CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE SERVIÇO SOCIAL ISALENNY GONÇALVES DA SILVA CENTRO DE REFERÊNCIA FRANCISCA CLOTILDE: UMA ANÁLISE DA IMPLANTAÇÃO DO SERVIÇO DE ATENÇÃO ÀS MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA EM FORTALEZA FORTALEZA 2014 ISALENNY GONÇALVES DA SILVA CENTRO DE REFERÊNCIA FRANCISCA CLOTILDE: UMA ANÁLISE DA IMPLANTAÇÃO DO SERVIÇO DE ATENÇÃO ÀS MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA EM FORTALEZA Monografia apresentada ao Curso de Serviço Social do Centro de Ensino Superior do Ceará Faculdade Cearense (FaC), como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social. Orientadora: Prof.ª Ms. Tatiana Raulino de Sousa. FORTALEZA 2014 AGRADECIMENTOS Primeiramente, gostaria de agradecer a Deus por mais essa conquista. Independente de religião, precisamos de um amparo espiritual, que faz a diferença em qualquer caminhada. À minha querida família, por ser enorme, não citarei nomes de todos/as, mas fica registrado o meu agradecimento de forma geral aos meus avós, tias, tios, primas, primos. À minha mãe, Lucimar Gonçalves, por ser essa mulher guerreira, batalhadora e trabalhadora, por me colocar no mundo e ter me presenteado com uma segunda família da qual eu tenho orgulho de fazer parte. Ao meu pai, Antonio de Jesus (Duca), minha outra mãe, Zilmar, meus irmãos Nailson (Zinho) e Narlan (Narlinha) e minhas irmãs Nailanny (Laninha) e Nágila (Naginha). Vocês são meus tesouros. Ao meu padastro, Tarcísio de Carvalho, pois, em meio aos estresses do cotidiano, sempre tivemos uma boa convivência e trocamos várias ideias sobre diversos assuntos e também sobre o curso de Serviço Social. Às minhas primas/irmãs Neide, Débora e Tassiana. Gostaria de registrar que vocês também fazem parte dessa etapa concluída em minha vida. À Natália Pimenta, uma grande amiga à qual atribuo ser uma das principais responsáveis pela concretização deste sonho. Foi graças ao seu incentivo que resolvi cursar Serviço Social na Faculdade Cearense. Aos meus amigos e amigas de Independência. A todos/as da FETRAECE e do CEALTRU, que direta ou indiretamente acompanharam a minha caminhada durante o curso. Agradeço, em especial, à Lucilene Batista, Tânia Arcanjo, Teresinha Lima, Celina Garcia, Daniele Ribeiro, Iveline Ricardo e Wilson Junior. Vocês tiveram e estão comigo no dia a dia e permitiram que eu conseguisse elaborar este trabalho de conclusão de curso. O meu muito obrigado/a. À minha turma 2013.1, ou simplesmente “a turma vamos nos permitir” (Maria Glauciane, Jamille Castro, Glaucia Geovanna, Lusiana Andrea, Nayana Alcoforado, Angélica Braga, Carla Lúcia, Evilene Pessoa, Mayara Rodrigues, Raquel Machado, Jamylle Maciel, Andreia Ribeiro, Jailma Rodrigues, Marlúcia Roseno, Nathalie Liberato, Cristina Maria, Maria Glaucineide, Mirnna Vasconcelos, Fernanda Braga, Raquel Malhas, Erika Lorena, Taiani Lima, Jordania Luz, Ana Paula Chain, Jaqueline Moura, Tamires Bandeira, Soraia Maria e Fernanda Lilian). A vocês que tiveram comigo durante este tempo, dividindo e somando conhecimentos, o meu eterno agradecimento, torna-se difícil encontrar adjetivos para a nossa turma. Admiro todos/as nas suas particularidades, sem dúvidas foi com um pouco de cada um/uma de nós que formamos essa turma linda. A meu amigo de longas conversas na “pós”, Claúdio Henrique. Você contribuiu muito na “quebra de paradigmas” na minha vida, sou grata. Às minhas lindas amigas Danny Soares, Eliane Avelino, Haline Lima, Samara Cipriano, Vanessa Maia, Leidiane Barbosa, Luara Benevides, Claudiana Queiroz e Myrna Luciana, vocês foram a minha base e porto seguro nesta caminhada. Em vocês encontrei forças para nunca desistir e com vocês aprendi a ser uma pessoa melhor. Compartilhamos momentos tão especiais que ficaram para sempre na memória e nas fotografias. Foram tantas as viagens, encontros, seminários, apresentação de trabalho ao lado de vocês, a saudade já toma conta de mim. À minha companheira e amiga Marisa Albuquerque. Você me fez entender o que realmente significava o Serviço Social quando me convidou a fazer parte do Centro Acadêmico de Serviço Social na gestão consciência para lutar (2011/2012). Contigo dividi tantos momentos da nossa formação que fica difícil citar um em especial, com você aprendi, discuti, escutei e cresci, quantas conversas travamos em mesa de bar? E quantos segredos compartilhados entre a gente? Obrigada “nêga” linda. Ao meu amigo Marcelo Michiles e à minha amiga Emilie Kluwen, companheiros/as do Centro Acadêmico. A vocês o meu obrigado carinhoso, pois sabemos que não foi fácil levar até o final a gestão (2011/2012), um encorajando o outro, e conseguimos ir além do que imaginávamos. A união faz toda a diferença em qualquer espaço onde estejamos lutando. Aos meus companheiros/as do Movimento Estudantil da FaC, Fabiola Souza, Aritana Kelly, Júlio Cesar, Jéssica Braga, Alfredo Monteiro, Tamiris Diniz, Aline Silva, Leonardo Cassundé, Afonso Vieira, Paula Fahd, Carol Dias e Natasha Liberato. E os companheiros/as que conheci ao longo da militância, Samuel Garnet, Leo Santos, Inaê Soares, Renatinha Oliveira, Monique Vieira, Larissa Pinheiro, vocês fizeram a diferença na minha trajetória estudantil. “A nossa luta vai ser todo dia contra qualquer forma de opressão e dominação”. Obrigado/a!!! Aos/as queridos/as professores/as que contribuíram grandemente na minha formação e construção como pessoa e profissional. Gostaria de agradecer, em especial, à professora Valney Maciel por estar ao meu lado no momento muito especial, que foi apresentação do nosso primeiro trabalho na semana de iniciação científica da FaC no 4º semestre; à querida Vivian Matias, por ter influenciado ainda mais a minha paixão pela temática de gênero e ser uma referência profissional pra mim; e por fim, não menos importante, quero agradecer duplamente à professora Letícia Peixoto, por ter feito a diferença na minha formação e por aceitar fazer parte da minha banca examinadora juntamente com a professora Ivna Nunes. As técnicas do Centro de Referência da Mulher Francisca Clotilde, pelo ensinamento e acolhimento durante o meu estágio na instituição, e em especial à minha supervisora, Regina Silveira, pela disposição, atenção e carinho comigo. Obrigada por tudo. Às estagiárias Camila França e Fernanda Sousa, pelo importante apoio e conversas travadas ao longo deste processo. Às entrevistadas deste trabalho, por terem disponibilizado parte do seu tempo para conversar comigo e terem contribuído de forma ímpar nesse processo. Sem vocês esse estudo não teria sido possível. O meu sincero agradecimento. À minha queridíssima orientadora Tatiana Raulino, pela paciência e compreensão nos meus não cumprimentos de prazos, mas que, no final, deu tudo certo. Foi maravilhoso compartilhar essa pesquisa com você, sem dúvidas as suas contribuições foram de suma importância para o resultado final desse trabalho. Os meus singelos agradecimentos a você, que me proporcionou um amadurecimento pessoal e teórico sobre a temática aqui estudada. Às pessoas que, mesmo distante, acompanharam de perto este árduo processo de elaboração da monografia. Enfim, agradeço a todos/as que não citei por algum descuido ou esquecimento, mas que direta ou indiretamente fizeram parte desta conquista em minha vida. OBRIGADA! “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância”. (Simone de Beauvoir) RESUMO A presente pesquisa teve por objetivo investigar sobre o processo de implantação do Centro de Referência da Mulher Francisca Clotilde. A referida instituição surgiu com a missão de atender mulheres vítimas de violência doméstica e sexual, residentes na cidade de Fortaleza. Para esse estudo, realizamos pesquisa bibliográfica e documental, bem como pesquisa de campo. Utilizamos como instrumento de coleta de dados entrevista semiestruturada com oito profissionais que participaram desse processo e/ou atuaram na instituição nos primeiros anos de existência. Diante das inquietações sobre o objeto, procuramos saber quais os aspectos facilitadores e dificultadores para a implantação do CRM, os avanços e desafios presentes com a criação do equipamento e uma breve avaliação da política de enfrentamento à violência contra a mulher em Fortaleza de 2005-2012, sob o olhar das interlocutoras. A violência contra a mulher é um fenômeno histórico, social e cultural que vem sendo incorporada como pauta de estudos acadêmicos e pesquisas, de intervenções governamentais e da sociedade civil. Alguns instrumentos foram criados para tentar coibir esse fenômeno, dos quais citamos a Política e o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher e a Lei Maria da Penha. Todos são resultados das lutas entre movimentos sociais e feministas em pressionar o poder público a assumir seu papel. Além disso, equipamentos e serviços foram implantados para atendimentos das vitimas. É o processo de implantação de um desses serviços em Fortaleza que abordamos nesse estudo. Palavras-Chave: Gênero. Patriarcado. Violência contra a Mulher. Políticas Públicas. ABSTRACT The present study aimed to investigate about the process of implementation of the Reference Center for Women Clotilde Francisca. The institution came up with a mission to assist women victims of domestic and sexual violence residing in the city of Fortaleza. For this study, we conducted literature and documents, as well as field research. Used as instrument for data collection, semi-structured interviews with eight professionals who participated in this process and / or worked in the institution in the first years of existence. Given the concerns about the object, try to know what the facilitators and hindering aspects for deploying CRM, advances and challenges present with the creation of equipment and a brief assessment of coping political violence against women in Fortaleza 2005-2012 under the gaze of the interlocutors. Violence against women is a historical, social and cultural phenomenon that each day has become the agenda of academic studies and research, government interventions and civil society. Some instruments have been created to try to curb this phenomenon, which we quote the Policy and the National Pact to Combat Violence against Women and the Law Maria da Penha, are all results of the struggles between social and feminist movements in pressuring the government to assume its role.In addition, equipment and services have been deployed to care of victims. The process of deployment of these services in Fortaleza we address in this study. Keywords: Gender. Patriarchy. Violence against Women. Public Policy. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Estado Civil ................................................................................. 30 Gráfico 2 - Profissão .................................................................................... 30 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AMB – Articulação de Mulheres Brasileira CF – Constituição Federal CIC – Centro Industrial do Ceará CRM – Centro de Referência da Mulher DDM – Delegacia de Defesa da Mulher DEAM – Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística LMP – Lei Maria da Penha OBSERVEM – Observatório de Violência contra a Mulher PNPM – Plano Nacional de Políticas para as Mulheres PT – Partido dos Trabalhadores/as SEMAS – Secretária Municipal de Assistência Social SPM – Secretária Especial de Políticas para as Mulheres UECE – Universidade Estadual do Ceará SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................12 2 APRESENTAÇÃO DA PESQUISA.........................................................................16 2.1 Questões pertinentes ao objeto da pesquisa ................................................. 16 2.2 Percursos metodológicos da pesquisa ........................................................... 24 2.3 Delimitação do campo da pesquisa ................................................................. 26 2.4 Especificidades da pesquisa............................................................................ 28 2.5 Perfil biográfico das entrevistadas .................................................................. 29 3 ABORDAGENS TEÓRICAS SOBRE AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS MULHERES E POLÍTICAS DE ENFRENTAMENTO A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA..............................................................................................................32 3.1 Contextualização das discussões da categoria gênero e violência contra as mulheres no Brasil .................................................................................................. 32 3.2 Conceituação e modelo de análises de políticas públicas no Brasil implantação dos conselhos das mulheres ........................................................... 39 3.3 Política para as mulheres e instrumentos normativos .................................. 41 4 CONTEXTUALIZAÇÃO DA POLÍTICA DE ENFRENTAMENTO A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES EM FORTALEZA/CE......................................................45 4.1 A implantação da política de enfrentamento a violência contra as mulheres e a criação da Coordenadoria Especial de Políticas para Mulheres no município de Fortaleza ............................................................................................................. 47 4.2 A criação do Centro de Referência Francisca Clotilde – uma análise a partir das profissionais participantes desse processo.................................................. 52 4.3 Avanços e desafios presentes nos primeiros anos de existência do CRM Francisca Clotilde: Um olhar a partir das interlocutoras..................................... 61 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 66 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 70 APÊNDICES ............................................................................................................. 75 Apêndice A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido .............................. 76 Apêndice B – Roteiro de Entrevista ....................................................................... 77 12 1 INTRODUÇÃO Este trabalho é fruto da prática de estágio curricular realizado durante o ano de 2012 no Centro de Referência da Mulher – CRM Francisca Clotilde, bem como das apreensões adquiridas durante esses quatro anos na faculdade, da curiosidade em conhecer sobre o fenômeno da violência vivenciado pelas mulheres e os mecanismos existentes para coibi-la. É resultado, também, da realização de pesquisas bibliográficas, documental e estudo de campo, tomando como objeto de pesquisa a implantação do CRM a partir do olhar das profissionais que fizeram parte da gestão e execução das políticas para as mulheres em Fortaleza. A violência contra a mulher é resultante da construção sócio-histórica da cultura machista e patriarcal, presente até os dias atuais na sociedade, e que se sustenta na opressão-dominação das mulheres pelos homens. As pesquisas que procuram analisar o fenômeno denunciam a gravidade desse problema que, por ora, continua presente na sociedade e precisa de medidas urgentes para a sua repressão. De acordo com os dados do Mapa da Violência (2012) referentes ao número de mulheres mortas para cada cem mil mulheres, há um quantitativo de 4,4 assassinatos, colocando “o Brasil na sétima posição no contexto de 84 países do mundo” (p.11). Esse dado é preocupante na medida em que se refere ao risco que todas as mulheres correm diariamente de terem suas vidas ceifadas simplesmente pela condição de pertencer ao sexo feminino. Também pelo processo de dominação masculina imposto pela estrutura da sociedade, que encontra suas raízes no patriarcado – sistema de dominação e opressão das mulheres pelos homens. O regime patriarcal, do qual fazemos partes, vem historicamente oprimindo as mulheres e negligenciando todos os seus direitos. Desde meados do século XIX, diversos movimentos feministas lutam pela liberdade e igualdade entre mulheres e homens. Pois, ao contrário do que pensa o senso comum, o feminismo não surgiu pra se sobrepor ao machismo. Nesse sentido, concordamos com as apreensões de Alves (2008, p. 20). O feminismo como um movimento social e político, cuja ação é responsável por mudanças conjunturais e de longo prazo, no sentido de impulsionar e contribuir para mudanças sociais, políticas e culturais na vida das mulheres e, sobretudo, por provocar mudança de valores na nossa sociedade. 13 Conforme a autora, os movimentos feministas têm a função de pautar mudanças na sociedade que consigam atingir as macroestruturas. É dado a esses movimentos o reconhecimento dos direitos das mulheres conquistados no decorrer dos anos. Foi através das lutas, de disputas de espaços públicos e de muita organização política que alcançamos o direito ao voto, à inserção no trabalho produtivo, à escolha de não casar, de optar não ter filhos ou ainda ter direito ao divórcio – esse, até pouco tempo, era negado por lei. Partindo movimentos dessas conquistas, ressaltamos algumas pautas dos de mulheres e movimentos feministas1 que foram atendidas recentemente no Brasil a fim de minimizar as desigualdades entre homens e mulheres. Mencionamos a criação da Secretária de Políticas para as Mulheres em 2003, a aprovação da Política e do Plano Nacional para o Enfrentamento à Violência em 2004, a promulgação da Lei Maria da Penha em 2006, dentre outros instrumentos voltados para tentar viabilizar direitos para a população feminina. Com a existência desses mecanismos, foi possível a ampliação de mais serviços e equipamentos voltados para as mulheres de todo o país. A cidade de Fortaleza acompanhou as mudanças no âmbito federal e também passou por esse processo de ampliação e criação de equipamentos, atendendo à demanda que existia dos movimentos. Um dos órgãos, criado em 2005, foi a Coordenadoria de Políticas para Mulheres, “instituída com o principal papel de coordenar, elaborar e implementar ações que transformasse a vida das mulheres da cidade” (ALVES, 2008, p. 24). Vinculado a esse órgão, foi implantado o Centro de Referência da Mulher Francisca Clotilde e a Casa Abrigo Margarida Alves2, ambos criados em 2006. O presente estudo procurou investigar como ocorreu o processo de implantação do Centro de Referência da Mulher - CRM Francisca Clotilde em Fortaleza; quais os aspectos facilitadores e dificultadores para a implantação do 1 Movimento feminista possui um caráter mais político, ele pauta questões relacionadas às desigualdades entre homens e mulheres advindas da cultura do patriarcado. Luta contra as opressões, dominação e exploração das mulheres pelos homens. O movimento de mulheres também tem esse caráter, mas não necessariamente está articulado como um movimento social. Podemos dizer que é formado por grupos de mulheres que possuam interesses em comuns e decidam reivindicar seus direitos. 