Clipping Nacional de Educação Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015 Capitare Assessoria de Imprensa SHN Qd2Edifício Executive Office Tower Sala 1326 Telefones: (61) 3547-3060 (61) 3522-6090 www.capitare.com.br O GLOBO 23/02/15 SOCIEDADE País de estudantes on-line Economizando tempo. Após ter um filho, Monica complementou as aulas na faculdade de Administração com cursos on-line em casa, e acabou estudando vários outros assuntos RAPHAEL KAPA raphael. kapa@ oglobo.com. br Cursos via rede atraem centenas de milhares de brasileiros e abrem debate sobre a prática Especialista em Educação Básica pela UFF “Quando surgiram, as aulas on-line eram consideradas uma revolução, mas hoje se sabe que é uma onda que precisa ser adaptada. Nada substituiu o professor, mas muitas coisas podem ajudá-lo” Joana Sampaio Quando a estudante universitária Monica Aragão, de 28 anos, teve um filho, ficou cada vez mais difícil conciliar as aulas com a maternidade. Os atrasos se tornaram constantes e o tempo para estudar não poderia ser mais o determinado pela faculdade. Foi neste momento que a moradora de Marechal Hermes, zona Norte do Rio, começou a utilizar sites de cursos on-line e passou a assistir aulas com professores das mais diferentes instituições, desde a Universidade de São Paulo (USP) até a americana Harvard. — Sempre fui contra disciplinas online porque acho fundamental a presença do professor, mas passei a ver que é algo que complementa. Com as limitações de horário que tenho desde que virei mãe, eu agora posso ver a aula, parar e voltar quantas vezes eu quiser até entender a matéria — afirma Monica, que começou utilizando as plataformas para eliminar horas obrigatórias na faculdade de Administração, que frequenta, mas, por ter gostado da experiência, acabou fazendo outros cursos. — Já fiz “Gestão de Recursos Humanos”, “Nova reforma ortográfica”, “Liderança e coaching” e “Inglês”. Em meio ao debate sobre a validade destas novas plataformas de ensino, os cursos on-line tiveram uma expansão no mercado brasileiro, chamando a atenção das principais empresas do setor. O Coursera, principal página de aulas pela web no mundo, já conta com mais de 400 mil usuários brasileiros, o que fez com que o país passasse o Reino Unido no número de inscritos no site. O Brasil fica em quarto lugar na lista, somente atrás de China, Estados Unidos e Índia. A grande presença nacional num site que não tem aulas em Português levou a página a investir mais em traduções. Além disso, o grupo passou a fazer 23/02/15 parceria com a USP e a Unicamp para criar cursos voltados a professores brasileiros, que devem entrar no ar nos próximos meses. — Cerca de 50% dos brasileiros que fazem o Coursera querem ganhar novas habilidades para suas carreiras — afirma Daphne Koller, presidente da empresa. — De fato, os brasileiros são três vezes mais propensos que os chineses e duas vezes mais que os americanos a conseguir as certificações emitidas pelo site, para mostrar publicamente o ganho que obtiveram. PLATAFORMA NACIONAL EM ALTA - O crescimento não é pontual. Na plataforma Novo Ed, que reúne aulas da universidade americana de Stanford, o público brasileiro ocupa o terceiro lugar. Já no site Udacity, que reúne aulas de diversas faculdades dos Estados Unidos, os brasileiros disputam, mensalmente, a colocação entre os três principais países que usam a plataforma. — O Brasil é um mercado estratégico para nós. Estamos concentrados em melhorar e expandir nossos esforços para atender os alunos brasileiros — afirmou a consultora da Udacity, Shernaz Daver. Em meio à concorrência de sites do exterior, foi um site brasileiro que teve o maior crescimento nos últimos anos. O Veduca começou, em 2012, com cursos estrangeiros e atingiu 50 mil estudantes naquele ano. Dois anos depois, o grupo passou a fazer parcerias com diferentes instituições brasileiras, com o Google e com a Bovespa para empreender os mais variados tipo de curso. O resultado: 650 mil usuários em dezembro passado — um deles justamente Monica. Carlos Souza, diretor executivo do grupo, afirma que o motivo que a fez procurar o site é o principal entre os brasileiros: — Num levantamento que fizemos, vimos que as pessoas nos procuram, primeiro, porque é de graça — explica Souza. — Em segundo lugar, elas querem fazer o curso no seu próprio ritmo e, em terceiro, consideram a qualidade do material. O fato de ser gratuito atrai muito e, no fim, as pessoas acabam querendo pagar pelo certificado. Um outro aspecto dos cursos pela internet é que eles não são utilizados somente de forma individual. Muitos já foram incorporados dentro da realidade das escolas como forma de complementar a educação. — Pesquisas já mostram que a maneira mais efetiva de ensino é combinar o presencial e o on- line. O aproveitamento é bem maior com o uso otimizado do tempo de estudo — afirma Souza. Foi desta forma que o colégio D’Incao, em São Paulo, passou a utilizar o iTunesU, aplicativo de educação da Apple, em suas aulas. Os diretores da instituição enfatizam, no entanto, que a tecnologia surge como um instrumento para o professor e que nunca irá substituí-lo. — A plataforma apoia o aluno sem retirar a presença do professor. É impossível garantir a qualidade de um curso sem a mediação. A sala de aula é o ambiente em que se garante o efetivo desenvolvimento do aluno e do conteúdo, e a tecnologia é uma ferramenta que torna este local mais atrativo e interativo — afirma o diretor Pedro D’Incao. NECESSIDADE DE ADAPTAÇÃO - Porém, enquanto o Brasil vive um crescimento destes cursos, os Estados Unidos passam a rever a metodologia. John Henessy, presidente de Stanford e um dos mais conhecidos pesquisadores sobre o assunto, critica as plataformas por não serem atrativas o suficiente. Em estudo veiculado no ano passado, o professor afirma que menos da metade dos alunos que se inscrevem no curso terminam de assistir à primeira aula. — Quando surgiram em 2011, os cursos on-line eram vistos como verdadeira revolução no ensino. Hoje, já conseguimos compreender que se trata de uma onda que tem que ser adaptada. Nada substituiu o professor, mas muitas coisas podem ajudá-lo. As chances de um aluno se interessar por uma aula on-line são muito maiores se ele tem uma empatia por aquele tema de alguma forma presencial — afirma Joana Sampaio, especialista em Educação Básica pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O GLOBO 23/02/15 SOCIEDADE ANTÔNIO GOIS O que pode dar certo Livro de pesquisadores americanos identifica experiências bem-sucedidas no ensino de alunos de baixa renda Lançado no ano passado nos Estados Unidos, o livro “Restoring Opportunity”, dos professores Greg Duncan (Universidade da California) e Richard Murnane (Harvard), traz boas e más notícias para quem acredita que a escola é capaz de reduzir desigualdades e garantir ensino de alta qualidade para os alunos mais pobres. A boa é que essa é uma missão possível, como demonstram iniciativas bemsucedidas que passaram por rigorosas avaliações. A má é que não é uma tarefa simples e, para dar conta dela, não há bala de prata. Sempre baseados num enorme arsenal de pesquisas acadêmicas, os autores primeiro demonstram como a pobreza e o crescimento da desigualdade estão ameaçando o sonho americano de mobilidade social. Famílias mais ricas, cujas crianças já entram na pré-escola com um vocabulário muito mais amplo que o das demais, estão investindo cada vez mais na educação de seus filhos, desde a educação infantil até o ensino superior. Enquanto isso, os mais pobres estudam em escolas de pior qualidade, exatamente como ocorre no Brasil. Duncan e Murnane apresentam então três projetos com ótimos resultados e destacam duas características comuns a todos. A primeira é a existência de uma forte estrutura de apoio à escola e, principalmente, aos professores, para que possam desenvolver um currículo de alto padrão, com elevadas expectativas acadêmicas para todos os estudantes. A segunda é a avaliação (não apenas por testes padronizados) e monitoramento constante desse trabalho, de modo a garantir que os resultados estejam sendo alcançados, detectar problemas, e corrigir rumos. Para os autores, essas duas dimensões são essenciais. Avaliar e cobrar resultados das escolas sem que elas tenham apoio para promover as mudanças é tão ineficiente quanto oferecer ajuda sem monitorar se o projeto está sendo de fato bem executado. Na educação infantil, o projeto destacado foi implementado em pré-escolas na cidade de Boston, onde a secretaria de educação estabeleceu um currículo de alto padrão, elevou significativamente os salários dos professores dos primeiros anos para atrair bons profissionais, e ofereceu a eles apoio e acompanhamento intensivo do trabalho em sala de aula. No ensino fundamental, o livro retrata uma rede de escolas privadas que, mantida com dinheiro público, atende alunos de baixa renda em Chicago. Aqui também o destaque é para a forte estrutura de apoio criada para orientar diretores e professores a desenvolverem seu projeto pedagógico. Já no ensino médio, os autores contam a história de escolas públicas de Nova York que receberam apoio de empresas e organizações educacionais contratadas pela prefeitura para dar suporte a esses colégios. Ao final, Duncan e Murnane se deparam com um dilema. Por um lado, lembram que há ampla evidência de que simplesmente gastar mais dinheiro na educação não garante melhoria da qualidade do ensino. Por outro, reconhecem que os projetos destacados no livro demandaram significativos recursos adicionais. Diante disso, concluem: “É errado dizer que dinheiro não importa. Ele pode fazer a diferença, mas somente se usado efetivamente para melhorar a qualidade da instrução e enriquecer as experiências de aprendizado das crianças de baixa renda”. NA WEB http://goo.gl/kf0kvu Veja, em inglês, vídeos sobre os três projetos retratados no livro FOLHA DE SÃO PAULO 23/02/15 TENDÊNCIAS & DEBATES Da retórica aos resultados MARIA ALICE SETUBAL O século 21 exige que o Brasil prepare seus estudantes para participar de uma sociedade complexa. É isso o que esperamos deste governo No momento em que um novo ano letivo se inicia, com um novo ministro afirmando que a prioridade de sua gestão será a qualidade da educação no Brasil, é fundamental que a sociedade brasileira tenha maior clareza de que um sistema educacional de qualidade exige muito mais do que os resultados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) podem mostrar. Estudos apontam como componentes que contribuem para a qualidade da educação a formação e qualificação dos professores, gestão por resultados com metas e expectativas de aprendizagem, currículo e material didático diversificado, acompanhamento personalizado dos estudantes, uso de novas tecnologias e a participação dos pais. No entanto, são as diferentes combinações dessas dimensões e, sobretudo, o modo de implementá- las, que faz com que algumas redes alcancem qualidade e outras não. A complexidade da questão educacional pode ser evidenciada pela dificuldade de encontrar parâmetros comuns entre os dez países mais bem colocados nas avaliações do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), para além da prioridade da educação e da valorização dos professores. No Brasil, passamos a atribuir, a comparar e a classificar a qualidade das redes de ensino e das escolas brasileiras a partir dos resultados do Ideb. Apesar do avanço do índice, ele é um indicador composto pelas notas de língua portuguesa e matemática da Prova Brasil e pelas taxas de aprovação, reprovação e abandono escolar do 5º e 9º anos do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio. Ou seja, não estamos medindo condições vitais para a qualidade da educação como as diferenças na infraestrutura física das escolas, sua localização e tamanho, a qualificação dos docentes e diretores, além do currículo e da ausência de avaliação das demais disciplinas e séries. Isso sem mencionar o clima escolar e a capacidade da escola em preparar seus alunos. É, portanto, reducionista comparar o Ideb de um município com menos de dez escolas com os resultados dos sistemas de ensino de grandes cidades e metrópoles, com diversidade e complexidade maiores. Ou, então, colocar no topo do ranking redes que alcançam melhores resultados em decorrência de processos de seleção, que acirram as desigualdades ao excluir parcelas mais vulneráveis da população. A qualidade tem que estar estreitamente relacionada com equidade. O Brasil precisa alcançar um nível básico de qualidade da educação para todas as crianças e jovens. As diversidades regional, cultural e educacional de um país com as dimensões brasileiras inviabilizam políticas únicas e rígidas para realidades tão distintas. 23/02/15 Se a prioridade é o ensino médio, é preciso ter um olhar sistêmico para levarmos em conta a qualidade dos ciclos anteriores e as diferentes necessidades e potencialidades de cada rede de ensino. Não bastam políticas genéricas. Temos que analisar todos os aspectos que envolvem a educação. O mundo globalizado e o século 21 exigem que o Brasil prepare seus estudantes para participar de uma sociedade complexa e sustentável, baseada em valores como inovação, criatividade, autoria e trabalho colaborativo. É isso o que esperamos deste novo governo. MARIA ALICE SETUBAL, a Neca, doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, é presidente dos conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e da Fundação Tide Setubal. Foi assessora de Marina Silva, candidata à Presidência da República pelo PSB na eleição de 2014 FOLHA DE SÃO PAULO 23/02/15 COTIDIANO País tem ao menos 41 mil cursos de especialização e MBA abertos Levantamento foi feito com base em novo cadastro obrigatório criado pelo Ministério da Educação Maioria dos cursos lato sensu é presencial e SP é o Estado com mais opções; cadastro é para 'melhoria da oferta' FLÁVIA FOREQUE NATÁLIA CANCIAN DE BRASÍLIA O Brasil possui uma oferta de ao menos 41.070 cursos de especializações e MBAs, de acordo com dados que fazem parte de uma radiografia inédita sobre a pós-graduação lato sensu em instituições privadas e federais do país. Até então, não havia dados disponíveis sobre essa etapa de ensino, com foco no mercado profissional. Isso porque a criação desses cursos não depende de autorização do governo federal -diferentemente dos cursos stricto sensu. Mas, diante da forte expansão, o Ministério da Educação criou um cadastro obrigatório para essas escolas. de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os dados, preliminares, foram compilados pela Folha a partir desse levantamento. As instituições têm até o fim deste mês para cadastrar informações sobre os cursos em funcionamento. A partir de março, cursos não inscritos serão considerados irregulares, conforme prevê uma norma do MEC publicada na semana passada. Até aqui, os dados apontam que a oferta de especializações corresponde ao menos ao dobro de cursos de graduação disponíveis nas instituições particulares e universidades federais do país -são 27.167, de acordo com dados de 2013, os mais recentes disponíveis. PRESENCIAIS A maioria desses cursos, 92% do total, ocorre por meio de aulas presenciais. O restante funciona a