EFEITOS DA PRECIPITAÇÃO PLUVIOMÉTRICA, TEMPERATURA E UMIDADE
RELATIVA DO AR, NOS CASOS DE GRIPE, NO ANO DE 2002 EM MACEIÓ, AL.
Thalyta Soares dos SANTOS 1 , Allan Rodrigues SILVA 2 , Deydila Michele Bonfim SANTOS 3 , José
Clênio Ferreira de OLIVEIRA 4 , Jairo Calado CAVALCANTE 5 , Edson Leite RIBEIRO 6
RESUMO
A interferência da atmosfera na saúde humana é cientificamente comprovada através da literatura
da Biometeorologia Humana. O presente trabalho tem como objetivo principal analisar os efeitos da
precipitação pluviométrica, temperatura e umidade relativa do ar, nos casos de gripe ocorridos
durante o ano de 2002, na cidade de Maceió, Estado de Alagoas.Através de análise estatística,
cálculo de coeficientes de correlação e determinação, estabelecidos entre as variáveis
meteorológicas investigadas e o número de casos de gripe, encontrou-se uma relação inversa entre a
temperatura e esta enfermidade. Os resultados apontaram maior correlação com a temperatura
mínima, conforme estabelece a literatura.
ABSTRACT
The interference of the atmosphere in the human health proved through the literature of the Human
Biometeorology. The present work has as main objective to analyze the effects of the precipitation,
temperature and relative humidity of air, in the cases of grippe during the year of 2002 in the city of
Maceió, State of Alagoas. Through of statistics analysis, calculation of correlation coefficients and
determination, established between the meteorological variable investigated and the number of
grippe cases, an inverse relation between the temperature and this disease met. The results had
pointed greater correlation with the minimum temperature, as it establishes literature.
Palavras Chave: Variáveis Meteorológicas, Saúde Humana.
INTRODUÇÃO
Pesquisadores da Biometeorologia Humana têm descrito vários fatores que comprovam a
ação da atmosfera sobre a saúde humana. Conforme TROMP (1980), uma atmosfera com baixos
1
Aluna do curso de Graduação em Meteorologia do Instituto de Ciências Atmosféricas-ICAT, da Universidade Federal
de Alagoas-UFAL, e-mai: [email protected]
2
Aluno do curso de Graduação em Meteorologia do Instituto de Ciências Atmosféricas-ICAT, da Universidade Federal
de Alagoas-UFAL, e-mai: [email protected]
3
Aluna do curso de Graduação em Meteorologia do Instituto de Ciências Atmosféricas-ICAT, da Universidade Federal
de Alagoas-UFAL, e-mai: [email protected]
4
Prof. Ms. do Instituto de Ciências Atmosféricas-ICA, da Universidade Federal de Alagoas-UFAL, e-mail:
[email protected]
5
Prof.Ms.da Faculdade de Medicina-FAMED da Universidade Federal de Alagoas-UFAL, e-mail:
[email protected]
6
Prof. Dr. do Depto. de Arquitetura e do PRODEMA da Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, e-mail:
[email protected]
valores de umidade relativa do ar e velocidade do vento é um ambiente propício para o
desenvolvimento do vírus Influenza (vírus da gripe).Este autor, entre outras citações afirma que o
corpo humano possui órgãos ou centros registradores de estímulos meteorológicos que podem
iniciar um processo de enfermidade, agravar doenças pré-existentes ou até levar pessoas a óbito,
conforme a intensidades destes estímulos. Em outro trecho de sua obra, classifica a gripe como uma
doença de inverno. Esta classificação é confirmada pela literatura da medicina, em SOUNIS (1985),
quando o autor afirma que a virose Influenza, doença de distribuição mundial, tem marcada
preferência para os meses mais frios do inverno.
O presente trabalho tem a finalidade de estabelecer a magnitude da correlação estatística
entre a precipitação pluviométrica, temperatura e umidade relativa do ar e o número de casos de
gripe ocorridos em Maceió,AL, registrados pelo Sistema de Informações Ambulatorial-SIA, da
Secretaria Municipal de Saúde desta cidade, identificando a variável que possui efeito
meteorotrópico mais intenso sobre esta enfermidade.
METODOLOGIA
Os dados das variáveis meteorológicas ocorridos durante o ano de 2002 na cidade de
Maceió, AL, foram fornecidos pela Estação Climatológica do Aeroporto Zumbi dos Palmares
(ECAZP), pertencente ao Ministério da Aeronáutica, os quais constaram de: precipitação
atmosférica (total e máxima); umidade relativa do ar (máxima, mínima e média); e temperatura do
ar (máxima, mínima e média). A estação supracitada, localizada-se no município de Rio Largo,
Alagoas, numa distância de aproximadamente 23 km do centro da cidade de Maceió, cuja posição
geográfica é identificada por 09° 31” de latitude Sul (S), 35° 47’ de longitude Oeste (W) e à 117
metros de altitude, nível que corresponde aproximadamente a parte alta da cidade.
