MARIA DE FÁTIMA MENEGHEL SAVARIS APROPRIAÇÃO DA ESCRITA E O PROCESSO DE AVALIAÇÃO ESCOLAR Criciúma (SC), 2004. MARIA DE FÁTIMA MENEGHEL SAVARIS APROPRIAÇÃO DA ESCRITA E O PROCESSO DE AVALIAÇÃO ESCOLAR Monografia apresentada à Diretoria de Pós-Graduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC, para a obtenção do título de especialista em Prática Docente. Criciúma (SC), 2004. RESUMO Pensando nas dificuldades encontradas pelos educadores em avaliar a escrita dos estudantes das séries iniciais, elaboramos esta pesquisa, objetivando analisar o processo de apropriação da escrita das crianças. Esta pesquisa está estruturada em duas partes, mais especificamente de aspectos relativos à escrita, lingüística, produção textual e avaliação bem como de uma amostragem de um trabalho realizado com vinte e dois estudantes da terceira série do Ensino Fundamental de duas escolas públicas do município de Morro da Fumaça. O método adotado para o tratamento dos dados coletados na pesquisa foi a análise dos textos produzidos pelos alunos. Para tanto, foram aprofundados conhecimentos teóricos e práticos sobre o tema e analisados os textos dos estudantes, baseando-se, especialmente, na teoria de Luiz Carlos Cagliari (2000). As análises finais foram comprovada, pois os estudantes da terceira série do Ensino Fundamental que foram pesquisados apresentaram os mesmos erros que o autor menciona em seus trabalhos. Isso ocorre porque as crianças ainda estão em processo de construção da escrita, tendo, naturalmente, maior probabilidade de apresentar deficiências na elaboração de sua produção textual. Palavras-chave: Escrita. Produção textual. Avaliação. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................4 1. A ESCRITA .............................................................................................................6 1.1 A escrita na história ............................................................................................6 1.2 O ato de escrever ................................................................................................7 1.3 As funções da escrita .........................................................................................8 2 A LINGÜÍSTICA E O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA ..................................9 2.1 A realidade lingüística da criança......................................................................9 2.2 O que a escola ensina.......................................................................................10 2.3 O certo, o errado e o diferente .........................................................................11 2.4 Variação lingüística...........................................................................................12 2.5 A escola e a variação lingüística .....................................................................13 2.6 Como é estabelecido o dialeto padrão ............................................................14 3 PRODUÇÃO TEXTUAL .........................................................................................15 3.1 O texto no processo de apropriação da escrita .............................................15 3.2 Reescrita do texto .............................................................................................17 3.3 A importância do erro .......................................................................................18 3.4 Dificuldades para produzir textos....................................................................20 4 A AVALIAÇÃO DA ESCRITA................................................................................22 4.1 A avaliação de textos ........................................................................................22 4.2 Linhas norteadoras do processo de avaliação...............................................24 4.3 Finalidade da avaliação ....................................................................................25 4.4 Avaliação no processo ensino-aprendizagem................................................26 5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS.......................................................28 5.1 Metodologia .......................................................................................................28 5.2 Análise dos dados.............................................................................................28 5.3 Conclusão da análise dos dados .....................................................................41 CONCLUSÃO ...........................................................................................................42 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................44 4 INTRODUÇÃO Sendo a linguagem um instrumento de representação, é por meio dela que se expressa a visão de mundo. A escrita deve ser encarada como uma