distância, modalidade até então apontada como principal aposta para esta etapa de ensino. São Paulo é o Estado com a maior oferta de cursos --7.803 ao todo. Em seguida, estão os Estados Questionado pela reportagem, o MEC informou que a finalidade do cadastro é mapear os cursos "na perspectiva da melhoria da oferta". "O cadastro é uma ferramenta operacional. O que pode mudar a qualidade é a regulação", afirma Erasto Fortes, presidente de uma comissão do Conselho Nacional de Educação que discute regras mais rígidas para esse tipo de curso. A expectativa é que o texto seja votado ainda no primeiro semestre deste ano. O objetivo é dar ao estudante, que chega a desembolsar cerca de R$ 30 mil por um curso, maior garantia sobre a qualidade das aulas. "Num mundo com tecnologias, modificações e informações que se multiplicam a cada dia, é necessário se atualizar sempre. Esses cursos estão aumentando porque há demanda", afirma Ivete Palange, consultora da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância). FOLHA DE SÃO PAULO 23/02/15 COTIDIANO Federais têm 5% dos cursos de especialização DE BRASÍLIA Consideradas de maior qualidade, as universidades federais respondem por apenas 5% da oferta de cursos de especialização já cadastrados no MEC. São 1.896 cursos disponíveis, concentrados principalmente nas áreas de saúde, educação e ciências sociais. Ao todo, as 63 federais oferecem ao menos 183.156 vagas. Seus cursos tiveram, pelos dados preliminares, 159.776 egressos. oferta de cursos, com 204 cadastrados até agora. A Unifesp aparece em seguida, com 199. Ao mesmo tempo em que há um aumento na demanda por estes cursos, representantes de universidades ainda não veem na especialização uma fonte expressiva de recursos. Se comparado ao total da amostra, o percentual de cursos a distância é maior nas federais: 19%. "Não são como cursos de graduação, em que todo ano entra uma nova turma. E, em geral, quando são cursos pagos, os docentes são remunerados, e é para onde vai a maior quantidade de recursos", diz Targino de Araújo Filho, presidente da Andifes (associação de reitores das universidades federais). A região com maior número de vagas nas federais é o Sudeste, seguido por Sul e Nordeste. A UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) informou a maior Para ele, esses cursos podem repercutir também no ensino da graduação, pois o professor se aproxima das exigências do mercado. O ESTADO DE S. PAULO 23/02/15 METRÓPOLE O ESTADO DE S. PAULO 23/02/15 METRÓPOLE CORREIO BRAZILIENSE 23/02/15 CIDADES EDUCAÇÃO » Ano letivo começa com alerta de greve Luiza, mãe de Gustavo, aluno do 5º ano: "Causa uma insegurança. É muito desagradável não poder se planejar" Professores da rede pública de ensino, que deveriam estar em sala de aula a partir de hoje, como previa o já atrasado calendário escolar, participam de assembleia de manhã para decidir sobre a proposta do GDF de parcelamento dos benefícios atrasados » MATHEUS TEIXEIRA » KELLY ALMEIDA Marcado para hoje, com duas semanas de atraso em relação ao primeiro calendário letivo anunciado, o início das aulas na rede pública de ensino segue incerto. O impasse entre o Governo do Distrito Federal e os professores deve tumultuar as atividades escolares dos 460 mil estudantes. A começar por esta segunda-feira, quando os alunos podem até comparecer ao colégio, mas não terão professor em sala. O Sinpro-DF, sindicato dos docentes, convocou uma assembleia para as 10h, a fim de decidir se aceita a proposta do GDF de parcelamento dos benefícios atrasados ou se declara greve. A tendência, até a noite de ontem, era de paralisação, como forma de pressionar o Palácio do Buriti a atender a categoria. Ou, pelo menos, deliberar um indicativo de greve e marcar um segundo encontro. A dívida do Estado com os professores é de R$ 120 milhões, entre 13º salário para os nascidos em dezembro (uma parcela do benefício é paga no mês do aniversário do servidor) e rescisão contratual de 6 mil temporários. O imbróglio começou no fim do ano passado (veja Linha do tempo). O ex-governador Agnelo Queiroz (PT) não pagou os benefícios e deixou o débito para o sucessor, Rodrigo Rollemberg (PSB). O Sinpro-DF exige o quitamento à vista da dívida. O socialista, no entanto, assumiu o Executivo local garantindo ter um deficit de R$ 3,5 bilhões no caixa. Por isso, alega, não tem dinheiro para saldar os atrasos de uma só vez. O sindicato se mostra insatisfeito com a solução encontrada pelo GDF e acompanha de perto as finanças do Palácio do Buriti. “Tem recursos entrando, recolhimento de impostos funcionando normalmente. Queremos uma data certa para a quitação da dívida, não o parcelamento”, afirma Washington Dourado, um dos diretores do Sinpro-DF. Segundo ele, o sindicato está aberto ao diálogo, mas, diante de respostas que não agradem à categoria, o caminho mais provável será o da paralisação. “Não tendo solução, vamos definir a linha de enfrentamento. Tudo pode acontecer, inclusive a greve.” 23/02/15 Nos bastidores, outros integrantes do sindicato admitem que o mais provável é pressionar o GDF por meio de uma greve total, caso o governo continue insistindo no parcelamento. A proposta, contudo, não é declarar uma paralisação por tempo indeterminado. Mas, sim, atrasar um pouco mais o início do ano letivo para continuar a negociação. Rosilene Corrêa, outra diretora da entidade, diz que a reunião da categoria hoje de manhã será fundamental para os rumos da educação no DF: “Nossa instância máxima é a assembleia. E ela é democrática. Acataremos o que a maioria decidir. Não temos como adivinhar qual será o resultado”, ressalta. Antecipação de receita O secretário de Educação, Julio Gregório, afirma ser impossível alterar o cronograma de pagamento dos atrasados. “Esse calendário foi feito observando o fluxo de caixa do GDF, caso consigamos antecipar um volume de recurso que não estamos esperando. Faremos o adiantamento, mas não temos como garantir”, explica. Sobre a assembleia de hoje, ele afirma confiar no “bom senso” dos docentes. “Com certeza, eles estão acompanhando a grave situação financeira que vivemos e entenderão nossos motivos para os atrasos.” Gregório lembra da tentativa de Antecipação de Receita Orçamentária (ARO) de R$ 400 milhões como saída para resolver o problema. A ideia foi sugerida pelo Sinpro-DF. O GDF cedeu ao pedido para tentar acalmar os docentes. O projeto da ARO passou pela Câmara Legislativa semana passada, mas precisa do aval da Secretaria do Tesouro Nacional e de intermédio do Banco Central. Uma definição, porém, só deve ocorrer em abril, mais de um mês após o começo das atividades escolares. O negócio é oneroso para o GDF, pois é um empréstimo. Caso se concretize, o Executivo local terá R$ 400 milhões de imediato no caixa. Os juros nesse tipo de negociação, no entanto, não passam de 15%. Assim, o Palácio do Buriti conseguiria a verba, mas teria de pagar ao credor, até o fim do ano, R$ 460 milhões — deixando R$ 60 milhões pelo caminho. “Só teremos como pagar à vista se a ARO se viabilizar”, reforça Gregório. casa com o filho. “Agradeço por ter essa vantagem. Mas conheço muitas mães que, em tempo de greve, não têm onde deixar a criança. Imagina o desespero? Tudo isso por falta de responsabilidade do Estado. Entendo a posição dos professores, que estão com pagamentos atrasados do governo anterior. Mas quem sofre é a população”, ressalta. Desde o início do ano, ela vem tendo dores de cabeça por conta do calendário escolar. Todos os anos, a família viaja em junho. Desta vez, devido às alterações anunciadas em janeiro, teve de mudar os planos. “Sempre me ausento do trabalho no mesmo período, mas esse ano tive de mudar”, lamenta a mãe. Linha do tempo 2014 Apreensão dos pais Enquanto governo e professores não se entendem, quem sofre são os alunos e as suas famílias. A corretora de seguros Luiza Cardoso, 43 anos, mãe de Gustavo, aluno do 5º ano da Escola Classe 403 Norte, critica o fato de até agora não saber como será a rotina da família nesta semana. “Causa uma insegurança. É muito desagradável não poder se planejar”, reclama. Ela conta que tem um local fixo de trabalho, mas também pode despachar da residência em que mora. Por isso, quando há paralisação, consegue ficar em 22 de dezembro Pelo menos 300 professores e funcionários de empresas terceirizadas do DF fecham as seis faixas do Eixo Monumental. Os professores alegam erro no depósito do 13º salário para quem fez aniversário até setembro e pedem a correção e o pagamento integral. 26 de dezembro Com pagamentos atrasados, os professores da rede pública passam a tarde reunidos com o então secretário de Administração Pública, Wilmar Lacerda, para cobrar os benefícios atrasados. 23/02/15 2015 7 de janeiro Em mais uma manifestação em frente ao Palácio do Buriti, professores ouvem de representantes do governo que não há dinheiro em caixa para arcar com os atrasados. 8 de janeiro Em meio à crise financeira, o GDF adia o início do ano letivo para 23 de fevereiro — as aulas seriam retomadas em 9 de fevereiro. O calendário é alterado em razão das condições das escolas da rede pública. Apesar do adiamento, o secretário de Educação admite que 148 unidades de ensino, do total de 657, não passaram por reformas. 19 de janeiro Em reunião no Palácio do Buriti, professores e representantes do GDF não entram em acordo. Os profissionais da Educação rejeitam o parcelamento dos benefícios atrasados, entre eles 13º salário e abono de férias. 20 de janeiro Em mais uma reunião entre governo e professores, o chefe da Casa Civil, Hélio Doyle, anuncia o envio do projeto para Antecipação de Receita Orçamentária (ARO) à Câmara Legislativa, para tentar quitar os débitos. 23/02/15 23/02/15 JORNAL DE BRASÍLIA 23/02/15 CIDADES JORNAL ALÔ BRASÍLIA-DF 23/02/15 BRASÍLIA GDF acredita em acordo com Simpro-DF 23/02/15 Valor Econômico 23/02/15 EMPRESAS Englishtown triplica receita no país em 3 anos Por Marília de Camargo Cesar | De São Paulo Claudio Belli / ValorAndré Marques, da Englishtown: meta de faturar R$ 300 milhões em 2017 "Eu não era bom na escola. Então, eu achava que nenhuma empresa iria me contratar. Também não sou muito habilidoso. A única opção que eu tinha era abrir minha própria companhia." A modesta declaração, encontrada no Youtube, é do bilionário sueco Bertil Hult, de 74 anos, disléxico, cuja "falta de habilidade" o levou a construir a maior fortuna de seu país justamente no ramo da educação. A revista "Forbes" o posiciona como o 311º bilionário do mundo, com patrimônio líquido estimado em US$ 5 bilhões. O grupo que fundou, EF Education First, de escolas de idiomas e viagens de intercâmbio, completa neste mês 50 anos, e cresce rapidamente no Brasil, onde é conhecido pela rede de escolas de inglês on-line Englishtown. Líder global no ensino de idiomas a distância, um mercado em que concorre com 22 participantes, entre os quais os maiores são Rosetta Stone, Open English e English Up, a Englishtown chegou ao país em 2011, e desde então já triplicou sua receita para R$ 150 milhões. Em 2014, a alta foi de 40% sobre 2013. Marques estima que os cursos de idiomas movimentem R$ 3 bilhões por ano no Brasil, enquanto as plataformas específicas para internet ainda girem um valor relativo pequeno, que ele estima em R$ 300 milhões ao ano. A escola conta hoje com uma "sala de aula" digital de 130 mil alunos, de 2 mil cidades brasileiras. O Sudeste concentra 63% dos estudantes, e a região Sul foi onde as vendas de licenças da sua plataforma de ensino mais cresceram em 2014, segundo André Marques, diretor-geral da empresa. O Nordeste tem 12% e é o segunda maior mercado da empresa no país. Para cumprir a meta de avançar 20% nas vendas em 2015, a Englishtown investe pesadamente em marketing on-line e em comerciais de televisão - tem uma divertida campanha denominada "gringofobia" no ar, da agência Jotacom. O investimento em marketing equivale a 18% a 20% das receitas, segundo Marques, e cresce 25% ao ano, em média. "O Sudeste é nosso grande mercado, por conta da concentração da população e das maiores exigências na recolocação. Mas Porto Alegre e Florianópolis crescem muito também", afirma. No primeiro bimestre deste ano, o aumento de receita é de "apenas" 20% sobre igual período do ano passado. "Quando se vem num ritmo de 40%, cair para 20% deixa a gente triste", brinca. A metodologia de ensino e a flexibilidade são vistas como um dos trunfos da escola para ganhar adeptos. Ao contrário dos cursos presenciais, o aluno on-line não está preso a um horário de aulas, e pode fazer e alterar sua agenda de acordo com a necessidade. Se não gostar do professor, também pode simplesmente trocar por outro, com um sotaque mais agradável ou conveniente. A Englishtown conta com um corpo de 14 mil professores de diversas partes do globo, em especial dos EUA, Reino Unido, Austrália e África do Sul. 23/02/15 Os cursos têm 16 níveis de dificuldade, e preparam para os exames de proficiência como Toeic e Toefl. O preço da licença de um curso de 12 meses varia de R$ 2,4 mil a R$ 4 mil, mas há os mais rápidos e baratos. A empresa tem investido em programas mais acessíveis para a classe média, com objetivo de baixar o tíquete médio. Hoje, o valor médio vai de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil e o objetivo é chegar a R$ 1 mil por ano até 2017. Até lá, a escola espera ter conquistado no Brasil 300 mil alunos e R$ 300 milhões de faturamento. Como parte da estratégia de reforço da marca, a empresa venceu uma concorrência para ser o fornecedor oficial dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro em 2016. Com isso, assume a tarefa de treinar gratuitamente, por meio de sua plataforma on-line, 1 milhão de pessoas, entre voluntários, atletas e profissionais dos comitês organizador, além de alunos de escolas públicas do Rio, até a época dos jogos. Valor Econômico 23/02/15 CARREIRA Novo diretor assume comando da escola de administração da FGV Por Stela Campos | De São Paulo Ex-executivo, professor e pesquisador, Luiz Artur Ledur Brito terá dois grandes desafios ao assumir oficialmente na quartafeira a direção da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eaesp-FGV): melhorar a conexão da instituição com a comunidade executiva e aumentar sua presença internacional. Tais tarefas se tornam ainda mais complexas em um ano que já vem se mostrando difícil. Para Brito, contudo, cumprir metas e superar adversidades sempre fez parte da carreira. Uma de suas batalhas mais duras foi para chegar ao novo cargo - ele bateu 40 candidatos entre reitores, docentes e executivos do país e do exterior. O processo de seleção durou quase seis meses e assim como aconteceu com a antecessora Maria Tereza Fleury - que agora passa a ocupar uma diretoria da FGV para o Estado de São Paulo - envolveu um comitê, agora presidido por ela. Além disso, houve a participação de uma consultoria externa e anúncios da vaga até em revistas internacionais como a "The Economist". Os interessados tiveram que apresentar um plano de negócios para a escola para os próximos anos. "Existe uma grande diferença entre planejar e conseguir executar", disse Brito ao Valor, em sua primeira entrevista como comandante da Eaesp. Lidar com competidores diversos é uma experiência