2 Segundo Zaranza, Gaspar e Maciel (2008, p. 83), a casa abrigo é um equipamento que oferece moradia segura e protegida e atendimento integral e multiprofissional a mulheres em situação de violência doméstica e familiar que se acham sob risco de morte iminente e que não têm um lugar para onde ir. 14 CRM; quais as conquistas e desafios durante esse processo; e qual a percepção das entrevistadas sobre a política de enfretamento à violência e sobre o equipamento componente da política. Para tal pesquisa, realizamos oito entrevistas com as profissionais e/ou técnicas que participaram e/ou atuaram na instituição nos primeiros anos de funcionamento. Perfazendo as discussões que se fizeram necessárias para a compreensão do objeto pesquisado, articulamos o estudo de campo ao referencial teórico, tomando como principais categorias de análise: Gênero, Patriarcado, Violência contra a Mulher e Políticas Públicas. A pesquisa está dividida em três capítulos, organizada da seguinte forma: No primeiro capítulo – Apresentação da pesquisa –, iniciamos o trabalho levantando as questões pertinentes ao objeto de análise, como as discussões sobre a cultura do patriarcado e do machismo, dados referentes à violência contra a mulher, bem como os instrumentos criados para coibi-las. Expomos o percurso metodológico, retratamos as primeiras aproximações com o tema. Delimitamos o campo em que ocorreu a pesquisa, no caso o Centro de Referência da Mulher Francisca Clotilde – CRM, e detalhamos as especificidades da pesquisa. Por fim, apresentamos o perfil das entrevistadas. No segundo capítulo – Abordagens teóricas sobre as políticas públicas para as mulheres e políticas de enfrentamento à violência doméstica –, tratamos da reflexão sobre os estudos da categoria gênero e sua relação com a violência contra a mulher. Retomamos o debate do patriarcado sobre o fenômeno da violência contra a mulher e seus tipos. Fizemos, ainda, um resgate histórico sobre as políticas públicas voltadas para as mulheres no Brasil e sobre a contribuição dos movimentos feministas e de mulheres na conquista de direitos. Falamos, também, dos instrumentos normativos acerca da temática existentes no país. No terceiro capítulo – Contexto do período histórico da Política de Enfrentamento à Violência para as Mulheres em Fortaleza –, apresentamos a implantação da política e a criação da Coordenadoria de Mulheres, órgão responsável por coordenar, elaborar e implementar ações voltadas para as mulheres da cidade. Analisamos a implantação do CRM e as questões pertinentes ao objeto estudado. E, por fim, as análises obtidas no trabalho de campo, destacando as falas das entrevistadas. 15 Esperamos que o estudo aproxime a temática da pesquisa em serviço social, compreendendo a violência contra as mulheres como uma expressão da questão social, portanto, uma pauta importante do universo acadêmico do curso, perpassando, também, outros campos científicos. 16 2 APRESENTAÇÃO DA PESQUISA O presente capítulo pretende discorrer sobre os elementos que são pertinentes à compreensão do objeto investigado. Neste, apontamos a construção sócio-histórica dos papéis exercidos por homens e mulheres como um dos determinantes da violência baseada no gênero. No entanto, entendemos que analisar o fato sob esse aspecto é um erro, tendo em vista que a sociedade é também estruturada por relações de gênero, classe, raça/etnia. Nessa relação, apresentamos ainda dados referentes ao complexo fenômeno da violência e, no decorrer do estudo, mencionaremos os equipamentos de proteção da mulher. Além disso, abordaremos o percurso metodológico da pesquisa, o campo que subsidiou o estudo, o tipo de pesquisa e instrumentais utilizados para coleta de informações e, por fim e não menos importante, o perfil das entrevistadas. 2.1 Questões pertinentes ao objeto da pesquisa Observamos que a construção dos papéis sociais desempenhados por sujeitos masculinos e femininos na sociedade tem a ver, ao longo dos anos, com a cultura do patriarcado 3 e do machismo. Isso acaba determinando os lugares que homens e mulheres ocupam nas estruturas socioeconômicas, resultando numa serie de opressões, discriminação e dominação da mulher pelo homem4. Segundo Santos e Oliveira (2010, p. 13): Historicamente, identifica-se uma maior apropriação pelos homens do poder político, do poder de escolha e de decisão sobre sua vida afetivo-sexual e da visibilidade social no exercício das atividades profissionais. Este é um processo que resulta em diferentes formas opressivas, submetendo as mulheres a relações de dominação, violência e violação dos direitos. No decorrer dos anos, as mulheres tiveram seus direitos negados, sendo a elas destinado apenas o espaço privado e a função de ser mãe, boa esposa e se 3 Segundo Saffioti (2004), patriarcado ou ordem patriarcal é o regime de dominação-exploração das mulheres pelos homens. Esse regime se refere à opressão das mulheres a partir do sistema capitalista. 4 Não pretendemos nos aprofundar sobre a discussão da divisão sexual do trabalho, portanto indicamos como leitura os estudos de Helena Hirata e o livro de Mirla Cisne: Gênero, Divisão Sexual do Trabalho e Serviço Social (2012). De acordo com Cisne, a divisão segmenta os trabalhos de forma a subalternizar os considerados naturalmente femininos em relação aos considerados naturalmente masculinos. 17 interessar somente pelas coisas do lar. Partindo dessa reflexão sobre os espaços determinados para as mulheres, percebemos uma contradição: esses locais, que aparentemente remetem à segurança e proteção da mulher, podem revelar o inverso: uma vida de dor e sofrimento causados por seus/suas parceiros/as, com a violação dos direitos humanos da “vitima”5. Diante da constatação desse fato, mulheres de diversos países, como França, Alemanha, Estados Unidos e Brasil, começaram a se organizar através de movimentos sociais, partidos políticos de esquerda ou ainda em organizações feministas6 com o intuito de transformar a realidade que estavam inseridas. Começaram a reivindicar direitos civis, políticos e sociais igualitários entre homens e mulheres, pautados no feminismo 7. Os movimentos feministas surgiram da necessidade de pautar, questionar e de transformar as relações desiguais resultantes da cultura do patriarcado. Através da luta feminista, as mulheres foram ganhando visibilidade e reconhecimento como agentes na construção da história da humanidade, passando, então, a serem vistas como sujeitos de direitos, inserindo-se em diversos espaços públicos da sociedade. É valido ressaltar que existem diversos movimentos feministas8 no Brasil e no mundo e que, segundo as apreensões de Costa (2013, p. 124), é importante articular: O surgimento da categoria gênero ao movimento feminista é uma posição política e ideológica defendida neste escrito, pois a luta feminista em prol de melhores condições de vida e trabalho para as mulheres proporcionou a problematização da subordinação feminina no contexto de inúmeros países, como o Brasil. Com a visibilidade dos movimentos, tornou-se possível denunciar a condição de opressão e dominação da mulher, ganhando, assim, o caráter de discussão no espaço público. O debate sobre a questão das mulheres e dos papéis 5 Utilizamos o termo “vítima” por entendemos que as mulheres não são vitimas, e sim estão em situação de violência, podendo superar esse ciclo a qualquer momento com a “ajuda” do poder público e da sociedade civil. 6 Para uma leitura mais aprofundada, recomenda-se o livro “As origens e a comemoração do dia internacional das mulheres”, de Ana Isabel Alvarez González (2010), no qual a autora faz uma contextualização do movimento feminista europeu e americano. 7 Feminismo é o conjunto de ações e práticas políticas que busca a igualdade social, política e econômica entre homens e mulheres, e que tem como pressuposto que esta igualdade só será conquistada através da constituição das mulheres como sujeitos políticos (GOUVEIA apud CRUZ; 1993, p. 22) 8 Podemos citar a Articulação de Mulheres Brasileira – AMB, Marcha Mundial das Mulheres – MMM, União Brasileira de Mulheres – UBM, o Fórum Cearense de Mulheres – FCM, entre outros. 18 sociais desenvolvidos no meio social vai se consolidar na segunda metade do século XX. É nesta época que se fortalecem os estudos sobre a categoria gênero, termo que abrange as relações sociais entre o masculino e o feminino exercidas na sociedade. Como constatamos nas análises de Costa Benoit, citado por Costa (2013, p. 125): Em 1990 se legitimam, sobretudo no meio acadêmico, os chamados estudos de gênero, que realizaram outras análises conceituais da condição da mulher, fazendo com que o movimento feminista de então repensasse questões primordiais na discussão da situação da mulher, [...]. É importante lembrar que, antes de se legitimarem tais estudos, existiam estudiosas que já se debruçavam sobre as questões da mulher, sem levar em consideração a dimensão de gênero – a histórica construção das relações sociais entre homens e mulheres. Ainda sobre os estudos iniciais sobre a categoria gênero no meio acadêmico, atribuímos à historiadora Joan Scott (1991, p. 05) o uso da primeira definição: Gênero é igualmente utilizado para designar as relações sociais entre os sexos. [...] O gênero se torna, aliás, uma maneira de indicar as “construções sociais”: a criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. O gênero é segundo essa definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. Scott contribuiu de forma significativa para o início e aprofundamento dos estudos voltados para a categoria gênero. Porém, corroboramos com a análise de Saffioti (2004a), que discorda dessa perspectiva analítica da dimensão de igualdade versus diferença, partindo do pressuposto de que as relações entre homens e mulheres são hierárquicas, baseadas na estrutura de poder. Nesse sentindo, essa desconsideração da construção histórica do gênero e da necessidade de transformações nas estruturas da sociedade que alterem as relações sociais nas análises por Scott, foi bastante recriminada por estudiosas como Saffioti. Dentre as suas principais críticas, destacamos a “ambiguidade que perpassa seu texto”9. Para a Saffioti (2004a, p. 110) não é possível analisar o gênero de forma isolada, “o ser humano deve ser visto como uma totalidade, na medida em que é uno e indivisível”. Concordamos com sua afirmação de que, “o gênero, a 9 De acordo com Saffioti, gênero não é tão-somente uma categoria analítica, mas também uma categoria histórica. Logo, a crítica feita à Scott é referente aos estudos que a autora fez sobre o conceito de gênero, desconsiderando o seu processo de construção histórica. 19 raça/etnicidade e as classes sociais constituem eixos estruturantes da sociedade”, não sendo possível compreender as relações estabelecidas entre homens e mulheres sem considerar os demais elementos. A autora faz uma discussão sobre a categoria gênero a partir do uso do patriarcado, compreendendo as relações sociais inseridas em um determinado tempo histórico. Assim, percebe que o papel desenvolvido pela mulher na sociedade tem a ver com os interesses do sistema capitalista. Por isso a importância de não desvincular os estudos de gênero dos eixos estruturantes presente na sociedade 10. Embora a mulher venha, através de muitas lutas, conquistando o seu espaço em diferentes locais como a política, universidade, mercado de trabalho, ainda há muito a construir no âmbito da igualdade social, econômica e política. Com tudo isso, também é enorme o desafio de desconstruir preconceitos, regras normativas e a própria cultura do machismo e do patriarcado, que acaba sendo a raiz de todos os direitos negados. Dentre tantas temáticas que abordam as relações de gênero e, especificamente, questões sobre as mulheres, pretendemos fazer um recorte sobre a violência contra a mulher, em especial na Política de Enfrentamento à Violência Doméstica em Fortaleza. Procuramos delimitar o objeto de pesquisa realizando uma pesquisa sobre a implantação do Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência Sexual Francisca Clotilde a partir do olhar das profissionais que fizeram parte da gestão e execução das políticas para as mulheres. A violência contra a mulher é um fenômeno histórico, social e cultural que vem sendo incorporada como pauta de estudos acadêmicos e pesquisas, de intervenções governamentais e da sociedade civil. Segundo os dados da pesquisa da Fundação Perseu Abramo (2004, p. 56) 11 , “2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano no Brasil. Isto significa 175 milhões por mês; 5,8 mil por dia; 240 por hora ou 4 por minuto. Disto resulta uma mulher espancada a cada 15 segundo”. Com base na análise desses dados, percebemos a necessidade de o poder público adotar medidas no combate e prevenção dessa problemática. Autoras, como Saffioti (2004a, p. 17), referência nos estudos sobre essa a temática, compreendem a violência contra as mulheres como “ruptura de qualquer 10 No capitulo seguinte daremos continuidade sobre os estudos de patriarcado. A pesquisa foi realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2004, intitulada “A mulher brasileira nos espaços público e privado”. Foi desenvolvida por 187 pesquisadores com 2.502 entrevistadas a partir dos 15 anos em todas as regiões do Brasil, tendo como objetivo traçar o perfil da mulher brasileira. 11 20 forma de integridade da vítima; integridade física, integridade psíquica, integridade sexual, integridade moral”. Ressaltamos que, neste trabalho, compartilhamos das reflexões da pesquisadora, tendo em vista que a violência é um fenômeno presente na sociedade e que atinge todas as mulheres direta ou indiretamente. Segundo o Mapa da Violência de 201212, nos últimos trinta anos (entre 1980-2010) foram assassinadas no Brasil mais de 92 mil mulheres, 43,7 mil só na última década. O Brasil possui um numero de 4.465 assassinatos, uma média de 4,6 mortes para casa 100 mulheres. O Ceará ocupa 22º posição no ranking, com 174 homicídios só em 2010, e a capital Fortaleza está em 16º com 78 homicídios, ou seja, uma média de 5,8, bem maior que o estado. Em 2009 foi feita uma comparação entre 84 países do mundo sobre as taxas de homicídio de mulheres, na qual o Brasil ocupa a 7º colocação com 4,4 por 100 mil mulheres. Ainda conforme o Mapa, na faixa etária das mulheres de 15 a 29 anos, o número de assassinatos totaliza 1.958 mortes. Dos atendimentos feitos em 2010 na rede de saúde, foram registrados 107.572 casos relativos à violência doméstica, sexual e/ou outras violências, sendo 70.285 de mulheres contra 37.213 relacionados aos homens. Outra pesquisa sobre violência contra a mulher, publicada em 2013, foi a DataSenado, a qual estimou que mais de 13 milhões e 500 mil mulheres já sofreram algum tipo de agressão (19% da população feminina com 16 anos ou mais). Destas, 31% ainda convivem com o agressor. O mais agravante nas análises da pesquisa é que das mulheres que convivem com o agressor, 14% ainda sofrem algum tipo de violência. Este resultado, expandido para a população brasileira, implica em dizer que 700 mil brasileiras continuam sendo alvo de agressões. A pesquisa ainda ressalta que aproximadamente uma em cada cinco brasileiras reconhece já ter sido vítima de violência doméstica ou familiar provocada por um homem. Os percentuais mais elevados foram registrados entre as que possuem menor nível de escolaridade, as que recebem até dois salários-mínimos e as que têm idade de 40 a 49 anos. O tipo de violência mais frequentemente sofrido por mulheres é a física, segundo relato de 62% das vítimas. Em seguida, vêm à violência moral e a psicológica, que, em 2013, foram relatadas por 39% e 38% das vítimas, respectivamente. Dentre as mulheres que já sofreram violência, 65% foram 12 O Mapa da Violência foi realizado por Julio Jacobo Waiselfisz (2012). 21 agredidas por seu próprio parceiro de relacionamento, ou seja, por marido, companheiro ou namorado. Diante da gravidade desses números e com a “pressão” dos movimentos de mulheres e feministas, os governantes foram “obrigados” a garantir legalmente que os direitos das mulheres não sejam mais violados. Uma das alternativas está associada à criação de políticas públicas voltadas para a proteção da mulher. Logo, um marco na elaboração dessas políticas públicas foi a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres - SPM, no primeiro mandato do governo Lula, em 2003. Segundo informações documentais, a referida secretaria nasceu como principal objetivo de promover a igualdade entre homens e mulheres, assim como combater todas as formas de preconceito e discriminação herdadas de uma sociedade patriarcal e excludente. Ela está estruturada da seguinte forma: Secretaria Executiva, Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres SEV, Secretaria Nacional de Políticas do Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres – SAE, Secretaria Nacional de Articulação Institucional e Ações Temáticas – SAIAT e o Conselho Nacional dos Diretos da Mulher – CNDM. É necessário mencionar que, através da I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, se elaborou a Política e o Plano Nacional de Políticas para Mulheres - PNPM, sendo este o responsável por direcionar o trabalho desenvolvido pela SPM. Esta conferência foi realizada nos dia 15 a 17 de agosto de 2004, estando presente uma grande representatividade dos movimentos feministas e dos movimentos de mulheres, totalizando 19 entidades 13 . Segundo os dados disponíveis nos anais da conferência, em Brasília reuniram-se, entre governo e sociedade civil, 1.787 delegadas, sendo que 120 mil mulheres chegaram a participar das conferências locais e estaduais. Foram discutidos cinco eixos temáticos, como podemos ver abaixo: Os cinco eixos temáticos que faziam parte do Documento foram discutidos, cada um deles, por quarto grupos. Eixo 1 – Enfrentamento da pobreza: geração de renda, trabalho, acesso ao crédito e a terra. Eixo 2 – Superação da violência contra a mulher: prevenção, assistência e enfrentamento. 13 Para maiores informações consultar os Anais da Conferência - Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2004. 