representação da linguagem, pois é necessário que os sinais lingüísticos se articulem, produzindo um determinado significado que resulta no texto. O texto, por sua vez, torna-se o centro do trabalho pedagógico, pois é através dele que o professor faz a análise do processo de aprendizagem da escrita. Este foi o objetivo que desencadeou nossa pesquisa. Considerando, então, a importância dos trabalhos escritos no processo de aprendizagem da criança, houve a preocupação de buscar, por meio deste estudo, subsídios para alcançar melhoria na aprendizagem. Nesse contexto está situado o problema desta pesquisa: Por que os estudantes chegam na 3a série do Ensino Fundamental com inúmeras dificuldades na escrita? Para dar conta de explicar, provisoriamente, esta questão, podemos citar como hipóteses: Especula-se que os estudantes apresentam muitos erros de grafia porque aprenderam a falar algumas palavras de modo diferente da pronúncia convencional. Intui-se que o estudante tende a reproduzir na escrita o som que aparece na fala. Especula-se que o estudante está em processo de construção da escrita. 5 Assim sendo, o trabalho está estruturado em dois momentos: uma parte teórica e uma prática. Na parte teórica constam aspectos relativos à história da escrita, o estudo da lingüística, produção textual e avaliação. Na parte prática constam os dados coletados e suas análises. 6 1. A ESCRITA 1.1 A escrita na história A importância do ato de aprender o uso da língua escrita está fundamentada na idéia de que o homem se faz mais livre através da palavra. O uso da escrita é tão importante que a linha do tempo se divide em antes e depois da escrita. A partir daí, o homem pôde, por meio desse instrumento, registrar a sua cultura, suas descobertas e sua maneira de ver o mundo. Antes do surgimento da escrita, isto é, da representação da língua falada, os povos primitivos usavam outros meios para se comunicar como desenhos, símbolos. Atualmente, pode-se distinguir a história da escrita em três fases distintas: a pictórica, a ideográfica e a alfabética. A fase pictórica surgiu quando os homens começaram a se comunicar através de desenhos. Nesse primeiro estágio, os símbolos apenas descreviam o objeto ou a cena, ou seja, não estavam associados a um som. A fase ideográfica caracteriza-se pela escrita por meio de desenhos especiais chamados ideogramas, sendo que cada sinal gráfico representa uma idéia. Esses desenhos foram, ao longo da evolução, perdendo alguns traços mais representativos das figuras e se tornaram uma simples convenção da escrita. A fase alfabética caracteriza-se pelo uso de letras, onde cada sinal gráfico representa um som. As letras tiveram origem nos ideogramas, mas perderam seu valor ideográfico assumindo uma nova função de escrita: a representação fonográfica. Esse sistema de escrita é adotado pela maioria dos povos e sua 7 vantagem reside no fato de que, com um número pequeno de símbolos, podemos formar todas as palavras existentes. Seja qual for o tipo de escrita, ela sempre foi usada para representar a memória coletiva, religiosa, científica, política, artística e cultural da humanidade. Com a invenção da imprensa, a escrita foi passando do domínio de poucos para o público em geral e seu consumo é maior na forma de leitura do que na produção de textos. As revistas, os livros e os jornais contribuíram muito para que a escrita chegasse aonde chegou. 1.2 O ato de escrever A apropriação da escrita deve ser um processo prazeroso para a criança, possibilitando a experimentação e descobertas, porém, em muitos casos, não é isso que acontece. O que vemos é a imposição de um modelo que se limita a fazer cópias num verdadeiro exercício de treinamento manual. CAGLIARI (2000) reforça o comentário anterior dizendo que a escola é o lugar onde se escreve muitas vezes sem motivo. Sendo assim, cabe à escola promover situações em que se faça necessário usar a escrita e que esse uso se aproxime, o máximo possível, de situações reais do cotidiano da criança, pois assim, ela se sentirá motivada a escrever e expressar o que pensa e o que sente. Isso ainda ajuda o estudante a formar suas próprias opiniões, a ser dono da palavra, a refletir sobre si e as coisas que o cercam, enfim, ser ele mesmo. 