Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas
Departamento de Geografia
Trabalho de Graduação Individual
Marcelo Nunes Diniz
1972
2008
Discutindo a periferia: produção do espaço,
centralidade, e vida na periferia.
Orientador: Prof. Dr. Ricardo Mendes
São Paulo – Julho/2012
Sumário
Introdução ......................................................................................................... 3
1.
A Estruturação da Metrópole Paulistana ................................................. 7
A formação da Região Metropolitana de São Paulo ......................................... 7
A estruturação de Osasco ................................................................................ 17
Nossa área de estudo ....................................................................................... 18
2.
As Centralidades na Região Metropolitana de São Paulo ..................... 31
Osasco: da centralidade da indústria à centralidade dos serviços ................... 40
A Mobilidade Pendular e Osasco ................................................................... 43
3.
A Periferia e Seus Moradores ................................................................ 49
Discutindo o conceito de Periferia .................................................................. 49
A Visão dos Moradores: Análise das Entrevistas ........................................... 53
4.
Considerações Finais ............................................................................ 64
5.
Bibliografia ............................................................................................. 66
6.
Anexo: Questionário Aplicado ............................................................... 69
2
Introdução
Este trabalho nasce da nossa intenção de relacionar o conhecimento acadêmico
adquirido em mais de cinco anos de graduação com a nossa experiência de vida como
morador da periferia paulistana e, desta forma, buscamos levantar a gênese e
estruturação de parte desta periferia, bem como trazer os novos processos que aí se
desenvolvem, e, sobretudo, empreender um esforço de levantar a opinião dos moradores
desta área para dentro desta discussão.
Nesse sentido delimitamos uma área de estudo que se constitui nos bairros Jd.
Baronesa, Jd. Bonança, Industrial Anhanguera, Paiva Ramos, Portal D'Oeste, Santa Fé e
Três Montanhas situados no extremo norte do município de Osasco e que fazem divisa
com os municípios de Barueri e São Paulo. Esta área foi escolhida por dois motivos: o
Fizemos esta escolha primeiro por mantermos uma relação de proximidade com esta
região construída por morarmos nela por mais de 15 anos, e o segundo, por nossa
observação de que esta área ainda passa por um processo de expansão e que entendemos
que possa ser uma característica vivenciada por outras áreas da metrópole paulistana.
Para alcançarmos nossos objetivos partimos do pressuposto de que os processos
que se espacializam atualmente na metrópole paulistana representam um movimento
que tende a superar a primazia da indústria como principal indutor da urbanização.
Contudo, para entendermos esse momento da metrópole paulistana com suas constantes
transformações socioespaciais, é preciso resgatar um período anterior, no qual seu
crescimento esteve diretamente relacionado ao processo de expansão fabril.
Para LEFÈBVRE (2008) a urbanização e o urbano contêm o objetivo da
industrialização, dito de outro modo, a produção industrial e seu crescimento
forneceriam condições à urbanização, permitindo o desenvolvimento da “sociedade
urbana”. Apesar disso, a implantação da indústria não estaria, necessariamente,
3
vinculada à cidade, estando, acima de tudo, relacionada à proximidade dos capitais e
dos capitalistas, além de outros fatores, para o autor
Sabe-se que inicialmente a indústria se implanta – como se diz –
próxima às fontes de energia (carvão, água), das matérias-primas
(metais, têxteis), das reservas de mão-de-obra. Se ela se aproxima das
cidades, é para aproximar-se dos capitais e dos capitalistas, dos
mercados e de uma abundante mão-de-obra, mantida a preço baixo.
Logo, ela pode se implantar em qualquer lugar, mas cedo ou tarde
alcança as cidades preexistentes, ou constitui cidades novas, deixandoas, em seguida, se para a empresa industrial há algum interesse nesse
afastamento. (LEFÈBVRE,0 2008: 15)
O processo de estruturação da metrópole de São Paulo, a exemplo do que aponta
a teoria, possuiu, de fato, uma estreita relação com a industrialização, sendo esta, um
elemento central para a estruturação dos bairros paulistanos, sobretudo, do final do
século XIX ao início do século XX. Neste período, a atividade industrial era articulada
com a estrutura urbana, em outas palavras, a cidade era estruturada de forma a
possibilitar que a atividade industrial se relacionasse com outros setores da economia
não apenas nas relações intrínsecas à cadeia de produção e comercialização, mas
também espacialmente. A disposição física da cidade procurava atender à necessidade
dos fluxos, ou seja, a indústria se localizava em espaços estratégicos que se articulavam
com os dos demais setores, o que facilitava o escoamento da produção, bem como o
acesso dos trabalhadores a esses locais.
Dessa forma, para se compreender a relação entre a dinâmica industrial e
produção do espaço urbano é necessário considerar também diferentes momentos tanto
da industrialização quanto da urbanização. Ora, se considerarmos que a industrialização
foi um elemento indutor para a urbanização de muitas metrópoles como a de São Paulo,
por outro percebemos que a relativa perda da importância da atividade industrial em
determinados bairros provoca profundas transformações socioespaciais.
Na tentativa de encontrar elementos concretos do processo que destacamos,
buscamos articular a bibliografia escolhida com dados primários e secundários que
4
quantificam os elementos levantados e trazem informações específicas de nossa área de
estudo.
Pensando numa forma de estruturar as diferentes dimensões que cercam o
processo da urbanização e, no nosso caso, da formação da metrópole paulistana
englobando a sua periferia, buscamos dividir nosso trabalho em três capítulos, cada um
representando um aspecto do processo da urbanização da metrópole paulistana, a saber:
A Estruturação da Metrópole Paulistana; As Centralidades na Região Metropolitana de
São Paulo; e A Periferia e Seus Moradores, aqui ressaltamos que o entendimento do
processo de formação e expansão da periferia deve considerar que os três aspectos são
parte do mesmo processo e que, portanto, não devem ser analisados de forma separada.
Dentro de cada capítulo buscamos iniciar cada discussão de uma perspectiva
mais genérica, ou melhor, de um escala mais abrangente, até chegarmos à discussão de
nossa área de estudo propriamente dita, escolhemos este modelo por entendermos que
não se pode analisar os aspectos locais sem entender as lógicas que os regem. Além
disso, destacamos que os dados levantados, primários ou secundários, serão encontrados
na parte final de cada capítulo, fizemos isso tentando demonstrar que estes por si só não
são explicativos, porém servem para evidenciar, com dados atualizados, ou mesmo
novas informações, o que o levantamento bibliográfico discute, demonstrando que o
tema embora bastante discutido não está esgotado.
Desta forma apresentamos no primeiro capítulo a estruturação da metrópole
paulistana, bem como do município de Osasco, sendo que os dados empíricos são
apresentados por meio de um levantamento elaborado a partir de fotos aéreas e imagens
de satélites, que busca demonstrar a evolução da estruturação da nossa área de estudo.
Também apresentaremos uma análise de aspectos demográficos da área de estudo tendo
5
como base os dados obtidos nos censos 2000 e 2010, elaborados pelo IBGE, visamos
assim, mostrar a dinâmica atual desta parcela da metrópole. .
No capítulo 2 apresentamos uma discussão a cerca da ideia de centralidade, nas
diferentes escalas de análise, que busca identificar as alterações que ocorreram na
relação entre o centro e a periferia, nos diferentes períodos da metrópole. O trabalho
empírico neste caso é apresentado por meio de uma análise da centralidade do
município de Osasco, esta feita com base nos dados oriundos da pesquisa Origem e
Destino1 do METRÔ.
Já no último capítulo trazemos uma discussão a cerca do conceito de periferia
desde sua origem até a sua atual interpretação, concluindo-se com uma pesquisa
realizada por nós junto aos moradores, por meio da aplicação de questionários, e que
teve como objetivo trazer a visão destes sobre esta área da metrópole.
1
“A Pesquisa Origem e Destino, ou simplesmente Pesquisa O/D, é realizada desde 1967 na Região
Metropolitana de São Paulo – RMSP, com periodicidade de dez anos, e tem por objetivo o levantamento
de informações atualizadas sobre as viagens realizadas pela população da metrópole em dia útil típico”
(METRÔ, 2007). Para executar esta tarefa é feita uma divisão da RMSP em zonas e respeitando os limites
municipais. Em 1997 foram 389 zonas e em 2007 foram 460. A coleta das informações é feita por meio
de amostras coletadas diretamente em domicílios sorteados respeitando uma classificação de renda obtida
por meio da faixa de consumo de energia elétrica.
6
1.
A Estruturação da Metrópole Paulistana
A formação da Região Metropolitana de São Paulo
O mundo assistiu a partir das primeiras décadas do século XX o fenômeno da
urbanização emergir de forma contundente nos países da periferia do sistema mundial. e
que ganhou força depois do fim da segunda Guerra perdurando por toda a segunda
metade do século XX. Nesse período enquanto os países centrais passavam por um
período de crescimento urbano lento, apesar de possuírem um maior grau de
urbanização, os países periféricos passaram, em um curto período, a possuir grandes
cidades, “de fato de longe as grandes aglomerações urbanas no fim da década de 1980
eram encontradas no Terceiro Mundo: Cairo, Cidade do México, São Paulo e Xangai,
cujas populações se contavam na casa das dezenas de milhões.” (HOBSBAWM, 1994).
No Brasil vimos surgir neste período um adensamento, gradativo, da população
nas cidades bem como a ampliação destas, como destaca Milton Santos:
A partir dos anos 1970, o processo de urbanização alcança novo
patamar, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto do ponto de vista
qualitativo. Desde a revolução urbana brasileira, consecutiva à
revolução demográfica dos anos 1950, tivemos, primeiro, uma
urbanização aglomerada, com o aumento do número – e da população
respectiva – dos núcleos com mais de 20 mil habitantes e, em seguida,
uma urbanização concentrada, com a multiplicação de cidades de
tamanho intermédio, para alcançarmos, depois, o estágio da
metropolização, com o aumento considerável do número de cidades
milionárias e de grandes cidades médias (em torno de meio milhão de
habitantes) (SANTOS, 2008: 77)
A metrópole de São Paulo surge e se consolida nesse contexto. No final do
século XIX e início do XX a capital paulista passa por um processo crescimento
industrial, fruto das possibilidades levantadas pela economia cafeeira, que tem como
consequência, ou seria premissa, um grande crescimento demográfico neste período. Na
década de 1930 com a chegada de Vargas ao governo federal e a introdução de uma
política voltada para a industrialização esse processo passa a ser intensificado, o que
7
gerou consequências para a cidade nas décadas seguintes. O que se verificou como
resultante deste processo foram o surgimento e a consolidação da metrópole paulistana.
Para analisar a constituição e expansão da metrópole paulistana utilizaremos
como base o trabalho de LANGENBUCH (1971), que nos mostra as fases iniciais e de
pico de expansão da metrópole industrial, e os trabalhos de SANTOS (1994) e
CARLOS (1994), onde vemos uma mudança no padrão de expansão, bem como, da
disposição da indústria no interior da metrópole.
LANGENBUCH (1971) periodiza a estruturação da metrópole paulistana da
seguinte forma: de 1875 a 1915 como uma fase Pré-Metropolitana; de 1915 a 1940
como o Início da Metropolização; e a partir de 1940 como a fase da Grande
Metropolização, a esta periodização acrescentamos que o último período, apresentado
por Langenbuch, perdura até meados da década de 1970.
Como toda periodização se faz como forma de sintetização de características
comuns vivenciadas por determinado fenômeno num determinado intervalo temporal,
não seria diferente com a evolução metrópole de São Paulo, sendo assim destacaremos
as características principais levantadas por LANGENBUCH (idem), sobre estas fases do
desenvolvimento desta área, cabendo aqui ressaltar que não nos aprofundaremos nos
assuntos por ele apontados por entender que estes servem apenas como referência para
este trabalho.
Isto posto, podemos destacar na fase de Pré-Metropolização, a importância das
ferrovias, introduzidas pela economia cafeeira, em criar “pontos de convergência” ao
longo de seus percursos os chamados “povoados-estação”, que num primeiro momento
serviam como atrativo para formação de pequenos comércios e povoados, como mostra
LANGENBUCH (1971:104) “as estações ferroviárias que foram sendo estabelecidas
nos arredores paulistanos se constituíram, assim, em pontos de convergência de
8
produtos e pessoas das áreas circunvizinhas. Isto conferia ao local das estações a
oportunidade de assumir uma modesta função regional”. Com o decorrer do tempo,
diversos desses povoados-estação formariam importantes núcleos da futura metrópole,
com diversas funções destacando-se, sobretudo, a atividade industrial, mas possuindo
também atividades militares e hospitalares, dentre outras.
O período seguinte, o Início da Metropolização, caracteriza-se por ser aquele em
que de fato começa a surgir a metrópole de São Paulo, coincide com o momento em que
a industrialização passa por um processo de crescimento, decorrente, num primeiro
momento, pela substituição de importações, reflexo da I Guerra Mundial, e, na década
final do dito período, pela política de industrialização implantada pelo Estado brasileiro.
Nesse sentido a evolução da metrópole paulistana não pode ser separada da evolução da
indústria ali instalada. Como no período anterior, a ferrovia continuou sendo o fator de
orientação da expansão urbana e consequentemente da metropolização de São Paulo,
embora surjam novos loteamentos nas áreas intraurbanas, e nestes haja um grande
crescimento demográfico, é no entorno das estações férreas que se constituirão os
subúrbios residenciais e industriais, como descreve LANGENBUCH:
Nos “subúrbios-estação” (sucessores dos “povoados-estação”) tende a
se esboçar um zoneamento funcional muito simples: junto à estação
concentram-se o comércio e a prestação de serviços, na maior parte
dos casos apresentando um desenvolvimento modesto e limitado. Em
torno estende-se a área residencial. (...) Os subúrbios industrializados,
obviamente, apresentam mais uma área funcional: a industrial, em
geral, sito junto à ferrovia, estendendo-se ao longo da mesma (de
forma descontínua) no caso dos subúrbios que conheceram uma
industrialização diversificada (São Caetano, Utinga, Santo André, até
certo ponto Osasco). (LANGENBUCH, 1971: 151)
Cabe aqui salientar que esta expansão da urbanização não se deu de forma
contínua, havendo, portanto, diversos “vazios”, entre as áreas já urbanizadas e entre
estas e os novos subúrbios, face de um processo de especulação imobiliária, que desde o
princípio caracterizou a Região Metropolitana de São Paulo.
