Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas Departamento de Geografia Trabalho de Graduação Individual Marcelo Nunes Diniz 1972 2008 Discutindo a periferia: produção do espaço, centralidade, e vida na periferia. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Mendes São Paulo – Julho/2012 Sumário Introdução ......................................................................................................... 3 1. A Estruturação da Metrópole Paulistana ................................................. 7 A formação da Região Metropolitana de São Paulo ......................................... 7 A estruturação de Osasco ................................................................................ 17 Nossa área de estudo ....................................................................................... 18 2. As Centralidades na Região Metropolitana de São Paulo ..................... 31 Osasco: da centralidade da indústria à centralidade dos serviços ................... 40 A Mobilidade Pendular e Osasco ................................................................... 43 3. A Periferia e Seus Moradores ................................................................ 49 Discutindo o conceito de Periferia .................................................................. 49 A Visão dos Moradores: Análise das Entrevistas ........................................... 53 4. Considerações Finais ............................................................................ 64 5. Bibliografia ............................................................................................. 66 6. Anexo: Questionário Aplicado ............................................................... 69 2 Introdução Este trabalho nasce da nossa intenção de relacionar o conhecimento acadêmico adquirido em mais de cinco anos de graduação com a nossa experiência de vida como morador da periferia paulistana e, desta forma, buscamos levantar a gênese e estruturação de parte desta periferia, bem como trazer os novos processos que aí se desenvolvem, e, sobretudo, empreender um esforço de levantar a opinião dos moradores desta área para dentro desta discussão. Nesse sentido delimitamos uma área de estudo que se constitui nos bairros Jd. Baronesa, Jd. Bonança, Industrial Anhanguera, Paiva Ramos, Portal D'Oeste, Santa Fé e Três Montanhas situados no extremo norte do município de Osasco e que fazem divisa com os municípios de Barueri e São Paulo. Esta área foi escolhida por dois motivos: o Fizemos esta escolha primeiro por mantermos uma relação de proximidade com esta região construída por morarmos nela por mais de 15 anos, e o segundo, por nossa observação de que esta área ainda passa por um processo de expansão e que entendemos que possa ser uma característica vivenciada por outras áreas da metrópole paulistana. Para alcançarmos nossos objetivos partimos do pressuposto de que os processos que se espacializam atualmente na metrópole paulistana representam um movimento que tende a superar a primazia da indústria como principal indutor da urbanização. Contudo, para entendermos esse momento da metrópole paulistana com suas constantes transformações socioespaciais, é preciso resgatar um período anterior, no qual seu crescimento esteve diretamente relacionado ao processo de expansão fabril. Para LEFÈBVRE (2008) a urbanização e o urbano contêm o objetivo da industrialização, dito de outro modo, a produção industrial e seu crescimento forneceriam condições à urbanização, permitindo o desenvolvimento da “sociedade urbana”. Apesar disso, a implantação da indústria não estaria, necessariamente, 3 vinculada à cidade, estando, acima de tudo, relacionada à proximidade dos capitais e dos capitalistas, além de outros fatores, para o autor Sabe-se que inicialmente a indústria se implanta – como se diz – próxima às fontes de energia (carvão, água), das matérias-primas (metais, têxteis), das reservas de mão-de-obra. Se ela se aproxima das cidades, é para aproximar-se dos capitais e dos capitalistas, dos mercados e de uma abundante mão-de-obra, mantida a preço baixo. Logo, ela pode se implantar em qualquer lugar, mas cedo ou tarde alcança as cidades preexistentes, ou constitui cidades novas, deixandoas, em seguida, se para a empresa industrial há algum interesse nesse afastamento. (LEFÈBVRE,0 2008: 15) O processo de estruturação da metrópole de São Paulo, a exemplo do que aponta a teoria, possuiu, de fato, uma estreita relação com a industrialização, sendo esta, um elemento central para a estruturação dos bairros paulistanos, sobretudo, do final do século XIX ao início do século XX. Neste período, a atividade industrial era articulada com a estrutura urbana, em outas palavras, a cidade era estruturada de forma a possibilitar que a atividade industrial se relacionasse com outros setores da economia não apenas nas relações intrínsecas à cadeia de produção e comercialização, mas também espacialmente. A disposição física da cidade procurava atender à necessidade dos fluxos, ou seja, a indústria se localizava em espaços estratégicos que se articulavam com os dos demais setores, o que facilitava o escoamento da produção, bem como o acesso dos trabalhadores a esses locais. Dessa forma, para se compreender a relação entre a dinâmica industrial e produção do espaço urbano é necessário considerar também diferentes momentos tanto da industrialização quanto da urbanização. Ora, se considerarmos que a industrialização foi um elemento indutor para a urbanização de muitas metrópoles como a de São Paulo, por outro percebemos que a relativa perda da importância da atividade industrial em determinados bairros provoca profundas transformações socioespaciais. Na tentativa de encontrar elementos concretos do processo que destacamos, buscamos articular a bibliografia escolhida com dados primários e secundários que 4 quantificam os elementos levantados e trazem informações específicas de nossa área de estudo. Pensando numa forma de estruturar as diferentes dimensões que cercam o processo da urbanização e, no nosso caso, da formação da metrópole paulistana englobando a sua periferia, buscamos dividir nosso trabalho em três capítulos, cada um representando um aspecto do processo da urbanização da metrópole paulistana, a saber: A Estruturação da Metrópole Paulistana; As Centralidades na Região Metropolitana de São Paulo; e A Periferia e Seus Moradores, aqui ressaltamos que o entendimento do processo de formação e expansão da periferia deve considerar que os três aspectos são parte do mesmo processo e que, portanto, não devem ser analisados de forma separada. Dentro de cada capítulo buscamos iniciar cada discussão de uma perspectiva mais genérica, ou melhor, de um escala mais abrangente, até chegarmos à discussão de nossa área de estudo propriamente dita, escolhemos este modelo por entendermos que não se pode analisar os aspectos locais sem entender as lógicas que os regem. Além disso, destacamos que os dados levantados, primários ou secundários, serão encontrados na parte final de cada capítulo, fizemos isso tentando demonstrar que estes por si só não são explicativos, porém servem para evidenciar, com dados atualizados, ou mesmo novas informações, o que o levantamento bibliográfico discute, demonstrando que o tema embora bastante discutido não está esgotado. Desta forma apresentamos no primeiro capítulo a estruturação da metrópole paulistana, bem como do município de Osasco, sendo que os dados empíricos são apresentados por meio de um levantamento elaborado a partir de fotos aéreas e imagens de satélites, que busca demonstrar a evolução da estruturação da nossa área de estudo. Também apresentaremos uma análise de aspectos demográficos da área de estudo tendo 5 como base os dados obtidos nos censos 2000 e 2010, elaborados pelo IBGE, visamos assim, mostrar a dinâmica atual desta parcela da metrópole. . No capítulo 2 apresentamos uma discussão a cerca da ideia de centralidade, nas diferentes escalas de análise, que busca identificar as alterações que ocorreram na relação entre o centro e a periferia, nos diferentes períodos da metrópole. O trabalho empírico neste caso é apresentado por meio de uma análise da centralidade do município de Osasco, esta feita com base nos dados oriundos da pesquisa Origem e Destino1 do METRÔ. Já no último capítulo trazemos uma discussão a cerca do conceito de periferia desde sua origem até a sua atual interpretação, concluindo-se com uma pesquisa realizada por nós junto aos moradores, por meio da aplicação de questionários, e que teve como objetivo trazer a visão destes sobre esta área da metrópole. 1 “A Pesquisa Origem e Destino, ou simplesmente Pesquisa O/D, é realizada desde 1967 na Região Metropolitana de São Paulo – RMSP, com periodicidade de dez anos, e tem por objetivo o levantamento de informações atualizadas sobre as viagens realizadas pela população da metrópole em dia útil típico” (METRÔ, 2007). Para executar esta tarefa é feita uma divisão da RMSP em zonas e respeitando os limites municipais. Em 1997 foram 389 zonas e em 2007 foram 460. A coleta das informações é feita por meio de amostras coletadas diretamente em domicílios sorteados respeitando uma classificação de renda obtida por meio da faixa de consumo de energia elétrica. 6 1. A Estruturação da Metrópole Paulistana A formação da Região Metropolitana de São Paulo O mundo assistiu a partir das primeiras décadas do século XX o fenômeno da urbanização emergir de forma contundente nos países da periferia do sistema mundial. e que ganhou força depois do fim da segunda Guerra perdurando por toda a segunda metade do século XX. Nesse período enquanto os países centrais passavam por um período de crescimento urbano lento, apesar de possuírem um maior grau de urbanização, os países periféricos passaram, em um curto período, a possuir grandes cidades, “de fato de longe as grandes aglomerações urbanas no fim da década de 1980 eram encontradas no Terceiro Mundo: Cairo, Cidade do México, São Paulo e Xangai, cujas populações se contavam na casa das dezenas de milhões.” (HOBSBAWM, 1994). No Brasil vimos surgir neste período um adensamento, gradativo, da população nas cidades bem como a ampliação destas, como destaca Milton Santos: A partir dos anos 1970, o processo de urbanização alcança novo patamar, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto do ponto de vista qualitativo. Desde a revolução urbana brasileira, consecutiva à revolução demográfica dos anos 1950, tivemos, primeiro, uma urbanização aglomerada, com o aumento do número – e da população respectiva – dos núcleos com mais de 20 mil habitantes e, em seguida, uma urbanização concentrada, com a multiplicação de cidades de tamanho intermédio, para alcançarmos, depois, o estágio da metropolização, com o aumento considerável do número de cidades milionárias e de grandes cidades médias (em torno de meio milhão de habitantes) (SANTOS, 2008: 77) A metrópole de São Paulo surge e se consolida nesse contexto. No final do século XIX e início do XX a capital paulista passa por um processo crescimento industrial, fruto das possibilidades levantadas pela economia cafeeira, que tem como consequência, ou seria premissa, um grande crescimento demográfico neste período. Na década de 1930 com a chegada de Vargas ao governo federal e a introdução de uma política voltada para a industrialização esse processo passa a ser intensificado, o que 7 gerou consequências para a cidade nas décadas seguintes. O que se verificou como resultante deste processo foram o surgimento e a consolidação da metrópole paulistana. Para analisar a constituição e expansão da metrópole paulistana utilizaremos como base o trabalho de LANGENBUCH (1971), que nos mostra as fases iniciais e de pico de expansão da metrópole industrial, e os trabalhos de SANTOS (1994) e CARLOS (1994), onde vemos uma mudança no padrão de expansão, bem como, da disposição da indústria no interior da metrópole. LANGENBUCH (1971) periodiza a estruturação da metrópole paulistana da seguinte forma: de 1875 a 1915 como uma fase Pré-Metropolitana; de 1915 a 1940 como o Início da Metropolização; e a partir de 1940 como a fase da Grande Metropolização, a esta periodização acrescentamos que o último período, apresentado por Langenbuch, perdura até meados da década de 1970. Como toda periodização se faz como forma de sintetização de características comuns vivenciadas por determinado fenômeno num determinado intervalo temporal, não seria diferente com a evolução metrópole de São Paulo, sendo assim destacaremos as características principais levantadas por LANGENBUCH (idem), sobre estas fases do desenvolvimento desta área, cabendo aqui ressaltar que não nos aprofundaremos nos assuntos por ele apontados por entender que estes servem apenas como referência para este trabalho. Isto posto, podemos destacar na fase de Pré-Metropolização, a importância das ferrovias, introduzidas pela economia cafeeira, em criar “pontos de convergência” ao longo de seus percursos os chamados “povoados-estação”, que num primeiro momento serviam como atrativo para formação de pequenos comércios e povoados, como mostra LANGENBUCH (1971:104) “as estações ferroviárias que foram sendo estabelecidas nos arredores paulistanos se constituíram, assim, em pontos de convergência de 8 produtos e pessoas das áreas circunvizinhas. Isto conferia ao local das estações a oportunidade de assumir uma modesta função regional”. Com o decorrer do tempo, diversos desses povoados-estação formariam importantes núcleos da futura metrópole, com diversas funções destacando-se, sobretudo, a atividade industrial, mas possuindo também atividades militares e hospitalares, dentre outras. O período seguinte, o Início da Metropolização, caracteriza-se por ser aquele em que de fato começa a surgir a metrópole de São Paulo, coincide com o momento em que a industrialização passa por um processo de crescimento, decorrente, num primeiro momento, pela substituição de importações, reflexo da I Guerra Mundial, e, na década final do dito período, pela política de industrialização implantada pelo Estado brasileiro. Nesse sentido a evolução da metrópole paulistana não pode ser separada da evolução da indústria ali instalada. Como no período anterior, a ferrovia continuou sendo o fator de orientação da expansão urbana e consequentemente da metropolização de São Paulo, embora surjam novos loteamentos nas áreas intraurbanas, e nestes haja um grande crescimento demográfico, é no entorno das estações férreas que se constituirão os subúrbios residenciais e industriais, como descreve LANGENBUCH: Nos “subúrbios-estação” (sucessores dos “povoados-estação”) tende a se esboçar um zoneamento funcional muito simples: junto à estação concentram-se o comércio e a prestação de serviços, na maior parte dos casos apresentando um desenvolvimento modesto e limitado. Em torno estende-se a área residencial. (...) Os subúrbios industrializados, obviamente, apresentam mais uma área funcional: a industrial, em geral, sito junto à ferrovia, estendendo-se ao longo da mesma (de forma descontínua) no caso dos subúrbios que conheceram uma industrialização diversificada (São Caetano, Utinga, Santo André, até certo ponto Osasco). (LANGENBUCH, 1971: 151) Cabe aqui salientar que esta expansão da urbanização não se deu de forma contínua, havendo, portanto, diversos “vazios”, entre as áreas já urbanizadas e entre estas e os novos subúrbios, face de um processo de especulação imobiliária, que desde o princípio caracterizou a Região Metropolitana de São Paulo. 