SEMANA DE HISTÓRIA/CPAQ/UFMS: “OS CAMPOS DA HISTORIA: Ensino, Pesquisa e Perspectivas Interdisciplinares - - de 6 a 10 de novembro de 2006. CORUMBÁ, CIDADE FORTIFICADA Contribuições para o ensino de história em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul Maria do Carmo Brazil1 Resumo A antiga localização da cidade de Corumbá no alto da barranca, construída no final do século XVIII, como praça de defesa contra a expansão castelhana e contra o gentio paiaguás, assumiu, nos séculos XIX e XX, um novo e intenso valor como porto, refúgio e segurança para as transações comerciais. Nessa cidade colonial, onde a natureza recuou ante ao trabalho do homem, foi reorganizado o espaço portuário, remodelando a pedra onde assentava-se a cidade colonial e redesenhando os limites impostos pelo rio. Uma das primeiras preocupações dos negociantes portuários consistia em estimar a qualidade da defesa das curvas do rio e da entrada do porto. Discutiremos os aspectos que evidenciam o cotidiano social e a localização estratégica do famoso sítio portuário fundado em 1778 como parte do projeto metropolitano português defesa e fortificações militares, estendendose desde a região do Guaporé até a parte meridional, representado pôr Albuquerque, hoje Corumbá. A ênfase será dada ao processo de militarização da áreas vizinhas às Castelhanas, somada à política de povoamento que teve o objetivo de controlar os núcleos populacionais e os pontos estratégicos do imenso território mato-grossense. A antiga localização da cidade de Corumbá no alto da barranca, construída no final do século XVIII, como praça de defesa contra a expansão castelhana e contra o gentio paiaguás, assumiu, nos séculos XIX e XX, um novo e intenso valor como porto, refúgio e segurança para as transações comerciais. Nessa cidade colonial, onde a natureza recuou ante ao trabalho do homem, foi reorganizado o espaço portuário, remodelando a pedra onde assentava-se a cidade colonial e redesenhando os limites impostos pelo rio. Uma das primeiras preocupações dos negociantes portuários consistia em estimar a qualidade da defesa das curvas do rio e da entrada do porto. Discutiremos os aspectos que evidenciam o cotidiano social e a localização estratégica do famoso sítio portuário fundado em 1778 como parte do projeto metropolitano português defesa e fortificações 1 Professora Titular em História do Brasil da Universidade Federal da Grande Dourados/FAED/PPG-História. É doutora em Ciências: História Social pela Universidade de São Paulo e autora, entre outras produções de “Rio Paraguai: o “mar interno brasileiro. São Paulo: FFLCH/USP, 1999. (Tese de doutorado). E-mail: [email protected] militares, estendendo-se desde a região do Guaporé até a parte meridional, representado pôr Albuquerque, hoje Corumbá. A ênfase será dada ao processo de militarização da áreas vizinhas às Castelhanas, somada à política de povoamento que teve o objetivo de controlar os núcleos populacionais e os pontos estratégicos do imenso território mato-grossense. 1. As fortalezas militares de Mato Grosso A história do Brasil foi fortemente marcada por inúmeras investidas de países da Europa tentativa de apoderar de grande parte dos domínios lusos. Na orla atlântica brasileira os portugueses erigiram, como estratégia de defesa e segurança, inúmeras fortalezas e fortins aglutinados nas baías que davam acesso às cidades, vilas, povoações e portos permitindo o embarque e desembarque de produtos coloniais. Franceses, holandeses e espanhóis, de olho no rico espaço da colônia lusa, estimularam a instalação de peças de artilharia nas fortificações litorâneas. A praça, onde se instalavam as fortalezas ou fortes menores, precisava estar muito bem situada estrategicamente. Boa parte destes fortes foi construída em pontos que oferecia uma ampla visão da paisagem a qual, além de causar a sensação de refúgio e segurança, provocava, não raro, forte fascínio aos observadores. Ainda no período colonial os governos ibéricos colocaram em prática os termos do Tratado de Limites de 1750 para definir as terras coloniais. O reconhecimento da soberania portuguesa sobre os territórios conquistados pelo avanço bandeirante, pelos religiosos a serviço de Portugal e pelos contingentes militares que ocuparam as áreas do interior, sobretudo ao sul e ao norte da