164 p. (Série Documentos) 01. Disponível em: www.spm.gov.br. 22 Eixo 3 – Promoção do bem-estar e qualidade de vida para as mulheres: saúde, moradia, infra-estrutura, equipamentos sociais e recursos naturais. Eixo 4 – Efetivação dos direitos humanos das mulheres: civis, políticos, sexuais e reprodutivos. Eixo 5 – Desenvolvimento de políticas de educação, cultura, comunicação e produção do conhecimento para a igualdade. (p.99, 2004) Considerando as temáticas acima, deter-nos-emos ao eixo dois, que trata sobre a superação da violência contra a mulher: prevenção, assistência e enfrentamento, presente na elaboração deste trabalho. É importante ressaltar que, até 2002, a base do Programa Nacional de Combate à Violência contra a Mulher, sob a gerência da Secretaria de Estado de Direitos da Mulher (SEDIM), do Governo Federal, era o apoio à construção de Casas Abrigo e à criação de Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAM). Com a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), no primeiro ano do Governo Lula, em 2003, as ações mudaram de foco e ganharam nova envergadura, com o início da formulação da Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres 14. Tomando como fundamentação a convenção de Belém do Pará 15 (1994), o conceito de violência adotado pela Política Nacional é “qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado” (BRASIL; 2011ª, p. 19). Por isso, abordar questões relacionadas à violência contra a mulher é muito complexo, devendo-se ir além dos conceitos estabelecidos e observar melhor a realidade vivenciada por elas. Como já sinalizamos anteriormente, a violência doméstica acontece principalmente nos espaços privados, de forma sutil e silenciosa, tendo como principal agressor o marido, companheiro, ex-marido, exnamorado. Ou seja, sempre parte de alguém que conhece bem a “vítima”. Mais uma 14 Deter-nos-emos à análise dessa política no segundo capitulo. Em 1993, foi adotada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher. Foi a partir da definição dada por tal instrumento ao termo “violência contra a mulher” que o problema passou a ser tratado como específico. Segundo Flávia Piovesan, a definição dada por tal instrumento internacional à violência contra a mulher “rompe com a equivocada dicotomia entre o espaço público e o privado, no tocante à proteção dos direitos humanos, reconhecendo que a violação destes direitos não se reduz à esfera pública, mas também alcança o domínio privado”. A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará, foi editada pela Organização dos Estados Americanos – OEA em 1994 e ratificada pelo Estado brasileiro em 1995. Este instrumento é de grande relevância, na medida em que foi uma das reivindicações dos movimentos de mulheres e feminista durante muito tempo. (Disponível em: http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=7874). 15 23 vez, a pesquisa da Fundação Perseu Abramo constatou que 43% das mulheres entrevistadas afirmaram ter vivenciado algum tipo de violência na vida. Embora se reconheça que, nos últimos anos, tivemos avanços no que se refere às políticas voltadas para as mulheres, é preciso prosseguir ainda mais no combate a qualquer tipo de violência contra a mulher. É importante ressaltar a conquista de alguns instrumentos de defesa da mulher como, por exemplo, a Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher já mencionada, o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher e a Lei Maria da Penha, todos são frutos de muitas lutas entre movimentos sociais e feministas ao pressionar o poder público a assumir seu papel. A Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher foi um importante passo diante das lutas dos movimentos para coibir a violência. Contudo, a forma como ela está organizada deixa muito a desejar. Apontamos dois possíveis fatores que possam dificultar sua execução: a falta de orçamento que garanta a efetivação das ações voltadas para o enfrentamento à violência e a qualidade dos serviços oferecidos nas instituições que são responsáveis pelos os atendimentos das mulheres em situação de violência. Ainda no que se refere à política, a sua a finalidade é: Estabelecer conceitos, princípios, diretrizes e ações de prevenção e combate à violência contra as mulheres, assim como de assistência e garantia de direitos às mulheres em situação de violência, conforme normas e instrumentos internacionais de direitos humanos e legislação nacional. (BRASIL, 2011b, p. 09). Por fim, além da Política Nacional de Enfrentamento à Violência como conquista das mulheres, citamos outra pauta que há tempos era reivindicada, a sanção da Lei 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha. Esta Lei é resultado de anos de luta do movimento feminista e movimento de mulheres. Ganhou este nome em homenagem à Maria da Penha Maia Fernandes, que por vinte anos lutou para ver seu agressor preso, tendo este caso ganhado repercussão no país e no mundo inteiro. Vejamos o que preconiza a referida lei: A Lei Maria da Penha cria mecanismos para coibir e prevenir a violência o doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8 do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil. (ART.1º) (BRASIL, 2013ª, p. 16). 24 Com a existência desses instrumentos normativos, a ampliação dos equipamentos e a criação de outros em Fortaleza, algumas inquietações se fizeram pertinentes e me impulsionaram a investigar sobre: Como aconteceu o processo da implantação do CRM Francisca Clotilde em Fortaleza? Quais os aspectos facilitadores e dificultadores para a implantação do CRM? Quais as conquistas e desafios durante esse processo? Qual a percepção das entrevistadas sobre a política de enfretamento à violência e sobre o equipamento componente da política? 2.2 Percursos metodológicos da pesquisa A escolha por pesquisar essa temática se deu a partir de elaborações de trabalhos acadêmicos voltados para as questões que abordassem as mulheres. Com esses estudos, aumentou o interesse em pesquisar temas como: a história das mulheres contadas pelas mulheres; a importância do movimento feminista na conquista de direitos para as mulheres; a problemática da violência contra a mulher; a inserção da mulher nos espaços públicos ou no trabalho produtivo; questões que fazem parte do campo de atuação da/o assistente social e que me levaram a querer conhecer de forma mais especifica. Em 2012, surgiu a oportunidade de realizar meu estágio curricular no Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência e Sexual Francisca Clotilde, havendo uma aproximação maior com as mulheres que procuravam os serviços oferecidos pelo equipamento e com as profissionais que realizavam o atendimento. Com isso, observamos algumas problemáticas que merecem um olhar mais crítico e que sejam desveladas para além da aparência no intuito de apontar soluções que possibilitem uma mudança no cotidiano. Inicialmente, tivemos como primeira delimitação do objeto de pesquisa investigar como o acesso à renda econômica da mulher influencia no processo de ruptura do ciclo da violência. Tínhamos como pontos de partidas a autorização da coordenação do equipamento para a execução da pesquisa e a solicitação das técnicas do CRM Francisca Clotilde na identificação das mulheres que se enquadravam no perfil mencionado anteriormente. Com a inserção no campo da pesquisa, encontramos alguns percalços que impossibilitaram a realização do estudo com foco nesta problemática. 25 Ao retornar à instituição em 2013, percebemos algumas modificações16 no Centro de Referência, como: a dinâmica de atendimento do equipamento, o quadro de funcionárias/os renovado, a estrutura de organização da política de enfretamento às mulheres, que teve como principal mudança a desvinculação da coordenadoria de mulheres ao gabinete do prefeito, perdendo o seu status de secretaria e ficando subordinada à Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de Fortaleza. Destacamos outros fatores determinantes na impossibilidade da realização da proposta inicial. Primeiro, por ser um quadro de funcionárias/os novatas/os, tivemos dificuldades em identificar as mulheres que foram atendidas antes de 2013 no equipamento - não havia um acompanhamento das usuárias por parte das funcionárias novas. Segundo, corríamos o risco de fazer uma análise superficial da inexistência de uma política de inclusão e autonomia econômica, devido a nossa dificuldade em acessar as informações que configurassem a existência dessa política. E o terceiro fator, a ausência de retorno dos encaminhamentos realizados pelo o CRM para as demais instituições componentes da rede, que acaba “quebrando” o acompanhamento da mulher até o final do atendimento. Diante da realidade encontrada no campo, da inviabilidade na execução da pesquisa com o primeiro recorte e da minha vontade em continuar pesquisando sobre o CRM, mudamos o foco para análise do equipamento. Considerando seu tempo de existência (08 anos), atribuímos como relevante a necessidade de investigar como ocorreu sua fundação e os seus desafios ao longo dos anos. Após a delimitação do objeto de estudo, resolvemos pesquisar como se deu o processo da implantação do Centro de Referência de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Sexual Francisca Clotilde no município de Fortaleza. Essa pesquisa teve como público alvo entrevistado profissionais que fizeram parte do CRM Francisca Clotilde e Coordenadoria de Mulheres na implantação do equipamento ou trabalharam nos primeiros anos de existência do mesmo, no período de 2006-2012. Discutiremos, posteriormente, de forma mais especifica, quem são essas entrevistadas e sua contribuição no processo. 16 Em janeiro de 2013, houve mudança de gestão municipal de Fortaleza, assumindo o cargo de prefeito o Sr. Roberto Claudio. 26 2.3 Delimitação do campo da pesquisa O campo utilizado para execução da pesquisa foi o Centro de Referência de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Sexual Francisca Clotilde, em Fortaleza. O mesmo foi inaugurado em 2006, mais precisamente no dia 08 de março, pela Prefeitura de Fortaleza, resultado de um convênio entre a Prefeitura Municipal de Fortaleza com a Secretaria de Política para as Mulheres – SPM/PR. O equipamento ainda permanece ligado à Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres de Fortaleza17 - na época vinculada diretamente ao gabinete da ex-prefeita. É importante mencionar que a organização das políticas públicas para as mulheres em Fortaleza 18 só foi inserida na pauta governamental de forma organizada com a existência de uma secretaria criada com a função de planejar e executar políticas públicas para esse público, na gestão do Partido dos/as Trabalhados/as – PT no ano de 2005. Segundo documentos analisados da coordenadoria, a sua implantação foi fruto do compromisso da gestora com os movimentos de mulheres e movimentos feministas que tinham como objetivo a construção de políticas pautadas na igualdade entre homens e mulheres19. Adentraremos o processo de construção da Coordenadoria e do CRM no terceiro capitulo, no qual explanaremos também a pesquisa de campo. A coordenadoria foi criada com o objetivo de “desenvolver um trabalho multidisciplinar de atendimento às mulheres em situação de violência doméstica e/ou sexual no município de Fortaleza, Estado do Ceará.” (ALVES, 2008, p. 76). O CRM tinha como um dos referenciais normativos a Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. 17 A coordenadoria foi criada em 2005 e tinha como missão coordenar, elaborar e implementar políticas públicas que contribuíssem de forma concreta na vida das mulheres e nas relações de gênero no município. Possuía como eixos de atuação: 1º Prevenção e assistência à mulher em situação de violência; 2º Saúde e equidade de gênero; 3º Inclusão e autonomia econômica; 4º Participação e controle social; e 5º Educação e cultura não-discriminatórias (ALVES, 2008) 18 Anterior a esse período, as políticas para as mulheres estavam desorganizadas, com ações pontuais e sem processo de continuidade. Existiam programas pulverizados na Secretaria de Saúde e na Secretaria de Educação e Assistência Social – SEDAS. Com a gestão da Prefeita Luiziane Lins (2005 – 2008, 2009 -2012), há uma centralidade das políticas públicas para as mulheres que dará uma capilaridade no funcionamento da mesma. 19 Adentraremos o processo de construção da Coordenadoria e do CRM no terceiro capitulo, no qual explanaremos também a pesquisa de campo. 27 Atualmente, a coordenadoria está vinculada a Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos e tem o papel de “implementar políticas públicas contemplando a diversidade das mulheres sob a perspectiva de gênero, raça/etnia, geração, orientação sexual” (Folder Institucional, 2013)20. Ainda permanecem sob sua coordenação os dois equipamentos municipais de proteção à violência contra a mulher: Casa Abrigo Margarida Alves e CRM Francisca Clotilde. Este último criado com o objetivo de: Contribuir para a consolidação do programa de combate à violência sexista por meio de estratégias de atendimento que objetiva o fortalecimento da mulher e a compreensão e prevenção dessa violência, bem como da articulação da rede de serviços públicos para atendimento às mulheres. (ALVES, 2008, p.76) O equipamento encontra-se localizado no mesmo lugar desde sua inauguração, na Rua Gervásio de Castro, nº 53, bairro do Benfica 21, em Fortaleza – CE, o telefone de contato é (85) 3105 – 3415, seu horário de funcionamento é de segunda a sexta, de 08h às 20h e aos finais de semanas e feriados das 08h às 18h. Atualmente, fazem parte do Centro de Referência da Mulher 25 pessoas. Entre estas, estão: coordenação, assistentes sociais, advogadas, psicólogas, educadoras sociais, parte administrativa, serviços gerais, motoristas, guardas municipais e estagiárias de diversas áreas. Parte destes são servidoras/es públicas/os cedidas por diversas Secretarias e outra parte é terceirizada, como as advogadas, psicóloga a assistente social 22. Ainda sobre o equipamento, podemos perceber que segue a Norma Técnica de Padronização dos Centros de Referências de Atendimento à Mulher, que preconiza um padrão de funcionamento para todos os centros de referências do país, e que define os CRMs como: Espaços de acolhimento/atendimento psicológico, social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência, que proporcione o atendimento e o acolhimento necessários à superação da situação de violência ocorrida, contribuindo para o fortalecimento da mulher e o resgate da sua cidadania. (BRASIL, 2006, p.15). Percebemos a relevância que estes equipamentos exercem na sociedade e, principalmente, na vida das mulheres que procuram por atendimento nesses 20 Não foi possível citar a referência no final deste trabalho. O Benfica é um bairro localizado na Região Central da cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará, localizado em sua Secretaria Executiva Regional IV. 22 Segundo informações recebidas no equipamento. 21 28 espaços. É importante ressaltar também a necessidade de ampliação e aperfeiçoamento destes equipamentos. 2.4 Especificidades da pesquisa A pesquisa que realizamos teve como principio a análise crítica do objeto, a partir do método dialético, por ser o mais adequado ao que pretendemos abordar, visto que o mesmo favorece uma aproximação com a dinamicidade e o movimento do real e permite uma reflexão em que diversos elementos dialogam entre si, numa perspectiva de totalidade. Segundo Demo (2002, p. 21) “a dialética seria a metodologia especifica das ciências sociais, porque vê na história não somente o fluxo das coisas, mas igualmente a principal origem explicativa”. Utilizamos a pesquisa qualitativa e de cunho empírico, tendo em vista que a partir destas é possível obter um universo maior de informações sobre as entrevistadas e a realidade que se estará analisando. Levamos em conta, também, que foram trabalhadas particularidades a partir do olhar de cada uma. Portanto, este tipo de pesquisa é a que melhor se aplica ao objeto de estudo, pois conforme analisa Goldenberg (2004, p. 63): A pesquisa qualitativa é útil para identificar conceitos e variáveis relevantes de situações que podem ser estudadas quantitativamente, [...] é evidente o valor da pesquisa qualitativa para estudar questões difíceis de quantificar como sentimentos, motivações, crenças e atitudes individuais. A pesquisa qualitativa permite fazer uma análise minuciosa da realidade onde estão inseridos os sujeitos, bem como das próprias entrevistadas, podendo enriquecer o trabalho com detalhes que poderiam passar despercebidos se fossem utilizados outros tipos de pesquisa que não fosse a qualitativa. Foi necessário realizar uma revisão bibliográfica sobre o objeto pesquisado, como diz Nasser (2010, p. 134) “é preciso ler o que os outros escreveram antes de nós, de certa forma, subir sobre seus ombros para conseguir ver mais além”. Dito isto, foi relevante o uso de pesquisas bibliográficas e documentais antes de ir ao campo para ter um prévio conhecimento do que já foi observado e produzido sobre o assunto, sabendo da complementaridade que ambas possuem. Gil (2002) afirma que: 29 A pesquisa bibliográfica se utiliza fundamentalmente das contribuições dos diversos autores sobre determinado assunto, a pesquisa documental valese de materiais que não recebem ainda um tratamento analítico. (p. 45). Já o estudo de campo é desenvolvido por meio da observação direta das atividades do grupo estudado e de entrevistas com informantes para captar suas explicações e interpretações do que ocorre no grupo. (p. 53) Para a realização da pesquisa, fizemos um recorte histórico de 2005 a 2012, momento em que acontece a implantação do CRM em Fortaleza, bem como a identificação de algumas protagonistas neste processo, seja na construção/implementação do projeto ou na execução/atendimento das mulheres no CRM 23 . O instrumental utilizado para coleta das informações necessárias à elaboração do trabalho foi a entrevista semiestruturada, que, segundo Minayo (2010, p. 64): Combina perguntas fechadas e abertas, em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender à indagação formulada. Com a realização das entrevistas, foi feita uma análise do conteúdo produzido e, em seguida, conjecturas entre a teoria utilizada na pesquisa e os resultados obtidos a partir da interpretação dos dados verificados no campo. 2.5 Perfil das entrevistadas Conforme mencionamos anteriormente, a pesquisa foi realizada com as técnicas do equipamento e profissionais que estiveram na coordenação e gestão das políticas para as mulheres no município no período demarcado. A escolha das entrevistadas aconteceu da seguinte forma: gestoras que fizeram parte da coordenadoria da mulher e elaboraram o projeto de implantação do Centro de Referência, as coordenadoras 24 do equipamento e uma técnica de cada área de atuação. As entrevistas ocorreram entre setembro e outubro de 2013. Foram pré-selecionadas nove profissionais para a realização das entrevistas, contudo, não conseguimos retorno de uma profissional. O tempo de duração das entrevistas variou de trinta a quarenta minutos. 23 Foram realizadas entrevistas semiestruturadas (roteiro em anexo) com profissionais que contribuíram para existência deste equipamento na cidade de Fortaleza. É importante ressaltar que foi utilizada a observação participante. 24 Critério de exclusão: foram excluídas das entrevistas pessoas que participariam diretamente ou indiretamente da construção e/ou avaliação desse estudo. 