9 No período em que há a maior expansão da metrópole paulistana, A Grande Metropolização Recente, vemos que esta ocorre por conta da intensificação dos processos vivenciados na fase anterior, bem como, pela introdução de alguns novos elementos. Com o crescimento da indústria, reflexo tanto das políticas internas quanto do contexto internacional, destacados anteriormente, vemos ocorrer um crescimento das áreas propriamente urbanas na metrópole, baseado, segundo LANGENBUCH, na ocupação dos espaços livres no interior de bairros já urbanizados, no crescimento vertical de diversos desses bairros, bem como na expansão da área edificada sobre os núcleos suburbanos, e também na continuidade de geração de novos “subúrbiosestação”. Destaca-se neste período o crescimento, em quantidade e importância, da circulação rodoviária, sobretudo através dos ônibus, que no período anterior apresentava pouca relevância, mas que apresenta-se como fator multiplicador neste momento de expansão, pois possibilitava a expansão dos “subúrbios-estação” para distâncias mais longas, bem como, possibilitava o surgimento de novos núcleos, os “subúrbiosloteamentos” que “não se desenvolvem em função de nenhum polo local de atração. Provém de loteamentos cujo lançamento e cuja efetiva ocupação dependem de fatores não geográficos (especulação imobiliária, ‘agressividade de vendas’, facilidades oferecidas aos compradores)...” (LANGENBUCH, 1971: 200), e que se ampliariam gradativamente mesmo estes não sendo servidos diretamente pelas linhas de ônibus, porém dependendo destas para surgir. Ainda no campo do crescimento impulsionado pela construção de estradas podemos destacar o surgimento de dois polos de industrialização ligados ao surgimento das rodovias Anchieta e Dutra, a primeira potencializando o desenvolvimento da indústria em São Bernardo do Campo, que já conhecia algumas unidades fabris por 10 conta da proximidade com antigos os polos industriais de São Caetano e Santo André, a segunda autoestrada é de fato o catalisador do surgimento de um polo industrial na parte sul de Guarulhos. Desta forma podemos observar um papel duplo da circulação rodoviária: de um lado possibilitava a expansão das áreas residenciais, geralmente ligadas a um processo de especulação, sobretudo por meio do “subúrbios-loteamentos”; de outro possibilitava a ligação extra regional, por meio das rodovias, que facilitava a circulação dos produtos gerados e consumidos na região que se consolidava. Podemos destacar como características principais que fundaram a Região Metropolitana de São Paulo, até a década de 70, o seu início ligado às estruturas herdadas da economia cafeeira, sobretudo o poder polarização das estações ferroviárias, em seu desenvolvimento destaca-se a importância da indústria, agora tida como modelo de desenvolvimento nacional, e já próximo ao fim deste período, chama atenção a circulação rodoviária como fator a potencializar a expansão das áreas já urbanizadas. No trabalho de Santos (1994) vemos que após esse período a já constituída Região Metropolitana de São Paulo passa por algumas mudanças, tanto de ritmo de crescimento quanto nas funções exercidas. Neste momento a metrópole já não possui mais grandes vazios entre seu núcleo e os subúrbios, mostrando-se uma área bastante compacta, e que passa a ter um crescimento menor que em outras áreas, que pode ser observado pela redução da taxa de crescimento de sua população, passando esta taxa a ser menor do que a encontrada no estado de São Paulo e no Brasil, o que mostra uma inversão em relação a tendência anterior onde RMSP aparecia como área de maior crescimento, como vemos na Tabela 1-1. 11 Tabela 1-1 Evolução da população de 1872 a 2010 Município de São Paulo Região Metropolitana de SP Estado de São Paulo Brasil Anos Taxa de População Crescimento 1872 31.385 1890 64.934 1900 239.820 1920 579.033 Taxa de (1) População Crescimento - 4,1 1.568.045 2.198.096 1960 3.781.446 5,6 1970 5.924.615 8.493.226 1991 9.646.185 2000 10.434.252 2010 11.253.503 3,2 31.588.925 17.878.703 1,9 146.825.475 1,8 37.032.403 1,0 19.683.975 2,5 119.002.706 2,1 1,6 0,8 93.139.037 25.040.712 15.444.941 2,9 3,5 1,9 0,9 3,1 70.119.071 17.771.948 12.588.725 2,3 51.944.397 3,6 4,5 1,2 41.236.315 12.974.699 8.139.730 1,5 2,4 5,6 3,7 1980 2,3 6,1 4,6 2,9 30.635.605 9.134.423 4.739.406 1,9 17.318.556 7.180.316 2.622.786 2,0 3,6 5,3 1,6 169.799.170 1,1 41.262.799 (1) 14.333.915 4.592.188 - 5,2 Crescimento 5,1 - 4,2 População 2,8 2.282.279 - Taxa de (1) 10.112.061 1.384.753 - 4,5 1950 Crescimento - - 1.326.261 População 837.354 14,0 1940 Taxa de (1) 1,2 190.755.799 (1) Taxa de Crescimento Geométrico Anual Fonte: IBGE, Censos Demográficos2 Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Analisando a Tabela 1-1 vemos que durante o período de consolidação da RMSP as taxas de crescimento desta superam não apenas as do estado e do país, mas também a do município de São Paulo, o que demonstra o peso dos subúrbios nesse crescimento, mesmo no período pós 80 a RMSP cresceu mais que a capital, com destaque para as décadas de 80 e 90 onde esta superou o crescimento da capital em mais de 50%. Isso não quer dizer que esse crescimento, mesmo arrefecido, não aumente a área já urbanizada da RMSP, pelo contrário, como não se encontra mais grandes vazios nos 2 Retirado de “http://smdu.prefeitura.sp.gov.br/historico_demografico/tabelas/pop_brasil.php”, acessado em 20/01/2012 12 espaços já ocupados, todo esse crescimento tende a ocorrer nas áreas periféricas da metrópole, como no caso da nossa área de estudo. Esse processo é explicado por Santos por meio do conceito de involução metropolitana, que para o autor, define-se da seguinte forma (SANTOS, 1994:53) Esta seria um resultado da difusão no território daquilo a que chamamos de meio científico–técnico (M.Santos, Metamorfoses do Espaço Habitado, Hucitec, São Paulo, 1987), por sua vez conseqüência da difusão à escala mundial das variáveis que caracterizam o presente período histórico. Desta forma o processo de urbanização estaria passando por um momento onde, cidades do interior, ou de uma hierarquia urbana inferior à das grandes cidades metropolitanas, passaram a ganhar maior importância econômica e social, como podemos ver: Nos dias atuais, as cidades tocadas pelo processo de modernização agrícola ou industrial típico do período técnico-científico conhecem um crescimento econômico considerável, enquanto é nas grandes cidades que acumula a pobreza e atividades econômicas pobres, uma reversão em relação ao período anterior (idem:75) O autor ainda demonstra quais seriam os principais pontos onde poderíamos observar o processo vigente expondo desta forma os três principais indicadores deste processo, que são: 1) O produto interno bruto (PIB) cresce menos nas metrópoles do que no país como um todo e em certas área de sua região de influencia; 2) Nas áreas onde o capitalismo amadurece, há tendência à reversão do leque salarial, com certas ocupações menos bem remuneradas envolvendo um maior percentual de trabalhadores na metrópole que no campo; 3) certos índices de qualidade de vida tendem a ser melhores no Interior do que nas Regiões Metropolitanas. (idem:76) A partir da análise do conceito de involução metropolitana, vemos que a metrópole atravessa um período onde seu protagonismo econômico diminui em comparação com outras áreas do território, ainda que este processo seja gradual. Como 13 consequência desse processo de involução metropolitana, o autor destaca a crescente desigualdade, e precarização da vida nas metrópoles. Como dissemos anteriormente a diminuição da participação relativa da metrópole não significa que esta parou de crescer, embora, como também já dissemos, há algumas diferenças no crescimento vivido neste período em relação aos anteriores. A primeira diferença se dá com relação à nova área de expansão da indústria que segundo CARLOS, a partir de meados da década de 70, passa a ser no entorno da rodovia Raposo Tavares, zona oeste da metrópole, esta seguindo o modelo que já fora visto no entorno de outras rodovias, como destaca a autora A partir da metrópole paulista, a localização industrial dá-se preferencialmente ao longo de rodovias e “marginais”. Depois da Anchieta, Anhanguera e Dutra, na década de 50, Castelo Branco e Imigrantes, nas décadas de 60 e 70; a Raposo Tavares (1970 e 1980) passa a ter um grande afluxo de estabelecimentos industriais, vindo da capital, ou de outros municípios da Grande São Paulo, ou mesmo do estado; ou ainda, novas firmas, que começaram agora sua atividade. (1994: 103) A outra diferença encontrada, muito mais significativa, é com relação à expansão das habitações para áreas periféricas, que nos períodos anteriores, praticamente se restringia à população mais pobre, mas, que nesta nova fase passa a ser também a opção de parte dos mais abastados, por meio dos loteamentos e condomínios de médio e alto padrão, estes surgindo como uma alternativa aos problemas encontrados nas áreas mais centrais, propiciando um verdadeiro contraste nestas áreas, que podemos observar na análise de CARLOS sobre a (re) produção do espaço no município de Cotia Na análise da paisagem cotiana já apontamos para o fato de que sua principal característica é a sua desigualdade, na medida em que a (re)produção do espaço cotidiano dava-se aprofundando o contraste entre as áreas arborizadas dos loteamentos e dos condomínios de alto luxo de um lado, e os loteamentos da classe operária em geral de outro, com aspecto de “amontoado” de casas mal construídas, mal conservadas, pouco arejadas, às vezes, úmidas, e insalubres cujo o conforto é pouco e o tamanho exíguo para o número de ocupantes. (1994:135) 14 É importante destacar que, mesmo com o fenômeno da involução metropolitana, o estado de São Paulo ainda se encontra muito metropolizado, as três regiões metropolitanas do estado ainda representam 58,52% da população estadual (24.145.248 habitantes), de acordo com o censo de 2010, sendo 47,70% para a metrópole paulistana, 6,78% para a região de Campinas e 4,03% para a de Santos, sendo em números absolutos, respectivamente, 19.683.975, 2.797.137, 1.664.136, números praticamente idênticos aos observados em 2000 que somavam 58,58% (21.693.671) do total da população. Pensando no crescimento da área urbanizada podemos observar no Mapa 1-1 que esta atualmente encontra-se bastante concentrada, como destaca Ricardo Ojima em sua tese de doutoramento, onde apresenta um Indicador de Dispersão Urbana como forma de comparação entre as diferentes aglomerações urbanas brasileiras. Este trabalho fora resumido pelo próprio autor como sendo um Investimento teórico e metodológico na busca de evidências que confirmem as proposições teóricas de uma nova etapa do desenvolvimento da sociedade moderna e os desafios para a questão ambiental nos contextos urbanos. O indicador considerou dimensões sociais e espaciais para compor um indicador sintético de dispersão urbana para as aglomerações urbanas brasileiras, sendo elas: Densidade, Fragmentação, Linearidade e Centralidade. (OJIMA, 2007) O resultado obtido para RMSP mostra que esta, apesar de sua grande extensão territorial, encontra-se bastante concentrada, sobretudo, por possuir uma grande densidade populacional, uma área pouco fragmentada, além de ainda ter uma grande centralização na capital paulista. Cabe aqui salientar que embora encontre-se bastante concentrada, a dinâmica atual de crescimento da mancha urbana mostra que este se dá de forma mais difusa, ocorrendo principalmente nos municípios mais periféricos da Região Metropolitana de São Paulo. 