A importância da arquitetura sustentável nos países
de clima tropical
Análise de casos na cidade de Luanda
Mário Alcino Pio Gourgel
Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em
Arquitetura
Júri
Presidente: Profª Doutora Ana Cristina dos Santos Tostões
Orientador: Profº Doutor Manuel Guilherme Caras Altas Duarte Pinheiro
Vogal:
Profº Doutor Manuel de Arriaga Brito Correia Guedes
Fevereiro de 2012
Agradecimentos
Em primeiro lugar estou grato à Deus por ter tornado possível a realização deste trabalho.
Os meus agradecimentos são dirigidos, especialmente, ao professor Manuel Pinheiro, pelo
apoio e disponibilidade demonstrados na orientação da Dissertação, cuja referência e competência
profissional aqui realço e reconheço desde que tive o prazer de o conhecer no curso de arquitetura do
Instituto Superior Técnico.
Ao professor Manuel Correia Guedes pelo apoio e conversas havidas, de incentivo ao desenvolvimento deste trabalho e pelo material disponibilizado.
À arquiteta Filomena do Espírito Santo, pelo tempo concedido em conversa, apoio e motivação no desenvolvimento do trabalho, e material disponibilizado.
Aos meus pais, com amor, pela educação transmitida, sem a qual não seria o que hoje sou, e
por toda a paciência e auxílio nas várias etapas da vida.
À minha companheira, pelo apoio moral e compreensão demonstrados nos momentos difíceis
e exigentes do trabalho, o meu profundo amor e carinho.
Aos meus amigos, por acreditarem em mim, aos quais agradeço, pois que, sem eles a motivação para os projetos pessoais não teria a mesma expressão.
Não posso deixar de evidenciar os meus tutores, conhecidos e “desconhecidos”, que continuamente me motivam a seguir o caminho da sabedoria para o alcance de metas, na realização de
projetos pessoais e profissionais, que têm como principal alvo o benefício da humanidade.
i
Resumo
As questões relacionadas com o ambiente natural têm merecido, nos dias de hoje, a atenção
dos órgãos decisores de vários países e das organizações mundiais.
A construção tem provocado grandes impactes e pressão sobre o ambiente natural. Assim, a
arquitetura sustentável e os seus princípios poderá garantir um bom desempenho ambiental e socioeconómico, com ênfase nos países de clima tropical, pretende-se com o presente trabalho realçar a
importância da arquitetura sustentável, e dos seus princípios, na diminuição dos impactes ambientais,
com particular destaque para os países de clima tropical, analisando o caso da cidade de Luanda.
Para compreensão da matéria exposta, estabeleceu-se um enquadramento conceptual no
qual foram sistematizados os conceitos relacionados com o tema nomeadamente, o de desenvolvimento sustentável, arquitetura sustentável, arquitetura tropical, entre outros, que serviram de base de
análise ao objeto de estudo.
De modo a obter-se uma compreensão prática apresenta-se, no final, um estudo de caso no
qual são analisadas duas tipologias habitacionais edificadas em Luanda – um apartamento e uma
moradia –, onde se pretendeu perceber, diagnosticar e avaliar com o sistema LiderA1 os seus desempenhos ambientais de acordo com indicadores e critérios deste sistema.
O resultado desta avaliação permitiu que se propusessem medidas para melhoria de desempenho da situação existente para cada caso.
PALAVRAS-CHAVE:
Arquitetura sustentável, Luanda, Angola, Avaliação da sustentabilidade
Construção sustentável,
1
Sistema voluntário para avaliação da construção sustentável (www.lidera.info)
ii
Abstract
Actual environmental aspects due to its increase importance in built environment have deserved, nowadays, the attention of decision makers from various countries and organizations worldwide.
Urban construction has been increasing impact and pressure on natural environment. So, sustainable architecture and its principles could help to assure good environmental performance and socioeconomic service, emphasizing tropical climate countries.
For sustainable architecture comprehension, a conceptual framework has been reviewed in
which concepts were systematically related to sustainable development and tropical architecture.
In order to obtain a practical understanding it is presented a case study, in last chapter, in
which two built housing types in Luanda city - an apartment and a house – has been evaluated by
LiderA2 system.
The result of this evaluation made it possible to propose measures to improve the sustainable
performance of the existing situation for each case.
Keywords:
Sustainable architecture, Luanda, Angola, Sustainability assessment,
Sustainable construction.
2
Voluntary system for assessment of sustainable construction (www.lidera.info)
iii
Índice
Agradecimentos ..................................................................................................................................... i Resumo.................................................................................................................................................... i Abstract ................................................................................................................................................. iii Índice de Figuras .................................................................................................................................. vi Indice de Quadros ............................................................................................................................... vii 1. Introdução ................................................................................................................................. 1 1.1. 1.2. 1.3. 1.4. 1.5. 2. Enquadramento ...................................................................................................................... 1 Tema e Motivações ................................................................................................................ 4 Objetivos ................................................................................................................................ 5 Abordagem e Metodologia ..................................................................................................... 6 Estrutura e limitações do trabalho ......................................................................................... 6 O clima, o homem e o ambiente construído .......................................................................... 8 2.1. O clima mundial - caracterização das diferentes zonas climáticas ....................................... 8 2.2. Clima Tropical – tipos e caraterísticas ................................................................................. 10 2.2.1. Variáveis climáticas ..................................................................................................... 11 2.3. O conforto térmico humano, a envolvente natural e o ambiente construído ....................... 12 2.4. O consumo de energia ......................................................................................................... 13 2.5. Outros impactes e custos do ambiente construído .............................................................. 21 2.5.1. Impactes do ambiente construído ............................................................................... 21 2.5.2. 3. Custo do ciclo de vida e dos impactes ambientais da construção.............................. 22 Arquitetura sustentável e arquitetura tropical .................................................................... 24 3.1.
Enquadramento histórico, origem e conceito de arquitetura sustentável ............................ 24
3.2. Princípios da arquitetura sustentável e instrumentos de apoio ao projeto sustentável ....... 27 3.2.1. Princípios de arquitetura sustentável .......................................................................... 27 3.2.2. Instrumentos de apoio ao projeto sustentável ............................................................ 29 3.3. A Arquitetura tropical ............................................................................................................ 32 3.3.1. Origem do conceito ..................................................................................................... 32 3.4. Arquitetura tropical e sustentável – relação e aspetos a considerar na conceção de projetos
sustentáveis. ..................................................................................................................................... 36 4. Medir e suportar a procura da sustentabilidade ................................................................. 41 4.1. Indicadores de sustentabilidade .......................................................................................... 41 4.1.1. Pegada ecológica ........................................................................................................ 42 4.1.2. Pegada de carbono ..................................................................................................... 43 4.2. Avaliação do ciclo de Vida ................................................................................................... 44 4.3. Sistemas de avaliação e certificação da construção sustentável ........................................ 46 4.4.
LiderA – Sistema Voluntário de Avaliação da Construção Sustentável .............................. 49
4.4.1. Princípios globais ........................................................................................................ 49 4.4.2. Vertentes e áreas ........................................................................................................ 50 4.4.3. Critérios e níveis de desempenho ............................................................................... 50 4.4.4. Ponderação ................................................................................................................. 52 4.4.5. Aplicação do Sistema Lidera ....................................................................................... 52 iv
4.4.6. 5. Certificação pelo sistema LiderA ................................................................................. 54 Estudo de caso – Análise de casos na cidade de Luanda. ................................................ 56 5.1. Enquadramento - A República de Angola e a cidade de Luanda ........................................ 56 5.2. O Clima em Angola – Principais caraterísticas e as diferentes zonas climáticas. .............. 57 5.3. A cidade de Luanda – enquadramento, clima e estrutura urbana ....................................... 58 5.4. Caraterísticas da arquitetura e da construção em Luanda – do passado ao presente (uma
abordagem crítica) ............................................................................................................................ 59 5.5. Os casos de estudo – Aplicação do LiderA África às duas unidades habitacionais em
Luanda. ............................................................................................................................................. 67 5.5.1. Enquadramento ........................................................................................................... 67 O Projeto NOVA VIDA .................................................................................................................. 67 Moradia Unifamiliar ....................................................................................................................... 77 6. Discussão dos resultados .............................................................................................................. 83 7. Conclusão ........................................................................................................................................ 85 Bibliografia ........................................................................................................................................... 87 Anexos .................................................................................................................................................. 90 v
Índice de Figuras
Figura 1 – Movimento elítico da terra à volta do sol e as estações anuais ............................................ 1 Figura 2 – Clima e diferentes zonas climáticas ....................................................................................... 9 Figura 3 – Temperaturas (Clima tropical).............................................................................................. 10 Figura 4 – Orientação otimizada para a cidade de Luanda .................................................................. 11 Figura 5 – Diagrama do regime anual de ventos em Luanda mostrando a frequência dos ventos
dominantes ............................................................................................................................................ 11 Figura 6 – Gráfico bioclimático com as diferentes zonas...................................................................... 13 Figura 7 – O efeito da ilha de calor urbano sobre uma área urbana e rural ......................................... 14 Figura 8 – Variação temporal típica Urbana e Rural. (8 a) Temperatura do ar, (8 b) Taxas de
arrefecimento/aquecimento e (8 c) A intensidade da ilha de calor urbano resultante sob condições
atmosféricas .......................................................................................................................................... 15 Figura 9 – A diferença máxima entre a temperatura Urbana e Rural para as cidades Norte
Americanas e Europeias ....................................................................................................................... 17 Figura 10 - O processo de aumento do consumo de energia ............................................................... 19 Figura 11 – Relógio solar horizontal (10a); Diagrama retangular (10b) ................................................ 30 Figura 12 – Diagrama radial .................................................................................................................. 30 Figura 13 – Diagrama psicrométrico ..................................................................................................... 31 Figura 14 – (a) O “banggolo”; (b) O bungalow adaptado pelos Europeus ............................................ 33 Figura 15 – Ilustração de uma incorreta implantação face a exposição solar e as chuvas (acima) e de
correta implantação (em baixo) ............................................................................................................. 38 Figura 16 – Orientação correta, considerando o regime de ventos ...................................................... 39 Figura 17 – Orientação dos edifícios [em planta] e a influência dos ventos. ........................................ 39 Figura 18 – A proteção solar ................................................................................................................. 40 Figura 19 – A presença de elementos arbóreos e a sua importância quer na proteção solar, quer na
ventilação............................................................................................................................................... 41 Figura 20 – Esquema de vertentes e áreas do Sistema LiderA............................................................ 49 Figura 21 – Classes de desempenho ambiental ................................................................................... 51 Figura 22 – Ponderação por vertentes na versão 2.0 ........................................................................... 52 Figura 23 – Certificado Lidera ............................................................................................................... 55 Figura 24 – Mapa administrativo de Angola .......................................................................................... 56 Figura 25 – Ocupação informal: bairro suburbano ................................................................................ 62 Figura 26 –Prédios com varandas encerradas e uso do ar-condicionado, em Luanda (mau exemplo
de uso) ................................................................................................................................................... 65 Figura 27 – Bom exemplos de soluções arquitetónicas em Luanda (grelhas de proteção do vidro e
ventilação natural) ................................................................................................................................. 65 Figura 28 – (a) Obstrução da brisa por edifícios altos em climas quentes e húmidos (esquerda); (b)
Edifícios em construção na marginal em Luanda (direita) .................................................................... 66 Figura 29 – Localização do projeto Nova Vida em relação ao centro da cidade .................................. 68 Figura 30 – Localização dos edifícios onde se situa o apartamento (Projeto Nova Vida) .................... 69 Figura 31 – Vista aérea da construção do projeto Nova Vida e uma das ruas com moradias
construídas ............................................................................................................................................ 70 Figura 32 – Vista exterior de edifícios do Projeto Nova Vida ................................................................ 71 Figura 33 - Vista interior da zona de serviço (grelhas de ventilação) e do apartamento ...................... 74 Figura 34 – Vistas do hall de acesso aos apartamentos (aberturas permitem a promoção da
ventilação natural) ................................................................................................................................. 77 Figura 35 – Moradia vista de fora .......................................................................................................... 77 Figura 36 – Interior da Moradia ............................................................................................................. 80 vi
Indice de Quadros
Quadro 1 – Padrões do consumo de energia por diferentes atividades nos Estados Unidos, Reino
Unido e Sri Lannka ................................................................................................................................ 18 Quadro 2 - Comparação entre a Pegada Ecológica de África, Mundo e Angola.................................. 43
vii
1.
Introdução
1.1.
Enquadramento
As atividades humanas, de que a construção é um exemplo, têm acompanhado o
crescimento populacional e o desenvolvimento, nomeadamente por via do aumento do nível de vida
individual das populações, da maior capacidade de mobilizar recursos e do consequente impacte
ambiental (Pinheiro, 2006).
Os edifícios e o ambiente construído são os elementos definidores do ambiente urbano. Estes
determinam o caráter e os marcos mais importantes de uma cidade que criam uma sensação de
familiaridade e identidade que podem fazer das cidades locais aprazíveis e agradáveis, onde as
pessoas gostem de trabalhar e viver. Por conseguinte, a qualidade do ambiente construído tem uma
forte influência na qualidade do ambiente urbano, mas esta é muito mais profunda e abrangente,
ultrapassando largamente considerações de caráter puramente estético (Pinheiro, 2006).
A capacidade inventiva do homem permitiu-lhe desafiar os rigores ambientais utilizando o
fogo para se aquecer, e peles para se cobrir. Quando o mais débil de entre os animais substituiu o
engenho prometeico pela adaptação física similar a das outras espécies, o abrigo converteu-se na
defesa mais elaborada contra climas hostis. À medida que evoluía o abrigo acumulavam-se
experiências que, com engenho, diversificavam-se para enfrentar os desafios e a grande variedade
de climas. A interpretação do clima como fator principal é justificável, somente, se a envolvente
climática influi diretamente na expressão arquitetónica (Olgyay, 1962).
Os antigos reconheciam que a adaptação era um princípio essencial da arquitetura. Vitrúvio
(citado por Olgyay, 1962) disse em De Arquitectura: “O estilo dos edifícios deve manifestar-se
diferente no Egito em relação a Espanha, em Pontus e em Roma, e em países e regiões de
caraterísticas diferentes […].”
O Dr. Walter B. Cannon (citado por Olgyay, 1962) afirma que: “O desenvolvimento de um
equilíbrio térmico estável no nosso edifício deve observar-se como um dos mais valiosos avanços na
evolução da edificação.” Esta tese pode confirmar-se ao observar as diversas formas de vivenda
desenvolvidas por grupos étnicos de origem étnico similar, estabelecidos em diversas regiões
climáticas. Para os arquitetos, o “homoclima”, ou seja, as necessidades humanas, constituem o fator
determinante (Olgyay, 1962).
Jean Dolfus (citado por Olgyay, 1962), com o seu mostruário de vivendas caraterísticas de
todo o mundo, confirma que o principal objetivo dos construtores foi sempre a procura das condições
ótimas de conforto térmico. Segundo o resultado das suas análises, conclui que a tipologia
construtiva encontra-se definida mais pelas zonas climáticas do que pelas fronteiras territoriais.
Na abordagem do conforto térmico surgem questões relativas ao consumo de recursos, o que
nos remete para a questão da sustentabilidade que veio de outros domínios para a arquitetura: “It
was not in architecture that the term sustainability was introduced for the first time. Already by the end
1
of the 1980´s, the term “sustainability” was used extensively in the economics field in reference to
development for criticizing earlier models of economic growth for nations or regions that had favored
fast returns and accelerated growth, while disregarding that in the long-run they were depleting
irreplaceable resources – the very resources their growth depended upon” (Baweja, 2008).
Existem evidências de que é fundamental a consideração da susentabilidade: “The question
of the long-term, unanticipated negative impact of an economic policy on its performance was further
extended to cover the effect of new products – chemical, agricultural, and mechanical – on
environmental quality in the long run. It was in relation to this latter problem that the criterion of
sustainability entered into architecture and urban design, providing a conceptual framework to handle
the long-term negative impact of the application of techniques and materials of construction on
material resource consumption and environmental physical quality “ (Baweja, 2008).
A procura de soluções ajustadas ao clima e de desempenho foi uma preocupação sempre
crescente nas soluções arquitetónicas desde Vitrúvio no século I a.C. (Guedes, et al., 2011), até ao
assumir nos exemplos do arquiteto, presentes em Angola e Luanda.
Nas últimas décadas o assumir de abordagens passivas e de baixa energia condiziu a várias
abordagens, veja-se a PLEA – Passive and Low Energy Architecture3 que desde 1982 organiza
conferências e eventos sobre estas abordagens.
Integrado na reflexão sobre desenvolvimento sustentável, surge nos países mais desenvolvidos, um movimento internacional em 1993, (Kibert, 2003; citado por Pinheiro, 2006) que procura definir e implementar o conceito de construção sustentável.
No ano de 1994, realizou-se em Tampa, na Flórida, a Primeira Conferência Internacional sobre Construção Sustentável ("The First International Conference on Sustainable Construction") patrocinada pelo Rocky Mountain Institute, da Universidade da Florida, e a CIB - International Council for
Building Research Studies onde se fizeram diversas propostas no sentido de definir o conceito de
construção sustentável. A definição mais aceite foi a apresentada por Charles Kibert em 1994 que
define Construção Sustentável como a "criação e gestão responsável de um ambiente construído
saudável, tendo em consideração os princípios ecológicos (para evitar danos ambientais) e a utilização eficiente dos recursos" (Pinheiro, 2006).
Inevitavelmente, em associação com o conceito de construção sustentável, surge o conceito
de arquitetura sustentável, pois, como afirma Corbella (2003, 8)4: “o arquiteto, sem desprezar o belo e
a plasticidade das formas, [teve que] forçosamente reencontrar o meio ambiente, cujo equilíbrio é de
fundamental importância para a sobrevivência da espécie humana na Terra”. Outro conceito de arquitetura sustentável é fornecido por Corbella (2003, 17)5 que a define como sendo a conceção e o desenvolvimento de edificações que objetivem “o aumento da qualidade de vida do ser humano no ambiente construído e na sua envolvente, integrado com as caraterísticas de vida e do clima locais,
além da redução do uso de recursos naturais”.
3
http://www.arct.cam.ac.uk/PLEA/Home.aspx
(citado por Vieira e Barros Filho, 2009), fonte: http://www.esuda.com.br/revista_humanae.php
5
Idem
4
2
Já de acordo com Steele (1997, 11)6, a arquitetura sustentável “consiste na produção de uma
edificação que se adapte ao clima, à iluminação, ventilação e topografia, tirando proveito das condições naturais do lugar reduzindo o desperdício energético.
Há muitas definições para arquitetura sustentável, mas a essência da sustentabilidade está
intrinsecamente ligada à essência da arquitetura. Um bom edifício é naturalmente sustentável
(Guedes, et al., 2011).
Baweja (2008) argumenta que a arquitetura sustentável já existe implícita na relação com a
arquitetura tropical: “Green Architecture, which is considered a recent discourse, cannot therefore be
fully grasped unless it is historicized in relationship to Tropical Architecture”.
Sobre a arquitetura tropical Baweja (2008), refere ainda que: “Existing histories locate Tropical
Architecture as a neo-colonial project that emerged in the 1950s along the networks of the diminishing
British Empire” (Baweja, 2008).
Baseado nos escritos de Koenigsberger, Baweja (2008) define essa arquitetura com um forte
envolvimento com a dimensão energética, climática e consideração dos recursos: “Tropical
Architecture paradigmatically as climate-responsive and energy-conservative design that makes the
best use of locally available resources”.
Neste sentido, a mesma autora (Baweja, 2008) afirma a existência de um conjunto de autores
com reflexão na prática e abordagem: “From its inception in the 1930s through the 1950s, Tropical
Architecture also developed and circulated through a network of global conferences. In the UK,
Tropical Architects such as Otto Koenigsberger, Jane Drew, Maxwell Fry, Leo De Syllas, Fello
Atkinson, and George Atkinson were engaged in the production of knowledge on energy-conservative
climatic design”.
Com base nestas assunções, considera-se pertinente sistematizá-las e estudar casos na cidade de Luanda.
Devido a sua localização geográfica, apresenta um clima que se pode classificar como «húmido sem Inverno», correspondente ao subtipo «clima da savana» [...]. Desde a década de 50 Luanda assiste a um grande crescimento demográfico, que implicará um aumento significativo da construção e da consolidação urbana. Durante esta década, adquire progressivamente uma imagem de cidade moderna, assente em premissas do Movimento Moderno e, particularmente, baseada nos princípios da Carta de Atenas. Após a descolonização, o crescimento demográfico acentuado mantém-se
em progressão geométrica. Os movimentos migratórios justificados pela guerra civil, que irá prolongar-se por quase 30 anos, tornam Luanda numa cidade densa, sobrelotada e caótica. Por outro lado,
os anos de guerra não permitem o investimento nas infraestruturas urbanas, nos equipamentos ou
nos edifícios, o que força naturalmente a degradação da cidade e da sua arquitetura (Magalhães,
2009). Em nosso entender estes serão alguns dos problemas que poderão conduzir a situações de
insustentabilidade decorrentes da degradação do ambiente construído naquela cidade como os referidos no capítulo 2 (cf.2.3).
6
(citado por Vieira e Barros Filho, 2009)
3
1.2.
Tema e Motivações
Em 1987 no Relatório de Brundtland – "O Nosso Futuro Comum" – é apresentado um dos
conceitos mais importantes ao nível ambiental, o conceito de Desenvolvimento Sustentável. Este é
definido como: "desenvolvimento que dê resposta às necessidades do presente, sem comprometer a
possibilidade de as gerações futuras darem resposta às delas" (Pinheiro, 2006).
As atividades construtivas – infraestruturas, edifícios e outras – potenciam não só um importante efeito económico e social mas também ambiental, desde logo associado à ocupação e ao uso
do solo, ao consumo de recursos (nomeadamente água e energia), à produção em larga escala de
resíduos e efluentes (líquidos e gasosos), bem como à alteração dos ecossistemas naturais, que
podem interferir diretamente com o ambiente envolvente (Pinheiro, 2006).
Por esse facto, o tema deste trabalho reveste-se de grande importância, pela sua relação
com o de desenvolvimento sustentável em virtude da, cada vez maior, preocupação com a gestão
dos recursos naturais com destaque para os países em vias de desenvolvimento, dos quais Angola
faz parte.
Neste sentido, as motivações para o desenvolvimento deste trabalho são, entre outras, o interesse que o tema suscita atualmente e, dada a sua importância para o exercício profissional da arquitetura, realçar a necessidade de contemplar os princípios da arquitetura sustentável no projeto de
modo a conseguir-se uma integração, tanto quanto possível, da construção com o ambiente envolvente - natural ou construído -, minimizando os impactes ambientais, sociais e económicos que possam advir.
Mas, uma vez que os impactes ambientais decorrem de um processo mais vasto, desde a extração de matérias-primas, sua transformação, utilização e “destruição” do produto final, a motivação
do trabalho recai igualmente sobre a necessidade de se estudar o impacte causado pela utilização de
materiais não sustentáveis na construção que, de certo modo, condicionarão o comportamento dos
utilizadores, no que ao consumo de energia diz respeito.
4
1.3.
Objetivos
Constitui objetivo principal do Dissertação, o estudo e análise da importância da arquitetura
sustentável, e dos seus princípios, na definição de estratégias para as opções construtivas em países
de clima tropical, de que Angola é exemplo, e do seu contributo na redução dos impactes ambientais
que decorrem do uso ineficiente, e não racional, de recursos naturais não renováveis.
Para o efeito definiram-se os seguintes objetivos específicos:
Apresentar as causas prováveis e fatores que contribuem para o desconforto térmico
existente na cidade de Luanda;
Analisar, de forma crítica, em que medida as construções existentes em Luanda contemplam princípios de arquitetura sustentável;
Apresentar medidas de melhoria e orientação, que se adequem à realidade estudada,
fundamentadas na pesquisa efetuada, e nesse sentido fazer do presente Dissertação
uma referência de apoio aos arquitetos, aos profissionais do ramo da construção, e
aos principais atores sociais, dotando-os de uma ferramenta essencial para o exercício das suas funções, para que as decisões que tomem sejam consentâneas com a
preservação do ambiente natural através da mitigação dos impactes existentes, e latentes, provocados pela construção em todo o seu processo;
Estudar casos de construções com uso habitacional – um apartamento e uma moradia –, na cidade de Luanda, avaliando o seu desempenho ambiental utilizando como
instrumento de apoio o LiderA África v.2.00 – Sistema de Avaliação da Construção
Sustentável adaptado aos PALOP7.
7
Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
5
1.4.
Abordagem e Metodologia
De acordo com os objetivos propostos, considerou-se pertinente estabelecer uma abordagem descritiva, com procedimentos técnicos assentes em pesquisa bibliográfica e estudos de caso.
Para o efeito, a metodologia adotada foi a pesquisa e análise de documentos sobre o tema de estudo, nomeadamente artigos, teses, sítios na internet, publicações de organismos nacionais8 e internacionais sobre o tema, que serviram de apoio a compreensão e exposição das ideias. Estes documentos foram igualmente úteis no estudo das tipologias construtivas propostas para o estudo de caso (um
apartamento e uma moradia).
1.5.
Estrutura e limitações do trabalho
No sentido de atingir os objetivos definidos, o trabalho foi estruturado como a seguir se descreve.
No primeiro capítulo é feita uma introdução ao tema e são descritas as motivações que conduziram ao seu desenvolvimento, aos objetivos e à abordagem e metodologia adotados.
No segundo capítulo, faz-se uma compreensão sobre o conceito de clima, das variáveis para sua medição, e a sua relação com o homem e o ambiente construído. Para o efeito, considerou-se
pertinente introduzir e caracterizar as diferentes zonas climáticas mundiais, premissa essencial para o
entendimento da relação com o ser humano, no que ao conforto térmico diz respeito, e das suas opções relativamente ao ambiente construído. Na mesma linha de raciocínio são definidos os fatores
que se relacionam mais diretamente com a qualidade de vida dos seres humanos em ambientes
construídos e que influenciam direta ou indiretamente nos impactes ambientais.
No terceiro capítulo é definido o conceito de arquitetura sustentável e dos seus princípios.
De seguida são apresentados alguns instrumentos de apoio ao projeto sustentável. Posteriormente é
introduzido o conceito de arquitetura tropical, sua origem, e relação com o conceito de arquitetura
sustentável, onde se apresentam alguns aspetos a considerar na conceção de projetos sustentáveis.
No quarto capítulo é apresentado o conceito de indicador de sustentabilidade e, de entre os
muitos existentes, são exemplificados dois – pegada ecológica e pegada de carbono –, comummente
utilizados na avaliação da sustentabilidade das construções e dos ambientes construídos, e onde se
indica o valor dos mesmos para o caso de Angola.. Considerado relevante e desenvolvido neste capítulo é o conceito de Avaliação do Ciclo de Vida. Estes conceitos estão relacionados com o LiderA –
Sistema Voluntário para Avaliação da Construção Sustentável, que de forma global e resumida é
apresentado.
8
Angola
6
Este sistema de avaliação da construção sustentável (LiderA África v.2.00)9 é utilizado no Estudo de Caso – quinto capítulo – no qual são avaliadas duas tipologias construtivas existentes na
cidade de Luanda, um apartamento e uma moradia, localizados na zona periurbana da cidade. O
objetivo deste estudo é avaliar, através de princípios de sustentabilidade, os seus desempenhos em
termos de sustentabilidade. No final faz-se a discussão dos resultados obtidos – sexto capítulo -, bem
como a conclusão do trabalho – sétimo capítulo.
O trabalho tem, no entanto, algumas limitações relativamente a informação sobre a cidade de
Luanda, uma vez que devido a escassez de informação e dados estatísticos produzidos em Angola,
tornou-se difícil confronta-los com a realidade estudada. Outra limitação foi a não possibilidade de
apresentar valores concretos de possível medição, com meios e instrumentos concebidos para o
efeito, para aferição das condições ambientais das unidades habitacionais estudadas.
9
Sistema LiderA adaptado aos PALOP
7
2.
O clima, o homem e o ambiente construído
2.1.
O clima mundial - caracterização das diferentes zonas climáticas
O clima é um conjunto de condições atmosféricas que prevalecem num determinado local e
hora; […] pode ser definido como a integração no tempo, de condições climatéricas caraterísticas de
uma certa localização geográfica (Szokolay, 2004).
A terra recebe quase toda a sua energia a partir do sol na forma de radiação10, e o sol é a influência dominante no clima. A terra move-se à volta do sol numa orbita elítica ligeira. No máximo
(aphelion) a distância terra-sol é de 152 milhões de quilómetros e no mínimo (perihelion) 147 milhões
de quilómetros. O eixo da terra não é perpendicular ao plano da sua órbita, mas inclinado em cerca
de 23,5º (Szokolay, 2004).
Milankovitch teorizou que a inclinação do eixo da terra nem sempre é de 23,5°. Há uma certa
oscilação com o passar do tempo. Ele calculou que a inclinação muda entre 22,1° e 24,5° dentro de
um ciclo de cerca de 41.000 anos. Quando a inclinação é menor, os verões são mais frios e os invernos, menos rigorosos. Quando a inclinação é maior, as estações são mais extremas11.
Consequentemente o ângulo entre o plano equatorial terrestre e a linha terra-sol (ou a eclítica, o plano da órbita terrestre) variam ao longo do ano. Este ângulo é conhecido como declinação
(DEC) e varia conforme o esquema seguinte (Szokolay, 2004,):
+23,45◦
a 22 de Junho (Solstício do Norte)
0
a 21 de Março e a 22 de Setembro (Equinócios)
−23,45◦
a 22 de Dezembro (Solstício do Sul)
Ao nível global os climas são formados pela incidência diferencial de calor solar e da quase
uniforme emissão de calor sobre a superfície terrestre. As regiões equatoriais recebem a maior incidência de energia do que as áreas mais próximas dos polos. Este diferencial é a principal força condutora dos fenómenos atmosféricos (ventos, formação de nuvens e movimentos), que proporcionam
um mecanismo de transferência de calor do equador para os polos. Na ausência daquela transferência de calor a temperatura média no polo norte seria de -40 ºC, em vez de -17 ºC e no equador de
cerca de 33 ºC e não de 27 ºC como no presente (Szokolay, 2004).
10
Esta radiação pode ser classificada como radiação ultravioleta, de alta frequência e de pequeno comprimento
de onda, que causa efeitos fotoquímicos, branqueamento, por queimadura de sol, etc; radiação de luz visível, e
radiação infravermelha de grande comprimento de onda, produzindo calor radiante e alguns efeitos fotoquímicos.
