Ficha Técnica Título Avaliação prospetiva da libertação de metais pesados pela louça cerâmica utilitária em contacto com os alimentos Editor APICER – Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria Autoria CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e Vidro Equipa Técnica Marisa Almeida (CTCV) Anabela Amado (CTCV) Eva Costa (CTCV) Alice Oliveira (CTCV) Conceção Gráfica CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e Vidro Data de Edição junho de 2015 Conteúdo 6 Âmbito 7 Enquadramento 9 Metodologia 11 Resultados obtidos 15 Potenciais fontes de contaminação 17Conclusões PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Âmbito Este documento apresenta um resumo dos trabalhos desenvolvidos no âmbito da atividade 2 do projeto SIAC, promovido pela APICER (Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria) e concretizado pelo CTCV (Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro), que consistiu na realização de uma campanha de análise de produtos de louça utilitária existentes no mercado (porcelana, faiança, e grés) e produtos de vidro doméstico, de forma a determinar com rigor os valores atuais de libertação de metais pesados para os alimentos. Os metais estudados foram o chumbo e o cádmio, já legislados na Diretiva 84/500/CEE ainda em vigor, mas também outros como o cobalto, o níquel, o manganês, o selénio e o cobre, igualmente perigosos e relevantes nas peças estudadas. Este estudo pretende contribuir para definir a estratégia de sustentação junto da União Europeia para a definição dos futuros limites de libertação de metais pesados para os alimentos pela diversa louça utilitária, aquando da revisão da respetiva diretiva. 6 AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Enquadramento O Regulamento (CE) n.º 1935/2004 do Parlamento Europeu e do conselho, de 27 de outubro, relativo aos materiais e objetos destinados a entrar em contacto com os alimentos, estabelece requisitos gerais para todos os materiais em contacto com alimentos, nomeadamente nos artigos 5º e 23º. A regulamentação da migração eventual de chumbo (Pb) e cádmio (Cd) a partir dos objetos cerâmicos que, no estado de produtos acabados, se destinam a entrar em contacto ou estão em contacto, em conformidade com a utilização a que se destinam, com os géneros alimentícios encontra-se estabelecida na Diretiva n.º 84/500/ CEE, do Conselho, de 15 de Outubro. Esta diretiva é uma medida específica na aceção do artigo 5º do Regulamento (CE) n.º 1935/2004. Esta Diretiva foi entretanto alterada, pela Diretiva 2005/31/CE, da Comissão, de 29 de abril, no que diz respeito à declaração de conformidade e aos critérios de desempenho do método analítico. O Decreto-Lei n.º 190/2007, de 11 de maio, transpõe para a ordem jurídica interna (de Portugal) a Diretiva n.º 2005/31/CE, consolidando a transposição da Diretiva n.º 84/500/CEE, relativamente a objetos cerâmicos destinados a entrar em contacto com os géneros alimentícios. As quantidades de chumbo e de cádmio cedidas pelos objetos cerâmicos não devem ultrapassar os limites indicados na Diretiva n.º 84/500/CEE, os quais estão divididos em 3 categorias, conforme quadro I e as seguintes definições: Categoria 1 (Flatware): Objetos que não são suscetíveis de enchimento; objetos que se podem encher, nos quais a altura interna, medida entre o ponto mais baixo e o plano horizontal que passa pelo bordo superior, é inferior ou igual a 25 mm; Categoria 2 (Small holloware): Todos os outros objetos passíveis de enchimento; Categoria 3 (Large holloware): Utensílios de cozinha; Embalagens e recipientes para armazenagem com capacidade superior a 3 l. Em junho de 2012, foi dado a conhecer o 1º draft da revisão daquela diretiva, cujos limites propostos foram os apresentados no quadro II. A redução dos limites propostos é bastante significativa, na ordem de 400 vezes inferior para o chumbo e 60 vezes inferior para o cádmio, no caso da categoria 2. Com a revisão da diretiva para os limites de chumbo e cádmio, considerou-se oportuno no estudo em apreço, a inclusão de limites de libertação de outros metais pesados considerados perigosos e relevantes na louça utilitária colorida por existirem em