15 A estruturação de Osasco Osasco tem seu início de ocupação como um dos diversos povoados-estação que, com o avanço de atividades comerciais e industriais ao longo do início do século XX, torna-se um subúrbio-estação de grande relevância no contexto da formação da Região Metropolitana de São Paulo, sendo inclusive considerado uma das “cidades satélites” da região já na década de 1960 (LANGENBUCH, 1971: 238), sendo assim um polarizador da porção oeste da RMSP, e que se destaca por ser o único município que chega a esta condição por meio da emancipação em relação a capital como vemos em LANGENBUCH Um caso a parte é o de Osasco. Trata-se do único subúrbio integrante do município de São Paulo que chegou a se emancipar. Tal se deu em decorrência de plebiscitos (eivados de irregularidades, segundo denunciavam jornais e os opositores da medida), e de um processo jurídico movido pela Prefeitura de São Paulo, por ela perdido. É um caso raro este, de se desanexar um subúrbio administrativamente subordinado à metrópole, que se contrapõe a praxe universalmente comum, de se procurar anexar os subúrbios administrativamente desvinculados. (LANGENBUCH, 1971: 231) Salvo a sua emancipação, Osasco não foge ao modelo de ocupação da Região Metropolitana de São Paulo, sendo sua ocupação inicial polarizada pela estação ferroviária, como destacado anteriormente, mas que tem uma expansão, sobretudo na sua porção norte, de modelo de subúrbio-loteamento, ou seja, tendo como único atrativo a possibilidade de moradia, apesar de ainda não possuir as estruturas necessárias para uma boa condição de ocupação. Sendo assim vemos que industrialização e suburbanização residencial foram os principais fatores da constituição do município, como destaca CONSTANTINO Já nos anos 60, a indústria osasquense era responsável por 90% da renda bruta do município. A partir deste período, percebemos que a população local cresceu acentuadamente ‘acarretando numa rápida expansão da área ocupada em direção à sua periferia, que de início não oferecia plenas condições de ocupação (COELHO, 1998:112)’ (CONSTATINO, 2009: 93) O crescimento populacional de Osasco pode ser observado por meio da tabela 12, onde vemos o grande salto da população local entre os anos de 1940 e 1980 e a quase estabilização da população na última década. Comparando com as outras unidades administrativas vemos que Osasco, até a década de 1980, tem um crescimento muito superior a estas, e que, a partir daí, vem diminuindo paulatinamente este aumento. Tabela 1-2 Evolução da população de Osasco de 1940 a 2010 Município de Osasco RMSP (1) Estado de São Paulo (1) Brasil (1) Anos Taxa de População Taxa de População Crescimento* 1940 15.128( 1950 43.427 2) 1.568.045 11,12 (2) 5,3 10,35 1960 116.240 2,4 6,1 - 12.974.699 8.139.730 7,27 1980 473.168( 3) 1991 565.543( 3) 2000 651.736( 3) 4,5 1,63 2010 666.621 2,1 1,6 0,23 (3) 1,9 146.825.475 1,8 37.032.403 1,0 19.683.975 2,5 119.002.706 31.588.925 17.878.703 2,9 93.139.037 3,5 1,9 1,59 70.119.071 25.040.712 15.444.941 3,1 3,2 17.771.948 12.588.725 2,3 51.944.397 3,6 5,6 1970 Crescimento* 41.236.315 9.134.423 4.739.406 Taxa de População Crescimento* 7.180.316 2.622.786 (2) Taxa de População Crescimento* 1,6 169.799.170 1,1 41.262.799 1,2 190.755.799 *Taxa de Crescimento Geométrico Anual Fonte: (1)IBGE, Censos Demográficos3; (2)LANGENBUCH (1971:251); (3) SEADEInformação dos Municípios Paulistas Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Nossa área de estudo Para observar e analisar como esse crescimento de Osasco forma a nossa área de estudo utilizamos como método o uso de técnicas de sensoriamento remoto e geoprocessamento, tendo como base, fotografias aéreas, por nós digitalizadas e georreferenciadas, imagens de satélite (retiradas do software Google Earth4), também 3 Retirado de “http://smdu.prefeitura.sp.gov.br/historico_demografico/tabelas/pop_brasil.php”, acessado em 20/11/2011 4 Fonte que vemos como boa base de informação por possuir imagens, de grande qualidade, de diferentes datas e disponibilizadas gratuitamente (que permite visualizar as alterações da paisagem, como no nosso 18 georreferenciadas, e a malha digital dos setores censitários5 do IBGE, e como ferramenta de manipulação e tratamento dos dados utilizamos o software ArcGis 9.3. Destacamos que vimos nestas bases uma boa forma de se analisar áreas de menor abrangência, e com maior rigor de detalhe, pois, em métodos como o utilizado por Ricardo Ojima, que utiliza apenas a malha digital do setores censitários urbanos, como forma de delimitar as áreas urbanas, não é possível observar as alterações internas em setores já declarados como urbanos, a título de exemplo o município de Osasco desde o Censo de 2000 só possui setores censitários urbanos, embora ainda havendo grandes espaços não ocupados diretamente, como observamos em nossa área de estudo. Isto posto podemos observar por meio da Figura 1-1 o surgimento do bairro Jardim Baronesa, que nasce como subúrbio residencial ainda no inicio da década de 1970, e que se mostra como a primeira área de ocupação urbana de nossa área de estudo. caso), principalmente, de áreas urbanas, , tendo como ponto negativo o fato destas imagens não possuírem uma periodicidade regular. 5 A Malha representa os limites de cada setor censitário, menor unidade territorial utilizada no censo, e que permite uma análise intramunicipal. 19 Figura 1-1 área Ocupada no ano de 1972. Fonte: Fotografia aérea de 1972, acervo LASERE-DG-USP. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz. Como podemos observar, na imagem acima, a área de estudo encontrava-se no ano de 1972 praticamente sem a função urbana estruturada, sendo apenas o bairro Jd. Baronesa ocupado, ainda de forma dispersa, perfazendo pouco mais de 75 ha, o que demonstra que, embora o município já possuísse grande relevância, como destacado anteriormente, ainda tinha uma grande área para expansão. Se em 1972, apenas o Jd. Baronesa estava de certa forma consolidado, em 1994, ano de levantamento aerofotogramétrico da região que conseguimos ter acesso, praticamente todos os bairros já se encontravam em fase de ocupação bastante avançada, como vemos na Figura 1-2, cabe aqui ressaltar que a imagem não abarca a porção sul do bairro Jd. Baronesa, mas que não compromete a análise, pois tal região já se encontrava ocupada na fase anterior. 20 Figura 1-2 área Ocupada entre 1972 e 1994 Fonte: Fotografia aérea de 1994, acervo LASERE-DG-USP. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz. Como podemos observar na imagem há um grande aumento, cerca de 430 ha, da área ocupada no período entre as imagens (apresentadas nas Figuras 1-1 e 1-2), o que nos permite dizer que é neste período que de fato a ocupação dessa área se consolida, porém, podemos observar que ainda assim há uma grande área desocupada, localizada, principalmente, nos bairros Jd. Bonança e Paiva Ramos. Ainda na Figura 1-2 destaca-se a formação industrial na porção leste, junto à rodovia Anhanguera, que ocupa boa parte da área de estudo, e que contrasta com os outros bairros, de cunho essencialmente residencial, desfazendo parte da ideia de que toda periferia se mostra desprovida de emprego. . 21 Outro aspecto que demonstra a não homogeneização das áreas periféricas é a constituição do bairro três montanhas, que surge neste mesmo período, porém sendo ocupado, em parte, por habitações de padrão elevado, como mostra RIBEIRO Notamos a existência de bolsões de riqueza ao lado de áreas de pobreza, o que faz a periferia ser heterogênea. Deu-se a formação de condomínios horizontais de alto padrão (do tipo chácaras residenciais), em áreas ditas periféricas, disputando espaço com a população pobre. (RIBEIRO, 2004: 4) Esse “bolsão de riqueza” de que fala Ribeiro, pode ser observado na Figura 1-7, onde vemos como este é “circundado” pela pobreza na formação da comunidade do Jd. Açucará que discutiremos adiante. Nossa próxima imagem é do ano de 2000 e demonstra uma grande diferença da ocupação em relação aos períodos anteriores, tendo grande destaque ocupações irregulares em alguns pontos e que vemos nas Figuras 1-3 e Figura 1-4. Figura 1-3 área Ocupada entre 1994 e 2000 Fonte: Imagem de Satélite do ano de 2000, Google. 22 Figura 1-4 Ocupação irregular em área de topo e vertente de morro. Fonte: Imagem de Satélite do ano de 2000, Google. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz. Vemos na Figura 1-3 que a expansão da área ocupada se dá pela ocupação de alguns vazios tanto nos bairros residenciais quanto no industrial, destacando-se a diferença de ocupação na porção oeste do bairro Jd. Bonança, e que vemos em detalhe na Figura 1-6, e em menor escala no centro do Industrial Anhanguera. Nesta área vemos que há uma grande ocupação irregular, conhecida como Morro do Socó, e que destacase por sua acentuada declividade e pelo tamanho pequeno e irregular das casas, diferenciando-se dos loteamentos populares regulares, onde os lotes, geralmente, são de tamanhos padronizados e que se fizeram presentes na maior parte da ocupação da área de estudo. Tal mudança do padrão de ocupação, que podemos chamar de favelização da 23 periferia6, caracteriza-se por ser ocupações em áreas de terrenos de relevo bastante irregular, como no caso visto, ou em áreas muito próximas a cursos d’água, e que por estes motivos não podem ser loteadas tornando-se alternativas habitacionais para as camadas mais pobres, como vemos em detalhe na Figura 1-6. Figura 1-5 área Ocupada entre 2000 e 2008 Fonte: Imagens de Satélite do anos de 2002, 2005, 2007 e 2008(plano de fundo), Google. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz. 6 Sobre o processo de favelização da periferia FARIA, Teresa C. A (2004) apresenta os pontos essenciais deste, e mostra como este ocorreu no Rio de Janeiro dos anos 80/90, bem como, contrapõe este a outro processo que ela chama de desfavelização. 24 Figura 1-6 Ocupação irregular em área de alta declividade e junto a córrego Fonte: Imagens de Satélite do anos de 2002, 2005, 2007 e 2008(plano de fundo), Google. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz. Podemos observar na Figura 1-6 que há neste último período uma expansão muito mais significativa no bairro Industrial Anhanguera que nos bairros de características residenciais, nestes havendo, principalmente, as ocupações irregulares que destacamos anteriormente. Na Figura 1-6 podemos ver em detalhe um exemplo de como a ocupação desta área se deu, de um lado, por grandes galpões e fábricas que se instalam gerando grandes alterações nos terrenos, sobretudo por meio do processo de terraplanagem com grandes movimentações de terra visando torná-los adequados às suas instalações; por outro lado, diversas famílias constroem suas pequenas casas, todas condicionadas pelo terreno encontrado, muitas vezes encostas ou áreas que sofrem com inundações, que para haver condições mais seguras para as residências, ou que garantam 25 um maior conforto para as famílias (é muito comum encontrarmos nesta área casas com vários lances de escadas), necessitariam das mesmas alterações dos terrenos que são despendidas pelas empresas, porém que são custosas demais pra essas famílias. Ainda tratando das novas ocupações há de se destacar a constituição da localidade conhecida como Jd. Açucará, oficialmente pertencente ao bairro Paiva Ramos, e que fora objeto de estudo de RIBEIRO (2004) que destaca como se deu esta ocupação, lembrando aqui que esta área faz limite com o “bolsão de riqueza” que fora mencionado anteriormente e que vemos na Figura 1-7. Em Osasco, verificou-se o deslocamento da população de favelas de áreas centrais do município para áreas distantes, principalmente em direção ao norte de Osasco. Um exemplo disso é a remoção da população do Jd. Rochdale (bairro central), em 2001, para o Açucará (área florestada ao norte de Osasco, com ruas de terra, sem água/esgoto e energia elétrica). (RIBEIRO, 2004: 3) 26 Figura 1-7 Jd. Açucará contrastando com o “bolsão de riqueza” do Jd. Três Montanhas Fonte: Imagens de Satélite do anos de 2002, 2005, 2007 e 2008 (plano de fundo), Google. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz O crescimento recente da área de estudo também pode ser observado pela comparação dos dados dos Censos de 2000 e 2010 realizados pelo IBGE, e que apresentamos na Tabela 1-3. Tabela 1-3 Evolução dos domicílios e população da área de estudo de 2000 a 2010 Bairro Domicílios em 2000 População em 2000 Domicílios em 2010 População em 2010 Variação Domicílios Variação População Taxa de crescimento Domicílios (1) Taxa de crescimento População (1) Baronesa 3.887 14.089 4.177 13.408 290 -681 0,72 -0,49 Bonança 3.088 11.394 4.132 14.068 1044 2674 2,96 2,13 1.649 6.370 1.642 5.630 -7 -740 -0,04 -1,23 246 959 445 1.597 199 638 6,11 5,23 2.356 8.948 3.245 10.658 889 1.710 3,25 1,76 281 1.056 338 1.007 57 -49 1,86 -0,47 429 1.608 643 1.853 214 245 4,13 1,43 11.936 44.424 14.622 48.221 2.686 3.797 2,05 0,82 Industrial Anhanguera Paiva Ramos Portal D'Oeste Santa Fé Três Montanhas área de estudo 27 Bairro Domicílios em 2000 População em 2000 Domicílios em 2010 População em 2010 Variação Domicílios Variação População Taxa de crescimento Domicílios (1) Taxa de crescimento População (1) Osasco 181.012 651.736 214.592 666.621 33.580 14885,00 1,72 0,23 (1)Taxa de Crescimento Geométrico Anual. Fonte: Censos 2000 e 2010, IBGE. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Analisando a Tabela 1-3 podemos observar que a área de estudo tem um crescimento maior que o ocorrido no município de Osasco, sendo que no aspecto populacional chega a ser cerca de 3,5 vezes maior, embora não represente um crescimento muito alto, se compararmos aos dados do município nas décadas de 60 e 70, já em relação aos domicílios tanto a área de estudo quanto o município valores muito parecidos, mas que se analisados em conjunto com a taxa de crescimento da população nos dão resultados diferentes, pois no caso da área de estudo a taxa de aumento de domicílios se apresenta cerca de 2,5 vezes maior que a de população, enquanto que no município essa relação chega a cerca de 7,5 vezes maior, ou seja, essa variação no município é aproximadamente 3 vezes maior que a ocorrida na área de estudo. Esses dados nos permite especular que há em outras áreas do município uma expansão dos investimentos imobiliários que não é encontrada na área de estudo, seja ela especulativa ou não. Contudo podemos observar que mesmo na área de estudo há diferenças entre os bairros estudados, principalmente, no comportamento populacional, enquanto os bairros Jd. Bonança, Portal D’Oeste e Paiva Ramos, situados a oeste na área de estudo, têm uma variação positiva considerável, os dois primeiros em termos absolutos enquanto o último em termos relativos, os bairros Jd. Baronesa e Industrial Anhanguera apresentam queda significativa em sua população, sobretudo em termos absolutos. Sobre estes dados podemos destacar a tendência de que os bairros de ocupação mais tardia tenham um crescimento maior, e que neste caso se mostra verdadeiro. 28 Há também aspectos vivenciados por todos os bairros, como a variação no número de domicílios que se mostra sempre positiva e superior (em maior ou menor grau) à taxa da população. Isso demonstra dois aspectos, o primeiro, que já vimos anteriormente, é o aumento da área ocupada nesses bairros, aqui destacamos que os dados encontrados no censo e os apresentados no levantamento por imagens apresentam grande convergência, pois os bairros que apresentaram maior expansão no número de domicílios também apresentam variações significativas na sua área de ocupação, e o segundo mostra uma tendência da população brasileira a diminuição do número de pessoas por família /residência. Esse levantamento feito por nós sobre a área de estudo pode ser melhor visualizado por meio da evolução da área ocupada, apresentada a seguir no Mapa 1-2. 29 2. As Centralidades na Região Metropolitana de São Paulo As configurações espaciais, que expomos na parte anterior, bem como, a evolução temporal destas, tanto da Região Metropolitana de São Paulo quanto do município de Osasco, estão relacionadas com um movimento de transformações nas relações econômico-produtivas internacionais ocorridas durante o século XX, estas que por sua vez geraram alterações na organização da produção interna nos países, e que se materializaram na forma da produção e reprodução do espaço geográfico. Deste modo podemos destacar pelo menos dois momentos da economia mundial que tiveram consequências diretas na atual conformação urbana da Região Metropolitana de São Paulo. Num primeiro momento podemos falar da expansão da economia mundial, capitalista, pós Segunda Guerra, baseada no modelo fordista7 e que fez com que alguns países periféricos, como o Brasil abrissem seus mercados ao capital estrangeiro, principalmente, norte americano, e assim passassem por um processo de crescimento da indústria, sobretudo, por meio da introdução de grandes empresas multinacionais, com destaque para as automobilísticas, como vemos em HARVEY (1989) A América agia como banqueiro do mundo em troca de uma abertura dos mercados de capital e de mercadorias ao poder das grandes corporações. Sob essa proteção, o fordismo se disseminou desigualmente, à medida que cada Estado procurava seu próprio modo de administração das relações de trabalho, da politica monetária e fiscal, das estratégias de bem-estar e de investimento público, limitados internamente apenas pela situação das relações de classe e, externamente, somente pela sua posição hierárquica na economia mundial e pela taxa de cambio fixada com base no dólar. (HARVEY, 1989:132) 7 O padrão fordista se apoiava num consumo em massa, garantido nos países de industrialização originária, de um lado pelos salários altos mantidos e por outro, pela intervenção direta do Estado na economia, cujas ações se davam no controle da inflação, manutenção de juros baixos e criação de demanda para a produção industrial. O que vemos nesse período é que para haver uma reprodução ampliada do capital satisfatória à manutenção do sistema, foi necessário dispersar parte do capital acumulado no centro do sistema para a periferia e, para isso, foram feitos investimentos na produção industrial em determinadas grandes cidades que se tornariam metrópoles na periferia do sistema capitalista, sobretudo naqueles países em que havia um mercado promissor, mas permanecendo sempre as atividades mais modernas e lucrativas nos países centrais. Esse modelo, onde o investimento no capital fixo era o ponto central, perdurou como forma hegemônica no âmbito internacional até meados da década de 70, no Brasil prolonga-se por mais algum tempo, e teve sua variante espacial exposta na forma que destacava as principais áreas, em geral, áreas centrais e/ou de fácil acesso, para a implantação dos parques industriais. Portanto, é esse movimento que rege a estruturação da Região Metropolitana de São Paulo que, como vimos anteriormente, teve seu nascimento, expansão e consolidação sob a égide desse modelo e que a tornou bastante concentrada, tanto em produção como demograficamente. Contudo, este modelo entra em crise em meados da década de 70, pois, “as grandes massas de capital investidas como capital fixo não acompanhavam mais a valorização do capital em um sistema no qual as mudanças na produção tornavam-se cada vez mais rápidas, para poder responder com rapidez e corrigir o processo de desvalorização do capital então verificado nesta época” (CONSTATINO, 2009: 43) desta forma vemos surgir um novo processo, que determinará o segundo movimento que induziu alterações na forma e no modelo da produção do espaço, e que HARVEY (1989) chama de Processo de Acumulação Flexível que se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo. Caracteriza-se pelo 32 surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional (HARVEY, 1989:140). Essa mudança na estrutura do sistema tem reflexo nas relações entre os centros econômicos e suas periferias, nos mais diversos níveis, desde o global, no que tange as relações entre as nações, passando pelo aspecto regional, relacionado à dinâmica interna dos países, e chegando ao local, que se evidencia nas dinâmicas internas das metrópoles e principais cidades. Pensando nas mudanças de ordem global podemos destacar que no momento da introdução da acumulação flexível passa a haver uma maior interação econômica entre os diversos países do mundo, em decorrência da desregulamentação dos mercados financeiros, e que influenciará a transformação espacial ocorrida no período, como destaca CONSTATINO são as implicações da globalização sobre o sistema financeiro mundial que nos auxiliam a compreender as manifestações espaciais relacionadas às transformações econômicas. A análise das ocorrências referentes ao setor financeiro mundial tem deixado em evidência a importância da desregulamentação do mercado como uma condição sine qua non para a circulação do capital. (CONSTATINO, 2009: 93) Em decorrência da maior fluidez do capital, este passando a ser investido em qualquer parte do mundo, desde que sendo rentável, vemos intensificar o processo de hibridação da cadeia produtiva de diversos países, acabando, em parte, com o modelo clássico da relação entre o centro e a periferia mundial, como vemos em entrevista de Maria Conceição TAVARES Não tem centro e periferia como antes. Tem países de desenvolvimento intermediário, entre os quais estamos. [...] A discussão agricultura versus indústria é datada, do pós-Segunda Guerra. Ninguém vai fazer uma opção por um ou outro. Precisa de agricultura familiar, de agrobusiness, da indústria de transformação. (TAVARES, 2010) 33 Já nos aspectos regionais podemos destacar uma nova configuração do território nacional que, a partir da década de 1970, passa por uma transformação na sua divisão territorial do trabalho8, tendo como objetivo uma desconcentração do parque industrial brasileiro, que em 1970 chega a ter 80,8% concentrado na região Sudeste (58,1% em São Paulo). Desta forma foi necessário que o Estado, o mesmo que influenciara a concentração, tomasse medidas na tentativa de revertê-la, como retrata MOREIRA (2004). Visando a reversão desse quadro, os sucessivos governos militares ascendidos ao poder em 1964 mobilizam um conjunto de estratégias redistributivas da indústria através dos PNDs (Plano Nacional de Desenvolvimento) – I PND (1970-1974), voltado para a modernização da agricultura; o II PND, voltado para a redistribuição da indústria; e o III PND (1980-1985), uma espécie de correção de rumos – iniciando uma fase de aguda de restruturação espacial da indústria no Brasil. (MOREIRA, 2004:134). Cabe aqui ressaltar a diferença entre dois processos como nomes parecidos, mas funcionalmente diferentes, que são o de concentração e centralização, e que LENCIONI nos esclarece perfeitamente Concentração e centralização tratam-se de processos distintos. Quando a empresa amplia sua base de acumulação – pelo aumento do número de equipamentos e máquinas, por exemplo, está-se diante de um processo de concentração. Quando se trata de associação, absorção ou fusão de capitais individuais sob um mesmo controle, está-se diante de um processo de centralização do capital, sem qualquer modificação no número de equipamentos e máquinas. O que importa dizer é que centralizar é associar capitais já formados. A centralização constitui um processo em que frações individuais de capital, se reagrupam. (LENCIONI, 1994, p.57/58). Definida as diferenças entre os processos podemos destacar que ambos são encontrados na metrópole paulistana a partir de meados da década de 1970, e que são 8 Para Ruy Moreira “é sabido que a divisão territorial do trabalho é um fato da produção e das trocas que compõem a estrutura das modernas economias. É nas sociedades com base industrial que melhor se aplica a máxima de que o tamanho do mercado é o tamanho da divisão do trabalho e, vice-versa, o tamanho da divisão do trabalho é o tamanho do mercado” (MOREIRA, 2004 :123). 34 vigentes até hoje, como já foi retratado em diversos trabalhos por Lencioni (1991, 2008, entre outros) e que apontam a intensificação destes nos últimos anos, e que MOREIRA descreve: No decorrer do período dos anos 1970 a 2000 uma desindustrialização vai acontecendo: o peso da participação do estado de São Paulo no valor da produção industrial brasileira cai de 58,1 em 1970 para 48% em 1999; a Região Metropolitana de São Paulo cai de 44% em 1970 para 26% em 1999 (o emprego industrial cai de 34% para 24%), no nível nacional, e de 76% para 54% no nível estadual ( o emprego industrial, de 70% para 55%) (MOREIRA, 2004:135). Mas essa desconcentração não acomete apenas São Paulo. Em todo o país vemos nesse período uma migração de parte do parque industrial das grandes aglomerações para cidades intermediárias, que reflete para além na organização espacial das cidades envolvidas, um fenômeno de ordem regional, como destaca MOREIRA A redistribuição industrial da região metropolitana para o interior de São Paulo de um certo modo será copiada pelas cidades de mesmo porte e capacidade de industrialização dos estados do Sudeste e do Sul, formando uma grande região industrial estendida de Belo Horizonte para o sul até Porto Alegre. (MOREIRA, 2004:138). Sobre este aspecto SANTOS nos mostra que se por um lado a dispersão geográfica dos meios técnicos possibilita a dispersão industrial, por outro cresce a dependência desses lugares a esta mesma metrópole como aponta o autor Se muitas variáveis modernas se difundem amplamente sobre o território, parte considerável de sua operação depende de outras variáveis geograficamente concentradas. Dispersão e concentração dão-se, uma vez mais, de modo dialético, de modo complementar e contraditório. É desse modo que São Paulo se impõe como metrópole onipresente e, por isso mesmo, como metrópole irrecusável para todo o território brasileiro. (2008:101) Desta forma hoje a metrópole, de um modo geral, e no nosso caso a metrópole paulistana, apesar do processo de involução metropolitana (SANTOS, 1994), manterse-ia no topo da hierarquia urbana por conta da sua nova base definidora que seria na relação das informações, e o seu tempo de chegada, nos diferentes pontos do território que não é o mesmo, como aponta o autor: “Está aí o novo princípio da hierarquia, pela 35 hierarquia das informações... e um novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa entre as aglomerações do mesmo nível, e, pois, uma nova realidade do sistema urbano”. E conclui: “Hoje, a metrópole está presente em toda parte, no mesmo momento, instantaneamente. Antes, não apenas a metrópole não chegava ao mesmo tempo a todos o lugares, como a descentralização era diacrônica: hoje a instantaneidade é socialmente sincrônica. Trata-se assim da verdadeira ‘dissolução da metrópole’, condição, aliás, do funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política.” (SANTOS, 2008 : 133) Ou seja, vemos que a metrópole, compreendida pela ótica do conceito de involução metropolitana mantém-se no topo da hierarquia, só que de uma forma diferente, antes por sua capacidade de produção, agora por sua capacidade de comando. O que o próprio autor destaca: “Temos, agora, diante de nós, o fenômeno da ‘metrópole transacional’, de que fala Helena K. Cordeiro (1987). Essa é a grande cidade cuja força essencial deriva do poder de controle (sobre a economia e o território) atividades hegemônicas nelas sediadas, capazes de manipulação da informação, da qual necessitam para o exercício do processo produtivo em suas diversas etapas” (2008:102). Em relação