Estudo da relação entre variáveis meteorológicas e o número de casos de gripe
As informações relativas ao presente item foram fornecidas através do Sistema de
Informações Ambulatorial-SIA, da Secretaria Municipal de Saúde da cidade de Maceió, AL,
coletadas por diversos ambulatórios localizados na região urbana da cidade, durante o ano de 2002.
Em virtude de se buscar resultados mais consistentes na análise estatística, os dados dos
casos de gripe por vírus influenza foram somados aos dados dos casos de gripe por vírus não
identificado. Em seguida foram elaborados perfis que sugerem uma relação entre o número de casos
de gripe e cada variável meteorológica investigada, então se calculou os coeficientes de correlação
(r, de Pearson) e determinação (r2), através da equação 1 abaixo, elaborando-se um perfil em barras
(Gráfico 3) que visualiza a magnitude da correlação estatística estabelecida.
Conforme a metodologia utilizada por OLIVEIRA (2004), na presente pesquisa,
tomou-se como variável independente (x), os dados de precipitação pluviométrica (total e máxima),
umidade relativa e temperatura do ar (máximas, mínimas, e médias), e como variável dependente
(y). Para uma melhor análise, utilizou-se r2, que é o coeficiente de determinação. Para avaliar e
determinar a magnitude da correlação entre variáveis meteorológicas e os dados do SIA, utilizou-se,
no quadro 1 abaixo, apresentado por CAVALCANTE (2003), apenas a classificação referente a
coluna de r2.
r=
(
n∑ xy − (∑ x )(∑ y )
)
n ∑ x − (∑ x )
2
2
(
)
n ∑ y − (∑ y )
2
(Equação 1)
2
O referido autor define cada elemento desta equação como:
r, representa o coeficiente de correlação linear para uma amostra;
n , representa o número de pares de dados presentes;
∑, denota a adição dos itens indicados;
∑x, denota a soma de todos os valores de x;
∑x2, indica que devemos elevar ao quadrado cada valor de x, e somar os resultados;
(∑x)2, indica que devemos somar os valores de x , e elevar o total ao quadrado;
∑xy, indica que devemos multiplicar cada valor de x pelo correspondente valor de y, e somar todos esses
produtos.
Quadro 1 - Classificação dos valores das correlações
R
0
0,00 ------| 0,30
0,30 ------| 0,60
0,60 ------| 0,90
0,90 ------| 0,99
1
r2
0
0,00 ------| 0,09
0,09 ------| 0,36
0,36 ------| 0,81
0,81 ------| 0,99
1
Classificação
Nula
Fraca
Média
Forte
Fortíssima
Perfeita
Fonte: Cavalcante, J. C., 2003
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Através do Gráfico 1 e 3 abaixo, pode-se perceber claramente a associação entre o número
máximo de casos de gripe e o mês com temperatura mais baixa do ano de 2002 (20,4 ºC) que
ocorreu no mês de agosto (Tabela 2). No mês de janeiro (com temperatura elevada), ocorre o
número mínimo de casos desta enfermidade. O maior valor do coeficiente de determinação
(r2=0,30) foi encontrado com a temperatura mínima, indicando ser esta variável a mais significativa
para os estímulos meteorotrópicos.
Entre as três umidades investigadas, a umidade média parece ser aquela com maior
influência sobre os casos de gripe (Gráfico 2 e 3) ocorridos em Maceió, AL. Os valores dos
coeficientes de determinação ( r2 = 0,14 para a umidade média e r2 = 0,13 para a umidade mínima)
confirmaram correlações médias para esta variável, no entanto a umidade máxima apresentou
correlação fraca (r2 = 0,08).
As precipitações total e máxima apresentaram correlações fracas.
Temperatura Máxima
Temperatura Média
Número de
Casos de
Gripe
1000
40
30
20
10
0
500
0
Temperaturas
Gripe
Temperatura Mínima
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
Meses do ano de 2002
Gráfico 1 – Relação entre o número de casos de gripe (eixo vertical esquerdo) ocorridos em Maceió
AL, durante o ano de 2002 (eixo horizontal) e as temperaturas máxima, mínima e média (eixo
vertical direito).
Umidade Máxima
Umidade Média
120
100
80
60
40
20
0
1000
800
600
400
200
0
jan
fev mar abr mai jun
jul
ago set
Umidade
Número de
Casos de Gripe
Gripe
Umidade Mínima
out nov dez
Meses do ano de 2002
Gráfico 2 – Relação entre o número de casos de gripe (eixo vertical esquerdo) ocorridos em Maceió
AL, durante o ano de 2002 (eixo horizontal) e as umidades máxima, mínima e média (eixo vertical
direito).
Temperatura Mínima
Umidade Média
Precipitação
Coeficiente de
Determinação
1,00
0,80
0,60
0,40
0,20
0,30
0,14
0,04
0,00
Gripe
Gráfico 3 – Maiores valores dos coeficientes de determinação encontrados entre as temperaturas e
umidades (máxima, média, e mínima), precipitação (máxima e total) e o número de casos de gripe
ocorridos em Maceió, AL, durante o ano de 2002.