8 1.3 As funções da escrita De acordo com CAGLIARI (2000) a escrita tem como objetivo principal permitir a leitura. A leitura é uma interpretação da escrita que consiste em traduzir os símbolos escritos em fala. Existem outros tipos de escrita (desenhos, sinais, placas) que também transmitem informações, mas o que merece destaque é a linguagem escrita, pois se tornou, com o passar do tempo, um dos elementos mais importantes para a transformação do mundo. A linguagem escrita pode libertar o ser humano, tornando-o um sujeito transformador, fazendo-o despertar da alienação, provocando uma profunda reflexão sobre o ambiente no qual está inserido. Quando fala-se em escrita, refere-se a algo que tem sentido, com conteúdo significativo para aquele que escreve e também para aquele que lê. Em CAGLIARI (2000, p. 105): A escrita começou a existir no momento em que o objetivo do ato de representar pictoricamente tinha como endereço a fala e como motivação fazer com que através da fala o leitor se informasse a respeito de alguma coisa. Ainda segundo o mesmo autor citado, a leitura é a decifração da escrita, porém é através da decifração dos signos escritos que se chega à motivação do que está escrito. Sem motivação para ler, não adiantaria escrever, por isso, quem escreve deve ter em mente prender o leitor por meio da escrita. A língua escrita é um sistema de representação da língua falada, mas é claro que a escrita não consegue ser tão rica e flexível quanto a fala, que tem mais recursos e expressões. 9 2 A LINGÜÍSTICA E O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA 2.1 A realidade lingüística da criança Em torno dos sete anos, a criança ingressa na escola para se alfabetizar; com essa idade, já é capaz de falar e compreender a língua portuguesa com desenvoltura. Para aprender a falar, a criança passou por um longo processo que teve início em seu primeiro ano de vida. Nesse processo de aprendizagem da linguagem falada não precisou de métodos específicos nem de alguém que lhe ensinasse em ordem crescente as dificuldades; simplesmente encontrou em seu meio pessoas que falavam e, conseqüentemente, aprendeu com elas. Nesse meio, a criança construiu seu próprio caminho, criando o que lhe era permitido fazer com a linguagem e provou, no dia-a-dia, um conhecimento e uma habilidade lingüística muito desenvolvidos. Aos três anos de idade, a criança já é um falante nativo da língua portuguesa. Nessa fase, dispõe de um vocabulário próprio para comunicar aquilo que necessita e domina regras gramaticais tendo como espelho para sua fala os familiares e a comunidade em geral. A maneira de falar é fruto do meio lingüístico que rodeia a criança. Desse modo, para CAGLIARI (2000, p. 18). A linguagem é um fato social e sobrevive graças às convenções sociais que são admitidas para ela. As pessoas falam de maneira como seus semelhantes e por isso se entendem. Se cada um falasse como quisesse, jamais poderia existir a linguagem numa sociedade. Alguém pode dizer “nóis vai pranta arrois” porque é assim que se fala em seu dialeto, enquanto outro diz “nós vamos plantar arroz”. Os dois modos de falar são diferentes em alguns aspectos e por isso caracterizam dialetos diferentes, mas ambos são regidos por regras muito específicas. 10 Assim, segundo o referido autor, as diferentes classes sociais têm sua própria maneira de falar. Os estudantes também pertencem a diferentes classes sociais, por isso a língua tem variedades. Quando a criança entra na escola falando o dialeto de sua comunidade, pode ser vítima do preconceito lingüístico e sofrer muito com isso. Nesse caso, o professor deve aproveitar a diversidade da língua para ensinar que o diferente não é errado e assim promover a valorização das pessoas, enaltecendo a pluralidade cultural. 2.2 O que a escola ensina Conforme CAGLIARI (2000), o estudante passa vários anos na escola, pela universidade, e se um especialista em problemas relacionados à língua portuguesa fizer uma pesquisa para verificar o que esse estudante aprendeu nesses anos todos, certamente, ficará decepcionado. O referido autor questiona: Então, o que o aluno fez nesses anos todos na escola? Será que o ser humano precisa de tanto tempo para aprender tão pouco? O que está errado nesta história? Procurando responder as indagações do autor, o que se vê nas aulas de língua portuguesa é um ensino desvinculado da realidade do estudante, com atividades repetitivas, mecânicas, sem significação para o aprendiz. Na escola, ensina-se a língua portuguesa como se fosse uma língua estrangeira, cobrando-se centenas de regras, esquecendo-se do processo dialético da construção do saber. 11 A escola diz que quer ensinar, mas no final das contas percebe-se que ela ensina de maneira muito estranha, e esconde mais do que mostra. Contudo, cobra de seus alunos conhecimento pleno, como se eles fossem obrigados a tê-los, sem ela ministrá-lo e sem eles poderem perguntar (CAGLIARI, 2000, p. 27). Nesse sentido, cabe à escola, oferecer situações em que o estudante utilize a língua portuguesa de maneira significativa, garantindo-lhe os conhecimentos necessários para que possa participar plenamente da sociedade, pois é através do uso eficiente da linguagem que o indivíduo poderá exercer, plenamente, sua cidadania. 