9
No período em que há a maior expansão da metrópole paulistana, A Grande
Metropolização Recente, vemos que esta ocorre por conta da intensificação dos
processos vivenciados na fase anterior, bem como, pela introdução de alguns novos
elementos. Com o crescimento da indústria, reflexo tanto das políticas internas quanto
do contexto internacional, destacados anteriormente, vemos ocorrer um crescimento das
áreas propriamente urbanas na metrópole, baseado, segundo LANGENBUCH, na
ocupação dos espaços livres no interior de bairros já urbanizados, no crescimento
vertical de diversos desses bairros, bem como na expansão da área edificada sobre os
núcleos suburbanos, e também na continuidade de geração de novos “subúrbiosestação”.
Destaca-se neste período o crescimento, em quantidade e importância, da
circulação rodoviária, sobretudo através dos ônibus, que no período anterior apresentava
pouca relevância, mas que apresenta-se como fator multiplicador neste momento de
expansão, pois possibilitava a expansão dos “subúrbios-estação” para distâncias mais
longas, bem como, possibilitava o surgimento de novos núcleos, os “subúrbiosloteamentos” que “não se desenvolvem em função de nenhum polo local de atração.
Provém de loteamentos cujo lançamento e cuja efetiva ocupação dependem de fatores
não geográficos (especulação imobiliária, ‘agressividade de vendas’, facilidades
oferecidas aos compradores)...” (LANGENBUCH, 1971: 200), e que se ampliariam
gradativamente mesmo estes não sendo servidos diretamente pelas linhas de ônibus,
porém dependendo destas para surgir.
Ainda no campo do crescimento impulsionado pela construção de estradas
podemos destacar o surgimento de dois polos de industrialização ligados ao surgimento
das rodovias Anchieta e Dutra, a primeira potencializando o desenvolvimento da
indústria em São Bernardo do Campo, que já conhecia algumas unidades fabris por
10
conta da proximidade com antigos os polos industriais de São Caetano e Santo André, a
segunda autoestrada é de fato o catalisador do surgimento de um polo industrial na parte
sul de Guarulhos.
Desta forma podemos observar um papel duplo da circulação rodoviária: de um
lado possibilitava a expansão das áreas residenciais, geralmente ligadas a um processo
de especulação, sobretudo por meio do “subúrbios-loteamentos”; de outro possibilitava
a ligação extra regional, por meio das rodovias, que facilitava a circulação dos produtos
gerados e consumidos na região que se consolidava.
Podemos destacar como características principais que fundaram a Região
Metropolitana de São Paulo, até a década de 70, o seu início ligado às estruturas
herdadas da economia cafeeira, sobretudo o poder polarização das estações ferroviárias,
em seu desenvolvimento destaca-se a importância da indústria, agora tida como modelo
de desenvolvimento nacional, e já próximo ao fim deste período, chama atenção a
circulação rodoviária como fator a potencializar a expansão das áreas já urbanizadas.
No trabalho de Santos (1994) vemos que após esse período a já constituída
Região Metropolitana de São Paulo passa por algumas mudanças, tanto de ritmo de
crescimento quanto nas funções exercidas. Neste momento a metrópole já não possui
mais grandes vazios entre seu núcleo e os subúrbios, mostrando-se uma área bastante
compacta, e que passa a ter um crescimento menor que em outras áreas, que pode ser
observado pela redução da taxa de crescimento de sua população, passando esta taxa a
ser menor do que a encontrada no estado de São Paulo e no Brasil, o que mostra uma
inversão em relação a tendência anterior onde RMSP aparecia como área de maior
crescimento, como vemos na Tabela 1-1.
11
Tabela 1-1 Evolução da população de 1872 a 2010
Município de São Paulo
Região Metropolitana de SP
Estado de São Paulo
Brasil
Anos
Taxa de
População
Crescimento
1872
31.385
1890
64.934
1900
239.820
1920
579.033
Taxa de
(1)
População
Crescimento
-
4,1
1.568.045
2.198.096
1960
3.781.446
5,6
1970
5.924.615
8.493.226
1991
9.646.185
2000
10.434.252
2010
11.253.503
3,2
31.588.925
17.878.703
1,9
146.825.475
1,8
37.032.403
1,0
19.683.975
2,5
119.002.706
2,1
1,6
0,8
93.139.037
25.040.712
15.444.941
2,9
3,5
1,9
0,9
3,1
70.119.071
17.771.948
12.588.725
2,3
51.944.397
3,6
4,5
1,2
41.236.315
12.974.699
8.139.730
1,5
2,4
5,6
3,7
1980
2,3
6,1
4,6
2,9
30.635.605
9.134.423
4.739.406
1,9
17.318.556
7.180.316
2.622.786
2,0
3,6
5,3
1,6
169.799.170
1,1
41.262.799
(1)
14.333.915
4.592.188
-
5,2
Crescimento
5,1
-
4,2
População
2,8
2.282.279
-
Taxa de
(1)
10.112.061
1.384.753
-
4,5
1950
Crescimento
-
-
1.326.261
População
837.354
14,0
1940
Taxa de
(1)
1,2
190.755.799
(1) Taxa de Crescimento Geométrico Anual
Fonte: IBGE, Censos Demográficos2
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Analisando a Tabela 1-1 vemos que durante o período de consolidação da RMSP
as taxas de crescimento desta superam não apenas as do estado e do país, mas também a
do município de São Paulo, o que demonstra o peso dos subúrbios nesse crescimento,
mesmo no período pós 80 a RMSP cresceu mais que a capital, com destaque para as
décadas de 80 e 90 onde esta superou o crescimento da capital em mais de 50%. Isso
não quer dizer que esse crescimento, mesmo arrefecido, não aumente a área já
urbanizada da RMSP, pelo contrário, como não se encontra mais grandes vazios nos
2
Retirado de “http://smdu.prefeitura.sp.gov.br/historico_demografico/tabelas/pop_brasil.php”, acessado
em 20/01/2012
12
espaços já ocupados, todo esse crescimento tende a ocorrer nas áreas periféricas da
metrópole, como no caso da nossa área de estudo.
Esse processo é explicado por Santos por meio do conceito de involução
metropolitana, que para o autor, define-se da seguinte forma (SANTOS, 1994:53)
Esta seria um resultado da difusão no território daquilo a que
chamamos de meio científico–técnico (M.Santos, Metamorfoses do
Espaço Habitado, Hucitec, São Paulo, 1987), por sua vez
conseqüência da difusão à escala mundial das variáveis que
caracterizam o presente período histórico.
Desta forma o processo de urbanização estaria passando por um momento onde,
cidades do interior, ou de uma hierarquia urbana inferior à das grandes cidades
metropolitanas, passaram a ganhar maior importância econômica e social, como
podemos ver:
Nos dias atuais, as cidades tocadas pelo processo de modernização
agrícola ou industrial típico do período técnico-científico conhecem
um crescimento econômico considerável, enquanto é nas grandes
cidades que acumula a pobreza e atividades econômicas pobres, uma
reversão em relação ao período anterior (idem:75)
O autor ainda demonstra quais seriam os principais pontos onde poderíamos
observar o processo vigente expondo desta forma os três principais indicadores deste
processo, que são:
1) O produto interno bruto (PIB) cresce menos nas metrópoles do que
no país como um todo e em certas área de sua região de influencia;
2) Nas áreas onde o capitalismo amadurece, há tendência à reversão
do leque salarial, com certas ocupações menos bem remuneradas
envolvendo um maior percentual de trabalhadores na metrópole que
no campo;
3) certos índices de qualidade de vida tendem a ser melhores no
Interior do que nas Regiões Metropolitanas. (idem:76)
A partir da análise do conceito de involução metropolitana, vemos que a
metrópole atravessa um período onde seu protagonismo econômico diminui em
comparação com outras áreas do território, ainda que este processo seja gradual. Como
13
consequência desse processo de involução metropolitana, o autor destaca a crescente
desigualdade, e precarização da vida nas metrópoles.
Como dissemos anteriormente a diminuição da participação relativa da
metrópole não significa que esta parou de crescer, embora, como também já dissemos,
há algumas diferenças no crescimento vivido neste período em relação aos anteriores. A
primeira diferença se dá com relação à nova área de expansão da indústria que segundo
CARLOS, a partir de meados da década de 70, passa a ser no entorno da rodovia
Raposo Tavares, zona oeste da metrópole, esta seguindo o modelo que já fora visto no
entorno de outras rodovias, como destaca a autora
A partir da metrópole paulista, a localização industrial dá-se
preferencialmente ao longo de rodovias e “marginais”. Depois da
Anchieta, Anhanguera e Dutra, na década de 50, Castelo Branco e
Imigrantes, nas décadas de 60 e 70; a Raposo Tavares (1970 e 1980)
passa a ter um grande afluxo de estabelecimentos industriais, vindo da
capital, ou de outros municípios da Grande São Paulo, ou mesmo do
estado; ou ainda, novas firmas, que começaram agora sua atividade.
(1994: 103)
A outra diferença encontrada, muito mais significativa, é com relação à
expansão das habitações para áreas periféricas, que nos períodos anteriores,
praticamente se restringia à população mais pobre, mas, que nesta nova fase passa a ser
também a opção de parte dos mais abastados, por meio dos loteamentos e condomínios
de médio e alto padrão, estes surgindo como uma alternativa aos problemas encontrados
nas áreas mais centrais, propiciando um verdadeiro contraste nestas áreas, que podemos
observar na análise de CARLOS sobre a (re) produção do espaço no município de Cotia
Na análise da paisagem cotiana já apontamos para o fato de que sua
principal característica é a sua desigualdade, na medida em que a
(re)produção do espaço cotidiano dava-se aprofundando o contraste
entre as áreas arborizadas dos loteamentos e dos condomínios de alto
luxo de um lado, e os loteamentos da classe operária em geral de
outro, com aspecto de “amontoado” de casas mal construídas, mal
conservadas, pouco arejadas, às vezes, úmidas, e insalubres cujo o
conforto é pouco e o tamanho exíguo para o número de ocupantes.
(1994:135)
14
É importante destacar que, mesmo com o fenômeno da involução metropolitana,
o estado de São Paulo ainda se encontra muito metropolizado, as três regiões
metropolitanas do estado ainda representam 58,52% da população estadual (24.145.248
habitantes), de acordo com o censo de 2010, sendo 47,70% para a metrópole paulistana,
6,78% para a região de Campinas e 4,03% para a de Santos, sendo em números
absolutos, respectivamente, 19.683.975, 2.797.137, 1.664.136, números praticamente
idênticos aos observados em 2000 que somavam 58,58% (21.693.671) do total da
população.
Pensando no crescimento da área urbanizada podemos observar no Mapa 1-1
que esta atualmente encontra-se bastante concentrada, como destaca Ricardo Ojima em
sua tese de doutoramento, onde apresenta um Indicador de Dispersão Urbana como
forma de comparação entre as diferentes aglomerações urbanas brasileiras. Este trabalho
fora resumido pelo próprio autor como sendo um
Investimento teórico e metodológico na busca de evidências que
confirmem as proposições teóricas de uma nova etapa do
desenvolvimento da sociedade moderna e os desafios para a questão
ambiental nos contextos urbanos. O indicador considerou dimensões
sociais e espaciais para compor um indicador sintético de dispersão
urbana para as aglomerações urbanas brasileiras, sendo elas:
Densidade, Fragmentação, Linearidade e Centralidade. (OJIMA,
2007)
O resultado obtido para RMSP mostra que esta, apesar de sua grande extensão
territorial, encontra-se bastante concentrada, sobretudo, por possuir uma grande
densidade populacional, uma área pouco fragmentada, além de ainda ter uma grande
centralização na capital paulista.
Cabe aqui salientar que embora encontre-se bastante concentrada, a dinâmica
atual de crescimento da mancha urbana mostra que este se dá de forma mais difusa,
ocorrendo principalmente nos municípios mais periféricos da Região Metropolitana de
São Paulo.