30 As entrevistadas, em sua maioria, advinham de movimento de mulheres e movimento feminista, tem entre 30 a 60 anos e todas possuem ensino superior e especialização. Quando perguntadas sobre o estado civil, obtivemos os seguintes resultados. Gráfico 01: Estado Civil Fonte: Elaboração da pesquisadora, 2013. De acordo com o gráfico acima, observamos que os dados encontram-se basicamente na mesma proporção no tocante ao estado civil das gestoras. Podemos mencionar que das entrevistadas, três eram casadas, três solteiras e duas eram divorciadas. Sobre a formação profissional, podemos perceber que houve um equilíbrio entre as profissões, estando distribuídas conforme o gráfico abaixo: Gráfico 02: Profissão Fonte: Elaboração da pesquisadora, 2013. 31 Conforme o gráfico acima, percebemos que nos equipamentos existia uma multidisciplinaridade, partindo do entendimento de que a intervenção na questão da violência contra a mulher necessita de um olhar multiprofissional que garanta um atendimento diferenciado para as usuárias que procuram o serviço. 32 3 ABORDAGENS TEÓRICAS SOBRE AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AS MULHERES E POLÍTICAS DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. Neste capitulo, faremos uma abordagem sobre as políticas públicas para as mulheres no Brasil. Partimos do pressuposto de que é primordial entender como surgiram os estudos sobre a categoria gênero. Como os movimentos feministas vêm pautando os direitos para as mulheres, através de suas lutas cotidianas, e também como a violência contra as mulheres tornou-se objeto de intervenção do Estado. 3.1 Contextualização das discussões da categoria gênero e violência contra as mulheres no Brasil. Ao adentrarmos a discussão deste tópico, se faz necessária a compreensão da categoria gênero para entendermos que as relações sociais são construídas e desconstruídas cotidianamente. As análises sobre a categoria gênero iniciaram com os movimentos feministas no final do século XIX e vêm sendo discutida até os dias atuais, sendo a França e os Estados Unidos os precursores desses estudos. Scott (1991, p. 01) 25 ressalta que “as feministas começaram a utilizar a palavra “gênero” mais seriamente, no sentido mais literal, como uma maneira de referir-se à organização social da relação entre os sexos”. Os debates iniciais realizados no Brasil sobre a categoria e o conceito de gênero foram feitos com base nos estudos da historiadora americana J. W. Scott, com a tradução do seu artigo intitulado Gênero: uma categoria útil para a análise histórica, sendo usado até hoje para contextualizar os estudos voltados para a temática. Para esta autora, gênero é uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado, ou seja, são construções sociais dos papeis desempenhados pelo masculino e o feminino na sociedade. Scott foi responsável por contribuições importantes para o início e aprofundamento dos estudos voltados para a categoria gênero. 25 Para maiores informações sobre a autora, foram traduzidos outros trabalhos: SCOTT, Joan W. A cidadã paradoxal - as feministas francesas e os direitos do homem. Florianópolis, Ed. Mulheres, 2002 [Trad.: Élvio Antônio Funck] e SCOTT, Joan W. Igualdade versus diferença: os usos da teoria pós-estruturalista. Debate Feminista (Cidadania e Feminismo), nº especial, p.207-218, 2000. 33 Para esta autora, existem várias abordagens teóricas sobre os estudos de gênero, mas ela se detém em apenas três vertentes teóricas, que são: A primeira, um esforço inteiramente feminista que tenta explicar as origens do patriarcado. A segunda se situa no seio de uma tradição marxista e procura um compromisso com as críticas feministas. A terceira, fundamentalmente dividida entre o pós-estruturalismo francês e as teorias anglo-americanas das relações de objeto, inspira-se nas várias escolas de psicanálise para explicar a produção e a reprodução da identidade de gênero do sujeito. (SCOTT, 1991, p. 03). Este estudo toma como fundamentação a primeira análise citada por Scott, ou seja, a vertente feminista baseada no conceito de patriarcado, tendo em vista que procuramos nos apropriar das discussões feitas pela socióloga brasileira H. Saffioti sobre a cultura do patriarcado. A pesquisadora citada anteriormente tece críticas às análises feitas por Scott, por a mesma fazer uma separação de gênero dos demais eixos estruturantes da sociedade, classe e raça/etnia, não levando em conta o processo de construção histórica que o gênero possui e a interligação entre essas três contradições para a compreensão dos papéis sociais que são desenvolvidos por homens e mulheres no cotidiano. Segundo Saffioti (2004), o sujeito constituído em gênero, classe e raça/etnia não apresenta homogeneidade. Dependendo das condições históricas vivenciadas, uma destas faces estará proeminente, enquanto as demais, ainda que vivas, colocam-se à sombra da primeira. Ainda de acordo com as análises de Saffioti (2004a, p. 45) sobre os seus estudos acerca de gênero, é necessário mencionar que a autora faz uma diferença na utilização do conceito de gênero e patriarcado: Considerando a história como processo, admitindo a utilização do conceito de gênero para toda a história, como categoria geral, e o conceito de patriarcado como categoria especifica de determinado período, [...] (p.45). Tomando como base essa assertiva, pretendemos utilizar como subsídio neste trabalho o conceito de patriarcado, levando em conta a inserção da mulher no contexto na sociedade capitalista, tal qual historicamente exerce o papel de dominada-explorada pelo homem. Para Santos e Queiroz (2002, s/p) 26. 26 Fernanda Queiroz é assistente social, feminista, professora adjunta da Faculdade de Serviço Social da UERN, e tem contribuído com discussões sobre violência contra a mulher e políticas públicas 34 [...] as desigualdades tornadas naturalizadas e vivenciadas pelas mulheres são fruto de um sistema de opressão e de dominação em que viveu e vive a mulher que é o patriarcado. Ainda conforme as apreensões de Hartmann, citado por Queiroz (2008, p. 51), o patriarcado é: [...] conjunto de relações sociais que tem uma base material e no qual há relações hierárquicas entre homens, e solidariedade entre eles, que os habilitam a controlar as mulheres. Patriarcado é, pois, o sistema masculino de opressão das mulheres. De acordo com essa definição, o patriarcado é um sistema de dominaçãoexploração presente na sociedade de classes. Sua construção se deu de forma assimétrica através da convivência entre homens e mulheres, podendo permear nas relações mesmo sem a presença da figura masculina, como ressalta Saffioti (2004b, p. 119) “as relações são hierarquizadas entre seres socialmente desiguais”. Citamos como exemplo o nascimento de uma criança: muitas vezes o sexo do bebê já “determina” o papel social que este ou esta irá desempenhar ao nascer; se for macho, exercerá funções relacionadas ao âmbito público, e se for fêmea, irá desenvolver atividades voltadas para o universo privado, dando início, ainda na infância, à divisão de tarefas e consequentemente de espaços que cada um/a irá ocupar na sociedade. É verdade que as relações sociais são construídas historicamente e são passíveis de mudanças. No final do século XIX, começaram a se modificar essas “determinações” dos espaços públicos e privados. As mulheres passaram a disputar os mesmos espaços com os homens e isso gerou grandes conflitos, principalmente na instituição família 27 , que teve que se adequar às novas mudanças. Citamos alguns espaços conquistados pelas mulheres no século passado. No âmbito da política, tivemos o direito ao voto e a ser votada; há a inserção na academia; nos esportes; no trabalho fora de casa; e a conquista de direitos trabalhistas, como a licença maternidade. Embora tenham sido conquistas na sua voltadas para as mulheres. Nessa pesquisa, foram utilizados alguns artigos científicos e o livro: Não se rima amor e dor: cenas cotidianas de violência contra a mulher. 27 De acordo com a definição de Osterne (2001), família congrega um conjunto de palavras afins: pai, mãe, filhos, casa, unidade doméstica, casamento e parentesco. A família tida como “legitima”, “normal”, que se interioriza no imaginário da maioria das pessoas, caracteriza-se como um conjunto de indivíduos aparentados que se ligam entre si por aliança, casamento, filiação, adoção ocasional ou afinidade. É pressuposto comum que esses indivíduos habitem um mesmo teto. Para mais informações, consultar o livro Família, pobreza e gênero: o lugar da dominação masculina. 35 maioria restritas a algumas mulheres de classe média, não podemos deixar de compreender a importância desses avanços para a época. Discorrendo sobre a importância que o conceito de gênero tem na atualidade e por que devemos entendê-lo para melhor compreender as relações entre homens e mulher, concordamos com Cisne (2012, p. 78) ao afirmar que: O conceito de gênero veio também no sentido de analisar de maneira relacional a subordinação da mulher ao homem, ou seja, os estudos sobre as mulheres não deveriam apenas limitar-se à categoria mulher, mas esta deve sempre ser analisada de forma relacional ao homem. Portanto, não é possível abordar questões referentes às mulheres sem levar em consideração o sujeito masculino. Existe uma relação indissociável entre os dois que nos auxilia na compreensão da construção estabelecida de forma desigual entre homens e mulheres. Como ressaltamos anteriormente, estamos todos/as inseridos/as numa cultura patriarcal e machista, na qual o homem historicamente vem se sentindo superior à mulher. Em decorrência disso, em algumas relações afetivas, os homens utilizam do seu poder de “macho” para manterem as mulheres sob o seu controle. Ao sentirem-se ameaçados por não estarem cumprindo o seu papel de dominador, utilizam de mecanismo que mostre o seu domínio da situação. Uma das formas que encontram é o exercício da violência contra a mulher. Sobre a questão do poder nas relações, Saffioti (2004, p. 84) analisa que: O poder apresenta duas faces: a da potencia e a da impotência. As mulheres são socializadas para conviver com a impotência; os homens – sempre vinculados à força – são preparados para o exercício do poder. Convivem mal com a impotência. Acredita-se ser no momento da vivência da impotência que os homens praticam atos violentos, estabelecendo relações desse tipo. Vale ressaltar que o poder, nesta situação, está vinculado diretamente ao exercício da dominação-exploração da mulher por parte do opressor. Para Queiroz (2008, p. 54) “a violência contra a mulher é uma das cruéis e rotineiras expressões de força do sistema patriarcal de gênero”. Ao adentrarmos a discussão da violência, é importante que se faça algumas considerações sobre os principais termos utilizados por estudiosas do assunto e mencionar qual adotamos nesse trabalho. Autoras como Teles e Melo (2002, p. 18) usam o termo violência de gênero para se referir à “relação de poder de dominação do homem e de submissão 36 da mulher”. Discordamos da utilização dessa nomenclatura pelas autoras por entendermos que fica subtendido quem é o sujeito que oprime e quem é o/a oprimido/a. Mais uma vez ocultando a mulher da situação de violência que vivencia no seu dia a dia. Conforme Saffioti (2004a, p. 71): [...] violência de gênero pode ser perpetrada por um homem contra outro, por uma mulher contra outra. Todavia, o vetor mais amplamente difundido da violência de gênero caminha no sentido do homem contra a mulher, tendo a falocracia como caldo de cultura. Embora a autora leve em consideração a cultura machista e patriarcal na utilização do termo gênero acompanhado de violência, ainda assim optamos por usar a nomenclatura de violência contra a mulher, uma vez que optamos por afirmar o sujeito que sofre a violência. Outros termos relacionados à violência citados por Saffioti (2004a, p. 71) dizem respeito: A violência familiar que envolve membros de uma mesma família extensa e nuclear, levando-se em conta a consaguinidade e a afinidade. [...] pode ocorrer no interior do domicilio ou fora dele, embora seja mais frequente o primeiro caso. A violência intrafamiliar extrapola os limites do domicilio. A violência doméstica apresenta pontos de sobreposição com a familiar. Atinge, porém, também pessoas que, não pertencendo à família, vivem, parcial ou integralmente, no domicilio do agressor, como é o caso de agregadas (os) e empregadas (os) domésticas (os). Segundo Fernanda Queiroz (2008, p. 28), [...] foram as feministas americanas as primeiras a denunciarem as violências sexuais a partir do inicio dos anos 1970” (p.26), e aqui no Brasil começa a se popularizar o termo violência contra a mulher devido “às mobilizações feministas contra o assassinato de mulheres ‘por amor’ e ‘em defesa da honra’ no final dos anos 1970 28. Mediante essas manifestações, ainda na década de 1980, os movimentos feministas e de mulheres “conseguiram garantir” alguns direitos, seja através do Estado (criação de delegacias) ou da sociedade civil (criação dos SOS Mulher29). Podemos citar alguns exemplos de pautas desses movimentos atendidas pelo 28 Na década de 1970, o assassinato de uma mulher que ganhou repercussão nacional foi a morte de Ângela de Diniz pelo o seu ex-companheiro Doca Street, que não aceitava o fim do relacionamento e resolveu tirar a vida da ex com tiros de revolver no rosto e na cabeça. Ao ser julgado, foi absolvido, em virtude de o juízo aceitar como argumento do réu: matar em legitima defesa da honra. Revoltadas com esse resultado, as mulheres saíram às ruas protestando com o lema: “quem ama não mata”. Exigiam proteção do poder público e punição para os agressores que cometessem qualquer ato violento ou criminoso contra suas companheiras. 29 Os SOS Mulher foram espaços de escuta e denúncia das mulheres em situação de violência criados pelos movimentos feministas e sociedade civil. 37 governo recentemente: a aprovação da Política Nacional para as Mulheres, mais especificamente com foco no enfrentamento a violência contra as mulheres (2011b)30. Dentre os elementos presentes na Política Nacional, apresentamos o conceito de violência, compreendido como “uma das principais formas de violação dos seus direitos humanos, atingindo-as em seus direitos à vida, à saúde e à integridade física” (p.11). Ao analisar essa definição, conseguimos fazer uma articulação com a pesquisa de campo, na qual foi perguntado às entrevistadas o que elas entendiam por violência contra a mulher. Obtivemos respostas, tais como: A forma mais concreta e mais cruel da discriminação onde se materializa a discriminação e a opressão da mulher e por meio da violência nas suas diversas formas e expressões que se materializa a desigualdade, a opressão e a discriminação contra a mulher. (ENTREVISTADA 01) Ela é quase uma peça fundadora assim da nossa cultura, a violência esta inserida nas relações que envolvem poder, envolve dominação, submissão e não tem como as pessoas não saberem o que é violência doméstica [...] a violência é todo esse processo histórico que a gente construiu que define padrões de comportamentos entre homens e mulheres e principalmente padrões negativos, relacionados à dominação, a submissão, a exercício de poder, estão muito comum na nossa vida. (ENTREVISTADA 08) Considero uma violação dos direitos humanos da mulher um problema muito complexo devido à forma que é tratada, ainda é tratado como um problema individual. (ENTREVISTADA 03) A Entrevistada 03 entende a violência como uma violação de direitos que ainda permanece de forma velada no âmbito privado, sendo “a vítima” responsável pela sua coibição. As demais entrevistadas compreendem a violência contra a mulher a partir do patriarcado, estando relacionada com o processo histórico. Essa compreensão poderá fazer a diferença no campo de atuação, partindo do pressuposto de que nos atendimentos das mulheres em situação de violência seria fundamental uma reflexão e desconstrução da usuária acerca da sua condição. Nessa perspectiva, é importante explicar que o processo de situação de violência vivenciada é fruto de uma construção histórica, passível de mudanças. 30 A Política Nacional de Enfrentamento a Violência contra a Mulher foi aprovada em 2003 após a existência da SPM e tem como objetivo explicitar os fundamentos conceituais e políticos do enfretamento à questão, que têm orientado a formulação e execução das políticas públicas formuladas e executadas para a prevenção, combate e enfrentamento à violência contra as mulheres, assim como para a assistência às mulheres em situação de violência (BRASIL, 2011b, p.10) No tópico 2.3 deste capitulo abordaremos sobre o assunto. 38 Uma das principais estudiosas acerca da violência contra a mulher utilizada em nosso trabalho define a violência da seguinte maneira: Violência quer dizer uso da força física, psicológica ou intelectual para obrigar outra pessoa a fazer algo que não está com vontade; é constranger, é tolher a liberdade, é incomodar, é impedir a outra pessoa de manifestar seu desejo e sua vontade, sob pena de viver gravemente ameaçada ou até mesmo ser espancada, lesionada ou morta, enfim, é uma violação dos direitos essenciais do ser humano. (QUEIROZ, 2008, p. 20). Para a referida autora, a violência contra a mulher é um dos piores sofrimentos causado ao ser humano, atinge as mulheres em todas as dimensões: física emocional, financeira e psicológica, além de perpassar as classes sociais. Esse fenômeno é vivenciado nos diversos espaços sociais e, principalmente, no âmbito privado. Sobre os tipos de violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha (BRASIL, 2013a) categorizou cinco tipos, como observamos abaixo: I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Como exposto anteriormente, a violência contra a mulher, em todas as suas formas e manifestações, é uma das principais formas de dominação/exploração de um sexo sobre o outro, neste caso, do homem sobre a mulher. Ela é uma das expressões da questão social que precisa urgentemente de uma intervenção efetiva por parte dos órgãos públicos – ministério público, delegacia de defesa da mulher, centro de referência da mulher e os demais equipamentos 39 componentes da rede de atendimento à mulher, bem como uma mudança nas estruturas da sociedade. No tópico seguinte, iremos, de forma sucinta, fazer um apanhado das políticas públicas para as mulheres no Brasil. 