Tabela 1- Valores dos coeficientes de correlação (R) e determinação (r2), encontrados entre as
Temperaturas e Umidades (Máxima, média, e mínima), precipitação total e o número de casos de
gripe ocorridos em Maceió,AL, durante o ano de 2002.
Variáveis Meteorológicas
Temperatura Máxima
Temperatura Mínima
Temperatura Média
Umidade Máxima
Umidade Mínima
Umidade Média
Precipitação Total
Coeficiente de Correlação de
Pearson (R)
-0,49
-0,55
-0,54
0,29
0,37
0,38
0,19
Coeficiente de Determinação
(r2)
0,24
0,30
0,29
0,08
0,13
0,14
0,04
Tabela 2- Dados mensais de temperatura do ar, umidade Relativa do ar (Máximas, Mínimas
e Médias), e Precipitação (Total e Máxima) em 2002, Maceió, AL.
MES
Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
TEMPERATURA
Máxima Mínima
Média
29,9
23,3
26,0
31,1
23,6
26,8
30,6
23,6
26,6
30,0
23,2
26,1
28,8
22,7
25,3
27,3
21,5
23,9
27,8
21,0
24,0
27,5
20,4
23,5
29,2
20,6
24,5
30,2
22,2
25,8
31,3
22,9
26,6
32,6
23,9
27,7
UMIDADE RELATIVA
Máxima Mínima
Média
97,1
69,8
87,8
97,0
64,5
84,4
97,0
67,1
86,4
97,0
69,2
88,1
97,1
77,0
91,1
97,6
78,8
92,4
97,8
74,9
91,1
97,4
72,6
90,2
97,3
66,0
87,7
96,9
60,7
83,5
96,8
60,9
83,6
95,8
57,7
80,9
PRECIPITAÇÃO
Total
Máxima
188,8
13,4
57,0
5,9
125,7
11,4
101,3
5,5
290,1
20,8
398,2
22,2
94,5
9,5
130,9
5,7
52,8
7,6
23,7
3,5
22,4
4,1
5,6
4,7
Fonte: Oliveira, 2005
CONCLUSÕES
Dentre as variáveis meteorológicas investigadas nesta pesquisa, a temperatura mínima –
que apresentou o maior coeficiente de correlação de Pearson (R=-0,55) e um coeficiente de
determinação (r2=0,30) relativo à correlação média – se destaca como aquela que possui maior
efeito sobre os estímulos meteorotrópicos produzidos sobre os casos de gripe durante o ano de 2002
em Maceió,AL, em pacientes com todas as idades. A relação inversa entre a temperatura e a gripe
ocorrida em Maceió, AL, é comprovada pelo valor negativo da correlação de Pearson e confirmada
pela literatura da Biometeorologia Humana (TROMP,1980), pois este autor afirma que é nas
condições atmosféricas de baixas umidade e velocidade do vento que o vírus influenza mais se
desenvolve. Desta forma, resultados de pesquisas têm apontado os meses mais frios do ano com o
número máximo de casos de gripe em várias partes do mundo, o que não contradiz a afirmação
deste autor, pois a queda da temperatura geralmente reduz a umidade. Todavia, esta relação inversa
com a temperatura parece estar profundamente ligada ao movimento de pessoas durante o inverno
nas regiões fora dos trópicos e durante os meses chuvosos e mais frios em regiões tropicais. Como
nos trópicos as menores temperaturas podem ocorrer com umidades elevadas devido as chuvas, o
movimento da população urbana favorece concentrações em ambientes com ar condicionado e em
ambientes fechados onde ocorre redução de umidade e ventilação favorecendo significativamente a
transmissão do vírus da gripe e de outros vírus não identificados, embora no ambiente externo, a
umidade e o vento estejam mais elevados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERNARDO, S. de O. Clima e suas anomalias para a cidade de Maceió. Trabalho apresentado ao
Departamento de Física da Universidade Federal de Alagoas, como requisito à obtenção do grau
delicenciado em Física. Maceió, 1999, p. 32-67.
CAVALCANTE, J. C. Mortalidade em menores de um ano: utilização de novos indicadores para
avaliação. Dissertação de mestrado em Saúde da criança, Centro de Ciências da Saúde.
Departamento de Tocoginecologia. Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2003.
OLIVEIRA, J. C. F. de. Efeitos diretos e indiretos de variáveis meteorológicas na saúde e qualidade
devida da população urbana da cidade de Maceió, AL. Dissertação de mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente-PRODEMA da
UniversidadeFederal da Paraíba- UFPB, para obtenção do grau de mestre. João Pessoa, PB,
2004.
OLIVEIRA, J.C.F. de. Biometeorologia: estudo de casos em Maceió, Alagoas: efeitos de elementos
meteorológicos na qualidade de vida urbana e na saúde humana. Fundação Manoel Lisboa e
Secretaria de Planejamento do Estado de Alagoas, 2005, 145 p.
SOUNIS, E. Epidemiologia aplicada. Livraria Atheneu. Rio de Janeiro. 1985
TROMP, S. W. Biometeorology - the impact of the weather and climate on Human and their
environment (animals and plants). Editor L.C. Thomas, Heyden & Son Ltd. 1980.
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