bem parecida com outras que enfrentou durante os 25 anos em que atuou no mundo corporativo. Brito, que é formado em engenharia química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, iniciou a carreira em uma área técnica da antiga Santista, depois Bunge, onde se tornou diretor aos 31 anos de idade. Também trabalhou na Dixie Toga, uma das maiores fabricantes de embalagens da América Latina. Como executivo, morou na Tailândia, onde nasceu a primeira filha (ele tem quatro filhos) e também na Inglaterra. Aos 45 anos, sentiu que apenas os desafios do mundo dos negócios não o satisfaziam plenamente. "Queria outro tipo de vivência, que me provocasse intelectualmente", conta. Decidiu, então, realizar um doutorado na Eaesp, inspirado pela mulher, que havia seguido a carreira acadêmica. "Fui ingênuo ao achar que seria possível conciliar o doutorado e a vida executiva", afirma. Foi assim que decidiu dar uma guinada na profissão. Optou pelo mundo acadêmico e mergulhou fundo na pesquisa científica publicando dezenas de artigos, papers e capítulos em livros. Também foi convidado a lecionar na Eaesp. "Não foi fácil começar em uma área nova em um estágio já avançado da vida. Tive que fugir, inclusive, do assédio dos headhunters, que queriam me trazer de volta para o mundo empresarial", diz. Toda a experiência adquirida nos dois lados da mesa, segundo ele, contou pontos na sua escolha para a direção da escola. "Essa ligação com os executivos e o fato de gostar de implementar estratégias e saber decidir rapidamente ajudaram muito", diz. Em sua percepção, a escola enfraqueceu seus laços com o mundo corporativo nas últimas décadas e agora é hora de ela se reposionar. Uma de suas medidas para trazer os assuntos do dia a dia empresarial para dentro das salas de aula será atrair mais executivos para atuarem como mestres. A escola tem atualmente 100 professores com dedicação exclusiva e 130 com atuação parcial. O diretor pretende lançar, até o fim do ano, novos mestrados profissionais, com conteúdo voltado justamente para 23/02/15 profissionais do mercado. "Queremos aproveitar a expertise que temos em nossos centros de excelência para desenvolver esses novos cursos", diz. Até o momento, a escola oferece três mestrados profissionais - um voltado para o gestor em estágio avançado da carreira, um de gestão internacional para jovens recémformados e outro na área de gestão de políticas públicas. Já para 2016 o plano é lançar um doutorado profissional. Ao contrário dos mestrados profissionais, Brito diz que ele ainda não é regulamentado no Brasil, mas já é uma tendência nas grandes escolas de negócios internacionais. Voltado para um grupo seleto de executivos - com apenas dez alunos por turma - e com uma agenda mais flexível de horários, ele se diferencia do doutorado acadêmico por abordar temas mais ligados ao mundo dos negócios. Entre os planos de médio prazo para a escola está o de investir na internacionalização, atraindo professores e alunos de outros países. Brito diz que a Eaesp tem potencial para ganhar o mesmo destaque que algumas escolas espanholas como o IE Business School e Iese, ou outras francesas como a HEC, figurando entre as grandes escolas de negócios do mundo. "Já conseguimos as maiores acreditações internacionais, precisamos tirar vantagem disso". AACSB, dos Estados Unidos, EFMD, da Europa, e Amba, da Inglaterra, são algumas delas. O carro-chefe da Eaesp atualmente ainda é o tradicional curso de graduação em administração no qual ingressam cerca de 500 alunos por ano e que atrai milhares de candidatos por vaga. No total, circulam pela escola 2030 estudantes de graduação e 1360 de pósgraduação, incluindo os doutorandos e mestrandos. Brito reconhece que ganhar espaço entre os grandes players globais não será fácil, ainda mais com tantas adversidades econômicas pelo caminho. Mas para ele, que aos 60 anos de idade encontra disposição para pedalar mais de 1.100 km pelos Alpes na Europa, com perseverança e treino nada parece impossível. 25/02/15 BRASIL CONFIDENCIAL Eumano Silva Pressão sobre Cid O ministro da Educação, Cid Gomes, assumiu o cargo sem apoio político até mesmo do próprio partido, o PROS. Agora, deputados querem levá-lo à Comissão de Educação para prestar esclarecimentos sobre cortes de verbas em sua pasta. Parlamentares do PROS engrossam a pressão. Outras frentes de ataque No Senado, o oposicionista Cássio Cunha (PSDB-PB) apresentou requerimento pedindo esclarecimentos a Cid Gomes sobre problemas com o acesso ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Senadores do PMDB também querem colocar Cid em uma comissão temática para pressioná-lo. 25/02/15 Brasil Bis indesejado O MEC precisa dar transparência ao Pronatec, programa que oferece cursos gratuitos de capacitação profissional. O ministério paga às escolas privadas, públicas e instituições do Sistema S (Senac, Senai, Senar e Senat) por matricula e não por aluno treinado. Em caso de alta evasão, como se suspeita, centenas de milhões de reais podem ter ido para o ralo, num escândalo parecido com o que ocorreu nos Ministério do Trabalho, Turismo e Esporte, quando quase meio bilhão foi transferido para ONGs, muitas ainda enroladas na prestação de contas à CGU. Outro problema do Pronatec é não atender alunos efetivamente carentes, de baixa qualificação - os que mais precisam de apoio. RICARDO BOECHAT 25/02/15 ENTREVISTA Carlos Vital Tavares Corrêa Lima "20% das escolas de medicina do País deveriam ser fechadas" operadoras e não é pago com o mínimo de dignidade" O presidente do Conselho Federal de Medicina critica a qualidade dos cursos brasileiros e afirma que estudantes sem avaliação adequada colocam em risco a vida dos pacientes Fabíola Perez OPINIÃO O CFM é contra o "Mais Médicos" por considerar que não é possível atestar a qualidade do profissional estrangeiro O último exame para a obtenção do registro médico do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) reprovou 55% dos candidatos. Os estudantes erraram diagnósticos considerados simples, como pneumonia. O presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital Tavares Corrêa Lima, atribui esse resultado ruim à má qualidade dos cursos, agravada pela abertura acelerada de novas escolas médicas no País nos últimos anos. "Escolas médicas estão sendo autorizadas a abrir de forma desordenada. O Brasil tem mais cursos do que a China e os EUA" “São instituições sem a qualificação necessária para o ensino médico”, diz ele. “Um estudante que não é avaliado minimamente coloca em risco a vida dos pacientes.” O Brasil possui hoje 247 instituições públicas e privadas, que oferecem anualmente 22 mil vagas, número superior ao de países como China e Estados Unidos. Para Lima, os estudantes deveriam ser avaliados ao longo do curso, de dois em dois anos. Nesse sentido, o CFM criou, em parceria com a Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), uma espécie de selo de qualidade para as escolas bem avaliadas pelas entidades. "No Brasil, no setor privado, o trabalho de parto não é coberto pelas ISTOÉ - A que atribui o fato de 55% dos estudantes não terem acertado o mínimo exigido pelo exame do Cremesp? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - Esses exames refletem a abertura de escolas sem qualificação. A consequência disso é um profissional que sai sem os requisitos básicos para uma profissão que lida com valores absolutos de saúde. Isso precisa ser entendido dentro de uma perspectiva de qualificação do ensino. O exame não é obrigatório para a inscrição do médico no Conselho Regional, mas o resultado deixa claro que há deficiências no ensino de muitas escolas. O índice de reprovação exacerbado está relacionado à qualidade do ensino ofertado. ISTOÉ - Alguns estudantes erraram questões básicas, como diagnóstico de pneumonia em bebês. Um paciente atendido por um médico com essa formação corre riscos? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - Patologias como essas precisam ter diagnósticos. Há casos complexos nos quais é possível aceitar uma dificuldade diagnóstica. Mas isso não é a regra geral. A regra é que um quadro 25/02/15 pode e deve ser diagnosticado por um médico com relativa facilidade. Um estudante que não é avaliado minimamente e pratica a medicina está colocando em risco a vida dos pacientes. ISTOÉ - Como diminuir os índices de reprovação no exame, que desde 2007 estão acima dos 40%? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA É necessário investimento na qualidade do ensino e controle das escolas médicas. A lei do “Mais Médicos” prevê avaliação dos estudantes do segundo, do quarto e do sexto anos. Além do progresso do aluno, analisa-se a qualidade da instituição. Se os estudantes não têm resultados positivos, a escola deveria sofrer sanções e as vagas deveriam ser reduzidas. Mas para melhorar a formação precisamos ter professores com capacidade pedagógica, com cursos de mestrado e doutorado, e infraestrutura. As escolas precisam ter campo de prática suficiente com hospitais próprios ou conveniados. Mas as escolas médicas estão sendo autorizadas a abrir de forma desordenada, sem a segurança necessária para o seu funcionamento. Hoje, o Brasil tem mais cursos do que a China e os EUA. São oferecidas 21.816 vagas por ano para novos estudantes no Brasil. Nos EUA, são 17.364 vagas. ISTOÉ - Por que as instituições particulares, que cobram mensalidades elevadas, apresentam índice ainda maior de reprovação, de 65%? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - Ao contrário das escolas públicas, mais antigas e com um corpo docente articulado, as privadas são mais recentes. De 2010 a 2014, 36 cursos privados foram autorizados a abrir. Há um objetivo de lucro em detrimento do ensino. Estamos lutando contra a abertura das escolas por não terem condições básicas de ensino. É preciso corrigir as distorções que existem antes de lançar novos cursos. ISTOÉ - Mas a demanda é grande, tanto que mais de quatro mil brasileiros foram para outros países estudar medicina. CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - Por um lado, o preço das mensalidades não é acessível a grande parte dos jovens. Existem cursos de péssima qualidade, com mensalidade de R$ 6 mil. Por outro, quem não consegue entrar em instituições públicas vai para cursos fora do País, que são verdadeiras arapucas. Nas escolas de fronteiras, os estudantes brasileiros também têm um ensino de péssima qualidade, muito pior do que as particulares daqui. São instituições destinadas a fazer comércio. Temos visto um aumento de escolas médicas para satisfazer o mercado, porque são cursos lucrativos. ISTOÉ - E nas escolas públicas, o que precisa ser feito para melhorar a qualidade do ensino? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - Elas precisam de mais investimentos. Os hospitais universitários precisam ser mais bem equipados. Agora foi criada uma empresa pública para cuidar desses hospitais, que estavam abandonados. Não se pode simplesmente transformá-los em hospitais de assistência. É preciso valorizar os corpos docentes, que são muito mal pagos. Não pode haver a preocupação com a assistência em detrimento do ensino que o hospital oferta. ISTOÉ - O número de escolas de medicina com avaliação insuficiente pelo MEC também cresceu. Quais são as deficiências dessas instituições? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - As escolas são autorizadas a funcionar com pendências que não são resolvidas. Os cursos são criados mesmo sem hospital conveniado, insumos e materiais de laboratório. O MEC tem que visitar essas escolas, mas muitas vezes os primeiros cursos terminam, o aluno recebe o diploma e a avaliação não é feita. Há uma liberalidade indevida. Espera-se que as escolas cumpram as solicitações exigidas, mas muitas deixam de cumprir e não há novas exigências. E não ouvimos falar em escolas fechadas por deficiência de ensino. Cerca de 20% das escolas de medicina no País deveriam ser fechadas. As correções são sempre postergadas. ISTOÉ - Especialidades como oncologia e cardiologia têm alta procura, ao contrário de carreiras como pediatria e 25/02/15 medicina da família. Como despertar o interesse por elas? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - Isso passa por uma valorização dessas áreas. É preciso oferecer ao médico condições de trabalho e carreiras de Estado, como existe no meio jurídico. Essa tendência existe pela desvalorização das áreas básicas, que são esquecidas pelo governo. Há muitos profissionais que gostam de trabalhar na clínica médica, mas as áreas de maior complexidade remuneram melhor e oferecem melhores perspectivas socioeconômicas. O caminho seria a abertura de concursos públicos e valorização profissional. Enxergar as condições de trabalho é fundamental para entender a falta de interesse dos médicos pela carreira pública no Brasil. ISTOÉ - No início, o CFM era contrário ao programa “Mais Médicos”, como o avalia agora? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - O programa trouxe médicos estrangeiros sem a revalidação dos diplomas e ao mesmo tempo não se fez nenhum investimento mais eficaz na saúde. Foi deixado de fora um plano de carreira para os médicos e não se investiu em condições adequadas de trabalho para os profissionais nacionais. Temos uma preocupação com a qualidade desses médicos que vêm de cursos com uma carga extremamente reduzida, muito aquém do necessário. Um paciente que não tem nenhum médico naturalmente se sente mais acolhido com alguém dando atenção. Mas os indicadores de saúde é que vão dizer se isso trouxe algum resultado. ISTOÉ - Mas uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais mostrou que 95% da população está satisfeita com o “Mais Médicos”. O sr. não acha que ele ajudou a melhorar o acesso à saúde? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - A população certamente não aprovaria menos médicos. Há uma satisfação por ter alguém por perto para dar atenção. Ao mesmo tempo nos preocupamos porque o programa perpetua problemas que poderiam ser resolvidos de forma planejada, com investimento de médio e longo prazos. Não se corrigem distorções na saúde com medidas heroicas. ISTOÉ - Recentemente o governo criou medidas para estimular o parto normal. Qual é a posição do CFM sobre isso? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - A taxa de cesáreas recomendada pela OMS é de 15% . Mas pouquíssimas nações atingem essa porcentagem. Em países como a França, há número suficiente de médicos, obstetras e enfermeiras para atender à demanda que chega aos hospitais. No Brasil, no setor privado, o trabalho de parto não é coberto pelas operadoras e não é pago com o mínimo de dignidade. O CFM possui uma resolução que obriga toda maternidade a ter uma equipe de médicos de plantão para o atendimento do parto. Se a gestante quer fazer o parto com o profissional que fez o pré-natal, ela deve estabelecer isso contratualmente com ele. Hoje, o maior ressarcimento das operadoras de saúde ao SUS é com o parto porque não há credenciamento de leitos nas maternidades particulares. Os hospitais particulares não se interessam em aumentar as vagas nas maternidades – há um déficit de mais três mil leitos. ISTOÉ - O Brasil vai conseguir reduzir o número de cesarianas? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - Ter uma equipe médica em número suficiente é fundamental. Há uma demanda imensa de gestantes para pouquíssimos profissionais de plantão. Um médico atende hoje entre 10 e 15 gestantes ao mesmo tempo. Por isso, a evolução dos trabalhos de parto não é acompanhada da forma adequada. ISTOÉ - Mas as propostas esbarram na disponibilidade dos médicos para realizar partos longos. Os médicos também têm culpa pelo número de cesáreas? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - A causa é multifatorial. Pode existir um profissional que queria fazer o parto de forma intempestiva, que queria evitar um tempo maior. Outro ponto fundamental é que existe preconceito das gestantes com o parto normal pela questão da dor, do trauma. Elas preferem fazer a cesárea. ISTOÉ - Maternidades estão sendo fechadas por não gerarem lucro. Como fica a função social dos hospitais? CARLOS VITAL TAVARES 25/02/15 CORRÊA LIMA É a mesma situação das escolas privadas. Muitas são boas, mas muitas não têm condições de ensino e estão gerando lucro. O hospital é uma entidade de função pública, mas precisa dar remuneração. O que não pode ocorrer é a geração de lucro em detrimento das funções públicas. Não posso crucificar os empresários dos hospitais dizendo que são irresponsáveis, porque eles atuam dentro de uma lógica de mercado. Às vezes os hospitais têm prejuízos insustentáveis. Trata-se de um contexto de gestão que o hospital tem que equacionar. A Agência Nacional de Saúde precisa disciplinar esse processo. ISTOÉ - O número de leitos do SUS vem caindo. O governo deveria repensar o modelo de financiamento? CARLOS VITAL TAVARES CORRÊA LIMA - De 2010 a 2014, o SUS perdeu 13 mil leitos. Os sistemas que se propõem a serem únicos no mundo têm pelo menos 70% do gasto sanitário total bancado pelo Estado. No Brasil, esse valor é de 45,7%. Na França, esse percentual é de 76,8%. Há que se ter mais investimento no SUS. Mas, antes disso, queremos que o recurso disponível seja bem gasto. Nos últimos dez anos, tivemos R$ 112 bilhões disponíveis e não utilizados. Esse valor é maior do que o orçamento de um ano do SUS. É necessário competência administrativa e acabar com a corrupção. Também precisamos ter 10% da receita bruta da União para a saúde, mas hoje isso me parece impossível. 25/02/15 MATÉRIA DA CAPA Cadê a "Pátria Educadora"? Primeiros atos do governo Dilma mostram que o discurso da posse, que elegeu a educação como prioridade, está muito longe da realidade. Do ensino básico ao superior, o setor está em crise e as medidas tomadas pelo governo prejudicam ainda mais o estudante Camila Brandalise ([email protected]) "Só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero”, cravou Dilma Rousseff em seu discurso de posse, em 1º de janeiro. A presidente justificou a alcunha de “pátria educadora” dada ao País nesse dia ao afirmar que “democratizar o conhecimento significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis, da creche à pósgraduação”. Palavras de impacto e com o aval de todos os brasileiros. Afinal, quem ousaria dizer que essa não é uma das áreas mais importantes para o desenvolvimento econômico e social de um povo? Mas medidas tomadas pelo governo mostram que ele está seguindo na direção oposta das palavras que abriram o segundo mandato da presidente eleita. Da educação básica ao ensino superior, sem distinção, todos os níveis apresentam graves problemas. Recentes mudanças no Programa de Financiamento Estudantil (Fies), por exemplo, podem deixar alunos fora do ensino superior. O corte orçamentário fará com que sejam subtraídos cerca de R$ 7 bilhões dos gastos do Ministério da Educação neste ano, o maior bloqueio entre todas as pastas. Além disso, estudos mostram que a educação básica, que deveria dar sinais de avanço, apresenta desaceleração nos níveis de aprendizado. Levando-se em conta que não se passaram nem dois meses do início de 2015, é impossível não fazer a pergunta: onde está a pátria educadora? O caso mais emblemático é o do Fies., programa pelo qual o governo banca a mensalidade dos estudantes. A dívida é paga após a formatura com juros camaradas. No final de 2014, o governo estabeleceu algumas mudanças, entre elas a de que só seriam mantidas no programa as instituições de ensino superior que tivessem teto de reajuste da mensalidade até 4,5%. Depois de negociações com entidades do setor e reclamações de alunos, a taxa subiu para 6,4%, o índice da inflação. Ainda assim, muitos estudantes correm o risco de deixar seus cursos porque suas universidades tiveram aumento maior do que esse percentual. Segundo a Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES), apenas 280 mil do 1,9 milhão de contratos haviam sido renovados até a sextafeira 13. Procurado, o Ministério da Educação não explicou por que o percentual foi estabelecido, mesmo com a reclamação das universidades sobre a liberdade de mercado para que cada uma possa estipular o reajuste necessário. Para o professor de políticas públicas Fernando Schuler, do Insper, o fato de o programa ser do governo lhe dá o direito de colocar essa regra, mas não de uma hora para outra, como foi feito. “O planejamento financeiro das instituições é fechado com muita 25/02/15 antecedência. Educação não é resolvida a curto prazo”, diz. “Além disso, o argumento para chegar a esse número é de que ele corresponde à inflação. Mas na precificação do ensino superior há inúmeras variáveis, como reajuste de salário dos professores, que não segue a mesma lógica.” No topo dos mais prejudicados es tão os alunos. Ao mesmo tempo que é preciso reconhecer o grande feito do programa em ampliar o acesso ao ensino superior e aumentar sobremaneira o número de brasileiros em universidades, uma mudança como essa deverá prejudicar milhares de estudantes, muitos deles no meio de seus cursos. É o caso de Dayanne Torquato Lourenço, 28 anos, aluna do nono período de psicologia da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. Sua mensalidade subiu de R$ 1.155,49 para R$ 1.265,26, ou seja, cerca de 9,5%. E, ao tentar fazer o aditamento, como é chamada a renovação do contrato, a página da internet mostra um erro. “Meu Fies é integral, se não fizer esse procedimento, fico inadimplente e não consigo providenciar os contratos de estágio, necessários para a conclusão do curso”, diz. Até resolver o entrave, Dayanne, assim como outros colegas, está frequentando a graduação normalmente para não ser prejudicada. “Meu problema é com o MEC”, diz. Procurada, a Anhembi Morumbi afirma que, apesar das novas regras definidas pelo governo, “está trabalhando para garantir que todos os estudantes já beneficiados pelo programa tenham suas matrículas renovadas para este semestre”. Somente de 2012 para 2013, o número total de matriculados pelo Fies em instituições particulares aumentou 100% – de 11% para 21%, segundo dados de 2013 da consultoria Hoper Educação. Até 2010, quando as regras do programa mudaram e os financiamentos dispararam, o índice de inadimplência nas escolas particulares era de 9,58%, tendo caído para 8,46% um ano depois. Há um grande envolvimento das instituições de ensino com o Fies. Muitas podem perder alunos e ter prejuízos econômicos com as mudanças. “Há muitas universidades com um número alto de usuários do financiamento, mais de 80%”, afirma Romário Davel, consultor da Hoper. A perspectiva do diretor-executivo da ABMES, Sólon Caldas, é de que as faculdades vão se adequar a essa taxa. “A concepção do programa é muito focada na inclusão social e as escolas estão comprometidas com isso”, diz. Quem atrapalha é o governo. Também aluna de psicologia, Ohara de Souza Coca, 25 anos, cursa o quinto e último ano na Faculdade São Judas, em São Paulo, e passa pela aflição de não saber se vai conseguir concluir a faculdade, já que sua mensalidade passou por um reajuste de 8%. “A falta de informações tem causado grande preocupação. Enquanto isso não for resolvido, há o medo de que tenha de deixar os estudos a qualquer momento”, diz. “Não escolhi o Fies por ser cômodo, mas por ser a grande possibilidade de conseguir estudar.” Outra polêmica diz respeito à exigência de 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e nota maior do que zero na redação para o aluno poder usufruir do Fies, mudanças impostas também no final de 2014 pelo governo. Embora seja um ponto importante a ser discutido, uma vez que o estudante precisa estar minimamente apto para acompanhar as aulas no ensino superior, por outro lado a 25/02/15 educação básica no País ainda precisa melhorar muito para possibilitar que um aluno da rede pública chegue a uma pontuação dessas, considerada baixa, inclusive. Com esse requisito, o jovem que não teve acesso a uma boa formação estaria, mais uma vez, enfrentando dificuldade para ter acesso à educação. Recente estudo divulgado pelo movimento Todos Pela Educação com base nos dados da Prova Brasil de 2013 mostra que o desempenho dos estudantes não tem avançado. Apenas 10,8% dos municípios brasileiros atingiram a meta de aprendizado adequado para matemática no nono ano, enquanto em 2011 esse índice era de 28,3%. Em língua portuguesa, também para o nono ano, as cidades que atingiram o objetivo representam 29,6%, contra 55% em 2011. O estudo também apresenta queda se levadas em conta as disciplinas no quinto ano (leia na pág. 36). “A cada período, as metas aumentam, porque a intenção é que em 2022 pelo menos 70% das crianças tenham aprendizado adequado”, afirma Alejandra Meraz Velasco, coordenadora-geral do Todos Pela Educação. Em vez de aumentar, o percentual caiu. O Brasil avançou muito na inclusão e nos anos iniciais há uma evolução. Mas para os finais, próximos ao ensino médio, que tem grande evasão de alunos, é preciso pensar em novas políticas públicas.” Essa mesma análise pode ser feita a partir dos dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013, divulgados em setembro de 2014. Dos 5.369 municípios com índice da rede pública calculado, apenas 39,6% alcançaram a meta de 2013 para os alunos do sexto ao nono ano. Foi a primeira vez desde 2007 que o objetivo para esse nível não foi alcançado. A situação se torna ainda mais preocupante em época de arrocho econômico e com corte no Ministério da Educação que chega a R$ 7 bilhões para este ano, como anunciado em janeiro. Na opinião do senador Cristovam Buarque (PDT/DF), o bloqueio de verbas vai na contramão de um verdadeiro projeto de crescimento educacional para o País, que já deveria estar em prática. “O Brasil deveria gastar R$ 9,5 mil por ano por aluno. Hoje esse valor é de R$ 3 mil a R$ 4 mil”, diz. Ou seja, o que precisava dobrar vai diminuir. “Ao longo do tempo, é preciso aumentar os recursos gradativamente, subir o salário dos professores, reconstruir escolas e garantir educação integral. É um processo que duraria entre 20 e 25 anos, mas que não se vê qualquer esforço para ser aplicado de verdade”, afirma o senador. Para Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o corte traz o prejuízo de não alimentar o sistema educacional com os recursos que eram comumente utilizados. “Não ampliar melhorias em infraestrutura e até em transporte, que é o que pode acontecer, acaba fazendo com que o rendimento do aluno caia. E esse tempo não pode ser recuperado depois”, diz. Cara salienta que projetos estruturais 25/02/15 podem ser bastante afetados pela medida. “A maior preocupação deveria recair para programas básicos, como o Proinfância, de assistência financeira a creches e pré-escolas”, afirma. “Projetos de reconstrução de escolas não têm a atenção que deveriam receber”, afirma. Apesar de a educação básica precisar, sim, entrar nessa pauta, o que ainda deve dominar as discussões, por enquanto, são os carros-chefes da campanha eleitoral. Além do Fies, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) também tem sido alvo de reclamações por parte de instituições de ensino (leia na pag. 37). O governo deixou de repassar verbas de financiamento dos cursos desde outubro, enquanto a então candidata à reeleição Dilma Rousseff citava orgulhosa o programa em seus discursos a todo momento e por qualquer motivo. O MEC informou na quinta-feira 19 que liberou R$ 119 milhões para regularizar o fluxo referente às mensalidades de 2014 para instituições privadas. Disse, ainda, que o pagamento de cada parcela pode ser feito em até 45 dias após o vencimento do mês de referência – há parcelas, porém, que teriam ultrapassado esse prazo. Universidades públicas também devem sofrer com a diminuição de repasses, segundo especialistas. “Não há a menor dúvida de que a crise vá impactar negativamente o ensino superior, que é uma área dispendiosa para o governo”, afirma o professor Renato Hyuda de Luna Pedrosa, coordenador do laboratório de estudos em educação superior da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para algumas, o corte nos repasses já é uma realidade. Na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, dos R$ 11 milhões que deveria receber este ano, foram transferidos R$ 7 milhões, cerca de 30% a menos. A instituição, no entanto, afirma que ainda assim conseguiu manter as contas em dia. Devem ser adiadas melhorias em infraestrutura, contratação de novos professores, propostas de qualificação, aberturas de novos cursos e linhas de pesquisas. “O maior prejuízo é a perda da expectativa em relação ao acesso à educação, principalmente a superior. Uma das boas coisas que aconteceram no Brasil foi esse sonho concretizado de se conseguir um diploma”, afirma o senador Cristovam Buarque. “A cada ano ficava mais fácil entrar na universidade. Em 2015, parece que vai acontecer o contrário.” Que o diga a caloura do curso de enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (SP) Bruna Santoni Silva, 21 anos. Dependente do Fies para começar o curso, ela pode não conseguir validar o contrato com o programa, que abre para novos alunos no dia 23, porque sua faculdade teve reajuste de 9%. “Falei com a universidade, mas eles não têm nenhuma posição sobre o assunto. Só me resta esperar, sabendo que meus estudos e meu futuro profissional estão em jogo. Aliás, não só o meu, mas de milhões de estudantes de nosso país.” Cadê a pátria educadora?