3.2 Conceituação e modelo de análises de políticas públicas no Brasil implantação dos conselhos das mulheres. No Brasil, embora tenha passado por transformações políticas, econômicas e sociais ao longo dos anos, ainda existem resquícios da política clientelista em sua cultura – sobre benefícios na troca de favores. Ainda lentamente, e por conta de uma maior fiscalização, o poder público vem tentando garantir as políticas públicas como direitos. Sobre isso temos a seguinte afirmação na cartilha políticas públicas para as mulheres da SPM (2013, p. 6) “o papel a ser desempenhado pelo Estado é de fugir das antigas práticas clientelistas, não contaminando as políticas públicas preocupadas e realizadoras dos direitos básicos das mulheres”. A Constituição de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, é um marco na história do Brasil com relação aos direitos sociais conquistados. Foi a primeira que teve na sua elaboração a participação de diversos movimentos sociais. Este documento confirma os direitos fundamentais do ser humano, como saúde, educação, moradia, assistência social, transporte público, dentre outros. A Constituição Federal de 1988 foi inovadora ao superar a visão assistencialista voltada às políticas públicas ou programas sociais quando visou à máxima potencialização dos direitos fundamentais da pessoa. Especialmente os direitos sociais, no intuito da realização da cidadania de todas as pessoas, incluindo, aí, a cidadania feminina plena. (CARTILHA SPM, 2013, p. 5) A partir desse documento, o país retoma o caminho da democracia e da liberdade, estabelece mudanças em diversos âmbitos da sociedade brasileira e resgata o diálogo dos movimentos sociais com o Estado. Retomando as discussões iniciadas no capitulo I sobre a contribuição dos movimentos sociais na conquista de políticas públicas voltadas para as mulheres, iremos, de forma sucinta, pontuar as correntes que o feminismo brasileiro vivenciou, tomando como referencia as apreensões de Costa (2013, p. 27): 40 Durante o século XX, surgem no cenário nacional três diferentes correntes 31 do feminismo. A primeira foi influenciada por Bertha Lutz , que, durante a fase inicial do feminismo no Brasil, foi um nome de grande expressão por centrar sua luta na inclusão das mulheres como cidadãs. A segunda corrente, denominada feminismo difuso, era composta pelas mulheres pertencentes à ala considerada culta, através da participação de feministas professoras, escritoras e jornalistas, que expressam suas manifestações através da imprensa, principalmente nos jornais feministas da época. Já na terceira corrente, as mulheres advinham do movimento anarquista e do Partido Comunista Brasileiro, tinham como principal luta a libertação da mulher e pautavam o fim da exploração do trabalho feminino. Diante dos acontecimentos que marcaram a história do país, é importante mencionar que as mulheres tiveram grande participação na luta contra a ditadura nos anos 1960, na luta por direitos civis como o divórcio, a educação superior e a inserção nos diversos campos de trabalhos até então considerados lugares masculinos. A década de 1970 foi um marco dos movimentos feministas e de mulheres com inúmeras manifestações nas ruas em repúdio à violência contra as mulheres, contra os assassinatos de mulheres por seus parceiros em nome da honra. Ressaltamos que, em resposta às lutas das mulheres, foram criados equipamentos tanto por parte do Estado como da sociedade civil, dos quais citamos o SOS Mulher, implantado em algumas capitais por feministas, e, no âmbito do governo, foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. O conselho nacional dos direitos da mulher (CNDM) foi criado em 1985, vinculado ao Ministério da Justiça, para promover políticas que visassem eliminar a discriminação contra a mulher e assegurar sua participação nas atividades políticas, econômicas e culturais do país. (BRASIL, 2013). Além do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), as delegacias de atendimento às mulheres e as casas abrigos também são resultantes dessas demandas dos movimentos feministas, o que levou as mulheres a continuarem a luta em busca da conquista de direitos. Segundo Costa (2013), em 1980 surgiram, nacionalmente, várias organizações de apoio à mulher em situação de violência, cabendo o pioneirismo ao 31 Lopes (2013, p.53) afirma que: “Bertha Lutz é uma das pioneiras da luta pelo voto feminino e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres no Brasil, luta que travou desde 1918. Em 1919, junto com outras mulheres, criou a Liga para a emancipação intelectual da mulher, que foi o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Foi a segunda mulher a ingressar no serviço público brasileiro. Em 1936, ela assumiu o mandato de deputada federal na vaga deixada pelo titular Cândido Mendes (REVISTA FÊNIX, 2007).” 41 SOS mulher de São Paulo, que oferecia atendimento às mulheres, configurando-se como espaço de reflexão e objetivando alterações positivas em suas vidas. Ainda de acordo com Costa (2013), é importante reconhecer que o movimento feminista e o movimento de mulheres são os verdadeiros protagonistas no que se refere aos direitos das mulheres. Através de lutas, campanhas nas ruas e muita articulação política com os demais movimentos, foi possível conquistar alguns direitos femininos, como a inserção no mercado de trabalho, o divórcio, a lei de proteção das mulheres em situação de violência doméstica, como a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), algumas políticas públicas, dentre outros. Sobre a função do Estado, a cartilha sobre as políticas públicas para as mulheres (2013, p. 17), dispõe: A função de um Estado democrático é justamente elaborar políticas que reconheçam as desigualdades econômicas e políticas entre homens e mulheres. É legítimo atuar pensando em uma lógica de políticas públicas de “gênero” que considere o impacto diferenciado para homens e mulheres, e que também reconheça a legitimidade a ações específicas voltadas para o fortalecimento das mulheres que, enquanto grupo social diferenciado, estão em condições subordinadas na sociedade Refletindo sobre o papel do Estado na implementação de políticas voltadas para a população feminina, consideramos que houve avanços significativos no que se refere às políticas públicas para as mulheres, embora ainda não seja o ideal, mas os primeiros passos foram dados para construirmos uma sociedade que almeja a emancipação dos sujeitos, com igualdade entre homens e mulheres. No tópico seguinte, faremos um resgate sobre as políticas públicas destinadas às mulheres e como elas vêm se estruturando no Brasil atualmente. 3.3 Política para as mulheres e instrumentos normativos. Como visto anteriormente, é a partir das manifestações feministas que são criadas as delegacias de atendimento à mulher, os conselhos de direitos das mulheres, os grupos SOS mulher em algumas capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Curitiba e outras. Podemos constatar, de acordo com Costa (2013, p. 33), que: O movimento feminista foi grande impulsionador das políticas para as mulheres no Brasil. Suas reivindicações e bandeiras de lutas determinaram 42 a criação dos serviços e instituições destinadas às mulheres, sendo inegável sua influência na criação e fortalecimento dessas políticas. Segundo a Articulação de Mulheres Brasileira – AMB, o conceito de “políticas para mulheres” traduz a proposta feminista de criação de políticas favoráveis à mudança das condições de vida das mulheres, considerando a realidade de que esse é um grupo submetido à exploração e à opressão capitalista, patriarcal e racista. Portanto, nós, mulheres feministas, demandamos políticas públicas que sejam de promoção da igualdade e da justiça social (2011, p.19-20). De acordo com Godinho (2004, p. 55), “desde os anos 1980, o movimento de mulheres no Brasil reivindica que os governos elaborem e atuem na construção de políticas públicas tendo como foco as mulheres como cidadãs”. Vale mencionar que não basta a criação de políticas públicas para toda a população, as mulheres possuem demandas específicas e devem ser levadas em consideração. Citamos como exemplo o enfretamento à violência doméstica, no qual a maioria das “vítimas” é de mulheres e precisa de ações por parte do poder público que coíba a violência vivenciada por elas cotidianamente. Em resposta a essas demandas, o Brasil aderiu em 1995 à Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, conhecida como Convenção de Belém do Pará, que tem como objetivo o enfrentamento à violência doméstica contra a mulher. É nessa convenção que surge o conceito de violência doméstica mais utilizado em estudos, pesquisas e que foi adotado na Lei Maria da Penha - LMP. Com essa ratificação, o país se compromete a elaborar políticas públicas que garantam às mulheres acesso aos seus direitos e à proteção do Estado. Portanto, é importante ressaltar que é através de convenções, de criação de equipamentos públicos e de legislações que o movimento de mulheres vem garantindo junto ao governo avanços nas políticas públicas voltadas para elas. Retomando o que já foi mencionado no capitulo I, sobre a criação da Secretaria de Políticas para Mulheres e dos instrumentos normativos que procuram garantir os direitos para as mulheres, é através da SPM que começam a se expandir as políticas públicas voltadas para as mulheres, como podemos constatar abaixo: Com a criação da Secretaria de Políticas para Mulheres em 2003, as ações para o enfrentamento à violência contra as mulheres passam a ter um maior investimento e a política é ampliada no sentido de promover a criação de novos serviços (como o Centro de Referência de Atendimento às Mulheres, 43 as Defensorias da Mulher, os Serviços de Responsabilização e Educação do Agressor, as Promotorias Especializadas) e de propor a construção de Redes de Atendimento às mulheres em situação de violência. (BRASIL, 2011a, p.16) Após a criação da SPM, as políticas para as mulheres passaram a ter centralidade e organização estrutural. O governo, juntamente com os movimentos sociais e sociedade civil, construiu estratégias voltadas para a prevenção e combate da violência no país. Sobre essas ações, o “Balanço de 2003-2010 e desafios do presente”, feito pela Articulação de Mulheres Brasileira – AMB (2011, p. 20), ressalta que: Logo que o governo Lula iniciou seu primeiro mandato, deu sinais de que a superação das desigualdades vividas pelas mulheres seria assumida como um desafio. Não deixaram dúvidas a esse respeito três ações importantes: a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), com status de Ministério; a convocação da I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, com a responsabilidade de definir as diretrizes nacionais e estabelecer as prioridades para uma Política Nacional para Mulheres; e a criação do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. Porém, o documento citado acima faz uma crítica sobre a falta de recursos financeiros ter dificultado a realização das ações como estavam estabelecidas nas normas: A criação da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres no primeiro escalão do governo foi uma importante iniciativa. Contudo a estrutura insuficiente e o orçamento reduzido desse órgão impuseram limites severos para o enfrentamento das estruturas patriarcais que organizam o Estado e orientam as políticas e as finanças públicas. (AMB, 2011, p.21) Podemos mencionar, durante essa época, a importância do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, criado em 2004, para consolidar a Política Nacional. Este, entre outras coisas, consiste em: Um acordo federativo entre o governo federal, os governos dos estados e dos municípios brasileiros para o planejamento de ações que consolidassem a Política Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as Mulheres por meio da implementação de políticas públicas integradas em todo território nacional. (p.11) Possui como os novos eixos: 1) Garantia da aplicabilidade da Lei Maria da Penha; 2) Ampliação e fortalecimento da rede de serviços para mulheres em situação de violência; 3) Garantia da segurança cidadã e acesso à Justiça; 4) Garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, enfrentamento à exploração sexual e ao tráfico de mulheres; 5) Garantia da autonomia das mulheres em situação de violência e ampliação de seus direitos. (BRASIL, 2011c, p.). As ações de planejamento e execução da Política Nacional de Enfretamento à Violência contra as mulheres estão pautadas nos eixos do pacto, o 44 que foi mais uma grande conquista para todas as mulheres, criado em 2004 após a primeira conferência nacional de mulheres, passando por uma revisão em 2007, quando se fará uma avaliação do mesmo. O pacto para Costa (2013, p. 40) representa: Um marco regulamentador das políticas para as mulheres no eixo da violência contra a mulher é o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, fruto das discussões da II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em agosto de 2007, que ampliou e criou novos eixos de intervenções. No próximo capitulo, iremos nos deter especificamente à política de enfrentamento à violência em Fortaleza, analisando a implantação de um dos equipamentos de proteção das mulheres em situação de violência, que é o Centro de Referencia da Mulher Francisca Clotilde, bem como o olhar de quem participou da criação e/ou atuou na instituição nos primeiros anos de funcionamento. 45 4 CONTEXTUALIZAÇÃO DA POLÍTICA DE ENFRENTAMENTO A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES EM FORTALEZA/CE. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2012), Fortaleza chega a 2,5 milhões de habitantes e segue como a quinta cidade mais populosa do Brasil. O Ceará é o terceiro estado da região Nordeste, com 8.606.005 pessoas. A capital fica localizada na região nordeste do estado e possui o turismo como uma das principais atividades econômicas devido às suas belas praias. Não se pretende aqui fazer uma análise de contexto político do Estado do Ceará no século XX, mas é importante mencionar que o modelo da política até os anos 1980 era conhecido como a política dos coronéis32, no qual podemos citar os governadores mais conhecidos, como Adauto Bezerra, César Cals e Virgilio Távora, que “comandaram” o estado durante o período da ditadura militar. Com a redemocratização do país, há uma mudança nesse formato de política. No Ceará, ocorreu, em 1986, as eleições para governador do estado, tendo Tasso Jereissaiti sido eleito com apoio dos empresários do Centro Industrial do Ceará – CIC33. Nessa gestão, o estado começa a se “modernizar” com as instalações de indústrias, a ampliação da cidade, a entrada da capital no circuito do turismo. Há uma transformação significativa do estado nessa década. Mesmo que seja um período contraditório na nossa historia, não podemos omitir tais “avanços”, uma vez que é pertinente reconhecer que foram dados os primeiros passos para o desenvolvimento, principalmente da capital. No que se refere à cidade de Fortaleza, durante anos foi administrada por “partidos considerados de direita”, dos quais se sabe que a forma de governar beneficia uma pequena minoria da população - a categoria de empresários, principalmente. A preocupação girava em torno da política econômica, do 32 Segundo Iglésias (1993), o coronelismo é o máximo da expressão do privado, leva ao mandonismo que confunde poder político com econômico. O apelo do presidente da república aos presidentes dos estados e destes aos das várias unidades que o compõem mais fortalece o vigor desses chefes. De modo simplificado, coronelismo é o poder local exercido pelo reconhecimento de autoridade de alguém. O sistema se baseia em troca de favores: o homem comum apoia o coronel e é por ele protegido. 33 Para maiores informação, consultar a tese de doutorado de Maria Cristina de Queiroz Nobre, cujo titulo é: Modernização do atraso: A hegemonia burguesa do CIC e as alianças eleitorais da “era Tasso”, 2008. 46 crescimento da capital, da realização de grandes obras. Os investimentos nas questões básicas, como assistência, saúde, educação e moradia, que contemplariam a grande massa da população, foram deixados pra segundo plano ou executadas ações pulverizadas, fragmentadas e de curto prazo. Em 2004, há uma mudança de governo no poder. Passados quase 20 anos, o partido dos trabalhadores – PT volta a vencer as eleições na capital, com Luizianne Lins como candidata a prefeita da cidade, tornando-se a segunda mulher a governar a capital 34 e com muitos desafios pela frente. Segundo o programa de governo do candidato Elmano de Freitas 35 , ao assumir o governo municipal, a prefeita Luizianne Lins iniciou o processo de inversão de prioridades e o redesenho das ações da prefeitura, colocando a máquina pública para atender às demandas sociais da cidade, principalmente àquelas que diretamente atingem à maioria da população: os trabalhadores e as demais camadas populares. (Programa de Governo, 2012). Podemos mencionar, como exemplo dessas “mudanças de prioridades”, a criação da Secretária Municipal de Assistência Social – SEMAS e a criação da Coordenadoria de Políticas para as Mulheres em Fortaleza, esta ultima vinculada ao gabinete da prefeita. De acordo com documentos analisados, a coordenadoria foi resultado das reivindicações dos movimentos feministas e movimentos de mulheres atuantes na capital. Constatamos essa referência sobre a criação da coordenadoria na fala de uma das interlocutoras: Com o governo da ex-prefeita a gente criou a coordenadoria de políticas para as mulheres, nós tivemos algumas feministas que assumiram alguns cargos no caso eu me enquadro nessa categoria ai. Então um dos principais objetivos da coordenadoria era enfrentar essa violência e logicamente nesse enfrentamento propor políticas, ações afirmativas de prevenção, controle e combate a essa violência. (ENTREVISTADA 01) Como percebemos nessa fala, a entrevistada ressalta o principal objetivo da Coordenadoria na época em que foi criada. Ela também confirma o que já 34 Em 1985, Maria Luiza Fontenele é eleita a primeira prefeita de Fortaleza pelo Partido dos Trabalhadores – PT. Segundo Nobre, essa eleição marca o início da ascensão eleitoral desse partido na capital cearense, onde sempre tem tido significativa votação. 35 Elmano de Freitas foi candidato a prefeito de Fortaleza em 2012, chegando a disputar as eleições no segundo turno com o atual prefeito, Roberto Claudio. Atualmente, é presidente do diretório do PT da capital. 47 apontamos no primeiro capitulo acerca do perfil das entrevistadas serem em sua maioria de feministas. Com a existência de um órgão responsável pela elaboração de políticas púbicas voltadas para as mulheres em Fortaleza, as questões relacionadas a esse segmento da população tornaram-se em parte visibilizadas pelo o poder público. Deter-nos-emos sobre a criação da Coordenadoria de Mulheres no tópico seguinte. 