colônia, passou a ser o objeto central do Tratado de Madri2. A partir daí a Coroa investiu na 2 Tratado de Madri elaboração de um projeto político, cujo objetivo básico era incentivar o povoamento e a defesa das áreas meridionais do Brasil. Assim, de 1750 a 1777, durante a administração pombalina3, a colônia portuguesa foi assinalada uma direção administrativa, cuja meta era ampliar a eficiência da exploração colonial. Nesses 25 anos, Pombal, enquanto primeiro ministro se propôs a redefinir a base territorial do norte do Brasil e a guarnecer com fortalezas militares terras sulinas e ocidentais de Mato Grosso. Quatro capitães-generais fizeram parte do governo de Mato Grosso, nesse período: Antônio Rolim de Moura (17511765), João Pedro Câmara (1765-1767), Luiz Pinto de Souza Coutinho (1767-1769) e Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres (17721789). Este último administrou a Capitania na vigência de Pombal e de seu substituto o Ministro Martinho de Mello. As Instruções ditadas por 4 Portugal através dos órgãos administrativos coloniais, como o Conselho Ultramarino, envolviam a questão do povoamento da Capitania de Mato Grosso, depois de definido o Tratado de Limites de 1750. Em atenção às instruções pombalinas, Rolim de Moura fundou, em 1752, às margens do Guaporé, a Vila Bela da Santíssima Trindade, como sede da Capitania de Mato Grosso. Enquanto as Instruções a Rolim de Moura5 tinham uma projeção essencialmente amazônica, onde a linha de fronteira vinha riscar o Alto Guaporé, o Madeira e o Mamoré, efetivando a fundação, em 1760, do Forte Nossa Senhora da Conceição6 na faixa de fronteira, as Instruções 3 Relativo ao Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), estadista português durante o Reinado de D. José I, ou à sua época. 4 Cf. Brazil, Maria do Carmo. Brasil e Portugal no período Pombalino: ocupação geoestratégica de Mato Grosso. IV Congresso Internacional de Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre : PUC, 2000 V (CD ROM) 5 Firmado o Tratado de Limites de 1750, Rolim de Moura passou a atender às Instruções pombalinas, fundando, em 1752, às margens do Guaporé, Vila Bela da Santíssima Trindade como sede da Capitania de Mato Grosso. 6 O Forte Nossa Senhora da Conceição representou o primeiro passo do processo político de consolidação do governo luso no extremo-oeste da Colônia. É evidente que esse feito também provocou a forte reação dos a Luiz de Albuquerque projetavam a ocupação da margem oriental do rio Paraguai e a fortificação das margens dos rios, concretizada na construção do Forte Príncipe da Beira7, no médio Guaporé e dos Fortes de Nova Coimbra e Miranda, no Alto e médio Paraguai. Nessa galeria de capitães-generais, emergiu a imagem de Luiz de Albuquerque como um agente administrativo cujas ações transpuseram as minuciosas Instruções da Metrópole na defesa da soberania lusitana Cabe ressaltar que a construção do Real Forte do Príncipe da Beira, desenhado e inspecionado por Luiz de Albuquerque, valeu-se de trabalhadores escravizados, os quais foram utilizados na derrubada de compacta mataria, onde se ergueram quartéis e casas. Os escravos foram empregados também na retirada de pedras dos rochedos da região, no transporte deste material ao local das construções enfim no trabalho de construção das paredes primordiais do forte. Além disso, os negros realizavam o serviço de taipa e preparavam os próprios alimentos e de seus senhores. O sociólogo Gilberto Freyre, com base em cartas, desenhos e projetos efetuados por Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, discutiu na obra Contribuição para uma sociologia da biografia8 a questão das fortalezas mato-grossenses. Nos documentos coligidos por missionários e os intensos “ralhos castelhanos” no sentido de recuperar a posse antiga de “el rei católico” na margem do Guaporé. 