a essas mudanças na dinâmica das metrópoles podemos destacar que se num primeiro momento o fordismo favoreceu o expansão da Região Metropolitana de São Paulo, por conta da necessidade da aglomeração, noutro vemos que a acumulação flexível traz o seu inverso, como destaca LENCIONI: Historicamente, foi a concentração das atividades econômicas, sobretudo a concentração industrial, que estruturou a Região Metropolitana de São Paulo, tornando-a o polo econômico do país. Mas, embora sejam ainda relevantes os mecanismos de concentração, são os de dispersão os responsáveis pela reestruturação desta Região, que desde os anos 70 conhece um processo significativo de expansão atingindo o Interior. (LENCIONI, 1994: 54) Desta forma vemos que sob o fordismo havia um modelo em que a aglomeração se fazia necessária e onde as atividades produtivas eram primordiais para o modelo que 36 tinha como a principal expressão espacial o surgimento e expansão de grandes metrópoles, e cujo centro de dinamismo era a própria indústria. Com o avanço das tecnologias, sobretudo, da informação, da comunicação e dos transportes, abre-se a possibilidade dessa indústria se dispersar para áreas mais distantes do centro das cidades o que, junto com a chegada da acumulação flexível, permite que o capital passe a ser investido prioritariamente na expansão do consumo, com forte acento na especulação imobiliária. Como consequência dessa nova estrutura de dispersão da metrópole, surge uma mudança nas características das periferias em relação ao modelo clássico do século XX, caracterizada diretamente pela ocupação da população pobre. Hoje vemos surgir em meio a estas áreas da metrópole, desde indústrias até moradias para camadas mais abastadas. Sobre este aspecto OJIMA destaca Pois dentro deste novo contexto de riscos globalizados, a dicotomia centro-periferia se torna cada vez menos visível na sua expressão material na cidade, pois o espaço urbano se torna mais fragmentado e muito mais heterogêneo incluindo um dinamismo derivado da separação do tempo e do espaço. (OJIMA, 2007: 47) Ojima levanta outro aspecto relevante para a compreensão das metrópoles contemporâneas, que é o papel da mobilidade interna como ponto relevante na dinâmica da metrópole. Este ponto se apresenta como diferencial, pois, como no atual momento não presenciamos maiores alterações demográficas nas metrópoles, essa mobilidade acaba por evidenciar o processo de dispersão das metrópoles. Para explicar o fenômeno das cidades-região9, talvez a grande tendência da metropolização atual, Ojima destaca A principal evidência do surgimento das cidades-região é a redução da necessidade e dependência absoluta de um centro polarizador. Utilizando a metáfora biológica, não se trata mais de uma relação 9 Sobre a discussão do conceito de cidade-região ver os trabalhos de Sandra LENCIONI (2006), e de Jeroen KLINK (2001). 37 parasitária de municípios periféricos com sua sede, mas sim de uma relação de simbiose em que o município-sede (ou municípios-sede, pois nem sempre se trata de apenas um polo unitário) não sobrevive sem as relações dinâmicas com e entre os demais municípios do entorno. Neste sentido, a mobilidade pendular sugere que as fronteiras territoriais se tornam cada vez mais difusas o que, de certa forma, é uma afirmação verdadeira. Entretanto, não equivale dizer que estas se tornam menos importantes ou irrelevantes; embora seja necessário extrapolar os recortes territoriais para a compreensão da dinâmica urbana, fortalece-se a demanda pela gestão integrada destes territórios. Como já vimos, a Região Metropolitana de São Paulo passa por um processo de desconcentração, que observamos por meio da estrutura produtiva e demográfica, mas que também pode ser observado por meio da análise da mobilidade pendular na região. Para isso utilizaremos dados da Pesquisa Origem e Destino10 dos anos de 1997 e 2007, as duas últimas pesquisas elaboradas. Entendemos que estas são importantes para verificarmos se as tendências e mudanças ocorridas na estrutura da metrópole também são observadas no âmbito da mobilidade intra-urbana. Analisando os dados de 1997 e 2007 vimos que também houve uma mudança na intensidade do potencial polarizador da capital paulista, esta mantendo-se como o grande polo da Região Metropolitana de São Paulo, mas passando por um período de menor crescimento, comparando como outros municípios. Quando observamos os dados de viagens por tipo de atração (Trabalho na indústria, Trabalho no comércio, Trabalho em serviços, Educação, Compras, Saúde, Lazer), vemos que a capital tem um crescimento absoluto em todos os tipos entre os dois períodos, porém quando estes números da capital são comparados com o total de 10 “A Pesquisa Origem e Destino, ou simplesmente Pesquisa O/D, é realizada desde 1967 na Região Metropolitana de São Paulo – RMSP, com periodicidade de dez anos, e tem por objetivo o levantamento de informações atualizadas sobre as viagens realizadas pela população da metrópole em dia útil típico” (METRÔ, 2007). Para executar esta tarefa é feita uma divisão da RMSP em zonas e respeitando os limites municipais, em 1997 foram 389 zonas e em 2007 foram 460. A coleta das informações é feita por meio de amostras coletadas diretamente em domicílios, estes sorteados, porém respeitando uma classificação de renda obtida por meio da faixa de consumo de energia elétrica. 38 viagens da RMSP vemos que há uma diminuição do peso da capital no total. Por exemplo, quando o motivo é trabalho na indústria em 1997 a capital representava 52,23% de todas as viagens deste tipo, já em 2007 o percentual cai para 46,29%, uma queda de 11,37% de seu potencial de polarização, o mesmo ocorre para trabalho no comércio, queda de 7,03%, trabalho em serviços, -9,12%, educação, -1,11%, saúde,- 6%, tendo como exceção as viagens para compras e lazer que tiveram um aumento, respectivamente, de 3,34% e 3,78%, evidenciando a mudança da primazia da capital, saindo da indústria e indo para os serviços, quando analisados os números totais a queda da capital é de 4,75% Para visualizarmos todo o processo elaboramos o Mapa 2-1, que nos apresenta a variação da atratividade de cada município da RMSP, entre os anos de 1997 e 2007. Mapa 2-1 - Variação do Peso Relativo dos Municípios ao Total de Viagens da Região Metropolitana de São Paulo (1997-2007) Fonte: Pesquisa Origem e Destino, 1997 e 2007. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Como podemos observar não é apenas a capital paulista a perder peso relativo ao total de viagens, vemos que outros municípios também passam pelo mesmo processo, 39 dentre eles destacam-se Guarulhos, Osasco, Barueri e São Caetano do Sul que, assim como a capital, representam centralidades antigas da metrópole, que apesar da perda relativa ainda se destacam pelos seus números absolutos no total das viagens. Todos, assim como Mogi das Cruzes, estão entre os dez mais representativos, mesmo tendo essa perda relativa no total das viagens do RMSP, como vemos na Tabela 2-1. Tabela 2-1 Principais municípios à receberem viagens na metrópole paulistana 1997 Posição Nome do Município 2007 Total de Viagens Peso do Município Posição Nome do Município Total de Viagens Peso do Município 1 São Paulo 9.898.416 64,39% 1 São Paulo 21.186.498 61,33% 2 Guarulhos 808.129 5,26% 2 Guarulhos 1.766.472 5,11% 1.522.938 4,41% São Bernardo do 3 Campo 674.401 4,39% São Bernardo do 3 Campo 4 Osasco 537.532 3,50% 4 Santo André 1.341.160 3,88% 5 Santo André 523.486 3,41% 5 Osasco 1.033.061 2,99% 6 Mogi das Cruzes 307.948 2,00% 6 Diadema 719.853 2,08% 7 Diadema 262.787 1,71% 7 Mauá 712.034 2,06% 8 Mauá 214.396 1,39% 8 Mogi das Cruzes 675.403 1,96% 9 Barueri 211.815 1,38% 9 Barueri 469.099 1,36% São Caetano do 10 Sul RMSP 209.002 1,36% 15.372.672 100,00% 10 Carapicuíba RMSP 451.537 1,31% 34.544.867 100,00% Fonte: Pesquisa Origem e Destino, 1997 e 2007. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Sendo assim podemos, podemos resumir o aqui exposto dizendo que as mudanças ocorridas no modelo de acumulação geraram impactos no espaço urbano que transformaram as relações centro-periferia, em diversos níveis, que, de um modo geral, se tornaram muito mais dinâmicas e de maior heterogeneidade, tanto sob o ponto de vista produtivo como das relações socioespaciais. Osasco: da centralidade da indústria à centralidade dos serviços O município de Osasco tem na formação da sua estrutura espacial, dois momentos que se relacionam diretamente com as fases do capitalismo que acabamos de comentar, fordismo e acumulação flexível, e que se mostram bastante representativos desses momentos. 40 É no momento de maior expressão do fordismo11, dos anos 1940 até a década de 1960, que o município vê seu maior crescimento e a instalação de grande parte das suas indústrias, até então fonte do dinamismo econômico, dentre elas algumas de bens de produção (como a Cobrasma e a Brown Boveri, por exemplo) e outras, como a Eternit do Brasil, a Fábrica de Cimento e Amianto, a Induselet Materiais Elétricos, a Fábrica de Fibras Sintéticas Rilsan, que contribuíram para consolidar o município como importante núcleo urbano industrial já nos anos 40. (PETRONE apud LANGENBUCH, 1971). Neste período, que podemos chamar de industrial, o município de Osasco se estruturou em função da centralidade surgida com a estação ferroviária, como vimos anteriormente, reproduzindo o modelo da maior parte da RMSP, tendo no seu centro as atividades ligadas à indústria e ao comércio, ou seja, atividades produtivas e de trabalho, ficando reservado à sua periferia a função residencial da população mais pobre. Esse modelo perdura até o início da década de 1990 quando o município começa a passar por um processo de reestruturação, onde antigas indústrias que foram importantes na construção da centralidade da cidade deixam o município e cedem espaço para atividades de serviços e comércio moderno, que configuram sua nova centralidade. 11 Há de se destacar que o fordismo como forma de acumulação não se desenvolveu no mesmo ritmo e da mesma forma em todos lugares, por exemplo, para Alain LIPIETZ (1988) há grandes diferenças entre os processos ocorridos no centro da economia capitalista e na sua periferia. Para o autor no período entre as décadas de 1930 e 1950, o fordismo se expandia nos países centrais (mesmo sendo em ritmos diferentes), enquanto que na parte dos países periféricos que se industrializava, se encontrava um “fordismo incompleto”, pois, apesar da industrialização segundo tecnologia e modelo de consumo fordianos não se tinha nesses países as condições sociais necessárias para a reprodução do modelo, tanto no que se refere ao processo de trabalho, quanto no que diz respeito ao consumo das massas. Mesmo na década de 1970 quando se encontra um “autêntico fordismo” em vários dos países periféricos Lipietz o considera como um “fordismo periférico”, pois, apesar do modelo ser o mesmo não se encontra nesses países uma produção ou postos de trabalho mais qualificados. 41 Sobre este aspecto Constantino (2009) nos mostra a, por ele intitulada, “Superquadra”, apresentada como nova centralidade da cidade, em substituição daquela anterior ligada às atividades industriais, embora destaque a importância dessas atividades no município ainda hoje. Esta Superquadra segundo o autor é um mosaico de distintos usos do solo que permite a convivência de atividades muito diferenciadas. Mas o que percebemos é que o movimento de substituição das antigas e tradicionais atividades comerciais e industriais por atividades de serviços e comércio mais modernos tende a homogeneizar a superquadra e consolidá-la como um lócus diferenciado de comércio e serviços na porção oeste da metrópole. O movimento de estruturação do local nos permite afirmar que esse lugar se caracteriza como um centro de comércio e serviços diversificados, no qual os modelos de Shopping Center e dos hipermercados serão predominantes. Entretanto, os serviços de educação aparecem com os três campus universitários ali existentes, bem como a instalação de torres de escritórios do Osasco Prime Center são indicadores do potencial dessa área para a ampliação deste setor. Apesar de ainda ali existirem residências e restaurantes populares, o movimento de renovação do local mostra que essas atividades tendem a desaparecer. (CONSTANTINO, 2009: 114) Dentre as diversas empresas que estão na Superquadra se destacam grandes hipermercados, bem como, o maior shopping da cidade como destaca o autor A fábrica da Eternit foi demolida em 1993, em meio a uma conturbada discussão a respeito dos males causados pelo amianto. Em seu lugar, foi erguida uma loja da rede WalMart e o shopping Center Osasco. Já onde funcionava a Santista, foi construída uma loja Carrefour. A Brow Boveri (atual ABB) ainda funciona no local, mas vendeu seu terreno para o Grupo Savoy, que ergueu o edifício do Shopping União Osasco, ocupando uma área de 264 mil metros quadrados. Esse é o mais vultoso empreendimento que está sendo construído na superquadra. (CONSTANTINO, 2009: 98) Tomando a Superquadra como exemplo, podemos observar que há de fato uma alteração no centro de investimento econômico atual, migrando da produção pra o consumo, uma das principais caraterísticas da acumulação flexível, que se faz pela introdução de grandes grupos multinacionais, como as redes de hipermercados Carrefour e Walmart, bem como, pela expansão do mercado imobiliário, tradicionalmente especulador. Outro fator a se destacar é como a alocação de 42 Universidades também se posta na mesma lógica mercadológica de busca da centralidade já constituída. A Mobilidade Pendular e Osasco Como destacamos anteriormente, a mobilidade apresenta-se como parâmetro constituinte desse novo modelo de centralidade, sendo assim analisando a Superquadra, Constantino, fez um levantamento a fim de saber o poder de atratividade desta, e que podemos observar seus resultados por meio do Mapa 2-2. Neste vemos que a atratividade da Superquadra transcende os limites da RMSP, chegando a Campinas e Sorocaba, o que demonstra que de fato constitui-se como uma centralidade da porção oeste da metrópole, como destaca o autor. Mapa 2-2 Municípios de origem de parte dos consumidores de alguns produtos e serviços oferecidos na superquadra. Fonte: Adaptado de COSNTATINO (2009:116) Elaboração: Marcelo Nunes Diniz 43 Ainda tratando da mobilidade, podemos destacar a atração do município de Osasco como um todo, para representar esse processo nos utilizamos, novamente, dos dados da Pesquisa Origem e Destino de 2007, que nos permitiu entrever donde partem as viagens oriundas da RMSP com destino ao município, nos fornecendo, portanto, uma ideia aproximada de seu poder de atração. Para facilitar nossa análise entendemos que não seria necessário manter o zoneamento original da Pesquisa O/D, que divide a RMSP em 460 zonas, para isso fizemos um agrupamento das zonas de acordo com o seguinte critério: para as zonas do município de São Paulo unimos todas as de um mesmo distrito como uma única zona, já as demais foram reunidas de acordo o limite de cada município. Desta forma reduzimos as 460 zonas em 134, sendo 96 referentes aos distritos de São Paulo, e 38 correspondentes aos demais municípios da RMSP, incluindo Osasco. Com essas bases elaboramos o Mapa 2-3 que nos mostra o fluxo de viagens diárias12 que tem como destino o município de Osasco, e por se tratar do total diário, inclui as viagens de retorno dos moradores que saem do município de Osasco para outros municípios, e serve para nos dar a dimensão da interação do município com a Região Metropolitana de São Paulo, embora não mostrando o seu poder de atração, que verificaremos com outra base mais adiante. 