4.1 A implantação da política de enfrentamento a violência contra as mulheres e a criação da Coordenadoria Especial de Políticas para Mulheres no município de Fortaleza. No inicio dos anos 2000, tivemos uma “transformação” no cenário político e econômico no Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva assume a presidência da república, em seguida cria a Secretaria de Política para as Mulheres - SPM, com status de ministério. A mesma foi criada através da medida provisória 103, com o objetivo de desenvolver ações conjuntas com todos os Ministérios e Secretarias Especiais na elaboração e execução de políticas públicas para as mulheres. Com a existência da referida secretaria, tornou-se possível a ampliação do número de equipamentos e a criação de instrumentos normativos que protegessem as mulheres e garantissem os seus direitos que, durante séculos, foram negados ou negligenciados. Em Fortaleza, como mencionamos anteriormente, no governo de Luizianne Lins há uma mudança no panorama político e social da cidade. Ao assumir a prefeitura em 2005, dentre as ações planejadas, a prefeita coloca em pauta a estruturação de políticas públicas para diversos segmentos, como juventude, população LGBT, negros, idoso e mulheres. Todavia, essas mudanças só foram possíveis mediante a criação de organismos, como coordenadorias e secretarias, que tentassem garantir a elaboração, execução e avaliação das políticas voltadas para esses grupos. Vale ressaltar que, antes da criação da Coordenadoria de Políticas para as Mulheres, no que se refere ao enfretamento à violência contra a mulher em Fortaleza, uma das entrevistadas menciona que no primeiro ano de governo houve uma mobilização entre as diversas secretarias para se trabalhar a questão da violência de forma intersetorial. Dessa atividade, resultou a criação do GT mulher, 48 composto por representantes de cada órgão municipal, como podemos constatar abaixo: No dia 8 de Março [2005] cada secretária criou uma ação. Na saúde teve a questão da saúde da mulher, o debate da violência ser um problema de saúde pública [...]. Na Etufor [Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza] uma das marcas que eu achei muito importante, foi à tribuna das mulheres dos terminais [...]. A educação com a temática e na assistência [também]. Então esses GTs foram criados juntamente nesse primeiro ano, nós criamos o programa municipal de enfrentamento da violência contra a mulher. (ENTREVISTADA 02) De acordo com a fala da entrevistada, observamos que o programa de enfrentamento à violência contra a mulher foi elaborado antes dos equipamentos de proteção à mulher em situação de violência. O que existia anteriormente à implementação de tais instituições eram ações desenvolvidas por cada entidade governamental, de forma separada, pois não havia um trabalho articulado em rede 36 para as mulheres que precisavam dos serviços. Como mencionado anteriormente, a criação da coordenadoria atende uma demanda histórica dos movimentos feministas e de mulheres presente na capital, que há tempos cobravam a existência de um órgão público que pautasse as políticas voltadas para as mulheres. A luta desses movimentos era e ainda é pela construção de uma sociedade igualitária entre homens e mulheres. É importante afirmar que não basta criar órgãos públicos se não forem dadas condições mínimas para desenvolver as atividades propostas: “a coordenadoria foi criada em 2005, mas só vai passar a existir oficialmente em 2007 com a reforma administrativa do governo” (ALVES, 2008, p. 23). Uma das entrevistadas afirma que: [...] Era uma “coordenadoria”, mas não era criada em lei ainda, então a gente tava em seis meses de governo, era um desejo de fazer, coragem e articulação e o poder também que a gente tinha junto a prefeita. (ENTREVISTADA 02) De acordo com Alves (2008), a Coordenadoria de Políticas para as Mulheres foi instituída com o principal papel de coordenar, elaborar e implementar ações que transformassem a vida das mulheres de Fortaleza, com a estratégia de 36 Segundo documento: Rede de Enfretamento à Violência contra as Mulheres da SPM (2011e), o conceito de rede de enfrentamento à violência contra as mulheres diz respeito à atuação articulada entre as instituições/serviços governamentais, não-governamentais e a comunidade, visando ao desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e de políticas que garantam o empoderamento e construção da autonomia das mulheres, os seus direitos humanos, a responsabilização dos agressores e a assistência qualificada às mulheres em situação de violência. 49 desempenhar seu trabalho de forma articulada com as demais instituições e secretarias do município, tendo como base cinco eixos de atuação 37. O primeiro eixo está relacionado com a inclusão e autonomia econômica, e tinha como objetivo “promover autonomia econômica das mulheres, com a perspectiva do rompimento da divisão sexual do trabalho; com prioridade para as mulheres pobres” (ALVES, 2008, p. 25) 38 . Para ilustrar, apontaremos algumas atividades que foram realizadas sob a coordenação desse eixo disponíveis em documentos institucionais. No ano de 2006, a coordenadoria, em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social – SEMAS, desenvolveu dois projetos com mulheres de Fortaleza: o primeiro foi mulheres pedreiras, chegando a capacitar mais de 120 mulheres que eram atendidas nos Centro de Referência e Assistência Social – CRAS e no Centro de Referência da Mulher – CRM. Ao final da capacitação, algumas destas conseguiram inserção no mercado de trabalho, a exemplo das mulheres que trabalharam na construção de casas habitacionais e nas obras no Estádio Castelão. O segundo projeto mencionado nos documentos como ação prioritária foi inclusão produtiva, executado em 2007/2008, tendo capacitado mais de 1.500 mulheres beneficiárias do Programa Bolsa Família. Na época, tinha o objetivo de proporcionar empreendimentos econômicos partindo da concepção feminista da economia solidária39 através de realização de capacitação nas áreas de alimentação, confecção, construção civil e manutenção e montagem de computadores. Embora se reconheça a importância dessas capacitações para as mulheres, não podemos deixar de pontuar que alguns cursos ofertados são voltados para atividades do lar. Isso reafirma o que foi discutido no capitulo I sobre a divisão dos espaços públicos e privados. Entretanto, não deixemos de refletir partindo da premissa de que tenha havido dificuldades em conseguir parcerias com empresas e/ou instituições que ofertassem outros cursos voltados para as áreas predominantemente masculinas. 37 Iremos, de forma sucinta, abordar as principais ações desenvolvidas através de cada eixo, levando em consideração que estamos falando do período de criação da Coordenadoria de Mulheres. 38 Para mais informações, consultar o artigo de Pessoa e Viana: O trabalho das mulheres: caminho para a autonomia (2008). 39 Para adentrar o assunto de economia solidária, ler as produções do estudioso da área, Paul Singer (1999). 50 Outro eixo de atuação da coordenadoria, ainda conforme os documentos consultados, é o de saúde e equidade de gênero, que tinha como objetivos: [...] propor, articular, monitorar e avaliar as ações de atenção integral nos vários ciclos vitais e nos vários níveis de complexidade, com foco nos 40 direitos sexuais e reprodutivos. (ALVES, 2008, p. 25) . Nesse eixo, a proposta era de trabalhar estratégias que visassem à garantia dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e às questões da liberdade do corpo, além seu ciclo gravídico-puerperal. Citamos, por exemplo, a construção de um hospital de referência à época 41 para atender somente mulheres. O terceiro eixo que mencionaremos é o da participação e controle social. Como consta nas fontes pesquisadas, são espaços de deliberações e fiscalização das políticas públicas na cidade, e tinha como objetivo estimular as mulheres a se inserirem nesses locais e decidirem em conjunto com as/os demais participantes. Um exemplo de ação desse eixo foi a participação das mulheres no Orçamento Participativo – OP 42 , um instrumento que possibilitava a participação da população junto ao poder público na elaboração, execução e fiscalização das ações do governo municipal. Foi através desse eixo que foram realizadas a 2ª e 3ª Conferência das Mulheres em Fortaleza. O quarto eixo de atuação que ressaltamos é educação e cultura nãodiscriminatória, que, de acordo com materiais institucionais, consistia em [...] elaborar estratégias que diminuísse as desigualdades entre mulheres e homens nas áreas de educação e cultura, buscando parcerias que promovesse a discussão e formação sobre os temas em questão, bem como facilitasse o acesso das mulheres a essas políticas. (ALVES, 2008, p. 25). E, por fim, o quinto eixo componente das ações da coordenadoria, à época, é a prevenção e assistência à mulher em situação de violência, responsável por coordenar campanhas de enfrentamento à violência nos meses de março e novembro. Neste eixo, estão vinculados os dois equipamentos públicos municipais 40 Para mais esclarecimentos, consultar o artigo de Góes: Diretos sexuais e reprodutivos e a cidadania das mulheres: a prevenção da mortalidade materna como alvo. (2008). 41 Atualmente, o hospital encontra-se em funcionamento, atendendo toda a população de Fortaleza, perdendo a sua função de origem, que era atender especificamente a população feminina. Existe um projeto a ser aprovado na Câmara Legislativa para alteração do nome do hospital. 42 Para maiores informações, pesquisar o artigo de Silva, Holanda, Viana: Mulheres, participação e controle social: experiências e desafios para a gestão municipal. (2008) 51 de atendimentos às usuárias em situação de violência: o CRM Francisca Clotilde e a Casa Abrigo Margarida Alves. A partir da análise desse eixo, é perceptível a importância de se tratar o fenômeno da violência com um problema a ser enfrentado pelo poder público juntamente com a sociedade civil. Ressaltamos que uma das entrevistadas mencionou a naturalização da violência contra a mulher como um dos maiores desafios a serem trabalhados no seu combate. Ela atribui ao estado o papel de coibir esse fenômeno, como verificamos abaixo: A violência passou ser a principal questão e uma coisa essencial era desnaturalizar essa violência, a violência não era enfrentada e nem se quer percebida por que existia uma naturalização, então o nosso papel no inicio da primeira gestão era desnaturalizar essa violência e fazer com que o Estado assumisse o seu papel diante dessa problemática (ENTREVISTADA 01). Concordamos com a fala da entrevistada quando afirma que trabalhar com a desnaturalização da violência é uma função difícil, cabendo ao estado o papel de intervenção neste fenômeno. Diante dessa afirmação sobre a naturalização da violência contra a mulher e da responsabilidade que o Estado deveria ter na prevenção e combate a todas as formas de violência, discorremos a partir do olhar das profissionais que atuaram na gestão e/ou execução da política de enfrentamento a violência em Fortaleza no período de 2005-2012. Solicitamos que as interlocutoras avaliassem a política nos referidos anos, obtendo como respostas: A política como um todo eu acho que avançou com a criação dos equipamentos: CRM, Casa Abrigo e o Hospital da Mulher [...] Mas eu acho que o que dificultou para essa política não ter sido uma marca geral, no âmbito do governo como um todo, foi ela ter ficado muito na coordenadoria [...] (ENTREVISTADA 02). Eu avalio como uma política madura, que produziu um impacto na cidade, é uma política responsável, comprometida com as reivindicações do movimento feminista, modesta parte era uma política bem feita, que se preocupava realmente com o caráter da universalidade, apesar de todos os limites institucionais de uma política do tamanho dessa, tem a questão dos recursos, nunca tem recursos suficientes para implementar todos os projetos, os limites são grandes nesse sentido, mas assim é uma política muito importante. (ENTREVISTADA 03) A política de fato passou a existir porque não existia, existia aquele movimento das mulheres que lutavam e tal, e de fato o Centro de Referencia e a Casa Abrigo são frutos das lutas das mulheres por esses espaços em Fortaleza. (ENTREVISTADA 05) 52 Como podemos observar, há analises distintas sobre a política de enfretamento a violência em Fortaleza. Enquanto a entrevistada 03 a exalta falando da sua importância e de como era desenvolvida na cidade, compartilhamos da visão que a interlocutora apresenta de que, mesmo com todos os limites, o impacto que causou na vida das mulheres é perceptível. As demais conseguem fazer ponderações entre os avanços obtidos e o que faltou executar. Duas profissionais mencionam a criação dos equipamentos como uma conquista desta política. A seguir, discorremos sobre o CRM, um dos equipamentos vinculados à Coordenadoria de Mulheres. 4.2 A criação do Centro de Referência Francisca Clotilde – Uma reflexão a partir das profissionais participantes desse processo O Centro de Referência possui esse nome em homenagem à Francisca Clotilde Barbosa Lima, nascida em 1862, natural de Tauá - sertão dos Inhamuns, no Ceará, filha de João Correia Lima e Ana Maria Castelo Branco. Mudou-se ainda criança para a Serra do Baturité e em seguida passou a estudar em Fortaleza, capital da Província, no Colégio Imaculada Conceição, de onde saiu apta para o magistério. Em 1884, por concurso público, foi nomeada com o título de professora para a Escola Normal de Fortaleza. Sua trajetória é marcada por passagens em jornais locais ou nacionais. Foi responsável, juntamente com sua filha, pela criação de uma revista de grande circulação na época, chamada A Estrella. (Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/biografias/1789435). Em 1902, ela publica o romance intitulado A Divorciada, tendo grande repercussão por se tratar de assunto ainda velado na sociedade daquele tempo. Além de professora e poetisa, foi também contista, cronista, jornalista, dramaturga e romancista. Uma mulher que não se limitou aos costumes e regras de sua época, ela viveu sua vida de forma intensa. Portanto, a escolha do seu nome para o CRM é uma homenagem mais que merecida ao reconhecimento das inúmeras contribuições que esta mulher deixou para a história do Ceará. (Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/biografias/1789435). O Centro de Referência Francisca Clotilde, conforme os documentos analisados, surgiu com a missão de atender mulheres vítimas de violência 53 doméstica e sexual, residentes em Fortaleza, com idades entre 18 e 60 anos 43 . A instituição é um equipamento público municipal que desenvolve trabalho multidisciplinar de atendimento às mulheres em situação de violência doméstica e ou/sexual no município de Fortaleza, estado do Ceará. Foi criado com principal objetivo de contribuir para a consolidação do programa de combate à violência sexista por meio de estratégias de atendimento que objetivam o fortalecimento da mulher e a compreensão e prevenção dessa violência, bem como articulação da rede de serviços públicos para atendimento às mulheres 44 . (ZARANZA; GASPAR; MACIEL, 2008, p. 76). Percebemos que a dinâmica de funcionamento do equipamento foi elaborada em consonância com a Norma Técnica de Padronização do Centro de Referência de Atendimento à Mulher, que orienta como devem ser estruturados os centros de referências no Brasil. Conforme a definição da referida Norma, os CRMs são: Estruturas essências do programa de prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher, uma vez que visa promover a ruptura da situação de violência e a construção da cidadania por meio de ações globais e de atendimento interdisciplinar (psicológico, social, jurídico, de orientação e informação) à mulher em situação de violência. Devem exercer o papel de articuladores dos serviços organismos governamentais e nãogovernamentais que integram a rede de atendimento às mulheres em situação de vulnerabilidade social, em função da violência de gênero. (BRASIL, 2006, p.11) Ainda sobre o funcionamento do CRM, uma das interlocutoras comenta que a organização do órgão público iniciou-se muito antes da aprovação do convênio com a Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM. Após o envio do projeto, já começaram a se pensar na formação do quadro de funcionárias/os, nas “responsabilidades” que cada secretaria teria que assumir para garantir que o equipamento viesse a funcionar. Citamos como exemplo o aluguel do espaço físico, compras de materiais, pagamentos de pessoal, dentre outros gastos, como podemos observar na fala abaixo: 43 É importante mencionar que, na época em que estava realizando estágio curricular na instituição, as profissionais estavam analisando a possibilidade de atender mulheres com idade inferior a 18 anos devido às novas configurações que se apresentam na sociedade, como o relacionamento afetivo acontecer ainda na fase da adolescente, em alguns casos. Nessa época, existiam adolescentes que chegavam a procurar os serviços do equipamento. 44 Para maiores informações, consultar o artigo: Políticas públicas de enfretamento da violência contra as mulheres: a experiência de Fortaleza. In: Políticas para as mulheres em Fortaleza: desafios para a igualdade (2008). 