Fonte: http://people.aapt.net.au/jclark19/
11
Fonte: https://www.planetseed.com/pt-br/node/15879#
8
Figura
a 1 – Movime
ento elítico d
da terra à vollta do sol e as
a estações aanuais
(Fonte: w
www.planetseed.com)
V
Virgílio (citad
do por Olgya
ay, 1962) esccreveu: “O cé
éu possui cin
nco zonas, um
ma das quais está
sempre vvermelha e ardente
a
pelo resplendor d
do sol”. Sacrrobosco (cita
ado por Olgyaay, 1962), na
a sua
Sphaera
a Mundi, projetou estas cinco zonas ccelestiais na terra, e coincidia com a iideia que a parte
p
central e
era inabitável “devido ao fervor do soll... Mas essa
as duas zona
as, próximas dos polos da Terra,
são inab
bitáveis devid
do ao frio inte
enso, já que o sol se enc
contra mais distante
d
delass.”
É de realçar que, relativa
amente às diiferentes zon
nas climáticas Angola, e pparticularme
ente a cidade de Luanda loca
alizam-se na zona tropica
al (Figura 2)..
Figura 2 – Clima e diferentes
s zonas climá
áticas
nte: UNEP (2
2006)
Fon
9
2
2.2.
Clim
ma Tropica
al – tipos e carateríísticas
C
Climas tropiccais são aqueles nos qua
ais o calor é o problema dominante ((Figura 3), e onde, ao
menos p
para uma parrte susbtancial do ano, o
os edifícios servem para manter fresccos os ocupa
antes, em
vez de q
quentes, e qu
ue a tempera
atura média a
anual não é menor do qu
ue 20ºC (Clarrk, 1993) (An
nexo 0)
E
Em 1953 G.A
A. Atkinson (citado por C
Clark, 1993) desenvolveu uma classsificação bas
seada em
dois fato
ores, temperratura e hum
midade, que d
o tem sido muito
m
aceite. Atkinson de
efiniu três
desde então
grandes zonas e trêss subgrupos::
Equatorial quente/húmid
q
do; subgrupo
o clima de ilha quente//húmida ou clima de ventos de
o
origem descconhecida.
Q
Quente seco
o/ seco desértico ou sem
mi-desértico; subgrupo
s
desértico maríttmo quente e seco.
C
Composto ou clima de monção;
m
subg
grupo clima de
d ilha tropic
cal.
entre os tipo
os referidos é de realça
ar que: “Em
m Angola, o clima é classsificado co
omo sub‑
De e
tropical, quente e hú
úmido, na ma
aior parte do território, e semi‑árido e sub‑húmiddo seco no Sul e faixa
é à província
a de Luanda.” (Guedes, e
et al., 2011).
litoral até
No entanto, o clima12 é marcado
m
porr duas esta
ações bem definidas: uuma denomiinada de
o” e outra qu
uente e chuvo
osa (cf.5.2)1
“cacimbo
Fiigura 3 – Tem
mperaturas (Clima
(
tropical)
Fonte: Fry & Drew,, (1964)
12
Em Ang
gola.
10
2
2.2.1. Varriáveis clim
máticas
O
Os principaiss elementos climáticos re
egularmente
e medidos pe
elas organizaações meteo
orológicas
e publica
ados de form
ma sumária são
s (Szokola
ay, 2004): Te
emperaturas (TBS), Hum
midade, Movim
mento do
ar, Preciipitação, Neb
bulosidade, Insolação, e Radiação so
olar (Anexo A.1.2).
A
C
Como as qua
atro variáveis ambientaiss que afetam
m diretamente
e o conforto térmico são a temperatura, a humidade, a radiação e o movimen
nto do ar, estes serão os
s quatro consstituintes ma
ais importantes do
o clima para o projeto de
e edifícios (S zokolay, 200
04).
Figura 4 – Orientação otimizada pa
ara a cidade de Luanda
Fonte: (G
Guedes, et al.,
a 2011)
ma do regime
e anual de ve
entos em Lua
anda mostran
ndo a frequêência dos ven
ntos doFigura 5 – Diagram
minantes
Fonte: (G
a 2011)
Guedes, et al.,
11
2.3.
O conforto térmico humano, a envolvente natural e o ambiente
construído
Os efeitos do meio ambiente incidem diretamente tanto na energia como na saúde do homem. É muito comum a experiência de que em certos dias, as condições atmosféricas estimulam e
dão vigor às nossas atividades ao passo que outras deprimem os esforços físicos e mentais. Também é muito conhecido que nas zonas climáticas onde prevalece calor ou frio excessivo, o esforço
biológico de adaptação a tais condições diminui a nossa energia (Olgyay, 1962).
O meio ambiente físico está formado por numerosos elementos que se relacionam. É possível
tentar descrever os constituintes da envolvente tais como: luz, som, clima, espaço, etc. Todos eles
incidem diretamente no corpo humano, o qual pode abosorvê-los ou tentar contrabalançar os seus
efeitos. Na luta para conseguir o equilíbrio biológico produzem-se diversas reações físicas e
psicológicas. O homem esforça-se para chegar ao ponto em que adaptar-se à sua envolvente lhe
requeira somente um mínimo de energia. As condições sob as quais consegue este objetivo define-se
como “zona de conforto”, donde a maior parte da energia humana se liberta para dedicar-se à
produtividade (Olgyay, 1962).
Os elementos principais que afetam o conforto humano são: a temperatura do ar, a radiação
solar, o movimento do ar e a humidade. Os meios através dos quais o corpo humano troca calor com
a sua envolvente podem classificar-se em quatro processos principais: radiação, condução,
convecção e evaporação. Estima-se que o corpo humano perde dois quintos (2/5) do seu calor
através da radiação, dois quintos (2/5) por convecção e um quinto (1/5) por evaporação; sem
prejuízo, estas proporções podem mudar se se produzem variações nas condições térmicas (Olgyay,
1962).
A vivenda é o principal instrumento que nos permite satisfazer as exigências de conforto
adequadas. Modifica a envolvente natural e aproxima-nos às condições ótimas de habitabilidade.
Deve filtrar, absorver ou repelir os elementos do meio ambiente segundo a sua influência benéfica ou
negativa no conforto do ser humano. O critério ideal para o desenho de um abrigo em equilíbrio,
relativamente ao seu meio ambiente seria o que cobrisse satisfatoriamente todas as necessidades
fisiológicas humanas. O problema do arquiteto consiste em criar uma envolvente que não produza
tensões negativas sobre o mecanismo de compensação de calor do corpo. O objetivo deve
reinterpretar-se em termos de conforto, a representação deve ser gráfica e, para ser facilmente
aplicável (exemplo figura 6), os dados derivados dos estudos empíricos devem ser expressos de
forma a poderem ser utilizados na prática arquitetónica (Olgyay, 1962).
12
Figura 6 – Gráfico bio
oclimático co
om as diferen
ntes zonas
Fonte: (Boonyatika
am, S. & Bura
anakarn, V., 2006)13
2
2.4.
O consumo de
d energia
a
A
As áreas urb
banas tendem
m a ter temp
peraturas sup
periores em relação às ssuas envolve
entes [...].
Este fenómeno é conhecido com
mo efeito ilha
a de calor urb
bano (UHI)14. A ilha de caalor urbano foi identior Luke How
ward em 182
20, pela prim
meira vez é uma
u
reflexão
o da totalidadde das muda
anças de
ficada po
microclim
ma provenie
entes das altterações efe
etuadas pelo
o Homem na superfície urbana (La
andsberg,
1981; cittado por Sha
ahmohamadi, et al., 2010
0). A ilha de
e calor urbano é considerrado um dos
s maiores
problema
as encontrados pelo Ho
omem neste
e século. Os
s efeitos da ilha de caloor urbano em climas
quentes exacerbam o consumo de energia p
para refrescamento no verão.
v
Os efe
feitos da ilha
a de calor
s meteorológ
gicos e de urbanização
u
que incremeentam a tem
mperatura
urbano ttêm como causa fatores
urbana e a corresp
pondente demanda na e
eletricidade numa área urbana (Shhahmohamad
di, et al.,
2010).
C
Como se ve
erifica na Fig
gura 7, Oke (1987) (citad
do por Shah
hmohamadi, et al., 2010) afirmou
que num
ma cidade maior com céu
u limpo e ve
entos fracos após o por do sol, a froonteira entre as áreas
urbana e rural apressenta um gradiente de te mperatura acentuado pa
ara a ilha de calor urbano
o e o resto da áre
ea urbana aparece como
o um plateau
nte com um gradiente hoorizontal esttacionário
u do ar quen
mas fracco, de increm
mento de tem
mperatura em
m direção ao
o centro da cidade. Na Fiigura 7, a un
niformidade do pla
ateau é interrrompida pela influência d
de distintos usos do solo
o intraurbanoos tais como parques,
13
14
Citado por (UNEP, 2006)
2
Urban Heat Island
13
lagos e áreas aberta
as (frescas) e áreas com
merciais, ind
dustriais ou áreas
á
constrruídas densa
as (quentes).
Figura
a 7 – O efeito
o da ilha de ccalor urbano sobre uma área
á
urbana e rural
(Fonte: Sha hmohamadi,, et al., 2010)
E
Em áreas metropolitanas
s, o núcleo u
urbano mostra um pico final na ilha dde calor urba
ano onde
a temperatura máxim
ma é encontrada. A diferrença entre este valor e a da área ruural define a “intensidade da
a ilha de calo
or urbano” ( t
u-r
). A in tensidade da
a ilha de callor urbano d eterminada principal-
pelo equilíbrio
o térmico da
a região urba
ana pode res
sultar numa diferença dee temperatura de até
mente p
10 º C (A
Asimakopoulos et al., 20
001)15. À noitte, o calor arrmazenado é libertado leentamente da
a superfície urbana, ao contrrário da dissipação rápid
da do calor das
d superfícies rurais. M ais, a intens
sidade da
o tem vários picos horáriios depois do
d por do sol quando ass superfícies rurais (e
ilha de ccalor urbano
consequ
uentemente a temperatura da ar da
a superfície) tornaram-se
e frescas ass superfícies urbanas
mantêm--se quentes.. Depois do nascer do so
ol, as áreas rurais aquec
cem mais rappidamente do
d que as
áreas urrbanas (Figura 8b). Se a diferença da
a taxa de aquecimento é grande o suuficiente, as temperaturas do ar na zona rural
r
podem igualar ou exxceder as te
emperaturas urbanas. Istoo reduz a inttensidade
de calor urba
ano para um mínimo diárrio (Figura 8c)
8 e pode ge
erar igualmeente uma ilha
a de fresde ilha d
cura urbana. O fenóm
meno da ilha
a de calor urb
bano pode ocorrer durante o dia ou ddurante à noite.
G
Givoni (1998
8) (citado po
or Shahmoha
amadi, et al., 2010) afirm
mou que as m
e
mais altas elevações
da temp
peratura urba
ana ocorrem
m durante ass noites de céu
c
limpo se
em movimennto de ar. Sob
S
estas
condiçõe
es, as elevaçções de temp
peratura de ccerca de 3 – 5ºC são com
muns, mas eelevações de
e cerca
de 8 – 1
10ºC foram igualmente
i
observadas.
o
guns parâme
etros principaais que influe
enciam o
Existem alg
aumento
o de tempera
atura nas cidades e que
e jogam um papel signifficativo. Porttanto, a ilha de calor
urbano é causada por diferentes
s fatores que
e podem serr divididos em
m dois tipos:: (1) fatores meteorológicos, tais como nebulosidade, velocidade do vento e humidade; (2)
( parâmetro
ros da cidade
e tais comanho desta
a e da popula
ação, calor a ntropogénico
o e canyon urbano.
u
mo o tam
15
Citado por (Shahmo
ohamadi, et al., 2010).
14
Figura 8 – Variação temporal típ
pica Urbana e Rural. (8 a)
a Temperatu
ura do ar, (8 bb) Taxas de arrefecimento/a
aquecimento
o e (8 c) A inttensidade da
a ilha de calo
or urbano res
sultante sob ccondições attmosféricas
Fontte: (Oke, 198
82)16.
D
De acordo com Landsbe
erg (1981)17, a ilha de ca
alor urbano está
e
presentee em todas as
a vilas e
cidades e é a mais óbvia maniffestação da urbanização
o. Claramente maiores teemperaturas
s urbanas
eriamente impactes na de
emanda de a
ar-condiciona
ados nos edifícios e increementam a produção
p
criam se
de poluiçção, e contribuem també
ém para o au
umento da emissão de poluentes dass fábricas de
e energia,
incluindo
o o dióxido sulfuroso, o monóxido de carbono,, os óxidos nitrosos e ppartículas su
uspensas
(Asimako
opoulos et al., 2001)18.
((Asimakopou
ulos et al., 2001)19 mencciona também
m que os seres humanoos são capaz
zes de influenciarr o clima atra
avés de muittas atividade
es humanas e alterações
s na coberturra do solo (d
desflorestação) o
ou na superffície da terra
a (edifícios, rodovias); is
sto é importante também
m numa esc
cala local
porque m
modifica o albedo, a rugo
osidade supe
erficial e o co
omportamentto térmico e humidade.
H
Hoje, é aceitte que a urba
anização con
nduz a um grande
g
increm
mento no usso de energia
a (Asimakopouloss et al., 2001
1)20. As ilhas
s de calor urb
bano desenv
volvem-se em
m áreas quee contêm um
ma grande
percenta
agem de sup
perfícies não--refletivas, e resistentes à água e um
ma baixa perc
rcentagem de
e vegetação e su
uperfícies que retêm a hu
umidade. Em
m particular, os
o materiais como a peddra, o betão e o asfalto tendem a reter o calor
c
à superfície (Landssberg, 1981; Oke, 1982; Quattrochi
Q
eet al., 2000)211 e a falta
16
(citado
o por Shahmohamadi, et al., 2010).idem
Idem
18
Idem.
19
Ibidem.
20
Idem
21
Idem
17
15
de vegetação reduz a perda de calor devido a evapotranspiração (Lougeay et al., 1996)22. A adição
de calor antropogénico e poluentes na atmosfera urbana contribui ainda mais para a intensidade do
efeito da ilha de calor urbano (Taha, 1997)23. Os centros urbanos tendem a ter maior demanda do
que as áreas circundantes como resultado da sua elevada densidade populacional. Apesar de o efeito da ilha de calor urbano reduzir a necessidade de aquecimento no inverno, isto é compensado pelo
aumento demanda de ar-condicionado durante os meses de verão (Landsberg, 1981)24, que por sua
vez é causa aumento da poluição do ar, local e regional, devido a produção de energia elétrica pela
queima de combustível fóssil. A poluição criada pelas emissões a partir da produção de energia, aumenta a absorção da radiação na camada limite (Oke, 1982)25 e contribui para a criação da inversão
de camadas. A inversão de camadas previne a ascensão do ar de arrefecimento a taxas normais e
abranda a dispersão dos poluentes produzidos nas áreas urbanas (Sahashi et al., 2004)26.
Consequentemente, a ilha de calor urbano não só cria impacte no conforto e saúde dos habitantes mas também no consumo de energia para aquecimento ou arrefecimento de edifícios.
Oke (1982)27 correlacionou a intensidade da ilha de calor urbano ao tamanho da cidade. Utilizando a população (P) como substituta do tamanho da cidade, ur é observada como proporcional
ao log P. Oke (1982) salienta que produção de temperatura urbana quente tem relação direta com a
população urbana. Isto é devido a densidade da área construída e a produção de fontes de calor antropogénicas, tais como, os transportes públicos, automóveis e atividades industriais, desenvolvem
com o crescimento da população.
Oke (1987)28 acrescenta que o caso ideal de ventos calmos e céus limpos que geram o valor
máximo da ilha de calor urbano (Tur (max)) varia com o log P para muitos assentamentos Norte
Americanos e Europeus.
22
Idem
Idem
24
Idem
25
Idem
26
Idem
27
Ibidem
28
Citado por (Shahmohamadi, et al., 2010)
23
16
Figura 9 – A diferen
nça máxima entre a temp
peratura Urb
bana e Rural para as cidaades Norte AmericaA
na
as e Europeiias
(Oke, 1982) (Fontte: Shahmohamadi, et al., 2010)
O
Oke (1987)
2
29
sugere a fórmula segu
uinte para calcular a inte
ensidade daa ilha de calo
or urbano
próximo do por do so
ol com céu limpo como fu
unção da população e ve
elocidade de ventos regio
onais:
Equaçã
ão 1 – Fórmu
ula para o cá
álculo da inte
ensidade da ilha de calorr urbano
(Fonte: Sha hmohamadi,, et al., 2010)
onde T
Tur é a inte
ensidade da ilha de calorr urbano em Kelvin (K), P é a populaçção e U é a velocidade do ve
ento regional (não-urbano
o) em m/s a uma cota de
e 10 m.
O
Oke (1987)30 declarou que
q
as difere
enças térmic
cas urbano/rrural são oblliteradas com
m ventos
muito forrtes. A forma
a da equação
o 1 não perm
mite aferir fac
cilmente a ve
elocidade críítica do vento
o na qual
se verificca e possa ser
s identificad
da numa dad
da cidade. Ba
aseado na observação, pparece que este
e
valor
é aproximadamente 9 m/s (med
dida a uma a
altura de 10 m num esp
paço rural) nnuma cidade com um
de habitantess é cerca de 5 e 2 m/s pa
ara populaçõ
ões de 100.000 e 10.000,, respetivamente. Por
milhão d
outro lad
do, Bonan (2
2002)31 declarou que a relação entrre a intensidade da ilha de calor urb
bano e a
populaçã
ão para as cidades Norte
e Americanass e Europeia
as são as seg
guintes:
29
Idem
Idem
31
Idem
30
17
Equação 2 e 3 – Relaçã
ão entre a in tensidade da
a ilha de calo
or urbano e a população para as
cidades Norte Amerricanas e Eurropeias (Fon
nte: Shahmo
ohamadi, et aal., 2010)
onde T
T é a difereença máximaa entre as árreas urbana e rural e P é a populaçãão. Os dois modelos
precedentes realçam
m o papel da
a população na formação da ilha de calor urbanno. O modelo
o de Oke
demonsttra quão as temperatura
as urbanas e
estão diretam
mente relacio
onadas com a população
o urbana:
O modelo de Bonan
n (citado porr Shahmoha
amadi, et al., 2010) alca
ança o mesm
mo propósito
o. Outros
dados esstatísticos mostram
m
que a quantidad e de energia
a consumida pelas cidaddes para aquecimento
e arrefeccimento de escritórios
e
e edifícios
e
resiidenciais aum
mentaram na
as últimas duuas décadas.
S
Santamouriss (2001) (cita
ado por Sha
ahmohamadi, et al., 2010) reportou que um aum
mento da
populaçã
ão urbana em
e 1% aume
enta o consu
umo da enerrgia em 2,2%
%, isto é, a taxa de alte
eração na
utilização
o da energia
a é duas vez
zes a taxa d
de alteração
o urbana. Por outro lado , Emmanuel (2005)32
acredita que o desenho urbano influencia ass necessidad
des de energia para o trransporte e o uso de
energia nos edifícioss. Emmanuel (1995)33 mo
ostrou a taxa
a de consum
mo de energiia de três pa
aíses, Estados Un
nidos, Reino Unido e Sri Lanka, no Q
Quadro 1.
Quadrro 1 – Padrões do consumo de energ
gia por difere
entes atividad
des nos Estaados Unidos,, Reino
Uniido e Sri Lan
nnka
Fonte: Shahm
mohamadi, ett al., 2010)
(Emmanuel, 1995); (F
E
Estes dadoss ilustram cla
aramente o impacte da urbanização
o na utilizaçãão da energia. O aumento d
das temperatturas urbana
as têm efeito
o direto no consumo
c
de energia durrante os perríodos de
verão e inverno. Apesar de muitos fatores sserem citado
os como cau
usas do aum
mento do con
nsumo, é
ue a urbanização na reg ião é a prime
eira causa, particularmen
p
nte nas área
as onde o
geralmente aceite qu
nto das rend
das resultem
m numa proccura superior por transporte e dispoositivos domésticos e
incremen
especialmente os ar--condicionad
dos (de Dearr and Fountain, 1994)34.
32
Citado por (Shahmohamadi, et al., 2010)
Idem
34
Idem.
33
18
C
Contudo, po
ode-se concluir que o au
umento da população
p
na cidade cuulmina na co
onstrução
urbana e calor antro
opogénico, que conduz à temperaturras elevadas
s e cria umaa ilha de calo
or urbano
que resu
ulta numa “ccúpula” de ar
a quente a cobrir a cida
ade. Conseq
quentementee, causa aum
mento no
consumo
o de energia
a para aquecer e arrefe
ecer os edifíc
cios. Este processo é reesumido na figura 9.
(Oke, 19
981) incorporou estas ca
ausas nas se
eguintes cinc
co categorias
s (não ordennadas), cada
a uma representa
a mudanças ao ambiente
e pré-urbano
o trazidas pe
ela urbanizaç
ção: (1) Poluuição do ar; (2) Calor
Antropog
génico; (3) Superfícies
S
impermeáveiis à água; (4
4) Proprieda
ades térmicaas da construção; (5)
Geometrria da superffície.
A poluição do ar resulta da
d emissão d
de partículas
s, vapor de água
á
e dióxiddo de carbon
no a partir
dos proccessos indusstrial, domésttico e combu
ustão automó
óvel (Oke, 19
987)35.
A descarga de
d calor antrropogénico n
numa cidade contribui tam
mbém para o efeito de ilh
ha de calor urban
no. As fonte
es de calor antropogénic
a
co incluem o aquecimen
nto de espaçços, a manu
ufatura, o
transporrte e a iluminação. O mettabolismo hu
umano e anim
mal são tamb
bém consideerados fontes
s de calor
artificial (Peterson, 1
1973)36. No entanto
e
para
a o aumento
o de consum
mo de energiaa este efeito
o tem um
e conjugação com outrros fatores como
c
eviden
nciado na figgura seguintte (Shahcontributto pontual em
mohama
adi, et al., 2010)
o do consumo
o de energiaa
Figura 10 - O processo de aumento
(Fonte: Sha hmohamadi,, et al., 2010)
35
These atmospheric “pollutants”
“
ch
hange the urb an net all-wav
ve radiation bu
udget by reduucing the incid
dent flux of
e (that is, so
olar) radiation, re-emitting long-wave (th
hat is, infrared
d) radiation ffrom the urba
an surface
shortwave
downward
d where it is retained by th
he ground an
nd absorbing longwave
l
radiation from thhe urban surfa
ace, which
effectivelyy warms the ambient
a
air (Oke, 1987) citad
do por (Shahmohamadi, ett al., 2010).
36
Citado por (Shahmo
ohamadi, et al., 2010).
19
Superfícies impermeáveis à água, refere-se a predominância de superfícies impermeáveis
nas áreas urbanas. Os edifícios e as ruas pavimentadas escoam a precipitação para as bacias hidrográficas, que criam um deficit de evaporação na cidade. Ao contrário, nas áreas rurais, os solos expostos e vegetação natural retêm a água, que conduz ao resfriamento por evapotranspiração.
Durante o dia, a cobertura da superfície urbana propicia a troca de calor sensível e suprime o
fluxo de calor latente, ao passo que as superfícies húmidas rurais suprimem a transferência de calor
sensível e propiciam o fluxo de calor latente.
O quarto fator que contribui para a ilha de calor urbano está relacionado com as propriedades
térmicas da construção urbana. A capacidade calorífica e consequentemente a inércia térmica, dos
materiais de construção urbanos, tais como o betão e o asfalto, é maior do que dos materiais naturais
encontrados nos ambientes rurais. Uma maior capacidade calorífica significa que os materiais urbanos absorvem e retêm mais radiação solar do que os solos e a vegetação em espaço rural. De noite,
este calor absorvido é libertado lentamente da superfície urbana, ao contrário da rápida libertação das
superfícies em espaço rural.
A geometria complexa das superfícies urbanas influencia a temperatura do ar de duas formas. Primeiro, o aumento da fricção criada por uma superfície urbana rugosa (comparada com uma
superfície rural suave) reduz o fluxo de ar na cidade. O ar quente estagna nos desfiladeiros urbanos
em vez de serem ventilados pelo ar fresco dos espaços rurais. Segundo, a geometria complexa das
superfícies urbanas alteram o balanço da radiação urbana. Durante o dia, os desfiladeiros de paredes
verticais retêm (isto é, refletem e absorvem) as radiações de onde curta. As perdas noturnas da energia infravermelha são igualmente retardadas devido ao decréscimo da visibilidade do céu por baixo
do nível do telhado. As superfícies rurais, por outro lado, são comparativamente suaves e portanto
experimentam maiores divergências de fluxos radiativos noturnos do que as complexas superfícies
urbanas. Consequentemente, as altas temperaturas criam impactes de consumo de energia através
do aumento das cargas de energia para arrefecer os edifícios; altas temperaturas ambientais aumentam os picos de carga de eletricidade.
É de realçar que as teorias e os modelos acima expostos poderão ser extrapolados, com as
necessárias adaptações, para a realidade da cidade de Luanda de modo a explicar as prováveis razões do uso excessivo de sistemas mecânicos de ar-condicionado, da demanda de energia elétrica,
do desconforto térmico relacionado com as temperaturas observadas, o que poderá resultar na manifestação do fenómeno ilha de calor urbano, em parte, devido ao processo de urbanização resultante
do acelerado crescimento urbano, ao longo da guerra civil e desde a fim da mesma que durou cerca
de 30 décadas, os processos e tecnologias construtivos utilizados nas construções por vezes não
adequados à realidade local, e a sobrelotação de população na cidade de Luanda.
20
2.5.
Outros impactes e custos do ambiente construído
2.5.1. Impactes do ambiente construído
Os edifícios e espaços envolventes (empreendimentos) respondem às necessidades humanas, originando na sua construção, operação e desativação, impactes mais ou menos diretos: nos
recursos, nas emissões, nas cargas e nos ambientes construídos e de forma indireta nos ambientes
naturais. Um aspeto relevante a considerar assenta no facto de que para os edifícios satisfazerem as
funções para que foram criados (por exemplo, residências, escritórios, entre outros) necessitam de
infraestruturas e por isso, de forma indireta, também os impactes a elas associados podem decorrer
da presença e operação dos edifícios. Os impactes dos edifícios, tal como os das restantes estruturas, refletem-se de formas diferentes nas diferentes fases do seu ciclo de vida, [...] (Pinheiro, 2006).
37
A fase de planeamento e conceção
consiste no levantamento das condições que permi-
tem executar o projeto, até à sua elaboração; [...] é nesta fase que se tomam as principais decisões a
que muitos dos impactes ambientais, que ocorrem posteriormente, estão associados e são, essencialmente, provocados nas outras fases. Os efeitos ambientais diretos estão associados aos trabalhos
de conceção e levantamentos efetuados, para obtenção de dados. Em termos de dimensão, os impactes efetivos desta fase são muito reduzidos e quase sem significado quando comparados com as
restantes fases, sendo essencialmente associados aos consumos (muito reduzidos) (Pinheiro, 2006).
Na fase de construção incluem-se todas as ações que vão desde o concurso e o início da
construção propriamente dita, até à receção da obra por parte do proprietário, numa escala temporal
que pode ir de dias a alguns anos, [...]. Na fase de construção a atenção recai, sobretudo, sobre a
forma de desenvolvimento do processo construtivo, sendo esta associada, essencialmente, à intervenção no local, com alteração do uso do solo, consumo de matérias-primas, energia e água e alterações nos ambientes natural e/ou construído. Os impactes da extração, ou transformação, são também importantes, ainda que, na maior parte dos casos, sejam da responsabilidade da indústria produtora, pois não são específicos do sector da construção. No caso das estruturas edificadas estima-se
que o impacte devido aos materiais represente cerca de 10-20% do impacte de um edifício, em todo o
39
seu ciclo de vida38 (Edwards e Bennet, 2003) .
A fase de operação estende-se desde a receção da obra por parte do proprietário, até ao fim
da utilização do empreendimento. Nesta podem incluir-se, também, as operações de manutenção e
renovações pontuais. Os impactes relevantes associados ao empreendimento edificado, decorrentes
da sua operação, resultam: no consumo de energia, de água e de materiais e na produção de resíduos, de efluentes e de emissões atmosféricas, com consequentes impactes diretos. Existe igualmen-
37
Esta fase é, provavelmente, a mais importante do processo, pois é nesta altura que se tomam as principais
decisões referentes ao local, à conceção, aos fornecedores, aos materiais a utilizar, às necessidades energéticas
e de água e outras, cujas consequências se irão refletir nas restantes fases do ciclo de vida da construção.
38
Para os parâmetros usuais de avaliação do ciclo de vida (Pinheiro, 2006).
39
Citados por (Pinheiro, 2006).
21
te um conjunto de emissões interiores e exteriores de outras substâncias. Por exemplo, cerca de metade dos CFC produzidos no mundo inteiro são usados na refrigeração de sistemas de ar condicionado e na refrigeração de edifícios, em sistemas de extinção de incêndios e em sistemas de isolamento
40;
(Pearce, 2001)
[...] um dos efeitos indiretos, também associados aos edifícios, prende-se com o
aumento das necessidades de transporte e a alteração do tráfego local, a pressão sobre os serviços
urbanos e a geração de emprego e riqueza. A operação dos empreendimentos edificados, embora os
seus efeitos sejam mais discretos, lentos e progressivos ao longo de usualmente várias dezenas de
anos, acaba por consumir recursos, gerar emissões, alterar os sistemas ambientais naturais e construídos, de forma mais significativa do que a fase de construção [...] (Pinheiro, 2006).
Ao nível dos sistemas socioeconómicos, podem referir-se: incómodos nas populações e comunidades, eventuais riscos de saúde pública, na obra e para os utilizadores, necessidades suplementares de acessibilidades, de transportes e de alteração do tráfego local, pressão sobre as infraestruturas e serviços urbanos, alteração das condições de segurança, mas também: geração de emprego, conforto, funcionalidade, riqueza e desenvolvimento (Pinheiro, 2006).
2.5.2. Custo do ciclo de vida e dos impactes ambientais da construção
Atualmente, muitos dos custos ambientais da edificação (emissões de gases de estufa, o
consumo de recursos finitos tais como madeiras duras e metais, e a criação de lixo de construção)
não se refletem quer no custo inicial de construção quer nos custos correntes de manutenção da
construção. As taxas sobre a água, o lixo e a energia estão a modificar gradualmente estes aspetos,
e tornam a construção verde economicamente cada vez mais atrativa. Será necessária uma análise
do custo do ciclo de vida, para que o cliente possa fazer a avaliação do retorno financeiro de um investimento inicial, em medidas de poupança de energia ou preservação de recursos, ao longo da vida
útil de um edifício (Ordem dos Arquitetos, 2001).