7 O Real Forte do Príncipe da Beira, na margem direita do rio Guaporé, fronteira natural entre o Brasil e a Bolívia, constitui-se num dos mais antigo monumento histórico de Rondônia. Sua construção foi iniciada em 2 de junho de 1776 pelo engenheiro Domingos Samboceti, falecido de malária durante a obra, e concluída, em 20 de agosto de 1783, pelo capitão engenheiro Ricardo Franco de Almeida Serra. Sua construção teve o objetivo de consolidar a posse da Coroa lusa sobre as terras à margem dos rios Guaporé e Mamoré, no extremo noroeste do Brasil. Localiza-se há mais de 3.000km do litoral, em ponto ainda hoje de difícil acesso, e em pleno coração da grande floresta Amazônica. Para o capitão-general de Mato Grosso Luis Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, a obra teve um expressivo significado: " A soberania e o respeito de Portugal impõem que neste lugar se erga um forte, e isso é obra e serviço dos homens de El-Rei, nosso Senhor e, como tal, por mais duro, por mais difícil e por mais trabalho que dê,... é serviço de Portugal. E tem de se cumprir. junho de 1776. 8 Freyre, Gilberto. Contribuição para uma sociologia da biografia: O exemplo de Luiz de Albuquerque governador de Mato Grosso no fim do século XVIII- Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1978. Corrêa Filho, Virgílio. Luiz de Albuquerque – fronteiro insigne Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942. Freire, guardados pela família dos Albuquerque, na Casa da Ínsua, em Portugal, constam a trajetória dos portugueses na consolidação do domínio lusitano nas terras de Mato-Grosso, concretizada na construção de fortes e na fundação de vilas e cidades oferecendo “a essas povoações situadas no trópico características portuguesas e nomes lusitaníssimos; trazendo escravos negros, quer da África e ainda boçais, quer do Pará e do Rio de Janeiro, e já ladinos e peritos como carpinteiros e pedreiros [...].” 9 Segundo o Gilberto Freire, Luiz de Albuquerque fez vir do Pará e do Rio de Janeiro, ferramentas e ferragens especiais, além de escravos com altas habilidades, como peritos em carpintaria e pedreiros exercitados10. Numa Carta escrita por Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres destinada ao Marquês de Pombal constam informes sobre as potencialidades da região do Guaporé quanto à condição se erigir feitorias de comércio e também relativo à quantidade e qualidade de madeiras apropriadas para a construção do sítio de defesa na região. A Carta revela ainda a existência de grande porção de pedra, necessária para a fundação dos alicerces do forte, e o predomínio de boa madeira para fabricação portais de perdurável duração”11. 2. Luiz de Albuquerque, “o semeador de povoados”12 O período albuquerquino – 1772-1789 – de fundamental importância para a consolidação territorial da Capitania de Mato Grosso e para a efetivação da conquista do rio Paraguai, mereceu a atenção de 9 FREYRE, Gilberto. Contribuição [...].Ob.cit. p.138. FREYRE, Gilberto. Contribuição [...].Ob.cit. p. 149. 11 Documento de 12 de Fevereiro de 1774. Rio da Madeyra. FREYRE, Gilberto. Contribuição [...]. Ob.cit. p. 335. 12 Freyre, Gilberto – “Um fildalgo da Beira, governador de Mato Grosso”. Contribuição para uma Sociologia da Biografia – O exemplo de Luiz de Albuquerque governador de Mato Grosso no fim do século XVIII. Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1978, p. 138. 10 dois estudiosos da política administrativa colonial: o já citado Virgílio Corrêa Filho, em texto produzido e publicado em 1942 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sob o título Luiz de Albuquerque – o Fronteiro Insigne, e Gilberto Freire, como já me referi anteriormente, com sua Contribuição para uma sociologia da Biografia13. Este último foi publicado em 1978 por ocasião do bi-centenário da fundação das cidades de Corumbá e Cáceres, pela Fundação Cultural de Mato Grosso, legando uma valiosa contribuição à historiografia mato-grossense, cujos dados biográficos de Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres foram coligidos na Casa de Ínsua em Portugal14. Luiz de Albuquerque – O Fronteiro Insigne, de Virgílio Corrêa Filho, ressalta as providências administrativas para arrefecer o avanço castelhano e combater os constantes assaltos dos índios paiaguás aos ocupantes da região. Emergiu, da iniciativa do capitão-general, um plano de defesa oficial, com base na construção de redutos militares pontilhando a fronteira com o objetivo de policiar o rio Paraguai contra o gentio e firmar a posse lusitana na região até então despovoada, apesar de ser bastante freqüentada pelos sertanistas paulistas. Por ordem de Luiz de Albuquerque, em 1775 o Capitão Matias Ribeiro da Costa, como mais de duzentos homens passaram a guarnecer o “Fecho dos Morros”. Entretanto, segundo Corrêa Filho, o comandante Matias da Costa enganou-se na identificação do acidente topográfico referido pelo capitão-general e fundou, a 13 de setembro de 1775, na 13 Freire, Gilberto - Contribuição para uma Sociologia da Biografia – O exemplo de Luiz de Albuquerque governador de Mato Grosso no fim do século XVIII- Cuiabá: Fundação Cultural de Mato Grosso, 1978. Corrêa Filho, Virgílio. Luiz de Albuquerque – fronteiro insigne . Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942.( Comentário e Documentário). 14 Cf. Brazil, Maria do Carmo. Brasil e Portugal no período Pombalino: ocupação geoestratégica de Mato Grosso. IV Congresso Internacional de Estudos Ibero-Americanos. Porto Alegre : PUC, 2000 V (CD ROM). margem direita do Paraguai “a lendária estacada ancestral do Forte de Coimbra”15. Embora sem transitar pelos pantanais de Mato Grosso, Luiz de Albuquerque notou o erro resvalado por seu delegado e tentou corrigir o problema, enviando Miguel José Rodrigues para explorar a via fluvial, ocupar o verdadeiro local e verificar a existência e as condições estratégicas do vale. Esta localidade, de incomparável beleza balizava duas regiões fisiográficas distintas: o Chaco e o Pantanal. Como trecho de passagem obrigatória, o Fecho dos Morros imprimia a necessidade da instalação de uma guarda avançada de soberania lusa disposta a impedir o avanço de forças invasoras. Surgia assim, na referida localidade, o Real Presídio de Nova Coimbra. Foi fundada, nesse processo, a praça de guerra com o firme propósito de conter as investidas dos paiaguás, que além de perturbar a paz dos viajantes, sobretudo monçoeiros, representava um grande obstáculo à ocupação do sul de Mato Grosso. Além desse objetivo Coimbra devia impedir e neutralizar os ânimos dos castelhanos em invadir os domínios portugueses. O engano afigurado por Matias da Costa proporcionou condições favoráveis para que os castelhanos avançassem até a montante através do rio Miranda, conforme a estipulação do Tratado de Madri, anulado pelo Tratado do rio Pardo, em 1761. A possibilidade de penetração castelhana pelo furo da margem esquerda do Paraguai, precisamente Nabileque, com saída em São Francisco Xavier, fez Luiz de Albuquerque determinar a instalação de um posto fortificado nas cercanias da barra do Miranda, com o objetivo de cobrir a retaguarda de Coimbra e de impedir as manobras de surpresa pelo lado setentrional. Assim, em fins do século XVIII, quando os paulistas já haviam avançado o meridiano de Tordesilhas, e Luiz de Albuquerque já 15 Corrêa Filho, V. - Op. cit. p. 191. concretizava os planos de domínio luso nos rios Paraguai e Guaporé, pontilhando de fortificações a larga faixa da fronteira do Brasil, a Província de Chiquitos foi novamente anexada ao Vice-Reinado da Prata16. Era tarde para os espanhóis tentarem a reconquista do rio, pois Luiz de Albuquerque firmava, em ritmo acelerado, o domínio português em Mato Grosso começando pelo reconhecimento dos rios e pelas precauções militares. Para executar as instruções de ordens reais ergueu no ano de 1776, em plena selva, o Real Forte Príncipe da Beira, o poderoso monumento militar que assinalou de forma definitiva a presença lusa no extremo oeste brasileiro, conforme já foi referido. A política de fortificação projetava a revalidação, por decalque das balizas naturais, uma das principais estipulações portuguesas no Tratado de Madri. As fortificações, segundo Gilberto Freire, criavam sobre os espanhóis um efeito psicológico, expressando a nítida presença lusitana “naquelas importantes ainda que remotas paragens”17. Coube a João Leme do Prado a tarefa de examinar o vale do Emboteteu e pontuar o sítio ideal para servir de suporte à ocupação do Alto e Médio Paraguai. Pelas controvérsias sobre a toponímia do rio Miranda o capitão mor substituiu Emboteteu ou Mbotetey, por Mondego, mais tarde preterido pelo nome de Miranda, em homenagem ao capitão general Caetano Pinto de Miranda Montenegro, em cuja administração se ergueu o primeiro fortim às suas margens. Ao percorrer o vale e as fontes do rio Miranda, em 1776, João Leme do Prado encontrou numerosos indígenas com trajes e “alguns ornamentos de prata, rosários, miçangas e instrumentos de ferro bem 16 Cf. Azevedo, Gregório Thaumaturgo de - “História do Rio Paraguai”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1927, v. 5, p117-190. (Tomo especial: Congresso Internacional de História da América). 