15
A estruturação de Osasco
Osasco tem seu início de ocupação como um dos diversos povoados-estação
que, com o avanço de atividades comerciais e industriais ao longo do início do século
XX, torna-se um subúrbio-estação de grande relevância no contexto da formação da
Região Metropolitana de São Paulo, sendo inclusive considerado uma das “cidades
satélites” da região já na década de 1960 (LANGENBUCH, 1971: 238), sendo assim
um polarizador da porção oeste da RMSP, e que se destaca por ser o único município
que chega a esta condição por meio da emancipação em relação a capital como vemos
em LANGENBUCH
Um caso a parte é o de Osasco. Trata-se do único subúrbio integrante
do município de São Paulo que chegou a se emancipar. Tal se deu em
decorrência de plebiscitos (eivados de irregularidades, segundo
denunciavam jornais e os opositores da medida), e de um processo
jurídico movido pela Prefeitura de São Paulo, por ela perdido. É um
caso raro este, de se desanexar um subúrbio administrativamente
subordinado à metrópole, que se contrapõe a praxe universalmente
comum, de se procurar anexar os subúrbios administrativamente
desvinculados. (LANGENBUCH, 1971: 231)
Salvo a sua emancipação, Osasco não foge ao modelo de ocupação da Região
Metropolitana de São Paulo, sendo sua ocupação inicial polarizada pela estação
ferroviária, como destacado anteriormente, mas que tem uma expansão, sobretudo na
sua porção norte, de modelo de subúrbio-loteamento, ou seja, tendo como único
atrativo a possibilidade de moradia, apesar de ainda não possuir as estruturas
necessárias para uma boa condição de ocupação. Sendo assim vemos que
industrialização e suburbanização residencial foram os principais fatores da constituição
do município, como destaca CONSTANTINO
Já nos anos 60, a indústria osasquense era responsável por 90% da
renda bruta do município. A partir deste período, percebemos que a
população local cresceu acentuadamente ‘acarretando numa rápida
expansão da área ocupada em direção à sua periferia, que de início
não oferecia plenas condições de ocupação (COELHO, 1998:112)’
(CONSTATINO, 2009: 93)
O crescimento populacional de Osasco pode ser observado por meio da tabela 12, onde vemos o grande salto da população local entre os anos de 1940 e 1980 e a quase
estabilização da população na última década. Comparando com as outras unidades
administrativas vemos que Osasco, até a década de 1980, tem um crescimento muito
superior a estas, e que, a partir daí, vem diminuindo paulatinamente este aumento.
Tabela 1-2 Evolução da população de Osasco de 1940 a 2010
Município de Osasco
RMSP
(1)
Estado de São Paulo
(1)
Brasil
(1)
Anos
Taxa de
População
Taxa de
População
Crescimento*
1940
15.128(
1950
43.427
2)
1.568.045
11,12
(2)
5,3
10,35
1960
116.240
2,4
6,1
-
12.974.699
8.139.730
7,27
1980
473.168(
3)
1991
565.543(
3)
2000
651.736(
3)
4,5
1,63
2010
666.621
2,1
1,6
0,23
(3)
1,9
146.825.475
1,8
37.032.403
1,0
19.683.975
2,5
119.002.706
31.588.925
17.878.703
2,9
93.139.037
3,5
1,9
1,59
70.119.071
25.040.712
15.444.941
3,1
3,2
17.771.948
12.588.725
2,3
51.944.397
3,6
5,6
1970
Crescimento*
41.236.315
9.134.423
4.739.406
Taxa de
População
Crescimento*
7.180.316
2.622.786
(2)
Taxa de
População
Crescimento*
1,6
169.799.170
1,1
41.262.799
1,2
190.755.799
*Taxa de Crescimento Geométrico Anual
Fonte: (1)IBGE, Censos Demográficos3; (2)LANGENBUCH (1971:251); (3) SEADEInformação dos Municípios Paulistas
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Nossa área de estudo
Para observar e analisar como esse crescimento de Osasco forma a nossa área de
estudo utilizamos como método o uso de técnicas de sensoriamento remoto e
geoprocessamento, tendo como base, fotografias aéreas, por nós digitalizadas e
georreferenciadas, imagens de satélite (retiradas do software Google Earth4), também
3
Retirado de “http://smdu.prefeitura.sp.gov.br/historico_demografico/tabelas/pop_brasil.php”, acessado
em 20/11/2011
4
Fonte que vemos como boa base de informação por possuir imagens, de grande qualidade, de diferentes
datas e disponibilizadas gratuitamente (que permite visualizar as alterações da paisagem, como no nosso
18
georreferenciadas, e a malha digital dos setores censitários5 do IBGE, e como
ferramenta de manipulação e tratamento dos dados utilizamos o software ArcGis 9.3.
Destacamos que vimos nestas bases uma boa forma de se analisar áreas de menor
abrangência, e com maior rigor de detalhe, pois, em métodos como o utilizado por
Ricardo Ojima, que utiliza apenas a malha digital do setores censitários urbanos, como
forma de delimitar as áreas urbanas, não é possível observar as alterações internas em
setores já declarados como urbanos, a título de exemplo o município de Osasco desde o
Censo de 2000 só possui setores censitários urbanos, embora ainda havendo grandes
espaços não ocupados diretamente, como observamos em nossa área de estudo.
Isto posto podemos observar por meio da Figura 1-1 o surgimento do bairro
Jardim Baronesa, que nasce como subúrbio residencial ainda no inicio da década de
1970, e que se mostra como a primeira área de ocupação urbana de nossa área de
estudo.
caso), principalmente, de áreas urbanas, , tendo como ponto negativo o fato destas imagens não possuírem
uma periodicidade regular.
5
A Malha representa os limites de cada setor censitário, menor unidade territorial utilizada no censo, e
que permite uma análise intramunicipal.
19
Figura 1-1 área Ocupada no ano de 1972.
Fonte: Fotografia aérea de 1972, acervo LASERE-DG-USP.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz.
Como podemos observar, na imagem acima, a área de estudo encontrava-se no
ano de 1972 praticamente sem a função urbana estruturada, sendo apenas o bairro Jd.
Baronesa ocupado, ainda de forma dispersa, perfazendo pouco mais de 75 ha, o que
demonstra que, embora o município já possuísse grande relevância, como destacado
anteriormente, ainda tinha uma grande área para expansão.
Se em 1972, apenas o Jd. Baronesa estava de certa forma consolidado, em 1994,
ano de levantamento aerofotogramétrico da região que conseguimos ter acesso,
praticamente todos os bairros já se encontravam em fase de ocupação bastante
avançada, como vemos na Figura 1-2, cabe aqui ressaltar que a imagem não abarca a
porção sul do bairro Jd. Baronesa, mas que não compromete a análise, pois tal região já
se encontrava ocupada na fase anterior.
20
Figura 1-2 área Ocupada entre 1972 e 1994
Fonte: Fotografia aérea de 1994, acervo LASERE-DG-USP.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz.
Como podemos observar na imagem há um grande aumento, cerca de 430 ha, da
área ocupada no período entre as imagens (apresentadas nas Figuras 1-1 e 1-2), o que
nos permite dizer que é neste período que de fato a ocupação dessa área se consolida,
porém, podemos observar que ainda assim há uma grande área desocupada, localizada,
principalmente, nos bairros Jd. Bonança e Paiva Ramos. Ainda na Figura 1-2 destaca-se
a formação industrial na porção leste, junto à rodovia Anhanguera, que ocupa boa parte
da área de estudo, e que contrasta com os outros bairros, de cunho essencialmente
residencial, desfazendo parte da ideia de que toda periferia se mostra desprovida de
emprego. .
21
Outro aspecto que demonstra a não homogeneização das áreas periféricas é a
constituição do bairro três montanhas, que surge neste mesmo período, porém sendo
ocupado, em parte, por habitações de padrão elevado, como mostra RIBEIRO
Notamos a existência de bolsões de riqueza ao lado de áreas de
pobreza, o que faz a periferia ser heterogênea. Deu-se a formação de
condomínios horizontais de alto padrão (do tipo chácaras residenciais),
em áreas ditas periféricas, disputando espaço com a população pobre.
(RIBEIRO, 2004: 4)
Esse “bolsão de riqueza” de que fala Ribeiro, pode ser observado na Figura 1-7,
onde vemos como este é “circundado” pela pobreza na formação da comunidade do Jd.
Açucará que discutiremos adiante.
Nossa próxima imagem é do ano de 2000 e demonstra uma grande diferença da
ocupação em relação aos períodos anteriores, tendo grande destaque ocupações
irregulares em alguns pontos e que vemos nas Figuras 1-3 e Figura 1-4.
Figura 1-3 área Ocupada entre 1994 e 2000
Fonte: Imagem de Satélite do ano de 2000, Google.
22
Figura 1-4 Ocupação irregular em área de topo e vertente de morro.
Fonte: Imagem de Satélite do ano de 2000, Google.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz.
Vemos na Figura 1-3 que a expansão da área ocupada se dá pela ocupação de
alguns vazios tanto nos bairros residenciais quanto no industrial, destacando-se a
diferença de ocupação na porção oeste do bairro Jd. Bonança, e que vemos em detalhe
na Figura 1-6, e em menor escala no centro do Industrial Anhanguera. Nesta área vemos
que há uma grande ocupação irregular, conhecida como Morro do Socó, e que destacase por sua acentuada declividade e pelo tamanho pequeno e irregular das casas,
diferenciando-se dos loteamentos populares regulares, onde os lotes, geralmente, são de
tamanhos padronizados e que se fizeram presentes na maior parte da ocupação da área
de estudo. Tal mudança do padrão de ocupação, que podemos chamar de favelização da
23
periferia6, caracteriza-se por ser ocupações em áreas de terrenos de relevo bastante
irregular, como no caso visto, ou em áreas muito próximas a cursos d’água, e que por
estes motivos não podem ser loteadas tornando-se alternativas habitacionais para as
camadas mais pobres, como vemos em detalhe na Figura 1-6.
Figura 1-5 área Ocupada entre 2000 e 2008
Fonte: Imagens de Satélite do anos de 2002, 2005, 2007 e 2008(plano de fundo),
Google.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz.
6
Sobre o processo de favelização da periferia FARIA, Teresa C. A (2004) apresenta os pontos essenciais
deste, e mostra como este ocorreu no Rio de Janeiro dos anos 80/90, bem como, contrapõe este a outro
processo que ela chama de desfavelização.
24
Figura 1-6 Ocupação irregular em área de alta declividade e junto a
córrego
Fonte: Imagens de Satélite do anos de 2002, 2005, 2007 e 2008(plano de fundo),
Google.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz.
Podemos observar na Figura 1-6 que há neste último período uma expansão
muito mais significativa no bairro Industrial Anhanguera que nos bairros de
características residenciais, nestes havendo, principalmente, as ocupações irregulares
que destacamos anteriormente. Na Figura 1-6 podemos ver em detalhe um exemplo de
como a ocupação desta área se deu, de um lado, por grandes galpões e fábricas que se
instalam gerando grandes alterações nos terrenos, sobretudo por meio do processo de
terraplanagem com grandes movimentações de terra visando torná-los adequados às
suas instalações; por outro lado, diversas famílias constroem suas pequenas casas, todas
condicionadas pelo terreno encontrado, muitas vezes encostas ou áreas que sofrem com
inundações, que para haver condições mais seguras para as residências, ou que garantam
25
um maior conforto para as famílias (é muito comum encontrarmos nesta área casas com
vários lances de escadas), necessitariam das mesmas alterações dos terrenos que são
despendidas pelas empresas, porém que são custosas demais pra essas famílias.
Ainda tratando das novas ocupações há de se destacar a constituição da
localidade conhecida como Jd. Açucará, oficialmente pertencente ao bairro Paiva
Ramos, e que fora objeto de estudo de RIBEIRO (2004) que destaca como se deu esta
ocupação, lembrando aqui que esta área faz limite com o “bolsão de riqueza” que fora
mencionado anteriormente e que vemos na Figura 1-7.
Em Osasco, verificou-se o deslocamento da população de favelas de
áreas centrais do município para áreas distantes, principalmente em
direção ao norte de Osasco. Um exemplo disso é a remoção da
população do Jd. Rochdale (bairro central), em 2001, para o Açucará
(área florestada ao norte de Osasco, com ruas de terra, sem
água/esgoto e energia elétrica). (RIBEIRO, 2004: 3)
26
Figura 1-7 Jd. Açucará contrastando com o “bolsão de riqueza” do Jd. Três
Montanhas
Fonte: Imagens de Satélite do anos de 2002, 2005, 2007 e 2008 (plano de fundo),
Google.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
O crescimento recente da área de estudo também pode ser observado pela
comparação dos dados dos Censos de 2000 e 2010 realizados pelo IBGE, e que
apresentamos na Tabela 1-3.
Tabela 1-3 Evolução dos domicílios e população da área de estudo de 2000 a
2010
Bairro
Domicílios
em 2000
População
em 2000
Domicílios
em 2010
População
em 2010
Variação
Domicílios
Variação
População
Taxa de
crescimento
Domicílios (1)
Taxa de
crescimento
População (1)
Baronesa
3.887
14.089
4.177
13.408
290
-681
0,72
-0,49
Bonança
3.088
11.394
4.132
14.068
1044
2674
2,96
2,13
1.649
6.370
1.642
5.630
-7
-740
-0,04
-1,23
246
959
445
1.597
199
638
6,11
5,23
2.356
8.948
3.245
10.658
889
1.710
3,25
1,76
281
1.056
338
1.007
57
-49
1,86
-0,47
429
1.608
643
1.853
214
245
4,13
1,43
11.936
44.424
14.622
48.221
2.686
3.797
2,05
0,82
Industrial
Anhanguera
Paiva
Ramos
Portal
D'Oeste
Santa Fé
Três
Montanhas
área de
estudo
27
Bairro
Domicílios
em 2000
População
em 2000
Domicílios
em 2010
População
em 2010
Variação
Domicílios
Variação
População
Taxa de
crescimento
Domicílios (1)
Taxa de
crescimento
População (1)
Osasco
181.012
651.736
214.592
666.621
33.580
14885,00
1,72
0,23
(1)Taxa de Crescimento Geométrico Anual.
Fonte: Censos 2000 e 2010, IBGE.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Analisando a Tabela 1-3 podemos observar que a área de estudo tem um
crescimento maior que o ocorrido no município de Osasco, sendo que no aspecto
populacional chega a ser cerca de 3,5 vezes maior, embora não represente um
crescimento muito alto, se compararmos aos dados do município nas décadas de 60 e
70, já em relação aos domicílios tanto a área de estudo quanto o município valores
muito parecidos, mas que se analisados em conjunto com a taxa de crescimento da
população nos dão resultados diferentes, pois no caso da área de estudo a taxa de
aumento de domicílios se apresenta cerca de 2,5 vezes maior que a de população,
enquanto que no município essa relação chega a cerca de 7,5 vezes maior, ou seja, essa
variação no município é aproximadamente 3 vezes maior que a ocorrida na área de
estudo. Esses dados nos permite especular que há em outras áreas do município uma
expansão dos investimentos imobiliários que não é encontrada na área de estudo, seja
ela especulativa ou não.