O objetivo é a otimização do valor de um projeto de construção ao longo da sua vida útil, tendo em conta todos os custos do projeto, tanto diretos como indiretos. Isto envolve a definição de um
prazo de vida apropriado para o edifício No entanto, com cuidados de manutenção, qualquer edifício
poderá durar quase indefinidamente, sendo mais fácil atribuir um prazo de substituição para os sistemas e componentes individuais. Quando se totaliza os custos anuais de operação e manutenção,
este prazo de substituição pode ajudar a determinar o custo de ciclo de vida. Para uma avaliação
ambiental completa, será necessário atribuir custos a outros fatores ambientais que não se contabilizam: poluição, esgotamento de recursos (Ordem dos Arquitetos, 2001).
No caso de um projeto de baixa energia ou de natureza sustentável, a consideração dos custos do ciclo de vida desde o início será essencial. O equilíbrio entre o custo de construção e o custo
durante a utilização é fundamental para a arquitetura do edifício. Por exemplo, o desenho de uma
40
Idem.
22
janela terá implicações no que se refere a aquecimento, arrefecimento, ventilação e iluminação artificial, emissão de poluentes, dimensão das instalações especiais e custos de manutenção (Ordem dos
Arquitetos, 2001).
23
3.
Arquitetura sustentável e arquitetura tropical
3.1.
Enquadramento histórico, origem e conceito de arquitetura sustentável
Para perceber os conceitos de arquitetura sustentável e arquitetura tropical, considera-se pertinente contextualiza-los na história das preocupações ambientais.
O movimento ambiental moderno, teve uma dinâmica alargada a diferentes países, sendo
frequentemente entendido como tendo iniciado nos Estados Unidos em 1962 com o Silent Spring de
Rachel Carson, a publicação que causou uma mudança de paradigma no entendimento do impacte
ambiental do uso do pesticida41 (Baweja, 2008).
Dos Estados Unidos da América, Ian McHarg, o emigrante escocês, publicou o seu trabalho
seminal Design with Nature em 1969, sete anos depois de Carson. A tese ecológica de McHarg
expande a disciplina do paisagismo, arquitetura e planeamento: ele é um dos pais fundadores do
desenvolvimento sustentável. McHarg argumentou que o desenvolvimento humano deveria ser
planeado de modo a ter-se em consideração a natureza e os processos naturais (Moughtin, et al.,
2005).
Small is Beautifull de Schumacher (1974)42 é outro marco na análise das causas dos
problemas ambientais e no desenvolvimento de princípios “green”. Uma causa dos problemas
ambientais de acordo com Schumacher é a noção de que podemos continuar a produzir e consumir a
taxas crescentes num planeta finito. Schumacher advertiu que o planeta, nosso stock de capital, está
a ser ameaçado pela produção excessiva: pelo efeito, a raça humana está a consumir o seu capital
numa taxa alarmante, pondo em perigo os limites de tolerância da natureza, e como tal ameaçando
os sistemas de suporte da vida que nutrem a espécie humana (Moughtin, et al., 2005)
Contudo, as raízes do ambientalismo podem ser mais profundas. Farmer (1996) citado por
(Moughtin, et al., 2005) traçou o desenvolvimento da “Green Sensibility” na arquitetura dos edifícios
populares e no culto da casa no século XIX nos escritos de Ruskin, no trabalho do movimento das
Arts & Crafts até ao século XX e as ideias orgânicas na Arquitetura Moderna. O planeamento pode
citar também a sua lista de planeadores com credenciais “green”..
As preocupações com os impactes ambientais humanos cresceram exponecialmente nos
anos 80, durante os quais o discurso foi dominado pelos acidentes industriais43, […]. Estes acidentes
realçaram a magnitude dos processos humanos e seus impactes ambientais. (Baweja, 2008).
41
Shirley A. Briggs, "Remembering Rachel," EPA Journal 18, no. 2 (May-June 1992), M. Jimmie Killingsworth
and Jacqueline S. Palmer, Ecospeak: Rhetoric and Environmental Politics in America (Southern Illinois UP: Carbondale, 1992), Linda J. Lear, "Rachel Carson's Silent Spring," Environmental History Review Vol. 17, no. 2
(1993), Craig Waddell, ed., And No Birds Sing: Rhetorical Analyses of Rachel Carson’s Silent Spring.
42
Citado por (Mougtin, et al., 2005).
43
Including the 1984 Bhopal gas disaster, the 1986 Chernobyl nuclear disaster, and the 1989 Exxon Valdez oil
spill.
24
Já nos finais dos anos 80, o termo sustentabilidade foi usado extensivamente no campo da
economia em referência ao desenvolvimento para criticar os novos modelos de crescimento económico para as nações e regiões que favoreciam os rápidos retornos e crescimento acelerado, enquanto ignoravam que a longo prazo eles esgotariam os recursos não renováveis – os recursos dos quais
dependem. A questão de longo prazo, dos impactes negativos não previstos de uma política
económica no seu desempenho foi posteriormente dessiminado devido ao efeito de novos produtos –
química, agricultura e mecânica – na qualidade do ambiente a longo prazo. Foi por causa deste
último problema que o critério de sustentabilidade apareceu na arquitectrura e desenho urbano,
fornecendo um quadro conceptual para lidar com o impacte negativo a longo prazo da aplicação de
materiais e materiais de construção no consumo de recursos naturais e da qualidade física ambiental
(Bay, et al., 2006).
Em 1987, as Nações Unidas estabeleceu a Comissão Mundial para o Ambiente e
Desenvolvimento (WCED), que se tornou conhecida como Comissão Brundtland, […]. O relatório da
comissão, conhecido como Relatório Brundtland introduziu o conceito de “sustentabilidade” no discurso ambiental, transformando o discurso arquitetónico e estabelecendo a “Arquitetura Verde” (Baweja,
2008).
No Relatório de Brundtland – "O Nosso Futuro Comum" – é apresentado um dos conceitos
mais importantes ao nível ambiental, o conceito de Desenvolvimento Sustentável. Este é definido
como: "desenvolvimento que dê resposta às necessidades do presente, sem comprometer a
possibilidade de as gerações futuras darem resposta às delas" (Pinheiro, 2006,).
O relatório identificou o consumo excessivo de recursos naturais pelos ricos e a existência de
pobreza extrema como constitutiva de problemas ambientais. O relatório Brundtland salientou que a
sustentabilidade não pode ser alcaçada sem equidade social porque o desenvolvimento sustentável
requer, não somente uma distribuição equitativa dos recursos no tempo para as futuras gerações
mas, também, através do espaço sincronicamente, deste modo colmatando o fosso entre os ricos e
as nações pobres. O relatório prescreveu o corte no consumo de energia nas nações ricas, que teve
um impacto directo e significativo na definição de Arquitetura Sustentável (Baweja, 2008).
Depois do relatório Brundtland, o marco significativo na história da “Arqutectura Verde” foi a
formulação da Agenda 21, em 1992, “Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e
Desenvolvimento” no Rio de Janeiro (Baweja, 2008).
A Agenda 21, um plano normativo para o desenvolvimento sustentável, contém instruções
específicas para a prática da arquitetura sustentável. Os pontos-chaves previstos na Agenda 21 para
a indústria da construção sustentável são o uso de tecnologia e materiais locais; tecnologias
construtivas de trabalho intensivo; design energeticamente eficiente; reciclagem de materiais,
prevenção de resíduos,; desenvolvimento de conhecimento sobre o impacte ambiental dos edifícios;
ajuda na autoconstrução de casas para os pobres (Baweja, 2008).
Esta tem sido interpretada em diversas Agendas locais e regionais. Uma dessas
interpretações com especial relevância para o sector da construção é a Agenda Habitat II, que
resultou da Conferência das Nações Unidas, em 1996, realizada em Istambul. A Agenda Habitat II
25
demonstra uma preocupação com abrigo para todos e a sustentabilidade dos aglomerados humanos
e contém diversas secções dedicadas ao sector da construção civil e à forma como os governos
nacionais devem encorajar a indústria no sentido da sustentabilidade. A especificidade dos países
levou á disponibilização de Agendas 21 para a sustentabilidade na construção (Plessis, 2002)44, que
salienta a importância do ajustamento à realidade especifica e ás soluções ajustadas (Pinheiro,
2006).
O consumo de recursos e o status económico têm uma forte correlação. Assim como o nível
de renda aumenta, também cresce o do consumo de recursos. A correlação entre os redimentos per
capita e o consumo de energia demonstra esta tendência. A arquitetura é uma das formas
conspícuas de actividade económica. Prevê-se que a intensidade do padrão dos recursos
arquitetónicos (o rácio consumo de recursos arquitónicos per capita e renda per capita) seguirá os
mesmos padrões […]. Ao longo da existência de um edifício, este afeta o ambiente local e global
através de uma série de atividades humanas interconectadas e processos naturais. No estágio inicial,
o desenvolvimento e a construção influenciam as caraterísticas ecológicas indígenas. Apesar de
temporário, o afluxo de equipamentos da construção e pessoal para um local de obras e o processo
de construção em si perturbam a ecologia local (Kim, et al., 1998).
A aquisição e a manufatura de materiais impactam no ambiente global. Uma vez construído,
as operações de construção infligem impactes de longa duração no ambiente. Por exemplo, a energia
e água usados pelos seus habitantes produzem gases tóxicos e dejetos; o processo de extração,
refinação e transporte de todos os recursos usados na manutenção e operação de um edifício têm
também numerosos efeitos no ambiente (Kim, et al., 1998)
Os edifícios e o desenvolvimento têm um enorme impacte na nossa qualidade de vida e na
qualidade do nosso ambiente, simultaneamente na construção e operação. Os edifícios consomem
40% da energia mundial, 25% da colheita de madeira e 16% do consumo de água, todos os recursos
que não nos podemos permitir gastar (Saker, et al., 2010).
Integrado na reflexão sobre desenvolvimento sustentável, surge nos países mais desenvolvidos, um movimento internacional em 1993, (Kibert, 2003) que procura definir e implementar o conceito de construção sustentável. A definição mais aceite foi a apresentada por Charles Kibert em 1994
que define Construção Sustentável como a "criação e gestão responsável de um ambiente construído
saudável, tendo em consideração os princípios ecológicos (para evitar danos ambientais) e a utilização eficiente dos recursos" (Pinheiro, 2006).
Não muito distante daquele conceito: “A Arquitetura Sustentável é um termo geral que
descreve a consciência ambiental sobre as técnicas de design no campo da arquitetura. É
enquadrada pela larga discussão da sustentabilidade e a pressão das questões económica e política
do nosso mundo. Num contexto abrangente, a arquitetura sustentável procura minimizar o impacte
ambiental negativo dos edifícios melhorando a eficiência e o uso moderado de materiais, energia e o
desenvolvimento de espaços” (Saker, et al., 2010).
44
Citado por (Pinheiro, 2006).
26
“Os edifícios designados para a sustentabilidade são construídos e operados para minimizar
todos os impactes negativos nos ocupantes (em termos de saúde, conforto e produtividade), e no
ambiente (uso de energia, recursos naturais e poluição)”. (Plaitonis, 2006)45
O design e construção sustentável, ou “Green Building”, é uma oportunidade para usar os
nossos recursos mais eficientemente, enquanto criamos casas energeticamente mais eficientes e
saudáveis (Saker, et al., 2010).
Os profissionais de arquitetura têm que aceitar o facto de que assim como o status
económico de uma sociedade melhora, a sua procura por recursos arquitetónicos – solo, edifícios ou
materiais de construção, energia, e outros recursos – aumentará. Isto por sua vez aumentará o
impacte combinado da arquitetura nos ecossistemas globais, que é composto por elementos
inorgânicos, organimos vivos, e humanos. A meta do design sustentável é encontrar soluções
arquitetónicas que garantam o bem-estar e coexistência destes três grupos constituintes (Kim, et al.,
1998).
3.2.
Princípios da arquitetura sustentável e instrumentos de apoio ao
projeto sustentável
3.2.1. Princípios de arquitetura sustentável
A arquitetura sustentável assenta nos princípios de Vitrívio, o sistema firmitas, vetustas, utilitas (solidez, beleza, e utilidade), devendo considerar o projeto bioclimático, bem como as soluções
que respondem a outros aspetos da energia, água, saneamento, entre outras (Guedes, et al., 2011).
A sustentabilidade da construção significa que os princípios do desenvolvimento sustentável
são aplicados de forma compreensível ao ciclo da construção (Guedes, et al., 2011).
Para educar os arquitetos a atingir as metas de coexistência dos grupos constituintes dos
ecossistemas (cf. 3.1) (elementos inorgânicos, organismos vivos, e humanos) Kim, et al. (1998)
desenvolveram um quadro conceptual.
Os três níveis do quadro (Princípios, Estratégias, e Métodos) correspondem aos três objetivos
da educação arquitetónica ambiental: criando o alerta ambiental, explicando o ecossistema do
edifício, e ensinando a desenhar edifício sustentáveis (Kim, et al., 1998).
Kim, et al. (1998) propõem três princípios de sustentabilide em arquitetura: Economia de
Recursos, tem em consideração a redução, a reutilização, e a reclicagem de recursos naturais que
são utilizados no edifício; Design do Ciclo de Vida, fornece uma metodologia de análise dos
processos de construção e do seu impacte no ambiente. Design Humano, foca-se na interação entre
os humanos e mundo natural. Estes princípios podem fornecer uma consciencialização dos impactes
ambientais, ambos local e global, do consumo na arquitetura.
45
Citado por (Guedes, et al., 2011).
27
Economizando recursos, o arquiteto reduz o uso de recursos não renováveis na construção e
na operação dos edifícios. Há um fluxo contínuo de recursos, natural e manufaturado, dentro e fora
de um edifício. Este fluxo começa com a produção de materiais de construção e continua através da
vida do edifício para criar um ambiente para sustentar o bem-estar humano e as atividades. Após a
vida útil de um edifício, este deveria transformar-se noutros componentes para outros edifícios. À
montante, os recursos fluem para o edifício como entradas no ecossistema do edifício. À jusante, os
recursos saem do edifício como saídas do ecossistema do edifício. No longo prazo, qualquer recurso
do ecossistema do edifício sairá eventualmente deste. Esta é a lei da conservação do fluxo de
recurso (Kim, et al., 1998).
O segundo princípio da arquitetura sustentável é o Design do Ciclo de Vida (DCV). Esta
abordagem “do berço à sepultura” reconhece as consequências ambientais do ciclo de vida completo
dos recursos arquitetónicos, desde a aquisição ao retorno à natureza. O DCV baseia-se na noção de
que um material migra de uma forma de vida útil para outra, sem fim de utilidade (Kim, et al., 1998).
O Design Humano é o terceiro, e talvez o mais importante princípio de design sustentável.
Enquanto que a economia de recursos e o design do ciclo de vida têm a ver com a eficiência e
coservação, o design humano preocupa-se com a habitabildade de todos os componentes do
ecossistema, incluindo as plantas e os animais selvagens. Este princípio emerge das metas
humanitária e altruista de respeito à vida e dignidade dos organismos vivos. Uma análise mais
profunda revela que este princípio está profundamente enraizado na necessidade de preservar a
cadeia de elementos do ecossistema que permite a sobrevivência humana (Kim, et al., 1998).
Na sociedade moderna, mais que 70% do tempo de vida de uma pessoa é passada dentro
dos edifícios. O papel principal da arquitetura é fornecer ambientes construídos que sustentem a
segurança dos ocupantes, a saúde, o conforto fisiológico, o bem-estar psicológico, e a produtividade.
Porque a qualidade ambiental é intangível, a sua importância tem sido negligenciada na procura da
(Wilkinson, 2002)conservação da energia do ambiente que muitas vezes parece singnificar “tremer no
escuro”. Para agravar o problema, muitos desenhadores de edifícios preocupam-se com o estilo e a
forma dos edifícios, não considerando seriamente a qualidade ambiental do seu interior e da sua
envolvente construída (Kim, et al., 1998).
No contexto climático angolano é possível atingir um equilíbrio entre o edifício e o clima
através da aplicação de uma série de estratégias de projecto – referidas como bioclimáticas ou de
design passivo. As estratégias de design passivo têm como objetivo proporcionar ambientes
confortáveis no interior dos edifícios e simultaneamente reduzir o seu consumo energético. Estas
técnicas permitem que os edifícios se adaptem ao meio ambiente envolvente, através do projeto de
arquitetura e da utilização inteligente dos materiais e elementos construtivos, evitando o recurso a
sistemas mecânicos consumidores de energia fóssil (Guedes, et al., 2011).
O uso de energia fóssil, não renovável, é, como se sabe, o principal responsável pelo grave
problema do aquecimento global, resultante da emissão de gases de efeito de estufa para a
atmosfera. Nos edifícios, o uso de electricidade proveniente de energia fóssil, contribui em larga
medida para a intensificação deste problema (Guedes, et al., 2011).
28
As medidas passivas são as que mais contribuem para reduzir os gastos energéticos do
edifício ao longo da sua existência. Dois exemplos de estratégias passivas são a optimização do uso
da iluminação natural para reduzir o recurso a sistemas de iluminação artificial, ou a promoção de
ventilação natural, para evitar o uso de aparelhos de ar condicionado para arrefecimento (Guedes, et
al., 2011).
Podemos inferir que o fundamental na arquitetura sustentável é que esta aplicação dos
princípios seja ajustada ao local, ao clima, materiais e condições existentes e condições
socioculturais e económicas (cf.3.4).
3.2.2. Instrumentos de apoio ao projeto sustentável
Dada a complexidade e número de fatores, importa considerar os instrumentos de apoio ao
projeto sustentável.
Os instrumentos permitem incorporar os aspetos ambientais e apoiar uma integração da
dimensão ambiental e sustentabilidade no projeto. Entre os instrumentos existentes são de referir: Os
diagramas solares, os diagramas psicométricos e os programas informáticos (softwares).
Existem hoje diversos programas de software para análise do desempenho energético e de
conforto em edifícios (Método LT, Energy Plus, Visual Doe, Ecotect, entre outros), que são
importantes ferramentas de apoio ao projecto de arquitetura. Estes programas permitem dimensionar
e quantificar níveis de conforto interior e consumos de energia do edifício, informando também sobre
quais as melhores estratégias de projecto a implementar em relação, por exemplo, à orientação do
edifício, sombreamento, dimensão de áreas de envidraçado, materiais de construção, ou regimes de
ventilação. Para além do apoio ao projecto arquitectónico, que deve integrar as estratégias
bioclimáticas desde a sua conceção inicial (em termos de nova construção e também de reabilitação),
estas ferramentas poderão ser úteis na decisão sobre normas e recomendações a determinar ao
nível da construção […]. (Guedes, et al., 2011)
3.2.2.1. Diagramas solares
Há muitas formas diferentes de apresentar graficamente a posição relativa do sol a diferentes
horas do dia e no ano. Estas variam entre (Wilkinson, 2002):
Sundials (relógios solares), estes são projeções gonomónicas (Figura 10a);
Projeções retanguares do céu (Figura 11b);
Diagramas radiais ou circulares do percurso solar (Figura 12).
29
Figu
ura 11 – Reló
ógio solar ho
orizontal (10a
a); Diagrama
a retangular ((10b)
Fonte
e: (Wilkinson,, 2002)
C
Cada um tem
m as suas va
antagens e d
desvantagen
ns. A forma radial
r
do diaggrama estereográfico
tem distiintas vantage
ens, tal como
o esboça-lo à mão porqu
ue os percurs
sos solares e as linhas das
d horas
são arco
os de cículos, e estes são
s
razoávellmente fáceis de esboça
ar [...]. Igual mente, um diagrama
d
radial pe
ermite que to
odo o céu seja representa
a e assim nãão há necess
sidade de
ado num único diagrama
construirr um novo diagrama para
p
cada o
orientação diferente
d
da
a fachada ccomo é preciso nos
diagrama
ares e projeçõ
ões gnomón
nicas num pla
ano vertical (Wilkinson, 22002).
as retangula
A
As bases da
as projeções circulares ssão tais que um hemisfé
ério do céu é projetado sobre
s
um
plano ho
orizontal. Istto resulta nu
um diagrama
a como apre
esentado na
a Figura 11,, onde os pontos da
bússula são definidos pela dire
eção afastad
da do centro
o do diagrama e a altittude é defin
nida pela
a a partir do centro (Wilk
kinson, 2002)).
distância
Figura 1
12 – Diagram
ma radial
Fonte:: (Wilkinson, 2002)
30
Q
Quando se desenha
d
um
m diagrama ssolar para um
ma determinada localizaçção, só é ne
ecessário
considerrar quatro ép
pocas no ano
o: (1) O solsstício de Inve
erno; (2) O so
olstício de Veerão; (3) A Primavera
P
e os equ
uinócios de Outono.
O
As trrês posiçõess no céu utiliz
zadas para desenhar
d
um
m diagrama solar
s
para
um determinado dia são : (1) A altitude do ssol ao meio-dia solar; (2) O azimute do nascer do
d sol; (3)
O azimute do pôr do sol (Figura 12) (Wilkinso
on, 2002).
3
3.2.2.2. Diagrama
D
psicromé trico
D
De acordo com
c
o livro “Understandiing Psycrom
metrics, 2nd Edition,
E
20055, ASHRAE”” o termo
psicrome
etria originou
u do substan
ntivo psicróm
metro, criado em 1825 po
or Ernest Feerdinand Aug
gust, para
designarr o seu termó
ómetro de bo
olbo húmido (Britto, 2010
0).
A palavra originou-se do termo lati no “psychro
o” que signiffica “produzi r frio” e “me
etro” que
significa “medir”, ind
dicando um dispositivo para “medirr a refrigeraç
ção”. Versõees mais rec
centes do
os de bolbo sseco e bolbo
o húmido e passaram
p
a sser designad
dos como
dispositivvo possuem termómetro
termohig
grómetros. Ao
A acrescentarmos o suffixo “ia” (oriundo de ciência) em “mettro” transform
mamos o
substanttivo em “psiccrometria”, designando
d
ência que
a palavra originalmente como um rramo da ciê
estuda o uso do psiccrômetro (Britto, 2010).
E
Em 1904, Willis
W
H. Carrie
er denomino
ou a sua cartta de proprie
edades do arr húmido com
mo “carta
higrométtrica” e em 1911
1
o nome foi modificcado para ca
arta psicromé
étrica. Os diiagramas on
nde estão
registada
as as proprie
edades da mistura
m
entre
e o ar seco e o vapor de
e água são chamados de
d Cartas
Psicromé
étricas. Este
es diagramas
s são elaborrados para uma
u
determin
nada altitudee, em função
o da qual
se estab
belece uma pressão atm
mosférica (ou
u barométric
ca) “P” de re
eferência. A Carta Psicrrométrica
padrão a
assume uma
a altitude de 0 m (nível do
o mar) e, po
or consequên
ncia, uma preessão atmos
sférica de
101,3250
0 kPa (760 mmHG).
m
(Brittto, 2010).
p
o
Figura 13 – Diagrama psicrométrico
nte: Britto, 2010)
2
(Fon
31
3.3.
A Arquitetura tropical
3.3.1. Origem do conceito
A arquitetura tropical tem sido tradicionalmente considerada como uma arquitetura adotada
ao clima tropical (Tzonis, et al., 2001).
Tal também ocorreu em Angola e refere-se às “tentativas científicas de adaptação” como as
experiências de foro arquitetónico e urbano que ocorreram no decorrer do século XX, com destaque
para Angola, como forma de adaptação da cidade e da arquitetura ao clima tropical, quente e húmido
(Fonte, 2006).
A análise desta temática, obriga-nos a recuar no tempo, a uma portaria46 decretada por S. M.
a Rainha D. Maria II, em 1843, onde se estabelecem os princípios para a conceção de cidades e sua
arquitetura em território angolano; assim, a portaria em causa era muito esclarecedora quanto a algumas regras urbanas e arquitetónicas, tecendo considerações sobre a construção dos edifícios
(Fonte, 2006):
“5º que é proibido levantar qualquer edifício cujo sobrado ou pavimento térreo não esteja acima do terreno pelo menos quatro palmos, sendo os muros abertos por um
modo que por baixo possa o ar circular livremente;
7º que todos os novos edifícios habitáveis sejam espaçosos, bem ventilados e de
nunca menos de 16 palmos de pé direito em cada pavimento;”
A questão do clima viria ser marcante na conceção das cidades tropicais, sendo a arquitetura
o seu veículo. Os princípios da arquitetura moderna levaram a que esta se fundisse com os apelos do
clima tropical e da sua sobrevivência (Fonte, 2006).
Foi com o movimento moderno que se atingiu o expoente máximo da adaptação da arquitetura aos trópicos. Os princípios básicos transportavam em si fatores de integração, valorizando a ventilação cruzada e a proteção solar, aspetos determinantes (Fonte, 2006).
Em Angola, Pinto da Cunha, Silva Dias, Antonieta Jacinto e Vieira da Costa em Luanda, ou
Castro Rodrigues no Lobito, foram verdadeiros percursores de um modelo de arquitetura e urbanismo
tropical moderno adaptado ao sítio e ao clima. Embora o modernismo por si só, dentro do seu léxico,
aponte uma série de medidas que melhor se adaptam aos climas tropicais, estes arquitetos ensaiaram-no aplicando-o aos condicionalismos da realidade angolanos47 (Fonte, 2006).
No entanto, (Tzonis, et al., 2001) refere que a divulgação da arquitetura tropical remonta o
passado século XIX, quando o britânico transformou o banggolo do camponês Bengali no bangalow e
46
Portaria de 298 de Março de 1843, in Batalha, Fernando, A Urbanização de Angola, Edição Museu Angola,
Luanda, 1950, pp.19.
47
Apontamos alguns exemplos, entre muitos outros, que refletem a simplicidade com que essa aplicação foi
feita, como a escola para o bairro indígena em Luanda, (1959), o bairro de pescadores no Cacuaco (1958) ou o
liceu de Saurimo (1958/9), o liceu do Lobito (1956) ou o aeroporto do Lobito (1956), o Ministério das Obras Públicas ou mesmo o mercado do Kinaxixi (1952), em Luanda.
32
difundiu--o a todo o Império
I
Britâ
ânico (Figura
a 14). Isto é também verrdade relativvamente aos mais recentes trrabalhos póss-coloniais de
d Otto Koen
nigsberger, Olygay
O
e Oly
ygay, e Maxw
well Fry e Ja
ane Drew
(Tzonis, et al., 2001)).
Figurra 14 – (a) O “banggolo”; (b) O bunga
alow adaptad
do pelos Euroopeus
a 2001)
Fonte: (Tzonis, et al.,
M
Mas Baweja (2008) afirm
ma que: “Noss finais do sé
éculo XIX e in
nício do sécuulo XX, o conceito de
Arquitetu
ura tropical desenvolveu
u-se na discciplina da hig
giene, que circulou
c
atravvés dos ma
anuais de
higiene coloniais. Elles continham informaçã
ão profission
nal sobre con
nstrução e eeram frequen
ntemente
nhados por tipos e desig
gn. A princip
pal preocupa
ação dos ma
anuais de higgiene tropica
al eram o
acompan
bem-esta
as condições climáticas trropicais”.
ar do organissmo dos eurropeus sob a
N
Nos finais do
o século XIX
X e princípio d
do século XX
X, o organism
mo europeu foi o tema so
ob o qual
o discursso da arquite
etura tropica
al foi construíído. A arquittetura era vis
sta como objjeto de mediação entre o corrpo e o clima
a, com uma definição de
e clima englo
obando mais
s do que tem
mperatura. A ideia de
que a arrquitetura de
everia ser co
oncebida de acordo com
m o clima tropical para prroteger o “organismo
europeu” das doençças tropicais, foi o princcípio fundado
or da arquite
etura tropicaal como subgrupo da
e higiene não
o forneceram
m só especifificações para
a a conshigiene. Consequenttemente, os manuais de
d construçã
ão, mas tam
mbém prescreveram técnicas de veentilação, iluminação,
trução e materiais de
eliminaçção de resídu
uos, fornecim
mento de ág
gua, e sanea
amento como
o medidas ppreventivas para
p
con-
33
tornar a propagação de doenças48. Os manuais de higiene de saneamento frequentemente discutiam
a relação entre o clima tropical e o “organismo europeu”. O Indian Manual of Hygiene dedicou um
capítulo inteiro ao tópico “Clima e Meteorologia”49 para discutir o impacto das variáveis climáticas tais
como temperatura, pressão atmosférica, e humidade, no corpo (Baweja, 2008).
A partir dos anos 30, assim que os arquitetos modernos britânicos viram oportunidades de
trabalhar nos trópicos, a causa da arquitetura tropical mudou da sua origem higienista para a sua
disciplina natural, isto é, a arquitetura. No início dos anos 50, depois da Segunda Guerra Mundial, a
arquitetura tropical completou a sua migração da disciplina da higiene para a arquitetura com o estabelecimento do Departamento de Arquitetura Tropical na Architectural Association (AA) em 1954. A
realocação catalisou várias mudanças sequenciais que afetou o modo como a arquitetura evoluiu nos
anos 50. Entre as mudanças esteve a autoria dos textos da arquitetura tropical do pessoal médico e
engenheiros sanitários para os arquitetos modernistas. Não foi coincidência que quando Otto Koenigsberger começou a lecionar primeiro em Londres, o seu primeiro emprego não foi na AA, mas na
London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM). Apesar de a disciplina da arquitetura tropical ter mudado da higiene para a arquitetura, a higiene permaneceu uma componente significante da
arquitetura tropical nos anos 50 e os higienistas da LSHTM lecionaram na AA (Baweja, 2008).
Os clientes para os quais a arquitetura tropical foi direcionada já não eram mais os colonizadores europeus, mas os habitantes dos trópicos descolonizados, ou os “nativos”. O objetivo da arquitetura tropical mudou da sobrevivência do corpo do colonizador europeu para o conforto fisiológico do
corpo colonizado em “casa” (Baweja, 2008).
G. A. Atkinson (citado por Baweja, 2008), um professor de arquitetura tropical na AA escreveu: “temos que nos lembrar que os nossos clientes são mais as pessoas não europeias dos trópicos;
que temos que lá trabalhar como semelhantes, só privilegiados por causa do nosso conhecimento
especial”.