12 O número de viagens diárias refere-se ao total das viagens feitas por todos os modais, a saber, coletivo, individual, bicicleta e a pé, os dois últimos agrupados como não motorizados. 44 Analisando o mapa podemos observar a grande abrangência da área interação do município que se relaciona com diversas partes da RMSP, destacando-se áreas distantes como os distritos dos extremos da capital paulista (Marsilac e Parelheiros, ao sul, Itaim Paulista e Guaianazes, a leste, Perus e Anhanguera, ao norte), assim como o fato de receber viagens de 25 dos 38 municípios da RMSP, das 134 zonas definidas, 101 tem alguma viagem com destino no município, ficando de fora, praticamente, apenas os municípios do extremo leste da região, Vemos no mapa que a maior intensidade de fluxos se dá entre Osasco e as zonas da porção oeste, ao todo tem-se 365.557 viagens para o município, sendo que, 54,64% destas estão concentradas em zonas desta área da metrópole (Carapicuíba 13,42%, Barueri 12,02%, Vila Leopoldina 5,16%, Lapa 4,89%, Jaguaré 4,78%, Itapevi 4,66%, Rio Pequeno 4,03%, Butantã 2,87%, Jaguara 2,83%). Como dissemos anteriormente esses dados apresentados não nos servem para analisar o poder de atração do município, para tal empreitada utilizamos os números das viagens feitas somente entre as 06h30min e 08h30min13, pois, entendemos que desta forma exclui-se grande parte das viagens de retorno ao município, pelo fato deste horário ser notadamente ligado à ida para atividades como trabalho e estudo, a compilação desses dados pode ser observada no Mapa 2-4. 13 Diferentemente dos dados sobre as viagens diárias, que utilizamos como base para o mapa anterior, as viagens entre 06h30min e 08h30min, não computam as viagens feitas por meio não motorizado, restringindo-se aos modos coletivo e individual. Observando o mapa vemos que há uma clara diminuição da área de abrangência das viagens, porém mantendo um grande número de zonas (das 134 zonas encontradas na Região Metropolitana de São Paulo 76 praticam viagens em direção a Osasco, perfazendo 16 municípios) que agora podemos considerar como atraídas pelo município. Novamente destaca-se a porção oeste, sobretudo os municípios de Carapicuíba, Barueri, e Itapevi, que juntos representam 45%, 30,21%, 8,31%, 6,81%, respectivamente, do total das viagens para o município no período. Com isso vemos a importância de Osasco para a região que aparece como o principal destino, excetuandose a capital, para as viagens dos municípios citados, destacando-se Carapicuíba, que tem uma circulação interna inferior à trocada com a vizinha Osasco. Desta forma vemos que o município de Osasco ainda se mantém como importante centralidade na porção oeste da Região Metropolitana de São Paulo, mantendo uma atividade industrial ainda de grande importância, embora veja surgir outro tipo de atratividade ligada às atividades de comércio moderno, com destaque para os grandes hipermercados e os shoppings, e aos serviços, sobressaindo-se a educação, por meio da expansão do número de universidades, sendo os dois tipos de atividades responsáveis por atrair pessoas de diversas partes da metrópole paulistana e, até mesmo, extrapolando esse limite. 3. A Periferia e Seus Moradores Discutindo o conceito de Periferia O conceito de periferia urbana surge como forma de evidenciar as grandes diferenças encontradas nas áreas urbanas que passaram por um processo de grande crescimento nas décadas de 1950 e 1960, como no caso de São Paulo, diferenças estas que se expressavam de diversas formas, os assim chamados “problemas urbanos”. Algumas linhas de pesquisa nesse período surgem como forma de compreender os processos que ocorriam nas cidades dos países periféricos, e que entendiam que os problemas encontrados nestas não poderiam ser considerados como anomalias, mas sim partes de um único movimento que passava a se consolidar nestas áreas. Nessa linha de pensamento surgem diversos trabalhos que versam sobre as características dessa periferia urbana e, consequentemente, diferentes definições, embora expressando grandes semelhanças nas análises. Em “A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil Industrial”, importante livro acerca do tema em tela organizado por MARICATO (1982), vemos alguns exemplos de definições de periferia. Nesta obra a periferia é conceituada e caracterizada como: áreas distantes do centro, aonde ainda não chegaram serviços urbanos e por isso a terra é mais barata e a população pobre pode pagar por ela (SINGER, 1982: 33); áreas onde não houve ainda entrada do capital imobiliário e por isso se mantém com valores mais baixos (LEFÈVRE, 1982: 104 e 115); “proletarização do espaço urbano”, “espaço de residência da classe trabalhadora ou das camadas populares” (MARICATO, 1982; p.8283); vastas áreas ocupadas por casas autoconstruídas em pequenos lotes, sem equipamentos, precários serviços públicos e infraestrutura urbana, comércio informal, e que “se assemelham a canteiros de obras, e mantêm essas características por muitos anos” (MARICATO, 1982: 82-83;87); lugar onde o trabalhador encontra condições para 49 aquisição da casa própria, em função de seu valor mais baixo (áreas com baixa renda diferencial) e viabiliza a sua reprodução social (BONDUKI e ROLNIK, 1982: 147). Nessas definições vemos que o conceito de periferia expressa-a como sendo um espaço ligado à possibilidade da classe trabalhadora se instalar na cidade, marcado por carências urbanas, e resultante de processos de segregação, destaca-se também, nessas análises, o pouco auxílio do Estado para enfrentar tais carências, ou talvez, o contrário, o Estado ao não garantir o acesso a moradia às populações de baixa renda passa a ser um dos indutores de tal processo. Vemos assim que o momento crítico, o da implosão-explosão das cidades que propõe Lefebvre (2008) reúne a centralização de poder econômico e político, uma separação entre dominados e dominantes, uma ideologia que justifica a produção em massa da desigualdade. Tal desigualdade se configura por meio das possibilidades e limitações dos usos, impondo assim a mediação do dinheiro para o acesso às novas tecnologias que a contemporaneidade nos oferece. Neste sentido Ribeiro (2010: 66), ao tratar da metrópole paulistana, aponta que: Esta desigualdade pode ser vista na produção cada vez maior de favelas que datam da década de 40, período de colapso da forma “aluguel”, pois os salários, cada vez mais reduzidos, não eram compatíveis com as rendas dos trabalhadores para manter os pagamentos. Alguns elementos também viabilizaram esta desigualdade, como a coadunação das novas tecnologias de transporte, que levavam os trabalhadores cada vez mais longe do centro em busca de moradias mais baratas, compatíveis com seus salários. Neste mesmo período, abordado pela autora, ampliava-se a atuação do setor imobiliário em direção à periferia da cidade, incorporando os vastos terrenos que ali existiam, mas que naquele instante não estavam inseridos diretamente nos processos de valorização. Aqui lembramos que é a partir dessa década que vemos, de fato, surgir a metrópole paulistana. Esse processo, que na prática era de exclusão, visto que, quem 50 não possuía recursos para a compra desses novos loteamentos, era impulsionado pela necessidade em direção aos loteamentos clandestinos responsáveis por grande parte da constituição da periferia que temos até hoje. A respeito do crescimento acelerado da cidade de São Paulo nos anos 50, SEABRA (1987: 05) é categórica: A segregação espacial e social que está na essência da conformação da cidade capitalista, atinge na Metrópole a sua forma exacerbada, extrema. Pois, em São Paulo, enquanto as elites armavam incessantemente suas estratégias de individualização no espaço da cidade, dos subterrâneos da ordem estabelecida vinha à luta para ocupar os interstícios desse mesmo espaço. É quando começam a surgir às favelas como forma de resolução da necessidade de morar. Não podemos deixar de destacar que nesse modelo de segregação espacial a especulação imobiliária afigura-se como elemento marcante na produção da metrópole, desde seus primórdios, “fazendo até chover”14, sobretudo, no seu momento de maior expansão, fato que definiu as características de boa parte da estruturação da metrópole paulistana. Entretanto, como destacamos nos capítulos anteriores, a relação centro-periferia não é mais a mesma encontrada na década de 60/70, bem como, a (re)produção socioespacial também difere bastante, desta forma vemos emergir novas interpretações sobre a problemática da periferia. Nesse sentido vemos em BURGOS (2008), uma referência destas novas interpretações, como podemos observar Embora o referido padrão periférico de crescimento continue expandindo a periferia nos limites territoriais urbanos (confinando e segregandoos pobres urbanos nas “franjas” da metrópole), a periferia urbana não se refere, tão somente, à periferia distante, consolidada e/ou em contínua formação. A periferia urbana, enquanto condição social da pobreza, corresponde aos territórios empobrecidos da metrópole, os quais estão presentes tanto na periferia quanto no centro propriamente ditos. Isto requer que repensemos a relação centroperiferia. Na metrópole fragmentada, como é o caso de São Paulo, o 14 Aqui nos referimos ao subcapitulo “A enchente de 1929 – Uma estratégia de Valorização” da tese de SEABRA (1987), que nos mostra como a Companhia Light induz uma inundação a fim de expandir as áreas de que teria direito de propriedade no entorno do Rio Pinheiros. 51 binômio centro-periferia cede lugar ao binômio fragmentada-periferias urbanas15. (BURGOS, 2008: 12) metrópole Essa visão, que vê no centro elementos da periferia, também é compartilhada por José de Souza Martins, que aponta “o problema da periferia é o problema do tumulto da ocupação, o da urbanização patológica, da exclusão, da falta de efetivas alternativas de inserção no mundo urbano. (...) o próprio centro da cidade de São Paulo é hoje periferia” (Martins, 2001:79), o que vemos nessa nova forma de concepção da ideia de periferia é que essa se baseia em alguns aspectos das condições sociais presentes nos dois espaços, porém, do nosso ponto de vista, deixando outros de fora da análise. Do nosso ponto de vista, essa referência não abarca a totalidade dos processos existentes nos dois pontos da metrópole, pois desconsidera aspectos da constituição dos mesmos, desde sua formação, e mesmo processos ainda vigentes, por exemplo, o transporte, embora áreas centrais possam ser tão pobres, ou degradadas, como se tornou corrente defini-las, como outras nas franjas da metrópole, sabemos que o deslocamento pela metrópole é muito mais facilitado para quem reside nestas áreas. No caso paulistano é clara a forma radial das estruturas de transporte, aspecto este que influencia diversos outros, como acesso a hospitais, pontos de cultura, lazer e, sobretudo, o trabalho. Outro ponto importante que nos faz pensar é o das tendências de futuro para um ponto e outro, se na periferia, em sua concepção tradicional, a expectativa de quem vai morar é a de melhoria do local, no centro ocorre o contrário, quem mora aí passa paulatinamente a perder qualidade de vida, e a história nos mostra que na maioria dos casos de tentativa de melhoria dessas áreas passa, muito mais que em outras partes da metrópole, pela expulsão dos pobres, por meio das assim chamadas revitalizações. 15 Com base no binômio proposto por Seabra (2004): metrópole-periferias. 