Contudo podemos observar que mesmo na área de estudo há diferenças entre os
bairros estudados, principalmente, no comportamento populacional, enquanto os bairros
Jd. Bonança, Portal D’Oeste e Paiva Ramos, situados a oeste na área de estudo, têm
uma variação positiva considerável, os dois primeiros em termos absolutos enquanto o
último em termos relativos, os bairros Jd. Baronesa e Industrial Anhanguera apresentam
queda significativa em sua população, sobretudo em termos absolutos. Sobre estes
dados podemos destacar a tendência de que os bairros de ocupação mais tardia tenham
um crescimento maior, e que neste caso se mostra verdadeiro.
28
Há também aspectos vivenciados por todos os bairros, como a variação no
número de domicílios que se mostra sempre positiva e superior (em maior ou menor
grau) à taxa da população. Isso demonstra dois aspectos, o primeiro, que já vimos
anteriormente, é o aumento da área ocupada nesses bairros, aqui destacamos que os
dados encontrados no censo e os apresentados no levantamento por imagens apresentam
grande convergência, pois os bairros que apresentaram maior expansão no número de
domicílios também apresentam variações significativas na sua área de ocupação, e o
segundo mostra uma tendência da população brasileira a diminuição do número de
pessoas por família /residência.
Esse levantamento feito por nós sobre a área de estudo pode ser melhor
visualizado por meio da evolução da área ocupada, apresentada a seguir no Mapa 1-2.
29
2.
As Centralidades na Região Metropolitana de São
Paulo
As configurações espaciais, que expomos na parte anterior, bem como, a
evolução temporal destas, tanto da Região Metropolitana de São Paulo quanto do
município de Osasco, estão relacionadas com um movimento de transformações nas
relações econômico-produtivas internacionais ocorridas durante o século XX, estas que
por sua vez geraram alterações na organização da produção interna nos países, e que se
materializaram na forma da produção e reprodução do espaço geográfico.
Deste modo podemos destacar pelo menos dois momentos da economia mundial
que tiveram consequências diretas na atual conformação urbana da Região
Metropolitana de São Paulo. Num primeiro momento podemos falar da expansão da
economia mundial, capitalista, pós Segunda Guerra, baseada no modelo fordista7 e que
fez com que alguns países periféricos, como o Brasil abrissem seus mercados ao capital
estrangeiro, principalmente, norte americano, e assim passassem por um processo de
crescimento da indústria, sobretudo, por meio da introdução de grandes empresas
multinacionais, com destaque para as automobilísticas, como vemos em HARVEY
(1989)
A América agia como banqueiro do mundo em troca de uma abertura
dos mercados de capital e de mercadorias ao poder das grandes
corporações. Sob essa proteção, o fordismo se disseminou
desigualmente, à medida que cada Estado procurava seu próprio modo
de administração das relações de trabalho, da politica monetária e
fiscal, das estratégias de bem-estar e de investimento público,
limitados internamente apenas pela situação das relações de classe e,
externamente, somente pela sua posição hierárquica na economia
mundial e pela taxa de cambio fixada com base no dólar. (HARVEY,
1989:132)
7
O padrão fordista se apoiava num consumo em massa, garantido nos países de industrialização
originária, de um lado pelos salários altos mantidos e por outro, pela intervenção direta do Estado na
economia, cujas ações se davam no controle da inflação, manutenção de juros baixos e criação de
demanda para a produção industrial.
O que vemos nesse período é que para haver uma reprodução ampliada do
capital satisfatória à manutenção do sistema, foi necessário dispersar parte do capital
acumulado no centro do sistema para a periferia e, para isso, foram feitos investimentos
na produção industrial em determinadas grandes cidades que se tornariam metrópoles na
periferia do sistema capitalista, sobretudo naqueles países em que havia um mercado
promissor, mas permanecendo sempre as atividades mais modernas e lucrativas nos
países centrais.
Esse modelo, onde o investimento no capital fixo era o ponto central, perdurou
como forma hegemônica no âmbito internacional até meados da década de 70, no Brasil
prolonga-se por mais algum tempo, e teve sua variante espacial exposta na forma que
destacava as principais áreas, em geral, áreas centrais e/ou de fácil acesso, para a
implantação dos parques industriais.
Portanto, é esse movimento que rege a estruturação da Região Metropolitana de
São Paulo que, como vimos anteriormente, teve seu nascimento, expansão e
consolidação sob a égide desse modelo e que a tornou bastante concentrada, tanto em
produção como demograficamente.
Contudo, este modelo entra em crise em meados da década de 70, pois, “as
grandes massas de capital investidas como capital fixo não acompanhavam mais a
valorização do capital em um sistema no qual as mudanças na produção tornavam-se
cada vez mais rápidas, para poder responder com rapidez e corrigir o processo de
desvalorização do capital então verificado nesta época” (CONSTATINO, 2009: 43)
desta forma vemos surgir um novo processo, que determinará o segundo movimento
que induziu alterações na forma e no modelo da produção do espaço, e que HARVEY
(1989) chama de Processo de Acumulação Flexível que
se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de
trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo. Caracteriza-se pelo
32
surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas
maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e,
sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial,
tecnológica e organizacional (HARVEY, 1989:140).
Essa mudança na estrutura do sistema tem reflexo nas relações entre os centros
econômicos e suas periferias, nos mais diversos níveis, desde o global, no que tange as
relações entre as nações, passando pelo aspecto regional, relacionado à dinâmica interna
dos países, e chegando ao local, que se evidencia nas dinâmicas internas das metrópoles
e principais cidades.
Pensando nas mudanças de ordem global podemos destacar que no momento da
introdução da acumulação flexível passa a haver uma maior interação econômica entre
os diversos países do mundo, em decorrência da desregulamentação dos mercados
financeiros, e que influenciará a transformação espacial ocorrida no período, como
destaca CONSTATINO
são as implicações da globalização sobre o sistema financeiro mundial
que nos auxiliam a compreender as manifestações espaciais
relacionadas às transformações econômicas.
A análise das ocorrências referentes ao setor financeiro mundial tem
deixado em evidência a importância da desregulamentação do
mercado como uma condição sine qua non para a circulação do
capital. (CONSTATINO, 2009: 93)
Em decorrência da maior fluidez do capital, este passando a ser investido em
qualquer parte do mundo, desde que sendo rentável, vemos intensificar o processo de
hibridação da cadeia produtiva de diversos países, acabando, em parte, com o modelo
clássico da relação entre o centro e a periferia mundial, como vemos em entrevista de
Maria Conceição TAVARES
Não tem centro e periferia como antes. Tem países de
desenvolvimento intermediário, entre os quais estamos. [...] A
discussão agricultura versus indústria é datada, do pós-Segunda
Guerra. Ninguém vai fazer uma opção por um ou outro. Precisa de
agricultura familiar, de agrobusiness, da indústria de transformação.
(TAVARES, 2010)
33
Já nos aspectos regionais podemos destacar uma nova configuração do território
nacional que, a partir da década de 1970, passa por uma transformação na sua divisão
territorial do trabalho8, tendo como objetivo uma desconcentração do parque industrial
brasileiro, que em 1970 chega a ter 80,8% concentrado na região Sudeste (58,1% em
São Paulo). Desta forma foi necessário que o Estado, o mesmo que influenciara a
concentração, tomasse medidas na tentativa de revertê-la, como retrata MOREIRA
(2004).
Visando a reversão desse quadro, os sucessivos governos militares
ascendidos ao poder em 1964 mobilizam um conjunto de estratégias
redistributivas da indústria através dos PNDs (Plano Nacional de
Desenvolvimento) – I PND (1970-1974), voltado para a modernização
da agricultura; o II PND, voltado para a redistribuição da indústria; e o
III PND (1980-1985), uma espécie de correção de rumos – iniciando
uma fase de aguda de restruturação espacial da indústria no Brasil.
(MOREIRA, 2004:134).
Cabe aqui ressaltar a diferença entre dois processos como nomes parecidos, mas
funcionalmente diferentes, que são o de concentração e centralização, e que LENCIONI
nos esclarece perfeitamente
Concentração e centralização tratam-se de processos distintos. Quando
a empresa amplia sua base de acumulação – pelo aumento do número
de equipamentos e máquinas, por exemplo, está-se diante de um
processo de concentração. Quando se trata de associação, absorção ou
fusão de capitais individuais sob um mesmo controle, está-se diante de
um processo de centralização do capital, sem qualquer modificação no
número de equipamentos e máquinas. O que importa dizer é que
centralizar é associar capitais já formados. A centralização constitui
um processo em que frações individuais de capital, se reagrupam.
(LENCIONI, 1994, p.57/58).
Definida as diferenças entre os processos podemos destacar que ambos são
encontrados na metrópole paulistana a partir de meados da década de 1970, e que são
8
Para Ruy Moreira “é sabido que a divisão territorial do trabalho é um fato da produção e das trocas que
compõem a estrutura das modernas economias. É nas sociedades com base industrial que melhor se aplica
a máxima de que o tamanho do mercado é o tamanho da divisão do trabalho e, vice-versa, o tamanho da
divisão do trabalho é o tamanho do mercado” (MOREIRA, 2004 :123).
34
vigentes até hoje, como já foi retratado em diversos trabalhos por Lencioni (1991, 2008,
entre outros) e que apontam a intensificação destes nos últimos anos, e que MOREIRA
descreve:
No decorrer do período dos anos 1970 a 2000 uma desindustrialização
vai acontecendo: o peso da participação do estado de São Paulo no
valor da produção industrial brasileira cai de 58,1 em 1970 para 48%
em 1999; a Região Metropolitana de São Paulo cai de 44% em 1970
para 26% em 1999 (o emprego industrial cai de 34% para 24%), no
nível nacional, e de 76% para 54% no nível estadual ( o emprego
industrial, de 70% para 55%) (MOREIRA, 2004:135).
Mas essa desconcentração não acomete apenas São Paulo. Em todo o país vemos
nesse período uma migração de parte do parque industrial das grandes aglomerações
para cidades intermediárias, que reflete para além na organização espacial das cidades
envolvidas, um fenômeno de ordem regional, como destaca MOREIRA
A redistribuição industrial da região metropolitana para o interior de
São Paulo de um certo modo será copiada pelas cidades de mesmo
porte e capacidade de industrialização dos estados do Sudeste e do
Sul, formando uma grande região industrial estendida de Belo
Horizonte para o sul até Porto Alegre. (MOREIRA, 2004:138).
Sobre este aspecto SANTOS nos mostra que se por um lado a dispersão
geográfica dos meios técnicos possibilita a dispersão industrial, por outro cresce a
dependência desses lugares a esta mesma metrópole como aponta o autor
Se muitas variáveis modernas se difundem amplamente sobre o
território, parte considerável de sua operação depende de outras
variáveis geograficamente concentradas. Dispersão e concentração
dão-se, uma vez mais, de modo dialético, de modo complementar e
contraditório. É desse modo que São Paulo se impõe como metrópole
onipresente e, por isso mesmo, como metrópole irrecusável para todo
o território brasileiro. (2008:101)
Desta forma hoje a metrópole, de um modo geral, e no nosso caso a metrópole
paulistana, apesar do processo de involução metropolitana (SANTOS, 1994), manterse-ia no topo da hierarquia urbana por conta da sua nova base definidora que seria na
relação das informações, e o seu tempo de chegada, nos diferentes pontos do território
que não é o mesmo, como aponta o autor: “Está aí o novo princípio da hierarquia, pela
35
hierarquia das informações... e um novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa
entre as aglomerações do mesmo nível, e, pois, uma nova realidade do sistema urbano”.
E conclui:
“Hoje, a metrópole está presente em toda parte, no mesmo momento,
instantaneamente. Antes, não apenas a metrópole não chegava ao
mesmo tempo a todos o lugares, como a descentralização era
diacrônica: hoje a instantaneidade é socialmente sincrônica. Trata-se
assim da verdadeira ‘dissolução da metrópole’, condição, aliás, do
funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política.”
(SANTOS, 2008 : 133)
Ou seja, vemos que a metrópole, compreendida pela ótica do conceito de
involução metropolitana mantém-se no topo da hierarquia, só que de uma forma
diferente, antes por sua capacidade de produção, agora por sua capacidade de comando.
O que o próprio autor destaca:
“Temos, agora, diante de nós, o fenômeno da ‘metrópole transacional’, de que
fala Helena K. Cordeiro (1987). Essa é a grande cidade cuja força essencial deriva do
poder de controle (sobre a economia e o território) atividades hegemônicas nelas
sediadas, capazes de manipulação da informação, da qual necessitam para o exercício
do processo produtivo em suas diversas etapas” (2008:102). Em relação a essas
mudanças na dinâmica das metrópoles podemos destacar que se num primeiro momento
o fordismo favoreceu o expansão da Região Metropolitana de São Paulo, por conta da
necessidade da aglomeração, noutro vemos que a acumulação flexível traz o seu
inverso, como destaca LENCIONI:
Historicamente, foi a concentração das atividades econômicas,
sobretudo a concentração industrial, que estruturou a Região
Metropolitana de São Paulo, tornando-a o polo econômico do país.
Mas, embora sejam ainda relevantes os mecanismos de concentração,
são os de dispersão os responsáveis pela reestruturação desta Região,
que desde os anos 70 conhece um processo significativo de expansão
atingindo o Interior. (LENCIONI, 1994: 54)
Desta forma vemos que sob o fordismo havia um modelo em que a aglomeração
se fazia necessária e onde as atividades produtivas eram primordiais para o modelo que
36
tinha como a principal expressão espacial o surgimento e expansão de grandes
metrópoles, e cujo centro de dinamismo era a própria indústria. Com o avanço das
tecnologias, sobretudo, da informação, da comunicação e dos transportes, abre-se a
possibilidade dessa indústria se dispersar para áreas mais distantes do centro das cidades
o que, junto com a chegada da acumulação flexível, permite que o capital passe a ser
investido prioritariamente na expansão do consumo, com forte acento na especulação
imobiliária.