54 Enquanto isso [espera da aprovação do projeto] a gente já foi montando mais ou menos essa ideia, mandamos o projeto, mas pensando na equipe [...] antes do projeto ser aprovado nós fomos também pedindo algumas coisas, a saúde entrou com uma parte, a educação com outra (o carro, salário das/os profissionais) no inicio vimos também uma rubrica da assistência que era para a proteção especial e ai nós já conseguimos recursos da assistência social que iriam para o CREAS na época, ai nós pegamos para o Centro de Referência, pra pagar pessoal, a parte dos equipamentos, o aluguel eu acho que foi a Regional que pagou e eu acho que é quem paga até hoje, tenho quase certeza. (ENTREVISTADA 02) Nas entrevistas realizadas com as profissionais que atuaram no CRM desde o início de seu funcionamento, perguntamos como aconteceu o processo de implantação do equipamento e qual a participação de cada uma nesse processo. Das oito entrevistadas: duas participaram da elaboração do projeto, da composição da equipe e da estruturação do espaço físico; três participaram do processo seletivo e foram contratadas para atuarem em suas respectivas áreas; e três entraram um ano depois de funcionamento do CRM. De acordo com leituras dos relatórios institucionais do CRM, a formação da equipe inicial foi dividida da seguinte maneira: apoio técnico (01 coordenadora, 01 coordenadora adjunta, 02 assistentes sociais, 01 educador físico, 02 psicólogas, 03 educadoras, 01 enfermeira, 01 auxiliar de enfermagem e 02 advogadas), apoio administrativo e serviços gerais (01 assistente administrativo, 02 telefonistas, 02 recepcionistas, 03 serviços gerais limpeza, 06 guarda municipal e 01 jardineiro), estagiárias (03 serviço social, 04 sociologia e 01 direito). (FORTALEZA, 2006, p1415) Retomando as analises feita por Zaranza, Gaspar e Maciel (2008, p. 76), durante os seus primeiros anos, o trabalho realizado no equipamento partiu da compreensão de [...] ir além da circunstância imediata que desencadeia a tomada de decisão da mulher em romper o silêncio e compartilhar seu sofrimento, para a focalização do tratamento do problema da violência sexista numa perspectiva múltipla: psicossocial, jurídica e educativa. Conforme as autoras procuravam abordar a complexidade do fenômeno da violência sexista nos seus diversos desdobramentos cotidianos, os quais tanto se expressam sob a necessidade de restabelecimento da saúde psicofísica, do resgate da autoestima e da quebra do ciclo de violência no qual essas mulheres encontramse inseridas, quanto exigem a intervenção sobre necessidades estruturais (habitação, saúde, trabalho, profissionalização) que as mulheres vivenciam nos 55 processos de empobrecimento, exclusão social e em outras experiências da cultura patriarcal e machista. Segundo os relatórios analisados, o CRM, no seu caráter preventivo, realizava oficina temática nas comunidades abordando a problemática da violência contra as mulheres, esclarecendo sobre a importância da denúncia e do enfrentamento à violência. De acordo com os referidos documentos, um dos pontos abordados nestas oficinas era a discussão de que a violência contra a mulher não pode ser entendida sem se considerar a dimensão de gênero, ou seja, a construção social, política e cultural da(s) masculinidade(s) e da(s) feminilidade(s), assim como as relações entre homens e mulheres. A violência contra a mulher dá-se no nível relacional e societal, requerendo mudanças culturais, educativas e sociais para seu enfrentamento e um reconhecimento das dimensões de raça/etnia, de geração e de classe na exacerbação do fenômeno. Considerando as informações disponíveis nas fontes consultadas e com base nesta perspectiva, também tomamos conhecimento da realização de capacitação e sensibilização de lideranças e conselheiros, bem como a coleta e análise de dados quanti-qualitativos acerca dos atendimentos realizados por meio do Observatório da Violência. De acordo com dados do observatório, registrados em relatórios institucionais, nos dois primeiros meses de funcionamento foram atendidas 153 mulheres, das quais 109 de primeira vez e 44 retornos. Os principais atendimentos foram: 109 acolhimentos, 77 atendimentos jurídicos, 73 atendimentos psicológicos e 62 atendimentos sociais. (FORTALEZA, 2006b, p.18). Esse resultado vem mostrar o quanto a implantação do equipamento era aguardada e o quanto as mulheres precisava desse serviço. Ainda sobre os atendimentos iniciais, perguntamos para as profissionais que trabalharam no CRM quais as demandas que se apresentavam com frequência no equipamento e obtivemos as seguintes respostas: A gente recebia casos de violência sexual, casos de violência física e de violência institucional também, a gente terminou recebendo alguns casos que era muito confuso na cabeça das pessoas, já que não existia nenhum equipamento que focasse na questão da violência e quando existe, a demanda é grande nesse sentido. (ENTREVISTADA 04) A demanda maior geralmente é jurídica, a mulher quer separar do marido e quer saber se têm direitos [...] a principal é e sempre foi à jurídica, eu não 56 sei como estão os dados atualmente dos atendimentos jurídicos, mas um dos principais atrativos era saber se tinha advogada. (ENTREVISTADA 05) No começo a gente atendia muitas coisas mesmo, coisas bem diferentes [...] a mulher estava numa situação muito delicada não tinha pra onde ir, era encaminhada pro Centro, muitas vezes era vulnerabilidade social, pessoas que tinham transtornos, que sofria violência pela condição de transtorno e não pela condição de ser mulher, então a gente atendia muitas situações dessa natureza, muitas situações delicadas, e atendia também ao mesmo tempo as mais habituais demanda da casa. (ENTREVISTADA 07) A demanda era basicamente essa da mulher em situação de violência, muitas vezes ela negava, negava no sentido de minimizar [...] a mulher fragilizada que não consegue sair da situação de violência, ou porque é dependente emocional. (ENTREVISTADA 08) Como podemos perceber nas falas referentes aos principais atendimentos realizados inicialmente, não há um consenso entre as profissionais no que se refere às demandas. A entrevistada 05 reafirma a informação do observatório, declarando que o atendimento jurídico era o mais procurando na época. As demais interlocutoras falam dos diversos atendimentos e de algumas demandas que não se enquadravam no perfil do equipamento. A ausência de equipamentos na cidade que atendessem às mulheres em outras especificidades, o horário de funcionamento diferenciado, inclusive aos finais de semana e o serviço multiprofissional, são fatores que favoreceram os muitos encaminhamentos que não correspondiam ao perfil do CRM e que acabavam destinados para a instituição. Sobre o trabalho desenvolvido pelo CRM em parceria com outros equipamentos, este realizava palestras junto aos grupos de mulheres vinculadas à assistência social, além de projetos específicos, parcerias e encaminhamentos para a rede socioassistencial, bem como na rede de saúde e educação. Segundo os documentos verificados, na perspectiva de sensibilização da sociedade, promovia campanhas de enfrentamento à violência contra a mulher, veiculadas periodicamente nos meios de comunicação. Executava, ainda, atividades de interação com a população realizadas em locais públicos (como os terminais de transportes urbanos), em uma estratégia chamada Tribunas da Mulher. Tomando como base o trabalho exercido pelo o equipamento para além de sua estrutura física citada anteriormente, questionamos sobre a visibilidade que a instituição tinha para as mulheres. Nesse caso, perguntamos para as entrevistadas como elas achavam que as usuárias visualizavam o CRM como equipamento de proteção delas. Destacaremos algumas respostas sobre essa indagação. 57 [...] pelo que a gente ouvia no cotidiano de algumas mulheres que eram abrigadas, que ficavam mais tempo, era como se tivessem construído uma nova vida, elas passaram a ter o Centro de Referencia como ponto de refugio, de apoio, aquele lugar delas irem, no caso de não ter saída. (ENTREVISTADA 03) [...] depende muito da forma que a mulher chega ao centro, ela chega de forma muito variada [...] algumas se apegam tanto ao Centro de Referencia que o CRM passa a fazer parte da vida delas, então elas vão para as atividades, para as oficinas, para as rodas de conversas, se engajam na rede, vão ajudar outras mulheres, e outras vão uma vez e não voltam mais lá, porque a compreensão é muito diferente de uma mulher pra outra. [...] (ENTREVISTADA 04) Eu acho que elas visualizam de uma forma muito positiva, porque a gente também tinha um cuidado de ser muito acolhedora com as mulheres, de não julgar, de tentar fazer com que aquela mulher se sentisse bem, diminuir o nível de culpa que ela sentia. (ENTREVISTADA 08) Embora não existam dados oficiais na instituição que tenham informações sobre essa questão da visibilidade do CRM, percebemos, a partir das respostas das interlocutoras, que a avaliação que as mulheres atendidas têm do equipamento é bem diversa, a depender da forma como a usuária utiliza ou utilizou os serviços ofertados e a capacidade do serviço de atender às suas expectativas. Na fala da Entrevistada 04, também destacamos o papel que o CRM desenvolveu na consciência política de algumas mulheres, levando algumas ao engajamento na rede de mulheres pelo o fim da violência, nos movimentos de mulheres e a participação nos mais diferentes espaços sociais. Se compararmos os números de atendimentos prestados às usuárias do inicio de seu funcionamento até agosto do corrente ano, perceberemos um declínio na quantidade de mulheres atendidas, dado que poderá estar relacionado com a visibilidade do equipamento e com a falta de divulgação dos serviços oferecidos para a população feminina de Fortaleza. Observemos a tabela abaixo referente aos números de atendimentos. De acordo com os dados do Observatório da Violência contra a Mulher do CRM, no período de 2006 até agosto de 2013 foram realizados quase 11.000 atendimentos. Como podemos visualizar a seguir. 58 Tabela 01: Dados de atendimentos no CRM DADOS GERAIS Total de mulheres Ano atendidas pela 1ª Vez 2006(1) 805 2007(2) 653 2008(3) 428 2009(4) 492 2010(5) 281 2011(6) 167 2012(7) 190 2013(8) Jan à Ago 135 Total de Atendimentos 3151 Retorno 810 606 1012 1835 1246 883 718 492 Total de Atendimentos 1615 1259 1440 2327 1527 1050 908 627 7602 10753 Fonte: Observatório da Violência contra a mulher/CRM (2013) Através desses dados, podemos perceber o grande número de atendimento no CRM. Somente no seu primeiro ano de existência, foram atendidas 805 mulheres de primeira vez, demonstrando mais uma vez a urgência de um equipamento que pudesse atender às mulheres que se encontravam em situação de violência e não tinham pra onde ir. No que se refere aos atendimentos dos últimos anos, percebemos que foram diminuindo ao ponto de, em 2012, chegar a ser quatro vezes menor se comparado ao primeiro ano de funcionamento 45 . Ainda de acordo com a tabela, é possível comparar os números das duas gestões da prefeita Luizianne Lins, na qual na qual uma demanda maior no seu primeiro mandato (2005-2008). Os primeiros anos do equipamento conseguiram atender mulheres em situação de violência para além de sua expectativa. Isso reforça a urgência desse serviço na cidade. É valido ressaltar que não deixamos de analisar as mudanças que ocorreram com a criação do equipamento. Sobre isso, perguntamos às interlocutoras o que havia mudado com a existência do CRM em Fortaleza. Obtivemos respostas como: Primeiro que o Centro de Referência foi pioneiro [nível de município], foi o primeiro Centro do Estado a partir dele outras instituições e outros programas foram agregados, foi uma experiência exemplar, conseguimos mobilizar tanto a sociedade quanto as instituições de ter políticas 45 Para averiguação dos reais motivos sobre os dados apresentados na tabela, seria necessária a realização de outra pesquisa com maior ênfase nesse objetivo. No caso, não era nosso propósito inicial aprofundar essa questão e, quando ela apresentou-se, não tínhamos elementos suficientes para debatê-la. Nesse sentido, fica a sugestão para pesquisas futuras. 59 especificas de amparo, de cuidado e de prevenção dessa questão, foi um passo importante para a desnaturalização do Estado para sua responsabilidade sobre o problema, mostrando que esse problema não é de âmbito privado e sim de âmbito público e sendo de âmbito público o Estado tem um papel na prevenção, no tratamento das vitimas e na punição dos agressores. (ENTREVISTADA 01) [...] As mulheres puderam contar com uma política direcionada, um trabalho qualificado de atendimento, um trabalho não discriminatório, uma extensão de que as mulheres podem vir que serão bem recebidas. (ENTREVISTADA 03) Eu acho que o que muda na verdade é que a mulher pode não se sentir tão sozinha na situação de violência [...] (ENTREVISTADA 06) Eu gosto muito de pensar ao contrário, se o Centro não existisse até onde eu lembro, tinha sido mais de três mil mulheres que tinham sido atendidas lá, [...] ai se fala muito das estatísticas, que a violência contra a mulher existe, do número de mulheres mortas, mas eu penso muitas nas que não morreram, nas que foram atendidas, então ele veio pra ser uma referência o nome já diz, não só para as mulheres que estavam em situação de violência, mas, sobretudo para os equipamentos também, [...]. [Grifos nossos] (ENTREVISTADA 07, grifos nossos). Para as entrevistadas, o CRM tem muita representatividade na vida das mulheres, reconhecem a importância que a instituição possui e o cumprimento do seu papel na sociedade. Nas falas, são notórias as percepções positivas que as entrevistadas têm da instituição. Era um espaço de acolhida, desabafo, que as mulheres podiam contar sempre. E, por fim, a entrevistada 07 ressalta o caráter do CRM em ser referência para as usuárias e para demais instituições componentes da rede de enfrentamento a violência contra a mulher. Confirmando o que foi dito pelas entrevistadas sobre a importância do CRM e os números do Observatório da Violência, constatamos, nos relatórios institucionais, que a implantação do equipamento era uma demanda existente há tempos, reivindicada pela população feminina, como demonstra o relato: [...] o atendimento começou mesmo antes da inauguração, no qual atendemos – mesmo com os móveis por chegar – duas mulheres, o que demonstrou a importância e a urgência desse equipamento social em Fortaleza. (FORTALEZA; 2006a, p. 4). A partir da criação do equipamento de proteção para as mulheres em situação de violência em Fortaleza, perguntamos às interlocutoras sobre os fatores que favoreceram a implantação do CRM. Destacamos algumas respostas. Ter uma gestora que tinha essa compreensão e conseguiu canalizar para as estruturas de governo pessoas que também tinham essa compreensão, pessoas que estavam na luta e que compreendiam essa problemática foi 60 uma coisa fundamental, porque se não tivesse tido essa congruência de fatores (ENTREVISTADA 01). A criação de equipamentos ou organismos de políticas para as mulheres e equipamentos de enfrentamento a violência vai muito do olhar que se tem sobre a cultura machista [...] foi justamente esse olhar diferenciado da gestão [...] era uma gestora que realmente tinha um olhar voltado para as pessoas que precisavam de políticas públicas. [...] (ENTREVISTADA 06) Principalmente a necessidade desse tipo de serviço, por que essa coisa de ouvir a mulher, de ser um espaço de escuta dela, o Centro de Referencia foi fundamental pra isso, pra mulher se reconhecer no processo de violência, que às vezes ela tem dificuldade de falar sobre isso [...] (ENTREVISTADA 08). Conforme as análises das profissionais, há um reconhecimento de que a criação do equipamento teve como um dos aspectos facilitadores a trajetória de militância 46 e olhar que a gestora tinha para as questões voltadas para as mulheres. Porém, não podemos deixar de levar em consideração o que já havíamos mencionado: a existência dessa instituição é resultado de uma demanda histórica dos movimentos de mulheres e feministas. Ainda sobre a criação do CRM, questionamos a opinião das entrevistadas sobre as dificuldades obtidas na implantação deste órgão, como podemos averiguar a seguir: A primeira grande dificuldade e que nem todas as instituições, nem todas as pessoas que compõem a rede conseguem compreender, a violência como cerne que esta na base da opressão e da discriminação das mulheres, isso é um olhar feminista sobre essa violência, a maioria das instituições não conseguem compreender [...] [outra dificuldade é] a questão da desnaturalização, também para desnaturalizar é preciso compreender o significado disso, de romper com o ciclo da violência (ENTREVISTADA 01). Eu acho que a maior dificuldade mesmo era os limites do trabalho, a gente tava fazendo um trabalho que era completamente novo pra nós [...] (ENTREVISTADA 03). Eu acho que é você delimitar o seu campo de atuação, acho que é uma grande dificuldade pra quem estar dentro do serviço, porque você tem que, primeiro entender o que você não pode, tem que trabalhar com equilíbrio, nem pode delimitar demais porque se não praticamente não vai ter público alvo [...] trabalhar em rede também, não só para o público, não só o desafio de dizer para população em geral, mas trazer para o equipamento. (ENTREVISTADA 07). 46 Luizianne Lins atuou no movimento estudantil universitário, foi secretária de mulheres do PT, relatora da CPI sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes na Câmara de Vereadores, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. 61 Nas observações feitas pelas as entrevistadas, verificamos na fala da entrevistada 03 a confusão inicial no atendimento realizado por cada área de atuação. Por ser um campo de atuação profissional totalmente novo, demorou algum tempo pra adaptação na forma de atuar, principalmente pela característica de trabalho interdisciplinar com atendimento multiprofissional dos casos. Outro ponto citado foi a dificuldade de trabalhar em rede, em virtude da ausência de retaguarda das instituições que deveriam dar suporte ao atendimento para que houvesse um enfrentamento eficaz da violência. Compartilhamos dessa avaliação sobre a rede. Durante a minha prática de estágio na instituição, pude observar como a dificuldade de contato com as demais entidades inibe a realização do trabalho em rede. No tópico seguinte, faremos uma discussão sobre os desafios e conquistas referentes aos primeiros anos do CRM, bem como as experiências adquiridas pelas profissionais durante a sua atuação no equipamento. 4.3 Avanços e desafios presentes nos primeiros anos de existência do CRM Francisca Clotilde: Um olhar a partir das interlocutoras. Neste momento, deter-nos-emos mais especificamente sobre as principais mudanças obtidas com a implantação do CRM, bem como os relatos das profissionais sobre a sua experiência adquirida com a contribuição do seu trabalho para a consolidação do equipamento na capital. Solicitamos que as entrevistadas elencassem as principais conquistas obtidas na época em que trabalharam na instituição. Obtivemos respostas diversificadas. Uma das interlocutoras mencionou a criação do Observatório da Violência, como veremos: Uma conquista foi um banco de dados que não existia em Fortaleza sobre essa questão da violência contra a mulher, antes tinha na delegacia, mas os dados não eram trabalhados [...] O CRM pra mim foi uma referência, um destaque você percebe a diferença pelos dados tanto quantitativamente quanto qualitativamente. (ENTREVISTADA 02) Concordamos com a entrevistada sobre a existência de um observatório na cidade, assim, tornou-se possível analisar de forma sistemática os dados 62 referentes à violência contra a mulher 47 . De acordo com informações fornecidas pela técnica responsável em manter atualizado o observatório 48 , eram trabalhadas cinquenta e uma variáveis que possibilitavam a construção de forma detalhada do fenômeno da violência em Fortaleza. Segundo a técnica, era possível traçar o perfil das usuárias e agressores, idade, estado civil, raça/etnia, renda, número de filhos, escolaridade, tipos de violência, identificar os bairros com maiores casos, entre outros elementos de análises. Ainda sobre as conquistas citada pelas entrevistadas, destacamos as falas sobre o número de atendimento que o CRM tinha realizado nos seus primeiros anos de funcionamento. Verificamos apreensões a seguir. Foram muitas, acho que a maior delas e mais emblemática era a quantidade de atendimentos que a gente fez com um ano de trabalho, a gente já tinha superado as expectativas, em termos de atendimentos, a visibilidade que o equipamento tinha, o fato de que aquelas mulheres que sofriam violência não estavam mais sozinhas, então foram muitos avanços e o fato de que as mulheres de Fortaleza passaram a contar com uma política especifica no caso de sofrer violência já é uma conquista. (ENTREVISTADA 03) O numero de atendimentos, a quantidade de mulheres que de fato deram uma guinada na sua vida, cada mulher que conseguia sair da situação de violência era uma vitória pra nós, as parcerias que nós tínhamos com a delegacia com o juizado, tudo isso fortalecia o nosso trabalho, o fato de nós irmos para as universidades, ir para comunidades falar sobre violência para as mulheres. [...] a implementação da política eu acho que foi a grande conquista e ela ter perdurado e não ter acabado. (ENTREVISTADA 08) Como já havíamos ressaltado anteriormente, foi bem relevante o número de atendimentos no equipamento nos primeiros meses. Aqui, merece uma reflexão na fala da entrevistada 03, sobre a visibilidade do CRM e as estratégias que foram usadas na divulgação das atividades desenvolvidas, embora a política institucional da Prefeitura Municipal de Fortaleza de comunicação tenha deixado a desejar nesse sentido. Os bons resultados, o respeito das demais instituições e as redes de relacionamento garantiam os encaminhamentos do serviço. Outras contribuições sobre as conquistas mencionadas pelas interlocutoras foram sobre o papel do CRM para as mulheres. 