Como consequência, o “organismo europeu” já não era mais a causa sob a qual o discurso da
arquitetura tropical foi construído. Nos anos 50, o colonizado ou “nativo” foi a causa sob a qual o discurso da arquitetura tropical foi formado. Entre os anos 50 e 60, assim como a arquitetura tropical se
desenvolveu num discurso arquitetónico, a causa sob a qual foi construída mudou do corpo para a
arquitetura (Baweja, 2008).
48
Por exemplo, esta definição de habitação saudável no Indian Manual of Hygiene de A. E. Grant l resume melhor como o discurso da higiene definiu a arquitetura (…): Quais são então as condições necessárias para uma
habitação saudável? Eles são principalmente estes, como definido por Parkes: - 1.Um lugar seco e sem malária,
com luz e alegre. 2. Fornecimento de água pura e remoção conveniente de esgotos; com meios que garantam
uma limpeza perfeita de todas as partes da casa. 3. Um sistema de remoção imediata e perfeita de esgotos que
impossibilite que o ar ou a água sejam contaminados com excrementos. 4. Um sistema de ventilação que elimine as impurezas.
49
Cada lugar foi definido pelas suas coordenadas cartográficas e seus atributos climáticos, um exercício que
continuou até aos anos 50 e 60. Isto foi depois usado para determinar um conjunto de práticas espaciais e materiais para a arquitetura adequados para aquele clima. Este método de design, gerado pelos engenheiros sanitários nos finais do século XIX e início do XX, foi adotado na metade do século XX pelos arquitetos que inventaram
o discurso da Arquitetura Tropical (Baweja, 2008).
34
O foco dos arquitetos nos anos 50 foi menor na prevenção das doenças e maior no conforto,
que foi definido de forma abrangente em termos de energia térmica, higrométrica, ergonómica, acústica, e bem-estar psicológico. Nos anos 50, o conteúdo dos textos da arquitetura tropical consistiam
inteiramente de produção arquitetónica nos trópicos. Os arquitetos debateram que espécie de tecnologias de construção e materiais eram viáveis nos trópicos no contexto de recursos limitados (Baweja,
2008).
Em Outubro de 1953 e janeiro de 1954, a revista Architectural Design publicou duas edições
e especiais sobre Arquitetura Tropical, editadas por Otto Koenigsberger, […]. As edições publicaram
o trabalho de James Cubitt, Fry, Drew and Partners, Nickson and Partners da África Ocidental ao lado
de trabalhos na Índia Ocidental e outros lugares em África e mereceu o reconhecimento do tema pelos leitores tradicionais do jornal profissional (Roux, 2003).
O manual50 de 1956 de Fry e Drew foi um documento significante na definição do conceito de
arquitetura tropical: “Nós escrevemos não só para aqueles que, como nós, vivem fora dos trópicos e
para quem, portanto, desenhar é algo como que um processo intelectual; mas também para um número crescente daqueles que habitam estas regiões e que, pela sua maior familiaridade com as condições, se possam sentir estimulados a reexamina-los. Sobre estes arquitetos e planeadores cai a
maior responsabilidade de criar um ambiente no qual as pessoas locais possam florescer”. A preocupação de Fry e Drew para estimular ou formalizar uma arquitetura futura e imaginária dos trópicos em
nome de outros não era única. Os programas educacionais desenvolvidos na década de 50 para facilitar a disseminação do conhecimento a partir dos centros metropolitanos até aos locais de aplicação
nos trópicos refletem um desejo semelhante (Roux, 2003).
Uma década mais tarde será publicado o opúsculo Caraterísticas de Arquitectura em Regiões Tropicais Húmidas (1963) do Arq. José Pacheco, numa edição do Ministério do Exército, na Divisão de Obras Ultramarinas e Ilhas Adjacentes, que de forma pragmática estabelece alguns princípios
para a arquitetura tropical, muito baseados na obra atrás referida e noutras de similar relevância
(Fonte, 2006).
Maxwell Fry e Jane Drew, utilizaram o termo ‘Arquitetura Tropical’ nos títulos dos seus manuais, que reuniram estudos de caso e dados de diversos países. Um livro similar mas modesto sobre
casas tropicais foi publicado por David Oakley, que trabalhou na Jamaica. Livros publicados para
alunos incluíram uma Gramática de projeto arquitetónico com especial referência para tópicos e um
guia para construção nos trópicos (Roux, 2003).
A arquitetura tropical também se tornou um fórum de desenvolvimento de conhecimentos sobre prática de conservação de energia; tecnologias ambientais de baixo impacte; habitação para os
pobres; interpretação científica de conhecimento vernacular, sendo todos princípios fundamentais da
arquitetura sustentável como especificado na Agenda 21. O discurso da arquitetura tropical evoluiu
para a crítica do design arquitetónico consumidor de energia e do seu desperdício no consumo de
recursos (Baweja, 2008).
50
Tropical Architecture in the Humid Zone (1956), […], uma referência fundamental a nível conceptual (Fonte,
2006).
35
Trabalhos de África também apareceram numa série de artigos, divididos por locais tropicais
e temperados, publicados nas duas edições especiais da revista Architectural Review editada por
Nikolaus Pevsner e posteriormente editado como um livro de Commonwealth Architecture. O guia
técnico mais completo sobre Arquitetura Tropical foi, provavelmente, o manual compilado de notas de
aula e opiniões de ex-alunos de Koenigsberger, que lecionou sobre o clima no Curso de Arquitetura
Tropical (Roux, 2003).
Os governos coloniais deram algum apoio institucional aos arquitetos através do trabalho de
Estações de Pesquisa da Construção. No entanto, outra fonte de apoio foi a de empresas envolvidas
na fabricação de bens utilizados na construção de edifícios. Apesar deste apoio o material que realmente chegou aos praticantes foi considerado como inadequado às necessidades dos arquitetos em
países estrangeiros. A prática da arquitetura tropical foi sempre desafiadora. Os arquitetos que estudaram e trabalharam na Grã-Bretanha eram confrontados com condições físicas e intelectuais muito
diferentes em locais como a África Ocidental. As viagens internas levavam dias, a comunidade de
expatriados era pequena, e os conselhos muitas vezes difíceis de obter. Outros profissionais, em
particular engenheiros, desempenham papel importante na disseminação de conhecimentos técnicos
entre os praticantes (Roux, 2003).
Apesar das descontinuidades entre os discursos da arquitetura no início do século XX e na
metade do mesmo século, a continuidade entre estes discursos que se manteve foi a relação recíproca entre arquitetura e clima. Nos finais de 1950, o objetivo da arquitetura tropical tornou-se o de alcançar o máximo de eficiência de recursos e energia. Desde a sua criação nos anos 30 até aos anos
50, a arquitetura tropical desenvolveu-se e circulou através das redes de conferências51 mundiais; […]
não só nas capitais imperiais como Paris, Lisboa, Washington D.C., e Londres, mas também nas
antigas colónias e nas já existentes, tais como, India, Uganda, Nairobi. A arquitetura tropical desenvolveu-se ao longo das redes inter-impérios, intra-coloniais e transnacionais. Estas incluíram a troca
de conhecimentos de uma colónia para outra – […], ideias desenvolvidas na Índia foram divulgadas
em África (Baweja, 2008).
3.4.
Arquitetura tropical e sustentável – relação e aspetos a considerar
na conceção de projetos sustentáveis.
A mudança da abordagem climática da arquitetura tropical para a abordagem ambiental da
arquitetura sustentável (integrando a dimensão ambiental) baseou-se no desenvolvimento da ciência
ambiental, o que gerou novos significados para o clima e a arquitetura. A arquitetura sustentável e a
51
A primeira conferência sobre arquitetura tropical foi organizada em Paris sob a presidência de Henri Prost and
Marshall Lyautey. A subsequente foi organizada pela Federação Internacional de Habitação e Planeamento e
teve lugar no México em 1938. Estas conferências entre guerras serviram como fórum de trocas de ideias entre
arquitetos e planeadores coloniais.
36
tropical prescrevem os mesmos significados, incluindo a conservação da energia, a maximização de
recursos, e a minimização dos desperdícios, para a alcançar fins aparentemente diferentes (Baweja,
2008).
Pode parecer à primeira vista que, a arquitetura sustentável e a tropical, são concetualizadas
de forma divergente na medida em que o que está em causa é a relação entre o corpo e o ambiente.
A principal ideia da arquitetura sustentável é proteger o ambiente do corpo, concebendo o
corpo como um consumidor voraz de recursos naturais e como um agente de processos ambientais
destrutivos irreversíveis. O principal objetivo da arquitetura tropical, contudo, era proteger o corpo do
clima tropical. Reconhecidamente, o impacte dos processos humanos no ambiente não foram abertamente articulados na arquitetura tropical – ao invés disso, a conservação dos recursos e energia
foram fulcrais. Contudo, isto significa que as preocupações ambientais estavam implicitamente inseridas na prática da arquitetura tropical (Baweja, 2008).
As teorias da arquitetura tropical foram desenvolvidas para resolver a escassez de recursos
nos trópicos “pobres”, mas uma vez que a arquitetura tropical evoluiu para o paradigma do desenho
como resposta ao clima, a conservação da energia foi praticada mesmo em lugares onde havia
abundante disponibilidade de recursos para a construção, a energia, e bem-estar (Baweja, 2008).
O ambientalismo depende da relação dialética entre o corpo e o ambiente, os processos humanos criam impactes no ambiente, e a qualidade do ambiente afeta a saúde do corpo, o bem-estar,
e a sobrevivência. O receio de estarmos rodeados por um mar de produtos químicos tóxicos disseminou-se na consciência pública no final de 1970. As ansiedades acerca do impacte, no corpo humano,
da poluição do solo, do ar, da água com pesticidas e químicos trouxe as preocupações ambientais à
esfera pública. O impacte da toxicidade dos materiais de construção tais como os asbestos, os fumos
tóxicos das pinturas, a qualidade do ar interior sobre o corpo constitui um corpus significante de conhecimento no campo da arquitetura sustentável (Baweja, 2008).
Contudo, a conceção da arquitetura como “abrigo” que protege o corpo do clima é uma categoria inquestionável, e estável na arquitetura tropical. Independentemente de os arquitetos tropicais
terem percebido a relação entre o clima e as culturas como causal e contingente, eles definiram unanimemente o clima como uma variável estável e quantificável que era uma dada caraterística de um
lugar e do qual o corpo precisava de ser protegido através da arquitetura (Baweja, 2008).
Por contraste, no discurso ambiental, o clima é fenómeno vulnerável e instável sujeito a mudanças por causa dos processos humanos, tais como o aquecimento global devido aos excessivos
gases de efeito de estufa. Os edifícios produzem uma quantidade significante de gases de efeito de
estufa através da queima de combustíveis fósseis e, portanto, contribui para as alterações climáticas.
O discurso da arquitetura sustentável refere a reciprocidade entre arquitetura e clima. Com um desenho sustentável efetivo, as alterações climáticas ambientais podem ser controladas e a arquitetura
sustentável ainda preenche as suas funções de origem como abrigo. A equidade na distribuição dos
recursos naturais é um dos objetivos do desenvolvimento sustentável e, portanto, da arquitetura sustentável (Baweja, 2008).
37
O ponto de dissonância
d
mais significcativo entre arquitetura
a
trropical e a arrquitetura su
ustentável
parece sser a visão da arquitetura
a sustentáve
el sobre a equidade socia
al. A lógica ccolonial da arrquitetura
tropical implicaria nu
um padrão de
d distribuiçã
ão imperial do
d consumo
o de energiaa e recursos – isto é,
o nos trópico
os se encora
ajava a minim
mização do consumo
c
de energia, as forças imperiais conenquanto
sumiam energia bara
ata e recurso
os naturais s em nenhuma
a inibição (Baweja, 20088).
A arquitetura
a tropical evoluiu para o paradigma da conserva
ação da eneergia que foi aplicada
quer na metrópole quer
q
nos tróp
picos. A susttentabilidade
e clama por uma
u
justiça ddistributiva no
n consuecursos atravvés da atenu
uação do fos so entre as nações
n
ricas
s e pobres (B
Baweja, 2008
8).
mo de re
F
Face ao exp
posto é de realçar que na
a conceção de
d projetos/construções ssustentáveis, em particular pa
ara o caso de
d Angola, há que ter em
m conta os seguintes
s
asp
petos: localizzação, forma
a e orientação; so
ombreamentto; ventilação
o52, iluminaçã
ão natural; entre
e
outros (Guedes,
(
et aal., 2011).
A seleção do
o lugar, a forma e a orien
ntação do edifício são as primeiras oppções a cons
siderar
para a otimização da
a exposição ao
a trajeto so
olar e aos ven
ntos dominantes. Num cllima quente como o
ola, é essenccial que a imp
plantação da
as casas tenh
ha em consid
deração o reegime de ven
ntos, para
de Ango
uma ven
ntilação eficie
ente, e conse
equente mel horia do con
nforto na habitação (Gueddes, et al., 20
011).
Figura 1
15 – Ilustraçã
ão de uma in
ncorreta impllantação face
e a exposição solar e as chuvas (acim
ma) e de
mplantação (em baixo)
correta im
Fonte: (G
a 2011)
Guedes, et al.,
52
Num cllima quente e húmido, é imp
portante asse gurar uma ventilação contín
nua é mantidaa através do edifício.
38
Figura 16 – Orientação correta, considerando o regime de ventos
(Guedes, et al., 2011)
Em termos de forma do edifício, a configuração e o arranjo dos espaços internos, de acordo
com a função, influenciam a exposição à radiação solar incidente, bem como a disponibilidade de
iluminação e ventilação natural. Em geral, um edifício compacto terá uma superfície de exposição
relativamente pequena, ou seja, um baixo rácio superfície/volume. Para as pequenas e médias construções, esta situação oferece vantagens para o controlo de trocas de calor através da envolvente do
edifício. A geminação dos edifícios oferece também vantagens; ao diminuir a área de exposição solar,
são reduzidos os riscos de sobreaquecimento (Guedes, et al., 2011).
Figura 17 – Orientação dos edifícios [em planta] e a influência dos ventos.
Fonte: (Fonte, 2006)
As novas zonas habitacionais devem também ser projetadas a uma distância conveniente da
estrada de maior circulação, evitando ruídos e outros inconvenientes. As ruas devem ser estreitas e
orientadas por forma a que pelo menos um dos lados tenha sempre sombra. Sendo o ambiente externo quente, a ventilação e o conforto dentro de casa são aspetos críticos. Nas zonas urbanas o
impacto dos raios solares nos telhados e nas fachadas dos edifícios e a circulação da brisa fresca em
39
redor dos edifícios deve ser estudado. Caso contrário, poderá haver o risco da criação de um ambiente muito desconfortável no interior das habitações (Guedes, et al., 2011).
A melhor orientação do edifício para reduzir os ganhos solares de calor será paralela ao eixo
Nascente-Poente, uma vez que restringe a área de exposição das fachadas que recebem sol de ângulo baixo (Nascente e Poente) e permite o sombreamento da fachada que mais recebe sol de ângulo alto (Norte), beneficiando ainda de iluminação natural (Guedes, et al., 2011).
Em remodelações, e em muitas situações urbanas onde a orientação está fora do controlo do
projetista, uma orientação desfavorável pode ser compensada através do reforço de outras estratégias adequadas de controlo de ganhos solares, como o sombreamento ou o dimensionamento de
janelas. A orientação correta dos espaços de permanência da habitação, em função do percurso do
sol e do vento, é o ponto de partida para aproveitar estas energias renováveis. A insolação das fachadas é definida no processo de implantação do edifício e é decisiva no conforto dos espaços interiores; em regiões do hemisfério Sul, e onde a questão do sobreaquecimento é prioritária, como no
caso de Angola, a melhor orientação é a Norte, sendo contudo aceitável uma variação até 45º (entre
Nordeste e Noroeste). De acordo com simulações realizadas utilizando o software Ecotect, por exemplo para o caso de Luanda, uma ligeira variação (352º5’N) será a orientação ótima (Guedes, et al.,
2011).
Os quartos de dormir, quando orientados a Nascente, captam menos calor e durante a tarde
são espaços mais frescos. Os alçados orientados a Poente devem ser protegidos para não haver
radiação solar excessiva. A utilização de frestas e de pequenos vãos é uma medida eficiente. O dimensionamento das áreas envidraçadas deve ser compatibilizado com a orientação da fachada. O
espaço da cozinha deve ser o mais fresco da habitação, por isso não pode ser orientado a Poente.
Deve ser tida em conta a direção dos ventos dominantes para que quando soprem não arrastem os
cheiros e o calor para o resto da casa (Guedes, et al., 2011).
Figura 18 – A proteção solar
Fonte: (Fonte, 2006)
Em Angola devem ser previstos elementos de sombreamento (Figura 18) das áreas de envidraçado e paredes exteriores, por forma a evitar situações de sobreaquecimento, para haver conforto
térmico no interior dos compartimentos. Estes elementos podem ser tectónicos: palas ou alpendres,
elementos vegetais ou ainda elementos mistos. Os elementos vegetais junto a fachadas ou mesmo o
revestimento de fachadas com elementos vegetais aumentam o conforto interior e funcionam como
40
um filtro dos raios solares (Figura 19). As paredes devem, quando possível, ter isolamento e ser suficientemente maciças para retardar a penetração de calor de dia e o frio à noite (Guedes, et al., 2011).
Figura 19 – A presença de elementos arbóreos e a sua importância quer na proteção solar, quer na
ventilação
Fonte: (Fonte, 2006)
4.
Medir e suportar a procura da sustentabilidade
4.1.
Indicadores de sustentabilidade
O termo “indicador” vem do verbo em latim indicare, que significa “divulgar ou apontar, anunciar ou tornar evidente publicamente, ou estimar ou pôr um preço sobre” (Hardi; Barg, 1997) (citado
por Vosgueritchian, 2006).
Um indicador é um parâmetro (propriedade medida ou observada) ou valor derivado de parâmetros que fornece informações sobre determinado fenómeno (OECD, 1993)53; [...] possui significado sintético e é desenvolvido para um objetivo específico. Essas duas caraterísticas fazem com
que o seu significado transcenda as propriedades diretamente associadas ao valor do parâmetro e
apontam as principais virtudes do uso de indicadores, que são: (1) Reduzir o número de medidas e
parâmetros necessários para descrever determinada situação; (2) Simplificar o processo de informação através do qual os resultados dessas medidas chegam ao usuário final (da Silva, 2007).
Os indicadores de sustentabilidade descrevem os impactes ambientais, económicos e sociais
de edifícios para os proprietários, usuários dos edifícios e demais partes interessadas da indústria de
construção. Tais métricas são necessárias para simplificar e comunicar informações complexas, e
podem ser utilizadas para (ISO, 2005a)54: (1) Avaliação (contravalores de referência ou metas); (2)
Diagnóstico (para apontar fatores que afetam a sustentabilidade); (3) Comparação (entre alternativas
e edifícios); (4) Monitoramento (mudança ao longo do tempo) (da Silva, 2007).
Tomando a definição de Holmberg et al. (1991)55, indicadores de sustentabilidade (ambiental)
são medidas que relacionam a distância entre o estado atual (do ambiente) e o seu estado sustentável. Para se falar em indicadores de sustentabilidade, este patamar sustentável deve, portanto, ser
53
Citado por (da Silva, 2007)
Idem
55
Idem
54
41
conhecido ou razoavelmente estimado. No entanto, são necessárias métricas em todos os níveis
(Figura A.5 - Anexo A.3), pois podem não só apontar o caminho como também mostrar se e de que
maneira ocorre o movimento da sociedade, do setor da construção, de uma organização e da produção de edifícios em direção às metas nacionais de desenvolvimento sustentável (SILVA, 2003)56. Os
indicadores definidos em esfera de avaliação mais restrita (por exemplo, edifício ou ambiente construído) devem alinhar-se aos indicadores e metas de desenvolvimento sustentável definidos em âmbito
nacional e mundial (da Silva, 2007).
Para ser útil, um indicador deve, portanto, permitir uma explicação das razões das mudanças
no seu valor ao longo do tempo, ser suficientemente simples na maneira com que descreve problemas frequentemente complexos, e usar definições comuns de componentes-chave e normalização
para permitir comparações (COLE, 2002)57.
Ao fornecerem as informações e realimentação necessárias para a tomada de decisões, esses indicadores permitem: (1) Facilitar o estabelecimento de metas e o desenvolvimento de padrões
de referência para avaliação e monitoramento de desempenho (benchmarking); (2) Medir ou descrever o desempenho (aderência às metas estabelecidas) de programas, ações, edifícios e projetos, de
diferentes agentes do processo de construção ou de diferentes regiões ou países; (3) Monitorar periodicamente o progresso em direção à sustentabilidade; (4) Propiciar comunicação com clientes e
demais partes interessadas; (5) Derivar benefícios diretos de relato de sustentabilidade e de benchmarking do desempenho (SILVA, 2003)58
4.1.1. Pegada ecológica
Criada por Willima Rees e Mathis Wackernagel a Pegada Ecológica, baseada no conceito de
“capacidade de carga”, permite calcular a área de terreno produtivo necessária para sustentar o estilo
de vida atual (Vosgueritchian, 2006, 30); ou seja, para produzir biologicamente todos os recursos
consumidos por uma comunidade e para assimilar os seus resíduos, indefinidamente, [...] (Pinheiro,
2006).
Foram escolhidas várias categorias de terrenos: agrícola, pastagens, oceanos, florestas,
energia fóssil e áreas construídas; e de consumo: alimentação, habitação, energia, bens de consumo,
transportes, etc. Neste cálculo, cada categoria de consumo é convertida numa área de terreno por
meio de fatores calculados para o efeito. Para que uma pegada ecológica seja sustentável, ela terá
de ser inferior à capacidade de carga do planeta e região, dependendo da escala de avaliação (Redefining Progress, 2006)59.
56
Idem
Ibidem.
58
Citado por (da Silva, 2007)
59
Citado por (Vosgueritchian, 2006).
57
42
De acordo com o Quadro 2, é de realçar que, relativamente a este indicador Angola apresenta valores não muito preocupantes comparativamente ao continente africano e o resto do Mundo. No
entanto, há que ter em atenção que se não houver uma preocupação relativamente ao incremento
destes valores facilmente se atingirá uma situação insustentável.
Quadro 2 - Comparação entre a Pegada Ecológica de África, Mundo e Angola60
4.1.2. Pegada de carbono
A pegada de carbono é uma forma de medirmos o nosso impacte no meio ambiente61.
Embora sejam as “estrelas” das medidas ambientais, as pegadas de carbono são apenas
uma de uma série de formas de alterar o impacte de um produto no ciclo de carbono (o veículo para
as trocas contínuas entre todas as coisas vivas), na geosfera e na atmosfera da Terra (Goleman,
2009).
[…] As pegadas de carbono medem quanto dióxido de carbono (CO2) nós produzimos no nosso diaa-dia. Uma ida ao trabalho de carro, um movimento do interruptor de luz ou até uma viagem de avião
[…], tudo isso utiliza combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás. Quando os combustíveis
fósseis são queimados, são emitidos Gases do Efeito Estufa (GEE), como o CO2, que contribuem
para o aquecimento global. Com a crescente preocupação com o ambiente e o aquecimento global,
muitas pessoas começaram a reduzir as suas emissões de carbono aumentando a eficiência energética de suas casas e utilizando menos o automóvel. Uma pegada de carbono é simplesmente um
valor: geralmente um total mensal ou anual de emissão de CO2 medido em toneladas62.
A maioria das pessoas tenta reduzir a sua pegada de carbono, mas outras têm como objetivo
apagá-la completamente. Quando as pessoas tentam a neutralidade de carbono, elas cortam as suas
emissões o máximo possível e compensam o restante. As cotas de compensação ou neutralização
de carbono (carbon offsets) permitem que se pague para reduzir os gases do efeito estufa global total
em vez de fazer reduções radicais por conta própria. Quando se compra um certificado de compensação, está-se a financiar projetos que reduzem as emissões por meio do reflorestamento, modernizam centrais energéticas e fábricas ou aumentam a eficiência energética de prédios e transportes63.
60
Fonte: http://www.footprintnetwork.org/images/uploads/Ecological_Footprint_Atlas_2010.pdf
http://www.pegadadecarbono.com/
62
Os sítios na internet com calculadoras de carbono transformam informações fáceis de fornecer, como a quilometragem anual e o uso mensal de energia, em uma tonelagem de carbono mensurável.
http://www.pegadadecarbono.com/
63
Idem.
61
43
Algumas empresas começaram a incluir pegadas nos seus rótulos. Os rótulos de carbono
apelam aos consumidores que entendem e calculam as suas pegadas de carbono e desejam apoiar
produtos que façam o mesmo. Os rótulos estimam as emissões criadas com produção, embalagem,
transporte e descarte de um produto. O conceito é similar às análises do ciclo de vida, o precursor
mais intrincado das pegadas de carbono. As análises ou avaliações do ciclo de vida medem todos os
impactos ambientais potenciais que um produto pode ter durante sua existência: elas são uma versão
mais focada de uma pegada de carbono. As pegadas de carbono ajudam as pessoas a promover as
mudanças necessárias para combater os problemas ecológicos do planeta. Como as pegadas quantificam um montante de carbono que aumenta ou diminui com base no uso de energia, elas permitem
que as pessoas saibam que um novo carro híbrido realmente ajuda a diminuir as emissões64.
Para valores relacionados com o contexto de Angola vide o Quadro 2 onde parte do carbono
é considerada na pegada ecológica.
4.2.
Avaliação do ciclo de Vida
A avaliação do ciclo de vida (ACV, em inglês LCA, acrónimo da expressão Life-Cicle Assessment) foi, originalmente, definida pela SETAC, Society for Environmental Toxicology and Chemistry
como um "processo para avaliar as implicações ambientais de um produto, processo ou atividade,
através da identificação e quantificação dos usos de energia e matéria e das emissões ambientais;
avaliar o impacte ambiental desses usos de energia e matéria e das emissões; e identificar e avaliar
oportunidades de realizar melhorias ambientais" (Pinheiro, 2006).
A avaliação inclui todo o ciclo de vida do produto, processo ou atividade, abrangendo a extração e o processamento de matérias-primas; a transformação, o transporte e a distribuição; o uso, a
reutilização, a manutenção; a reciclagem e a deposição final. Esta definição foi posteriormente consolidada na série de normas ISO 14 000, nomeadamente a ISO 14 040 (1997) e a ISO 14 043 (2000).
Por outras palavras, a ACV constitui o procedimento que permite analisar formalmente, a
complexa interação de um sistema – que pode ser um material, uma componente ou um conjunto de
componentes – com o ambiente, ao longo de todo o seu ciclo de vida, caracterizando o que se tornou
conhecido como enfoque do "berço ao túmulo" (cradle-to-grave). A ACV parte da premissa de que
todos os estágios da vida de um produto geram impacte ambiental e devem ser analisados (Anexo
A.4A.4) (Pinheiro, 2006).
A ACV pode ter diferentes níveis de abordagem conceptual, simplificada e detalhada (AEA,
1997), envolvendo abordagens, progressivamente, mais detalhadas passando dos aspetos qualitativos aos quantitativos. Esta análise também tem sido entendida de forma a incluir os custos, já que,
até há pouco tempo, a maior parte dos edifícios projetados e construídos baseavam-se (CEETB,
2001) num critério simples, de ajustamento aos fins previstos e o correspondente custo de construção, em regra o mais baixo possível. Aspetos como a operação e os custos de manutenção, bem
64
Idem.
44
como os impactes globais da construção, têm sido menos considerados. Em alguns países, os sistemas fiscais tendem a favorecer custos de capital baixo, face a elevados custos de manutenção. Em
muitos casos, os custos dos serviços e operações das construções, durante o seu ciclo de vida, excedem os custos iniciais. Os contributos e participação da ACV (Centre for Design, 2001), em cada
momento do desenvolvimento dos edifícios e materiais, são diferenciados e abrangem a fase inicial
de pré-avaliação e a fase de projeto, chegando até ao seu fim de vida, para eventual demolição. Os
possíveis contributos da ACV em cada momento do ciclo de vida (Centre for Design, 2001) podem
ser os seguintes: Fase de Ideia e Conceito, Conceção (Fase 2), Construção do Edifício (Fase 3);
Operação (Fase 4a); Renovação (Fase 4b); Fim de vida (Fase 5) (Quadro A.6 - Anexo A.4) (Pinheiro,
2006).
Nos ambientes construídos naturais, as ACV têm demonstrado os aspetos onde é necessária
uma intervenção ou a escolha de soluções, como por exemplo, os designados telhados verdes, como
uma solução viável para ter em conta questões como o aumento do escoamento superficial, o efeito
das ilhas de calor urbanas, a deterioração da qualidade do ar e água e as perdas de habitat e biodiversidade, enfrentadas pelos centros urbanos. A perspetiva de avaliação dos custos no ciclo de vida,
mostra, por exemplo, que os benefícios económicos dos telhados verdes podem compensar os custos iniciais, pois examina as implicações, ao nível de investimento, entre ter um telhado verde em
comparação com um telhado convencional plano, calcula e compara os custos de ciclo de vida dos
jardins nos telhados e dos telhados planos convencionais e, ainda, incorpora esses benefícios, considerando os custos energéticos nos custos do ciclo de vida. Nos edifícios, a aplicação mais sistemática que tem sido efetuada no âmbito da ACV é conceptual, embora, crescentemente nos materiais e,
pontualmente, nos edifícios, cada vez mais existam abordagens simplificadas e até detalhadas
(Pinheiro, 2006).
O ciclo de vida das construções inicia-se na conceção e perpetua-se até à desativação ( (Figura A.6 – Anexo A.4). A fase de construção está, no geral, associada a períodos mais reduzidos
(meses), face à fase de operação (anos). Refira-se que a maioria das infraestruturas e edifícios projetados na atualidade, tem um tempo de vida superior a 40 anos e alguns dos edifícios e estruturas
existentes podem ultrapassar, ou já ultrapassam, os 100 anos. Isto significa que as estruturas construídas têm impactes com efeitos muito duradouros, quer a nível dos consumos, quer na acumulação
dos materiais, quer ao nível das emissões e cargas poluentes, cujos efeitos ambientais importa considerar (Pinheiro, 2006).
Nesse contexto, os efeitos ambientais das atividades construtivas decorrem não só do ato de
construir, mas também da operação das estruturas construídas (incluindo a sua manutenção) e até
da sua desativação (cada vez mais referida como "desconstrução"), sendo os seus efeitos (impactes)
diferenciados em cada uma das fases consideradas (Pinheiro,2006).
