UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA 4ª Semana do Servidor e 5ª Semana Acadêmica 2008 – UFU 30 anos RELATO DE EXPERIÊNCIA: A APLICAÇÃO DE UMA AULA DE CIÊNCIAS PRECEDENTE AO ESTÁGIO SUPERVISIONADO Amanda Ferreira Neves ¹ Instituto de Biologia/ UFU – Av. Pará, 1720 Bloco 2D, Campus Umuarama, Uberlândia/MG [email protected] Diego Patrick Cardoso Teod oro¹ Instituto de Biologia/ UFU [email protected] Iara Maria Mora Longhini ² Faculdade de Educação/ UFU – Av. João Naves de Ávila, 2121 Bloco 1G, Campus Santa Mônica, Uberlândia/MG [email protected] Resumo: O presente texto tem como objetivo o relato sobre uma aula aplicada à quarta série do Ensino Fundamental, proposta pela disciplina de Didática Geral. A proposta tinha como objetivo principal realizar uma aula para que assim pudéssemos entrar em contato com alunos no seu ambiente escolar, e assim nos familiarizarmos com a profissão de professor. Para a realização do proposto, foi elaborado um plano de aula com a temática "Fases do desenvolvimento dos seres humanos", caracterizando cada uma dessas fases (gestacional, infância, adolescência, adulta e senescência). O método utilizado foi através de uma aprendizagem divertida e para isso montou-se uma aula composta de uma apresentação oral rápida referente às fases da vida, um momento para que fossem confeccionados cartazes representando as fases, uma apresentação dos cartazes pelos alunos descrevendo o que aprenderam sobra cada uma das fases e uma discussão final em que os alunos pudessem tirar suas dúvidas e expor suas opiniões. Ao final da aula os alunos receberam uma pequena avaliação em forma de questionário para que pudessem expressar sua opinião sobre a aula dada e sobre o que aprenderam na mesma. Palavras-chave: Didática Geral, aprendizagem divertida, avaliação da aula, experiência com ensino, estágio pedagógico. 1. INTRODUÇÃO A disciplina de Didática Geral, cursada no 1º semestre letivo de 2008 (10/03 a 19/07), nos ofereceu a oportunidade de aplicar uma aula para alunos de Ensino Fundamental ou Médio dentro da sua própria escola. A proposta da disciplina previa a criação de um plano de aula e a aplicação desta em uma sala, uma atividade que aconteceu pela primeira vez durante a nossa graduação e que foi bem sucedida. Muitas vezes estagiários e até mesmo professores ficam submetidos às repreensões da própria escola, a qual pode impedir que estes criem situações mais eficientes de ensino. A escola passou a constituir um monopólio da ação educativa, desvalorizando outras formas de conhecimento, através do menosprezo pela experiência não-escolar dos alunos, incapacidade dos alunos em atribuir sentido às tarefas escolares e a tendência escolar em ensinar soluções subestimando a capacidade de pesquisa e descoberta do aluno (Canário, 2006). ¹ Acadêmicos do Curso Ciências Biológicas - ² Professora da Disciplina Didática Geral 1 O professor ou estagiário tem que ter a habilidade de relacionar o conteúdo com a vida diária do aluno e ainda com os conteúdos anteriormente explicados, através de revisões das aulas anteriores, precedendo a introdução do novo conteúdo, e utilizando dos conhecimentos prévios dos alunos. Além disso, a ilustração da aula através de exemplos e problemas, relacionando o conteúdo com o dia-a-dia dos alunos, faz com que esses prestem mais atenção nas aulas, entendam melhor as idéias e conseqüentemente aprendam mais (Carvalho, 1973). Em vista disso, em nosso trabalho, enfocamos principalmente a aplicação de uma aula diferente, com características que valorizem o conhecimento prévio dos alunos, que problematizem a temática da nossa aula, além de propor atividades divertidas e que mantenham os alunos focados no trabalho. Neste aspecto, um professor somente será bem sucedido quando tornar sua aula mais interessante, já que uma maneira de sucesso é desenvolver no aluno o gosto pela aprendizagem (Canário, 2006). Utilizamos o tema de “Fases do Desenvolvimento Humano” para que os alunos então pudessem entender melhor sobre as pessoas a sua volta em seu cotidiano, já que para Postman (1999), a idéia de infância está em declínio e paralelamente a esse processo, há também o adulto infantilizado, apresentando pouco compromisso com a educação dos filhos. Os limites que separam crianças e adultos estão desaparecendo, pois as diferenças entre essas duas categorias não são enfatizadas. Diante disso, vemos a grande importância de se discutir nas aulas as temáticas dos desenvolvimento psico-morfológico do homem, a fim de que esta realidade possa mudar. 