muitas matérias-primas e aditivos, tais como: cobalto (Co), cobre (Cu), manganês (Mn), níquel (Ni) e selénio (Se). Estes metais poderão também vir a ser incluídos na revisão da referida diretiva. Estes limites são igualmente relevantes para o vidro doméstico, que embora este setor não tenha uma legislação europeia harmonizada para se poder fazer a ava- Quadro I - Limites de cedência dos metais, em vigor (Diretiva 84/500/CEE) Categoria Limites de cedência dos metais Chumbo Cádmio 2 Categoria 1 (Flatware) 0,8 mg/dm 0,07 mg/dm Categoria 2 (Small holloware) 4,0 mg/l 0,3 mg/l Categoria 3 (Large holloware) 1,5 mg/l 0,1 mg/l 2 AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS 7 PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Quadro II - Limites de cedência dos metais no 1º Draft da revisão da Diretiva 84/500/CEE Categoria Limites de cedência dos metais Chumbo 2 Cádmio Categoria 1 (Flatware) 2,0 µg/dm 1,0 µg/dm Categoria 2 (Small holloware) 10,0 µg/l 5,0 µg/l Categoria 3 (Large holloware) 3,8 µg/l 1,9 µg/l 2 liação da migração dos vários componentes, sempre que necessário utilizam-se os valores de referência da cerâmica. Na revisão da Diretiva encontra-se previsto uma extensão aos artigos de vidro. As técnicas de determinação analítica necessárias para garantir um limite de quantificação suficiente para os novos valores limites propostos terão de ser mais sofisticadas do que as usadas atualmente (Absorção atómica - Chama), com uma maior sensibilidade e limites de quantificação mais baixos. Desta forma, é importante perceber e preparar o setor da cerâmica utilitária para a revisão em curso da legislação europeia no sector dos materiais em contacto com alimentos, esperando-se também um alargamento de parâmetros (metais pesados) que importa desde já conhecer o seu comportamento e eventuais necessidades ou não de ajuste, de forma a fornecer a este sector industrial uma ferramenta essencial que lhes permitirá tomar decisões estratégicas futuras sustentadas. 8 AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Metodologia No âmbito do projeto foram contactadas várias empresas nacionais produtoras de louça utilitária de cerâmica, vidro e fabricantes de produtos químicos (tintas e vidrados), através de contactos telefónicos e uma ação de divulgação realizada nas instalações da APICER, tendo algumas empresas mostrado interesse em participar e fornecido materiais necessários para o estudo. Para as empresas cerâmicas participantes foram selecionados alguns tipos de produtos (ex: prato raso, prato sopa/tijela e saladeira/travessa) para mais fácil comparação de cada tipo de louça e de forma a abranger as 3 categorias da diretiva 84/500/CEE (flatware, small holloware e large holloware), dentro destes produtos foram selecionados produtos brancos/incolores e produtos coloridos (amarela, laranja, castanho, vermelho, azul, verde, cinza, preto, roxo e rosa), para determinação dos vários metais pretendidos (chumbo, cádmio, cobalto, níquel, manganês, selénio e cobre). Os produtos de vidro estudados consistiram, também em vários tipos, desde copos, frascos, saladeiras e pratos, incolores e de cor (azul, preto, amarelo, cinza, laranja, vermelho, roxo e verde) nos quais foram determinados os mesmos parâmetros dos produtos cerâmicos. As várias amostras recolhidas nas empresas (cada referência constituída por 4 peças iguais), num total de 1496 amostras, foram preparadas e analisadas com base na norma EN 1388-1:1995, tendo sido realizados ensaios químicos de libertação de metais pesados, consistindo basicamente num ataque químico ao vidrado da louça para verificar a existência de migração de metais. O estudo em apreço foi realizado em peças sem qualquer utilização, oriundas das unidades produtoras, as quais foram sujeitas a uma simples lavagem com detergente e água, tendo sido efetuado o ensaio conforme a metodologia de lixiviação atualmente em vigor e algumas peças foram ainda sujeitas a lixiviação repetida. Os metais considerados no estudo foram extraídos de cada uma das peças a testar com ácido acético a 4%, num ambiente controlado a uma temperatura de 22°C. Após lavagem e secagem, as peças foram cheias com a solução de ácido