˚ 25/02/15 Fotos: Montagem sobre foto, Rafael Hupsel; WASHINGTON ALVES/ESTADãO CONTEÚDO,Pedro Ladeira/Folhapress; Elza Fiúza/Agência Brasil; Wellington Cerqueira/Ag. Istoé O GLOBO 22/02/15 O PAÍS Refugiados poderão se inscrever no Mais Médicos MARIANA SANCHES [email protected] Governo muda regras do programa para aproveitar mão de obra, absorvida por outras áreas ou desempregada A vida de K., 45 anos, foi convertida a uma gestão de privações. Ele, a mulher e os dois filhos moram, de favor, em uma casa abandonada na Região Serrana do Rio de Janeiro. Há oito meses, K. empreendeu uma fuga cinematográfica da Síria, em guerra, até o Brasil. Para trás, além de dois irmãos, ficaram a casa espaçosa da família, os planos anuais de viagem de férias à Europa e a bem-sucedida carreira de K. — Me arruma alguma coisa que eu possa fazer para ser útil — costuma pedir, em árabe, ao irmão George, que cresceu no Brasil. K. é médico, mas passa os dias ajudando a carregar material de construção no comércio do irmão. O destino de K., no entanto, pode estar prestes a mudar. O governo federal acaba de alterar as regras do programa Mais Médicos para permitir que refugiados possam se inscrever e concorrer aos postos de trabalho em todo o Brasil, cujo salário chega a R$10,5 mil. Em termos práticos, essa é a única chance de K. e outros médicos refugiados voltarem a exercer a profissão. Se fosse tentar revalidar o diploma, o que não é necessário para o programa, o processo levaria cerca de cinco anos. E poderia não dar certo. De acordo com o Ministério da Justiça, 90% dos refugiados no país não conseguem fazer valer o diploma por aqui. — Muitos possuem alto nível de escolaridade e experiência de trabalho em áreas de alta qualificação, mas dificilmente conseguem emprego na mesma área justamente pelo problema da documentação — afirma Luiz Godinho, oficial de informação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. A sensação de inutilidade somada à dificuldade em reconstruir a vida têm deixado K. deprimido — sentimentos que ele divide com pelo menos outros 15 médicos refugiados no país, entre sírios, paquistaneses, colombianos, congoleses e afegãos. Todos eles já haviam questionado o programa Mais Médicos administrativamente e judicialmente. Sem opção, passavam os dias trabalhando em confecções, na construção civil ou, pior, desempregados. — É lamentável porque na nossa cidade há muita falta de médicos em hospitais públicos e nós temos um médico experiente subutilizado em casa — diz George, irmão de K., que preferiu não ter o nome divulgado nem o município onde mora por medo de ser localizado por integrantes do Estado Islâmico. K. é cristão e exfuncionário do governo sírio. Antes de chegar ao Brasil, testemunhou pessoas com seu perfil serem crucificadas pelos jihadistas. SÍRIOS FORMAM O MAIOR GRUPO A mudança de regras para que o Brasil possa absorver a mão de obra internacional tornouse urgente, já que o país tem sido constantemente procurado por refugiados. Entre 2012 e 2014, o número de pessoas que receberam refúgio no país quadruplicou: são mais de oito mil. E a nacionalidade de quem chega mudou: se antes, a maioria era de africanos, hoje, os sírios são o maior grupo, com mais da metade dos refúgios concedidos no Brasil. — O Estado Islâmico tem forçado muita gente qualificada ao desterro. Ainda não sabemos quantos deles são médicos. Nunca houve muita preocupação em conhecer a formação. Até hoje elas sempre estiveram fadadas a um destino de trabalho braçal — explica João Amorim, professor de Direito Internacional da Unifesp. O GLOBO 22/02/15 O PAÍS Conselho de Medicina quer impedir judicialmente mudança de regras Ministério da Saúde diz que comitê vai avaliar caso a caso Para garantir a inscrição dos refugiados no Mais Médicos, duas regras tiveram que ser alteradas. A primeira era a que só seriam aceitos pelo programa profissionais de países que possuíssem mais de 1,8 médico a cada mil habitantes. A regra existia para garantir que o Brasil não aprofundasse a escassez de profissionais de saúde em nações onde já há falta deles. Refugiada. A colombiana Lorena Guzmán: vai se inscrever no Mais Médicos — É claro que o Afeganistão, a Colômbia e a Síria não atendem a esse critério, mas o Brasil não está “roubando” médicos de ninguém porque esses profissionais não podiam exercer sua profissão ali, estavam em risco de vida — explica o coordenador para assuntos de refugiados do Ministério da Justiça, Virginius Franca. A segunda mudança foi na flexibilização da burocracia. Documentos quase banais para a maior parte dos candidatos, como diploma e atestado criminal, eram inacessíveis a refugiados. A médica colombiana Lorena Gúzman, de 41 anos, sabe a diferença que a mudança pode trazer. Mestre em Gestão Pública, ela denunciou contaminação por metais em um município colombiano. Passou a ser perseguida. Até o ônibus escolar de seu filho teve que ser escoltado antes que ela resolvesse deixar o país. Refugiada há mais de um ano no Brasil, Lorena tentou se inscrever no Mais Médicos no ano passado e acabou recusada: — As pessoas mal entendem o que é ser refugiado, tenho que andar com a lei embaixo do braço. Dependo da Igreja de Santana do Livramento (RS) para sobreviver. Vivo de doações, moro de favor. O futuro me parecia uma possibilidade fechada. Agora tenho esperanças de poder servir como médica no país que me acolheu — afirma Lorena. A flexibilização da burocracia gerou nova rodada de críticas ao programa por parte do Conselho Federal de Medicina (CFM). Segundo o presidente do órgão, Carlos Vidal, é impossível garantir que a população não estará em risco ao ser atendida por profissionais do Mais Médicos: — Continuamos defendendo que os estrangeiros, refugiados ou não, sejam submetidos ao Revalida, o teste para verificar suas habilidades. O programa não pede testes, o que é um equívoco. O CFM estuda entrar com ação judicial para impedir que refugiados possam ser incorporados pelo programa. Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Saúde afirmou que um comitê especial avaliará a inscrição deles caso a caso. — Esses estrangeiros apenas terão mais chances de provar sua qualificação. Não existe risco de um refugiado que não seja médico conseguir se fazer passar por médico — garantiu Hêider Pinto, secretário de Gestão de Trabalho e Educação do Ministério da Saúde. O GLOBO 22/02/15 O PAÍS Cid Gomes é pivô de crise no PROS, a 5ª legenda que integra JÚNIA GAMA E CHICO DE GOIS [email protected] Ministro tenta controlar partido, e já há quem peça seu afastamento Menos de dois anos após deixar o PSB, por divergências públicas com a cúpula da legenda, o ministro da Educação, Cid Gomes, já é novamente pivô de uma crise partidária que ameaça sua permanência, assim como a de seu irmão, o ex-ministro Ciro Gomes, na quinta sigla à qual se filiou, o PROS. A conflagração entre a cúpula do partido e o ministro é pelo controle da legenda. Com a autoridade e a caneta de ministro, Cid Gomes tem investido em políticos do PROS para criar um comando paralelo. Emplacou o novo líder na Câmara, Domingos Neto (CE), e, segundo seus adversários, tem minado a liderança do presidente da legenda, Eurípedes Junior. O exlíder do PROS na Câmara, Givaldo Carimbão (AL), já defende que os irmãos Gomes deixem o partido. — Cid tomou o partido politicamente e agora quer tomar também juridicamente. Tentei abrir os olhos do Eurípedes. Desde o começo, disse que ele não sabia o tamanho do problema que estava arrumando quando convidou os Gomes. Agora, ou eles saem, ou é melhor entregar logo o PROS para eles — diz o deputado. Discórdia. Cid Gomes é acusado de montar um comando paralelo no PROS O GLOBO 22/02/15 O PAÍS Presidente do partido ocupou Executiva com parentes Cid defende que sigla se profissionalize para ter peso no cenário nacional O presidente do PROS, o exvereador Eurípedes Junior, preencheu com seus parentes, a maioria sem experiência política, a maior parte das vagas na Executiva do partido. Sua mãe, Maria Aparecida dos Santos, é a primeira-secretária nacional. A única experiência que teve na política foi a de coletar assinaturas para a criação do partido. O irmão de Eurípedes, Fabrício George Gomes dos Santos, ocupa a primeira vice-presidência nacional e há outros sete integrantes da Executiva com sobrenome “dos Santos”. O ministro Cid Gomes, segundo relatam integrantes da legenda, critica o que considera uma estrutura amadora e destaca que o partido já reduziu quase pela metade sua bancada na Câmara, passando de 20 para 11 deputados. Ele defende que a legenda se “profissionalize” se quiser despontar como um partido de algum peso no cenário nacional. O ministro também prega a fusão do PROS com outras siglas, o que tem gerado irritação na cúpula do partido. EURÍPEDES ESTARIA “ABALADO” Aliados de Eurípedes interpretam as críticas de Cid como um ataque ao fato de a família do presidente do PROS estar em peso na Executiva. — Essa estrutura que está na Executiva é a mesma que criou o partido. Para coletar assinatura e criar o partido a família do Eurípedes servia, e agora para estar na Executiva não presta? — questiona o deputado Givaldo Carimbão, que diz que Eurípedes estaria “muito abalado” com as investidas. Os primeiros sinais do estremecimento na relação ocorreram quando Cid começou a ser sondado para ser ministro. Reservadamente, integrantes do PROS trabalhavam para que outros nomes ocupassem cargos no governo Dilma Rousseff. Quando a presidente confirmou a escolha de Cid, as divergências se tornaram ainda mais claras, com nota assinada por Eurípedes e Carimbão afirmando que Cid Gomes não representava o PROS no governo Dilma. Apesar dos conflitos, aliados do ministro da Educação dizem que ele não pretende se envolver nas questões burocráticas do PROS. É o que garante o líder da bancada, Domingos Neto (CE), cujo pai, Domingos Filho, foi vice de Cid Gomes quando este era governador. Embora não admita que haja na legenda uma ala ligada aos irmãos Gomes e outra ao presidente Eurípedes Júnior, o líder, que está em seu segundo mandato e tem apenas 26 anos, disse que quer construir a unidade do partido. — Vamos estreitar a relação com o partido e ser um instrumento de aproximação para que o partido sinta-se um corpo só, não do Cid ou da Executiva — afirmou. FOLHA DE SÃO PAULO 22/02/15 ELIO GASPARI A receita para quebrar o Brasil Dois exemplos do que se faz, sem muito barulho, para destruir as contas públicas, arruinando o país Em novembro a doutora Dilma sancionou um projeto refinanciando as dívidas de Estados e municípios. Coisa de R$ 500 bilhões, que deveriam ser pagos até 2039. Governadores e prefeitos que herdaram o espeto mexeram-se para mudar as condições de pagamento. No carro-chefe ficou o comissário de São Paulo Fernando Haddad. Argumentava que a cidade tinha perdido a capacidade de investimento. Mudando-se o sistema, sua dívida cairia de R$ 62 bilhões para R$ 36 bilhões. Como dinheiro não nasce em árvore, a Viúva perderá receita. Neste ano, seria uma mixórdia, apenas R$ 1 bilhão. Quem pagou tudo direitinho ferrou-se. Esse assunto não tinha personagens satanizáveis nem podia ser tratado como um escândalo. Teve até o apoio do PSDB. Virou uma coisa boa. Quatro anos antes, o mesmo Fernando Haddad estava no ministério da Educação e mudou as regras do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior, o Fies. Vivendo na ponta que distribui dinheiro, baixou os juros para 3,4% ao ano, ampliou os prazos de pagamento para três vezes o tempo de duração do curso e relaxou as exigências para os fiadores. Criou-se a fiança solidária, bastando juntar três colegas da faculdade. De onde sairá o dinheiro emprestado a juros subsidiados e em condições imprevisíveis de retorno? Um palpite: da bolsa da Viúva. Aquilo que poderia ser uma boa iniciativa virou uma estatização do risco do financiamento das universidades privadas. Esse tipo de crédito é socialmente necessário, desde que seja matematicamente sustentável. Faculdades estimularam seus alunos a migrar para o Fies e, com isso, o número de bolsistas passou de 150 mil em 2010 para 4,4 milhões em 2014. Os financiamentos pularam de R$ 1,1 bilhão para R$ 13,4 bilhões. Há faculdades onde os alunos que pagam as mensalidades tornaramse uma raridade. Formaram-se conglomerados universitários, com ações na Bolsa. O repórter José Roberto Toledo mostrou que, entre 2012 e novembro de 2014, enquanto o Ibovespa caiu 18%, as ações do grupo Kroton, com um milhão da alunos, valorizaram-se em 500%. (Em 2014 o grupo recebeu R$ 2 bilhões do Fies, cifra inédita até para a Odebrecht.) O ministro Cid Gomes quis colocar método na maluquice, exigindo padrões de desempenho acadêmico às escolas, notas melhores dos alunos para o acesso ao programa e associou parte do desembolso à formatura do jovem. Prenunciou-se uma ªcatástrofeº. Ou, nas palavras de Gabriel Mario Rodrigues, presidente da guilda da escolas privadas, ªo governo fez uma cagadaº, ªo ministro não é do ramoº e ªfala demaisº. Com toda razão, ele diz que ªnão podemos confiar no governoº. Nem eles nem a torcida do Flamengo. Com a ajuda de parlamentares e de ªgente trabalhando nas altas esferasº (em quem confiam), as empresas se articulam para desossar as medidas. Ganha um fim de semana na Guiné Equatorial quem acredita que esses financiamentos dados com critérios frouxos e fianças capengas fecharão a conta na bolsa da Viúva. Vem por aí outro rombo. Como aconteceu com a dívida dos Estados e municípios, certamente será renegociado, noutros governos. É assim que se quebra um país. FOLHA DE SÃO PAULO 22/02/15 COTIDIANO Juíza manda tirar ciclovia da frente de escola em SP Faixa traz riscos aos alunos, diz magistrada LEANDRO MACHADO DE SÃO PAULO A Justiça mandou a Prefeitura de São Paulo retirar uma ciclovia que fica em frente ao colégio particular Madre Cabrini, na Vila Mariana, zona sul da cidade. A liminar foi publicada na quarta-feira (18). Em nota, a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) informou que irá recorrer da decisão. A juíza Simone Viegas de Moraes afirma que a faixa reservada aos ciclistas causa riscos aos alunos que trafegam pela rua da escola. Na decisão, a magistrada diz que "faltou planejamento da gestão municipal para implantação da ciclofaixas". Ela diz que a rua do colégio é "curta e estreita" --cerca de 700 metros-- e que há grande tráfego de vans escolares e pedestres. "Causa espécie a colocação de ciclofaixa no local, eis que patente o perigo de dano irreparável em relação a potencial situação de risco à criança e aos adolescentes que frequentam o colégio", anota. Na tarde deste sábado (21) a Folha não encontrou nenhum responsável pelo colégio Madre Cabrini. Ao implantar a ciclovia na rua, em novembro, a prefeitura pintou também uma faixa azul, para embarque e desembarque dos alunos. Revoltados, pais e funcionários da escola fizeram um abaixo-assinado contra a faixa. O ESTADO DE S. PAULO 22/02/15 NOTAS & INFORMAÇÕES A novela do Fies Um dos programas mais conhecidos do governo, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), converteu-se em problema financeiro e político. Os gastos cresceram muito nos últimos quatro anos e as autoridades econômicas, obrigadas a equilibrar as contas do governo, tiveram de rever o programa, o que gerou críticas das universidades privadas. melhorar a qualidade do ensino. "Ao longo de sua história, o Brasil deu poucas oportunidades para estudantes pobres e carentes cursarem uma universidade. Agora a gente quer regularizar o fluxo de repasses, pautando a qualidade como princípio fundamental. Estamos financiando oportunidades, não dando dinheiro sem critérios", disse o ministro Cid Gomes. O problema financeiro está no desenho institucional do Fies, que concede empréstimos para que os estudantes das universidades particulares possam pagar as mensalidades. O dinheiro é repassado automaticamente às instituições, sem exigência de avalista dos financiados, sem critérios claros para a concessão de empréstimos e sem fiscalização do desempenho escolar dos beneficiados. O excesso de liberalidade e a falta de controle levaram a uma explosão de pedidos de financiamento, o que estimulou as instituições privadas de ensino superior a abrir o capital para