No entanto (Silva, 2004)65, a ACV, consoante a sua profundidade, abrangência e a quantificação de todos os impactes envolvidos num sistema, pode facilmente tornar-se complexa, cara e muito
65
Citado por (Pinheiro, 2006)
45
extensa, o que se apresenta como a principal limitação do emprego dessa metodologia na sua forma
mais pura. A sua intensidade em dados, no caso dos edifícios, revela-se por vezes uma tarefa complexa e de difícil aplicação na realidade, destacando-se a importância da definição da unidade funcional (de comparação), dos limites da análise e das bases de dados (Pinheiro, 2006).
4.3.
Sistemas de avaliação e certificação da construção sustentável
A crise petrolífera dos anos 70 originou, a nível internacional, o desenvolvimento de iniciativas
de avaliação focadas nas questões energéticas, e também nos edifícios [...] (Pinheiro, 2006).
Desde os finais dos anos 80 que, de forma sistemática, se efetua a avaliação de impacte ambiental
de uma parte dos empreendimentos de construção, sendo estes associados a casos e situações concretas, nos quais se procura sistematizar medidas para reduzir os impactes ambientais negativos,
compensar os irreversíveis [...] e valorizar os impactes positivos, constituindo, assim, um mecanismo
muitíssimo importante de internalização ambiental, através do processo de decisão de Avaliação de
Impacte Ambiental. Paralelamente, a preocupação com a avaliação das caraterísticas dos produtos e
materiais fomentou a utilização de abordagens de ciclo de vida para estes componentes e materiais,
de modo a suportar a escolha ambientalmente mais adequada, contribuindo, igualmente, para formatar algumas abordagens de avaliações do ambiente construído. Como resposta às crescentes questões ambientais surgiram, pontualmente, critérios, abordagens e guias para melhorar o desempenho
ambiental da construção, bem como indicadores e processos para o avaliar (Pinheiro, 2006).
Em muitos casos, constatou-se que os países que estavam a implementar projetos mais ecológicos e sustentáveis, não possuíam meios efetivos para verificar a efetiva dimensão ambiental dos
mesmos, surgindo mesmo situações em que construções ditas ecológicas acabavam, na perspetiva
de ciclo de vida, por ter maiores consumos energéticos do que as usuais (Silva, 2004)66.
Com a difusão dos empreendimentos verdes, a medição e avaliação do desempenho desses
empreendimentos passaram a ser imperativas para os rumos da arquitetura sustentável, servindo
como parâmetro para a maximização dos benefícios de novos e antigos edifícios. Inicialmente, as
edificações são analisadas por meio de checklists (listas de verificação) e/ou softwares específicos
para a obtenção de informações gerais da edificação, tais como: projeto, local, orientação e configuração, energia e atmosfera, materiais e recursos, fachadas dos edifícios, ventilação, água, iluminação, sistemas mecânicos, qualidade ambiental interna, entre outras. Após o tratamento e sistematização dos dados, o edifício obtém uma classificação final. Estas formas práticas de avaliar e reconhecer
a construção sustentável tornam-se cada vez mais presentes nos diferentes países, destacando-se,
no que diz respeito aos que fomentam a construção sustentável, os sistemas de avaliação voluntários
de mercado (Silva, 2004)67: BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment
Method) no Reino Unido; LEED TM (Leadership in Energy & Environmental Design do USGB) nos
66
67
Citado por (Pinheiro, 2006).
Citado por (Vieira, et al., 2009).
46
Estados Unidos da América; NABERS (National Australian Buildings Environmental Rating System),
na Austrália; Green Globes no Canadá; HQE (Haute Qualité Environnementale dês bâtiments) na
França; CASBEE (Comprehensive Assessment System for Building Environmental Efficiency) no Japão; o internacional GBC (Green Buildings Challenge), entre outros (Vieira, et al., 2009).
Até ao lançamento, em 1990, no Reino Unido, do sistema com o acrónimo de BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method), poucas ou nenhumas tentativas
(Cole et al, 2004)68 tinham sido feitas, no sentido de estabelecer um objetivo e meios compreensíveis
de, simultaneamente, avaliar uma vasta gama de considerações ambientais contra critérios ambientais explicitamente declarados, oferecendo um sumário do desempenho ambiental para os edifícios
(Pinheiro, 2006)
Um salto qualitativo na avaliação ambiental, em particular dos edifícios, ocorre quando se
começa a gerar um consenso entre investigadores e agências governamentais, de que a classificação de desempenho, associada a sistemas de certificação, cria mecanismos eficientes de demonstração e melhoria contínua. Nesta perspetiva, destaca-se a importância da adoção voluntária de sistemas de avaliação do desempenho e da possibilidade do mercado ser um impulsionador para elevar
o padrão ambiental existente (Pinheiro, 2006).
As circunstâncias conduziram ao aparecimento de (1) orientações ou guias para a construção
sustentável, com critérios de maior ou menor definição (alguns deles baseados em análise de ciclo de
vida ou outras metodologias de impactes ambientais), (2) processos de avaliação e verificação desses critérios, (3) especialistas para o apoio ao seu desenvolvimento e avaliação (ou auditoria), e por
vezes até à integração em (4) processos independentes de certificação (avaliação efetuada por uma
terceira parte. No geral, o sistema de avaliação ambiental dos edifícios constitui uma forma de avaliar
o seu desempenho ambiental face a um conjunto de critérios explícitos dispondo-se, tipicamente, de
três grandes tipos de componentes (Cole, 2003)69: (1) Conjunto declarado de critérios de desempenho ambiental, organizado de modo lógico numa estrutura apelativa; (2) Atribuição de um número de
pontos por cada desempenho: ao atingir um determinado nível obtém-se uma pontuação no critério;
(3) Modo de demonstrar a pontuação total através do desempenho ambiental do edifício ou unidade –
Output (Pinheiro, 2006).
Assim, a compreensão da abordagem metodológica destes três componentes dos sistemas
de avaliação (Definição dos critérios, Escala de desempenho e Ponderação) são relevantes para a
sua aplicação [...]. A avaliação implica (Cole, 1997; Brandon et al, 1997)70, uma análise retrospetiva,
ou seja, uma verificação do desempenho de um edifício, ou dos seus subsistemas, em relação a um
conjunto de critérios. As razões para a avaliação ambiental de um edifício são várias: por exemplo,
fornecer um conjunto de critérios e objetivos para que os proprietários, projetistas ou construtores, em
busca de melhores desempenhos ambientais, possam demonstrar esse esforço e comunicá-lo a pos-
68
Citado por (Pinheiro, 2006).
Citado por (Pinheiro, 2006).
70
Idem.
69
47
síveis inquilinos ou outros interessados. A sua efetivação pode ocorrer em dois tipos de base, apenas
num critério ou em multicritérios (Pinheiro, 2006).
A revisão (Boonstra & Pettersen, 2003)71, efetuada em 2003, sobre os instrumentos existentes para a sustentabilidade nos edifícios (no âmbito da W100 da CIB), demonstrou que o número de
países que estão a desenvolver e a implementar os instrumentos e os métodos de avaliação para os
edifícios está a aumentar; que as versões mais recentes destes instrumentos abordam os aspetos
ambientais, não só na fase de projeto, mas também na fase de operação; e que os critérios considerados focam cada vez mais as decisões do projeto e da gestão. A área de avaliação do desempenho
ambiental dos edifícios amadureceu, notavelmente, depressa, desde que o BREEAM foi introduzido,
tendo, nos últimos quinze anos, ocorrido um rápido aumento no número de sistemas de avaliação da
construção de edifícios em uso em todo o mundo, das suas versões e até mesmo na sua aplicação e
procura, consolidando as suas caraterísticas e aplicabilidade (Pinheiro, 2006).
71
Idem.
48
4.4.
LiderA – Sistema Voluntário de Avaliação da Construção Sustentável72
4.4.1. Princípios globais
O LiderA – Sistema de avaliação da sustentabilidade, é uma marca registada portuguesa, que
pode ser (1) utilizado desde logo no apoio à procura soluções em fase de projeto e plano, (2) na avaliação do posicionamento da sustentabilidade, (3) no caso de ter um nível de bom desempenho comprovado pode ser dado o reconhecimento (para planos e projetos) ou a certificação (empreendimentos em construção e operação) por esta marca. A primeira versão V1.02 (disponibilizada em 2005)
destinava-se sobretudo ao edificado e ao respetivo espaço envolvente. Contudo, face às aplicações
efetuadas, foi desenvolvida uma versão 2.0 que alarga a possibilidade de aplicação do sistema, não
apenas ao edificado, mas igualmente ao ambiente construído, incluindo a procura de edifícios, espaços exteriores quarteirões, bairros, zonas e os seus utentes numa ótica de comunidades sustentáveis.
O sistema já foi utilizado, desde 2005 em diferentes tipologias de projetos e por diferentes
agentes, tendo certificado empreendimentos desde a fase de plano e projeto até à de operação. O
sistema é referenciado e reconhecido por diferentes entidades, [...]. O sistema LiderA assenta no
conceito de reposicionar o ambiente na construção, na perspetiva da sustentabilidade, assumindo-se
como um sistema para liderar pelo ambiente, estando organizado em vertentes que incluem áreas de
intervenção, que são operacionalizadas através de critérios que permitem efetuar a orientação e a
avaliação do nível de procura da sustentabilidade. A missão do LiderA é contribuir para criar, apoiar a
gestão e certificar os ambientes construídos sustentáveis, suportando assim a procura de comunidades sustentáveis.
Figura 20 – Esquema de vertentes e áreas do Sistema LiderA
(Fonte: www.lidera.info)
72
www.lidera.info
49
4.4.2. Vertentes e áreas73
Para o LiderA a procura de sustentabilidade nos ambientes construídos assenta desde logo
em seis princípios a serem adotados, os quais abrangem as seis vertentes consideradas no sistema.
Os princípios sugeridos para a procura da sustentabilidade são os seguintes:
Princípio 1 – Valorizar a dinâmica local e promover uma adequada integração;
Princípio 2 – Fomentar a eficiência no uso dos recursos;
Princípio 3 – Reduzir o impacte das cargas (quer em valor, quer em toxicidade);
Princípio 4 – Assegurar a qualidade do ambiente, focada no conforto ambiental;
Princípio 5 – Fomentar as vivências socioeconómicas sustentáveis;
Princípio 6 – Assegurar a melhor utilização sustentável dos ambientes construídos, através da
gestão ambiental e da inovação.
As seis vertentes subdividem-se em vinte e duas áreas:
Integração local, no que diz respeito ao Solo, aos Ecossistemas naturais e Paisagem e ao
Património;
Recursos, abrangendo a Energia, a Água, os Materiais e os Recursos Alimentares;
Cargas ambientais, envolvendo os Efluentes, as Emissões Atmosféricas, os Resíduos, o Ruído Exterior e a Poluição Ilumino-térmica;
Conforto Ambiental, nas áreas da Qualidade do Ar, do Conforto Térmico e da Iluminação e
acústica;
Vivência socioeconómica, que integra o Acesso para todos, os Custos no ciclo de vida, a Diversidade Económica, as Amenidades e a Interação Social e Participação e Controlo;
Condições de uso sustentável que integra a Gestão Ambiental e Inovação.
4.4.3. Critérios e níveis de desempenho74
No sistema, para orientar e avaliar o desempenho, existe um conjunto de critérios que operacionalizam os aspetos a considerar em cada área. Estes critérios dispõem de diferentes níveis de
desempenho (1 a 10 ou superior) evoluem com a tecnologia, permitindo assim dispor de soluções
ambientalmente mais eficientes. No entanto, os critérios e as orientações apresentadas pretendem
ajudar a selecionar, não a melhor solução existente, mas a solução que melhore, preferencialmente
73
74
www.lidera.info
Idem.
50
de forma
a significativa
a, o desempenho existen
nte, também numa persp
petiva económ
mica. Para cada
c
tipologia de utilização e para cada crritério são de
efinidos os níveis de desempenho coonsiderados (ou limiae permitem in
ndicar se a solução
s
é ou não sustenttável.
res), que
A parametrizzação para cada
c
um dele
es segue, ou a melhoria das
d práticas existentes, ou
o a referência aos valores de
d boas práticas, tal com
mo é usual nos
n sistemas
s internacionaais. Os níve
eis de deho são numé
éricos que do ponto de vvista de com
municação sã
ão transform
mados em cla
asses (de
sempenh
G a A++
++). Os limia
ares75 são de
erivados a pa
artir de três pontos de referência. O primeiro as
ssenta no
desempe
enho tecnoló
ógico mais utilizado,
u
pelo
o que a prática construtiv
va existente é considera
ada como
nível usu
ual (Classe E).
E No segun
ndo nível o m
melhor desem
mpenho deco
orre da melhhor prática co
onstrutiva
viável à data (Classe
e C, B e até
é A), o tercei ro assenta na
n definição do nível de sustentabilid
dade eleutral ou rege
enerativo (Cla
asses A++). Decorrentes
s desta análiise são estab
belecidos
vado, procura de neu
da utilização os níveis de
e desempenh
ho a serem atingidos.
a
para cad
P
Para o sistem
ma LiderA o grau de susstentabilidade por área é mensuráveel em classes
s de bom
desempe
enho cresce
entes: desde a prática (E
E) a classes C (superior a 25% à práática), B (37,5 %) e A
(50% ou
u fator 2). Na
a melhor clas
sse de desem
mpenho existe, para além
m da classe A
A, a classe A+,
A associada a u
um fator de melhoria de 4 e a classe
e A++ associada a um fator de melhooria de 10 face à situação iniccial considerada, ou até mesmo
m
A+++
+ que catego
oriza uma sittuação regennerativa.
Figurra 21 – Classses de desem
mpenho amb
biental
(Fonte
e: www.liderra.info)
75
Estes limiares são ajjustados a cada uso e pode
em ser prescrritivos (indican
ndo a solução a considerar por exemplo 1m2 d
de painel sola
ar para águas quentes saniitários) ou de desempenho
o (% de m3 dee água quente
e sanitária
produzida
a por energiass renováveis o que permite ser fornecido de pela energ
gia solar, biom
massa ou outrra). Assim,
existe um
m quadro para cada um dos usos que parrticulariza quais são os níveis que atingem
m as várias cla
asses.
51
4
4.4.4. Pon
nderação
N
No geral, de
entro de cada
a área os cri térios dispõe
em de igual importância pelo que o seu
s agrupara cada u
pamento
o permite a classificação
c
uma das 22 áreas. Para obter um vaalor agregado
o, a classificação
o final conjug
gada é obtida através da
a ponderaçã
ão das 22 áre
eas. Para o efeito, atrav
vés de inquirição e consenso,, foram obtid
das as ponde
erações para
a cada uma das
d áreas, seendo a área de maior
ncia a Eficiên
ncia nos Con
nsumos (17%
%), seguida da
d Água (8%) e do Solo ((7%). (Anexo
o A.5).
importân
A contabiliza
ação por verttentes posici ona como mais
m
relevante
e os recursoss com 32% do
d peso,
seguido da vivência socioeconóm
mica (19%), cconforto amb
biental (15 %),
% integraçãoo local (14%
%), cargas
ais (12%) e por
p fim a ges
stão ambienttal (8%).
ambienta
Figura 22 – Pondera
ação por vertentes na verrsão 2.076
4
4.4.5. Aplicação do
o Sistema Lidera
O sistema prroposto (Pinh
heiro, 2005)777 dispõe de diferentes po
ossibilidadess de aplicaçã
ão: plano,
projeto e gestão do ciclo de vid
da (construçã
ão, operação
o, reabilitaçã
ão, renovaçãão, restauro e fim de
vida) ten
ndo em vista permitir o ac
companham
mento nas dife
erentes fases de desenvvolvimento do
o ciclo de
vida do e
empreendim
mento desde a conceção à construçã
ão, operação, reabilitaçãoo e até à desconstrução. A a
aplicação do
o LiderA é vo
ocacionada para abrang
ger as difere
entes escalass espaciais, desde a
escala u
urbana (zona
as, bairros), até aos ediffícios e aos materiais. Pelo
P
que devve ser definido clara76
77
www.lid
dera.info
idem
52
mente qual é a intervenção a ser abrangida, em que fase se encontra e qual é o objetivo da aplicação
LiderA. O sistema LiderA pode ser utilizado para desenvolver os planos, projetos e procura de soluções construtivas sustentáveis na fase de obra, sendo particularmente relevante a sua aplicação desde logo na fase de conceção do mesmo. Desde o seu início, ou seja desde a sua ideia e planeamento, o empreendimento deve adotar uma política ambiental (ou evidenciar a sua implementação), a
qual deve ser adequada ao empreendimento e suas especificidades ambientais, considerando os
princípios de procura da sustentabilidade atrás referenciados.
Na fase inicial de cada projeto, o dono da obra, sendo o responsável pela encomenda das
operações e pela celebração do respetivo contrato de adjudicação, define as caraterísticas, condições e soluções que se pretendem implementar nos empreendimentos. Ao nível do plano devem ser
evidenciados os princípios da abordagem, que devem ser definidos numa lógica de Política. Como
critérios de comparação neste nível foram tidas em consideração a Agenda 21 e as orientações de
sustentabilidade presentes no regulamento geral das edificações, traduzidos nos seguintes princípios:
fomentar a adequada localização e integração ambiental, a eficiência nos consumos e gestão dos
fluxos, um reduzido impacte das cargas ambientais, um adequado conforto, a adaptabilidade socioeconómica, uma consistente gestão ambiental e uma procura proativa da inovação (Anexo A.6A.6).
Ao nível do programa preliminar, este deve discriminar as intenções do promotor para que estas fiquem delineadas no sentido de procurar o bom desempenho na procura da sustentabilidade do
empreendimento. A estratégia inicial deve ser orientada segundo os princípios do sistema LiderA que
se baseiam nas vertentes: integração local, recursos, cargas ambientais, conforto ambiental, vivências socioeconómicas e gestão sustentável. A abordagem preliminar, embora ainda não formalize o
projeto, deve conter para cada uma destas vertentes os princípios que irão regularizar todo o projeto
nas seguintes fases e que devem ser tidos em conta ao longo de todas as etapas de licenciamento.
Esses princípios são os seguintes: Prever a valorização da dinâmica local e promover uma adequada
integração; Fomentar a eficiência no uso dos recursos naturais; Reduzir o impacte das cargas ambientais (quer em valor, quer em toxicidade); Assegurar a qualidade do ambiente, focada no conforto
ambiental Fomentar as vivências socioeconómicas sustentáveis.
O nível de projeto assenta na aplicação dos princípios e na procura dos níveis de desempenho viáveis para a situação específica. Esta é a fase da definição das soluções e respetivos níveis de
desempenho, os quais devem ser comparados com os referenciais de sustentabilidade, face ao seu
desempenho para os vários critérios. À medida que se dispõe de maior pormenor, do estudo prévio
ao projeto de execução, as medidas prescritivas devem evoluir para complementar as mesmas com
os respetivos níveis de desempenho.
O nível de projeto assenta na aplicação dos princípios e na procura dos níveis de desempenho viáveis para a situação específica. Esta é a fase da definição das soluções e respetivos níveis de
desempenho, os quais devem ser comparados com os referenciais de sustentabilidade, face ao seu
desempenho para os vários critérios. À medida que se dispõe de maior pormenor, do estudo prévio
ao projeto de execução, as medidas prescritivas devem evoluir para complementar as mesmas com
os respetivos níveis de desempenho.
53
No caso do estudo prévio, importa aferir se as propostas (soluções) apresentadas seguem as
estratégias inicialmente delineadas e se estão de acordo com os princípios delineados para as áreas
do sistema LiderA (assegurando uma abrangência generalizada e o caminho para a sustentabilidade,
que foi inicialmente definido e analisado no programa preliminar). Nesta fase de análise é importante
analisar as opções estratégicas e de projeto efetuadas anteriormente, de forma a avaliar a sua compatibilidade com o programa pretendido, quer ao nível da aferição de custos (orçamento), quer ao
nível da avaliação estratégica de procura da sustentabilidade.
O processo de licenciamento abrange diversas fases de projeto e como desafio principal ambiciona-se que estas fases sejam também alvo de uma verificação relativamente ao seu desempenho
ambiental e social, ou seja, ao seu nível de sustentabilidade. O LiderA, tem nesta abordagem um
papel importante, uma vez que funciona como instrumento auxiliador que vai evidenciando, em cada
passo do processo de licenciamento, as questões de desempenho mais relevantes a ter em consideração na elaboração dos projetos. No projeto de execução, deve ser verificada a pormenorização de
soluções construtivas inicialmente propostas e delineadas quer no estudo prévio quer no projeto de
licenciamento. Nesta fase é importante detalhar todos os elementos construtivos, bem como procedimentos e normas de execução. Soluções que requerem utilização de energias renováveis, recolha
e aproveitamento de águas tendo em conta a redução de consumos energéticos e de água e uso de
materiais certificados, são aspetos que requerem pormenorização, ao nível dos recursos.
O nível da operação e funcionamento, a lógica é de apoiar a utilização e gestão sustentável
assenta na boa utilização, tendo em vista assegurar os níveis de desempenho viáveis para a situação
específica. Nesta fase, as soluções e respetivos níveis de desempenho podem ser comparados com
os referenciais de sustentabilidade encontrados para ver qual é posicionamento e os eventuais modos de melhoria.
4.4.6. Certificação pelo sistema LiderA
No caso de dispor de boas soluções pode, na fase de conceção, plano ou projeto, evidenciar
as mesmas de forma prescritiva ou através do desempenho e caso se comprovem níveis de desempenho nas vertentes e áreas consideradas ou, globalmente, se atinja a classe C ou superior, pode ser
reconhecido pelo LiderA. No caso da construção, ou com o edifício em funcionamento, a abordagem
centra-se nas evidências efetivas existentes e se o processo de verificação permitir constatar que os
níveis de desempenho nas vertentes, áreas ou globalmente atingem a classe C ou superior, pode ser
certificado pelo LiderA (Figura 23).
54
Figura 23
3 – Certificad
do Lidera
(Fontte: www.liderra.info)
55
5
5.
Estudo de ca
aso – Anállise de cas
sos na cid
dade de Lu
uanda.
5
5.1.
Enq
quadramento - A Re
epública de
d Angola e a cidadee de Luan
nda
O território da
d República
a de Angola ffica situado na costa ociidental da Áffrica Austral,, a sul do
equadorr e a norte do
o Trópico de
e Capricórnio
o, entre os paralelos
p
4° 22’
2 e 18° 02’’ Sul e os meridianos
11º 41’ e 24º 05’ Lesste. Com a capital
c
em Lu
uanda e dividido em 18 Províncias, a área total do
d país é
de 1 246
6 700 quilóm
metros quadra
ados (Km2), ttendo uma costa
c
marítim
ma atlântica dde 1 650 quilómetros.
A sua fro
onteira terresstre é de 4 837 km. Os a
assentamento
os humanos em Angola ddesenvolvera
am-se na
sua maioria de form
ma espontâne
ea, isto é, s em projetos ou planos de
d desenvol vimento previamente
dos. Os projetos e estud
dos de urba
anização das
s principais cidades surggiram depois da sua
elaborad
fundação
o (MINUA, 2006).
gura 24 – Ma
apa administrrativo de Ang
gola
Fig
78
(Fonte
e: UN, Jan. 2004)
2
A
As principaiss fontes de energéticas
e
e
em Angola sã
ão o petróleo
o, a hidroeleetricidade e a biomassa. Apessar do enorm
me potencial hidroelétrico
o associado a um conjunto de rios ccaudalosos que atra78
Em (MINUA, 2006)
56
vessam o território, menos de 10% é explorado. Levantamentos efetuados durante o tempo colonial
apontavam para um potencial na área da grande hídrica na ordem de 150.000 GW/ano, indicando
que os 1.200-1500 GW/ano gerados hoje em dia representam menos de 1%. O fornecimento de
energia elétrica faz-se apenas a uma pequena percentagem da população (atualmente cerca de
20%)79, fundamentalmente nos centros urbanos, e mesmo essa faz-se de modo intermitente, […] (cf.
2.3).
Após a independência em 1975, em toda a extensão do território mas principalmente nas cidades do litoral - que ofereciam maior segurança e maior facilidade de acesso aos bens importados -,
verificou-se uma pressão do crescimento urbano, acelerado pela movimentação dos deslocados de
guerra no território, que não só não seguiu os planos de desenvolvimento urbanos elaborados antes
da independência, como também não mereceu a devida resposta por parte das autoridades responsáveis pelo ordenamento e desenvolvimento territorial, sobrecarregando a capacidade das infraestruturas e dos serviços básicos. O quadro habitacional existente, sem manutenção adequada, sofreu um
processo de deterioração e de decadência, ao mesmo tempo que foram proliferando assentamentos
habitacionais subnormais - os musseques -, nas áreas periurbanas. As cidades experimentaram os
efeitos adversos do rápido crescimento e das mudanças urbanas: congestionamento, desemprego,
inadequação das infraestruturas de saneamento, poluição, insuficiência dos serviços sociais […] etc
(MINUA, 2006).
5.2.
O Clima em Angola – Principais caraterísticas e as diferentes zonas climáticas.
O clima de Angola é fortemente influenciado por um conjunto de fatores, dos quais se destaca a latitude (de 6º a 18º), a altitude, a orografia, a corrente fria de Benguela e as bacias hidrográficas do
Zaire, Zambeze, Kwanza, Kubango, Kuando e Kunene. De uma forma geral verifica-se em todo o
país a existência de duas estações mais ou menos bem diferenciadas (MINUA, 2006):
Uma, seca e fresca, denominada “cacimbo”, que vai de Junho a fins de Setembro;
Outra, a das “chuvas”, quente, que decorre de Outubro a fins de Maio.
Por vezes, em determinadas regiões, a estação das chuvas é dividida por um curto período
de seca conhecido por “pequeno cacimbo” que pode ocorrer de fins de Dezembro a princípios de
Fevereiro. A temperatura média anual mais baixa é de 15º-20ºC e regista-se na zona planáltica e ao
longo do deserto do Namibe. A temperatura média anual mais elevada varia de 25º- 27ºC e ocorre na
região da bacia do Congo e no filamento sub-litoral do Norte do País. A precipitação em Angola é
influenciada pelo centro de altas pressões do Atlântico Sul, pela corrente fria de Benguela e pela alti-
79
MINUA (2006)
57
tude. A precipitação média anual decresce de Norte para Sul e aumenta com a altitude e distância do
mar. A precipitação média anual mais elevada é de 1.750 mm e regista-se no planalto, e a mais baixa
é 100 mm na região desértica do Namibe. O clima do planalto central norte é tropical húmido com
uma precipitação média anual que varia de 1 250 a 1 750 mm. A sul do planalto o clima é tropical
seco. Quanto ao litoral, a zona norte é húmida, baixando gradualmente em direção ao sul, onde o
clima é semiárido, com precipitações médias anuais abaixo de 100 mm (MINUA, 2006)
Angola enfrenta diversos problemas ambientais com origem na longa guerra civil, na generalização da pobreza, nos impactes negativos associados às atividades económicas, nomeadamente da
atividade petrolífera, entre outros. A escassez de informação ambiental credível e atualizada, a insuficiente capacidade institucional da administração ambiental e a ineficácia dos processos de tomada de
decisão política a todos os níveis, associado à falta de consciência e responsabilidade ambiental da
população em geral, enfraquece a capacidade para enfrentar os atuais problemas do ambiente em
Angola (MINUA, 2006).
No que às alterações climáticas diz respeito, Angola ratificou a Convenção Quadro sobre Alterações Climáticas. Na fase atual de restabelecimento gradual e generalizado da paz em todo o território, é urgente que simultaneamente se proceda a uma exploração e gestão sustentável dos inúmeros recursos naturais angolanos, […]. Existe, latente, a preocupação de que o intenso crescimento
rural e urbano que se tem seguido à restauração da paz no país se faça à custa de uma acelerada
degradação dos recursos naturais (MINUA, 2006).
5.3.
A cidade de Luanda – enquadramento, clima e estrutura urbana
Luanda, cidade fundada por Paulo Dias de Novais e batizada como São Paulo da Assunção
80
de Loanda em 1575, cresceu inicialmente a partir do morro de São Miguel , sobranceiro à Ilha do
Cabo e à Baía. Situa-se aproximadamente à 8º 49´ de latitude Sul e a 13º 13´ de longitude Este, e
81
atinge a altura máxima de 59,25 metros, com clima
que se pode classificar como «húmido sem
inverno», correspondente ao subtipo «clima de savana», e com ventos predominantes que sopram de
sudoeste e nordeste, influenciados pela corrente marítima austral que passa ao longo da costa, denominada Corrente [Fria]82 de Benguela (Magalhães, 2009).
A condição atlântica e a topografia em anfiteatro suave, marcada pelo morro da fortaleza de
São Miguel e pela colina de Miramar, determinam a raiz da sua estrutura urbana e a organização,
cuja denominação ainda hoje se mantém: a Cidade Alta e a Cidade Baixa (Magalhães, 2009).
80
Hoje onde se localiza o Museu das Forças Armadas [Nota do Autor].
«Apenas se distinguem duas épocas do ano: a do cacimbo e a das chuvas. A primeira, com início em meados
de Maio, prolonga-se até meados de Setembro. A segunda, caraterizada por temperaturas elevadas, de fins de
Setembro a princípios de Maio. As temperaturas máximas verificam-se de Fevereiro a Abril. A temperatura média
de Luanda é de 24ºC», Luanda Edição da Direção dos Serviços de Economia – Secção de Publicidade, Litografia Nacional, Porto.
82
Nota do Autor.
81
58
A cidade de Luanda desenvolveu-se sempre em estreita relação com o mar. A Baixa estendese ao longo do imenso porto natural, conformado pela baía e pela Ilha de Luanda. Posteriormente, a
cidade venceu o desnível e instalou-se na colina exposta aos ventos, construindo a Alta em solos
secos arenosos, com vegetação escassa e total ausência de água. Mas logo desde a década de 50
Luanda assiste a um grande crescimento demográfico, que implicará um aumento significativo da
construção e da consolidação urbana. Durante esta década, adquire progressivamente uma imagem
de cidade moderna, assente nas premissas do Movimento Moderno e, particularmente, baseada nos
princípios da Carta de Atenas (Magalhães, 2009).
Com o Plano Diretor de Luanda, serão desenvolvidas as unidades de vizinhança, que assegurarão o crescimento da cidade para além do núcleo urbano consolidado. Destaca-se a Unidade de
Vizinhança nº1 no Bairro do Prenda (1963 – 1965), grandes torres de habitação que se erguem como
uma ilha no meio do musseque, um projeto de Fernão Simões de Carvalho, José Pinto da Cunha e
Fernando Alfredo Pereira. Após a descolonização, o crescimento demográfico acentuado mantém-se
em progressão geométrica. Os movimentos migratórios justificados pela guerra civil, […], tornam Luanda uma cidade densa sobrelotada e caótica. Por outro lado, os anos de guerra não permitem o
investimento nas infraestruturas urbanas, nos equipamentos ou nos edifícios, o que força naturalmente a degradação da cidade e da sua arquitetura (Magalhães, 2009).