52 Desta forma, podemos afirmar que é notório que a segregação socioespacial imposta à grande parte da população da metrópole paulistana, na sua forma atual, trás consigo implicações que devem ser consideradas para sua compreensão. À medida que o tecido urbano se estende, produz-se uma imensa periferia, que se diferencia do centro, mesmo que mantenha alguns pontos em comum, seja pelas condições materiais, seja pelas possibilidades de usos dos equipamentos existentes. Todavia, a relação centro-periferia é vista enquanto lógica e estratégica para a realização da reprodução capitalista, significando que é necessário entendê-la como uma tendência que irá confrontar-se com a prática socioespacial, tornando dialético o processo de produção do espaço. Ou seja, o centro, do qual grande parte da população não consegue usufruir, ganha novos conteúdos e precisa ser reproduzido para garantir as condições de reprodutibilidade desta mesma população, ainda que, este processo esteja compassado com a produção hegemônica. A Visão dos Moradores: Análise das Entrevistas Na busca de tentar entender a periferia pelo olhar da população que nela habita, vimos como obrigatória a busca da opinião dessas pessoas, para isso elaboramos um questionário com perguntas fechadas e abertas. Tal questionário foi aplicado por nós nos finais de semana do mês de novembro de 2011, abrangendo todos os setores censitários dos bairros de nossa área de estudo, sendo um questionário por setor, totalizando 66 entrevistas. A escolha de se fazer uma entrevista para cada setor fora determinada como forma de garantir uma busca mais dispersa possível. Visando garantir a aleatoriedade da obtenção das amostras, visto que não apenas conhecemos como moramos na região, fato que poderia influir na escolha dos locais de aplicação dos questionários, determinamos um critério espacial como meio para a obtenção de amostras isentas. Tal critério consistiu na utilização dos pontos centrais de 53 cada setor censitário como referencial para a determinação do domicílio a ser aplicado o questionário, desta forma, com o auxílio de uma imagem de satélite, aplicamos os questionários nos domicílios que se encontravam mais próximos destes pontos, quando não houve esta possibilidade, aplicou-se o questionário na residência mais próxima que fora possível. A Figura 3-1 esboça o método exposto. Figura 3-1 Exemplo da metodologia para aplicação dos questionários Fonte: Imagens de Satélite de 2008Google; IBGE, 2010 Elaboração: Marcelo Nunes Diniz O questionário aplicado (em anexo) teve como finalidade abarcar informações de três tipos: um ligado às características pessoais do entrevistado, como local de nascimento, estado civil, etc.; outro ligado à questão da economia informal, o chamado Circuito Inferior da Economia; e o mais importante, que diz respeito a visão do morador sobre o bairro que mora, ou seja, sobre a periferia. 54 Resumidamente, podemos dizer que os questionários tinham como finalidade saber quem mora e o que acha dos bairros da área de estudo. Neste sentido, entendemos que os questionários alcançaram nossos objetivos, pois, de um lado corroboraram alguns aspectos dessa população que a bibliografia já nos apontava, como a origem nordestina da maioria, e de outro mostrou que algumas tendências apontadas na atualidade também são verdadeiras para esta área da metrópole, como a diminuição do número de filhos das famílias, bem como, nos possibilitou enxergar o ponto de vista dessa população, sobre a periferia. Cabe aqui ressaltar que boa parte da informação, que nos pareceu ser importante, não nasce apenas das respostas apontadas nos questionários, mas também do contexto da aplicação dos mesmos, de nosso olhar16 sobre a paisagem das entrevistas, tanto dos aspectos físicos quantos sociais desta. Sendo assim, podemos avançar para as informações coletadas. Ressaltamos que para apresentar os resultados das perguntas abertas agrupamos as suas respostas que apresentavam discursos aproximados de uma mesma ideia, mesmo que não sendo exatamente idênticas, por exemplo, na questão referente ao pior em se morar no bairro, surgiram respostas como falta de condução, demora dos ônibus, etc., neste caso agrupamos essas respostas no grupo transporte, fizemos isso no intuito de poder representar quantitativamente estes questionários, visto que, muitas das respostas 16 Cardoso (CARDOSO, S., 1995) mostra uma preocupação em diferenciar o ver do olhar, sendo o ultimo o ideal para um pesquisador, para ele o “ver, em geral, conota no vidente uma certa discrição e passividade ou, ao menos, alguma reserva. Nele um olho dócil, quase desatento, parece deslizar sobre as coisas; e as espelha e registra, reflete e grava”, já o olhar “não descansa sobre a paisagem contínua de um espaço inteiramente articulado , mas se enreda nos interstícios de extensões descontínuas, desconcertadas pelo estranhamento.”, em outros termos, o ver não é profundo, não busca processos, nem detalhes, está ligado de certa forma a uma passividade do observador em relação a paisagem, já o olhar surge quando a fase do ver causa inquietação no observador, que passa a tentar enxergar detalhes e até mesmo, buscar as questões que fogem do campo do visível. 55 tinham a mesma temática, porém, apresentadas de maneira diversa. Isto posto, na Tabela 3-1 podemos observar as informações básicas dos entrevistados. Tabela 3-1 Dados básicos dos entrevistados Sexo Idade Estado Civil Masculino Feminino 65,00% 35,00% 0-20 21-30 31-40 41-50 51-60 >60 2,50% 30,00% 27,50% 17,50% 15,00% 7,50% Solteiro Casado Convivente Viúvo Separado Divorciado 32,50% 55,00% 7,50% 2,50% 0,00% 2,50% EF EM Incompleto EM Sup. Incompleto 10,53% 10,53% 39,47% 7,89% Alagoas Bahia Ceará Pernambuco Piauí São Paulo Minas Gerais 10,00% 15,00% 12,50% 10,00% 10,00% 37,50% 5,00% Sim Não 75,00% 25,00% Um Dois Três Mais de Três 26,67% 43,33% 16,67% 13,33% EF Escolaridade Incompleto 31,58% Estado de Origem Possui Filhos Número de Filhos Legenda: EF – Ensino Fundamental; EM – Ensino Médio; Sup. – Superior. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Analisando a tabela vemos que a maior parte dos entrevistados é de origem nordestina, como a bibliografia já apontava, sendo aqueles que nasceram em São Paulo, mais da metade, jovens com idade máxima de 30 anos, e também com a perceptível ascendência nordestina, como é o nosso caso. Outro aspecto interessante que vemos a partir destes dados é a diminuição do número de filhos nas famílias, embora ainda, quase 30% dos entrevistados possuam mais de 3 filhos, o caso com maior número de filhos encontrado foi de uma senhora que tinha 7, o que vimos é que entre os jovens não foi encontrado nenhum que tivesse mais de dois filhos, outra tendência que já destacamos anteriormente. Pensando, sobretudo nos migrantes, fizemos algumas questões que abarcaram alguns aspectos deste processo de mobilidade, e que podemos observar na Tabela 3-2. 56 Tabela 3-2 Aspectos relativos à migração Motivo da vinda para São Paulo* Coisa Melhor Trabalho Vida Melhor Outros 20,00% 64,00% 24,00% 16,00% Possuía bem (imóvel) no local de origem Sim Não 56,00% 44,00% Tempo de residência no domicílio atual (em anos) Menos de 1 1-5 6-10 11-20 Mais de 20 13,16% 15,79% 21,05% 26,32% 23,68% Local de moradia anterior Mesmo Bairro Outro Bairro de Osasco Cidade Natal São Paulo (Município) Sempre na mesma casa 32,50% 22,50% 2,50% 32,50% 10,00% Aquisição da casa própria Outros 68,75% 31,25% Motivo da ida para a atual residência *Neste caso admitiu-se mais de uma resposta. Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Vemos que o principal motivo para a migração rumo à metrópole paulistana é o trabalho. Entendemos que o trabalho não se apresenta como o objetivo final dessa população, mas que funciona como meio para o alcance dessa meta. Tendo isso como verdadeiro, podemos observar na tabela que a busca por uma melhora de vida é, basicamente, o motor propulsor da migração. Ainda analisando esses números vemos que em torno de 3/4 dos entrevistados moram no mesmo domicílio a mais de 5 anos, fato este que analisado conjuntamente com os números do “local de moradia anterior”, indica que pouco mais da metade dos entrevistados residiam anteriormente em Osasco, boa parte no mesmo bairro da atual residência, o que nos mostra como essa população está enraizada nessa periferia, inclusive havendo 10% de casos de pessoas (jovens) que moram a vida inteira na mesma residência. Os últimos dados mostrados nos propiciam o entendimento de parte do que é viver na periferia, apresentando elementos que demonstram que esta, antes de tudo, representa a esperança, seja do migrante que foge das mazelas da vida do semiárido nordestino, onde a seca e a concentração fundiária não propiciam condições de sobrevivência, ou mesmo do trabalhador comum que busca a casa própria, este o principal motivo para a fixação na atual residência. Outro aspecto que nos chama a 57 atenção é o fato de mais da metade desses migrantes deixarem em suas terras natais algum bem, o que indica que não fosse a condição de falta de meios de sustento, possivelmente, muitos desses migrantes não se aventurariam em tal empreitada. Pensando na estruturação da nossa área de estudo buscamos saber quais os principais aspectos relativos à moradia nesta, bem como, saber o que pensa os moradores sobre esses pontos. Os dados vemos na Tabela 3-3 Tabela 3-3 Aspectos das moradias Tipo do imóvel Forma de aquisição do imóvel Qual a forma do financiamento Qual a forma de construção do imóvel Ajudou ou obteve ajuda dos vizinhos no processo de construção Alugado Próprio De Parente 23,08% 71,79% 5,13% Terreno à vista Terreno a prazo Casa à vista Casa a prazo Casa doada (Prefeitura) 43,33% 30,00% 13,33% 10,00% 3,33% Caixa Direto proprietário Imobiliária 20,00% 70,00% 10,00% Misto Misto c/ maior parte profissional Misto c/ maior parte familiar 8,70% 8,70% 0,00% Profissional Doméstico/familiar 26,09% 56,52% Sim Não 73,68% 26,32% Elaboração: Marcelo Nunes Diniz Nesses números vemos que a maior parte dos entrevistados moram em imóveis próprios, adquiridos ainda na forma de terreno, e nos casos em que fora necessário um financiamento, em sua maior parte, fora executado pelo próprio loteador, na forma de prestações fixas baseadas no salario mínimo, expressando assim o modelo clássico de formação da periferia, também expresso pelo alto número de casas construídas por meio do modelo doméstico/familiar, modelo já destacado por BONDUKI e ROLNIK (1982), tendo como base outros bairros do município de Osasco. Nosso destaque sobre esses dados vai para o alto número de entrevistados que disseram terem ajudado ou recebido ajuda de vizinhos na construção de seus imóveis. Aqui salientamos que esta ocorre, sobretudo, por meio da mão de obra no enchimento 58 das lajes ou por uma ajuda com água, demonstrando uma solidariedade entre esta população, aspecto também bastante destacado em trabalhos sobre o tema. A fim de verificar como a população local se relaciona com Circuito Inferior da Economia17, fizemos duas questões que, embora simples, para nós parecem ser representativas para a aferição de tal aspecto da economia, e consistiram em saber dos moradores se tinham o costume de comprar em comércios familiares e se conseguiam comprar fiado, deixando claro para o entrevistado de que não necessitava se utilizar de tal pratica, referindo-se apenas se conseguia ou não, fizemos isto afim de não constrangê-lo e, consequentemente, não alcançar a resposta verdadeira. Tabela 3-4 Aspectos do Circuito Inferior da Economia Costuma comprar em estabelecimentos familiares Sim 65,00% Consegue comprar “fiado” em algum estabelecimento Sim 72,50% Número de estabelecimentos que consegue o fiado Um 22,22% Não 35,00% Não 27,50% Dois 22,22% Três Mais de três 14,81% 40,74% Elaboração: Marcelo Nunes Diniz As respostas, como podemos ver na tabela, nos mostra como é grande a presença desta segmentação da economia nos bairros estudados, pois, de um lado há cerca de 2/3 dos entrevistados que costumam comprar em comércios familiares, que se mostram 17 A proposta teórica dos circuitos busca interpretar a economia urbana dos países periféricos a partir da existência de dois circuitos (Santos, 1978, p.29). A segmentação presente na sociedade urbana em relação às possibilidades de satisfação das necessidades cria diferenças quantitativas e qualitativas no consumo, as quais, por sua vez, são a causa e o efeito da existência de diferentes circuitos de produção, de distribuição e consumo nas cidades desses países. O circuito superior – composto pelos bancos, comércio e indústria de exportação, indústria moderna, serviços modernos, atacadistas e transportadores – é o resultado direto das modernizações que atingem o território. Já o circuito inferior constitui-se de formas de fabricação de capital não-intensivo, serviços não modernos fornecidos a varejo, comércio não moderno e de pequena dimensão, voltados sobretudo ao consumo dos mais pobres. Encontramos ainda a presença de um circuito superior marginal que compreende, por sua vez, uma certa porção do circuito superior; embora apresente características que o aproxima de ambos os circuitos. Ou seja, o circuito superior marginal tanto incorpora fatores atrelados à modernização como apresenta elementos advindos do circuito inferior. 