obter na Bolsa de Valores os recursos necessários para se expandir. Cerca de 70% dos alunos das universidades particulares são financiados pelo Fies. Ele também afirmou que, por causa do alto custo dos empréstimos para os cofres públicos, o governo tinha o direito de impor os níveis de reajuste das mensalidades. Anunciou que a política de financiamento estudantil se privilegiaria os "cursos estratégicos para o Brasil". E manifestou a disposição de centralizar a concessão de bolsas, obrigando as universidades particulares a cadastrar suas vagas numa plataforma digital, com base na qual o MEC - e não as instituições de ensino - selecionariam os alunos. Em dezembro, um mês após a reeleição da presidente Dilma Rousseff, o governo mudou abruptamente as regras do Fies, exigindo dos estudantes um mínimo de 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio como condição para a obtenção de financiamento. Foi aí que começou o problema político. Além de proibir a renovação dos contratos cuja mensalidade tinha sido reajustada acima de 4,5%, menos do que a inflação de 2014, as autoridades educacionais fecharam o acesso ao site do Fies para os quase 2 milhões de alunos que dependem de financiamento para continuar estudando. Nos primeiros 40 dias de 2015, apenas 280 mil estudantes conseguiram renovar os contratos. Com quedas expressivas de suas ações, as universidades privadas reclamaram das alterações no fluxo de repasses do Fies e criticaram a introdução de novas regras a dois meses do início das aulas. Em resposta, as autoridades educacionais ameaçaram ampliar a intervenção governamental no setor, sob o pretexto de A restrição ao repasse da inflação no valor das mensalidades criou mais problemas para os estudantes e para as universidades. Para não perder o financiamento, as escolas reduziram o reajuste para 4,5%, mas enviaram boletos com aumento de 7% para os universitários que não precisam do Fies, o que abriu caminho para uma enxurrada de ações judiciais. Alegando que contrataram professores e programaram despesas antes da mudança das regras do Fies e que não era justo terem de arcar com os prejuízos daí decorrentes, as universidades privadas recorreram aos tribunais e ameaçaram adiar o início das aulas. Com medo da judicialização do ensino superior privado, da oposição do movimento estudantil e do comprometimento do calendário escolar de 2015, o governo recuou. Aceitou um reajuste das mensalidades em 6,5%. Adiou a entrada em vigor da exigência de pontuação mínima. Reabriu o site do Fies e voltou a aceitar novos alunos. Por fim, anunciou que os novos contratos de financiamento estudantil poderão ser firmados até o dia 30 de abril. É assim que o ensino superior vem sendo gerido na Pátria educadora. O ESTADO DE S. PAULO 22/02/15 ECONOMIA Entrevista / Joaquim Levy 'A diminuição de subsídios não vai fazer o País parar', diz Levy Ministro diz que a economia brasileira ‘vai entrar no eixo, mesmo que no curto prazo isso pareça difícil’ comecem a ser tomadas logo. Temos de sinalizar mudanças rapidamente, para dar tempo de reverter, ainda este ano, a tendência de estagnação”, afirma. Adriana Fernandes BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, já iniciou sua cruzada para ver aprovado pelo Congresso Nacional o plano que representa uma guinada na política fiscal, com corte de subsídios, redução de incentivos e recalibragem de benefícios previdenciários e trabalhistas. A forma que escolheu para convencer parlamentares e a população em geral é a mais direta possível: garantir a retomada do emprego e evitar a tendência atual de estagnação. “O Congresso votar as medidas fiscais é importante para que decisões que vão levar ao crescimento do emprego Em entrevista por e-mail ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, Levy acena com o aprimoramento das medidas. Diminuir subsídios e incentivos, garante, não vai fazer o Brasil parar. Levy diz que o governo tem meios, sim, de cumprir a meta fiscal deste ano. E defende abertamente ajustes e governança “amarrada” no Fies e Pronatec, programas de incentivo à educação que envolvem “bilhões” de reais. “A economia vai entrar no eixo, mesmo que no curto prazo pareça difícil”, prevê. A meta fiscal de 1,2% do PIB está ameaçada? Não vejo ameaça. Em 2014, o emprego desacelerou fortemente. Ficou claro que insistir nas políticas anticíclicas não estava dando certo. A incerteza fiscal começou a minar a vontade de investir e isso tinha de mudar. Estamos respondendo a essa realidade. A discussão no Congresso e na sociedade sobre qualquer medida legislativa é natural, e, em princípio, positiva. É da essência da democracia. A população tem entendido a necessidade fiscal das medidas e como elas fortalecem a capacidade do Estado de implementar suas políticas sociais, reduzindo distorções e excessos da lei. O sr. vai entregar a meta prometida? Não tenho dúvidas sobre isso. A presidente Dilma vem mostrando 22/02/15 total comprometimento com o superávit de 1,2% do PIB para este ano. Há meios para chegarmos lá, sim. A eleição do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, aumenta a incerteza sobre a aprovação das medidas de ajuste? O presidente Cunha é um parlamentar bastante experiente. Na posição em que se encontra, pensa, principalmente, na estabilidade e na capacidade do País de crescer. Tenho convicção de que ele e o presidente do Senado, Renan Calheiros, conduzirão a votação das MPs de forma a permitir a livre manifestação de eventuais preocupações do Congresso e a avaliação de possibilidades de aprimoramento dessas medidas. Há bastante entendimento de que são medidas indispensáveis para o Brasil voltar a crescer. Até agora não criamos novos impostos ou algo inusitado, simplesmente estamos normalizando coisas que haviam sido afrouxadas na perspectiva anticíclica. E anticíclico é temporário. Por que o sr. não vai entrar na linha de frente das negociações? Não é exato que eu não vá participar. Governo é assim: você reparte tarefas para dar conta de tudo. É muito bom quando se decidiu ter ministros experientes como o da Previdência Social e do Planejamento explicando ao público por que os ajustes nas regras das pensões nos aproximam de legislações que valem na maior parte dos países. Muitas pessoas têm dado apoio a essas propostas de mudanças, que protegem os direitos do trabalhador. Que tipo de ajuste se faz com uma economia que não cresce? É importante a economia voltar a crescer. E, para isso, as pessoas têm de saber o que propomos e se isso é sustentável. A diminuição de subsídios e incentivos fiscais não vai fazer o País parar. Dada a arrecadação atual e o resultado primário de 2014, levar os gastos discricionários aos níveis de 2013, que foi um ano até certo ponto expansionista, pode ser um caminho bastante seguro. A gente não está vivendo uma crise em que a economia só possa sobreviver com doses crescentes de amparo. Ficar na cama, debaixo do cobertor, pode ser bom. Mas, quando o despertador toca, a gente salta para ir trabalhar e ganhar a vida. É assim com as pessoas e os países que são vencedores. Então, precisa do “espírito animal” dos empresários? A muito repetida frase do (economista John Maynard) Keynes tinha a ver com o otimismo que ele considerava inato aos empresários. Empreendedor tem de ser otimista, não é? Mas, apesar do contraste que ele fez entre a espontaneidade e a matemática financeira, ninguém rasga dinheiro. Assim, só vai haver retomada quando os empreendedores sentirem alguma segurança, a começar pela fiscal. Por isso, o Congresso votar as medidas fiscais é tão importante, para que as decisões que vão levar ao crescimento do emprego comecem 22/02/15 a ser tomadas logo. As estatísticas mostram que só foram criados 150 mil empregos formais no ano passado. Portanto, temos de sinalizar mudanças rapidamente, para dar tempo de reverter, ainda este ano, essa tendência de estagnação. O governo vai cortar programas sociais? Fies e Pronatec (programas de financiamento estudantil) serão atingidos? O ministro Cid Gomes é exemplo de alguém que entende profundamente da educação e está fazendo ajustes que vão melhorar e dar sustentabilidade a programas chaves para o Brasil. Aumentar o número de universitários é muito bom e tende a ajudar a aumentar o PIB potencial do País. Mas, na medida em que envolve o governo, emitir bilhões de reais em dívida pública, para pagar mensalidades em faculdades particulares, é óbvio que a governança desse programa tem de ser muito bem amarrada. Senão, serão grandes decepções mais para a frente. Dos estudantes, do contribuinte e do investidor. No Pronatec, também tem de focar na qualidade dos resultados e na governança. Especialmente quando a economia vai passar por uma reengenharia, devido à reversão dos preços das matérias-primas. Nesse ambiente, a disponibilidade de mão de obra, com mais qualificação e muita motivação, vai ser o caminho para crescermos. um aumento de preços pontual se transforme em inflação, no sentido de um processo de realimentação de preços. E a política monetária tem de continuar a agir para dissipar aquele impacto inicial, evitando efeitos secundários sobre a inflação. A política monetária tem de ficar vigilante para as expectativas se manterem ancoradas. Mas vai ter saco de maldades? Não é o nosso espírito. O que temos feito é, na verdade, do bem. Quase sempre reduz disparidades entre pessoas e empresas ou setores, e é feito para colocar o Brasil de volta na rota do crescimento. O realismo tarifário fazer estourar o teto da meta inflacionária não é um grande problema? O realismo tarifário é essencial para dar segurança à economia. Em um primeiro momento, isso tem impacto nos preços, mas o efeito final na inflação depende da disciplina fiscal e da vigilância do Banco Central. Política fiscal não expansionista ajuda a evitar que Qual a solução para o balanço da Petrobrás? A Petrobrás já está dando a virada que todos queremos ver acontecer. O impasse contábil será vencido a tempo, com serenidade e muita transparência. Junto com a companhia, a auditoria independente vai achar a forma correta e aceita pelos reguladores do mercado para registrar o que for adequado. Com isso, as coisas boas da empresa voltarão a ser valorizadas, especialmente porque há um grande compromisso de reforçar os processos de gestão. Esse processo já começou no âmbito de produção e vai se ampliar para outras áreas. A produção de petróleo e gás, que vinha caindo nos últimos anos, 22/02/15 começou a crescer em 2014 principalmente devido ao pré-sal. A gente não deve ser ufanista, mas de vez em quando vale a pena dizer “O Brasil pode!”. Ou, para não maltratar o vernáculo, “a gente consegue fazer bem!” por prioridade melhorar a nota da dívida pública. Ter a ambição de chegar à nota A. Não há motivos para rebaixamentos. As agências de rating virão ao Brasil e encontrarão indicadores muito ruins, o caso Petrobrás e o risco de racionamento. O que o sr. vai dizer? Pode parecer abstrato, mas para quem está na linha de frente não escapou que a curva de juros mudou de inclinação nos últimos três meses. A ponta longa, que é a importante para o investidor, caiu. Esse é um exemplo de como expectativas afetam preços e comportamentos. Se a gente entregar o que está se propondo, tenho certeza de que a ponta longa pode continuar com inclinação favorável, mesmo com a curva americana subindo. E aí vamos ter crédito de longo prazo de verdade. Vamos ter uma economia mais livre e robusta. Não vai ser presente do céu, mas, na medida em que avançarmos, que o equilíbrio fiscal melhorar, isso vai chegar às pessoas na rua e, antes disso, aos empresários. Você descreveu uma fotografia não muito bonita: há indicadores que se deterioraram, inclusive o déficit externo. Mas a economia vai entrar no eixo, mesmo que no curto prazo pareça difícil. O País mostrou isso outras vezes, quando havia desconfiança. A trajetória da dívida tem de ser de redução, até porque nossos competidores têm uma relação dívida/PIB mais baixa do que a nossa, e não estamos desejosos de entrar para o clube das grandes economias com redução de nota de risco. Tenho dito, e não vejo por que pensar diferente, que o Brasil tem de ter Essas questões não estão longe do dia a dia das pessoas? CORREIO BRAZILIENSE 22/02/15 EDITORIAL A questão das cotas As cotas nas universidades públicas têm suscitado debates desde a implantação em 2001. Uma das críticas se centrou na destinação. Em vez de privilegiar os negros, a reserva de vagas deveria ser mais abrangente. Deveria ser social, não racial. Indiretamente, os afrodescendentes seriam contemplados já que compõem a parcela mais pobre da população. Pioneiras, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade de Brasília (UnB) saíram na frente. A UnB destinou 20% dos assentos a negros, pardos e índios durante 10 anos. Avaliado no ano passado, o percentual baixou para 5% por causa da cota social introduzida pela Lei nº12.711, de 2012: de 2016 a 2023, pelo menos 50% das vagas têm destino carimbado. Uma das marcas do Brasil é a de país injusto. Iniciativa como a de abrir as portas de universidades públicas para jovens impossibilitados de transpô-las até então significa inestimável avanço. São as instituições mantidas pelo Estado que oferecem a melhor qualidade de ensino — essencial para o acesso efetivo ao conhecimento e, com ele, aos degraus que permitem a ascensão social. A lei acerta ao fixar prazo para a vigência da exceção. É importante que o regime extraordinário seja transitório. Mais: que seja desnecessário. Urge, para tanto, cuidar dos níveis fundamental e médio. A excelência das instituições de ensino superior têm muito a ver com o recrutamento. Calouros preparados, ávidos por avanços que lhes garantam lugar na elite nacional e internacional, fazem a diferença na formação superior. Quanto maior a exigência do estudante, mais desafiada se sente a escola a dispor de respostas aptas a satisfazê-lo. Uma vaga na Universidade de Shangai, por exemplo, é disputada por 800 candidatos. A qualidade dos selecionados pressupõe professores aptos a lhes dar respostas à altura da curiosidade que os mobiliza. Não por acaso, a maior universidade chinesa ocupa o topo no ranking das melhores do mundo. No discurso de posse, Dilma Rousseff anunciou que o slogan do segundo mandato seria “Pátria Educadora”. As palavras vieram ao encontro das urgências nacionais. Mas impõem-se ações efetivas para passar do discurso à prática. O desafio é hercúleo. Instalações adequadas, material didático de qualidade, uso eficaz das novas tecnologias põem à prova a determinação da presidente. Acima deles, o maior — a existência de recursos humanos aptos a levar avante o projeto. Negligência de décadas afugentou os talentos do magistério e fechou faculdades destinadas a formar professores. Mestres, vale lembrar, não se compram em supermercado. CORREIO BRAZILIENSE 22/02/15 Educação A possibilidade de paralisação dos professores no primeiro dia de aula do ano letivo é muitíssimo preocupante. O que 460 mil crianças e adolescentes podem esperar do “Brasil, Pátria Educadora”? Os indicadores do setor estão aquém do patamar satisfatório, distante do desejável e nem tão cedo alcançarão o nível ideal. A educação como prioridade