É uma cidade cuja transformação decorre a uma velocidade inimaginável. Sobre as marcas
da guerra e da sobrelotação por esta provocada (uma cidade planeada para quinhentos mil habitantes […]), o perfil de Luanda altera-se todos os dias; nascem torres douradas, crescem os novos bairros e condomínios em Luanda Sul, deitam-se abaixo algumas «ruínas modernas». Esta velocidade
sente-se no trânsito caótico, no ritmo frenético das obras ou na pressa dos vendedores na rua
(Magalhães, 2009).
Assiste-se hoje, nesses novos tempos de paz, a um crescente investimento em infraestruturas quer na transformação urbana de Luanda, essencialmente assente na expansão da cidade para
sul (Magalhães, 2009)
5.4.
Caraterísticas da arquitetura e da construção em Luanda – do
passado ao presente (uma abordagem crítica)
Nesta abordagem, pretende-se realçar as transformações que a cidade sofreu, do ponto de
vista da arquitetura e da estrutura urbana, quer pela sua reestruturação quer pela expansão e as implicações para a questão da sustentabilidade do espaço edificado, por alteração de alguns edifícios
existentes, do ponto de vista energético e, implicitamente, no que a pressão sobre os recursos naturais diz respeito.
É importante referir que: O Gabinete de Urbanização Colonial (ou do Ultramar) e, posteriormente, o Gabinete de Urbanização da Câmara Municipal desenvolverão planos gerais ou parciais que
59
assegurarão o crescimento da cidade, a qual atingiu o seu apogeu, enquanto cidade colonial, com o
Plano Diretor de Luanda (1961 – 1962) (Magalhães, 2009). (Magalhães, 2009).
Refira-se, a título de exemplo, a abertura de novos eixos estruturantes, como a passagem
entre a cidade alta e a fortaleza de S. Miguel, favorecendo a ventilação e arejamento da baixa (Fonte,
2006).
Vasco Vieira da Costa propõe, na sua tese de fim de curso, após um estágio em Paris no atelier de Le Corbusier, um Anteprojeto, um «Anteprojeto de uma Cidade Satélite para Luanda» (1949),
em que compete a aplicação dos dogmas modernos à construção de uma cidade colonial é, certamente, paradoxal. Este arquiteto será um dos muitos recém-licenciados que, […], contribuirão significativamente para uma imagem de cidade moderna, com edifícios sobre pilotis, fachadas de expressão mais abstrata, marcadas por grelhas de betão, brise-soleil e palas de sombreamento, […]
(Magalhães, 2009).
Em Luanda, a obra de Vasco Vieira da Costa, discípulo de Le Corbusier, obedece aos princípios do mestre: mercado do Kinaxixe, as fachadas revestem-se de brise-soleil83, constituídas por lâminas verticais de um modo homogéneo84, e os pátios interiores encerram-se com uma delicada grelha rendilhada; no Ministério das Obras Públicas de Angola, o sistema de sombreamento das fachadas funciona como uma segunda pele do edifício, criando um forte efeito plástico e tridimensional. No
edifício da Rádio Nacional de Angola, a homenagem à obra de Le Corbusier é também evidente: o
desenho expressivo das grelhas em betão armado aparente remete para o Convento de La Tourette
e para os projetos de Chandigarh. Uma grelha reticulada distanciada das fachadas laterais permite
simultaneamente o sombreamento e a ventilação do seu interior; na fachada principal, orientada a
poente, os brise-soleil são compostos por elementos em betão fixo, garantindo-lhe um caráter mais
opaco e impenetrável. Tal como um abeto com as suas densas folhagens, um «arranha-céus» deverá
ser protegido dos efeitos da luz e do calor (Magalhães, 2009).
Tal como na utilização do cobogó85 brasileiro, observam-se nas cidades de Angola [...] edifícios de habitação ou equipamentos marcados por grelhas modulares em betão de diferentes desenhos, geometrias e texturas: é o caso do Sporting Clube de Luanda, pequeno edifício com uma clara
influência da arquitetura brasileira, envolvido por densa grelha aberta, que provoca efeitos de luz e
83
O brise-soleil representa uma reinterpretação dos elementos de proteção do sol que Le Corbusier observa nas
suas múltiplas viagens ao Norte de África e que justifica em La Maison des Hommes (1942): «O sol é ditador
segundo os climas e segundo as estações. À frente do pano de vidro, os dispositivos podem ser instalados: O
brise-soleil, fonte arquitetónica ilimitada, chave de uma nova riqueza arquitetónica.»
84
«Revestir um edifício com um brise.soleil nas suas quatro fachadas poderá parecer à primeira vista uma atitude totalitária ou um recurso meramente compositivo. Contudo, considerando a latitude de Luanda, é evidente que
não é assim. [...] O edifício recebe a incidência direta da luz solar em todas as suas fachadas. No Verão o sol
incide a sul; no Inverno a norte, durante a Primavera e o Outono a sul e a norte no decurso de um dia. Assim,
num mesmo, repetidamente, é possível ver o sol iluminar o interior do mercado através das fachadas. [...] Também é verdade que o ângulo de incidência varia muito [...]. Assim, parece uma opção racional o edifício ser protegido por um sistema de lâminas verticais em todo o seu perímetro; sombreamento cuja eficiência se relaciona
não com o ângulo de incidência vertical dos raios solares mas sim com a sua trajetória horizontal.» in Quintã,
Maria Margarida Gonçalves, p. 86-87.
85
Denominação de uma grelha de betão de múltiplos desenhos e de produção industrial, criada numa empresa
sedeada no Recife e que resulta da conjugação do nome dos seus criadores, o engenheiros Amadeu Oliveira
Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis.
60
sombra intensos e expressivos; A Residência de Estudantes, […], projetada por Vasco Vieira da Costa, [...]; Para além das grelhas em betão, procuram-se outros materiais que permitam o mesmo esquema de proteção natural e possibilitem outras expressões, como grelhas em tijoleira cerâmica ou
grelhas metálicas, [...] (Magalhães, 2009).
Outra saliência expressiva e marcante é a pala de betão utilizada com marcação de entrada
dos edifícios como marcação da entrada dos edifícios e, […], como coroamento e sombreamento das
coberturas. Louis Kahn, quando visita Luanda a propósito do seu projeto para o Consulado dos Estados Unidos em Angola, destaca exatamente a eficácia da dupla cobertura ou das palas de sombreamento como resposta energética ao clima tropical: «Durante a minha estadia em Luanda [...] outra
coisa que me impressionou foi ver alguns edifícios cônscios do calor gerado pelas coberturas. Tinham
extensas áreas [...] de separação entre o teto e a cobertura [...], com aberturas visíveis do exterior
onde, entre os dois planos, a brisa poderia ventilar. E pensei como seria maravilhoso poder separar
os problemas do sol dos problemas da chuva.» (Magalhães, 2009).
Também Richard Neutra (arquiteto norte-americano de origem austríaca) influencia tanto a
América Latina como África, […]. Em Angola a sua influência revelou-se na relação entre o interior e o
exterior e na valorização dos espaços exteriores cobertos através do prolongamento das coberturas,
assegurando desse forma uma proteção natural tanto do sol, como da chuva (Fonte, 2006).
A interpretação das premissas do Movimento Moderno à luz da adequação dos edifícios às
caraterísticas específicas dos climas quentes húmidos torna-se num dos fatores essenciais para entender a singularidade e a identidade da arquitetura moderna brasileira, que será naturalmente apropriada também nos territórios africanos. […] Trata-se de projetar um edifício, ponderando, através dos
seus elementos tipológicos, formais e construtivos, sobre o modo correto de permitir a circulação de
ar e proteger do sol e da chuva. «Nestas condições climáticas apenas a execução de alguns preceitos permite que as construções estabeleçam relações de concordância com o lugar e que se adequem corretamente ao comportamento do sol e dos ventos e às exigências críticas da humidade.»
(Magalhães, 2009).
Em comparação com o quadro atual no que diz respeito ao ambiente construído e dinâmica
da cidade e devido ao acima exposto estas premissas alteraram de forma significativa:
As caraterísticas gerais dos tipos de construção existente, quer em espaço urbano quer em
espaço rural, podem-se dividir em tipologias de (1) construção consolidada em espaço urbano; (2)
construção não consolidada em espaço urbano e (3) construção tradicional (Guedes, et al., 2011)
No primeiro grupo inclui-se todo o edificado existente com caráter não provisório […]. Engloba, portanto, o edificado consolidado e de vários períodos de construção até à atualidade. Ao nível da
habitação particular ou unifamiliar, os edifícios vão sendo mantidos, sofrendo por vezes algumas alterações, por exemplo nos seus revestimentos, que nem sempre são as mais adequadas. Os métodos
construtivos seguem as disponibilidades do mercado, sendo os projetos bastante variados quanto à
sua conceção (Guedes, et al., 2011).
Este “boom” construtivo verifica-se principalmente ao nível das infraestruturas básicas de
apoio (viárias, de saneamento e de abastecimento de água potável, gás e energia), da construção de
61
edifícios de escritório
os (grandes superfícies, geralmente distribuídas
s em altura), de edifícios de habioletiva, e de grandes ba
airros residen
nciais (geralm
mente na pe
eriferia dos ccentros urba
anos). Os
tação co
edifícios de habitaçã
ão compartic
cipados pelo Estado são construídos
s em tijolo, ccom estrutura
a armada
m madeira revestida
r
a chapa metá
álica. São
(pilares e fundaçõess) em ferro e betão, e cobertura em
construçções simpless, apresentan
ndo uma tipo
ologia de ha
abitação unifamiliar isoladda, de um piso,
p
variando enttre os dois e três quartos
s (Guedes, e
et al., 2011).
E
Em relação à construção
o não conso lidada em es
spaço urbano, onde vivee grande parrte da população,, em particular em áreas suburbanass, são ainda muito precárrias, com baiixos níveis de
d habitabilidade, refletindo a pobreza dos
s seus ocupa
antes. São edificações
e
que
q respondeem a uma ne
ecessidante por parte da popula
ação, sem q
qualquer cará
áter de perm
manência ouu durabilidad
de e com
de urgen
grandes carências em
e termos de
e infraestrutu
uras de apoiio básicas – mas que vãão permanec
cendo imas, formando
o focos de insegurança ssocial, insalubridade e do
oenças. A exxecução da habitação
h
plantada
é norma
almente execcutada pelo próprio
p
(auto
oconstrução)), sem qualquer projeto, baseando-se
e apenas
no resulttado da prátiica e experiê
ência que estte conhece.
Figura
a 25 – Ocupa
ação informa
al: bairro suburbano
Fonte: (G
Guedes, et al.,
a 2011)
eriais mais uttilizados são
o o tijolo, (de
e adobe, cimento ou cerâ
âmico), pedra
ra, ou ainda materiais
Os mate
diversoss como pequ
uenas pedras ou outros materiais aproveitados, […] para aaplicação nos
s revestimentos de parede e pavimentos. Para as ccoberturas, são
s
utilizada
as geralmentte chapas metálicas,
m
simplesm
mente coloca
adas sobre as
a paredes. Por vezes os
o vãos não têm portas oou janelas, e as divisões são
o mínimas em quantidad
de e dimensã
ão. Sobre es
sta questão é importantee referir que: Tornamse urgen
ntes ações de
d apoio a este
e
tipo de cconstrução, quer seja através de oriientação porr técnicos
responsá
áveis dada à auto-constrrução […]. É necessário um entendim
mento de quee é possível construir
igualmen
nte com matteriais barato
os, especialm
mente os de origem loca
al, mas atribuuindo condiç
ções suficientes d
de habitabilid
dade e de hiigiene ao ed ifício. Basta por vezes uma correta aaplicação do
os materi-
62
ais disponíveis, e o cumprimento de estratégias construtivas e arquitetónicas adequadas ao contexto
[…] (Guedes, et al., 2011).
No que à construção tradicional diz respeito é de notar que: As construções tradicionais estão
maioritariamente presentes em espaço rural. […] No que concerne às caraterísticas construtivas e
materiais aplicados, […] os materiais mais utlizados – paus, caniços, colmo, madeiras, adobe e pedra, se encontram facilmente por todo o país, apesar de possuírem caraterísticas diferentes. José
Redinha (citado em (Guedes, et al., 2011)), no seu livro – “A habitação tradicional Angolana – aspetos
da sua evolução”, descreve os diversos tipos tradicionais de habitação, de acordo com a sua distribuição geográfica, etnográfica e aspetos construtivos – materiais, estrutura e métodos de construção.
[…] Estas edificações incorporam tecnologias construtivas que são o produto do conhecimento empírico de muitas gerações, que ao longo de séculos desenvolveram estratégias de adaptação ao meio
ambiente, utilizando recursos locais – são assim uma importante referência para a prática atual de
uma construção sustentável
Nos espaços suburbanos algumas construções seguem as tipologias
tradicionais, principalmente no que diz respeito à forma, mas são modificados alguns materiais aplicados, sendo por vezes esta alteração suficiente para um decréscimo no desempenho de conforto
interior. Por exemplo, a utilização de chapas metálicas na cobertura nem sempre mostra ser uma boa
estratégia, uma vez que ao ser aplicada sem qualquer isolamento adicional irá gerar situações de
sobreaquecimento (Guedes, et al., 2011).
A ocupação não autorizada de terrenos […], a alteração de fachadas e pavimentos utilizando
materiais de construção com índices de absorção das águas das chuvas e reflexão dos raios solares
diferentes dos materiais originais, têm contribuído negativamente para o conforto ambiental dos microclimas […] (MINUA, 2006).
A crítica que aqui se faz na comparação entre o passado e o presente da arquitetura na cidade de Luanda não tem como intensão defender um revivalismo do passado mas, antes, chamar a
atenção para a reflexão de Minnette da Silva86 (citada por (Tzonis, et al., 2001)) relevante para os
tempos modernos, sobre as novas construções recentes [a serem edificadas nesta cidade]87:
“It is essential for us to absorb what we absolutely need from the modern West, and to learn
to keep the best of our on traditional forms. We have to think understandably in order to develop an
indigenous contemporary architecture, and not to lose the best of the old that has meaning and value”.
Ela passou a dizer que: “accepting the need to synthesize our past with the present technology, we need to examine our own roots and understand them before achieving a creative life – in literature, music, painting, education, society, and architecture”.
86
A mais recente, mais clara, mais crítica reformulação da arquitetura tropical foi feita pela arquiteta do Sri Lanka, Minnette da Silva. Ela é uma das mais importantes arquitetas com prática individual do período pós-guerra,
tal como Lina Bo Bardi do Brasil. Da silva regressou ao Sri Lanka vinda da Architectural Association em Londres
onde estudou arquitetura em 1949. Começou a sua carreira como arquiteta trabalhando para um dos arquitetos
que se tornaria o mais importante dos “arquitetos tropicais” do período pós-guerra, Otto Koegnisberger, e permaneceu em intimidade com outros dois arquitetos, Jane Drew e Maxwell Fry. Ainda quebrou com a abordagem
daqueles sobre arquitetura tropical. Para ela, uma arquitetura para os trópicos tem que ser mais do que só uma
forma de controlo microclimática, apesar de também ser. Antes de 1950, da Silva estava consciente sua posição
altamente original. Ela cunhou a frase para descreve-la: “modern regional architecture in the tropics”
87
Nota do Autor
63
Ela defendeu a sua posição afirmando: “As an architect I believe in and so cannot subscribe
to copying the architecture of an era that is long past. As an architect I believe in building to suite our
living needs in a living way, utilizing the most suitable modern and progressive means at our disposal,
and on adopting these sound and fundamental principles of building of the past, which are as authentic today as before. It is from this that a beautiful and satisfying modern architecture can result”.
À este propósito refira-se as “tentativas científicas de adaptação” (cf.3.3.1) em Angola na
pretensão de construção de uma cidade tropical de expressão portuguesa, […], pois que, outras
construções mais precárias88 [..], eram também construídas, em lugares estratégicos e utilizando as
influências das construções tradicionais de Angola, os materiais naturais, numa miscigenação entre a
arquitetura tradicional angolana e a portuguesa, que respondia adequadamente aos constrangimentos do clima especialmente difícil de suportar – o calor, a humidade, as chuvas, os insetos (Fonte,
2006).
Isto não quer dizer que ela (Minnette da Silva) rejeitava os materiais tradicionais e as técnicas
de ventilação em princípio. Por exemplo, ela sugeriu a utilização da terra compactada tradicional para
casas de baixo custo, desde que combinada com técnicas de construção moderna. Entre os elementos que ela reteve no seu desenho historicista livre foi a varanda, aquela invenção tropical asiática,
uma área sombreada separando o interior e o exterior, um pouco como uma imaterial, virtual nãoparede (Tzonis, et al., 2001)
A par da varanda ela (Minnette da Silva) reteve a midula; “I considered the movement of air
within the house as one of the primary concerns and was to achieve this with the utilization of splitlevels, midulas and stairwells situated in the center of the plan.” Por outras palavras ela aplicava o
princípio de Venturi, permitindo nos seus esquiços “a possibilidade de se movimentar horizontal e
verticalmente através da casa – […]” (Tzonis, et al., 2001).
Para da Silva (citada por Tzonis, et al.( 2001)), assim como Mumford, a arquitetura tropical foi
explicitamente ligada à questões da comunidade:
“Our community and social needs should find regional expression in town plans,
housing schemes and public buildings. What so often happen is that we copy
the closed-in types of western building quite unsuited to our region, or adapt
traditional architecture in an equally unsuitable way, forgetting that it is merely
ludicrous to make them concrete now”.
Em Angola existem bons exemplos de arquitetura adequada ao meio ambiente em que se
insere. Contudo, hoje em dia a prática de uma arquitetura passiva ou bioclimática, com preocupações
ambientais e energéticas, necessita ainda de implementação. Embora as publicações existentes refiram extensamente os potenciais benefícios desta arquitetura, o seu uso é ainda muitas vezes mal
compreendido, sendo erradamente considerado um risco, ineficiente, demasiado complicado ou caro.
88
De foro religioso, militar, administrativo ou comercial
64
Por exemplo, em muitas novas construções as preocupações de climatização são deixadas para engenheiros, que tendem a adotar o uso “seguro” do ar condicionado (Guedes, et al., 2011).
Figura 26 –Prédios com varandas encerradas e uso do ar-condicionado, em Luanda (mau exemplo
de uso)
Fonte: Autor
Figura 27 – Bom exemplos de soluções arquitetónicas em Luanda (grelhas de proteção do vidro e
ventilação natural)
Fonte: Autor
Esta reflexão crítica é, portanto, uma chamada de atenção para muitas das escolhas e opções que se têm adotado nas soluções arquitetónicas que se têm observado atualmente na cidade de
Luanda, pelo que deve-se questionar sobre a sua aplicabilidade ao contexto climático económico e
social, com prováveis repercussões no consumo de energia, logo, de recursos não renováveis. A
Figura 28 ilustra um dos aspetos que merece profunda reflexão no contexto da cidade de Luanda.
65
Figura 28 – (a) Obsstrução da brisa
b
por edifíícios altos em
m climas que
entes e húmiidos (esquerrda); (b)
Edifícios em
e construçã
ão na margin
nal em Luand
da (direita)
(Fonte: (Fryy & Drew, 19
964) e Autor)
66
5.5.
Os casos de estudo – Aplicação do LiderA África às duas unidades habitacionais em Luanda.
5.5.1. Enquadramento
Na sequência dos pressupostos referidos nos capítulos anteriores, no que a arquitetura sustentável e arquitetura tropical se referem, e dos seus princípios, o presente estudo de caso tem como
objetivo analisar duas tipologias construtivas unifamiliares existentes, na cidade de Luanda – um
apartamento e uma moradia –, relativamente à integração destes princípios e estratégias, utilizandose indicadores da construção sustentável do sistema LiderA África. Neste estudo, a avaliação feita às
tipologias habitacionais tem relevância pelo facto de, para além de já ter decorrido algum tempo desde a sua construção, pretender-se aferir se nas mesmas os critérios propostos pelo sistema de avaliação da construção sustentável são verificados. De realçar que devido a dificuldade de obtenção de
alguma informação relevante sobre as construções avaliadas, alguns créditos não foram verificados
mas também porque muitos daqueles não constituírem práticas usuais, no que ao melhor desempenho sustentável se refere, da realidade estudada. No entanto, a avaliação incidiu sobre os que melhor
se aproximam à realidade de estudo.
O Projeto NOVA VIDA
Iniciado em 2001, resultado de investimentos públicos com objetivo de minimizar os problemas habitacionais dos funcionários públicos e da população em geral, o projeto Nova Vida89 foi erguido na sua primeira fase com habitações subdivididas em apartamentos do tipo T3 e vivendas do tipo
T3 e T4. Trata-se de um projeto onde o Governo [de Angola] promove a construção e venda de habitação, […], num universo de mil quatrocentas e trinta e quatro casas com capacidade para alojar vinte
mil habitantes. Devida a carência de casas em Luanda, o governo de Angola constrói o projeto Nova
Vida para albergar a classe média angolana, e ex-militares90. Além das habitações, a vila residencial
conta com escolas, centro de saúde, esquadra da polícia, centro comercial, bem como jardins públicos para lazer e terá um total de 24 quilómetros de arruamentos. O processo geral de construção das
habitações na primeira fase, foi executado pela empresa Grupo Five91. Além da construtura sulafricana, outras empresas trabalharam no Projeto Nova Vida como a Habitar, […], a China Jiangsu,
Somague92.
89
Localizado no município de Kilamba Kiaxi
http://angolaecoisalinda.blogspot.com/2008/03/projecto-nova-vida-em-luanda-angola.html
91
Empresa Sul-Africana
92
A empresa Aureacongroup também.
90
67
Centro da cidade
Projeto Nova Vida
Figura 29 – Localização do projeto Nova Vida em relação ao centro da cidade
(Fonte: http://maps.google.com/)
A primeira fase do Projeto Nova Vida compreendeu, igualmente, a construção de estruturas
de bombagem e tratamento de água, tratamento de esgotos, […], e de 24 ml de conduta de água. O
abastecimento de água é feito através de uma conduta da Empresa de Desenvolvimento Urbano
(EDURB), proveniente de Kikuxi. O fornecimento de energia elétrica é assegurado pela construção de
uma linha de 60 KVA a partir da subestação da Empesa Nacional de Eletricidade (ENE). Foi construída também uma subestação para assegurar a distribuição de energia93.
O projeto criou alguns desafios incluindo a fonte e transporte de materiais de construção adequados, a operação da força de trabalho94 multinacional e multiligue, bem como o desafio de fornecer
dicas in-situ para treinamento e acompanhamento.
O Nova Vida é um exemplo pioneiro do que pode ser alcançado através de um grupo de trabalho,
perícia e inovação. O projeto recebeu o prémio Concrete Society of Southern Africa´s Fulton for “Excellence in the Use of Concrete” em 200595.
Terminada a primeira fase há mais de cinco anos, perspetiva-se construir na segunda fase,
mil oitocentas e sessenta e duas habitações. Oferecer habitações compatíveis com à realidade cultural dos angolanos e baixar os custos de construção são os principais objetivos do governo.
93
http://www.aurecongroup.com/en/Projects/Government/Nova-Vida.aspx
Realce para a inclusão de mão-de-obra local
95
http://www.aurecongroup.com/en/Projects/Government/Nova-Vida.aspx
94
68
Caraterísticas urbanas, dos edifícios e construtivas
O empreendimento apresenta como caraterísticas urbanas o facto de estar implantado num
terreno sem grandes declividades, quase plano, que outrora eram terrenos rústicos em zona periurbana. Como referido, o empreendimento contempla vários usos (espaços verdes, escolas, equipamentos públicos entre outros), alguns dos quais a serem implementados atualmente (Atrium Nova
Vida - Anexo A.7), nomeadamente um centro comercial e a continuidade do projeto (fase 2) que contempla habitações e outros usos complementares. Em visita ao local, constatou-se que a implantação
dos edifícios apresenta uma caraterística importante do ponto de vista da sustentabilidade que é a
orientação dos mesmos (lado menor) na direção dos ventos predominantes (direção sudoestenordeste), aspeto que permite experimentar as brisas naturais, no exterior e no interior dos edifícios.
Concomitantemente com este aspeto, a disposição dos mesmos, no terreno, apresenta-se
“desfasada” de modo a se evitar a obstrução destas brisas. Nos interstícios entre eles estão construídos espaços verdes para recreio e lazer, e espaços para estacionamento de viaturas ao ar livre. Os
edifícios apresentam como caraterística fundamental a forma de um trevo alongado, correspondendo
cada “folha” a um apartamento; com quatro pisos acima do solo, são unidades construídas com preocupações de sustentabilidade e compreendem quatro apartamentos por piso. Para além da sua orientação (edifícios), têm uma composição formal em planta e elementos que potenciam a circulação de
ar – hall entre os apartamentos “aberto” e aberturas superiores (Figura 34).
Figura 30 – Localização dos edifícios onde se situa o apartamento (Projeto Nova Vida)
(Fonte: http://maps.google.com/)
Outro aspeto a realçar é que os apartamentos não têm paredes-meias entre si, aspeto que
permite ter o hall, de entrada nos apartamentos, permanentemente ventilado. A volumetria que apresenta é a de um prisma regular, com muitas arestas verticais. A cobertura é de várias águas e tem
como revestimento chapas metálicas do tipo caneladas com diversas cores (Figura 30) conforme o
69
edifício. No que as caraterísticas construtivas diz respeito é de realçar o betão armado como material
predominante, que ao nível das ruas (calcetamento) e dos edifícios: The Nova Vida project, comprising 2.448 residential units, constructed using the group's patented precast building system96, Goldflex
[…]; With a shortage of materials and limited skills at Nova Vida, the precast concrete construction
methods have proved to be ideal solutions. The controlled factory environment used during precasting ensures that high quality standards are maintained throughout the construction process97.
Figura 31 – Vista aérea da construção do projeto Nova Vida e uma das ruas com moradias construídas
(Fonte: Autor)
Apartamento Unifamiliar
O apartamento98 objeto de análise é uma fração habitacional de tipologia T3, com uma área
bruta privativa de cerca de 100 m2 (Anexo A.8), implantada no quarto andar de um edifício de quatro
pisos (incluindo o rés-do-chão). Trata-se de um edifício cujo perímetro apresenta uma forma irregular
cuja razão técnica, em nosso entender, assenta em pressupostos e princípios de sustentabilidade. O
apartamento é composto por três quartos, duas casas de banho, uma sala comum, um cozinha com
área de serviço e uma varanda. No que concerne aos materiais, o predominante é o betão armado
com elementos modulares (pavimentos, paredes). Os materiais de acabamento são correntes, embora o apartamento apresente algumas caraterísticas de traça original conjugadas com obras de remodelação: no pavimento, nas janelas, nas quais se colocaram caixilharia de alumínio, e pintura nas
paredes. Apesar de não se fazer uma descrição exaustiva das caraterísticas dos materiais empregues na remodelação efetuada (porque não foi possível apurar esses dados), é do nosso conhecimento que são habitualmente adquiridos em locais onde existe disponibilidade para comercialização,
normalmente nos pequenos lojistas ou no mercado paralelo local.
96
The Brun pre-cast tank system – for which Group Five holds the sole South African licence – is ideal for the
construction of reservoirs, silos, water treatment tanks and sewage plants in rural and remote areas.
Fonte: http://www.engineeringnews.co.za/article/group-five-uses-brun-precast-system-in-angola-2003-11-12
97
Idem
98
Por questões e privacidade e segurança não é revelado o número do lote nem do apartamento.
70
Avaliação de Sustentabilidade – o apartamento
Para análise do apartamento pelo sistema LiderA África, tomou-se como pressupostos a informação pesquisada e os dados observados no local. De realçar que alguns créditos foram atribuídos ao empreendimento, no seu todo, como necessidade de resposta às “questões” do sistema LiderA; os outros créditos dizem respeito ao apartamento, pelo que se procedeu a sua atribuição para
verificação do cumprimento de determinada vertente/área. A seguir são apresentados os critérios e a
fundamentação na sua avaliação para cada vertente:
Vertente: Integração Local
Valorização Territorial (A1) – este critério tem como classe de desempenho a C, porque no Projeto
Nova Vida há uma intenção expressa de promoção de aglomerados urbanos compactos, isto é circunscrito a uma zona específica. De referir que foi edificado numa zona onde o uso do solo era destinado à agricultura (hortas e quintas) e em algumas situações degradado e não aproveitado de forma
útil. Apresenta construções nos vazios urbanos, nas zonas degradadas ou abandonadas, como era o
caso; De referir que promove a construção de redes urbanas infraestruturadas (redes de esgotos,
telecomunicações, gás e água); Promoção da adoção de vários usos do solo simultâneos, onde se
verifica a existência de mais de quatro usos.
Figura 32 – Vista exterior de edifícios do Projeto Nova Vida
(Fonte: Autor)
Valorização ecológica (A2) – No que à valorização ecológica diz respeito a classe de desempenho
obtida é B, pela satisfação dos seguintes requisitos: Interligação das zonas verdes através da continuidade por arborização e espaços verdes permeáveis. Destes últimos, verifica-se um contínuo em
várias direções que permite as ligações entre espaços verdes ao longo dos quarteirões apesar de se
verificar (Figura 30) algumas zonas menos bem tratadas.
Valorização paisagística (A3) – A valorização paisagística tendo em conta a verificação de aspetos
referentes ao edificado e aos espaços verdes permitiu atribuir a classe de desempenho C. O funda-
71
mento para esta classificação deve-se ao facto de que para o edificado satisfaz-se o seguinte: A adequada intervenção às condições topográficas locais; a inserção visual na circundante onde este edificado está implantado; e a promoção do alinhamento das cérceas, consubstanciado em edifícios com
a mesma altura. Relativamente ao espaço exterior, o projeto cria condições de valorização estética da
paisagem, definição do espaço urbano e da sua malha. Não se verificou nos edifícios quaisquer paramentos verticais opacos (empenas, taludes, etc.).
Vertente: Recursos
No que respeita especificamente aos Recursos, os critérios de base são os seguintes:
Gestão da Energia (A4) – Relativamente a este critério a classe obtida por atribuição de créditos foi
a E. Isto porque no que ao Desenho Passivo se refere verificou dois pontos nomeadamente: a situação/organização favorável face a outros edifícios ou condicionantes naturais; um dos materiais utilizados é o betão armado como material predominante e que apresenta massa térmica média a forte.
