udos e Pesquisas Arqueológicas da Bahia (NEPAB/UESC). Morales, Sousa Neto & Viva 2007). Esses assentamentos – sít ios lít icos, cerâmicos, hist óricos e abrigos e laj edos com grafismos rupest res – estão associados aos diferent es horizont es de ocupação humana que ali ocorreram nos permitiram avançar nos estudos sobre Arqueologia da Paisagem e formular um modelo de uso e circulação dessa região, que apresentamos a seguir. Arcabouço teórico-metodológico A perspect iva t eórica fundament al é que a Arqueologia é uma Ciência Social e que, por meio dos vest ígios mat eriais recuperados, considerados como vet ores de informação, é possível inferir os comport ament os humanos e as caract eríst icas sociocult urais dos grupos que os produziram (Binford 1983 e Renfrew & Bahn 1996). Assim, devem ser analisadas t odas as informações disponíveis, que podem est ar represent adas por apenas um art efat o ou por um conj unt o de sít ios arqueológicos (Hodder e Orton 1990). Procedendo dessa maneira a análise recai mais sobre as possibilidades de art iculação espacial e funcional dos sít ios em âmbit o local e regional (Dincauze 2000). Além dos diversos at ribut os observados habit ualment e nos vest ígios arqueológicos, nest e t ipo de análise é dada ênfase à maneira como eles se dispõem no espaço, evidenciando caract eríst icas de t errit orialidade, organização e int eração socioeconômicas (Gorenflo & Gale 1990). Procura-se ent ender cult ura/ sociedade – constit uídas das int er-relações ent re as comunidades humanas e o ambient e –, quando a análise do uso do espaço assume import ância fundament al (Binford 1982). Somada às caract eríst icas das at ividades e processos em que as t ecnologias est iveram envolvidas para a capt ação de recursos, a análise do uso do espaço leva a inferências sobre as est rat égias de subsistência adot adas pelas sociedades e sobre a razão da escolha dessas est rat égias dent ro de um número finito de opções (Billman & Feinman 1999). Dent ro desse enfoque a abordagem da Arqueologia Regional apresent a-se como uma das mais int eressant es para t rat ar dessas evidências arqueológicas (Morales 2005). Ela foi conceit ualment e definida por Willey (1953), como “ padrões de assent ament o” , aprimorada por Wint ers (1968) para “ sist emas de assent ament o” e post eriorment e difundida por pesquisadores que buscaram aproximar a relação existente entre natureza, tecnologia e sistema social (Chang 1972). A questão central passou a ser a distribuição dos sítios arqueológicos na paisagem, ou sej a, sua análise espacial (Clarke 1977, Johnson 1977, Hodder & Ort on 1990), que é um reflexo diret o das formas de int eração dos assent ament os humanos com o seu ambient e circundant e e dos padrões de art iculação ent re eles. Por meio deles é possível ent ender os processos relacionados à est rut uração sociocult ural das sociedades humanas que um dia ocuparam um det erminado lugar. Essa perspect iva e t odos os seus desdobrament os post eriores fizeram com que os sít ios arqueológicos deixassem de ser vist os como um fim em si mesmo e passassem a serem incluídos em uma rede art iculada de significados, onde cada assent ament o t em um papel complementar dentro de um sistema maior (Kroll & Price 1991). De acordo com essa abordagem os sít ios ident ificados são inseridos no espaço maior de que fazem part e por meio do exame das int erações do homem com seu ambient e imediat o, quando uma das referências iniciais é o cont ext o t ecnológico e sua implantação. Em seguida poder-se-á proceder à int erpret ação da implant ação dos sít ios em função dos element os nat urais e simbólicos que podem est ar definindo seu posicionament o na paisagem, t ais como o relevo, visibilidade das áreas de ent orno, font es d' água perene, font es de mat éria-prima, a formação veget al, facilidade de acesso ou a presença de abrigos rochosos (Morales 2005). Para esses est udos são ut ilizados como referência alguns dos mét odos e