acético até 1 mm do respetivo bordo, conforme a norma EN 1388-1:1995. Após 24 horas de contacto entre a solução e a peça, os eluatos obtidos foram submetidos a diferentes métodos de ensaio, dependente do elemento a analisar e dos limites propostos, para determinação dos teores dos metais considerados, nomeadamente: • Espectrofotometria de Absorção Atómica (EAA) por Câmara de Grafite: chumbo (Pb), cádmio (Cd) e níquel (Ni); • Espectrofotometria de Absorção Atómica (EAA) por Chama: cobre (Cu) e manganês (Mn); • Espectrofotometria de Emissão Atómica em fonte de Plasma (ICP) com acoplamento a Espectrómetro de Massa (ICP/MS): selénio (Se) e cobalto (Co). Desta forma, foram analisados os metais expectáveis de serem libertados para os alimentos consoante a coloração do produto a testar (conforme o quadro III), resultando um total de 6060 ensaios. Algumas peças cerâmicas foram, ainda, sujeitas a sucessivas lixiviações, nomeadamente a uma 2ª e 3ª lixiviação, tendo sido as peças lavadas e secas entre cada migração. Os metais determinados neste caso foram apenas o Cd e o Pb, de acordo com a metodologia descrita anteriormente. Estes testes foram realizados tendo em conta que a revisão da diretiva poderá alterar o método de ensaio para um mais aproximado da realidade (várias lixiviações). AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS 9 PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Quadro III - Metais analisados vs cores dos materiais analisados Cor da Louça 10 Metal a analisar Pb Cd Se Ni Branca/incolor x x Amarela x x x Laranja x x x Castanho x x Vermelho x x Azul x x Verde x x x Cinza x x x Preto x x Roxo x x Rosa x x Mn Co Cu x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Resultados obtidos Da análise dos resultados obtidos, relativamente à louça cerâmica portuguesa, verifica-se que várias amostras apresentam valores acima dos limites propostos para o cádmio e o chumbo, sendo estes essencialmente produtos de porcelana e alguns de faiança. Nos quadros IV e V apresenta-se um resumo dos dados obtidos para a cerâmica portuguesa. Relativamente aos limites atuais de chumbo e cádmio constantes na diretiva 84/500//CEE, na amostragem efetuada, o n.º de amostras com valor superior aos respetivos limites nas 3 categorias é zero, ou seja, as amostras analisadas cumprem, sem qualquer problema, com a legislação em vigor. Dos dados dos quadros IV e V, observa-se que relativamente ao chumbo 72 amostras encontram-se acima do limite proposto no 1º draft da revisão da Diretiva 84/500/CEE, ou seja 21% da amostragem efetuada, cor- respondente às categorias Flatware e Small Holloware, com maior incidência na primeira. No que respeita ao cádmio o número de amostras é menor, 22, o que corresponde apenas a 6% da amostragem, também nas categorias Flatware e Small Holloware. As representações globais alargadas da mancha dos resultados da migração do Pb e Cd respetivamente (figs. 1 e 2) permitem verificar, grosso modo, que tendencialmente os valores são baixos, com algumas exceções que não colocam em causa a qualidade em geral dos produtos cerâmicos de louça utilitária e decorativa fabricados pelas empresas nacionais. Constata-se que a maioria dos valores de chumbo e cádmio que se encontram acima dos limites propostos no referido draft, estão associados à utilização de decorações, essencialmente obtidas por terceiro fogo. Quadro IV - Valores obtidos para o chumbo nas amostras de cerâmica Nº total de amostras limite atual Nº Nº % Flatware 94 0 35 37 8,15 µg/dm Small Holloware 232 0 37 16 25,66 µg/l 117,66 µg/l Large Holloware 18 0 0 0 < 5 µg/l (L.Q.) - 344 0 72 21 - - Valor médio Desvio Padrão Categorias Total proposto Valor médio Desvio Padrão 2 22,95 µg/dm 2 Quadro V - Valores obtidos para o cádmio nas amostras de cerâmica Nº total de amostras limite atual Nº Nº % Flatware 94 0 10 11 0,74 µg/dm Small Holloware 232 0 12 5 2,17 µg/l 12,17 µg/l Large Holloware 18 0 0 0 < 1 µg/l (L.Q.) - 344 0 22 6 - - Categorias Total proposto 2 2,82 µg/dm 2 AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS 11 PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Enquanto nas cores sólidas a maioria dos valores são inferiores ao limite