No capítulo dos vãos: a caixilharia utilizada apresenta estanquidade às infiltrações de ar e no que a
ventilação natural cruzada diz respeito é de realçar que os vãos propiciam aquela. Apesar disto a
classe no que respeita a este critério está muito próxima da prática de construção habitual.
Gestão da água (A5) – A classe que traduz o desempenho nas atuais condições para este critério é
a C, porque é garantido o acesso à água potável através do tratamento desta depois de captada e
canalizada, cuja origem é a localidade de Kikuxi; o tipo de fonte de obtenção água no interior das
frações habitacionais é através de torneiras; tendo em conta que qualquer intervenção urbana deve
ter, por lei, infraestruturas urbanas necessárias ao seu correto funcionamento este empreendimento
não é exceção, no que ao fornecimento de água em particular se refere; esta água fornecida é continuamente monitorizada para garantir a sua qualidade junto dos consumidores. A gestão das águas
residuais é garantida por sistemas de coleta em cada apartamento e são direcionadas para a rede
pública, devidamente separadas, por imperativos legais.
Gestão dos materiais (A6) – A classe atribuída para este critério foi a D. Os créditos atribuídos são
devidos a durabilidade dos materiais, ou seja, constata-se: a aplicação de soluções/materiais duráveis na estrutura do empreendimento (betão armado pré-moldado, lancis de betão, metais nas guardas, outros), com uma duração estimada entre [40 - 50[ anos; a aplicação de soluções/materiais duráveis nos acabamentos exteriores do empreendimento, com uma duração estimada entre [5-10[
anos; a aplicação de soluções/materiais duráveis nos vãos do empreendimento, com uma duração
estimada entre [5 - 10[ anos e a aplicação de soluções/materiais duráveis na envolvente do empreendimento, com uma duração estimada entre [20- 30[ anos
72
Produção local de alimentos (A7) – A classe atribuída à este critério foi a E. Isto porque não se
verificou no local qualquer indício de produção de alimentos como estratégia com objetivos definidos,
por parte dos promotores do empreendimento, nem se verifica atualmente.
Vertente: Cargas ambientais
Gestão dos Efluentes (A8) – Atribuiu-se à este critério a classe de desempenho C. O total de créditos obtidos satisfazem os seguintes elementos: as infraestruturas locais funcionam servindo os habitantes locais, cujas habitações estão providas de equipamentos para o efeito (por exemplo, sanitas
com autoclismo; e a quantidade de frações servidas pelo sistema de saneamento básico comunitários
é superior a 50%.
Gestões das emissões atmosféricas (A9) – As fontes de emissões atmosféricas têm várias origens
neste empreendimento (fogões a gás, esquentadores/caldeiras, fumo do tabaco permitido, existência
de poeiras, existência de bactérias) e, por isso, a classe C foi a mais adequada, pelo facto de que no
somatório dos créditos e por observação da realidade de estudo, ter-se verificado a existência de um
conjunto de pressupostos que permitiram chegar a esta conclusão.
Gestão dos resíduos (A10) – A classe para este critério é a E (prática usual). Isto deve-se ao facto
de não se ter observado nenhuma prática de gestão que pressupõe a redução, reciclagem e reutilização dos resíduos urbanos e da construção, tendo-se unicamente verificado a recolha destes sem
preocupação de diferenciação para a reciclagem.
Gestão do ruído (A11) – A classe C é a que foi atribuída a este critério, porque existe um conjunto
de medidas que permitem minimizar o ruído proveniente do e para o exterior, relativamente aos uso
de equipamentos.
Gestão ilumino-térmica (A12) – As valências de minimização de alguns impactes desta natureza na
urbanização do projeto Nova Vida permitiu que se atribuísse a classe de desempenho B. Isto porque
verifica-se a minimização das superfícies impermeáveis, constatando-se a existência de maiores
áreas exteriores permeáveis e vegetação (Figura 32). As cores claras no interior do apartamento são
uma evidência. Acrescido a estes créditos tem-se os que se referem à boa orientação dos edifícios
em relação às brisas e ventos dominantes, favorecido pela implantação dos edifícios e da sua relação, que favorece a distância necessária para aquele efeito, diminuindo a propensão para o fenómeno da ilha de calor urbano. Não se verificou a existência de luminárias com intensidade que prejudique habitats humanos e naturais.
73
V
Vertente: Co
onforto amb
biental
pecificamente
e ao ambien te interior, os critérios de
e base focam
m os seguinttes aspeNo que respeita esp
tos:
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A13) – Atribu
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sse A como indicador dee desempen
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ão dos espaçços interiore
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Gestão do conforto
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A14) – A sattisfação das condições enumeradas
e
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m
utilizados garanntirem o con
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atribuir a classe A para este critério, em virtu
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utilizadores por utilizzação e materiais que ga
arantem uma inércia térrmica média a forte; a orientação
da do edifício
o (considera
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ão interna do
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c
adequad
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a nível da á
área envidra
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uada para aas diferentes
s divisões
o os diferente
es usos (com
m admissão d
de ar pelas divisões
d
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rias).
Figura 33 - Vista
V
interior da zona de serviço (grelhas de ventilação) e do apartamento
o
((Fonte: Autor)
Gestão de outras condições
c
de
d conforto (A15) – A gestão
g
do co
onforto, com classe A de
eve-se às
e termos de iluminação
o natural e artificial
a
e um
m conjunto dee fatores que favoremedidass aplicadas em
cem este
e critério (Fig
gura 33).
74
Vertente: Vivência Socioeconómica
Contribuir para acessibilidade (A16) – Classe E por verificação do seguinte: existência de pelo
menos 1 transporte público/coletivo; as ligações de baixo impacte favoráveis são: caminhos pedonais
junto do edifício e com dimensões adequadas ao fluxo diário de pessoas, tendo-se verificado que são
percursos exclusivamente pedonais.
Contribuir para a dinâmica Económica (A17) – O fomento trabalho local, ou seja, o crescimento de
muitas oportunidades de emprego devem-se a expansão urbana e necessidade crescimento de usos
complementares à habitação, e bem como a promoção da igualdade de género e de estatuto social
na criação de emprego local, permitiu que se atribuísse a classe D relativamente ao desempenho
deste critério. São disso exemplo a construção do Centro Comercial Nova Vida, postos de abastecimento de combustível, entre outros.
Contribuir para as amenidades (A18) – Este critério foi avaliado com a classe D porque existe pelo
menos uma amenidade natural nas imediações do empreendimento e é de realçar a existência de
outras amenidades humanas nomeadamente lojas de géneros alimentares, farmácia, centro de saúde, escola primária e/ou secundária, posto de bombeiros, esquadra de polícia, entre outros.
Condições de controlo (A19) – Como o critério anterior, também se avaliou este com a classe D:
existem soluções e dispositivos integrados na construção – grelhas de ventilação, janelas, etc – que
permitem o controlo ambiental e de segurança por parte dos utilizadores nomeadamente da temperatura, humidade, ventilação natural e/ou artificial, iluminação natural e/ou artificial, existência de espaços bem iluminados, vigiados e com campo de visão aberto, edifícios com fachada e acesso principal
inserido na frente/rua (Figura 34).
Contribuir para os baixos custos no ciclo de vida (A20) – Quanto a este critério a classe é C devido ao bom desempenho na escolha de materiais duráveis e com tempo de vida útil elevado (o betão
armado, caixilhos metálicos, portas de madeira); estes materiais estão corretamente aplicados de
acordo com a exigência a que estão submetidos. De realçar alguns materiais com probabilidade de
aproveitamento ou reaproveitamento.
Vertente: Uso sustentável
Promover a utilização e gestão (A21) – A classe de desempenho E para este critério é a mais adequada porque não se verificam quaisquer medidas de promoção de gestão sustentável.
75
Promover a inovação (A22) – Uma vez que não existem elementos inovadores ou de inovação relativos ao uso sustentável, a mesma classe foi atribuída a este critério, ou seja, E.
Na escala desempenho global o empreendimento e o apartamento estudados avaliados em conjunto,
têm classe C (13,21%), que é uma classe de desempenho com 25% de melhoria face a prática usual.
De realçar que esta classe global de desempenho permite que a unidade habitacional avaliada seja
reconhecida pelo sistema LiderA África. No entanto, somos de opinião que para um melhor desempenho sustentável do apartamento inserido no empreendimento, seriam necessárias algumas melhorias que incidiriam essencialmente nos critérios cuja classe de desempenho se encontra no nível da
prática usual (Classe E).
As melhorias seriam então na vertente Recursos, nos critérios Gestão da Energia (A4) (que pressuporia a preocupação com a introdução de elementos de design ativo, como o consumo de energia
proveniente de fontes renováveis, e de equipamentos que consumam menos energia), e a Produção
local de Alimentos (A7) (por exemplo as hortas urbanas); na vertente Cargas Ambientais, no que a
Gestão dos resíduos (A10) se refere (através da recolha seletiva a partir das casas e das empresas
de recolha em meio urbano, conjugadas com campanhas de sensibilização e formação local).
Outra medida de melhoria seria na vertente Vivência Socioeconómica, relativamente ao critério Contribuir para a acessibilidade (A16) (através de políticas de serviços de transportes públicos que sirvam
o projeto/bairro e, consequentemente, do fomento do uso daqueles transportes, diminuindo a utilização do carro próprio nas deslocações de proximidade, e pendulares casa-trabalho, o que aumentaria
a convivência e interação social, com benefícios para o ambiente).
De referir igualmente a necessidade de melhoria no critério Contribuir para as Amenidades (A18),
com maior predominância das naturais, para usufruto dos habitantes locais.
Por último, as melhorias a serem feitas na vertente Uso Sustentável, ao nível dos seus dois critérios:
Promover a utilização e gestão [da sustentabilidade], e da Inovação em matéria de sustentabilidade,
deverão ser efetuadas uma vez que nada se observou na avaliação feita, logo, o que existe e se concebeu está conforme a prática usual. Conforme explicado nos capítulos anteriores, uma correta gestão em matéria da sustentabilidade permite mitigar e, por vezes, eliminar alguns impactes ambientais
provocados pelas construções e o ambiente construído.
76
Figura 34 – Vistas do
d hall de ac
cesso aos ap
partamentos (aberturas permitem
p
a ppromoção da ventilação natural))
((Fonte: Autor)
M
Moradia Unifamiliar
U
r
A avaliação da moradia, é de particu
ular interesse
e na medida em que se localiza em zona periurbana da cidade de
d Luanda, acrescido
a
do facto de serr autoconstru
ução. Por see tratar de zo
onas que,
mente, apresentam grand
des vulnerab
bilidades do ponto de vis
sta ambientaal, onde pred
domina a
normalm
autoconsstrução de habitações, e não só, deccorre deste pressuposto
p
o interesse dde estudo, no sentido
de perce
eber e avalia
ar o desemp
penho deste tipo de construções rela
ativamente aaos mesmos
s critérios
(LiderA Á
África) utiliza
ados na avalliação do ap artamento. No
N entanto, é de realçar que a moradia avaliada apre
esenta melho
ores condiçõ
ões de apetre
echamento que
q muitas das habitaçõees existentes
s na zona
onde se insere, nom
meadamente,, paredes re bocadas e pintadas,
p
pav
vimento ladrrilhado, teto falso,
f
cabanho devida
amente equip
padas, entre outros aspe
etos.
sas de b
Figura 35 – Moradia viista de fora
((Fonte: Autor)
T
Tem uma áre
ea de 128,7 m2, apresen
nta uma form
ma paralelepipédica deitaada, com pé-direito de
2,47m (tteto falso), e está impla
antada sobre
e uma parce
ela de terreno, de formaa poligonal, com
c
uma
77
superfície de cerca de 1,5 ha (hectares) que se encontra completamente vedada. Os materiais utilizados na construção da moradia são essencialmente blocos de betão, na construção das paredes,
revestidas a argamassa, sobre a qual assentam mosaicos cerâmicos nas zonas húmidas, ao contrário das zonas secas onde são pintadas. O pavimento é todo revestido a mosaicos cerâmicos. A cobertura é revestida à chapa metálica, vulgarmente designada de canelada, assente sobre estrutura
metálica. Do ponto de vista da localização a mesma está implantada a cerca de 14 km (15 min, viagem de carro) do centro da cidade, em zona com uso predominantemente habitacional, e foi objeto
de obras de reabilitação dos acessos (estradas asfaltadas) bem como a construção de alguns equipamentos públicos e sociais de promoção privada e estatal. De realçar que é uma zona que tem progressivamente evoluído relativamente aos usos que complementam o habitacional.
Avaliação de Sustentabilidade – moradia
Vertente: Integração Local
Valorização Territorial (A1) – Classe C para esta moradia e sua implantação porque no que a análise do solo diz respeito grande parte da área é permeável e existe vegetação que ajuda a proteger os
solos contra a erosão (Anexo A.9).
Valorização ecológica (A2) – Apesar de a classe de desempenho A+, ser muito exigente quanto aos
requisitos para a sua atribuição é de notar que esta foi feita tendo em conta as valências observadas
nomeadamente: uma grande percentagem do terreno está ocupada por área verde e espécies arbóreas diversas sobretudo autóctones (mangueiras, limoeiros, bananeiras, entre outras); pelo facto são
potenciadas as ligações com outras áreas verdes adjacentes em outros logradouros pressupondo
boa permeabilidade dos solos e fomento da biodiversidade.
Valorização paisagística (A3) – A adequação da construção da moradia à envolvente construída
existente, embora o tipo de construção seja melhor que aquela, o uso de materiais e técnicas construtivas locais permitiu atribuir a classe de desempenho B.
Vertente: Recursos
No que a vertente recursos diz respeito e de acordo com os critérios tem-se que:
Gestão da Energia (A4) – A classe E é a que melhor se adequa ao desempenho deste indicador na
medida em que não se verificam muitas estratégias de sustentabilidade relativamente ao uso da
energia. Mais, o fornecimento de energia é deficiente e muito intermitente, sendo a fonte de energia
mais utilizada o gerador. No entanto, os créditos são obtidos através do desenho passivo (massa
78
térmica da estrutura média); através do desempenho dos vãos que estão sombreados e a estanquidade da caixilharia aos agentes atmosféricos. Apesar dessas medidas não existem grandes melhorias que permitam obter um desempenho para além da prática habitual, uma vez que devido ao fraco
fornecimento de energia, consome-se muito combustível no uso do gerador.
Gestão da água (A5) – Classe E, porque é garantido o acesso a fontes de água potável através de
dispositivos como torneiras, cuja distribuição é feita por um tanque de água subterrâneo que está
ligado à rede pública. Verifica-se igualmente a existência de sistemas separativos de recolha de
águas residuais através de fossas séticas, situação muito comum em construções em zonas não
urbanizadas.
Gestão dos materiais (A6) – A classe de desempenho é a C, que se justifica pelo uso de materiais
locais com durabilidade de pelo menos 20 anos, nomeadamente, blocos de betão (fabricados no local
da obra), pintura, pavimentos resistentes ladrilhados, entre outros, facilmente substituíveis e passíveis
de aquisição localmente.
Produção local de alimentos (A7) – No interior deste lote existe produção de alimentos para consumo próprio, a partir de várias espécies arbóreas. São exemplo a manga, o mamão (papaia), limão,
chá de caxinde, goiaba, entre outros, que permite a atribuição da classe de desempenho A. De referir
ainda a criação de galinhas e, a partir destas ovos e carne (Anexo 0).
Vertente: Cargas ambientais
Sobre a vertente das cargas ambientais os critérios associados foram avaliados como se segue:
Gestão dos Efluentes (A8) – A condução dos efluentes neste lote urbano é feita através de fossas
séticas onde é feito o seu tratamento natural, cujos resíduos são provenientes de dispositivos de descarga do interior da habitação, adequados para o efeito. Portanto, a classe de desempenho é B, porque satisfaz seis créditos.
Gestões das emissões atmosféricas (A9) – Neste critério verifica-se a classe A porque não existem
outras fontes de emissão para a atmosfera para além das que constam na avaliação nomeadamente,
fogões à gás, existência de poeiras resultante dos solos arenosos existentes e devido ao vento que
existe na zona e a tendência que poderá existir para o aparecimento de fungos num dos quartos interiores, portanto, sem janela para o exterior. De referir que, o sistema LiderA África pressupõe a atribuição da classe de desempenho atribuída porque no total de créditos (negativos) só se verificam até
5, em função das condições observadas.
79
Gestão dos resíduos (A10) – Não há muito a referir sobre este critério, senão ao facto de que a
classe D foi a atribuída devido a satisfação de condições de para o armazenamento de embalagens
de limpeza, sobretudo de artigos domésticos em locais apropriados (arrumos), em virtude de existir
espaço para o efeito.
Gestão do ruído (A11) – a existência de medidas como a utilização de equipamentos no interior e no
exterior (gerador), pouco ruidosos, bem como de pavimentos pouco ruidosos permite que se atribua a
classe B. De realçar que o gerador utilizado apresenta caraterísticas de insonorização, ou seja, redução do ruído.
Gestão ilumino-térmica (A12) – Igual classe de desempenho teve este critério (classe B), por cumprir com os seguintes pressupostos: colocação de sombras sobre as áreas impermeáveis e/ou escuras; minimização das superfícies impermeáveis (vias, passeios e parques de estacionamento exteriores); existência de estacionamento à superfície com sombreamento ao invés do estacionamento a
céu aberto; presença de arborização; utilização de cores claras nos seguintes elementos construtivos:
fachadas, coberturas e/ou telhado, passeios/espaços comuns exteriores; no exterior, verifica-se utilização de luminárias com intensidade adequada e cuja projeção de luz incida somente na área a iluminar pretendida; e controlo do tipo de iluminação passível de prejudicar habitats humanos e naturais.
Figura 36 – Interior da Moradia
(Fonte: Autor)
Vertente: Conforto ambiental
Já no que diz respeito à vertente conforto ambiental, os critérios s critérios foram avaliados da seguinte forma:
Gestão da qualidade do ar (A13) – Apesar de a moradia estar implantada num lote localizado em
zona com pouco rugosidade urbana, os ventos dominantes não favorecem o seu refrescamento através da ventilação cruzada. Isto porque a moradia está construída de tal modo que os ventos não penetram no seu interior. Agravado a esse facto, e apesar de ter teto falso (sem isolamento térmico), a
cobertura em chapa metálica sobreaquece alguns dos espaços interiores da moradia, devido a trans-
80
ferência de calor por radiação. O único aspeto a realçar é que existe uma boa circulação de ar no
exterior da moradia permitindo ter alguma salubridade no interior, relativamente a microrganismos,
mas não a mais adequada. Nesse sentido a classe de desempenho é a B, pela satisfação dos critérios referidos.
Gestão do conforto térmico (A14) – A classe de desempenho para este critério é a C apesar do
conforto ser parcialmente satisfeito, isto é, na época mais fresca do ano, vulgarmente designada de
cacimbo. Isto porque as chapas e a má orientação da moradia são fatores que potenciam o desconforto térmico em períodos mais quentes do ano em Luanda. Apesar disso algum conforto é conseguido devido a: Utilização de paredes que permitam trocas adequadas entre o interior e o exterior; a
minimização de pontes térmicas; e o sombreamento de vãos envidraçados (preferencialmente exteriores) (Figura 36).
Gestão de outras condições de conforto (A15) – Este critério apresenta a classe B como classe de
desempenho porque é garantida a iluminação natural nas divisões principais, nas divisões secundárias e comuns; os acabamentos interiores são de cor clara (Figura 36); há diminuição das superfícies
interiores muito refletoras, existe boa orientação e distribuição dos vãos envidraçados, face às condições locais de iluminação. Do ponto de vista da acústica a moradia insere-se numa zona com pouco
ruído na envolvente: localização correta do edificado de forma a garantir a proteção a fontes de ruído
locais e no mesmo é aplicado teto falso que minimiza os ruídos. A caixilharia é estanque aos ruídos
(madeira com vidro simples).
Vertente: Vivência Socioeconómica
Na vertente socioeconómica, ou seja, acesso para todos os critérios tiveram a seguinte avaliação:
Contribuir para acessibilidade (A16) – Por se tratar de uma zona periurbana e não haver um ordenamento do território adequado, verifica o serviço de transportes públicos com pouca eficiência, uma
vez que não existem paragens devidamente localizadas e os horários não são conhecidos. Pelo facto
a classe de desempenho atribuída foi a E, uma vez que existem pelo menos dois meios de transporte
público, sendo o segundo fornecido como serviço informal praticado por pessoas singulares muitas
delas não credenciadas para o efeito. No entanto, reconhece-se a utilidade destes na medida em que
colmatam em grande medida o fraco serviço dos transportes das empresas estatais.
Contribuir para a dinâmica Económica (A17) – Classe E porque se trata de uma habitação unifamiliar e não existem medidas que justifique a atribuição de outra classe.
Contribuir para as amenidades (A18) – Não existem quaisquer amenidades naturais nas imediações da moradia, ao contrário das amenidades humanas, portanto, a classe de desempenho é a E.
81
Condições de controlo (A19) – Devido a existência de formas de controlo das condições de vivência
no local, para conforto humano, a classe atribuída foi a D, em virtude da possibilidade de controlo dos
seguintes itens: vento, sombreamento, Iluminação no exterior, temperatura, humidade, ventilação
natural e/ou artificial, sombreamento e Iluminação natural e/ou artificial, no interior. Há ainda a referir
as soluções que fomentam a salubridade no local, nomeadamente, os sistemas de tratamento de
águas residuais (fossas séticas) – Figura 35.
Contribuir para os baixos custos no ciclo de vida (A20) – A classe A+ é a que, preenchidos os
créditos deste critério, permite atribuir um bom desempenho devido à práticas de usos de materiais
duráveis e de procedimentos adequados para uma construção mais sustentável.
Vertente: Uso sustentável
Relativamente à vertente uso sustentável não se verificaram práticas diferentes da habitual (classe
E).
Promover a utilização e gestão (A21) – Para este critério verifica-se a prática usual, por inexistência
de qualquer medida que permita aferir a promoção da utilização e gestão sustentáveis. A classe de
desempenho é, portanto, E.
Promover a inovação (A22) – Não foram verificadas quaisquer medidas ou estratégias de inovação
para desempenho sustentável da construção, pelo que a classe de desempenho é E.
Após a avaliação de todos os critérios, obteve-se a classe global de desempenho C (14,41%)
para a moradia, face a situação atual (classe E), e pressupõe uma melhoria de 25% na escala de
níveis de desempenho. Isto permite aferir que a construção avaliada é passível de reconhecimento
pelo Sistema LiderA África no que a construção sustentável se refere.
No entanto, para um melhor desempenho as melhorias a ter em conta para o nível de desempenho para este tipo de construção deverão incidir essencialmente nos critérios relacionados
com a operação da construção, dado tratar-se do penúltimo estádio das fases de uma construção.
Nesse sentido haveria necessidade de melhorar os critérios Gestão da Energia (A4), Gestão da Água
(A5), da vertente Recursos; o critério Gestão de Resíduos (A10) da vertente Cargas Ambientais; dos
critérios Promoção da utilização e gestão (A21) e Promoção da Inovação (A22), da vertente Uso Sustentável.
Finalmente, é de realçar que a vertente Vivência Socioeconómica é que contribuiu mais negativamente para a classe de desempenho global obtida, uma vez que neste caso a oportunidade de
melhoria pressuporia a urbanização da zona que, consequentemente implicaria a melhoria de outros
aspetos inerentes a esta vertente, nomeadamente, as amenidades naturais, a economia local, o bemestar da população residente entre outros.
82
6. Discussão dos resultados
O resultado da avaliação do apartamento permitiu aferir que, os critérios que contribuíram
mais negativamente para a classe de desempenho global da unidade habitacional estudada foram os
seguintes: Gestão da energia (entre todos os critérios com maior peso), Produção local de alimentos,
Gestão dos resíduos, Contribuir para acessibilidade, Promover a utilização e gestão, e Promover a
inovação.
Nesse sentido, são os critérios que, em nosso entender deverão ser tidos em conta para se
proporem oportunidades de melhoria, pelo facto de apresentaram classe de desempenho igual a prática usual (classe E). É de realçar que, na avaliação, muitos créditos foram atribuídos tendo em conta
a realidade local que, embora não satisfeitos na íntegra, permitiram aproximar os valores de acordo
com o observado e os dados técnicos quer do apartamento, quer do empreendimento. Portanto, no
final a classe de desempenho global do apartamento avaliado é a C, com o resultado de 13,21%.
Esta classe de desempenho permite que o apartamento seja reconhecido pelo sistema LiderA África
(classes de A, B e C) face aos critérios de sustentabilidade o que, em nosso entender, denota ter
havido preocupação por parte dos construtores relativamente às questões de sustentabilidade, pelo
menos no que ao conforto térmico e ao clima diz respeito. Apesar disso, é de salientar que as questões relacionadas com gestão do projeto (operação), em matéria de sustentabilidade, são as que
mais lacunas apresentam neste empreendimento.
Considerando a classe de desempenho obtida no final (classe C – 13,21%) para os critérios
aqui discutidos, se se pretender melhorar aquela classe de desempenho para um nível superior, como oportunidade de melhoria sugerimos a atribuição da classe C à todos os critérios cuja classe de
desempenho seja inferior a C (as classes D e E), pressupondo uma melhoria de 25% em relação à
prática usual. Nesse sentido, teríamos no final uma classe de desempenho B com 14,68%. Esta classe B, a obter-se pressupõe uma melhoria em 37,5% face àquilo que é a prática de construção usual
em termos de sustentabilidade, portanto, um valor significativo.
No que ao resultado de avaliação da moradia se refere, é de realçar que, apesar de a mesma
se situar em zona periurbana e relativamente afastada do centro da cidade, este fator poderá ter ajudado na avaliação de forma positiva, uma vez que se trata de uma parcela de terreno de dimensão
significativa, o que pressupõe mais espaço em termos de habitabilidade e menos densidade urbana.
Este facto permitiu que alguns critérios fossem satisfeitos, quase na íntegra. As brisas naturais favoráveis à manutenção da qualidade do ar, apesar da presença de poeira em dias mais ventosos, a
vegetação e o ambiente natural, a permeabilidade do solo, foram fatores que contribuíram positivamente na avaliação desta unidade habitacional. Apesar de se tratar de uma construção feita com
meios próprios (autoconstrução) e não ter havido intensão explícita, do proprietário, na promoção da
construção sustentável existem, no entanto, alguns aspetos observados que a potenciam.
Isto é verificado ao nível de alguns critérios, embora os que mais contribuíram negativamente
para que não se tivesse uma classe de desempenho global superior a B, foram os seguintes: Valori-
83
zação Territorial, Gestão da energia, Contribuir para acessibilidade, Contribuir para a dinâmica Económica, e Contribuir para as amenidades. Em nosso entender, pode-se constatar que o baixo desempenho destes critérios está relacionado, entre outros fatores, com um elemento principal na gestão urbana: os planos de urbanização, ou seja, a sua inexistência.
Nesse sentido, somos de opinião que uma oportunidade de melhoria para a classe de desempenho dos critérios que mais negativamente contribuíram para a classe global da moradia seria,
por exemplo, a urbanização destas zonas o que permitiria obter melhores resultados, no que a gestão
da energia diz respeito (há muita dificuldade no fornecimento e com muita intermitência); na criação
de emprego local, uma vez que os habitantes desta zona são de baixa renda em termos socioeconómicos; as amenidades naturais, de modo a diminuir o impacte da insolação, das poeiras muito evidente nesta zona, com particular destaque para a criação de áreas verdes, diminuído a erosão do
solo devido ao impacte das chuvas.
Pode-se concluir deste estudo de caso que as duas tipologias estudadas apresentam lacunas
relativamente aos principais critérios de desempenho do LiderA África, logo, considera-se que muito
terá que ser feito sobretudo pelos decisores locais para que, através de medidas corretamente delineadas se consigam obter resultados mais satisfatórios relacionados com a construção sustentável,
cujo impacte ambiental negativo afeta significativamente a vida dos habitantes da cidade de Luanda.
Estes impactes são, não só ao nível do conforto humano mas também nos que advêm das más opções construtivas e lacunas existentes relativamente a políticas de planeamento urbano, apesar dos
esforços verificados nesse sentido do Estado angolano, um pouco por todo o país.
84
7. Conclusão
O presente trabalho permitiu responder a um conjunto de questões, propostas como objetivos
específicos a atingir, que o tema suscita. Por se tratar de um tema pertinente e secular, permitiu
igualmente perceber a importância dos princípios da arquitetura sustentável na conceção e construção de edifícios, e ambientes construídos.
A pesquisa sobre as origens da arquitetura sustentável e a relação desta com o conceito de
desenvolvimento sustentável foi uma premissa, o que permitiu perceber a sua relação com outro conceito – o de arquitetura tropical -, o qual foi pertinente na compreensão da relação do tema de estudo
com a realidade de estudo proposta – a cidade de Luanda.
No âmbito daqueles conceitos, ressaltaram como importantes o de recursos naturais, de clima – com todos os seus elementos –, o ambiente, e os recursos não-renováveis, estes últimos de
capital importância na resposta aos princípios da arquitetura sustentável.
Constatou-se que, no exercido da profissão, o arquiteto antes de iniciar o processo de conceção, deve procurar perceber o clima, premissa fundamental para a tomar opções construtivas consentâneas com a realidade climática do local a intervencionar bem como dos recursos a alocar – de preferência locais –, a quem se destinará a construção (futuros utilizadores) e o uso futuro. Isto permitirá
adequar as decisões às condições locais existentes, de modo a criar e manter a construção tão sustentável quanto possível, de modo a ter-se um ambiente construído com o mínimo de impactes ambientais negativos e sobre o conforto humano.
Conclui-se, neste âmbito, que os indicadores de sustentabilidade e a certificação energética
da construção e de ambientes construídos desempenham um papel relevante na medição – qualitativa e quantitativa – de elementos que permitem estabelecer e concretizar metas que se propõem alcançar do ponto de vista da construção sustentável.
Chegou-se igualmente à conclusão de que o problema dos impactes ambientais negativos
associados à ação antrópica está também ligado à má gestão dos recursos naturais, à gestão das
cidades, pela ausência de amenidades naturais essenciais à vivência sadia dos citadinos, situação
que muita das vezes atinge os grupos socioeconómicos mais vulneráveis que se instalam em locais
igualmente vulneráveis do ponto de vista ambiental (cursos de água, leitos de cheia, encostas suscetíveis ao deslizamento de terras, entre outros locais).