foi ponto comum nos discursos de posse do governador eleito Rodrigo Rollemberg e da presidente Dilma Rousseff, reconduzida ao cargo. E agora, a prioridade virou tema secundário? Falta dinheiro para pagar os professores, resultado do desgoverno ex-ocupante do Palácio do Buriti. A justificativa é entendida por todos. Em 50 dias de gestão, Rollemberg não conseguiu sair do cipoal de encrencas recebido de legado. Os professores, por sua vez, não têm responsabilidade pelo drama financeiro do GDF. Exigem, com todo direito, o que lhes é devido. Mas, como bem destaca o editorial do Correio (19/2), é preciso que o bom senso prevaleça nas negociações entre governo e professores. Crianças e adolescentes não merecem ser punidos. Paula Vicente, Lago Sul SR. REDATOR CORREIO BRAZILIENSE 22/02/15 CIDADES EDUCAÇÃO » Início das aulas ainda sob impasse Assembleia dos professores ocorrerá amanhã, na Praça do Buriti: a categoria vai avaliar proposta do governo No calendário do ano letivo do Distrito Federal está previsto para amanhã o início das aulas na rede pública de ensino. Mas os estudantes não precisarão ir ao colégio, pois boa parte dos docentes não estará presente. Em vez das salas, os professores estarão na praça em frente ao Palácio do Buriti. Osindicato da categoria (Sinpro-DF), marcou assembleia para decidir se aceita a proposta do governo de pagamento parcelado dos benefícios atrasados ou se cruza os braços em protesto. A diretora do Sinpro, Rosilene Corrêa, afirma ser impossível prever se os estudos realmente começarão nesta semana. “A assembleia é nossa instância máxima. E ela é democrática. Acataremos o que a maioria decidir”, explica. Pela importância do encontro, todos os docentes estão convocados: “Amanhã (hoje), não terá aula e, na terçafeira, dependerá do resultado da votação feita entre os colegas de profissão”, diz. O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) visitou, ontem, a Escola Classe 6, no Cruzeiro Novo, e falou sobre a indefinição acerca das atividades escolares. Otimista, ele está confiante de que a assembleia da categoria não decidirá pela paralissação. “Entendemos que, durante a semana, teremos a normalidade do comparecimento dos alunos nos colégios e temos confiança nos professores e no início tranquilo do ano letivo”, declarou. Entre benefícios, como abono de férias, 13º para os nascidos em dezembro (uma parcela do benefício é paga no mês do aniversário do servidor) e rescisão contratual de 6 mil professores temporários, o GDF deve R$ 120 milhões à categoria. A proposta governista é pagar em parcelas até junho o débito. Os docentes já deixaram claro que são contrários à pretensão do Executivo. Eles querem receber o valor à vista ou, pelo menos, adiantar o calendário para que não se arraste até o meio do ano. Com o objetivo de conseguir quitar a dívida de uma só vez, o Palácio do Buriti recorreu à Antecipação de Receita Orçamentária (ARO) de R$ 400 milhões. Apesar de ter passado pela Câmara Legislativa, a ARO precisa de autorização da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e do intermédio do Banco Central. Esse processo deve se resolver somente em abril, um mês depois do início das aulas. Enquanto isso, o GDF se mostra irredutível em relação ao calendário de pagamento que propôs. Amanhã, a categoria decide se compreende a situação do governo ou se bate o pé e recusa a proposta. (MT) O GLOBO 21/02/15 OPINIÃO CRISTOVAM BUARQUE Pedagogia da catástrofe Parecemos estar num tempo em que argumentos não têm papel pedagógico Chama-se “pedagogia da catástrofe” o conjunto de lições tiradas de tragédias geralmente anunciadas e desprezadas. A população de São Paulo está passando por um aprendizado desse tipo. Depois de anos desperdiçando água e sujando rios, investindo em asfalto e estádios, em vez de reservatórios, sem incluir nas escolas o respeito à água e demais preocupações ambientais, a população começou a conservar água. A pedagogia da catástrofe funcionou para o povo, mas os governos, aparentemente, não aprenderam e continuam resistindo a fazer as necessárias políticas de investimento e de educação, e a população segue de olhos fechados para outros problemas. Estamos esperando a destruição da Petrobras para só então aprendermos o risco do aparelhamento do Estado e da corrupção ligada ao financiamento de campanha por empreiteiras. Por anos, o governo federal caminhou a passos firmes na direção da atual crise fiscal e a estagnação econômica. Muitos alertamos para os riscos da baixa poupança, do excesso de gastos, da preferência pelo consumo, da falta de base educacional, mas o governo preferiu caminhar até o ponto da pedagogia da catástrofe. Para conseguir a reeleição, o governo federal prometeu o que não ia cumprir, sem considerar as consequências da desconfiança criada pelo divórcio entre o discurso do marqueteiro na campanha e a fala dos ministros depois da posse. Tudo indica que precisaremos da catástrofe de um engarrafamento absoluto para percebermos o erro da opção da indústria e do transporte com base no automóvel privado; e de uma guerra civil em todas as ruas das cidades para admitirmos a violência que criamos com um modelo de desenvolvimento centrado no crescimento econômico, concentrando a renda, relegando a busca de educação da cidadania e a construção de harmonia social. A crise ecológica talvez só seja enfrentada quando o aquecimento global já tiver provocado todos os desastres planetários que se avizinham, mas que população e líderes se negam a ver. Aparentemente estamos em um tempo em que argumentos não têm papel pedagógico; só as catástrofes convencem. O mundo parece ter apenas duas cores e estar parado no tempo; as análises que procuram mostrar as diferentes nuances dos problemas e prever suas consequências são recusadas. Há uma clara preferência pelas ilusões instantâneas no lugar da realidade em movimento, até que a pedagogia da catástrofe desperte a consciência, corrigindo os erros quando o preço já é muito alto. É pouco provável que as próximas eleições mostrem que o povo aprendeu com seus erros eleitorais e consequentes opções de desenvolvimento, tanto quanto a população de São Paulo aprendeu com o desprezo pela água. Mesmo assim, é preciso insistir nos alertas, ainda que não sejam ouvidos, porque não tentar convencer seria uma catástrofe pessoal. Cristovam Buarque e senador (PDT-DF) FOLHA DE SÃO PAULO 21/02/15 EDITORIAL Pátria enganadora No primeiro dia do ano, em discurso de posse no Congresso Nacional, a presidente reeleita Dilma Rousseff (PT) anunciou que o lema de seu segundo mandato seria "Brasil, Pátria Educadora". técnicos gratuitos, instituições particulares viram aí uma excelente oportunidade de aumentar clientela e faturamento, a exemplo do que se deu no Fies. Mais apropriado seria designar a frase como slogan. Assim se explicitaria seu caráter propagandístico, evidenciado por medidas que só em 2015 vieram a lume --primeiro com o Fies, depois com o Pronatec. Na campanha eleitoral, Dilma prometeu elevar de 8 milhões para 12 milhões os beneficiários do Pronatec. Na surdina, seu governo interrompeu o fluxo de pagamentos correspondentes às aulas dadas em outubro por cerca de 500 instituições, como revelou esta Folha. O Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) custeia estudos de graduação com empréstimos a juros subsidiados de 3,4% ao ano. De 2010 a 2014, o número de estudantes financiados foi de 76 mil para 700 mil, com desembolsos de mais de R$ 13 bilhões no ano passado. No mesmo dia, o Ministério da Educação anunciou a liberação de R$ 119 milhões e a regularização dos desembolsos de 2014 para instituições privadas. Segundo o comunicado, elas respondem por 7% das matrículas do Pronatec. Por esse serviço, já teriam recebido R$ 640 milhões no ano passado. No final de dezembro, o governo federal alterou as regras para concessão dos financiamentos e mudou a sistemática de pagamento das mensalidades às instituições de ensino superior. Elas só receberão as parcelas do segundo semestre deste ano em 2016, uma manobra óbvia para postergar despesas. Nada disso altera o fato de que, ao aplicar o torniquete nas verbas educacionais, o governo Dilma Rousseff contradiz as promessas grandiosas sobre ensino e qualificação apresentadas na propaganda e sugeridas na posse. Na mesma época, o Planalto decidiu atrasar também os gastos com outra peça de resistência na propaganda de campanha, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego). Como a iniciativa banca o oferecimento de cursos Passou da hora de a presidente vir a público e explicar a seus eleitores que não vale o que disse no palanque. Vale, sim, o que se vê obrigada a fazer para consertar o estrago nas contas públicas provocado em seu primeiro mandato. FOLHA DE SÃO PAULO 21/02/15 PODER Crise no Paraná engrossa oposição a governo tucano Após medidas impopulares de Richa, oito governistas declaram independência Governador aumentou impostos, tentou mudar a previdência dos servidores e atrasou o pagamento das férias ESTELITA HASS CARAZZAI DE CURITIBA Poucos meses após ser reeleito no 1º turno e ser cotado como presidenciável tucano, o governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), vive uma crise política e de popularidade. A oposição ao tucano na Assembleia, que oficialmente é de apenas seis parlamentares, engrossou. Ao pequeno bloco agora se somam pelo menos oito deputados que se declaram independentes --inclusive alguns que integravam a base do governo--, como membros do PPS e PSD. O total ainda não chega perto dos 38 deputados que apoiam Richa, mas mostra sua fragilidade: "Definitivamente, trincou o cristal", diz o deputado Requião Filho (PMDB), um dos opositores. O pivô da crise é a grave situação financeira do Estado. Sem dinheiro nem para pagar a folha, Richa, que na campanha dizia que "o melhor estava por vir", aumentou impostos, atrasou o pagamento de férias e propôs, no início do mês, alterar a previdência dos servidores. Insatisfeitos, milhares protestaram contra o governador, chamando-o de "almofadinha" e "caloteiro". Professores estão em greve desde o dia 9. Na semana passada, invadiram a Assembleia e impediram a votação de um novo pacote de cortes. Pressionados, aliados do governador agora fazem discursos contrários a ele. "Já acreditei mais nesse governo", diz Ney Leprevost (PSD), que fez campanha para Richa e hoje se diz independente. Para ele, os deputados da base foram colocados numa "saia justa" pelo tucano, que prometeu que a situação econômica seria melhor e, depois, teve que admitir a crise. "Ele propôs medidas impopulares e delicadas. Cada um vai pesar o que é mais importante e fazer o cálculo." Para ele, alguns deputados podem preferir "ter as portas escancaradas nas secretarias". Leonaldo Paranhos (PSC)afirma que perdeu três indicações de cargos no governo por seu voto contrário, mas diz continuar na base. "Não é porque sou da base que necessariamente voto tudo a favor. O governo errou, e não preciso nem falar. Olha o que aconteceu", referindo-se à invasão. "Ele [Richa] sabe que vai pagar um preço por isso." A oposição surfa na onda: deputados do PT são aplaudidos entre manifestantes, enquanto Requião Filho, filho do exgovernador e senador Roberto Requião (PMDB), posa para selfies. O líder do governo, Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), reconhece que o momento é difícil: "Muita gente votou contra por outras insatisfações, por não estar acomodada na base". Apesar disso, Romanelli acha que Richa ainda tem capacidade para reverter a situação: "O que um governo que está em crise pode oferecer? Só um cafezinho e um tapinha nas costas". Para ele, quem votou com o governo foi motivado não por ambições políticas, mas pelo interesse do Estado, que precisa de medidas duras. FOLHA DE SÃO PAULO 21/02/15 MERCADO Brincar de trabalhar Multinacional mexicana investe US$ 25 mi em parque em SP que simula cidade em miniatura em que crianças ganham dinheiro fictício MARIANA BARBOSA DE SÃO PAULO Uma nova multinacional mexicana começa a emergir, em um segmento dominado pelos vizinhos ao Norte, de parques de entretenimento. Recém-aberto em São Paulo, no shopping Eldorado, o KidZania é uma cidade em miniatura em que crianças de 4 a 14 anos trabalham em troca de KidZos, para gastar com comida, lazer ou tranqueiras. As crianças depositam KidZos no Bradesco, trabalham enformando chocolate da Kopenhagen e embalando sucos Su Fresh. Pilotam avião em um simulador da TAM, brincam de repórter da Folha, de radialista da CBN e até de missionário da Unicef. O caminhão de bombeiro é patrocinado pela Porto Seguro, e o transporte de valores é da Prosegur. Há ainda médicos, policiais, frentistas, carteiros, artistas e jogadores de futebol, sem patrocinadores, e também uma universidade. Diplomados ganham mais. sua expansão internacional em 2006, com a inauguração em Tóquio. Juntos, os 18 parques KidZania (incluindo três no México) já receberam 40 milhões de visitantes. No Brasil, a expectativa é receber 400 mil neste primeiro ano, para uma capacidade é de 800 mil. As crianças podem gastar no salão Risqué ou na barbearia Bozzano, colorindo desenhos na loja da Faber-Castell ou com pizza e sanduíche que elas mesmas fazem na Pizzaria 1900 e no Burger King. Instalado no local onde durante 17 anos funcionou o Parque da Mônica, o KidZania abriga 50 atrações. Outras 20, como uma livraria e um supermercado, sem marcas, devem abrir as portas ao longo dos próximos meses. Os ingressos custam R$ 120 por uma "jornada" de cinco horas. Pais pagam R$ 50. O Brasil é o 15º país a abrigar o parque, fundado em 1999 na Cidade do México e que começou O parque deve abrir as portas em mais cinco países neste ano, incluindo Reino Unido, Rússia e 21/02/15 Qatar. China, Hong Kong e África do Sul estão em negociação para o ano que vem, revela seu presidente, Xavier López Ancona, 50. WALT DISNEY MEXICANO Por vezes descrito como o Walt Disney mexicano --talvez esteja mais para Tio Patinhas, pois não tem filhos, mas 16 sobrinhos que costuma levar em viagens de férias--, Ancona trabalhava como executivo da GE quando pediu período sabático para tocar um projeto proposto por um amigo: criar uma espécie de parquecreche em que os pais pudessem deixar os filhos brincando de faz de conta. No fim dos anos 1990, com a economia mexicana emergindo da crise de 94, Ancona juntou dinheiro com amigos e familiares e foi atrás de patrocinadores. Após alguma resistência, conseguiu atrair o grupo Bimbo (gigante de pães do México), a Coca-Cola, a American Airlines e a Nestlé. Muitas marcas vieram depois e hoje elas fazem parte do modelo de negócio. contra o parque. A entidade considera que a exposição de marcas fere resoluções do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente). "Uma coisa é preparar a criança para o mundo adulto e do trabalho, outra é relacionar as crianças com as marcas que patrocinam o lugar", diz Ana Cláudia Arruda Leite, coordenadora do Alana. "A publicidade tem que conversar com o adulto, e não com a criança." EDUCAÇÃO Ancona rebate críticas de que o convívio com marcas pode ser prejudicial para crianças, ressaltando parcerias com escolas. "Não é branding, é experiência e educação", diz. "A Universidade de Monterrey dá suporte