proposto ou encontram-se abaixo dos respetivos L.Q.. Os valores obtidos acima dos limites propostos no draft, para o chumbo e cádmio, são maioritariamente de produtos cerâmicos com decoração de tipo on-glaze. As decorações deste tipo são normalmente cozidas a temperaturas mais baixas que as decorações do tipo in-glaze. Como nas decorações tipo on-glaze não há uma penetração da decoração no vidrado, a migração de metais da Fig. 1 - Valores de chumbo nas 3 categorias das amostras cerâmicas nacionais Fig. 2 - Valores de cádmio nas 3 categorias das amostras cerâmicas nacionais 12 decoração aplicada para os alimentos é facilitada, explicando os resultados obtidos. Foi ainda efetuada uma análise prospetiva para um conjunto de metais para os quais não existem atualmente limites definidos, nem foram propostos limites no draft da revisão da diretiva, tendo-se verificado o seguinte: • O cobalto apresentou valores acima do limite de quantificação do equipamento, nas peças da maioria das empresas; • O manganês apresentou valores superiores ao L.Q. do equipamento em 2 amostras de grés; • O cobre, o níquel e o selénio apresentaram sempre valores inferiores ao respetivo limite de quantificação do equipamento, em todas as amostras das várias empresas participantes. No caso dos produtos de vidro, apesar de ainda não existir nenhuma proposta de valores limite para esta tipologia, foram determinadas as lixiviações da mesma forma que nos cerâmicos, tendo-se verificado alguns valores acima do limite de quantificação do equipamento, nomeadamente o chumbo, cádmio, cobalto e cobre, salientando-se que alguns destes valores de chumbo e cobre são bastante significativos, prevendo-se alguma dificuldade para o setor cumprir os limites, de chumbo e cádmio, se forem iguais aos da cerâmica apresentados no draft. Nos quadros VI e VII observa-se que 4 amostras apresentam valores superiores ao limite proposto para o chumbo (20%) e apenas uma apresenta valor superior ao limite proposto para o cádmio (5%), limites esses considerados para a cerâmica. No entanto, se considerarmos os limites atuais da diretiva para a cerâmica, todas as amostras de vidro ensaiadas cumprem com a legislação para os referidos metais. Os valores de chumbo acima do L.Q. são de amostras maioritariamente da categoria Small Holloware, mas também se observa em Flatware, enquanto os restantes metais que foram quantificáveis pelo equipamento são todos da Small Holloware. AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Quadro VI - Valores obtidos para o chumbo nas amostras de vidro Categorias Nº total de amostras Amostras atual para a cerâmica proposto para a cerâmica Nº Nº % Valor médio Desvio Padrão 2 Flatware 1 0 0 0 1,06 µg/dm Small Holloware 18 0 4 22 97,31 µg/l 267,72 µg/l Large Holloware 1 0 0 0 < 5 µg/l (L.Q.) - 20 0 4 20 - - Total - Quadro VII - Valores obtidos para o cádmio nas amostras de vidro Categorias Nº total de amostras atual para a cerâmica proposto para a cerâmica Nº Nº % Valor médio 2 Desvio Padrão Flatware 1 0 0 0 < 0,08 µg/dm (L.Q.) - Small Holloware 18 0 1 6 0,87 µg/l 1,2 µg/l Large Holloware 1 0 0 0 < 1 µg/l (L.Q.) - 20 0 1 5 - - Total As cores das referidas amostras, que se observa valores acima do L.Q., variam entre o incolor (Cd e Pb), verde (Cd e Cu), azul (Cd, Co e Cu), amarelo/cinza (Cd e Pb), Laranja/vermelho (Cd) e preto (Pb e Co). No estudo foram ainda ensaiadas algumas amostras adquiridas no mercado, oriundas de outros países, da China, Turquia e Espanha. As peças analisadas foram de cerâmica e de vidro e o ensaio efetuado da mesma forma do descrito anteriormente para as amostras nacionais, tendo sido determinado apenas os metais de chumbo e cádmio, os únicos para os quais temos limites referenciados (1º draft da revisão da Diretiva 84/500/CEE). A louça de cerâmica internacional apresenta também valores acima dos limites propostos no referido draft, tanto para o chumbo como para o cádmio, em louça do tipo Flatware com decoração, enquanto na Small Hollo- ware os valores determinados encontram-se abaixo do L.Q.. Em relação à louça da 3ª categoria (Large Holloware) não foi ensaiada qualquer peça. Comparando os valores máximos obtidos, na louça