Como consequência dessa nova estrutura de dispersão da metrópole, surge uma
mudança nas características das periferias em relação ao modelo clássico do século XX,
caracterizada diretamente pela ocupação da população pobre. Hoje vemos surgir em
meio a estas áreas da metrópole, desde indústrias até moradias para camadas mais
abastadas. Sobre este aspecto OJIMA destaca
Pois dentro deste novo contexto de riscos globalizados, a dicotomia
centro-periferia se torna cada vez menos visível na sua expressão
material na cidade, pois o espaço urbano se torna mais fragmentado e
muito mais heterogêneo incluindo um dinamismo derivado da
separação do tempo e do espaço. (OJIMA, 2007: 47)
Ojima levanta outro aspecto relevante para a compreensão das metrópoles
contemporâneas, que é o papel da mobilidade interna como ponto relevante na dinâmica
da metrópole. Este ponto se apresenta como diferencial, pois, como no atual momento
não presenciamos maiores alterações demográficas nas metrópoles, essa mobilidade
acaba por evidenciar o processo de dispersão das metrópoles. Para explicar o fenômeno
das cidades-região9, talvez a grande tendência da metropolização atual, Ojima destaca
A principal evidência do surgimento das cidades-região é a redução da
necessidade e dependência absoluta de um centro polarizador.
Utilizando a metáfora biológica, não se trata mais de uma relação
9
Sobre a discussão do conceito de cidade-região ver os trabalhos de Sandra LENCIONI (2006), e de
Jeroen KLINK (2001).
37
parasitária de municípios periféricos com sua sede, mas sim de uma
relação de simbiose em que o município-sede (ou municípios-sede,
pois nem sempre se trata de apenas um polo unitário) não sobrevive
sem as relações dinâmicas com e entre os demais municípios do
entorno.
Neste sentido, a mobilidade pendular sugere que as fronteiras
territoriais se tornam cada vez mais difusas o que, de certa forma, é
uma afirmação verdadeira. Entretanto, não equivale dizer que estas se
tornam menos importantes ou irrelevantes; embora seja necessário
extrapolar os recortes territoriais para a compreensão da dinâmica
urbana, fortalece-se a demanda pela gestão integrada destes territórios.
Como já vimos, a Região Metropolitana de São Paulo passa por um processo de
desconcentração, que observamos por meio da estrutura produtiva e demográfica, mas
que também pode ser observado por meio da análise da mobilidade pendular na região.
Para isso utilizaremos dados da Pesquisa Origem e Destino10 dos anos de 1997 e
2007, as duas últimas pesquisas elaboradas. Entendemos que estas são importantes para
verificarmos se as tendências e mudanças ocorridas na estrutura da metrópole também
são observadas no âmbito da mobilidade intra-urbana.
Analisando os dados de 1997 e 2007 vimos que também houve uma mudança na
intensidade do potencial polarizador da capital paulista, esta mantendo-se como o
grande polo da Região Metropolitana de São Paulo, mas passando por um período de
menor crescimento, comparando como outros municípios.
Quando observamos os dados de viagens por tipo de atração (Trabalho na
indústria, Trabalho no comércio, Trabalho em serviços, Educação, Compras, Saúde,
Lazer), vemos que a capital tem um crescimento absoluto em todos os tipos entre os
dois períodos, porém quando estes números da capital são comparados com o total de
10
“A Pesquisa Origem e Destino, ou simplesmente Pesquisa O/D, é realizada desde 1967 na Região
Metropolitana de São Paulo – RMSP, com periodicidade de dez anos, e tem por objetivo o levantamento
de informações atualizadas sobre as viagens realizadas pela população da metrópole em dia útil típico”
(METRÔ, 2007). Para executar esta tarefa é feita uma divisão da RMSP em zonas e respeitando os limites
municipais, em 1997 foram 389 zonas e em 2007 foram 460. A coleta das informações é feita por meio de
amostras coletadas diretamente em domicílios, estes sorteados, porém respeitando uma classificação de
renda obtida por meio da faixa de consumo de energia elétrica.
38
viagens da RMSP vemos que há uma diminuição do peso da capital no total. Por
exemplo, quando o motivo é trabalho na indústria em 1997 a capital representava
52,23% de todas as viagens deste tipo, já em 2007 o percentual cai para 46,29%, uma
queda de 11,37% de seu potencial de polarização, o mesmo ocorre para trabalho no comércio,
queda de 7,03%, trabalho em serviços, -9,12%, educação, -1,11%, saúde,- 6%, tendo como
exceção as viagens para compras e lazer que tiveram um aumento, respectivamente, de 3,34%
e 3,78%, evidenciando a mudança da primazia da capital, saindo da indústria e indo para os
serviços, quando analisados os números totais a queda da capital é de 4,75%
Para visualizarmos todo o processo elaboramos o
Mapa 2-1, que nos apresenta a
variação da atratividade de cada município da RMSP, entre os anos de 1997 e 2007.
Mapa 2-1 - Variação do Peso Relativo dos Municípios ao Total de Viagens
da Região Metropolitana de São Paulo (1997-2007)
Fonte: Pesquisa Origem e Destino, 1997 e 2007.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Como podemos observar não é apenas a capital paulista a perder peso relativo ao
total de viagens, vemos que outros municípios também passam pelo mesmo processo,
39
dentre eles destacam-se Guarulhos, Osasco, Barueri e São Caetano do Sul que, assim
como a capital, representam centralidades antigas da metrópole, que apesar da perda
relativa ainda se destacam pelos seus números absolutos no total das viagens. Todos,
assim como Mogi das Cruzes, estão entre os dez mais representativos, mesmo tendo
essa perda relativa no total das viagens do RMSP, como vemos na Tabela 2-1.
Tabela 2-1 Principais municípios à receberem viagens na metrópole
paulistana
1997
Posição
Nome do Município
2007
Total de
Viagens
Peso do
Município
Posição
Nome do Município
Total de
Viagens
Peso do
Município
1 São Paulo
9.898.416
64,39%
1 São Paulo
21.186.498
61,33%
2 Guarulhos
808.129
5,26%
2 Guarulhos
1.766.472
5,11%
1.522.938
4,41%
São Bernardo do
3 Campo
674.401
4,39%
São Bernardo do
3 Campo
4 Osasco
537.532
3,50%
4 Santo André
1.341.160
3,88%
5 Santo André
523.486
3,41%
5 Osasco
1.033.061
2,99%
6 Mogi das Cruzes
307.948
2,00%
6 Diadema
719.853
2,08%
7 Diadema
262.787
1,71%
7 Mauá
712.034
2,06%
8 Mauá
214.396
1,39%
8 Mogi das Cruzes
675.403
1,96%
9 Barueri
211.815
1,38%
9 Barueri
469.099
1,36%
São Caetano do
10 Sul
RMSP
209.002
1,36%
15.372.672
100,00%
10 Carapicuíba
RMSP
451.537
1,31%
34.544.867
100,00%
Fonte: Pesquisa Origem e Destino, 1997 e 2007.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Sendo assim podemos, podemos resumir o aqui exposto dizendo que as
mudanças ocorridas no modelo de acumulação geraram impactos no espaço urbano que
transformaram as relações centro-periferia, em diversos níveis, que, de um modo geral,
se tornaram muito mais dinâmicas e de maior heterogeneidade, tanto sob o ponto de
vista produtivo como das relações socioespaciais.
Osasco: da centralidade da indústria à centralidade dos serviços
O município de Osasco tem na formação da sua estrutura espacial, dois
momentos que se relacionam diretamente com as fases do capitalismo que acabamos de
comentar, fordismo e acumulação flexível, e que se mostram bastante representativos
desses momentos.
40
É no momento de maior expressão do fordismo11, dos anos 1940 até a década de
1960, que o município vê seu maior crescimento e a instalação de grande parte das suas
indústrias, até então fonte do dinamismo econômico, dentre elas algumas de bens de
produção (como a Cobrasma e a Brown Boveri, por exemplo) e outras, como a Eternit
do Brasil, a Fábrica de Cimento e Amianto, a Induselet Materiais Elétricos, a Fábrica de
Fibras Sintéticas Rilsan, que contribuíram para consolidar o município como importante
núcleo urbano industrial já nos anos 40. (PETRONE apud LANGENBUCH, 1971).
Neste período, que podemos chamar de industrial, o município de Osasco se
estruturou em função da centralidade surgida com a estação ferroviária, como vimos
anteriormente, reproduzindo o modelo da maior parte da RMSP, tendo no seu centro as
atividades ligadas à indústria e ao comércio, ou seja, atividades produtivas e de trabalho,
ficando reservado à sua periferia a função residencial da população mais pobre.
Esse modelo perdura até o início da década de 1990 quando o município começa
a passar por um processo de reestruturação, onde antigas indústrias que foram
importantes na construção da centralidade da cidade deixam o município e cedem
espaço para atividades de serviços e comércio moderno, que configuram sua nova
centralidade.
11
Há de se destacar que o fordismo como forma de acumulação não se desenvolveu no mesmo ritmo e da
mesma forma em todos lugares, por exemplo, para Alain LIPIETZ (1988) há grandes diferenças entre os
processos ocorridos no centro da economia capitalista e na sua periferia. Para o autor no período entre as
décadas de 1930 e 1950, o fordismo se expandia nos países centrais (mesmo sendo em ritmos diferentes),
enquanto que na parte dos países periféricos que se industrializava, se encontrava um “fordismo
incompleto”, pois, apesar da industrialização segundo tecnologia e modelo de consumo fordianos não se
tinha nesses países as condições sociais necessárias para a reprodução do modelo, tanto no que se refere
ao processo de trabalho, quanto no que diz respeito ao consumo das massas. Mesmo na década de 1970
quando se encontra um “autêntico fordismo” em vários dos países periféricos Lipietz o considera como
um “fordismo periférico”, pois, apesar do modelo ser o mesmo não se encontra nesses países uma
produção ou postos de trabalho mais qualificados.
41
Sobre este aspecto Constantino (2009) nos mostra a, por ele intitulada,
“Superquadra”, apresentada como nova centralidade da cidade, em substituição daquela
anterior ligada às atividades industriais, embora destaque a importância dessas
atividades no município ainda hoje. Esta Superquadra segundo o autor
é um mosaico de distintos usos do solo que permite a convivência de
atividades muito diferenciadas. Mas o que percebemos é que o
movimento de substituição das antigas e tradicionais atividades
comerciais e industriais por atividades de serviços e comércio mais
modernos tende a homogeneizar a superquadra e consolidá-la como
um lócus diferenciado de comércio e serviços na porção oeste da
metrópole. O movimento de estruturação do local nos permite afirmar
que esse lugar se caracteriza como um centro de comércio e serviços
diversificados, no qual os modelos de Shopping Center e dos
hipermercados serão predominantes. Entretanto, os serviços de
educação aparecem com os três campus universitários ali existentes,
bem como a instalação de torres de escritórios do Osasco Prime
Center são indicadores do potencial dessa área para a ampliação deste
setor. Apesar de ainda ali existirem residências e restaurantes
populares, o movimento de renovação do local mostra que essas
atividades tendem a desaparecer. (CONSTANTINO, 2009: 114)
Dentre as diversas empresas que estão na Superquadra se destacam grandes
hipermercados, bem como, o maior shopping da cidade como destaca o autor
A fábrica da Eternit foi demolida em 1993, em meio a uma conturbada
discussão a respeito dos males causados pelo amianto. Em seu lugar,
foi erguida uma loja da rede WalMart e o shopping Center Osasco. Já
onde funcionava a Santista, foi construída uma loja Carrefour. A Brow
Boveri (atual ABB) ainda funciona no local, mas vendeu seu terreno
para o Grupo Savoy, que ergueu o edifício do Shopping União
Osasco, ocupando uma área de 264 mil metros quadrados. Esse é o
mais vultoso empreendimento que está sendo construído na
superquadra. (CONSTANTINO, 2009: 98)
Tomando a Superquadra como exemplo, podemos observar que há de fato uma
alteração no centro de investimento econômico atual, migrando da produção pra o
consumo, uma das principais caraterísticas da acumulação flexível, que se faz pela
introdução de grandes grupos multinacionais, como as redes de hipermercados
Carrefour e Walmart, bem como, pela expansão do mercado imobiliário,
tradicionalmente especulador. Outro fator a se destacar é como a alocação de
42
Universidades também se posta na mesma lógica mercadológica de busca da
centralidade já constituída.
A Mobilidade Pendular e Osasco
Como destacamos anteriormente, a mobilidade apresenta-se como parâmetro
constituinte desse novo modelo de centralidade, sendo assim analisando a Superquadra,
Constantino, fez um levantamento a fim de saber o poder de atratividade desta, e que
podemos observar seus resultados por meio do Mapa 2-2. Neste vemos que a
atratividade da Superquadra transcende os limites da RMSP, chegando a Campinas e
Sorocaba, o que demonstra que de fato constitui-se como uma centralidade da porção
oeste da metrópole, como destaca o autor.
Mapa 2-2 Municípios de origem de parte dos consumidores de alguns
produtos e serviços oferecidos na superquadra.
Fonte: Adaptado de COSNTATINO (2009:116)
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
43
Ainda tratando da mobilidade, podemos destacar a atração do município de
Osasco como um todo, para representar esse processo nos utilizamos, novamente, dos
dados da Pesquisa Origem e Destino de 2007, que nos permitiu entrever donde partem
as viagens oriundas da RMSP com destino ao município, nos fornecendo, portanto, uma
ideia aproximada de seu poder de atração.