17 “Carta de Luiz Albuquerque para a Metrópole”, datada de 4 de janeiro de 1785. In: Freire, G. “Documentário”. Op. Cit., p. 139. trabalhados”18 evidenciando a comunicação dos mesmos com os espanhóis. Além disso, o emissário de Luiz de Albuquerque registrou a presença de gado, indiciando o “copioso número de habitantes” na região. Sem encontrar um lugar que atendia as orientações de Luiz de Albuquerque, João Leme do Prado regressou e observou cuidadosamente o morro das Pitas19 que parecia apropriado ao objetivo político militar do governo colonial. Preocupado com uma melhor localização e maior defesa da parte sul de Mato Grosso, dentro das orientações de Luís de Albuquerque, dois lugares pareciam adequados para a construção do povoado: o "morrete", em frente a foz do rio Miranda, hoje denominado morro de Albuquerque ou Morrinho, onde os oficiais assentaram um forte de pequena guarnição, e as “barrancas da jusante do canal dos Tamengos”. Efetuado o reconhecimento dos sítios, o sertanista organizou um minucioso esboço topográfico e remeteu ao capitão general. As ribanceiras do canal foram escolhidas por Luís de Albuquerque para a instalação do povoado de defesa. Os dados levantados por Leme do Prado explicitavam a necessidade de dominar aquele trecho do rio por se tratar de terras e águas de importância estratégica para as fronteiras meridionais. Segundo Raul Silveira de Melo, foi assim que o capitão-general de Mato Grosso, no afã de conquistar terras nesses pontos e garantir espaço para a frente de ocupação, resolveu dinamizar o vale do rio 18 Relatório de João Leme do Prado citado por Gilberto Freire - Op. cit. p. 143. Raul Silveira de Mello explica que o “Morro das Pitas” trata-se das altas barrancas ou ribanceiras cobertas por uma espessa vegetação de piteiras, plantas cujas folhas são de base larga, de ponta aguda, bordadas de espinhos, polposas e fibrasas. Seus fios eram utilizados pelos índios para a confecção de rendas e tecidos: “O que Freitas [ o cabo de dragões Manoel da Silva Freytas foi que primeiro batizou o lugar com a referida nomenclatura] ... e Costa Siqueira [cronista oficial português] chamavam de morro ( das Pitas), eram, nem mais nem menos aquelas ribanceiras ou altas barrancas....Em Corumbá as barrancas são realmente alterosas... Não é de admirar que aqueles transeuntes, ao toparem as altas rebanceiras, tivessem a impressão de que estavam ao pé de um morro”. Cf. Mello, Raul Silveira – “Investigações topográficas e florísticas – Onde ficava o Morro das Pitas”. Corumbá, Albuquerque e Ladário. Rio de Janeiro: Bibliex, 1966, p. 55. 19 Paraguai, ligando o norte e o sul de Mato Grosso 20 . Era o início da fundação dos povoados albuquerquinos com a intenção de impedir o acesso dos castelhanos às partes vulneráveis da fronteira e de consolidar a posse lusitana na Colônia. De acordo com Virgílio Corrêa Filho, o capitão-general Luiz de Albuquerque “forcejava por dilatar a margem direita do rio Paraguai”21 para permitir a segurança na longa via de comunicação estendida de Cuiabá à barra do Taquari, trecho onde transitavam as monções paulistas. Decidido o local, o comando do povoado ficou a cargo de João Leme do Prado, que preferiu instalar-se em outro local, o qual chamou de Ladário, a uns 6 Km da jusante, alegando que o terreno, escolhido pelo capitão-general, por sua natureza calcária, era impróprio para plantações, portanto incapaz de atender a subsistência dos homens que serviam ao posto de serviço. As atividades iniciais de reconhecimento e instalação das guarnições prosseguiram sem imprevistos consideráveis até ao mês de setembro de 1777. Entretanto, em outubro desse mesmo ano, foi assinado o Tratado de Santo Ildefonso entre Portugal e Espanha, reproduzindo o Tratado de Madri. Os rios Paraguai e Guaporé voltavam a ser reconhecidos como raias lindeiras entre as duas Coroas. Os territórios da margem direita do rio Paraguai tornariam a ser da Espanha e, conseqüentemente, Coimbra e Albuquerque deviam ser excluídas dos domínios lusitanos. Pelo texto do novo Tratado, Luiz de Albuquerque devia recuar e o seu projeto de manter a soberania lusa a oeste do grande rio devia ser anulado. Mas, o “fronteiro insigne” manteve firme o propósito de assegurar suas conquistas anteriores. Assim, depois de estudar os registros topográficos enviados por seus delegados, 20 Luiz de Albuquerque, dotado de uma clarividência Melo, Raul Silveira – História do Forte de Coimbra. Rio de Janeiro: Bibliex, 1959, p. 52. Corrêa Filho, Virgílio. - “O Porto de Corumbá”. Jornal do Comércio. Rio de Janeiro: Mensário do Jornal o Comércio, 1945. 