2. MÉTODO PROPOSTO No dia 16 de Maio de 2008, foi aplicada uma aula para a disciplina de Ciências, na Escola de Educação Básica da UFU (ESEBA). A aula foi realizada no período da manhã e em três turmas de 4º ano do Ensino Fundamental. A mesma aula foi aplicada para as três turmas separadamente, com duração de uma hora/aula, no laboratório de Ciências da escola. O conteúdo abordado era Corpo Humano e a temática que utilizamos foi “As Fases do Desenvolvimento Humano”. O plano de aula foi montado de acordo com o ensinado na Disciplina de Didática Geral, seguindo as orientações da professora de Ciências Cláudia Gumerato e os livros didáticos utilizados para as aulas de Ciências (Fernandes de Carvalho et all, 2005; Fonseca et all, 2003; Gonçalves e Costa, 1999; Gonçalves e Costa, 2003). A professora nos instruiu sobre o conteúdo que os alunos estavam estudando para que, então, pudéssemos montar o plano da aula. Com o conteúdo definido, resolvemos, portanto, montar uma aula de recortes de revistas, com o tema Fases do Desenvolvimento Humano. Durante a aplicação da aula, nós entregamos um roteiro para que os alunos seguissem as atividades sem grandes dificuldades. Além disso, ao final deste havia um espaço para que os alunos registrassem o que aprenderam de mais importante naquela aula. Para isso, o roteiro entregue deveria sem colado no caderno e depois a professora o utilizaria como avaliação. Primeiramente, os alunos foram divididos em grupos de cinco integrantes. As atividades aplicadas durante a aula consistiram, inicialmente, na apresentação das fases do desenvolvimento humano aos alunos, através da projeção de slides e uma explicação sobre como seriam feitos os recortes. Posteriormente, os alunos montaram um painel expositivo a partir dos recortes em revistas que exemplificassem cada fase. Além das figuras, eles também acrescentariam as principais características e atividades de cada fase. Para finalizar, houve a apresentação dos painéis pelos grupos, seguida das discussões com a turma acerca das principais diferenças em cada fase. 2 3. RESULTADOS 3.1 Primeira Turma A primeira aula começou um pouco mais das 7h00, referente ao primeiro horário. Os alunos chegaram apreensivos, mas muito curiosos com a aula que teriam, uma vez que a professora responsável já havia comentado a respeito. Durante a primeira etapa da aula, os alunos se comportaram muito bem, prestando bastante atenção na apresentação das fases. Logo após, foram entregues as revistas e o roteiro e, então, começaram a confeccionar o painel. Neste instante da atividade, houve uma euforia momentânea da turma, a qual já estava prevista, até mesmo porque a atividade em questão poderia ter esse tipo de repercussão. Porém, não foi previsto que os alunos demorassem tanto na confecção dos painéis, o que atrasou toda a programação da aula. Para que eles pudessem apresentar os painéis e, portanto, continuar com a atividade, nós utilizamos 15 minutos do próximo horário, o qual foi negociado com a professora deste. Durante as apresentações, a maioria dos grupos dessa turma somente citou os exemplos de cada fase retratados nos recortes e não deixou muito claro as características de cada uma. Mesmo assim, as apresentações decorreram tranquilamente e eles completaram todo o cronograma sem nenhum problema aparente, com exceção do tempo de execução do painel. Além disso, no decorrer de toda a aula, os meninos demonstraram estar muito interessados, participando e comentando razoavelmente durante as discussões. Na saída, um deles chamou nossa atenção dizendo que gostou muito da aula e que ela foi muito boa. 3.2 Segunda Turma A segunda aula começou logo após o horário de recreio dos alunos, por volta das 9h05, referente ao terceiro horário. Os alunos chegaram bastante agitados e conversando muito, permanecendo assim a maioria do tempo. Somente em alguns momentos, como na apresentação dos slides e na explicação do roteiro, que eles se acalmaram um pouco. Apesar disso, essa turma se mostrou muito eficiente na montagem dos painéis e na apresentação. Ao final, as apresentações