com o conteúdo e temos apostilas para as escolas trabalharem antes e depois das visitas. E reservamos 5% dos bilhetes para crianças menos privilegiadas." CRÍTICAS O Instituto Alana, entidade que milita pela regulamentação da publicidade infantil, estuda se deve ou não entrar com uma ação O empresário Emilio Medina, responsável por trazer a franquia para o Brasil, ressalta que as marcas dão um caráter "mais realista" ao parque e trazem um conteúdo "difícil de replicar sem a assessoria de empresas reais". A TAM, presente logo na entrada, onde a decoração imita um check-in de aeroporto, diz ver no patrocínio uma forma de proporcionar benefícios para clientes de seu programa de fidelidade (os pais) e também de associar a marca a uma experiência de "qualidade mundial". "É uma atividade lúdica e educativa", afirma o diretor de marketing da companhia, Eduardo Costa. De acordo com ele, a TAM recebe muita visita de pais e crianças que querem conhecer os bastidores da aviação e estar no parque é também uma forma de atender a esse tipo de curiosidade. O investimento no Brasil é de US$ 25 milhões. Desse total, explica Emilio Medina, 20% são bancados por patrocínio, sem renúncia fiscal. Com as novas aberturas previstas para os próximos dois anos, Ancona espera ganhar porte para conquistar a terra de Walt Disney. Mas a comparação não para nos parques. Entre os planos futuros está levar o KidZania para as telas do cinema. CORREIO BRAZILIENSE 21/02/15 Arapucas/ Deputados do Pros aliados do ministro da Educação, Cid Gomes, estão irados. Acharam que a pasta era uma área rica e, desde que Cid assumiu, só apareceram problemas e armadilhas. As dificuldades de inscrição no Fies, os atrasos nos repasses do Pronatec e o pagamento de bolsistas terminaram por deixar o ex-governador do Ceará com fama de incompetente quando, na verdade, é uma herança que ele não tem a quem reclamar. BRASÍLIA-DF Denise Rhotenburg CORREIO BRAZILIENSE 21/02/15 CIDADES Retorno em meio a obras A situação lastimável das escolas públicas do DF motivou o adiamento do início do ano letivo, de 9 de fevereiro para esta segunda-feira. Mas o atraso de 14 dias não foi suficiente para a reforma de 148 unidades de ensino, de um total de 657. “Foram feitos muitos esforços para que pudéssemos organizar as escolas minimamente, mas elas não ficaram no ponto ideal que desejávamos”, admitiu o secretário de Educação, Júlio Gregório. Com isso, 33% dos colégios vão começar as aulas com a promessa de manutenção ao longo do ano, de acordo com a disponibilidade de recursos. O Sindicato dos Professores (Sinpro-DF) diz que é “deplorável” a situação de algumas instituições. Os professores farão uma assembleia na segunda. Se não houver acordo com o GDF para o pagamento de salários atrasados, a promessa é de greve. Pelo menos 3,2 mil temporários foram convocados pela Secretaria de Educação. Ao todo, 447 escolas necessitam de reparos, segundo a pasta. Pelo menos 300 deveriam estar prontas. Mesmo com o atraso das obras, o secretário garante que 172 foram recuperadas. “As equipes estão trabalhando até nos fins de semana. As escolas que não foram recuperadas totalmente terão condições mínimas de receber alunos”, assegura Gregório. Fevereiro foi um mês de escolas vazias e obras paradas. Na maioria dos casos, não foram grandes mudanças: troca de telhados, conserto de fiação elétrica e reparos hidráulicos lideram a lista de serviços. A pintura será a mesma do ano passado, por falta de dinheiro. “Os indicadores eram piores do que se pensava”, justifica o secretário. Entre as escolas com obras mais amplas, estão o Centro Educacional 7 de Ceilândia e a Escola Café sem Troco, em São Sebastião, que será ampliada. A secretaria identificou que três unidades terão que ser demolidas: no Lago Norte, no Riacho Fundo e no Paranoá. Essas reformas serão feitas em parceria com a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). “Algumas coisas são apenas paliativas nessas obras. O governo tem que se preocupar com paredes rachadas, muros caindo e questões de segurança”, contesta Washington Dourado, diretor do Sinpro-DF. Greve O parcelamento de salários atrasados não agradou aos professores. A categoria realizará uma assembleia na segunda-feira, em frente ao Buriti, a fim de chegar a um acordo com o governo. Os professores exigem o pagamento integral da dívida, que chega a R$ 120 milhões. “Queremos que o GDF quite esse débito imediatamente. Se não houver acordo, vamos iniciar o ano letivo em greve” garante Washington. A Secretaria de Educação justifica que não há recursos para sanar toda a despesa e que aguarda a análise do Tesouro Nacional e do Banco Central sobre a Antecipação de Receita Orçamentária (ARO). A medida já foi aprovada pela Câmara Legislativa. “Se depender do caixa do GDF, não há pagamentos. A alternativa foi parcelar. O governo tem interesse em quitar e dar normalidade a essa situação”, afirma Gregório. Se a ARO passar pelas duas instituições financeiras, há a possibilidade de o governo quitar todos os atrasados. “Se conseguirmos esse dinheiro no mercado financeiro, vamos efetuar o pagamento integral”, garante o secretário. Para o início do ano letivo, a secretaria contratou pelo menos 3,2 mil professores temporários paras sanar vacâncias diversas. Ao todo, a rede pública do DF tem 73 mil docentes, dos quais 20 mil estão inativos. Segundo a pasta, o reforço é para garantir normalidade no retorno dos alunos. “Esses professores já se apresentaram à coordenação regional de ensino, conheceram a escola e a turma em que vão trabalhar”, explica Gregório. CORREIO BRAZILIENSE 21/02/15 CIDADES Três perguntas para Júlio Gregório, Secretário de Educação do Distrito Federal Há uma proposta para melhorar o ensino médio no DF? Desde o ano passado, estamos trabalhando em uma proposta pedagógica para o ensino médio, dividida em regime semestral e anual. O ensino médio precisa de cuidados, nossa colocação nacional no Ideb é muito ruim. O indicador aponta que há necessidade de investimentos no campo pedagógico. Na verdade, o Brasil precisa fazer alterações em todos os sentidos. As pessoas passam três anos estudando 14 matérias, algumas nunca vão usar na vida. É preciso uma reestruturação para respeitar as aptidões dos alunos. O senhor é a favor de 50% vagas reservadas a alunos da rede pública de ensino nas universidades federais? Sim. Considero a cota social positiva, mais até do que a racial. As universidade públicas são públicas e devem dar sequência aos estudos dos alunos que estão nessa rede. Pesquisas apontam que após o primeiro ou o segundo semestre, no máximo, os estudantes cotistas têm desempenho igual ao dos alunos provenientes da rede privada. O gargalo está no vestibular, na forma de seleção. Sistemas com informações meramente decoradas beneficiam alunos da rede privada, mas provas como a do Enem começam a mudar isso. As cotas aumentarão a diversidade na UnB? Não sei se vai existir igualdade, mas vai diminuir as desigualdades. Aumentarão as chances dos alunos da rede pública, pois somente quem cursar os três anos do ensino médio na rede pública poderá concorrer. Não identificamos uma migração do ensino privado para o público. CORREIO BRAZILIENSE 21/02/15 CIDADES EDUCAÇÃO » O impacto das cotas sociais O aumento da dificuldade para ingressar na Universidade de Brasília tem levado alunos a procurarem cursos preparatórios e, assim, suprir deficiências da rede pública. Reitor da UnB aponta mudança do perfil dos estudantes MANOELAALCÂNTARA AILIM CABRAL Larissa dos Santos Sousa, estudante da rede pública e candidata a uma vaga na UnB (Minervino Júnior/CB/D.A Press) É justo fazer isso para dar oportunidade igual para todos, mas a solução verdadeira seria melhorar o ensino público e a condição socioeconômica das pessoas%u201D Larissa dos Santos Sousa, estudante da rede pública e candidata a uma vaga na UnB O sistema de cotas para o ingresso de alunos da rede pública de ensino na Universidade de Brasília (UnB), desde quando passou a ser aplicado — em 2013 —, provoca polêmicas e dúvidas sobre o funcionamento. Ele começou de forma progressiva, com 12,5 % das reservas. Este ano, alcança 37,5% e, em 2016, chegará a 50%. O impacto começa a ser sentido, com o aumento da dificuldade para o ingresso de quem não está incluído em nenhuma política afirmativa. Resultou em mais inscrições nos vestibulares de faculdades privadas e ainda evidencia a necessidade de melhorar a qualidade do ensino médio público na capital do país. Para suprir as carências de conteúdo e aumentar as chances, alunos procuram cursos preparatórios, que tiveram acréscimo de 15% a 20% nas matrículas. quatro grupos diferentes: candidatos com renda familiar menor ou igual a 1,5 salário mínimo per capita que se consideram pretos, pardos ou indígenas (PPI) e os que não se enquadram nas questões raciais. Candidatos com renda familiar maior que 1,5 salário mínimo per capita que se consideram PPI e aqueles que não se autodeclaram PPI (veja quadro). Existem hoje três formas principais de seleção para ingressar em um curso de graduação na UnB: o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que usa as notas do Enem na classificação dos candidatos; o Programa de Avaliação Seriada (PAS) e o vestibular tradicional, que ocorre somente no meio do ano. A partir de 2016, 50% das vagas de todas elas serão destinadas somente aos estudantes que concluíram todo o ensino médio em escolas da rede pública de ensino, contemplados pela Lei Nº 12.711, de 2012. “Se pegarmos o exemplo anterior das cotas, observaremos que, no início, o desempenho deles (cotistas) foi inferior, mas, ao longo do tempo, melhorou. E nossos egressos saíram da UnB muito bem formados” Ivan Camargo, reitor da UnB O documento, popularmente denominado de lei das cotas sociais, divide os estudantes em Além disso, são destinadas 5% das oportunidades aos candidatos que se consideram negros, oriundos de qualquer rede de ensino. No fim, serão 55% das vagas para cotas (sociais e raciais) e 45% para o sistema universal. “Com as cotas raciais, uma experiência de mais de 10 anos, observamos que o perfil da UnB mudou de fato. A diversidade 21/02/15 aumentou. Para as cotas sociais, é preciso um pouco mais de tempo para ver os resultados, mas tenho esperança de que será positivo”, afirma o reitor da UnB, Ivan Camargo. Uma alteração nítida após a adoção do Sisu e das cotas foi o aumento dos alunos da assistência estudantil. Em 2013, eram 3.216. No ano seguinte, passou para 4.132 assistidos, um acréscimo de quase 30%. “Se pegarmos o exemplo anterior das cotas, observaremos que, no início, o desempenho deles foi inferior, mas, ao longo do tempo, melhorou. E nossos egressos saíram da UnB muito bem formados”, completa o reitor. Para manter a qualidade, ele pretende aliar o corpo docente capacitado com o acolhimento aos estudantes. “Os alunos precisam de referências. Eles terão todo o apoio na UnB.” buscado cursinhos preparatórios nos contraturnos das escolas. O diretor do Único, Robson Arrais, afirma que o número de alunos cresceu 15% nos últimos três anos. “O aumento se dá devido à competitividade, acirrada ainda mais com a implantação dos sistemas de cotas e do Sisu”, acredita. Para ele, os alunos de escolas públicas passam a ter mais chances com as vagas reservadas, mas isso não é o suficiente para garantir a aprovação. Na unidade do Único de Taguatinga, 30% dos estudantes são da rede pública. Arrais reforça o foco na classe B, composta de pais que poderiam pagar uma escola particular mediana com esforço, mas deixam os filhos na rede pública e pagam por cursos preparatórios. “Assim, eles têm esse treinamento de qualidade para o vestibular e a possibilidade de usar o sistema de cotas.” Reforço A instituição das cotas na UnB evidencia um problema antigo do Distrito Federal: a má qualidade do ensino médio. Último resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) traz a capital brasileira na 12ª colocação no ranking nacional, quando o assunto é a última etapa da educação básica. Para chegar mais perto da aprovação, os pais têm O CEO da Rede Educacional Alub, Alexandre Crispi, também acredita que as cotas sociais são um dos fatores que provocaram a procura pelos cursos preparatórios. “Quem não tem condição de pagar um colégio particular opta pelo cursinho. É mais em conta e ajuda a preparar o aluno.” Em 2015, o Alub abriu novas turmas e, somente no último ano, teve um crescimento de quase 20% no número de estudantes. Crispi, no entanto, não percebe um movimento de migração das escolas particulares. “A nota do Enem de alunos da rede privada é muito superior. O cursinho é uma alternativa mais barata para os que não têm muitas opções”, ressalta. A estudante do colégio Paulo Freire, na Asa Norte, Larissa dos Santos Sousa, 16 anos, está no 3º ano do ensino médio e faz um curso preparatório. Ela estuda no colégio público perto de casa e acredita que o custo-benefício vale a pena. “Tem muitas coisas que ainda não estão ideais, mas é uma escola boa. Para suprir as falhas, optei pelo cursinho”, conta a candidata a uma vaga no curso de engenharia civil. Ela acredita que as reservas para alunos da rede pública são uma solução temporária. “É justo fazer isso para dar oportunidade igual para todos, mas a solução verdadeira seria melhorar o ensino público e a condição socioeconômica das pessoas”, completa. O pai de Larissa, Luís Carlos Sousa, 58 anos, confia na rede pública, embora ache necessário o reforço. “Meus outros dois filhos estudaram no Paulo Freire e, com a ajuda do cursinho, passaram na UnB.” 21/02/15 CORREIO BRAZILIENSE 21/02/15 CIDADES FUNCIONALISMO » Servidor ganha direito a pagamento integral » MATHEUS TEIXEIRA O governo local iniciará a próxima semana com mais um problema para enfrentar. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) determinou, via liminar, o pagamento integral do salário de um auditor fiscal do GDF até o quinto dia útil do mês. O caso abre precedente e deve complicar a vida do Palácio do Buriti, que, em janeiro último, anunciou o pagamento parcelado do vencimento dos servidores que recebem mais de R$ 9 mil mensais (veja Arte). O GDF ainda pode recorrer da determinação, mas, enquanto isso, ela está valendo. Como o advogado do auditor, Ivan Morais, entrou com mandado de segurança contra o chefe do Executivo local pela decisão, o caso é julgado pelo Conselho Especial do TJDFT. Ontem, o desembargador presidente do colegiado, Mario Machado, concedeu a liminar. O magistrado ainda não analisou, no entanto, o pedido de punição caso a decisão seja descumprida. O advogado sugere: “Caso não ocorra o pagamento como exigido, que se determine o bloqueio de valores dos cofres públicos e se institua multa diária, como forma de garantir a efetividade da decisão judicial”, afirma. O cliente dele, que não quis ter o nome divulgado, recebe R$ 16 mil mensais e, nos moldes propostos pelo GDF, teria todo o salário na conta somente no 24º dia do mês. A Procuradoria-Geral do GDF (PGDF) informou ontem, por meio de nota, que ainda não havia sido notificada sobre a liminar. “A PGDF não foi intimada sobre a decisão. Após ter conhecimento do seu teor, informará se irá recorrer.” JORNAL DE BRASÍLIA 21/02/15 DO ALTO DA TORRE Eduardo Brito