TEMPESTADE MODERNISTA
CAMELO, Marina Araújo1
FARIAS, Elinez dos Santos
KLIEMANN, Edmar
MILANI, Cristina Walkowicz
SIBIN, Elisabete Arcalá (Orientadora)
Resumo: Esse artigo tem a finalidade de demonstrar uma interpretação a cerca do poema Soidão
de Oswald de Andrade, trazendo uma visão geral dos conflitos entre inovação e tradição gerados
pela Semana da Arte Moderna de 1922 juntamente com o contexto biográfico do respectivo autor.
É explícito também que o poema, através dos níveis gráficos, fônicos, lexicais, sintáticos e
semânticos, passa uma maior percepção de construção de sentido para o leitor, proporcionando
mais ferramentas para a formulação de uma interpretação.
Abstract: This article has the objective of demonstrating a comprehension of the poem "Soidão"
by Oswald de Andrade by bringing a general view of the conflicts between the innovation and
tradition generated by the Semana de Arte Moderna of 1922, all together with the respective
author’s biography. It's clear, as well, that the poem, throughout its phonetic, lexical, syntax,
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Acadêmicos do 1º ano do Curso de Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE.
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semantic and graphic levels, allows the reader to have a bigger perception when building a
significant meaning from it, giving him/her more tools to formulate his/her understanding.
Palavras-chaves: Oswald de Andrade; modernismo; estética.
Key-words: Oswald de Andrade; modernism; esthetics.
Apesar de todo o desastre que a segunda guerra proporcionou, ela trouxe avanços
tecnológicos que se popularizaram, transformando significamente a vida das pessoas, criando e
controlando a rotina dessas, fazendo da agitação urbana um modelo de vida. O modernismo
surgiu a partir desse contexto histórico, tendo como intuito fugir das regras; e através das
influências das ideologias da época, características como dadaísmo, surrealismo, cubismo
começaram a fazer parte dessa arte que estava destruindo conceitos arcaicos com sua “tempestade
artística”.
Foi exatamente nessa época e nesse contexto que vive um dos maiores poetas do
modernismo brasileiro: Oswald de Andrade. Nasce em 1890 na cidade de São Paulo, o berço do
modernismo e falece no dia 22, com 64 anos, muito antes do que pretendia: queria viver até os
83. Filho de pai descendente de mineiros e mãe de paranaenses, veio de uma família muito rica e
cresceu gordo, tímido e dependente.
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Por volta de 1904, Oswald matricula-se no Colégio São Bento, onde, mais seguro de si,
começa a ensaiar sua carreira literária. Já mostrava nessa época seu estilo sarcástico quando
constantemente fazia piadinhas com os professores em sala de aula.
Um pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, Oswald viaja para a Europa
com total patrocínio de seus pais que lhe recomendam para não poupar dinheiro, onde encontra
um lugar adequado para seu estilo de ser. Lá ele assiste a manifestações de operários e, em Paris,
conhece o manifesto futurista de Fillipo Marinetti. Quando volta para o Brasil já não era mais o
mesmo e traz consigo sua primeira mulher, uma francesa.
Talvez pareçam um tanto estranhos os acontecimentos na vida de Oswald que
influenciaram sua “tempestade artística”. Almoços em homenagem ao mais influente poeta da
tríade parnasiana, Olavo Bilac; uma conturbada relação com seu amigo Mário de Andrade, que o
conheceram trabalhando como repórter para o Jornal do Comércio, e denomina este como Meu
Poeta Futurista, certa vez em um polêmico artigo; integra-se ao Partido Comunista com uma obra
a rigor: Manifesto Ordem e Progresso. Já foi preso, tido como subversivo em movimentos
comunistas, e obviamente participa da Semana de Arte Moderna, em 1922, juntamente com
outros grandes artistas, como sua ex-esposa, Tarsila do Amaral.