nacional e na internacional, verificou-se que o cádmio apresenta valores superiores na louça nacional, enquanto no chumbo os valores são da mesma ordem de grandeza da louça internacional ensaiada. No entanto há que realçar o facto de a dimensão da amostra nacional ser muito superior à da amostra aleatória internacional aumentando a probabilidade de encontrar uma maior dispersão de valores. Relativamente à louça internacional de vidro, os metais em apreço ensaiados apresentaram todos os valores abaixo do limite de quantificação do equipamento. Algumas peças cerâmicas nacionais foram, ainda, su- AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS 13 PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Fig. 3 - Libertação de chumbo das várias amostras em lixiviações sucessivas Fig. 4 - Libertação de cádmio das várias amostras em lixiviações sucessivas jeitas a sucessivas lixiviações (3 lixiviações) e posteriormente determinado o chumbo e o cádmio libertado das peças em cada uma das lixiviações. Dos resultados obtidos verificou-se que a libertação dos referidos metais decresce com a 2ª e 3ª lixiviação (figs. 3 e 4), tal como constatado noutros estudos internacionais, sendo mais significativa nas amostras com valores mais elevados na 1ª lixiviação. Nas amostras ensaiadas as percentagens de diminuição obtidas, para o chumbo e cádmio, situaram-se entre 57 e 84% na 2ª lixiviação e entre 67 e 95% na 3ª lixiviação, o que comprova que a lavagem da louça diminui a libertação de metais. 14 AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Potenciais fontes de contaminação Face aos resultados obtidos e à recolha de informação nas empresas participantes, nomeadamente ao nível da tipologia de processo, tipo de amostras, tecnologias de cozedura, etc., podemos concluir que a libertação de metais poderá estar associada a diversos fatores como sejam: nestes casos o chumbo poderá ser detetado devido a contaminações, nomeadamente durante a cozedura, quando, por exemplo os produtos são colocados no forno com outros que contenham chumbo na sua composição, ou os próprios fornos estejam contaminados. Tipo de vidrado As tintas de várias cores utilizadas na louça têm historicamente incorporações significativas de chumbo (azul, preto, etc.) e cádmio (nomeadamente para amarelos, laranjas e vermelhos). No entanto, tem havido também um grande esforço na tentativa de controlar o teor destes metais nas tintas, com o desenvolvimento de paletas de cores sem adição destes metais. Salienta-se que estas paletas designadas por “isentas”, isto é sem adição intencional de chumbo e cádmio, tem uma garantia de teor por parte dos fornecedores que se refere tipicamente a 100 ppm de chumbo e 600 ppm de cádmio, ou seja, podem conter estes elementos de forma residual. Atualmente estas paletas “isentas” nas decorações on-glaze são ainda difíceis de trabalhar, uma vez que algumas propriedades (ex. densidade, compatibilidade com pasta) são difíceis de alcançar sem o chumbo e as cores obtidas não são as mesmas do que as utilizadas em paletas com chumbo, verificando-se que alteram o aspeto final das decorações, o qual é condicionante nas decorações mais antigas, dificultando a reposição de peças no mercado com uma reprodutibilidade exata de cores em termos de “pantone”, requerendo por isso algum tempo para a indústria se adaptar às novas paletas. Além disso as tintas aplicadas na louça são sempre composições formuladas nas empresas cerâmicas, através da mistura de várias tintas adquiridas a fornecedores, sendo necessário ter alguns cuidados nessa mistura, nomeadamente não devem ser misturadas tintas de paletas com Pb com tintas de paletas sem Pb. O setor cerâmico e seus fornecedores (coloríficios, etc.) tem vindo a fazer um grande esforço na redução do teor de metais, nomeadamente chumbo, face às preocupações de saúde e ambiente. No entanto, há que ter em conta que as grandes exigências em termos de inovação de produtos ao nível de mercado, muitas vezes associada ao desenvolvimento de novas e cada vez mais complexas decorações, muitas vezes no atual estado da técnica só são viáveis se forem utilizados estes metais pesados, atendendo às suas propriedades de fusão