47 É importante ressaltar que, depois da criação do Observatório de Violência do CRM, foi implantado o Observem da UECE, que analisa os dados em nível estadual, abrangendo o município de Fortaleza. 48 Segundo informações obtidas no CRM, o observatório foi transferido em 2013 para a Coordenadoria da Mulher, sendo enviados os dados mensalmente. 63 A grande conquista do Centro de Referencia foi essas discussões que abriram na cidade, esse debate, porque querendo ou não até a implementação do CRM falava-se de violência contra a mulher [...] a gente conseguiu instrumentaliza-las [as usuárias] para que pudessem tomar de conta das suas vidas e ir embora. (ENTREVISTADA 04) Eu acho que o reconhecimento do serviço, acho que é importante, [por parte] das mulheres, dos serviços da prefeitura saber que existe, da política como um todo, saber que de fato existe, saber que muitas vezes você ajudou aquela mulher a sair da situação de violência. (ENTREVISTADA 05) Observamos nas falas das entrevistadas a questão da autonomia da usuária em tomar suas decisões e no papel da instituição no apoio às escolhas das mulheres, sendo estas as protagonistas de suas vidas. Vale ressaltar, ainda, que todos os passos eram combinados com as mulheres, inclusive respeitando aquelas que imediatamente não queriam fazer a denúncia na Delegacia de Defesa da Mulher – DDM. Refletindo sobre as inúmeras conquistas do CRM segundo as entrevistadas e levando em consideração o seu tempo de existência, ainda existem muitos desafios a serem superados para que haja um bom funcionamento e a garantia de continuidade do CRM. Considerando o nosso interesse em querer saber sobre o assunto, perguntamos às interlocutoras sobre os desafios que o equipamento apresentou na época. O trabalho em rede é extremamente complicado, é complexo, é muito difícil fazer a rede funcionar, porque na verdade não depende unicamente da gente, é um trabalho que é multidisciplinar, dentro e fora do equipamento pra, então era um desafio imenso. (ENTREVISTADA 03). O grande desafio continua sendo o mesmo desafio que é convencer que a política é importante [...] os desafios das políticas publicas para o enfrentamento a violência é de pensar um novo modelo de sociedade que a mulher não precise ser oprimida. (ENTREVISTADA 06). [...] desafios: mais capacitação, mais profissionais comprometidos que não fique só esperando as pessoas irem até o CRM, porque eu acho que uma das coisas que era legal no CRM é que faziam um trabalho também na comunidade, iam ate o shopping fazer panfletagem [...] (ENTREVISTADA 02). Como percebemos, a dificuldade em realizar o trabalho em rede é pertinente nas falas das profissionais. Muitas vezes, os encaminhamentos eram feitos através das relações pessoais e não via institucional; encaminhavam as usuárias dando um nome de referência a ser procurado no local. Outra questão que observamos na fala da Entrevistada 06, e concordamos, é a percepção de que as políticas públicas voltadas para essa questão devem ir para além da superação da 64 violência, contribuir na perspectiva da emancipação das mulheres para a efetivação de seus direitos garantidos. Ao finalizar as entrevistas, perguntamos para as profissionais qual a experiência que elas tiravam do trabalho voltado para as mulheres que procuravam os serviços. Constatamos nos seus relatos a importância de atuar no equipamento e o aprendizado que a experiência oportunizou. Sobre isso, vejamos: Foi um trabalho que eu fiz durante cinco anos, mas parece que foi uma vida toda, é um trabalho que não sai da gente entendeu, é um objeto rico como eu já falei, é uma experiência que eu vou carregar pela vida toda, é um crescimento, enfim uma experiência pra vida mesmo (ENTREVISTADA 02). Eu aprendi muito aqui, amadureci muito, pra mim foi importante o reconhecimento daqui, das pessoas da coordenadoria, eu entrei como técnica e depois assumi a coordenação pra mim foi uma coisa profissionalmente muito forte, e eu acho que o serviço em si é muito importante e a gente busca manter com melhor qualidade. (ENTREVISTADA 05). Eu passei a ter uma concepção de direito muito mais ampla do que eu teria se eu não tivesse entrado lá [...] eu comecei a perceber isso, que as minhas orientações tem que ter limites, limites da vida delas [usuárias], que eu não posso ir dizendo o que elas têm que fazer, então eu fui entendendo o que é ser sujeito de direito, o que é viver com dignidade, e até mesmo o trabalho educativo, que no começo foi extremamente difícil para eu falar para uma comunidade o que é violência domestica, [...] o que a gente aprendeu ali dentro, as pessoas que trabalharam ali juntos eu acho que nem existe no dicionário, sem exagero nenhum eu acho que é uma experiência muito única mesmo, eu acho que precisaria ter passado por isso mesmo. (ENTREVISTADA 07, grifos nossos). O Centro de Referencia pra mim foi uma escola de vida sabe, das historias, de guardar as historias das mulheres, de me fortalecer na luta feminista mesmo, de levar isso para as minhas relações, pra minha vida, é assim, a gente nunca mais é a mesma depois de ter passado por um serviço desses, [...] foi muito enriquecedor pra mim, nossa não tem nem como mensurar o aprendizado. (ENTREVISTADA 08) De acordo com as falas das interlocutoras, percebemos que houve uma troca de experiências. O comprometimento com as questões relacionadas às mulheres se intensificou com a convivência com as usuárias. Na fala da entrevistada 07, observamos o papel que o CRM exerceu em sua vida dela, como a sua prática se modificou com a compreensão de direitos ampliados. A entrevistada 08 reafirma o aprendizado e o amadurecimento pessoal e profissional que adquiriu com o trabalho desenvolvido no equipamento. Reconhecemos a contribuição que estas profissionais deram nos primeiros anos de existência do Centro de Referência em Fortaleza. E o quanto suas 65 vidas se modificaram com as histórias das usuárias, com a convivência com as demais profissionais e com as capacitações e estudos sobre a temática trabalhada no cotidiano do CRM. 66 CONSIDERAÇÕES FINAIS O Enfrentamento da violência contra a mulher tornou-se pauta interventiva do poder público recentemente. A ampliação e organização das políticas públicas voltadas para a população feminina só foi possível de existir em meados da década de 1990. Paralelamente às mudanças que vinham acontecendo no país, os movimentos feministas e movimentos de mulheres se fizeram presentes nos espaços governamentais exigindo respostas para as demandas apresentadas naquela época. Tendo como umas das prioridades a prevenção e o enfrentamento a todas as formas de violência contra a mulher. Ressaltamos que pesquisas voltadas para a problemática da violência contra a mulher, entendendo-a como uma das expressões da questão social, é uma tarefa importante para o serviço social. A compreensão acerca da estruturação das políticas públicas - universo permeado de contradições, de interesses, limites e possibilidades - é o primeiro passo para uma prática diferenciada da/o assistente social. É necessário realizar as mediações necessárias que venham possibilitar a efetivação dos direitos humanos, como, por exemplo, o conhecimento dos instrumentos legais da rede sócio-assistencial possibilita uma intervenção qualificada do/a assistente social. Partindo dessas questões, procuramos investigar um dos campos de atuação do/a assistente social em Fortaleza e perceber como aconteceu o processo histórico da implantação do Centro de Referência Francisca Clotilde. Refletir sobre a existência do CRM em Fortaleza me fez perceber a importância que este equipamento representa para as mulheres, para as gestoras e técnicas que participaram cotidianamente desse processo. Era um projeto que há tempos estava na pauta dos movimentos de mulheres e do movimento feminista e que somente em 2006 pode sair do papel. Vale ressaltar que a maioria das interlocutoras mencionou essa questão nas entrevistas, afirmando que o cenário político que se apresentava naquela época favoreceu a criação deste equipamento, atendendo a essa demanda histórica. O contato com as entrevistadas possibilitou ampliação de conhecimentos sobre como são pensadas as políticas públicas, as estratégias que são traçadas para conseguir executar o que foi planejado. As inúmeras dificuldades que existem 67 para realizar um trabalho em rede foi outro aspecto citado por todas as entrevistadas. Aparentemente, não existe um esforço das instituições em solucionar as questões relacionadas às mulheres de Fortaleza, sempre é algo deixado para depois. O que nos leva a compreender a falha no trabalho em rede como um problema estrutural da sociedade e, para solucioná-lo, deve haver reformas nas bases políticas, mudanças na forma como são elaboradas e executadas as políticas públicas, não só as que se referem às mulheres, mas todas as políticas de um modo geral. Verificamos que o papel desempenhado pelo o CRM era o de atender a mulher em situação de violência doméstica e sexual, e que esse atendimento pode levar ou não ao rompimento do ciclo, tendo em vista que as usuárias são sujeitos de sua vida, devendo sempre prevalecer a decisão sobre seu futuro, cabendo às técnicas o papel de mediar e apoiá-las no que for necessário. Conforme as análises das entrevistas e com pesquisas bibliográficas, pude ampliar a visão que tinha do Centro de Referência enquanto ex-estagiária e pesquisadora. Se observarmos os números iniciais dos atendimentos e compararmos com os atuais, percebemos uma queda de cem por cento, havendo uma procura menor pelos serviços nos últimos anos. O que não significa dizer que a política de enfretamento à violência não existe em Fortaleza e que os equipamentos não funcionam como deveriam ou ainda que a violência tenha acabado. É preciso levar em consideração a forma como vêm sendo executadas as políticas, como a divulgação está ocorrendo sobre os diversos serviços, o olhar que o gestor tem dado para essas questões relacionadas às mulheres. Também reconhecemos que a implantação e a execução da política deixaram a desejar, tiveram falhas governamentais, a ausência de recursos humanos, materiais e financeiros comprometeram alguns avanços. Um exemplo disso era a falta de transporte para a realização de visitas domiciliares, falta de estrutura física que permitisse condições que colaborassem com a permanência das usuárias no espaço mais tempo. O trabalho com as demais instituições é outro ponto que merece destaque, não existia um retorno dos encaminhamentos como deveria haver, as instituições não tinham o olhar sensibilizado com essa questão tão delicada que é a violação dos direitos das mulheres. Constatamos, também, neste estudo, que a mudança no cenário político na capital, ameaça à continuidade da política de enfretamento à violência em 68 Fortaleza. Segundo as interlocutoras “poderá sofrer retrocessos”, o que já se apresenta no momento, com a perda do status de secretaria da coordenadoria e sua unificação junto às demais coordenadorias existentes na Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania – SDHC. Outro fator que apontamos é a falta de investimento - pessoal, orçamentário, material - nos equipamentos, que pode chegar a comprometer a qualidade dos serviços prestados às usuárias. Reafirmamos, assim, o que foi dito por uma das entrevistadas: “a garantia de continuidade da política vai depender do olhar do gestor”. (ENTREVISTADA 02). Ainda de acordo com as informações obtidas no campo, percebemos que houve avanços significativos no que se refere ao enfretamento da violência em Fortaleza. O esforço para estruturar uma política para as mulheres foi alcançado. O legado deixado pelas profissionais, que não mediram esforços para possibilitar a efetivação de direitos das usuárias, também deve ser levado em consideração. Acreditamos que os desafios que se apresentam no cotidiano desses equipamentos são enormes, a garantia de serviços prestados com qualidade e de forma qualificada pode ser um dos maiores desafios, o orçamento destinado a essas questões também é outro fator que influencia na continuidade dos serviços, que no momento não atende à demanda apresentada. Mas, apontamos como o maior desafio a ser enfrentado a construção de uma nova sociedade, livre de exploração, dominação e opressões das mulheres. De acordo com documentos consultados, entrevistas realizadas e o exercício do estágio curricular na referida instituição, percebemos que a implantação do CRM junto aos demais equipamentos de proteção à mulher em situação de violência foi um “divisor de águas” no que se refere ao enfrentamento desse fenômeno que atinge todas as mulheres. É obvio que existem falhas, limites e falta de orçamento, mas consideramos que os primeiros passos foram dados. Esperamos que esse estudo tenha contribuído para uma maior aproximação de como se deu o processo de implantação da política de enfrentamento à violência desenvolvida por um dos órgãos de proteção à mulher, o CRM Francisca Clotilde, e sirva de referência para os estudos posteriores a esta temática. Por fim, deixamos como sugestão para futuras pesquisas a realização de um estudo comparativo sobre CERAM (Centro de Referência do estado) e o CRM 69 (Centro de Referência do município) para saber, inclusive, os avanços e desafios que ambos possuem e os resultados e/ou impactos destes equipamentos na vida das mulheres em Fortaleza. 70 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Luciana Andrade de. Trajetória de uma pioneira: a escrita feminina de Francisca Clotilde (1862-1935). Anais do Seminário Internacional Fazendo Gênero 10. Santa Catarina, UFSC, 2013. Disponível em: http://www.fazendogenero.ufsc.br/7/artigos/L/Luciana_Andrade_de_Almeida_42.pdf, Acesso em 19/12/2013. ALVES, Maria Elaene Rodrigues. Políticas públicas para as mulheres de Fortaleza: efetivando direitos e construindo sonhos. In: ALVES, Maria Elaene Rodrigues; VIANA, Raquel (Orgs.). Políticas para as mulheres em Fortaleza: desafios para a igualdade. Fortaleza: Prefeitura Municipal de Fortaleza; São Paulo: Fundação Friedrich Ebert, 2008. 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Esse estudo tem como objetivo fazer uma análise de como se deu a implantação do Centro de Referência e Atendimento a Mulher em Situação de Violência Domestica e Sexual Francisca Clotilde em Fortaleza/CE a partir do olhar de quem participou do processo de construção do CRM no período de 2005 - 2012. E, por fim, apontar possíveis contribuições que permita compreender como ocorreu a implantação deste equipamento, os desafios e as dificuldades que foram superadas nos seus primeiros anos de existência. Gostaríamos de contar com a sua participação em uma entrevista sobre a sua contribuição na implantação do Centro de Referência e Atendimento a Mulher em Situação de Violência Domestica e Sexual Francisca Clotilde. Salientamos que sua participação é voluntária e o (a) Sr. (a) poderá a qualquer momento deixar de participar do estudo sem qualquer prejuízo. Esclarecemos que a sua identidade não será revelada e que sua participação não trará nenhum prejuízo na sua qualidade de vida. Comprometemo-nos a utilizar os dados coletados somente para a pesquisa e os resultados poderão ser veiculados através de artigos científicos em revistas especializadas e/ou encontros científicos e congressos, sem tornar possível sua identificação. Os dados ficarão disponíveis na Instituição de Ensino Superior Faculdades Cearenses e poderão servir de referência para orientar outros estudos e pesquisas. Se necessário, o (a) Sr. (a) poderá entrar em contato com a pesquisadora responsável Isalenny Gonçalves da Silva, pelo telefone (085) 87154793, e/ou através do email: [email protected]. Este termo está elaborado em duas vias, sendo uma para o sujeito participante da pesquisa e outro para arquivo do pesquisador. Tendo sido informado (a) sobre a pesquisa, “Centro de Referência Francisca Clotilde: uma análise da implantação do serviço de atenção às mulheres em situação de violência em Fortaleza.” concordo em participar da mesma, de forma livre e esclarecida. Nome: ___________________________________________________________ Assinatura: _______________________________________________________ Data __________________ _______________________________________________ Assinatura da Pesquisadora 77 APÊNDICE B - Roteiro da Entrevista 1. Nome: 2. Idade: 3. Estado Civil: 4. Formação: 5. Fale um pouco sobre quem é você? Trajetória acadêmica/ profissional. 6. Como você define a violência contra a mulher? Você já vivenciou algum tipo de violência? 7. Quando você começou a trabalhar na prefeitura de Fortaleza? Qual a função que exercia quando entrou na prefeitura? 8. Como aconteceu o processo de implantação do CRM (equipamento vinculado à coordenadoria) em Fortaleza e qual a sua participação neste processo? 9. O que você considera como dificuldades na implantação deste equipamento? 10. O que você considera como fatores que favoreceram a implantação do CRM? 11. Em sua opinião, o que mudou com a existência de um CRM em Fortaleza? 12. Em sua opinião (pessoal e enquanto gestão), quais os maiores desafios no CRM? E na execução da política como um todo em Fortaleza? 13. Como você avalia a política de enfrentamento a violência contra a mulher em Fortaleza no período de 2005-2012? 14. Como você analisa a política de enfretamento a violência contra a mulher em Fortaleza atualmente? 15. O que ficou de experiência para você? Perguntas específicas para as técnicas 1. Quais as demandas que se apresentava com frequência no CRM? 2. Fale de algumas conquistas do CRM na época em que você trabalhou? 3. Como você acha que as usuárias visualizam o CRM enquanto equipamento de proteção delas?