XIV Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar – XIV COLACMAR
Balneário Camboriú (SC / Brasil), 30 de outubro a 04 de novembro de 2011
A PRESENÇA DE LIXO MARINHO NAS AMOSTRAGENS REALIZADAS EM
PRAIAS ARENOSAS MARINHAS
Rodrigues, F. L1; Vieira, J. P.2
1
Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Biológica, Laboratório de Ictiologia-IO/FURG, Av. Itália km8 Carreiros,
[email protected]
2
Laboratório de Ictiologia-IO/FURG, [email protected]
RESUMO
Lixo marinho é qualquer resíduo sólido que entra nos ambientes marinho e costeiro advindo de
qualquer fonte não natural ao meio. Observações de campo e o resultado de coletas não
direcionadas tem gerado quastionamentos a respeito do impacto e da importância deste “lixo”
em amostragens biológicas sistemáticas do Lab. de Ictiologia da FURG. O objetivo deste
trabalho foi: 1) quantificar e qualificar o lixo coletado durante as amostragens e 2) fazer uma
reflexão de até que ponto nós pesquisadores devemos ignorar este problema. Todo o material
analisado foi proveniente de coletas realizadas na zona de arrebentação de duas praias
arenosas distintas. Durante os 10 meses analisados foram coletadas 600 amostras, sendo que
lixo marinho foi identificado em 60,8% das amostras (N=350). Quatro categorias foram
identificadas, sendo o material “Plástico” a mais abundante, com N=1409 (91,6%) pedaços
identificados, e também a mais importante em peso (513,62 g). Conclui-se que o material
“Plástico” foi o mais importante em relação a poluição por resíduos sólidos e que o lixo marinho
retido em artefatos de pesquisa usados para coletar peixes (redes de espera, arrasto de praia,
etc) não deve ser ignorado, podendo ser usado como uma forma de monitoramento adicional,
já que mais da metade das amostras continha lixo.
Palavras chave: poluição, arrasto de praia, ictiofauna
INTRODUÇÃO
O “lixo marinho” representa uma ameaça crescente aos ambientes marinho e costerio.
Por definição, lixo marinho é qualquer material sólido persistente, manufaturado e processado,
que é descartado, colocado ou abandonado nos ambientes marinho e costeiro (UNEP, 2005).
Os animais marinhos que mais sofrem com este problema são os mamíferos, tartarugas, aves
e até os peixes. Estudos recentes tem registrado a presença de lixo marinho no trato digestório
de peixes coletados no mar (BOERGER et al., 2010) e em estuários (POSSATTO et al., 2011).
Em todo o mundo, a coleta de peixes em áreas rasas da zona de arrebentação é realizada com
redes de arrasto de praia com os mais variados tamanhos, tanto de rede como de malha,
sendo este o petrecho mais eficiente para se coletar peixes nestes ambientes. O presente
trabalho resultou da observação em campo e laboratório do lixo marinho retido nas redes de
arrasto de praia usadas durante o processo de amostragem de peixes realizado em duas
praias arenosas distintas. Com base na observação da preseça quase que constante de lixo
marinho nas amostras, os objetivos deste trabalho foram: 1) quantificar e qualificar o lixo
coletado durante as amostragens e 2) fazer uma reflexão de até que ponto nós pesquisadores
devemos ignorar este problema em amostragens biológicas.
MATERIAIS E MÉTODOS
O material analisado neste trabalho é proveniente de coletas realizadas no período de
junho/2010 a março/2011, na zona de arrebentação de duas praias arenosas distintas. As
coletas foram realizadas mensalmente em seis locais, três na Praia do Cassino (Rio Grande) e
três na Praia do Mar Grosso (São José do Norte), RS. Cada local tinha uma distância de
aproximadamente 8 km entre si, sendo que ambas as praias são separadas pela
desembocadura do estuário da Lagoa dos Patos (Fig. 1). Para as coletas dos peixes foram
utilizadas duas redes de arrasto de praia tipo picaré, uma com 9x1,5m (malhas 3 e 5 mm) e
outra com 30x1,8m (malha 12 mm). Em cada local/mês eram realizados cinco arrastos (Fig.