O profundo conhecimento da estética parnasiana o possibilitou criticá-la com mais
afinco, e a partir de então desenvolver toda uma idéia de abstração à rotina da estética. Essa
abstração, talvez ocorreu de forma um tanto excessiva, possíveis motivos de alguns
desentendimentos teóricos com Mário de Andrade. Observando-se, porém, toda a estrutura
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ideológica da época, o pilar ideológico do Brasil concentrava-se excessivamente à
superficialidade estética, portanto, nada melhor que uma investida abstrativa excessivamente
vigorosa.
Ele foi, certamente, um dos mais radicais em relação à estética, no momento em que
ignora completamente a forma do poema, havendo até uma possível preocupação inconsciente em
não atribuí-lo uma forma. Como se não bastasse, ainda há um forte traço metapoético em seus
temas. O detalhe é que essa metapoesia ocorre de uma maneira a criticar o esteticismo poético,
tratando-se de uma forma não muito amistosa, e também, dessa forma, aqueles que o utilizam,
como um colega de Oswald, Mário de Andrade.
Para exemplificar essa metapoesia oswaldiana, toma-se como objeto de análise o seu
poema “Soidão”. Já no seu título, o poeta atribui uma crítica ao tradicional e copioso
parnasianismo, quando utiliza a expressão arcaica “soidão”, e também sugere uma auto –
consideração do eu – lírico em estar sozinho dentro da revolução modernista.
Para ilustrar esses novos ares impostos pelo modernismo radical, o poeta se vê livre de
qualquer regra que anteriormente eram obrigatórias para a produção de uma boa poesia, como nos
sonetos decassílabos do renomado Camões, em que recursos gráficos e fônicos eram
imprescindíveis e muito utilizados.
Ocorre uma majoritária predominância de verbos e substantivos no poema, denunciando
a idéia de que o acontecimento da desvalorização da estética ainda está em andamento, não se
concretizou ainda; é uma ação que ainda ocorre.
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Além do caso do emprego majoritário de verbos e o arcaísmo do título, há a presença de
neologismos: “Chove chuva choverando”; o termo “choverando” é utilizado para criar um maior
efeito de sentido no leitor, em que, de certa forma, sente a chuva. Não é, porém, o neologismo,
em seu sentido propriamente dito, que cria esse fato,mas sim auxilia a formação de uma
sinonímia, uma derivação e uma aliteração; estes sim constroem aquele sentido.Outro: “A
magnólia abre o abre o pára – chuva / Pára – sol da cidade / De Mário de Andrade” ; neologismos
puros que denunciam a aversão do eu – lírico à estética, especialmente a Mário de Andrade, o
poeta considerado como “O esteta”. O “Pára – sol da cidade / De Mário de Andrade” seria como
uma forma que este último tentava, sem sucesso, se proteger da poesia “sem estética” modernista,
mesmo sendo ele um modernista.
Sintaticamente: “Chove chuva choverando”, uma sinonímia e derivação, utilizados,
como já foi dito, para criar um efeito mais real de “sentir a chuva”, podendo ser considerado
também como uma aliteração. As estrofes 1, 3 e 5 constroem um paralelismo, com o simples
objetivo de enfatizar a idéia da sinonímia e derivação. A zeugma “Que dorme numa cadeira”, ao
omitir o vocábulo “inglês” coloca uma maior importância ao sono profundo da estética, incapaz
de acordar diante das mudanças. Uma estética que ainda é velha e lépida, como coloca a apóstrofe
e comparação “Como esse velho inglês”. Há também uma ausência e predominância de
conjunções no decorrer do poema, respectivamente “Anoitece sobre os jardins / Jardim da luz /
Jardim da Praça da República / Jardim das platibandas” “Noite / Noite de hotel / Chove chuva
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choverando” e “Que eu não fique nunca.../ Que dorme numa cadeira... / Que o jardim de meu
bem... / Que a casa de meu bem...”.