Para facilitar nossa análise entendemos que não seria necessário manter o
zoneamento original da Pesquisa O/D, que divide a RMSP em 460 zonas, para isso
fizemos um agrupamento das zonas de acordo com o seguinte critério: para as zonas do
município de São Paulo unimos todas as de um mesmo distrito como uma única zona, já
as demais foram reunidas de acordo o limite de cada município. Desta forma reduzimos
as 460 zonas em 134, sendo 96 referentes aos distritos de São Paulo, e 38
correspondentes aos demais municípios da RMSP, incluindo Osasco.
Com essas bases elaboramos o Mapa 2-3 que nos mostra o fluxo de viagens
diárias12 que tem como destino o município de Osasco, e por se tratar do total diário,
inclui as viagens de retorno dos moradores que saem do município de Osasco para
outros municípios, e serve para nos dar a dimensão da interação do município com a
Região Metropolitana de São Paulo, embora não mostrando o seu poder de atração, que
verificaremos com outra base mais adiante.
12
O número de viagens diárias refere-se ao total das viagens feitas por todos os modais, a saber, coletivo,
individual, bicicleta e a pé, os dois últimos agrupados como não motorizados.
44
Analisando o mapa podemos observar a grande abrangência da área interação
do município que se relaciona com diversas partes da RMSP, destacando-se áreas
distantes como os distritos dos extremos da capital paulista (Marsilac e Parelheiros, ao
sul, Itaim Paulista e Guaianazes, a leste, Perus e Anhanguera, ao norte), assim como o
fato de receber viagens de 25 dos 38 municípios da RMSP, das 134 zonas definidas, 101
tem alguma viagem com destino no município, ficando de fora, praticamente, apenas os
municípios do extremo leste da região,
Vemos no mapa que a maior intensidade de fluxos se dá entre Osasco e as zonas
da porção oeste, ao todo tem-se 365.557 viagens para o município, sendo que, 54,64%
destas estão concentradas em zonas desta área da metrópole (Carapicuíba 13,42%,
Barueri 12,02%, Vila Leopoldina 5,16%, Lapa 4,89%, Jaguaré 4,78%, Itapevi 4,66%,
Rio Pequeno 4,03%, Butantã 2,87%, Jaguara 2,83%).
Como dissemos anteriormente esses dados apresentados não nos servem para
analisar o poder de atração do município, para tal empreitada utilizamos os números das
viagens feitas somente entre as 06h30min e 08h30min13, pois, entendemos que desta
forma exclui-se grande parte das viagens de retorno ao município, pelo fato deste
horário ser notadamente ligado à ida para atividades como trabalho e estudo, a
compilação desses dados pode ser observada no Mapa 2-4.
13
Diferentemente dos dados sobre as viagens diárias, que utilizamos como base para o mapa anterior, as
viagens entre 06h30min e 08h30min, não computam as viagens feitas por meio não motorizado,
restringindo-se aos modos coletivo e individual.
Observando o mapa vemos que há uma clara diminuição da área de abrangência
das viagens, porém mantendo um grande número de zonas (das 134 zonas encontradas
na Região Metropolitana de São Paulo 76 praticam viagens em direção a Osasco,
perfazendo 16 municípios) que agora podemos considerar como atraídas pelo
município. Novamente destaca-se a porção oeste, sobretudo os municípios de
Carapicuíba, Barueri, e Itapevi, que juntos representam 45%, 30,21%, 8,31%, 6,81%,
respectivamente, do total das viagens para o município no período. Com isso vemos a
importância de Osasco para a região que aparece como o principal destino, excetuandose a capital, para as viagens dos municípios citados, destacando-se Carapicuíba, que tem
uma circulação interna inferior à trocada com a vizinha Osasco.
Desta forma vemos que o município de Osasco ainda se mantém como
importante centralidade na porção oeste da Região Metropolitana de São Paulo,
mantendo uma atividade industrial ainda de grande importância, embora veja surgir
outro tipo de atratividade ligada às atividades de comércio moderno, com destaque para
os grandes hipermercados e os shoppings, e aos serviços, sobressaindo-se a educação,
por meio da expansão do número de universidades, sendo os dois tipos de atividades
responsáveis por atrair pessoas de diversas partes da metrópole paulistana e, até mesmo,
extrapolando esse limite.
3.
A Periferia e Seus Moradores
Discutindo o conceito de Periferia
O conceito de periferia urbana surge como forma de evidenciar as grandes
diferenças encontradas nas áreas urbanas que passaram por um processo de grande
crescimento nas décadas de 1950 e 1960, como no caso de São Paulo, diferenças estas
que se expressavam de diversas formas, os assim chamados “problemas urbanos”.
Algumas linhas de pesquisa nesse período surgem como forma de compreender os
processos que ocorriam nas cidades dos países periféricos, e que entendiam que os
problemas encontrados nestas não poderiam ser considerados como anomalias, mas sim
partes de um único movimento que passava a se consolidar nestas áreas.
Nessa linha de pensamento surgem diversos trabalhos que versam sobre as
características dessa periferia urbana e, consequentemente, diferentes definições,
embora expressando grandes semelhanças nas análises. Em “A produção capitalista da
casa (e da cidade) no Brasil Industrial”, importante livro acerca do tema em tela
organizado por MARICATO (1982), vemos alguns exemplos de definições de periferia.
Nesta obra a periferia é conceituada e caracterizada como: áreas distantes do centro,
aonde ainda não chegaram serviços urbanos e por isso a terra é mais barata e a
população pobre pode pagar por ela (SINGER, 1982: 33); áreas onde não houve ainda
entrada do capital imobiliário e por isso se mantém com valores mais baixos
(LEFÈVRE, 1982: 104 e 115); “proletarização do espaço urbano”, “espaço de
residência da classe trabalhadora ou das camadas populares” (MARICATO, 1982; p.8283); vastas áreas ocupadas por casas autoconstruídas em pequenos lotes, sem
equipamentos, precários serviços públicos e infraestrutura urbana, comércio informal, e
que “se assemelham a canteiros de obras, e mantêm essas características por muitos
anos” (MARICATO, 1982: 82-83;87); lugar onde o trabalhador encontra condições para
49
aquisição da casa própria, em função de seu valor mais baixo (áreas com baixa renda
diferencial) e viabiliza a sua reprodução social (BONDUKI e ROLNIK, 1982: 147).
Nessas definições vemos que o conceito de periferia expressa-a como sendo um
espaço ligado à possibilidade da classe trabalhadora se instalar na cidade, marcado por
carências urbanas, e resultante de processos de segregação, destaca-se também, nessas
análises, o pouco auxílio do Estado para enfrentar tais carências, ou talvez, o contrário,
o Estado ao não garantir o acesso a moradia às populações de baixa renda passa a ser
um dos indutores de tal processo.
Vemos assim que o momento crítico, o da implosão-explosão das cidades que
propõe Lefebvre (2008) reúne a centralização de poder econômico e político, uma
separação entre dominados e dominantes, uma ideologia que justifica a produção em
massa da desigualdade.
Tal desigualdade se configura por meio das possibilidades e limitações dos usos,
impondo assim a mediação do dinheiro para o acesso às novas tecnologias que a
contemporaneidade nos oferece. Neste sentido Ribeiro (2010: 66), ao tratar da
metrópole paulistana, aponta que:
Esta desigualdade pode ser vista na produção cada vez maior de
favelas que datam da década de 40, período de colapso da forma
“aluguel”, pois os salários, cada vez mais reduzidos, não eram
compatíveis com as rendas dos trabalhadores para manter os
pagamentos. Alguns elementos também viabilizaram esta
desigualdade, como a coadunação das novas tecnologias de transporte,
que levavam os trabalhadores cada vez mais longe do centro em busca
de moradias mais baratas, compatíveis com seus salários.
Neste mesmo período, abordado pela autora, ampliava-se a atuação do setor
imobiliário em direção à periferia da cidade, incorporando os vastos terrenos que ali
existiam, mas que naquele instante não estavam inseridos diretamente nos processos de
valorização. Aqui lembramos que é a partir dessa década que vemos, de fato, surgir a
metrópole paulistana. Esse processo, que na prática era de exclusão, visto que, quem
50
não possuía recursos para a compra desses novos loteamentos, era impulsionado pela
necessidade em direção aos loteamentos clandestinos responsáveis por grande parte da
constituição da periferia que temos até hoje. A respeito do crescimento acelerado da
cidade de São Paulo nos anos 50, SEABRA (1987: 05) é categórica:
A segregação espacial e social que está na essência da conformação da
cidade capitalista, atinge na Metrópole a sua forma exacerbada,
extrema. Pois, em São Paulo, enquanto as elites armavam
incessantemente suas estratégias de individualização no espaço da
cidade, dos subterrâneos da ordem estabelecida vinha à luta para
ocupar os interstícios desse mesmo espaço. É quando começam a
surgir às favelas como forma de resolução da necessidade de morar.
Não podemos deixar de destacar que nesse modelo de segregação espacial a
especulação imobiliária afigura-se como elemento marcante na produção da metrópole,
desde seus primórdios, “fazendo até chover”14, sobretudo, no seu momento de maior
expansão, fato que definiu as características de boa parte da estruturação da metrópole
paulistana.
Entretanto, como destacamos nos capítulos anteriores, a relação centro-periferia
não é mais a mesma encontrada na década de 60/70, bem como, a (re)produção
socioespacial também difere bastante, desta forma vemos emergir novas interpretações
sobre a problemática da periferia. Nesse sentido vemos em BURGOS (2008), uma
referência destas novas interpretações, como podemos observar
Embora o referido padrão periférico de crescimento continue
expandindo a periferia nos limites territoriais urbanos (confinando e
segregandoos pobres urbanos nas “franjas” da metrópole), a periferia
urbana não se refere, tão somente, à periferia distante, consolidada
e/ou em contínua formação. A periferia urbana, enquanto condição
social da pobreza, corresponde aos territórios empobrecidos da
metrópole, os quais estão presentes tanto na periferia quanto no centro
propriamente ditos. Isto requer que repensemos a relação centroperiferia. Na metrópole fragmentada, como é o caso de São Paulo, o
14
Aqui nos referimos ao subcapitulo “A enchente de 1929 – Uma estratégia de Valorização” da tese de
SEABRA (1987), que nos mostra como a Companhia Light induz uma inundação a fim de expandir as
áreas de que teria direito de propriedade no entorno do Rio Pinheiros.
51
binômio centro-periferia cede lugar ao binômio
fragmentada-periferias urbanas15. (BURGOS, 2008: 12)
metrópole
Essa visão, que vê no centro elementos da periferia, também é compartilhada por
José de Souza Martins, que aponta “o problema da periferia é o problema do tumulto da
ocupação, o da urbanização patológica, da exclusão, da falta de efetivas alternativas
de inserção no mundo urbano. (...) o próprio centro da cidade de São Paulo é hoje
periferia” (Martins, 2001:79), o que vemos nessa nova forma de concepção da ideia de
periferia é que essa se baseia em alguns aspectos das condições sociais presentes
nos dois espaços, porém, do nosso ponto de vista, deixando outros de fora da análise.
Do nosso ponto de vista, essa referência não abarca a totalidade dos
processos existentes nos dois pontos da metrópole, pois desconsidera aspectos da
constituição dos mesmos, desde sua formação, e mesmo processos ainda vigentes,
por exemplo, o transporte, embora áreas centrais possam ser tão pobres, ou
degradadas, como se tornou corrente defini-las, como outras nas franjas da metrópole,
sabemos que o deslocamento pela metrópole é muito mais facilitado para quem reside
nestas áreas. No caso paulistano é clara a forma radial das estruturas de transporte,
aspecto este que influencia diversos outros, como acesso a hospitais, pontos de cultura,
lazer e, sobretudo, o trabalho. Outro ponto importante que nos faz pensar é o das
tendências de futuro para um ponto e outro, se na periferia, em sua concepção
tradicional, a expectativa de quem vai morar é a de melhoria do local, no centro ocorre o
contrário, quem mora aí passa paulatinamente a perder qualidade de vida, e a história
nos mostra que na maioria dos casos de tentativa de melhoria dessas áreas passa, muito
mais que em outras partes da metrópole, pela expulsão dos pobres, por meio das assim
chamadas revitalizações.
15
Com base no binômio proposto por Seabra (2004): metrópole-periferias.
52
Desta forma, podemos afirmar que é notório que a segregação socioespacial
imposta à grande parte da população da metrópole paulistana, na sua forma atual, trás
consigo implicações que devem ser consideradas para sua compreensão. À medida que
o tecido urbano se estende, produz-se uma imensa periferia, que se diferencia do centro,
mesmo que mantenha alguns pontos em comum, seja pelas condições materiais, seja
pelas possibilidades de usos dos equipamentos existentes.
Todavia, a relação centro-periferia é vista enquanto lógica e estratégica para a
realização da reprodução capitalista, significando que é necessário entendê-la como uma
tendência que irá confrontar-se com a prática socioespacial, tornando dialético o
processo de produção do espaço. Ou seja, o centro, do qual grande parte da população
não consegue usufruir, ganha novos conteúdos e precisa ser reproduzido para garantir as
condições de reprodutibilidade desta mesma população, ainda que, este processo esteja
compassado com a produção hegemônica.
A Visão dos Moradores: Análise das Entrevistas
Na busca de tentar entender a periferia pelo olhar da população que nela habita,
vimos como obrigatória a busca da opinião dessas pessoas, para isso elaboramos um
questionário com perguntas fechadas e abertas. Tal questionário foi aplicado por nós
nos finais de semana do mês de novembro de 2011, abrangendo todos os setores
censitários dos bairros de nossa área de estudo, sendo um questionário por setor,
totalizando 66 entrevistas. A escolha de se fazer uma entrevista para cada setor fora
determinada como forma de garantir uma busca mais dispersa possível.