ocorreram tranquilamente e eles completaram todo o cronograma e no horário adequado. Ao contrário da primeira turma, os grupos dessa se organizaram rapidamente e apresentaram os painéis de maneira seqüencial, citando não só os exemplos de indivíduos de cada fase, mas também as características que os definem. Além disso, e apesar de toda a distração, os alunos demonstraram muito interesse no que estava acontecendo e participaram bastante durante toda a aula, respondendo avidamente às discussões abordadas ao final da aula. É interessante destacar que, nesta turma, havia uma aluna de Inclusão. A aluna sofreu má formação do sistema nervoso central, mas isso apenas afetaria na sua velocidade de assimilação dos acontecimentos, sendo esta mais lenta que o normal. A professora nos havia informado anteriormente sobre seu problema e que este não era prejudicial a ponto de atrapalhar seu rendimento escolar, nós apenas deveríamos orientá-la várias vezes e ajudá-la na execução. Ao final, observamos que ela participou ativamente na confecção do painel e ainda apresentou uma pequena parte. 3.3 Terceira Turma A terceira aula ocorreu por volta das 9h55, logo após a segunda, no quarto horário. Os alunos desta turma dispersaram o tempo todo e foram os mais lentos na confecção do painel. Durante a apresentação dos slides e a explicação do roteiro, os alunos não pararam de conversar e, em alguns momentos, a professora teve que intervir para chamar a atenção deles, pois nós dois já não conseguíamos mais. Com isso, grande parte do tempo da aula foi perdida e a atividade da turma ficou comprometida. 3 Durante a confecção dos painéis, haviam grupos desinteressados e outros que pareciam competir. Especificamente em um grupo, houve discussão entre os integrantes, os quais não estavam contentes em ter um aluno específico no seu grupo. A professora Cláudia nos informou também sobre este aluno, o qual não tem nenhum problema aparente, mas é excluído de toda a turma por suas brincadeiras desagradáveis. A construção dos painéis demandou bastante tempo e, juntamente com atraso devido à conversa, ao final tivemos que pedir 15 minutos para a professora da aula seguinte para finalizarmos as apresentações. Entretanto, nem mesmo com esse bônus a turma cooperou e, na hora das apresentações, os alunos foram interrompidos pela professora que, por motivo de conversa, cancelou as apresentações dos painéis. Durante essa última aula, nós dois não conseguimos controlar a turma várias vezes e houve a necessidade de intervenção da professora. Até mesmo no final, quando começariam as apresentações, nós conseguimos manter o interesse dos alunos por alguns instantes, porém não foi o suficiente, não havia mais tempo. Na saída, alguns alunos vieram conversar conosco, dizendo estarem muito chateados com a conversa da turma e que gostariam de mais uma chance para poderem apresentar seus trabalhos. 4. DISCUSSÃO Para avaliarmos as aulas aplicadas neste dia, nós fizemos um mini questionário que posteriormente foi entregue pela professora, para responderem em outra aula. Este questionário continha as seguintes perguntas: (1) O que você achou da aula? (2) O que você aprendeu nessa aula de mais importante? (3) Você gostaria que tivessem mais aulas de Ciências assim? Ao analisarmos os questionários, constatamos que apenas 38 dos 75 alunos entregaram o questionário, por motivos os quais desconhecemos. A seguir, a Figura 1 exemplifica duas avaliações recebidas. Figura 1: Duas das 38 avaliações entregues pelos alunos. 4 Para a primeira questão, 95% dos questionários entregues avaliaram a aula como “boa” (nível máximo estipulado) e 5% avaliaram como “mais ou menos” (nível médio estipulado). Dentro desses 95%, houve uma pessoa que criou um novo nível, o “ótimo”, e o assinalou também. Já a para a segunda questão, a maioria dos alunos, aproximadamente 60%, disse que a aula foi muito interessante nos aspectos de saber que existiam cinco fases da vida e de conhecer mais sobre cada uma delas. Alguns alunos, aproximadamente 10% dos questionários, disseram que foi importante aprender sobre o crescimento e o envelhecimento. O restante colocou que o mais importante foi aprender sobre a adolescência, a idade, a gestação e o bebê, a importância da vida das pessoas, o comportamento e os limites de cada fase e