De realçar que, apesar de não ter sido demonstrado de forma direta, no presente trabalho, a
relação entre a densidade populacional e a urbana (ambiente construído) da cidade de Luanda com o
clima quente que se faz sentir há, no entanto, evidências na pesquisa efetuada, da relação entre
aqueles devido aos fenómenos daí decorrentes (ilha de calor urbano; emissão de gases de efeito de
estufa; o uso excessivo de aparelhos de ar-condicionado nos edifícios, poluição do ar, entre outros) ,
devido à demanda por serviços urbanos inerente à sobrelotação populacional naquela cidade.
A arquitetura é uma atividade multi e interdisciplinar, na qual convergem diversos saberes –
sociologia, tecnologia da construção, estudos ambientais, economia, antropologia, geografia, geogra-
85
fia humana, entre outros –, os quais devem ser tidos em conta na conceção arquitetónica, uma vez
que uma decisão ou escolha não devidamente ponderadas no âmbito do seu exercício pode acarretar
impactes profundos nos quatro vetores da sustentabilidade – social, económico, ambiental e cultural –
, com graves consequências para um determinado território.
Angola é um país que está a crescer, assim como a sua capital Luanda e, nesse sentido,
somos de opinião que, a necessidade de desenvolvimento dever-se-á centrar em estratégias de gestão, que permitirão evitar, corrigir e mitigar alguns dos impactes existentes e latentes, nos quais a
construção tem grande importância. É necessário o envolvimento de todos os atores sociais e é preciso realçar que apesar da necessidade de urgência na edificação das cidades e localidades deve-se
,no entanto, executar bem hoje sob pena de se estarem a comprometer demasiados recursos materiais e financeiros que serão necessários para as gerações futuras.
A reconstrução de um país como Angola, com as riquezas naturais que possui e em esforço
para renascer, tem atraído naturalmente um enorme investimento estrangeiro, assistindo também à
chegada de uma nova população de todas as áreas profissionais, da construção civil à indústria petrolífera, do pequeno negócio à grande multinacional, e oriunda dos quatro cantos do mundo: (novos)
portugueses, muitos brasileiros, milhares de chineses, alguns franceses, americanos, acentuando o
caráter natural de Luanda – o seu cosmopolitismo. Resta saber como é que esta presença cosmopolita e global transformará a cidade e a sua arquitetura e de que modo se cruzará, no futuro, com a herança patrimonial (também cosmopolita e global) tão expressiva da Arquitetura Moderna de Luanda
(Magalhães, 2009).
É nestes edifícios novos e da “cidade histórica” que a vida dos cidadãos se desenrola diariamente mas, se estas construções não responderem satisfatoriamente ao ambiente, à sociedade, à
cultura local, e às questões económicas, somos de opinião que não será possível viver numa cidade
como Luanda, devido aos inúmeros constrangimentos inerentes à sua sobrelotação e densidade urbana que são , de certeza, o que mais compromete as soluções de sustentabilidade que se quer para
a cidade.
86
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89
Anexos
90
A.1.
A formação do clima
A rotação inclinada da Terra à volta do sol marca os ritmos das estações, que despertam a
vegetação adormecida para doar a dádiva das suas culturas. A distância relativa ao equador determina principalmente que uma localidade seja fria ou quente, mas é o sol, com a sua imperativa regularidade, o que marca os padrões de humidade e vento que se estendem pela superfície terrestre. As
caraterísticas do ambiente físico encontram-se cobertas por um vasto oceano de ar, cujas correntes
arrastam elementos climáticos a todas as partes do mundo, modificando-lhes em cada fase (Olgyay,
1962).
Em pontos de forte aquecimento o ar sobe, e em locais (relativamente) frios desce. O movimento de massas de ar e de nuvens com humidade é conduzido por diferenciais de temperatura mas,
fortemente, influenciado pela força de Coriolis, explicado na figura A.1 (Szokolay, 2004).
Uma massa de ar estacionária no equador, de facto, move-se com a rotação da terra e tem
uma certa velocidade angular (cerca de 1.600 Km/h ou 463 m/s), portanto tem momento e inércia. À
medida que se move em direção aos polos (a nível superior), a circunferência da terra (o círculo da
latitude) reduz, por isso irá ultrapassar a superfície. Uma massa de ar em latitudes superiores tem
menor velocidade e momento de inércia, e quando se move em direção ao equador (circunferência
maior), ficará atrasada em relação a rotação da terra. Este mecanismo causa a troca de ventos entre
o Nordeste e Sueste. A atmosfera é um sistema tridimensional muito instável, tal que pequenas diferenças no aquecimento local (que poderão ser por causa da topografia e da cobertura do solo) podem
ter efeitos significativos nos movimentos do ar e influenciar os padrões de redemoinhos de zonas de
baixa e alta pressão (ciclónicas e anticiclónicas) (Szokolay, 2004). Muitos sistemas (e alguns muito
complexos) de classificação climática, estão em uso, para diferentes propósitos. Alguns baseiam-se
na vegetação, outros na evapotranspiração (Szokolay, 2004).
Adotando como critério a relação entre clima e vegetação, W.Köppen determina cinco zonas
climáticas básicas: tropical chuvosa, seca, temperada, floresta fria e polar. Outros autores tais como
Trewartha modificaram esta divisão baseando-se nas linhas isotérmicas dos meses mais frios
(Olgyay, 1962).
O sistema de classificação geralmente mais usado é o Köppen–Geiger, que distingue 25 tipos
de clima. Para projeto de edifícios, um sistema simples (depois de Atkinson, 1954), que só distingue
quatro tipos de básicos, é adequado. Isto é baseado na natureza do problema de conforto térmico
humano numa localização particular (Szokolay, 2004, 33) climas frios, climas temperados, climas
quentes e secos e climas quentes e húmidos:
Climas frios, onde o principal problema é a falta de calor (subaquecimento), ou excessiva dissipação de calor para todo ou a
maior parte do ano.
91
Climas te
emperados (moderados), onde há u ma variação
o sazonal
entre sub
baquecimento
o e sobreaquecimento, m
mas nenhum
m é muito
severo.
uentes e se
ecos, onde o principal p roblema é o sobreaClimas qu
quecimen
nto, mas o arr é seco, logo o mecanissmo de arreffecimento
evaporativvo do corpo
o não é restrito. Há geraalmente uma grande
variação d
da temperatu
ura diurna (d
dia-noite).
Climas qu
uentes e húmidos, onde
e o sobreaquuecimento não
n
é tão
grande co
omo nas áre
eas quentes
s e secas, m
mas é agrav
vado pela
grande hu
umidade, res
stringindo o potencial dee evaporação
o. A variação da te
emperatura diurna é peq
quena.
O clima não joga somen
nte um papell importante na composição do subssolo, se não que também afeta profundam
mente as caraterísticas d
das plantas e dos anima
ais nas difereentes regiões
s e, mais
nte […] a ene
ergia do hom
mem (Olgyay , 1962).
importan
Figura A.1 - Ventos dom
minantes sob
bre a superfície terrestre
p://red.fau.ucv
cv.ve:8080/sttatic/fisica/file
es/clima.pdf))
(Fonte: http
92
A.1.1. Tipos de clima tropical
Os diferentes tipos de clima tropical são:
Os climas tropicais húmidos ocorrem numa faixa que se extende aproximadamente a 15º
do equador. Há uma variação sazonal muito pequena, diferrente da quantidade de chuva, que é
grande ao longo do ano, e a incidência de rajadas de vento e tempestades elétricas. A temperatura
de bolbo seco média máxima é entre 27 e 32 ºC. A mínima noturna varia entre 21 e 27ºC. A
humidade relativa é usualmente alta e cerca de 75%, mas pode variar entre 55 e 100%. O céu
apresenta-se bastante nublado durante todo o ano, apesar de a luminância poder variar
consideravelmente (Clark, 1993).
A radiação solar é parcialmente reflectida e parcialmente difundida pelas nuvens e humidade.
Esta última também reduz a radiação. As velocidades do vento são geralmente baixas. A vegetação
cresce rapidamemte, e níveis altos de humidade propiciam o aparecimento de mofo, algas e
ferrugem. Os mosquitos, habitalmente da malária, e ouros insectos abundam (Clark, 1993).
Climas de ilha quente e húmida, diferem do anterior no facto de a temperatura mínima
noturna poder ser ligeiramente inferior, e a humidade varia mais. O céu é mais limpo e a radiação
solar é mais forte e direta. Os ventos são frequentemente constantes a 6-7 m/s e propiciam o alívio
da temperatura e humidade. O sal na atmosfera propicia a corrosão. A grande diferença é o risco de
ventos ciclónicos, que são frequentes, não mitigáveis e destrutivos. A precipitação pode ser menor,
mas os dilúvios são similares (Clark, 1993).
Climas quentes secos e desérticos ocorrem em duas faixas entre os 15 e 30 º N/S. Há duas
estações, uma quente e outra fria. A temperatura de bolbo seco máxima é entre 43 a 49ºC na estação
quente e 27 a 32ºC na fria. A temperatua mínima nocturna é de 24-30º C quente, 10-18ºC fria. A
humidade relativa varia de 10% a 55%. A precipitação é suave e variável. Algumas tempestades
podem ocorrer, apesar de ser possível a seca durante vários anos. O brilho e a luminosidade podem
ser causados pela névoa de poeira branca. A radiação solar é forte mas a re-radiação de onda longa
liberta calor a noite para o céu frio. Os ventos são usualmente turbulentos e locais. As altas
temperaturas do dia e o rápido arrefecimento noturno provocam a fissuração dos materiais. Em
climas desérticos marítimos as temperaturas de bolbo seco máximas são usualmente menores,
mas a humidade tende a manter-se alta, devido a evaporação do mar. Estes climas são geralmente
referidos entre os mais desconfortáveis (Clark, 1993).
Climas compostos ou de monção ocorrem usualmente em grandes massas de terra
próximas dos trópicos de Câncer e de Capricórnio. Aproximadamente dois terços do ano são
quentes/secos, e o outro terço é quente/húmido. Localidades acima do norte e sul às vezes têm um
terço da época de frio/seco (Clark, 1993).
93
Os valores da temperatura de bolbo seco típicas são:
Quente e seca
Quente húmida
Fria e seca
Máxima média diária
32-43
27-32
até 27
Máxima média nocturna
21-27
24-27
4-10
A humidade relativa é 20-55% durante as épocas secas, e 55-95% durante a húmida.
As chuvas de monção podem ser prolongadas e intensas. A precipitação anual pode variar entre 5001300mm, com pouca ou nenhuma chuva durante a época seca. As condições do céu variam
consideravelmente com as estações; muito nublado e aborrecido durante as monções, limpo e azul
escuro durante o tempo seco. O brilho aumenta até ao final da época seca, devido a névoa de poeira.
A radiação solar varia em conformidade. Os ventos são quentes e poeirentos durante a estação seca,
e estáveis, húmidos e frequentemente fortes durante a monção. As mudanças sazonais na humidade
relativa tendem a enfraquecer os materiais dos edifícios. As térmitas são comuns.
Climas tropicais planálticos, isto é, montanhas e planalto, cerca de 900-1200m acima do
nível do mar, tê um clima composto. A temperatura de bolbo seco máxima e mínima variam com a
altitude, e o espetro varia com a distância ao equador. A humidade pode variar entre 45 e 99%.
Quando o céu está limpo, a radiação é mais forte do que no nível do mar, mas parte de radiação à
noite pode resultar em nevoeiro.
94
Figura A.2 - Mapa com os tipos de clima tropical e respectivas zonas
(Fonte: (Fry & Drew, 1964))
A.1.2. Variáveis climáticas
Definição das principais variáveis climáticas:
Temperatura (TBS99), medida à sombra, usualmente numa caixa ventilada, a tela de Stevenson, 1,2 – 1,8m acima do solo.
Humidade, que pode ser expressa como Humidade Relativa (HR) ou Humidade Absoluta
(HÁ), ou Temperatura de Bolbo Húmido (TBH) ou temperatura de ponto de orvalho (TPO).
Movimento do ar, isto é do vento, normalmente expressa a 10 m acima do solo numa área
aberta, mas superiormente em áreas construídas, para evitar obstruções; velocidade e direção, ambas, são registadas.
Precipitação, isto é a quantidade total de chuva, granizo, neve ou orvalho, medidos em pluviómetros e expressos em mm por unidade de tempo (dia, mês, ano).
Nebulosidade, baseada na observação visual, expressa como uma fração da abóbada celeste (décimas ou oitavas) cobertas pelas nuvens.
99
Temperatura de Bolbo Seco
95
Insolação, isto é o período de céu limpo (quando uma sombra nítida é projetada), medido por
um registador de insolação, no qual uma lente queima uma tira de papel; mostrado como horas diárias ou mensais.
Radiação solar, medida por um piranómetro (solarímetro) (Figura A.3), numa superfície horizontal desobstruída e registada quer como variação de irradiância contínua (W/m2), ou a através de
um dispositivo eletrónico como irradiação a hora ou ao dia. Se o valor da irradiação horária é dado
por Wh/m2, será numericamente o mesmo que a irradiância média (W/m2) para aquela hora.
Figura A.3 – Exemplo de um solarímetro e um piranómetro
(Fonte: www.gisiberica.com)
96
A.2.
Qualidade do ar interior
Nos edifícios energeticamente eficientes, a escolha dos materiais afeta a qualidade do ar interior, mais ainda do que nos edifícios convencionais. Sempre que se especifica materiais com ingredientes tóxicos e há libertação de gases, os efeitos serão ampliados pela reduzida circulação de ar e
pela fraca ventilação, tendo como resultado a acumulação de uma vasta gama de impurezas no ambiente interior. As concentrações elevadas de produtos químicos, tais como o formaldeído proveniente de tecidos, mobiliário e aglomerados de partículas de madeira, podem ser particularmente perigosas para quem durma ou esteja amarrado a uma secretária, num espaço confinado. (Ordem dos
Arquitetos, 2001)
A qualidade do ar interior é determinada pela qualidade do ar no exterior do edifício100, pela
emissão de poluentes no interior e pela taxa de ventilação, bem como pela eficiência dos filtros e
pelos cuidados de manutenção dos sistemas mecânicos. Mais do que a maioria dos problemas ambientais, a poluição do ar no interior reflete-se diretamente na saúde101 e, consequentemente, na produtividade. Há efeitos crónicos de nível, difusos em certos edifícios que se acobertam na designação de
“síndroma de edifício doente” (SBS) (Levin, 1996)102. Segundo Baker, o fenómeno de síndrome de
edifício doente observa-se, quase exclusivamente, em edifícios ventilados mecanicamente (Baker,
1995)103. O que é certo, [...], é que em espaços sub-ventilados, proliferam os esporos de fungos e os
ácaros do pó doméstico, os VOCs (compostos orgânicos voláteis) atingem elevadas concentrações.
As pessoas passam 80-90% das suas vidas dentro de edifícios, sendo desconhecido o impacte da
sua permanente exposição às emissões de baixo nível de uma grande variedade de materiais, vulgarmente encontrados nos edifícios hoje em dia. A maioria destes poluentes têm origem no próprio
edifício. Com o aumento da utilização de solventes orgânicos, de acabamentos interiores que emitem
VOCs (compostos orgânicos voláteis), de agentes de limpeza e de equipamento de escritório, a poluição do ar interior tornou-se um problema grave. (Ordem dos Arquitetos, 2001)
Uma cuidadosa seleção de acabamentos do edifício será uma maneira de melhorar a qualidade do ar interior, embora deva ser integrada numa estratégia alargada que contemple sistemas de
ventilação, as plantas de interior, a manutenção e outros fatores.
São utilizadas três estratégias para controlar os poluentes de ar no interior: retirar do edifício a fonte
de poluição; controlar as emissões de poluentes na fonte; e expulsar os poluentes do edifício, através
de medidas de ventilação. (Ordem dos Arquitetos, 2001)
No que se relaciona com a qualidade do ar [em Angola], um dos problemas associados às
aglomerações populacionais, nomeadamente nas grandes cidades, é o aumento de veículos motori-
101
Os efeitos sobre a saúde devidos à poluição do ar interior incluem alergias e asma, doenças infeciosas, cancro e outros danos genéticos.
102
(Ordem dos Arquitetos, 2001)
103
idem
97
zados104.São [ainda] fatores de deterioração da qualidade do ar […], o mau cheiro e os fumos provenientes das queimadas dos resíduos sólidos nas áreas onde estes se acumulam (p. ex. as lixeiras do
Golf II e da Camama, em Luanda). O crescimento de áreas urbanas não planificadas e o desenvolvimento anárquico de vários setores da indústria têm sido [também] fatores que contribuíram para o
aumento dos níveis de poluição do ar. […] (MINUA 2006).
Atualmente nem todas as áreas residenciais em Angola se encontram conectadas à rede elétrica fornecida pela Empresa Nacional de Eletricidade (ENE). Mesmo para as áreas com acesso à
corrente elétrica da ENE, esse fornecimento não é contínuo, sendo feito com frequentes interrupções.
Por esta razão, uma grande parte da população e de empresas utiliza geradores105 a gasolina ou
gasóleo como fonte alternativa (só em Luanda estimavam-se mais de 2.000 geradores vendidos em
2002) (MINUA, 2006); o que em nosso entender contribui para a má qualidade do ar em meio urbano.
104
O número de veículos em circulação em Angola aumentou significativamente nos últimos anos tanto a nível
das viaturas de transporte privado, como das frotas de camiões e autocarros de transporte estatal e de empresas
privadas. A este aumento não correspondeu uma expansão adequada das infraestruturas rodoviárias. Esta situação provoca grandes congestionamentos das vias de comunicação, […] nos centros urbanos de grandes cidades como Luanda, […], obrigando as viaturas a moverem-se a velocidades reduzidas nas poucas estradas existentes, […].
105
A falta de regulamento e orientações relativas à autorização de uso de geradores a gasóleo pelas grandes
indústrias tem também problemas de poluição do ar. O uso de geradores origina diversos problemas ambientais:
a emissão dos gases de combustão e o ruído produzido afetam prejudicialmente a saúde humana.
98
A.3.
Indicadores de Sustentabilidade
Um indicador pode descrever diretamente um impacto e tomar a forma de categorias de impacto tradicionais, como definidas na secção 5.3, da norma ISO 14.042 (ISO, 2000)106, e expressar
quantidade de cargas (ex.: emissões de CO2) ou de impactes (ex.: contribuição à mudança climática,
expressa em CO2 equivalente); ou ser um indicador de consequência (indireto), que descreve aspetos que influenciam a magnitude de cargas ou impactes (ex.: distância do edifício aos serviços de
transporte público, considerada a frequência das linhas).
Apesar de fundamentais para ajudar a unificar a tomada de decisão económica, social, ambiental e institucional, os indicadores per si não são capazes de promover melhoria de desempenho.
Metas de desempenho e desempenhos de referência (benchmarks) para cada indicador são igualmente necessários, para, de um lado, calibrar a análise (definir a escala de desempenho) e permitir a
avaliação do progresso (SILVA, 2003) (citado por da Silva, 2007), e, de outro, encorajar a alocação
apropriada de recursos para alcançar a taxa de progresso desejada (CIRIA107, 2001) (citado em da
Silva, 2007); [...] para ser utilizado, um indicador deve ser acompanhado, ainda, de uma explicação
quanto ao modo e à fonte de informação utilizada para atribuir valor ao indicador. A partir de meados
da década de 80, foram desenvolvidas diversas estruturas analíticas para a organização de indicadores na esfera das nações, principalmente de indicadores ambientais (Quadro A.3).
A rede CRISP108 estruturou os indicadores de sustentabilidade em tipo, escala do impacte,
aspeto de desenvolvimento sustentável e categoria de construção.
Uma segunda iniciativa de desenvolvimento e estruturação de indicadores de sustentabilidade para o setor de construção que merece destaque foi conduzida pela Construction Industry Research and Information Association – CIRIA (2001), que realizou uma ampla consulta ao setor de
construção no Reino Unido109. A partir da discussão de quatro elementos do desenvolvimento sustentável emergiram dez temas-chave para a construção sustentável (Quadro A.4).
106
Idem
Construction Industry Research and Information Association
108
Construction Related Sustainability Indicators
109
Apesar de esses temas terem sido propostos para o Reino Unido, é instrutivo considerar a forma de organização dos indicadores propostos pela CIRIA.
107
99
o A.1 – Iniciattivas para o desenvolvim
mento de indicadores de sustentabilid
s
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nados ao
Quadro
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ução
Fonte
e: (da Silva, 2007).
2
E
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2007).
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de (particularrmente indicaadores socia
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o (COLE,
ODD; JOHN,, 2001)110. Apesar de os edifícios serrem bens de longa vida úútil, se comp
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mente medida em geCOLE, 2002
2)111.
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safios a sereem enfrentad
dos, mas
110
111
Citados por (da Silva,
S
2007).
Idem.
100
seguramente, mais simples do que definir precisamente o estado sustentável, é obter dados para
gerar indicadores de desempenho em relação a metas de sustentabilidade, ainda que persistam as
dificuldades de acesso a dados corretos e contínuos, necessários à formulação e manutenção dos
indicadores. A discussão sobre indicadores de sustentabilidade de edifícios foi intensificada no fim da
década de 90. Em 1999, a Universidade de Michigan realizou um workshop para discussão de indicadores de sustentabilidade de edifícios (REPPE, 1999a)112, obstáculos para a sua implementação
(REPPE, 1999b)113 e estratégias (REPPE, 1999c)114. Em 2001, foi constituído um Grupo de Trabalho
no Green Building Challenge (GBC) com o objetivo de desenvolver uma lista preliminar de indicadores de sustentabilidade, entendidos como medidas absolutas destinadas a fundamentar a comparação internacional de edifícios (da Silva, 2007).
Na reunião do GBC em Madrid (Março de 2003), houve uma mudança importante de abordagem, e foram iniciados estudos para a consideração dos efeitos económicos e sociais relacionados à
construção e operação dos edifícios […] (da Silva, 2007).
Um avanço paralelo e bastante promissor nessa mesma direção é o trabalho do
ISO/TC59/SC17 na preparação de um conjunto de normas sobre sustentabilidade de edifícios e ativos construídos34, que inclui um texto específico sobre princípios para indicação de sustentabilidade
de um edifício ou grupo de edifícios (ISO AWI 15392) (ISO, 2005a)115. Com o uso dessa norma, pretende-se que as avaliações de sustentabilidade de edifícios sejam feitas segundo uma estrutura comum e uma coleção principal de indicadores, definidos na ISO AWI 21932 (2002c)116 e na ISO TS
21929 (ISO, 2005b)117.
A influência económica do edifício é expressa com base em fluxos monetários gerados durante o seu ciclo de vida, como investimentos (em terreno, projetos, manufatura de produtos, construção...); custos operacionais (consumo de energia e de água, gestão de resíduos...); custos com manutenção e reparo; e desconstrução e destino de resíduos de demolição. Na ISO AWI 21932 (ISO
TC59/SC3, 2002c)118, os indicadores económicos relacionam-se com os fluxos monetários durante o
ciclo de vida do edifício, basicamente custo ou retorno para proprietários, ocupantes e usuários. Uma
abordagem sustentável enfatiza o custo no longo prazo (análise de custos ao longo do ciclo de vida)
em vez de lucratividade no curto prazo (da Silva, 2007).
Os indicadores ambientais referenciam-se basicamente às categorias de impactos listadas na
ISO 14.042 (ISO, 2000)119: uso de recursos (solo, água, energia e matérias primas), potencial de
aquecimento global, acidificação, eutrofização, formação de foto-oxidantes, danos à camada de ozono, ecotoxicidade, contaminação do solo, saúde e biodiversidade. Esses indicadores foram, por sua
112
Citado por (da Silva, 2007)
Idem
114
Idem
115
Idem
116
Idem
117
Idem
118
Idem
119
Ibidem
113
101
vez, relacionados na versão de 2003 da ISO CD 21931 (ISO, 2003b)120, que aponta uma lista mínima
de itens a serem contemplados no desenvolvimento de métodos de avaliação ambiental de edifícios.
Os indicadores sociais são tratados na ISO AWI 21932 (ISO, 2002c)121 em termos de saúde e
produtividade (riscos à saúde e clima interno); segurança do usuário, igualdade (acessibilidade) e
herança cultural (qualidade arquitetónica; flexibilidade; vida útil do edifício e adequabilidade à envolvente). Muitos desses aspetos sociais são usualmente tratados no nível da comunidade. A norma
tentará relacioná-los ao nível dos edifícios e grupos de edifícios (da Silva, 2007).
Como os indicadores são necessários para a tomada de decisão de diversos agentes, o ponto de partida para seu desenvolvimento é a identificação dos usuários principais e suas expectativas
e necessidades de informação. O uso pretendido para um sistema de avaliação pode variar conforme
a etapa do ciclo de vida em que se pretende aplicá-lo (Quadro A.2). Consequentemente, os indicadores utilizados para caracterizar o desempenho do edifício em cada situação de aplicação também
deverão ajustar-se à finalidade proposta. A ISO TS 21931 (ISO, 2005c)122 prevê diferentes casos de
aplicação de métodos de avaliação ambiental de edifícios. A Figura A.4 mostra os diferentes pontos
ao longo do ciclo de vida em que uma avaliação (de sustentabilidade) ambiental pode ser feita, através dos diferentes métodos e ferramentas existentes. As linhas tracejadas indicam as modificações
parciais quanto ao modo e à extensão da abrangência das diferentes etapas do ciclo de vida permitida por alguns desses métodos. As setas e círculos indicam o caráter ou natureza dos dados utilizados em cada avaliação, isto é, se ela é baseada em análise de dados anteriores (avaliação retrospetiva), dados atuais (avaliação pontual, do tipo snap-shot) ou em um prognóstico bem fundamentado
(avaliação antecipatória).
No que aos desafios metodológicos e necessidades de pesquisa diz respeito, o uso de indicadores prevê três etapas principais: (1) Escolha dos indicadores relevantes, que deve refletir as necessidades e preocupações das partes interessadas (agenda do setor) e a representação adequada
do objeto avaliado. Essa seleção depende de limites de decisão, do objeto e contexto de construção,
e da disponibilidade prática de informação; (2) Pesquisa dos métodos e informações adequados para
avaliar os valores dos indicadores; (3) Coleta de informações e uso de métodos relevantes para atribuir valores aos indicadores selecionados. Mais importante que os números atribuídos aos indicadores é ter o controlo preciso sobre o que o indicador efetivamente descreve e sobre as circunstâncias
em que valores foram obtidos ou à ele atribuídos. É esse controle que confere rastreabilidade e replicabilidade e que permite o ajuste ou refinamento nos valores segundo as alterações de cenário e dos
dados disponíveis ao longo do tempo.
120
Ibidem
Citado por (da Silva, 2007)
122
Idem
121
102
Quad
dro A.2 - Usuários potencciais e aplicações de méttodos de avaaliação
(adapta
ado de ISSO,, 2005 b)
2
(Fontte: da Silva, 2007).
103
ão entre as principais
p
inicciativas internacionais de
e desenvolvim
mento de ind
dicadores
Quadro A.3 – Seleçã
am
mbientais e de
d desenvolvvimento suste
entável (esfe
era das naçõões)
Fon
nte: (Silva, 20
007).
104
Q
Quadro A.4 – Temas-cha
ave para a co
onstrução su
ustentável no
o Reino Uniddo (CIRIA, 20
001)
Fon
nte: (Silva, 20
007).
105
Figura A.4 – Re
elação entre os cas de ap
plicação de avaliação
a
am
mbiental prev
vistos na
ISO TS
S 21931 (ISO
O, 2005c) e o ciclo de vid
da de empreeendimentos
(Fonte: Silva, 2007))
A
A.3.1. Méttodos de avaliação
a
ambiental de edifíc
cios
Quadro A..5 – Estrutura
a de itens a a
avaliar propo
osta pela ISS
SO CD 219331, versão 20
003
(ISS
SO, 2003b); (Fonte: Silva
a, 2007)
106
Figura A
A.5 - Escalass de ação da
as principais iniciativas de
e organizaçã
ão de indicaddores ambien
ntais, de
desenv
volvimento su
ustentável e de sustentabilidade
A
A.4.
Ciclo de vida
a da const rução
Quadrro A.6A.4– Fases do ciclo
o de vida e rrelevância do
os instrumentos da ACV (Centre for Design,
D
2001)
Fonte
e: (Pinheiro, 2006)
Fases
do CV
Ferram
menta
1
2
3
4
5
6
1
2
3
4a
4b
5
Biefing
com o
cliente
onceção
Co
Cons
strução
Opera
ração
Renova
ação
Fim
de
vida
sim
sim
sim
sim
sim
sim
mentas de ACV
V detalhadas –
Ferram
análise de materiais e produtos
mentais de design ACV – agre-Ferram
gação
o de eco-pontos
Ferram
mentas ACV ba
aseadas em CAD
D
emas de avaliaçção e classificaç
ção
Esque
de ediifícios
Listas de verificação e linhas orientadoras
Input / Output
sim
sim
sim
m
sim
sim
m
sim
sim
sim
sim
sim
107
Figura A.6 - Impactes Ambientais no
o ciclo de atividades da construção
c
(C
CICA, 2002))
(Fontte: Pinheiro, 2006)
108
A
A.5.
Pon
nderação das
d 22 verrtentes (S
Sistema Lid
derA)
Figura A.7 – Ponderação
P
(em percenttagem) para as 22 áreas do sistema LLiderA (V2.0
00)
e: www.liderra.info
Fonte
109
A.6.
Fas
ses do empreendime
ento e apllicação da
a abordageem ao Lid
derA
Figura A.8 - Impactes Ambientais
A
no
o ciclo de atividades da construção
c
(C
CICA, 2002))
e: www.liderra.info)
(Fonte
110
A.7.
Planta de localização do Centro Comercial Nova Vida
Figura A.9 – Planta esquemática de parte da Urbanização do Nova Vida
(Fonte : http://www.atriumnovavida.co.ao/)
111
A.8.
Vista aérea de Luanda Sul
Figura A.10 – Delimitação do projeto Nova Vida
(Fonte: http://wikimapia.org)
112
A.8.1. Pllanta do piso-ttipo dos edifíc
cios.
11
13
A.8.2. Evolução de Luanda Sul (2001 a 2011)
114
A
A.9.
Vistta aérea da implant ação da moradia
m
e delimitaçãão do terrreno.
Zona de plantio
Moradia
Estacionamento viatturas
Tanque de águ
ua
A
A.9.1. Inte
erior do lote (estudo
o de caso – moradia
a)
115