21 esplêndida, insistia que a guarnição assentada na foz do rio Miranda devia continuar a cumprir a tarefa de defender o rio através do monte denominado Albuquerque e que, segundo Francisco Rodrigues do Prado, merecia ser ocupado. Em l778, portanto, para completar a política de consolidação portuguesa, Luís de Albuquerque fundou estrategicamente as povoações de Albuquerque (Corumbá) e Vila Maria (Cáceres) 22. Além de garantir a posse territorial, de dominar as hordas de índios bravios e de conter as investidas castelhanas esta iniciativa governamental acabou franqueando o sul de Mato Grosso aos interesses dos proprietários de terras que, inicialmente, limitavam suas propriedades às proximidades de Cuiabá. Entretanto, os fatores geográficos firmaram-se como pontos de latentes discórdias entre a política expansionista espanhola e portuguesa. O Pantanal e o Chaco, embora sendo áreas de constantes inundações representaram, durante três séculos, o campo de acirradas disputas, de violentas correrias, de importantes tratados e de porfias intermináveis. Por mais de meio século o império brasileiro e a república paraguaia conviveram com pendências lindeiras, cujos acertos diplomáticos que pareciam insolúveis. Por muito tempo, durante a colônia e o império, o governo conservou a vigilância constante em torno dos rios Taquari e Paraguai-Mirim, afluentes do Paraguai que ligavam a Corte a São Paulo, sempre acionando os antigos propósitos políticos do Brasil em defender e povoar a parte meridional de Mato Grosso. Qualquer movimento externo nessa área lindeira representava um sério risco à soberania brasileira. 3. A Guerra do Paraguai e os fortins de Corumbá 22 Mello, Raul Silveira de - Corumbá, Albuquerque e Ladário. Rio de Janeiro, Bibliex, 1966 A ameaça de uma possível invasão paraguaia, patenteada nas missões diplomáticas levou o governo a tomar medidas estratégicas de defesa e de preparo logísticos, ensejando a abertura da rota fluvial Tibagi-Paranapanema-Ivinhema-Miranda23. As habilidades diplomáticas dos delegados imperiais também serviram para anular os entraves que impediam a celebração do tratado de livre comércio através do rio Paraguai. Com o empenho de missões diplomáticas tornou-se possível o estabelecimento do "Tratado de Amizade Comércio e Navegação", de 6 de abril de 1856, entre o Brasil e Paraguai, franqueando o rio aos navios brasileiros. O Tratado, embora não tenha solucionado a questão de limites entre as duas nações, permitiu o comércio regular entre Montevidéu e Cuiabá, através da Companhia de Navegação a Vapor, até o ano de 1864, quando ocorreu a invasão paraguaia em Mato Grosso. Nos anos que antecederam a Guerra do Paraguai (1856-1864), Corumbá, Cuiabá e Cáceres experimentaram um dinâmico fluxo econômico devido ao acesso do grande rio ao comércio internacional mantendo, entretanto, a vigilância constante sobre as áreas disputadas. Na verdade, todo cuidado era pouco diante da latente ameaça. Como parte da política de defesa, Corumbá passou a contar, a partir de 1857, com duas unidades de Artilharia e, também, com o Corpo de Artilharia de Mato Grosso. As invencíveis dificuldades para delimitar os contravertentes dos rios Paraná e Paraguai, ajudaram a acirrar os desentendimentos entre os países vizinhos. Como legado dessas constantes rixas, as nações, já independentes, submeteram o implacável destino expansionista a um desenlace histórico, cujo ápice foi 23 Cf. Mello, R. Silveira de - Op. Cit., p 127. a sangrenta e prolongada luta entre as nações do Prata, conhecida como Guerra do Paraguai24. A Guerra do Paraguai serviu para avaliar o problema das vias de acesso interno e questões de limites, além disso, evidenciou o problema de abastecimento dos soldados e a falta de transporte para conduzir as tropas até o teatro de operação – sul do Brasil e Mato Grosso. Os soldados combatentes tinham que percorrer milhares de quilômetros por água e