ter uma vida saudável para sobreviver a todas as fases. Houve ainda uma pessoa que confundiu o conteúdo, dizendo que os bebês saiam das células. Por último, na terceira questão, 100% dos questionários disseram querer mais aulas desse tipo, porque a acharam, nas suas palavras, “muito interessante”, “legal” e “divertida”. Inclusive, em um dos questionários, a pessoa citou que todas as aulas deveriam ser assim, porque a aula foi divertida e que gosta de aprender divertindo-se. 5. CONCLUSÃO Apesar de todas as dificuldades, previstas ou não, a nossa aula foi muito mais do que esperávamos. Para nós, que nunca havíamos dado uma aula e que não tínhamos conhecimento para lidar com crianças de 8 a 10 anos, a aula foi uma superação pessoal. Nosso medo inicial era, principalmente, em como adequar o que sabíamos para trazer aos alunos e, em parte, em como controlar estes em uma situação que exigisse. Percebemos que, às vezes, até mesmo o professor é inexperiente em alguns casos, como o da professora Cláudia que sempre lecionou no 8º ano e pela primeira vez, está lecionando para alunos de 4º ano do Ensino Fundamental. Muitas vezes, o professor aprende a lidar com os fatos somente no momento em que os presencia, assim como aconteceu conosco em nossa aula. Parte do que havíamos programado, no momento da aula, foi ignorado diante das circunstâncias, predominando o improviso. Além disso, a experiência que adquirimos foi incrível. Presenciamos a dificuldade que o professor tem em manter o interesse dos alunos e como o tempo é relevante e muito na programação da aula, assim como tem que ser bem redimensionado para cada atividade. Sendo assim, percebemos o quão é importante planejar uma aula, de maneira que ela tenha introdução, desenvolvimento e conclusão, aspectos estes necessários para uma aprendizagem de qualidade. Através disso, percebemos que o cumprimento do conteúdo assim como o tempo disponível são fatores de extrema preocupação durante as aulas. Muitas vezes, a passagem do conteúdo foi rápida e densa principalmente para justificar o tempo escasso. Entretanto, de acordo com Carvalho (1973), é importante que haja pausas e que o professor ou estagiário saibam dosá-las, já que a pausa também ensina. Por fim, acreditamos que todas as experiências descritas neste texto são subsídios para analisar criticamente e de forma contextualizada os processos educativos envolvidos na relação estagiário/professor e alunos. O estágio é uma maneira de desenvolver outras formas de Saber Docente na prática e é, através dessa observação e análise, que constatamos o contexto ao qual todos nós estaremos inseridos durante as práticas de docência nos estágios supervisionados. No entanto, somente teremos a prática adequada de educar quando nós exercermos a profissão, já que a educação, os educadores e os alunos estão além das teorizações que nós fazemos sobre eles (Mrech, 1999). 5 6. AGRADECIMENTOS Os sinceros agradecimentos à Profª. Ms. Cláudia Regina Montes Gumerato Fernandes por nos ceder alguns livros didáticos que abordavam o tema da aula, os quais foram bastante utilizados para a construção do planejamento; por nos orientar e ajudar com a aplicação da aula; por nos ceder espaço em suas aulas para efetuarmos as atividades; e ainda por colaborar com os questionários de avaliação da aula. Agradecemos também aos vários colegas do Curso Ciências Biológicas que nos doaram várias revistas para as atividades da aula. 7. REFERÊNCIAS Canário, R.A, 2006, “A escola tem futuro?”, Editora Artmed, Porto Alegre. Carvalho, A.M.P., 1973, “Prática de Ensino: Os Estágios na Formação do Professor”, Pioneira, São Paulo. Fernandes de Carvalho, A., Sampaio, F.A., Engelstein, M., 2005, “Ciências, Ponto de Partida”, 4ª série, 1ª ed., Editora Sarandi, São Paulo. Fonseca, M.S., Andrade, M.H.P., Morais, Marta B. e Morais, Maurício B., 2003, “Conhecer e Gostar, Ciências Para Você”, Vol. 4, Editora Dimensão, Belo Horizonte, 2003. Gonçalves, I. e Costa, F., 1999, “Espaço Ciências”, Vol. 4, 2ª ed., Editora Dimensão, Belo Horizonte. Gonçalves, I. e Costa, F., 2003, “Ciências Passo a Passo”, Vol. 4, Editora Dimensão, Belo Horizonte. Mrech, L.M., 1999, “Psicanálise E Educação: Novos Operadores De Leitura”, Pioneira, São Paulo. Postman, N., 1999, “O desaparecimento da infância”, Graphia, Riode Janeiro. 6