discussões propost as inicialment e por Plog & Hill (1971) e Flannery (1976) sobre a análise da dist ribuição espacial em relação as variáveis ambient ais. A art iculação de cada sít io em relação ao conj unt o de sít ios localizados deve ser feit a por meio da semelhança dos at ribut os e pela art iculação espacial exist ent e ent re eles. Busca-se dessa forma inferir padrões de dist ribuição e localização dos sít ios em relação aos compart iment os da paisagem para, a part ir daí, caract erizar e organizar as unidades que fazem part e do sist ema de assent ament o (Gummerman 1971 e Hodder & Orton 1990). Ainda que est e nível de análise dos dados est ej a volt ado à compreensão das necessidades de subsist ência e aos aspect os econômicos, a present e análise sobre a região de Sant ana agrega fat ores simbólicos e cognit ivos na forma de ocupar o espaço, abordagem que t em sido int ensament e aplicada nos dias at uais pela Arqueologia da Paisagem (Thomas 2001). Esse t ipo de abordagem pressupõe uma percepção diferenciada sobre o meio ambiente ao ponderar que a paisagem não é um simples recort e do meio ambient e nat ural. Ela deve ser vist a ant es de t udo como um fenômeno cult ural. A paisagem é ent ão percebida como um produt o cult ural e hist órico de um dado grupo sobre a qual exist e uma rede de int erações e t odo um universo de elementos que são transmitidos de geração a geração (Morales 2005). Diant e de t al abordagem, onde ent ra em cena a “ paisagem social” , a visão da paisagem é cultural e compartilhada pelos grupos sociais que a utilizam (Toren 1995). Ela é compost a por locais que est ão relacionados no espaço e no t empo por um sist ema de at ividades (Rossignol & Wandsnider 1992). A área de pesquisa, palco para at ores diversos, passa a ser percebida como um local cuj a ut ilização vai além da necessidade de sobrevivência, como área de assent ament o, capt ação de recursos e expressão simbólica, exibindo múlt iplas possibilidades de ut ilização e, conseqüentemente, de interpretação (Hodder 1986). No Brasil, o enfoque da Arqueologia da Paisagem vem sendo ut ilizado em vários proj et os de pesquisa e discut ido dent ro do ambient e acadêmico de forma bast ant e positiva nos últimos anos. A Serra de Santana como um marco na paisagem O pont o de part ida para nossas análises regionais é considerar a Serra de Sant ana uma barreira para aqueles povos e sociedades que t ransit aram por essa região ao longo do t empo. Seu posicionament o sent ido lest e-oest e fez dessa serra um obst áculo nat ural de difícil t ransposição desde t empos pret érit os. Ela não pode ser t ranspost a em qualquer t recho e sua t ravessia est á rest rit a a alguns locais mais acessíveis exist ent es nos escarpados alcant ilados ou nos fundos de vale mais abert os que foram erodidos pela força das águas e que hoj e são ocupados por cursos de água intermitentes. Acredit amos que para aqueles que circulavam pela região desde t empos mais recuados3, part indo, por exemplo, de onde nos dias de hoj e é Currais Novos, rumo Açu, Santana de Matos ou Lajes, as opções seriam pouco numerosas. Para atingir Açu, 3 Toponímia const ant e nas Folhas de Açu (escala 1:100.000) SB 24-L-III, de Pedro Avelino (escala 1:100.000) SB.24-L-IV, Currais Novos (escala 1:100.000) SB.24-R-I e Cerro Cora (escala 1:100.000) SB.24R-II, para a porção Central do Estado do Rio Grande do Norte, na região Nordeste Oriental do Brasil. essas pessoas – quer sej am em grupos sociais, a pé ou em lombo de muares e eqüinos – t eriam que passar ent re as serras da Siriema e Pret a, prosseguindo por um largo t recho plano, t omando rumo oest e e cruzando pequenos córregos int ermit ent es de fundo arenoso, passando ao largo do pont o onde hoj e est á a vila de São Vicent e, at é at ingir a bacia do rio Quiproró. Nesse pont o, t eriam a escarpada serra de Sant ana pelo lado direit o e, bem mais ao longe, poderiam avist ar a serra da Formiga. Mas para chegar ao seu destino – Açu – teriam que percorrer um largo trecho entre a serra da Gargant a e a do Tapuio, cruzando por onde hoj e est á sit uada a cidade de Florânia. Após esse desfiladeiro em cuj a base est á Florânia, at ingiriam uma área bem mais aberta e plana que levaria direto até Açu. LEGENDA: ÁREAS PLANAS E ABERTAS NO ENTORNO DA SERRA DE SANTANA EM SANTANA DO MATOS Cont udo, caso a opção fosse um caminho mais curt o at é a cit ada Açu, bast aria seguir a visada dos pequenos e áridos serrotes Pindoba e Branca que se destacam no terreno nessa direção. Caso preferissem acompanhar um curso de água de maior port e, deveriam rumar à esquerda e caminhar por cerca de 20km até chegar às barrancas da margem direit a do rio Piranhas-Açu. A part ir daí, seguiriam à j usant e, superando pequenas e sucessivas barras dos córregos, at é chegar ao local onde hoj e est á implantada a cidade de Açu. Por out ro lado, para se alcançar Angico a t arefa seria pouco mais árdua. O caminho mais curt o seria seguir em frent e subindo as encost as da serra de Sant ana pelas pequenas e sinuosas t rilhas. Após superar as encost as cascalhent as replet as de blocos soltos que dificultam o caminhar, atingiriam a parte mais alta, plana e de visibilidade ímpar. Do t opo plano, quase uma meset a, pode-se avist ar dezenas de quilômetros nas direções sul e nort e. Todos os pont os da paisagem que ent endemos como “ marcos na paisagem” com significados t ant o simbólicos quant o de georeferenciament o, podem ser vist os em t odo o seu esplendor: a pont a do morro do Cabuj i, o Mirant e, a gargant a de São José da Passagem, a serra do Cruzeiro, do Cuit é e as bacias do rio Cachoeira e do rio Piranhas-Açu. Além, é claro, dos serrot es de menor port e e dos pequenos mat acões espalhados por t odos os lados, t odos fért eis em inscrições rupestres. Após esses moment os de contemplação, o viaj ant e t eria que descer novament e as encost as da serra de Sant ana, só que agora em sua face nort e, seguindo quase em linha ret a at é Angico, distante não mais do que 50km. Nesse t raj et o os obst áculos seriam poucos e facilment e superáveis. Se est ivessem na época das chuvas, os rios, apesar de rápidos em vários t rechos, são rasos. Se fosse um período de est iagem, soment e t eríamos seus leit os secos e arenosos. Nesse t raj et o em linha ret a passariam exatamente entre duas serras: a do Cajarana e do Gado. Por fim, o últ imo dest ino. Se o caminho a seguir fosse a região onde est á a cidade de Laj es, sempre part indo de Currais Novos, o t recho seria um caminho onde há uma baixa visibilidade das áreas de ent orno em vários moment os. Esse t raçado oferece longas caminhadas em áreas planas, cercadas por encost as escarpadas, íngremes. Vales encaixados se sucedem, que no começo e no final do dia, podem bloquear parte da luz do sol. Partindo de Currais Novos as opções seriam duas. A mais curt a margearia a vert ent e esquerda da serra do Cruzeiro até chegar ao local conhecido como Pé do Morro. Daí é possível seguir por pequenas t rilhas at é a área plana no t opo da serra de Sant ana e, um pouco depois, passando por onde hoj e est á Cerro Corá. De Cerro Corá at é Laj es a serra do Feiticeiro acompanha esse trajeto por largos trechos pelo seu lado esquerdo, impedindo qualquer descaminho at é o final do t raj et o onde est á Laj es. Nesse t recho final, à esquerda, se dest aca na paisagem o morro Cabuj i. Vale dest acar que no meio desse t raj et o, após a serra da Macambira e ant es da do Cirino, pode-se seguir entre vales pela gargant a que dá acesso a São José da Passagem e, a part ir daí, at é as áreas planas que permitem alcançar a bacia do rio Piranhas-Açu. LEGENDA: LADO SUL DA SERRA DE SANTANA SENTIDO A PARAÍBA A Arqueologia da Paisagem: um modelo de uso e circulação humana O reconhecimento extensivo efetuado em largos trecho da serra de Santana, da bacia do rio Piranhas-Açu e t errit órios dos municípios de Açu, Sant ana do Mat os, Laj es, Cerro Cora, Angicos e Currais