por terra, antes de alcançar os campos de batalhas. Nesse sentido, a guerra exigiu uma nova interpretação sobre o tempo e espaço, considerando as longas distâncias a serem vencidas pelas tropas avultadas. Uma série de questões teve que ser reavaliadas como as estratégias de ataques, as retiradas e a nunca vista guerra fluvial. Esse aspecto gerou uma nova forma de pensar a guerra e a reinterpretação do papel da força militar na evolução da histórica política brasileira. Assim, depois da Guerra do Paraguai, o exército tratou de reestruturar a base de defesa e de ocupação das áreas de risco de Mato Grosso. Para Corumbá foi traçado um projeto composto de uma série de fortes situados desde o Canal dos Tamengos até a cidade de Ladário. Segundo Haroldo de Carvalho Netto, em seu artigo intitulado Corumbá, Praça de Guerra, publicado no ano de 1979 pela Revista Militar Brasileira25, os fortins de Corumbá, ao serem construídos logo após a Guerra da Tríplice Aliança, destinavam-se à defesa da praça de guerra. Cinco fortins foram construídos da jusante para montante e receberam nomenclaturas 24 A Guerra da Tríplice Aliança é também conhecida por Guerra do Paraguai, Guerra Contra o Paraguai, Guerra Guaçu, Guerra Grande ou, ainda, Guerra Maldita. A expressão Guerra Grande foi dada por Augusto Roa Bastos, notável escritor paraguaio. Cf. Mota, Carlos Guilherme Mota. “A guerra contra o Paraguai: A história de um silêncio”. In: Marques, Maria Eduarda Castro Magalhães(org.) Guerra do Paraguai- 130 anos depois. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995, p.37-50. 25 Carvalho Netto, Haroldo - “Corumbá, Praça de Guerra”. Revista Militar Brasileira. Brasília: Centro de Documentação do Exército, jan./abr., 1979, v. 115. históricas a saber: Limoeiro, Junqueira, Conde D'Eu, Duque de Caxias e Major Gama. O forte Limoeiro, depois São Francisco, em homenagem ao então Presidente da Província, Francisco José Cardoso Junior foi inaugurado em 25 de maio de 1871 e teve como primeiro comandante o Major João de Oliveira Melo, figura preeminente do Forte de Coimbra e da retirada através dos pantanais de Cuiabá, no início da guerra. Conforme Carvalho Netto, não se tem uma idéia precisa de sua localização, mas é possível que este forte tenha sido erguido a uns três quilômetros a oeste de Ladário, no lugar onde hoje se encontra o Centro Universitário de Corumbá. O Pólvora, depois chamado Junqueira, em homenagem ao então Ministro da Guerra, Dr. João José de Oliveira Junqueira, executor do projeto de construção do forte, encontra-se situado na parte oriental de Corumbá, à margem direita do rio Paraguai, assentado sobre uma estratégica e alcantilada formação calcárea que lhe favorece o domínio sob o longo estirão do rio. Esse forte é o único que se manteve majestosamente edificado, graças ao trabalho de conservação e guarda mantida pelo 17º Batalhão de Fronteira (17º Bfron). Possui ainda 12 canhões Krupp raiados de 75mm, fabricados a maior parte entre os anos de 1772 e 1884. O forte Conde D’Eu, ou Santo Antônio, aparecem definidos nos registros de propriedades dos antigos livros de tombo da Prefeitura. Na planta da cidade, constam os terrenos limítrofes e a nomenclatura oficial de Conde d’Eu como uma homenagem ao genro do Imperador Pedro II, comandante da fase final da Guerra do Paraguai. O forte foi objeto de estudo do Coronel Haroldo de Carvalho Neto, e segundo os dados levantados, o monumento localizava-se no depois chamado bairro do Borrowski, ao fundo da praça até hoje chamada de “Fortaleza”, na qual foi erguida a Escola Municipal Luiz Feitosa Rodrigues. Ainda que em ruínas, essa estratégica construção militar, destinada a proteger o rio, dispõe de muralhas, paredões, ameias e uma guarita inteira. Cada uma das partes retangulares são separadas por intervalos iguais e ao redor do pátio amurado foram erguidas inúmeras modestas habitações, que apinhadas umas às outras comprimiram as dependências do antigo forte. Segundo as declarações do Coronel Valdenir de Freitas Guimarães26, o forte Conde D’Eu “é um sítio histórico que está sendo quase tragado pelo avanço das fronteiras urbanas – é como se o fenômeno urbano, estivesse com os ‘pés’ no limiar das antigas muralhas, prestes a transpô-las para ocupar o recinto”. As dependências do sítio são envolvidas por espesso arvoredo, altas