Visando garantir a aleatoriedade da obtenção das amostras, visto que não apenas
conhecemos como moramos na região, fato que poderia influir na escolha dos locais de
aplicação dos questionários, determinamos um critério espacial como meio para a
obtenção de amostras isentas. Tal critério consistiu na utilização dos pontos centrais de
53
cada setor censitário como referencial para a determinação do domicílio a ser aplicado o
questionário, desta forma, com o auxílio de uma imagem de satélite, aplicamos os
questionários nos domicílios que se encontravam mais próximos destes pontos, quando
não houve esta possibilidade, aplicou-se o questionário na residência mais próxima que
fora possível. A Figura 3-1 esboça o método exposto.
Figura 3-1 Exemplo da metodologia para aplicação dos questionários
Fonte: Imagens de Satélite de 2008Google; IBGE, 2010
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
O questionário aplicado (em anexo) teve como finalidade abarcar informações
de três tipos: um ligado às características pessoais do entrevistado, como local de
nascimento, estado civil, etc.; outro ligado à questão da economia informal, o chamado
Circuito Inferior da Economia; e o mais importante, que diz respeito a visão do morador
sobre o bairro que mora, ou seja, sobre a periferia.
54
Resumidamente, podemos dizer que os questionários tinham como finalidade
saber quem mora e o que acha dos bairros da área de estudo. Neste sentido, entendemos
que os questionários alcançaram nossos objetivos, pois, de um lado corroboraram
alguns aspectos dessa população que a bibliografia já nos apontava, como a origem
nordestina da maioria, e de outro mostrou que algumas tendências apontadas na
atualidade também são verdadeiras para esta área da metrópole, como a diminuição do
número de filhos das famílias, bem como, nos possibilitou enxergar o ponto de vista
dessa população, sobre a periferia. Cabe aqui ressaltar que boa parte da informação, que
nos pareceu ser importante, não nasce apenas das respostas apontadas nos questionários,
mas também do contexto da aplicação dos mesmos, de nosso olhar16 sobre a paisagem
das entrevistas, tanto dos aspectos físicos quantos sociais desta.
Sendo assim, podemos avançar para as informações coletadas. Ressaltamos que
para apresentar os resultados das perguntas abertas agrupamos as suas respostas que
apresentavam discursos aproximados de uma mesma ideia, mesmo que não sendo
exatamente idênticas, por exemplo, na questão referente ao pior em se morar no bairro,
surgiram respostas como falta de condução, demora dos ônibus, etc., neste caso
agrupamos essas respostas no grupo transporte, fizemos isso no intuito de poder
representar quantitativamente estes questionários, visto que, muitas das respostas
16
Cardoso (CARDOSO, S., 1995) mostra uma preocupação em diferenciar o ver do olhar, sendo o ultimo
o ideal para um pesquisador, para ele o “ver, em geral, conota no vidente uma certa discrição e
passividade ou, ao menos, alguma reserva. Nele um olho dócil, quase desatento, parece deslizar sobre as
coisas; e as espelha e registra, reflete e grava”, já o olhar “não descansa sobre a paisagem contínua de um
espaço inteiramente articulado , mas se enreda nos interstícios de extensões descontínuas, desconcertadas
pelo estranhamento.”, em outros termos, o ver não é profundo, não busca processos, nem detalhes, está
ligado de certa forma a uma passividade do observador em relação a paisagem, já o olhar surge quando a
fase do ver causa inquietação no observador, que passa a tentar enxergar detalhes e até mesmo, buscar as
questões que fogem do campo do visível.
55
tinham a mesma temática, porém, apresentadas de maneira diversa. Isto posto, na
Tabela 3-1 podemos observar as informações básicas dos entrevistados.
Tabela 3-1 Dados básicos dos entrevistados
Sexo
Idade
Estado Civil
Masculino
Feminino
65,00%
35,00%
0-20
21-30
31-40
41-50
51-60
>60
2,50%
30,00%
27,50%
17,50%
15,00%
7,50%
Solteiro
Casado
Convivente
Viúvo
Separado
Divorciado
32,50%
55,00%
7,50%
2,50%
0,00%
2,50%
EF
EM
Incompleto
EM
Sup.
Incompleto
10,53%
10,53%
39,47%
7,89%
Alagoas
Bahia
Ceará
Pernambuco
Piauí
São Paulo
Minas
Gerais
10,00%
15,00%
12,50%
10,00%
10,00%
37,50%
5,00%
Sim
Não
75,00%
25,00%
Um
Dois
Três
Mais de Três
26,67%
43,33%
16,67%
13,33%
EF
Escolaridade Incompleto
31,58%
Estado de
Origem
Possui Filhos
Número de
Filhos
Legenda: EF – Ensino Fundamental; EM – Ensino Médio; Sup. – Superior.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Analisando a tabela vemos que a maior parte dos entrevistados é de origem
nordestina, como a bibliografia já apontava, sendo aqueles que nasceram em São Paulo,
mais da metade, jovens com idade máxima de 30 anos, e também com a perceptível
ascendência nordestina, como é o nosso caso. Outro aspecto interessante que vemos a
partir destes dados é a diminuição do número de filhos nas famílias, embora ainda,
quase 30% dos entrevistados possuam mais de 3 filhos, o caso com maior número de
filhos encontrado foi de uma senhora que tinha 7, o que vimos é que entre os jovens não
foi encontrado nenhum que tivesse mais de dois filhos, outra tendência que já
destacamos anteriormente.
Pensando, sobretudo nos migrantes, fizemos algumas questões que abarcaram
alguns aspectos deste processo de mobilidade, e que podemos observar na Tabela 3-2.
56
Tabela 3-2 Aspectos relativos à migração
Motivo da vinda para
São Paulo*
Coisa Melhor
Trabalho
Vida Melhor
Outros
20,00%
64,00%
24,00%
16,00%
Possuía bem (imóvel)
no local de origem
Sim
Não
56,00%
44,00%
Tempo de residência
no domicílio atual
(em anos)
Menos de 1
1-5
6-10
11-20
Mais de 20
13,16%
15,79%
21,05%
26,32%
23,68%
Local de moradia
anterior
Mesmo Bairro
Outro Bairro
de Osasco
Cidade Natal
São Paulo
(Município)
Sempre na
mesma casa
32,50%
22,50%
2,50%
32,50%
10,00%
Aquisição da
casa própria
Outros
68,75%
31,25%
Motivo da ida para a
atual residência
*Neste caso admitiu-se mais de uma resposta.
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Vemos que o principal motivo para a migração rumo à metrópole paulistana é o
trabalho. Entendemos que o trabalho não se apresenta como o objetivo final dessa
população, mas que funciona como meio para o alcance dessa meta. Tendo isso como
verdadeiro, podemos observar na tabela que a busca por uma melhora de vida é,
basicamente, o motor propulsor da migração. Ainda analisando esses números vemos
que em torno de 3/4 dos entrevistados moram no mesmo domicílio a mais de 5 anos,
fato este que analisado conjuntamente com os números do “local de moradia anterior”,
indica que pouco mais da metade dos entrevistados residiam anteriormente em Osasco,
boa parte no mesmo bairro da atual residência, o que nos mostra como essa população
está enraizada nessa periferia, inclusive havendo 10% de casos de pessoas (jovens) que
moram a vida inteira na mesma residência.
Os últimos dados mostrados nos propiciam o entendimento de parte do que é
viver na periferia, apresentando elementos que demonstram que esta, antes de tudo,
representa a esperança, seja do migrante que foge das mazelas da vida do semiárido
nordestino, onde a seca e a concentração fundiária não propiciam condições de
sobrevivência, ou mesmo do trabalhador comum que busca a casa própria, este o
principal motivo para a fixação na atual residência. Outro aspecto que nos chama a
57
atenção é o fato de mais da metade desses migrantes deixarem em suas terras natais
algum bem, o que indica que não fosse a condição de falta de meios de sustento,
possivelmente, muitos desses migrantes não se aventurariam em tal empreitada.
Pensando na estruturação da nossa área de estudo buscamos saber quais os
principais aspectos relativos à moradia nesta, bem como, saber o que pensa os
moradores sobre esses pontos. Os dados vemos na Tabela 3-3
Tabela 3-3 Aspectos das moradias
Tipo do imóvel
Forma de aquisição
do imóvel
Qual a forma do
financiamento
Qual a forma de
construção do
imóvel
Ajudou ou obteve
ajuda dos vizinhos
no processo de
construção
Alugado
Próprio
De Parente
23,08%
71,79%
5,13%
Terreno à
vista
Terreno a prazo
Casa à vista
Casa a prazo
Casa doada
(Prefeitura)
43,33%
30,00%
13,33%
10,00%
3,33%
Caixa
Direto proprietário
Imobiliária
20,00%
70,00%
10,00%
Misto
Misto c/ maior
parte profissional
Misto c/ maior
parte familiar
8,70%
8,70%
0,00%
Profissional Doméstico/familiar
26,09%
56,52%
Sim
Não
73,68%
26,32%
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
Nesses números vemos que a maior parte dos entrevistados moram em imóveis
próprios, adquiridos ainda na forma de terreno, e nos casos em que fora necessário um
financiamento, em sua maior parte, fora executado pelo próprio loteador, na forma de
prestações fixas baseadas no salario mínimo, expressando assim o modelo clássico de
formação da periferia, também expresso pelo alto número de casas construídas por meio
do modelo doméstico/familiar, modelo já destacado por BONDUKI e ROLNIK (1982),
tendo como base outros bairros do município de Osasco.
Nosso destaque sobre esses dados vai para o alto número de entrevistados que
disseram terem ajudado ou recebido ajuda de vizinhos na construção de seus imóveis.
Aqui salientamos que esta ocorre, sobretudo, por meio da mão de obra no enchimento
58
das lajes ou por uma ajuda com água, demonstrando uma solidariedade entre esta
população, aspecto também bastante destacado em trabalhos sobre o tema.
A fim de verificar como a população local se relaciona com Circuito Inferior da
Economia17, fizemos duas questões que, embora simples, para nós parecem ser
representativas para a aferição de tal aspecto da economia, e consistiram em saber dos
moradores se tinham o costume de comprar em comércios familiares e se conseguiam
comprar fiado, deixando claro para o entrevistado de que não necessitava se utilizar de
tal pratica, referindo-se apenas se conseguia ou não, fizemos isto afim de não
constrangê-lo e, consequentemente, não alcançar a resposta verdadeira.
Tabela 3-4 Aspectos do Circuito Inferior da Economia
Costuma comprar em estabelecimentos familiares
Sim
65,00%
Consegue comprar “fiado” em algum estabelecimento
Sim
72,50%
Número de estabelecimentos que consegue o fiado
Um
22,22%
Não
35,00%
Não
27,50%
Dois
22,22%
Três Mais de três
14,81%
40,74%
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
As respostas, como podemos ver na tabela, nos mostra como é grande a presença
desta segmentação da economia nos bairros estudados, pois, de um lado há cerca de 2/3
dos entrevistados que costumam comprar em comércios familiares, que se mostram
17
A proposta teórica dos circuitos busca interpretar a economia urbana dos países periféricos a partir da
existência de dois circuitos (Santos, 1978, p.29). A segmentação presente na sociedade urbana em relação
às possibilidades de satisfação das necessidades cria diferenças quantitativas e qualitativas no consumo,
as quais, por sua vez, são a causa e o efeito da existência de diferentes circuitos de produção, de
distribuição e consumo nas cidades desses países. O circuito superior – composto pelos bancos, comércio
e indústria de exportação, indústria moderna, serviços modernos, atacadistas e transportadores – é o
resultado direto das modernizações que atingem o território. Já o circuito inferior constitui-se de formas
de fabricação de capital não-intensivo, serviços não modernos fornecidos a varejo, comércio não moderno
e de pequena dimensão, voltados sobretudo ao consumo dos mais pobres. Encontramos ainda a presença
de um circuito superior marginal que compreende, por sua vez, uma certa porção do circuito superior;
embora apresente características que o aproxima de ambos os circuitos. Ou seja, o circuito superior
marginal tanto incorpora fatores atrelados à modernização como apresenta elementos advindos do circuito
inferior.
59
como alternativas de fácil acesso à população, tanto por manter características não
encontradas nas grades redes de comércio, como a proximidade com os clientes que,
quase sempre, também são vizinhos; como também conseguem comprar fiado. Sobre
este aspecto é importante ressaltarmos que mesmo diante da expansão dos cartões de
crédito, seja em relação ao número de clientes seja ao número de lojistas, o fiado ainda
aparece bastante presente nessas áreas, quase 3/4 dos entrevistados afirmam conseguir
comprar por meio de tal prática, embora, a grande maioria tenha ressalvado que não o
façam (aqui fica a dúvida se as respostas condizem com a realidade, ou apenas
demonstram certo constrangimento dos entrevistados em admitir tal fato). Entre os que
admitem a possibilidade de compra por este modal, cerca de 80% conseguem em mais
de um comércio, sendo que 40% conseguem em quatro ou mais estabelecimentos.
Em nossas entrevistas saímos dos aspectos mais objetivos, que já foram
apontados até agora, e buscamos também ouvir a opinião dos moradores sobre
diferentes aspectos dos bairros em que residem, tentando com isso perceber a ligação
destes com a região.
Sendo assim, ainda pensando na questão da moradia, e mais especificamente na
produção doméstico/familiar da casa própria, questionamos nossos entrevistados sobre
suas opiniões referentes ao fato de participarem da construção da própria residência,
imaginávamos que poderiam surgir respostas mais subjetivas que indicassem alguma
relação de maior proximidade dos moradores com estas por conta deste motivo (da
construção da própria casa), mas o que verificamos é que a maior parte dos moradores
não apresentou
nenhuma expressão nesse sentido, destacando, principalmente, as
vantagens econômicas que tal processo possibilitava.