O nível semântico é o mais constantemente trabalhado, uma vez que pode repudiar
ainda mais a estética na atribuição dos sentidos. O uso da anadiplase “A chuva cai / Cai de
bruços” bem como “Noite / Noite de hotel” contribuem para enfatizar a idéia de que a renovação
da estética – a chuva – se espalha, “cai” pelo mundo, criando uma espécie de depressão, tempos
escuros, a “noite” para os estetas. Isso da mesma forma que a diácope “ Jardim da Luz / Jardim da
Praça da República / Jardins das platibandas”aumenta o raio que essa “noite” alcança. A antítese
“Anoitece...” e “...luz” apenas trata-se daquela mesma idéia de conflito.
Finalmente as metáforas, aqui o elemento de maior importância, utilizado no poema
todo. “Chove chuva choverando / Que a cidade de meu bem / Está – se toda se lavando” ; a
chuva, que seria a nova forma “modernista” de escrever, “lava” a cidade de toda a pragmatização
da poesia estética. A estrofe “Senhor / Que eu não fique nunca / Como esse velho inglês / Aí do
lado / Que dorme nunca cadeira / À espera de visitas que não vêm” coloca novamente a velha
forma de escrever como precária e atrasada, no momento em que a compara com o “velho
inglês”; essa comparação ocorre em razão da imagem que geralmente se têm dos ingleses, um
povo de tradição eterna e imutável. O que acontece é que essa tradição, segundo o eu – lírico,
dormiria a espera de algo,d e visitas, ou seja, eternamente estagnada, abandonada e sozinha.
“Chove chuva choverando / Que o jardim de meu bem / Está-se todo se enfeitando / A chuva cai /
Cai de bruços” novamente rege a mesma idéia, com o acréscimo de que a chuva faz nascer flores,
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enfeitando o jardim, ou seja, de que a nova maneira de fazer poesia torna – a mais bela e profunda
– como os jardins mais pomposos. “A magnólia abre o pára – chuva / Pára – sol da cidade / De
Mário de Andrade / A chuva cai / Escorre as goteiras de domingo”: um guarda – chuva se protege
da chuva; os estetas se protegem do ataque à estética; esta que se propaga lentamente e
calmamente sobre a literatura, da mesma forma que uma goteira molha lentamente uma casa em
uma calma tarde de domingo. “Anoitece sobre os jardins / Jardim da Luz / Jardim da Praça da
República / Jardins das Platibandas”; um jardim, um lugar belo, maravilhoso e por todos adorado,
especialmente àqueles que mantém a beleza superficial como padrão de vida; os adoradores da
estética! É sobre esses jardins (todos os citados nos versos pertencem à cidade de São Paulo, o
berço do modernismo) que cai a escuridão, a noite modernista, que impossibilita àqueles
adoradores de admirarem os jardins – a beleza externa dos poemas! – uma vez que não é possível,
obviamente, enxergar no escuro. “Noite / Noite de hotel / Chove chuva choverando” : o
esteticismo transforma-se em um hóspede do hotel modernista, que espera a chuva vagarosa
cessar para ir embora. É estranho, mas a lembrança desse hóspede ficará eternamente em todas as
casas e hotéis do mundo; uma alma que assombra a arte; nem sempre, porém, as assombrações
são totalmente negativas. É necessário conhecer a assombração, tornar-se sua amiga para depois
expulsá-la.
Bibliografia
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ANDRADE, Oswald de. Um homem sem profissão. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio
Editora, 1954.
CAMPOS, Haroldo. Poesias reunidas de Oswald de Andrade. São Paulo: Impresa Gráfica das
“Revistas dos Tribunais”, 1945.
<www.releituras.com/oandrade_bio.asp>; acesso em 01/07/2005.
Anexo
Soidão
Chove chuva choverando
Que a cidade de meu bem
Está-se toda se lavando
Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
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Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm
Chove chuva choverando
Que o jardim de meu bem
Está-se todo se enfeitando
A chuva cai
Cai de bruços
A magnólia abre o pára-chuva
Pára-sol da cidade
De Mário de Andrade
A chuva cai
Escorre das goteiras do domingo
Chove chuva choverando
Que a casa de meu bem
Está-se toda se molhando
Anoitece sobre os jardiuns
Jardim da Luz
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Jardim da Praça da República
Jardins das platibandas
Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando
(Oswald de Andrade)
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