Novos, somado àquelas informações obt idas nas pesquisas j á realizadas ou em andament o nessa região (Laroche 1983, RobrahnGonzáles, Morales & Nasciment o 2004a e 2004b, Robrahn-González, Sousa Net o & Morales 2005, Sant os Junior 2005, Sousa Net o & Bert rand 2005, Santos Junior, Porpino & Silva 2007, Morales, Sousa Net o & Viva 2007), permit iu elaborar um modelo bast ant e consist ent e sobre uso e circulação desse t errit ório e que pode servir como um modelo preditivo a ser testado em futuras pesquisas. Esse modelo, alicerçado em aspect os paisagíst icos, ambient ais e t opográficos, alguns dos quais descrit os no t ópico ant erior, t eve como pont o cent ral a serra de Sant ana e incorporou os vários cenários present es ao seu redor, dent re os quais o morro do Cabuj i, o Mirant e, a gargant a de São José da Passagem e da região de Florânia e a bacia do rio Cachoeira. Acredit amos que essas formações, diant e de especificidades apresent adas no t ranscorrer do t ext o, fizeram part e do universo simbólico e cult ural dos povos que ali viveram e influenciaram diret ament e na implant ação dos sít ios arqueológicos já identificados. Essas análises permitiram elaborar uma hipótese de que a região onde está o povoado de São José da Passagem represent a um pont o de convergência e at ração, desde t empos pré-coloniais, para aqueles que ut ilizaram essa região como área de passagem ou t errit ório de circulação. Por est arem localizadas ent re a serra do Macambira e a do Saco do Tigre, as áreas de entorno de São José da Passagem seriam ut ilizadas como um local para descanso, pont o de encont ro ou reunião onde seriam desenvolvidas as mais diversas at ividades sociais, simbólicas ou econômicas. O mot ivo para que esse local t enha sido ou servido como um pont o de at ração de pessoas e grupos sociais é que ali existe uma falha nat ural no relevo que possibilita cruzar facilmente as elevadas escarpas das serras ali presentes. Esse t recho teria servido como passagem para aqueles que vêm margeando, desde as bandas de Florânia, t oda a encost a nort e da serra de Sant ana com o obj et ivo de chegar onde é hoj e a cidade de Laj es. O canyon do vale de São José da Passagem t ambém foi ut ilizado por aqueles que vinham das t erras que hoj e fazem part e do est ado da Paraíba. Para os oriundos do lado sul, cort ando a serra de Sant ana em seu sent ido sul\nort e, esse seria um excelent e caminho para ser percorrido rumo a locais conhecidos nos dias de hoje como as cidades de Lajes, Angicos ou Açu. Outra hipótese que levantamos é que o leito do rio Cachoeira teria servido como uma espécie de baliza do caminho a seguir para aqueles que circulavam (indo ou vindo) das parcelas de relevo mais acident ado represent ado pela serra de Sant ana ou seus prolongamentos, em direção ao rio Piranhas-Açu. Ou sej a, dent ro do modelo de uso e circulação que est amos propondo t eríamos um caminho nat ural com início na barra do rio Piranhas-Açu e rio Cachoeira at é a região de São José da Passagem. Esse caminho que margearia o rio Cachoeira, foi ut ilizado por grande part e daqueles que circulavam pela região com o obj et ivo final de chegar à região do Saquinho. Esse local, não por acaso, é uma área conhecida pela quant idade e qualidade dos grafismos rupest res (Sant os Junior 2005). As pesquisas realizadas por Morales, Sousa Neto & Viva (2007) revelaram que, nesse t recho de aproximadament e 50km, entrecortado por pequenas elevações em forma de meia laranja, morros testemunhos de cont orno mais irregulares e aflorament os de mat acões, j unt o às barrancas da margem direit a e esquerda do rio Cachoeira est ariam os vest ígios arqueológicos que t est emunham os pequenos acampament os daqueles que cruzavam o t recho. Os vest ígios seriam mais fugazes, expedit os, caract eríst icos mais de at ividades pont uais e não t ant o de uma permanência mais demorada ou de uma gama de at ividades mais diversificada e completa. LEGENDA: SERRAS NA