Avançando na investigação sobre a percepção dos moradores também os
questionamos sobre aspectos relacionados à vida no bairro, buscando saber sua opinião
60
sobre a vizinhança e o bairro em geral, elementos que podemos observar por meio da
Tabela 3-5.
Tabela 3-5 Moradores e a visão sobre a vida no bairro
Considera que
conhece os
vizinhos
Muito Pouco
7,50%
Relação com
eles
Péssima
O que acha de
morar no bairro
Péssimo
O que acha de
melhor em
morar no bairro
O que acha de
pior em morar
no bairro
Pouco
Regular
17,50%
Ruim
0,00%
35,00%
Regular
0,00%
Ruim
0,00%
Bem
Regular
Transporte
20,00%
72,50%
Família
7,5%
Água (falta) Segurança/Drogas Nada
10,00%
10,00%
15,00%
12,50%
Ótimo
50,00%
20,00%
12,50%
Muito Boa
Bom
10,00%
Tranquilo/Sossego Localização Vizinhança
32,50%
27,50%
Boa
15,00%
0,00%
Muito Bem
12,50%
40,00%
Tudo
Outros
5,00% 15,00%
Vizinho
Outros
7,50% 45,00%
Elaboração: Marcelo Nunes Diniz
O que vimos dos moradores entrevistados é que estes se mostraram um pouco
reticentes em responder o quanto conhecem seus vizinhos, ficando boa parte das
entrevistas na resposta intermediária, contudo a maioria considera que conhece seus
vizinhos bem ou muito bem. Ainda sobre a relação de vizinhança o que nos chama a
atenção é a boa relação entre os moradores, verificada por meio dos 85% de respostas
boa ou muito boa sobre este aspecto, e também percebida por aparecer como “o melhor
em morar no bairro” por 20% dos entrevistados.
Sobre a opinião de morar nos bairros de nossa área de estudo vemos que a
grande maioria dos entrevistados, 90%, acha bom ou ótimo a vida nesta área da
metrópole, não sendo considerado ruim ou péssimo por nenhum destes, o que em certa
medida nos surpreendeu. Ainda sobre os aspectos da vivência nos bairros merece
destaque o fato dos melhores pontos destacados em se viver nessa área serem muito
mais agregados do que os negativos, se concentrando na tranquilidade/sossego,
localização, vizinhança e família, enquanto que os piores se mostraram muito mais
dispersos e pontuais, ligados, sobretudo, a problemas de infraestrutura como a falta de
61
água, dificuldades no transporte, ou problemas com segurança, mais ligados ao tráfico
de drogas.
Mas o que nos surpreendeu nestes pontos foram os 5% que disseram ser tudo
bom, e os 15% que não encontraram nada de ruim, em morar nos bairros, o que mostra
que a visão dos moradores sobre a periferia não é tão crítica a esta porção da metrópole,
o que pode orientar outros caminhos para novas pesquisas sobre esta parcela da
metrópole, como já apontava SANTOS (2000: 61) .
Há um centro de estudo da violência na USP ao qual devemos boas
análises. Mas deveria ser criado também um centro de estudos sobre a
solidariedade entre os pobres. É evidente que isto não dá manchete,
mas poderíamos compreender melhor as diferentes formas de ajuda
mútua, assim como saber de que modo repercute a produção de um
discurso que escapa à indústria cultural, mas que é cultura.
Uma questão que imaginávamos que fosse ser de difícil recebimento pelos
entrevistados, fora a respeito de terem passado por alguma situação de constrangimento,
ou preconceito, ocasionada pelo fato de residirem na periferia, o que vimos foi que mais
de 90% dos entrevistados disseram nunca terem sentido algo do gênero, vale destacar
que os entrevistados não nos pareceram constrangidos por conta da pergunta, o que,
caso ocorresse, poderia influir nas respostas.
Finalizando a apresentação dos dados das entrevistas destacamos a opinião dos
moradores em se mudar do bairro em que moram. Sobre este quesito o resultado obtido
mostra que há praticamente metade que tem vontade de se mudar e outra que não,
dentre os motivos dos que pretendem, ou melhor, têm vontade de mudar, destaca-se que
mais de 20% diz que gostaria de voltar para terra natal, outros 10% têm vontade de
voltar para o bairro que moravam antes, e que tinham mais relações afetivas, cerca de
15% indicam que gostariam de algo melhor, outros 15% apontam os problemas
encontrados no bairro como motivo, o restante aponta motivos variados para este
desejo, como ir morar no interior, por exemplo.
62
Desse modo podemos dizer, como salientamos anteriormente, que além dos
dados conseguidos, as entrevistas nos serviram para enxergar como se dá parte da vida
na periferia, pois, podemos observar como os moradores se relacionam. Em todos os
bairros foi frequente encontrar os moradores conversando nas calçadas, assim como foi
possível perceber enquanto se conversava com os entrevistados que, apesar das
dificuldades, estes se sentem bem em morar nessa porção da metrópole, o que parece
impensável para quem é externo a essa realidade, vide como ela é apresentada nos
diferentes meios de comunicação.18
18
A antropóloga Adriana Facina em artigo publicado no website FazendoMedia
(http://www.fazendomedia.com/olhar-estrangeiro/) faz uma crítica ao que ela chama de “olhar
estrangeiro” das produções cinematográficas que falam sobre as favelas, e que entendemos ser muito
parecido com a visão difundida sobre a periferia de um modo geral.
63
4.
Considerações Finais
O que vimos ao analisar nossa área de estudo é que a sua formação faz parte de
um processo complexo que age nas diferentes escalas de análise (global, regional e
local), de forma que todas estão diretamente relacionadas, e que a produção e a
reprodução do espaço urbano, se mostra como um dos resultados deste processo.
Desta forma buscamos trazer elementos que demonstrassem que o surgimento e
as transformações socioespaciais ocorridas em nossa área de estudo se mostra de forma
muito parecida das demais áreas periféricas da Região Metropolitana de São Paulo, e
que já foi fartamente estudada por diversos pesquisadores de diferentes correntes e
campos das ciências sociais, sendo assim nossa pesquisa visou confrontar essa base já
produzida com a realidade do espaço por nós estudado, confronto este que, de um modo
geral, corrobora o que fora levantado em nossa pesquisa bibliográfica.
Talvez o que se mostrou diferente em nosso trabalho foi a vontade de buscar nos
próprios moradores dos bairros estudados uma visão dessas áreas, visto que, para nós
apresenta-se como um lugar onde a história da população e a desse espaço se misturam,
elementos estes que por meio de uma análise puramente estrutural, não seria possível de
se enxergar. Sendo assim vemos que nossas entrevistas, mesmo que simples e em
quantidade relativamente reduzida, serviram pra nos dar uma ideia do que pensa essa
população e que para nós se mostra como um aspecto bastante relevante, pois diversos
discursos são produzidos sobre as características dos objetos espaciais das periferias,
embora muitas vezes deixando de lado as características de relacionamento das pessoas,
sobretudo a proximidade que têm os moradores dessas regiões.
Nesse sentido vemos que na área de estudo há de fato uma relação de
solidariedade entre os moradores, seja pela informação dos moradores que se ajudam na
construção das residências, ou pela importância do fator vizinhança, na opinião dos
64
moradores sobre os bairros que residem e vivem, e não apenas dormem, como algumas
análises e conceitos fazem parecer. Todas elas apontam que nessas áreas não há apenas
a falta de infraestrutura urbana, que muitos fazem crer, serem os únicos aspectos do
urbano, mas há também uma grande gama de ações, como o uso das calçadas
constituindo parte da vida cotidiana, e não apenas como caminho, e que são pouco
percebidas, para quem é de fora dessa realidade.
Para refletir sobre como essa população da periferia e o seu modo de vida são
retratados com surpresa quando encontrados aspectos positivos, podemos destacar a
dissertação de Valéria Sanches a cerca de como a população da periferia encara a
questão da morte e em que conclui:
Se ao longo destas páginas procuramos evidenciar a tensão e a
ambiguidade que cercam a morte e os mortos, ao final, nos deparamos
com a tensão e ambiguidade que cercam a vida: a sociedade produziu
seu ‘lixo’ onde foi depositado tudo aquilo que ela separou, apartou,
descartou, excluiu da superfície e jogou para o fundo, mas é aqui,
justamente desse ‘limbo’ que vemos ressurgir algo que acreditávamos
há muito termos perdido. Como é possível que os valores mais
fundamentais da vida tenham se refugiado nesse ‘lodo’ e sobrevivido
ao lado de tanta violência, miséria e dor? (SANCHES, 1999)
De fato sabemos que as dificuldades enfrentadas por esta população são imensas
e que limitam a sua ascensão em diversos aspectos, educacionais, de renda, cultura, mas
o que buscamos mostrar é que apesar dessas dificuldades esses moradores conseguem
viver de uma forma em que as ausências estruturais parecem ser substituídas pela
presença de um companheirismo e um espírito de vizinhança, que tornam essas áreas,
para os moradores, tranquilas e sossegadas, como os mesmos apresentaram em nossas
entrevistas.
65
5.
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Humanas. Universidade de São Paulo, 2009.
SANTOS, Milton. O Espaço Dividido. Os dois circuitos da economia urbana dos
países subdesenvolvidos. Tradução de Myrna T. Rego Viana. Rio de Janeiro,
Francisco Alves, 1978.
___________ Território e sociedade: Entrevista com Milton Santos, São Paulo:
Fundação Perseu Abramo, 2000.
___________. A Urbanização Brasileira. São Paulo: EDUSP, 2008.
___________. Por uma Economia Politica da Cidade. São Paulo: Hucitec,1994.
SEABRA, Odette. Os Meandros dos Rios nos Meandros do Poder: Tietê e Pinheiros
– valorização dos rios e das várzeas na cidade de São Paulo. Tese de
(doutorado), Departamento de Geografia. Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, 1987.
SINGER, Paul. O uso do solo urbano na economia capitalista. In MARICATO, Ermínia
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Paulo: Editora Alfa-Omega, 1982, p. 21-36.
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da Conceição. Rio de Janeiro: 2010. Folha.com. Entrevista concedida a Claudia
Antunes, disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/797136-naotem-mais-centro-e-periferia-afirma-maria-da-conceicao.shtml
68
6.
Anexo: Questionário Aplicado
Nome: ________________________________________________________________________________________
Endereço:_____________________________________________________________________________________
Escolaridade: ________________________________________Sexo: (
) M
(
) F
Idade:
__________________
Estado Civil: ( ) Solteiro ( ) Casado ( ) Convivente ( ) Viúvo/a ( ) Separado/a ( ) Divorciado/a
Onde nasceu (município)?: __________________________________________________________________
Tem filhos ( ) Sim ( ) Não
Se sim, quantos _______________ Moram todos nesta residência? ( ) Sim ( ) Não
Se
não,
onde
residem
os
que
não
moram
na
casa?
___________________________________________________________________________________________________
__________________________________________
Para quem nasceu em outro município/estado:
1.
Porque veio para São Paulo? ______________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
2.
Tinha algum bem no local de origem? Qual?
_________________________________________________________________________ ___________ _________
______ _________________________________________________
3.
Há quanto tempo reside neste domicílio?
__________________________________________
4.
Antes de morar aqui onde morava (município/bairro), e porque veio pra
cá?___________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
__________________________
5.
Qual o tipo do imóvel? ( ) alugado ( ) próprio ( )de parente ( ) outro
6.
Qual a forma de aquisição do ( ) terreno/ ( )casa ? ( ) compra à vista ( )
compra financiada ( ) ocupação ( ) outro
6.1 Qual a forma do
financiamento?_____________________________________________________________________________
_____________________________________________
7.
Qual a forma de construção do imóvel? ( ) profissional pago ( )
doméstico/familiar
69
( ) misto ( ) misto c/ maior parte por profissional ( ) misto c/ maior parte por
familiar
7.1O que acha do fato da própria família ter participado na construção da casa?
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
__________________
7.1 .1Tem alguma história ou lição que o senhor(a) gostaria de contar deste fato?
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
__________________
8 Ajudou ou obteve ajuda dos vizinhos no processo de construção? ( )sim ( )não
8.1De que forma de ajuda?_________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
9
Em sua opinião, e de uma maneira geral, o senhor(a) considera que conhece
seus vizinhos: ( )muito bem ( ) bem ( )regular ( ) pouco ( ) muito pouco
9.1 E como classificaria sua relação com eles:
( ) muito boa ( ) boa ( )regular ( )ruim ( )péssima
10
O que o senhor(a) acha de morar aqui (neste bairro)?
( ) ótimo ( ) bom ( )regular ( )ruim ( )péssimo
10.1
Porque dessa
opinião?_______________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
____________
11
Diga o que acha de melhor em morar aqui:
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
____________________________________________________________
12
Diga o que acha de pior em morar
aqui:____________________________________________________
70
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
____________
13
Alguém da casa já sofreu algum constrangimento, ou preconceito, ao dizer
que morava aqui? ( )sim ( )não 13.1Como
foi?_____________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
____________
14
Tem vontade de mudar daqui (bairro)? ( )sim ( )não
14.1Porque?_________________________________________________________________________________
_______________________________________________________________________________________________
_________________________________________________
15
Sobre o comércio da região, o senhor(a) costuma comprar em
estabelecimentos familiares (aqueles em que o dono e a familiares trabalham
nele)? ( )sim ( )não
16
Tem algum comércio em que o senhor(a) consegue comprar “fiado”? ( )sim
( )não 16.1 Quantos?__________________
71
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Universidade de São Paulo - Ricardo Mendes Antas Jr.