construções e caixas d’água sobrepostas ao muro que comprometem a paisagem do rio. O forte Duque de Caxias ganhou a nomenclatura referente ao comandante e chefe das forças aliadas. Segundo alguns cronistas da cidade, “há umas três décadas ainda podia se encontrar na ‘ponta do morro’ restos das fortificações”. Ali, conforme, ainda, as informações de Haroldo de Carvalho Netto, eram disparados os fogos em saudação às autoridades, pela sua situação próxima ao cais de desembarque. De acordo com as informações contidas na obra História de Corumbá, de autoria do coronel Lécio Gomes de Souza, já falecido, esse fortim localizava-se numa ponta do morro, cuja saliência avança para o rio, precisamente sobre o estaleiro Miguéis27. O forte Major Gama recorda o engenheiro militar Joaquim da Gama Lobo d’Eça, ou simplesmente major Gama, que, segundo as 26 Em visita ao Forte Junqueira – 5 de fevereiro de 1999 – o atual comandante do 17 º Batalhão de Fronteira Batalhão, Coronel Valdenir de Freitas Guimarães, que vem estudando as antigas fortificações de Corumbá, desde 1996, levou-nos ( eu e mais dois historiadores) às ruínas do sítio histórico conhecido como Forte Conde d’Eu. O coronel nos informou que redescobriu o forte, depois de 11 meses de busca. Segundo suas pesquisas o sítio só se manteve intacto graças à proteção da senhora Anair Gonçalves, moradora antiga que fez do espaço uma espécie de quintal, garantindo a posse do terreno. 27 Souza, Lécio Gomes de - História de Corumbá. s/e, s/d, p. 67. informações de Lécio Gomes de Sousa, “ficava em local fronteiro onde se encontra o quartel general da 2ª Brigada Mista, no fim da Avenida General Rondon”. Dele resta uma travessa de acesso ao forte, cuja nomenclatura, “Travessa do Acampamento”, lembra uma antiga área de assentamento de tropas militares. O 17º Bfron foi criado em 1842, a partir do corpo provisório de caçadores de Ouro Preto (MG). Durante a Guerra do Paraguai ocorreu a integração do Corpo Provisório de Minas Gerais com o de São Paulo (1865). Juntos foram responsáveis pelas operações do 21ºBatalhão de Caçadores. O corpo deste Batalhão conseguiu penetrar, no território paraguaio, através do rio Apa, em 21 de abril de 1867. Os principais feitos da tropa ocorreram nos combates de Laguna, Bela Vista e Machorra. Em 1870, no final da Guerra, o 21ºBC aportou na cidade de Corumbá com o objetivo de proteger o estuário do rio Paraguai até o Forte de Coimbra, onde se aquartelou, inicialmente na esquina das ruas Delamare e Ladário. Como procurei demonstrar, o rio Paraguai permaneceu como o núcleo irradiador constante de cada uma das distintas fases da Guerra Grande. A ambição dos paraguaios de dominar o rio não foi alcançada. Eles tentaram atravessar o Pantanal do alto Paraguai, mas nunca chegaram a alcançar Cuiabá, capital de Província. Entretanto, a invasão paraguaia evidenciou a fragilidade de uma nação desprovida de um aparato bélico capaz de garantir o domínio sobre parte de suas terras e de um rio em território nacional. Em 1870, o rio Paraguai permaneceu como o núcleo irradiador constante de cada uma das distintas fases da Guerra Grande. A ambição dos paraguaios de dominar o rio não foi alcançada. Eles tentaram atravessar o Pantanal do alto Paraguai, mas nunca chegaram a alcançar Cuiabá, capital de Província. Entretanto, a invasão paraguaia evidenciou a fragilidade de uma nação desprovida de um aparato bélico capaz de garantir o domínio sobre parte de suas terras e de um rio em território nacional. Terminado o conflito foi decidida a transferência dos estabelecimentos navais de Cuiabá para Ladário concretizada nos anos de 1873 e 1874. Criava-se, assim, o Arsenal da Marinha de Ladário, em 14 de março de 1873, e com ele uma base avançada às margens do rio Paraguai. O Arsenal abrigou a Escola de Aprendizes de Marinheiros e, também, as oficinas de habilitação técnica de serviços náuticos e fabricação de acessórios de transportes fluviais. Como corpo militar, a Marinha passou, também, a representar a defesa da nação brasileira numa área de "fronteira"- ou "sentinela avançada, audaz, solidária e atenta da soberania nacional no extremo do território brasileiro”28. 28 Comando do Sexto Distrito Naval -Aspectos Históricos e Geográficos do Sexto Distrito Naval de Ladário, Ladário, MS : Impressos avulsos, s/d.