REGIÃO DO SAQUINHO SANTANA DO MATOS O adensament o de painéis rupest res na região do Saquinho soment e reforça essa hipót ese sobre a circulação humana na região, seus pont os de parada e áreas de encont ro. As pessoas paravam para descansarem, recuperarem as forças ou se reunirem nesse local de passagem nat ural por ent re as serras e elevações. Teríamos aí um local de encont ro, uma área de at ração, que servia como um marco na paisagem e que ainda é ut ilizada nos dias de hoj e. Ali encont ros seriam marcados e teríamos pessoas à espera. Um reflexo dessa permanência maior est aria na cult ura mat erial ident ificada nesse local, que ao exibir uma maior quant idade de art efat os e t odas as et apas de uma cadeia operat ória de lascament o indicaria uma permanência mais duradoura (Morales, Sousa Neto & Viva 2007). Corroborando esse modelo de uso e ocupação do espaço est á a quant idade significat iva de grafismos rupest res ident ificados nas pesquisas de Sant os Junior (2005). Mas essa circulação de pessoas e mercadorias não est aria restrita apenas ao período pré-colonial. A região teria sido utilizada em larga escala também no período histórico. O povoado de São José da Passagem, implant ado na port a da gargant a, corrobora essa última assertiva (Morales & Moi 2007). LEGENDA: GARGANTA EM SÃO JOSÉ DA PASSAGEM Considerações finais: um modelo preditivo de uso e organização do espaço Os dados e premissas expost os nas páginas ant eriores permitem esboçar um modelo preditivo preocupado em identificar áreas com adensamento de sít ios arqueológicos de forma a articular interpretações regionais de alcance mais amplo. A partir dos pressupost os da Arqueologia da Paisagem ut ilizados nessa pesquisa e aplicados ao conheciment o e às informações levantadas por pesquisas ant eriores (Laroche 1983, Robrahn-Gonzáles, Morales & Nasciment o 2004a e 2004b, RobrahnGonzález, Sousa Net o & Morales 2005, Santos Junior 2005, Sousa Net o & Bert rand 2005, Santos Junior, Porpino & Silva 2007, Morales, Sousa Net o & Viva 2007), pode-se perceber um adensament o de sít ios rupest res e a céu-abert o na área de passagem natural que exist e ent re as serras da região do povoado de São José da Passagem. O mot ivo para que esse local t enha sido ou servido como um pont o de at ração de pessoas e grupos sociais é que ali o relevo apresent a uma falha nat ural que possibilita cruzar facilmente as elevadas escarpas das serras existentes. Diant e dessas informações, propomos um modelo de uso e ocupação do espaço focado em predizer outras áreas com caract eríst icas semelhant es e que t ambém possam ser locais de passagem e pont os preferenciais de parada, descanso e reunião dos grupos sociais que utilizaram essa região ao longo dos séculos. Esses novos t rechos com caract eríst icas semelhant es à gargant a de São José da Passagem também t eriam propiciado adensament os de sít ios rupest res e lít icos a céu aberto semelhantes àqueles do Saquinho, que permit iriam det erminar vários dos horizontes de ocupação dessa região. Assim, nosso modelo propõe cinco áreas como pont os pot enciais para com significativa variabilidade, quantidade e importância de vestígios arqueológicos: Área 1: As duas áreas de passagem exist ent es ent re as serras da Gargant a e a da Velha, no curso superior do riacho Saco Grande e do rio da Gargant a. Essa área seria de grande import ância para aqueles que seguiam da ou para a bacia do rio PiranhasAçu. Área 2: A região de ent orno da gargant a que há ent re a cidade de Florânia e a serra Pintada e do Cajueiro. Área 3: A região que segue ent re a serra Vermelha e a serra do Verde. Vale a ressalva do alt o pot encial arqueológico propiciado pelas caract eríst icas de “ corredor inter-vales“ por onde segue o córrego Riachão. Área 4: Temos aqui um t recho de menor expressão, sit uado ent re a serra do Ronca e a Serra da Gameleira por onde passam os riachos da Gameleira e Jacu. Área 5: Entre a serra do Espinheiro e a Oiticica