2A) com cada rede e o material coletado (inclusive o lixo) era acondicionado em sacos
plásticos e levado para o laboratório. No laboratório, o lixo marinho coletado (Fig. 2B) junto com
os peixes, era separado e quantificado (por pedaço de material), classificado (plástico, vidro,
Associação Latino-Americana de Investigadores em Ciências do Mar - ALICMAR
AOCEANO – Associação Brasileira de Oceanografia
XIV Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar – XIV COLACMAR
Balneário Camboriú (SC / Brasil), 30 de outubro a 04 de novembro de 2011
nylon, etc) e pesado em balança digital com precisão de 0,0001g. Nesta fase do trabalho não
se fez nenhuma análise estatística específica para testar possíveis diferenças na “captura de
lixo” entre locais/praias e diferentes redes. Atenção foi dada especificamente a quantificação e
qualificação do lixo coletado junto com a amostragem de peixes.
Figura 1: Mapa do litoral do Rio Grande do Sul, com área de coleta indicada pelos números.
Figura 2: A) Operação de arrasto com rede picaré de 9 m e B) amostra porveniente de uma
operação de arrasto.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Lixo marinho esteve presente em 350 (60,8%) de um total de 600 amostras, sendo que
o maior número de amostras contendo lixo marinho foi proveniente da praia do Mar Grosso,
com 218 amostras (59,7%), contra 147 amostras (40,3%) da Praia do Cassino. Ao todo foram
encontrados 1409 pedaços de lixo marinho, pertencentes a quatro categorias (Fig.3A). A
categoria “plástico” esteve presente em 279 amostras e representou 91,6% (N=1291) do lixo
marinho coletado. Esta categoria foi formada por material plástico fragmentado, constituído por
rótulos e fragmentos de garrafas PET, embalagens variadas, sacolas, copos, canudos, lona,
etc. A categoria “nylon” (5,4%; N=76) foi formada por pedaços de fio de nylon provenientes de
restos deteriorados de redes, cabos e linhas de pesca. A categoria “outros” (2,1%; N=29)
reuniu o agrupamento de 10 tipos diferentes de resíduos com baixa abundância, sendo que
fragmentos de “tecido” (0,6%; N=8), “esponja de louça” (0,4%; n=6) e “borracha” (0,3%; N=4)
foram os mais abundantes. O lixo marinho presente nas amostras pesou 864,52 g (Fig. 3B),
sendo que 513,62 g foi da categoria “plástico”. Os itens “tecido” e “equipamentos de pesca”,
pertencentes a categoria “Outros” foram importantes em peso, principalmente devido a
presença de chumbadas nas linhas coletadas e devido ao fato dos tecidos estarem úmidos e
elevarem desta forma o seu peso real.
Associação Latino-Americana de Investigadores em Ciências do Mar - ALICMAR
AOCEANO – Associação Brasileira de Oceanografia
XIV Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar – XIV COLACMAR
Balneário Camboriú (SC / Brasil), 30 de outubro a 04 de novembro de 2011
A
B
Figura 3: A) Categorias de lixo marinho e suas devidas porcentagens em número. e B)
categorias de lixo marinho e seus pesos.
Plásticos foram a principal categoria encontrada nas amostras, porém outras categorias
estiverm presentes com menor importância. A presença massiva de plásticos no ambiente
praial também foi registrada por PORTZ et al. (2011), que identificaram plásticos e outras
categorias em coletas específicas de resíduos sólidos, realizadas com transectos, em praias do
litoral norte do Rio Grande do Sul.
CONCLUSÕES
1) A categoria “Plástico” foi a que apresentou maior número de pedaços retidos nas
redes.
2) O lixo marinho retido nas redes usadas para coletar peixes não deve ser ignorado,
tendo em vista que mais da metade das amostras (60,83%) continham lixo.
REFERÊNCIAS
BOERGER, C. M., LATTIN, G. L., MOORE, S. L., MOORE C. J. 2010. Plastic ingestion by
planktivorous fishes in the North Pacific Central Gyre. Marine Pollution Bulletin, 60: 22752278.
Books – Blackwell Science, 382pp.
PORTZ, l., MANZOLLI, R. P., IVAR DO SUL, J. A. 2011. Marine debris on Rio Grande do Sul
north coast, Brazil: spatial and temporal patterns. Revista da Gestão Costeira Integrada
(11)1: 41-48
POSSATTO, F. E., BARLETTA, M., COSTA, M. C., IVAR DO SUL, J., DANTAS, D. V. 2011.
Plastic debris ingestion by marine catfish: An unexpected fisheries impact. Marine Pollution
Bulletin, 62: 1098-1102.
UNEP, 2005. Marine Litter: An analytical overview. 58pp.
Associação Latino-Americana de Investigadores em Ciências do Mar - ALICMAR
AOCEANO – Associação Brasileira de Oceanografia
Download

a presença de lixo marinho nas amostragens