59 como alternativas de fácil acesso à população, tanto por manter características não encontradas nas grades redes de comércio, como a proximidade com os clientes que, quase sempre, também são vizinhos; como também conseguem comprar fiado. Sobre este aspecto é importante ressaltarmos que mesmo diante da expansão dos cartões de crédito, seja em relação ao número de clientes seja ao número de lojistas, o fiado ainda aparece bastante presente nessas áreas, quase 3/4 dos entrevistados afirmam conseguir comprar por meio de tal prática, embora, a grande maioria tenha ressalvado que não o façam (aqui fica a dúvida se as respostas condizem com a realidade, ou apenas demonstram certo constrangimento dos entrevistados em admitir tal fato). Entre os que admitem a possibilidade de compra por este modal, cerca de 80% conseguem em mais de um comércio, sendo que 40% conseguem em quatro ou mais estabelecimentos. Em nossas entrevistas saímos dos aspectos mais objetivos, que já foram apontados até agora, e buscamos também ouvir a opinião dos moradores sobre diferentes aspectos dos bairros em que residem, tentando com isso perceber a ligação destes com a região. Sendo assim, ainda pensando na questão da moradia, e mais especificamente na produção doméstico/familiar da casa própria, questionamos nossos entrevistados sobre suas opiniões referentes ao fato de participarem da construção da própria residência, imaginávamos que poderiam surgir respostas mais subjetivas que indicassem alguma relação de maior proximidade dos moradores com estas por conta deste motivo (da construção da própria casa), mas o que verificamos é que a maior parte dos moradores não apresentou nenhuma expressão nesse sentido, destacando, principalmente, as vantagens econômicas que tal processo possibilitava. Avançando na investigação sobre a percepção dos moradores também os questionamos sobre aspectos relacionados à vida no bairro, buscando saber sua opinião 60 sobre a vizinhança e o bairro em geral, elementos que podemos observar por meio da Tabela 3-5. Tabela 3-5 Moradores e a visão sobre a vida no bairro Considera que conhece os vizinhos Muito Pouco 7,50% Relação com eles Péssima O que acha de morar no bairro Péssimo O que acha de melhor em morar no bairro O que acha de pior em morar no bairro Pouco Regular 17,50% Ruim 0,00% 35,00% Regular 0,00% Ruim 0,00% Bem Regular Transporte 20,00% 72,50% Família 7,5% Água (falta) Segurança/Drogas Nada 10,00% 10,00% 15,00% 12,50% Ótimo 50,00% 20,00% 12,50% Muito Boa Bom 10,00% Tranquilo/Sossego Localização Vizinhança 32,50% 27,50% Boa 15,00% 0,00% Muito Bem 12,50% 40,00% Tudo Outros 5,00% 15,00% Vizinho Outros 7,50% 45,00% Elaboração: Marcelo Nunes Diniz O que vimos dos moradores entrevistados é que estes se mostraram um pouco reticentes em responder o quanto conhecem seus vizinhos, ficando boa parte das entrevistas na resposta intermediária, contudo a maioria considera que conhece seus vizinhos bem ou muito bem. Ainda sobre a relação de vizinhança o que nos chama a atenção é a boa relação entre os moradores, verificada por meio dos 85% de respostas boa ou muito boa sobre este aspecto, e também percebida por aparecer como “o melhor em morar no bairro” por 20% dos entrevistados. Sobre a opinião de morar nos bairros de nossa área de estudo vemos que a grande maioria dos entrevistados, 90%, acha bom ou ótimo a vida nesta área da metrópole, não sendo considerado ruim ou péssimo por nenhum destes, o que em certa medida nos surpreendeu. Ainda sobre os aspectos da vivência nos bairros merece destaque o fato dos melhores pontos destacados em se viver nessa área serem muito mais agregados do que os negativos, se concentrando na tranquilidade/sossego, localização, vizinhança e família, enquanto que os piores se mostraram muito mais dispersos e pontuais, ligados, sobretudo, a problemas de infraestrutura como a falta de 61 água, dificuldades no transporte, ou problemas com segurança, mais ligados ao tráfico de drogas. Mas o que nos surpreendeu nestes pontos foram os 5% que disseram ser tudo bom, e os 15% que não encontraram nada de ruim, em morar nos bairros, o que mostra que a visão dos moradores sobre a periferia não é tão crítica a esta porção da metrópole, o que pode orientar outros caminhos para novas pesquisas sobre esta parcela da metrópole, como já apontava SANTOS (2000: 61) . Há um centro de estudo da violência na USP ao qual devemos boas análises. Mas deveria ser criado também um centro de estudos sobre a solidariedade entre os pobres. É evidente que isto não dá manchete, mas poderíamos compreender melhor as diferentes formas de ajuda mútua, assim como saber de que modo repercute a produção de um discurso que escapa à indústria cultural, mas que é cultura. Uma questão que imaginávamos que fosse ser de difícil recebimento pelos entrevistados, fora a respeito de terem passado por alguma situação de constrangimento, ou preconceito, ocasionada pelo fato de residirem na periferia, o que vimos foi que mais de 90% dos entrevistados disseram nunca terem sentido algo do gênero, vale destacar que os entrevistados não nos pareceram constrangidos por conta da pergunta, o que, caso ocorresse, poderia influir nas respostas. Finalizando a apresentação dos dados das entrevistas destacamos a opinião dos moradores em se mudar do bairro em que moram. Sobre este quesito o resultado obtido mostra que há praticamente metade que tem vontade de se mudar e outra que não, dentre os motivos dos que pretendem, ou melhor, têm vontade de mudar, destaca-se que mais de 20% diz que gostaria de voltar para terra natal, outros 10% têm vontade de voltar para o bairro que moravam antes, e que tinham mais relações afetivas, cerca de 15% indicam que gostariam de algo melhor, outros 15% apontam os problemas encontrados no bairro como motivo, o restante aponta motivos variados para este desejo, como ir morar no interior, por exemplo. 62 Desse modo podemos dizer, como salientamos anteriormente, que além dos dados conseguidos, as entrevistas nos serviram para enxergar como se dá parte da vida na periferia, pois, podemos observar como os moradores se relacionam. Em todos os bairros foi frequente encontrar os moradores conversando nas calçadas, assim como foi possível perceber enquanto se conversava com os entrevistados que, apesar das dificuldades, estes se sentem bem em morar nessa porção da metrópole, o que parece impensável para quem é externo a essa realidade, vide como ela é apresentada nos diferentes meios de comunicação.18 18 A antropóloga Adriana Facina em artigo publicado no website FazendoMedia (http://www.fazendomedia.com/olhar-estrangeiro/) faz uma crítica ao que ela chama de “olhar estrangeiro” das produções cinematográficas que falam sobre as favelas, e que entendemos ser muito parecido com a visão difundida sobre a periferia de um modo geral. 63 4. Considerações Finais O que vimos ao analisar nossa área de estudo é que a sua formação faz parte de um processo complexo que age nas diferentes escalas de análise (global, regional e local), de forma que todas estão diretamente relacionadas, e que a produção e a reprodução do espaço urbano, se mostra como um dos resultados deste processo. Desta forma buscamos trazer elementos que demonstrassem que o surgimento e as transformações socioespaciais ocorridas em nossa área de estudo se mostra de forma muito parecida das demais áreas periféricas da Região Metropolitana de São Paulo, e que já foi fartamente estudada por diversos pesquisadores de diferentes correntes e campos das ciências sociais, sendo assim nossa pesquisa visou confrontar essa base já produzida com a realidade do espaço por nós estudado, confronto este que, de um modo geral, corrobora o que fora levantado em nossa pesquisa bibliográfica. Talvez o que se mostrou diferente em nosso trabalho foi a vontade de buscar nos próprios moradores dos bairros estudados uma visão dessas áreas, visto que, para nós apresenta-se como um lugar onde a história da população e a desse espaço se misturam, elementos estes que por meio de uma análise puramente estrutural, não seria possível de se enxergar. Sendo assim vemos que nossas entrevistas, mesmo que simples e em quantidade relativamente reduzida, serviram pra nos dar uma ideia do que pensa essa população e que para nós se mostra como um aspecto bastante relevante, pois diversos discursos são produzidos sobre as características dos objetos espaciais das periferias, embora muitas vezes deixando de lado as características de relacionamento das pessoas, sobretudo a proximidade que têm os moradores dessas regiões. Nesse sentido vemos que na área de estudo há de fato uma relação de solidariedade entre os moradores, seja pela informação dos moradores que se ajudam na construção das residências, ou pela importância do fator vizinhança, na opinião dos 64 moradores sobre os bairros que residem e vivem, e não apenas dormem, como algumas análises e conceitos fazem parecer. Todas elas apontam que nessas áreas não há apenas a falta de infraestrutura urbana, que muitos fazem crer, serem os únicos aspectos do urbano, mas há também uma grande gama de ações, como o uso das calçadas constituindo parte da vida cotidiana, e não apenas como caminho, e que são pouco percebidas, para quem é de fora dessa realidade. Para refletir sobre como essa população da periferia e o seu modo de vida são retratados com surpresa quando encontrados aspectos positivos, podemos destacar a dissertação de Valéria Sanches a cerca de como a população da periferia encara a questão da morte e em que conclui: Se ao longo destas páginas procuramos evidenciar a tensão e a ambiguidade que cercam a morte e os mortos, ao final, nos deparamos com a tensão e ambiguidade que cercam a vida: a sociedade produziu seu ‘lixo’ onde foi depositado tudo aquilo que ela separou, apartou, descartou, excluiu da superfície e jogou para o fundo, mas é aqui, justamente desse ‘limbo’ que vemos ressurgir algo que acreditávamos há muito termos perdido. Como é possível que os valores mais fundamentais da vida tenham se refugiado nesse ‘lodo’ e sobrevivido ao lado de tanta violência, miséria e dor? (SANCHES, 1999) De fato sabemos que as dificuldades enfrentadas por esta população são imensas e que limitam a sua ascensão em diversos aspectos, educacionais, de renda, cultura, mas o que buscamos mostrar é que apesar dessas dificuldades esses moradores conseguem viver de uma forma em que as ausências estruturais parecem ser substituídas pela presença de um companheirismo e um espírito de vizinhança, que tornam essas áreas, para os moradores, tranquilas e sossegadas, como os mesmos apresentaram em nossas entrevistas. 65 5. Bibliografia BONDUKI, Nabil e ROLNIK, Raquel. Periferia da Grande São Paulo. Reprodução do espaço como expediente de reprodução da força de trabalho. In MARICATO, Ermínia (org.). A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1982, p. 117-154. BURGOS, Rosalina. Periferias urbanas da metrópole de São Paulo: Territórios da Base da Indústria da Reciclagem no Urbano Periférico. 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( ) Sim ( ) Não Se não, onde residem os que não moram na casa? ___________________________________________________________________________________________________ __________________________________________ Para quem nasceu em outro município/estado: 1. Porque veio para São Paulo? ______________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ 2. Tinha algum bem no local de origem? Qual? _________________________________________________________________________ ___________ _________ ______ _________________________________________________ 3. Há quanto tempo reside neste domicílio? __________________________________________ 4. Antes de morar aqui onde morava (município/bairro), e porque veio pra cá?___________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ __________________________ 5. Qual o tipo do imóvel? ( ) alugado ( ) próprio ( )de parente ( ) outro 6. Qual a forma de aquisição do ( ) terreno/ ( )casa ? ( ) compra à vista ( ) compra financiada ( ) ocupação ( ) outro 6.1 Qual a forma do financiamento?_____________________________________________________________________________ _____________________________________________ 7. Qual a forma de construção do imóvel? ( ) profissional pago ( ) doméstico/familiar 69 ( ) misto ( ) misto c/ maior parte por profissional ( ) misto c/ maior parte por familiar 7.1O que acha do fato da própria família ter participado na construção da casa? _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ __________________ 7.1 .1Tem alguma história ou lição que o senhor(a) gostaria de contar deste fato? _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ __________________ 8 Ajudou ou obteve ajuda dos vizinhos no processo de construção? ( )sim ( )não 8.1De que forma de ajuda?_________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ 9 Em sua opinião, e de uma maneira geral, o senhor(a) considera que conhece seus vizinhos: ( )muito bem ( ) bem ( )regular ( ) pouco ( ) muito pouco 9.1 E como classificaria sua relação com eles: ( ) muito boa ( ) boa ( )regular ( )ruim ( )péssima 10 O que o senhor(a) acha de morar aqui (neste bairro)? ( ) ótimo ( ) bom ( )regular ( )ruim ( )péssimo 10.1 Porque dessa opinião?_______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ ____________ 11 Diga o que acha de melhor em morar aqui: _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________ 12 Diga o que acha de pior em morar aqui:____________________________________________________ 70 _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ ____________ 13 Alguém da casa já sofreu algum constrangimento, ou preconceito, ao dizer que morava aqui? ( )sim ( )não 13.1Como foi?_____________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ ____________ 14 Tem vontade de mudar daqui (bairro)? ( )sim ( )não 14.1Porque?_________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________ _________________________________________________ 15 Sobre o comércio da região, o senhor(a) costuma comprar em estabelecimentos familiares (aqueles em que o dono e a familiares trabalham nele)? ( )sim ( )não 16 Tem algum comércio em que o senhor(a) consegue comprar “fiado”? ( )sim ( )não 16.1 Quantos?__________________ 71