e junto ao córrego Pedra Preta. Por out ro lado, t eríamos t rechos onde a quant idade e a variedade dos vest ígios arqueológicos em sítios a céu abert o seria bem menor. Dent ro do nosso do modelo de uso e circulação, haveria um caminho nat ural com início na barra do rio Piranhas-Açu e rio Cachoeira que seguiria at é a região de São José da Passagem. Esse caminho, que margearia o rio Cachoeira, t eria sido ut ilizado por grande part e daquelas populações que percorreram essa região com o obj et ivo final de chegar às áreas do Saquinho e São José da Passagem. Acredit amos que os vest ígios lít icos present es nesse t raj et o correspondem a assent ament os mais t ênues, expedit os, com uma gama menor de art efat os, espécies de acampament os provisórios e de at ividades pont uais (Morales, Sousa Neto & Viva 2007). Somado aos significados simbólicos e socioculturais que essas áreas de possam ter para análise dos caminhos t e ant anho, não pode ser deixado de lado um recurso vit al para essa região: a disponibilidade de água. Isso porque, essa região, de clima quent e, seco e semi-árido, passa por períodos de seca que impedem a exist ência de cursos de águas perenes, quando at é mesmo os rios de maior port e secam. Essa situação não acont ece soment e em t empo recent e. Ela t ambém se processou, com algumas variações de intensidade, em períodos ao longo de todo o quaternário. Sabe-se de locais com t anques nat urais onde esse precioso recurso demora mais t empo para secar e que as pesquisas arqueológicas j á revelaram serem pont os de at ração humana e animal de recuada dat a (Sant os Junior 2005 e 2007). Cont udo, exist em out ros pont os onde esse recurso est á present e: são os poços nat urais, também conhecidos como cacimbas. LEGENDA: OLHO D`ÁGUA EM CERRO CORÁ LEGENDA: TANQUES NATURAIS EM CERRO CORÁ No t ranscorrer dos mapeament os de campo da pesquisa de Morales, Sousa Net o & Viva (2007), ident ificou-se um dos principais deles: o da comunidade Olho D´ água, em Cerro Cora. Segundo a lembrança dos moradores ant igos que residem ao seu redor, esse olho de água não secou nem mesmo nos períodos das piores est iagens. Eles revelaram t ambém que nos períodos das grandes secas hist óricas moradores de um raio de pelo menos 20km vieram em busca de água e, apesar da ret irada constante do líquido, seu nível pouco se altera. Em nosso entendimento, esse olho de água localizado no t ranscorrer da pesquisa deve ser vist o não só como um pont o de at ração. Ele deve ser ent endido em um cont ext o maior de circulação humana e inserido em uma malha de contexto simbólico mais abrangente. Assim, para essa região, as análises de uso e ocupação do espaço dent ro do viés da Arqueologia da Paisagem, devem ser pensados cenários pret érit os onde est ej am inseridos marcos da paisagem como a serra de Santana, o morro Cabuji, o mirante, as gargant as de São José da Passagem e de Florânia, os t anques de água e os olhos de água. Esses element os são os pont os de part ida para o ent endiment o da circulação humana, da presença dos assentamentos e da t eia simbólica das populações humanas que percorreram esses trechos quentes e semi-áridos desde tempos imemoriais. Agradecimentos Agradecemos aos arqueólogos Daniel Bert rand, Luiz Dut ra de Sousa Net o, Valdeci Santos Junior e ao t écnico em arqueologia Gilson Luis da Silva pelas valiosas informações disponibilizadas em campo e gabinet e sobre a região arqueológica de Sant ana, Rio Grande do Norte. Somos gratos também ao sociólogo Edison Rodrigues pelos comentários e sugestões. Bibliografia BILLMAN, Brian; FEINMAN, Gary. 1999 Set t l ement Pat t ern st udies in t he Americas. Fif t y years since Virú. Washington: Smithsonian Inst. Press. BINFORD, Lewis. 1982 The Archaeology of Place. Journal of Ant hropological Archaeology, 1 (1): 5-31. 1983 In pursuit of t he past : decoding t he archaeological record. Londres: Thames and Hudson. 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