e outras. Sendo a sua substituição tecnicamente complexa, não tem contudo vindo a ser ignorada facto que está patente no bom desempenho demonstrado atualmente na grande maioria dos produtos. Imposições adicionais irão requerer algum tempo de adaptação, dado o severo nível de exigência imposto, que pretende reduções drásticas do limite de migração (cerca de 400X para o chumbo), que irão colocar em causa a disponibilização de determinadas cores nas decorações. De reforçar que esta adaptação implica tempos de ensaios e testes de compatibilidade de forma a não comprometer propriedades técnicas e estéticas finais do produto. Porém, verifica-se que nas amostras em estudo, a grande maioria utiliza vidrado transparente sem chumbo e o vidrado de cor utiliza uma percentagem típica entre 1 a 10% de corante, que depois da lixiviação origina libertação de metais diminuta, resultando em valores abaixo do limite de quantificação do equipamento. Este contexto demonstra o trabalho que já tem vindo a ser feito neste domínio da redução da migração dos metais chumbo e cádmio nos produtos cerâmicos. Salienta-se ainda, que Tipo de tintas Temperaturas de cozedura vs tipo de decoração As decorações do tipo on-glaze utilizam temperaturas máximas de cozedura mais baixas (típicas: 750-900ºC), AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS 15 PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 quando comparadas com as decorações in-glaze (típicas: 1050-1250ºC), o que favorece a migração de metais, uma vez que não estão encapsulados na matriz vítrea cerâmica. Nas decorações in-glaze o incremento de temperatura leva a que haja um amolecimento do vidrado, permitindo a penetração da decoração e encapsulamento dos seus constituintes no vidrado. As decorações on-glaze proporcionam uma grande riqueza estética dispondo duma elevada variedade de tons de cores, existindo um grande leque de tintas disponíveis para este efeito, no entanto são pouco resistentes às lavagens, apresentando baixa resistência aos detergentes, verificando-se melhores desempenhos nestas caraterísticas com as temperaturas mais elevadas (In-glaze). Características da cozedura Tendo em conta que o chumbo apresenta uma elevada volatilidade pode provocar contaminações indiretas no forno, nomeadamente no refratário, devendo por isso ser efetuada uma manutenção periódica do forno para substituição do material refratário contaminado. Neste contexto, indiretamente a condução do forno poderá contribuir para a manifestação ou inibição do fenómeno de migração do chumbo em peças próximas do limite, ou seja, o modo de enforna da louça, tipo de forno, refratário usado, manutenção periódica e vida útil do forno são condicionantes que poderão influenciar os metais pesados indiretamente, uma vez que podem ser uma fonte de contaminação. estudo de viabilidade técnica e económica. Atualmente as empresas nacionais procedem a esta medida, sempre que se justifica tecnicamente, ou seja, permita o desenvolvimento da cor pretendida e economicamente, uma vez que, este processo requer significativos custos acrescidos, que nem sempre são viáveis para as empresas tendo em conta o mercado. No estudo desenvolvido foi testada uma peça cerâmica, da categoria Flatware com uma decoração constituída por várias cores, sem proteção e posteriormente foi colocada uma proteção na peça (fundente de cobertura) tendo sido sujeita ao ensaio de lixiviação, nas mesmas condições da anterior, para os metais de chumbo e cádmio. Neste ensaio verificou-se que ocorreu uma redução na libertação dos referidos metais, em cerca de 70% para o cádmio e 40% para o chumbo, conforme quadro seguinte. Este resultado permite comprovar que se a decoração não for esteticamente afetada, este processo poderá ser um recurso ao dispor das empresas, no caso de se encontrarem já próximos do limite, tendo sempre em conta que induz custos acrescidos nos produtos e não garante a eliminação a 100% da migração dos metais. Quadro VIII - Libertação dos metais analisados Antes da proteção 2 (µg/dm ) Após proteção 2 (µg/dm ) Chumbo 9,1 5,5 Cádmio 0,59 0,18 Metal analisado Inexistência de camada protetora Algumas empresas têm vindo a desenvolver uma série de medidas com vista a minimizar a libertação nas decorações on-glaze, encapsulando a decoração, através da aplicação de um fundente de cobertura ou de uma pequena camada de vidrado. A eficácia deste tipo de medida deve ser avaliada caso a caso, pois depende das características técnicas da pasta, compatibilidade, fusibilidade dos vidros, coeficiente de dilatação, entre outras, pelo que requer sempre um 16 AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS PROJETO: CER(amica) + Sustentável (SIAC n.