Quando remamos juntos o Horizonte fica mais perto 10 opinião A única história que faz o milagre acontecer PE. PAULO SIMÕES “Quando celebramos o Natal, qual é a história que contamos?” A cada ano que passa, a quadra do Natal teima em resistir, deixando na vida das pessoas e da sociedade uma terna impressão de algo que permanece além do transitório, e que esse algo vale a pena ser recordado (etimologicamente, trazido de novo ao coração) e celebrado. Mas, de onde nasce esta corrente natalícia, em parte efectivamente de ternura e solidariedade? Ano após ano, é constante o risco de desviar esta corrente, desvirtuando o seu sentido, turvando a beleza das suas águas límpidas e puras, até porque já não se conhece a fonte de onde vem, até porque os campos que costumava fertilizar estão já inundados por inúmeras outras correntes. Elie Wiesel, judeu perseguido e sobrevivente de Auschwitz, Nobel da Paz em 1986, na sua obra As Portas da Floresta, ajuda-nos a compreender o sentido dessa corrente. Conta que quando o grande Rabbi Israel Baal Shem-Tov via a desgraça a ameaçar os judeus, costumava dirigir-se a um determinado lugar na floresta para meditar. Quando lá chegava, acendia uma luz e dizia uma oração apropriada; o milagre realizavase e a desgraça afastava-se. Mais tarde, quando a desgraça voltava a ameaçar, o seu célebre discípulo, Magid de Mezeritch, dirigia-se para o mesmo lugar, na floresta, e dizia: «Senhor do universo, escuta! Não sei acender a luz, mas ainda sou capaz de dizer a oração». E o milagre realizava-se outra vez. Mais tarde ainda, Rabbi Moshe-Leib de Sassov, para salvar uma vez mais o seu povo, dirigia-se para a floresta e dizia: «Não sei acender a luz, não sei a oração, mas sei o lugar e isto será suficiente». Era suficiente, e o milagre voltava a realizarse. Aconteceu depois vir a desgraça sobre Rabbi Israel de Rizhin. Este sentou-se na sua cadeira de braços, pôs a cabeça entre as mãos, e falou a Deus: «Já nem sequer sei encontrar o lugar na floresta. Tudo o que posso fazer é contar a história, e isto deve ser suficiente». E era suficiente.” Bastava contar a história que, só por esse acto, o milagre acontecia. Quando celebramos o Natal, qual é a história que contamos? Ou será que já deixámos de acreditar que as histórias têm esta capacidade de conduzir ao âmago da vida, de nos transportar inesperadamente para essa dimensão outra onde nos encontramos e reconciliamos com aquilo que realmente somos? O nosso Natal precisa de ser narrado. Para além do brilho das luzes e dos presentes que carregamos numa braçada tão alta que nos impede de ver o outro que está à nossa frente e nos faz tropeçar nos passeios da cidade, para além dos embrulhos e dos lacinhos, belos que sejam, há dentro escondido algo único e essencial que precisa de ser descrito. Sempre foi assim. Já em Belém naquela noite, noite igual a tantas noites, foi preciso caminhar, das pastagens ou do oriente, abrindo os olhos e o coração, para encontrar esse Alguém que fazia única aquela noite. Assim narram Lucas e Mateus. Possivelmente não sabemos já acender a luz e dizer a oração. Poderemos até nem já saber como chegar aos lugares dessa luz e dessa oração. Mas ao nosso alcance está a possibilidade de contar às nossas crianças a verdadeira história do Natal, aquela única história que faz o milagre acontecer, para além dos pais-natal e da neve artificial, porque aí a história é outra. Deus infinito, que os céus não podem conter, quis nascer pequenino e frágil. O Deus eterno nasce na candura de uma criança e nos breves dias de uma vida mortal. Não se vale da sua riqueza mas nasce pobre no presépio para que cada ser que criou e que o busca no barulho ou no silêncio para o alcançar, perceba que afinal o céu já veio ao seu encontro em Belém. Mistério único celebrado pelos cristãos: não é preciso ir muito longe para encontrar Deus! Desde esse Natal, o caminho para Deus é simplesmente o caminho ao encontro daquilo que a humanidade tem de mais autêntico e mais profundo. Deus nos ajude a viver e construir sempre a igualdade e a solidariedade, a partir de um verdadeiro espírito de pobreza, à imagem do Menino-Deus, para que todos – a começar por todas as crianças – possam experimentar a beleza e a importância do milagre do Natal. PUB