º 38235) – Atividade 2 Conclusões A louça cerâmica que entra em contacto com os alimentos é regulamentada a nível Europeu pela Diretiva 84/500/CEE, nomeadamente sobre o chumbo e cádmio. A Comissão Europeia está a considerar propor a redução dos limites daqueles metais e considerar ainda outros que são considerados prejudiciais para a saúde, assim como incluir a louça de vidro. A redução dos limites propostos no 1º draft de revisão da diretiva é bastante significativa, implicando um esforço difícil para os produtores, fornecedores de matérias -primas e laboratórios. Assim, esta mudança drástica necessita de um tempo alargado de adaptação por parte de todos os intervenientes. Por outro lado, como os limites só se aplicam aos fabricantes da EU, não é muito sustentável no mercado de louça mundial, podendo mesmo resultar num aumento da importação na Europa, com consequências contrárias ao objetivo da redução dos limites, ou seja, resultar no prejuízo na saúde humana. A nível nacional é importante saber qual a situação atual de forma a ter uma noção do impacto das eventuais alterações, tendo em conta que o processo de lixiviação dos metais da louça depende de vários fatores como sejam a composição do vidrado, tintas e corantes aplicados nas decorações, condições de cozedura dos materiais, assim como na situação real depende das propriedades físicas e químicas da comida em contacto com a louça, pH, temperatura, etc.. Neste sentido, o estudo desenvolvido neste projeto, tendo em conta a amostragem efetuada, permitiu aferir o teor de vários metais, em produtos cerâmicos e de vidro, que poderão vir a ser considerados na revisão da diretiva europeia, dando a conhecer a situação da indústria portuguesa perante novos limites que poderão vir a ser legislados. Da análise dos resultados obtidos verificamos que a louça Portuguesa tem alguma dificuldade em cumprir com os limites propostos para o chumbo e cádmio, nomeadamente alguns produtos de porcelana e faiança com decorações de várias cores e vidro (se os limites fo- rem iguais à cerâmica), tendo ainda sido quantificáveis valores acima dos limites de quantificação do equipamento nos metais Co, Mn e Cu. Os resultados obtidos no estudo irão permitir um melhor suporte em antecipação de futuros desenvolvimentos legislativos, na medida em que, estes valores servirão de base para futuros requisitos legais, na comunidade europeia, permitindo que Portugal tenha elementos para avaliar as decisões a tomar sobre o assunto. É importante que a decisão de mudança dos limites seja bem ponderada, porque os valores sugeridos no 1º draft são muito diminutos e difíceis de cumprir, situando-se mesmo abaixo dos limites atualmente mais exigentes, os quais são aplicados no mercado americano. A mudança dos limites de libertação de metais, além de trazer constrangimentos aos laboratórios de análise (as técnicas são mais precisas e dispendiosas, técnico qualificado para manusear equipamentos, etc.) também vai afetar a indústria que precisa de saber quais os produtos que satisfazem os novos limites e adaptar-se para poder cumprir com as novas exigências legislativas europeias, podendo ser necessário substituir alguns materiais e/ou métodos de produção, precisando para isso de algum tempo de adaptação para a realização de estudos e de desenvolvimento de novas matérias-primas e processos. AVALIAÇÃO PROSPETIVA DA LIBERTAÇÃO DE METAIS PESADOS PELA LOUÇA CERÂMICA UTILITÁRIA EM CONTACTO COM OS ALIMENTOS 17 APICER Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria Rua Coronel Veiga Simão, Edifício C 3020-053 COIMBRA Tel.: +351 239 497 600 Fax: +351 239 497 601 Email : [email protected] www.apicer.pt