2.3 O certo, o errado e o diferente Cada grupo social tem seu próprio dialeto, ou seja, sua própria maneira de falar, que é uma poderosa arma e, portanto, deve ser respeitada. Segundo CAGLIARI (2000), os dialetos de uma língua são como línguas especiais, com suas gramáticas e usos próprios, porém, muito semelhantes entre si. O uso lingüístico dialetal não é errado, é apenas diferente do uso de um outro dialeto. Na escola, a variação lingüística é vista como uma questão gramatical, de certo e errado; o diferente não tem vez por causa da supervalorização que é dada à escrita. Agindo assim, a escola desenvolve nos estudantes uma atitude maldosa e preconceituosa relacionada à fala e à escrita baseando-se nas relações de certo e errado. A criança não pode escrever o que quer, tem que escrever o que a instituição lhe impõe, porque os professores têm medo do diferente, pois viveriam 12 sempre na expectativa do imprevisível. Desse modo, criam-se as leis do certo e errado. A gramática normativa é conveniente para o trabalho que a escola gosta de fazer, mas não é interessante para o funcionamento da língua portuguesa. Para ensinar, a escola necessita de uma gramática descritiva de variedade dialetal, que mostre como a língua realmente funciona. Esta é nada mais que um conjunto de regras sobre o funcionamento de uma língua e seus usos nos mais diversos aspectos ou níveis. Assim, é muito mais bonito e verdadeiro ensinar a nossa língua. 2.4 Variação lingüística As línguas evoluem com o tempo, vão se transformando e adquirindo particularidades em função de seu uso, porém são perfeitas e completas entre si. O que as torna diferentes são os valores sociais que os membros da sociedade possuem. Dessa forma, uma pessoa de classe social alta não falará como uma de classe baixa, ou seja, cada indivíduo falará de acordo com as características do grupo social a que pertence. As línguas, quando se transformam com o passar do tempo, elas não se degeneram, não se tornam imperfeitas, estragadas, mas adquirem novos valores sociolingüísticos, ligados às novas perspectivas da sociedade que também muda. Nessas transformações, não aparece o certo e o errado lingüisticamente, mas o diferente. Certo e errado são conceitos pouco honestos que a sociedade usa para marcar os indivíduos e as classes sociais pelos modos de falar (CAGLIARI, 2000, p. 81). Na escola, o professor lida com classes heterogêneas, ou seja, com diferentes culturas, diferentes modos aprendidos de pensar e falar que devem ser respeitados. 13 Nesse sentido, é fundamental que no ensino das normas gramaticais, o professor não passe a idéia de que o aluno fala “errado”, escreve “errado” porque estaria dizendo também que os valores culturais do ambiente dos alunos e sua comunidade são errados, reforçando assim, no espaço escolar, todos os preconceitos e as distâncias entre os grupos sociais. 2.5 A escola e a variação lingüística A língua portuguesa possui uma imensa variedade dialetal, pois as pessoas são identificadas socialmente pela forma como falam. Por isso, há muitos preconceitos decorrentes dos valores sociais que são atribuídos aos diferentes modos de falar. Na escola, o preconceito em relação à fala dialetal deveria ser encarado como parte de um objetivo mais amplo: o respeito à diferença. Desse modo, a escola precisa desmistificar a idéia de que existe uma única forma certa de falar e que é preciso consertar a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Talvez por isso, a escola não tenha tomado para si a tarefa de ensinar quaisquer usos e formas da língua oral. Quando fez, foi de maneira inadequada: tentou corrigir a fala “errada” dos alunos – por não ser coincidente com a variedade lingüística de prestígio social –, com a esperança de evitar que escrevessem errado. Reforçou assim o preconceito contra aqueles que falam diferentes da variedade prestigiada (PCN, Língua Portuguesa, 1997, p. 48). Para a escola, o estudante que fala bem e escreve “certinho” é inteligente; o outro, que fala uma linguagem diferenciada, é carente, incapaz de aprender. É preciso mudar essa visão de valores educacionais. Os professores deveriam ser mais esclarecidos e discutir a questão da variação lingüística com seus 14 alunos, mostrando-lhes como os diferentes dialetos são, por que eles são diferentes, como a sociedade encara essa variação, seus preconceitos e a conseqüência disso na vida das pessoas. No entanto, a escola não deve excluir o estudo e o uso da linguagem padrão, pois esta é uma outra forma de linguagem. Se o indivíduo deseja encaixarse num determinado segmento social e, tenha que lidar com o público, só conseguirá se for um falante do dialeto padrão, ou da linguagem de prestígio. 2.6 Como é estabelecido o dialeto padrão Em nossa sociedade há modos diferentes de falar. Assim, uma pessoa que mora no nordeste fala de um modo diferente de uma pessoa que mora no sul; quem goza de prestígio, fala de modo diferente do dialeto caipira, que não é menos privilegiado, mas diferente. Porém, com a entrada dos meios de comunicação de massa na vida das pessoas, foi se formando um novo conceito de fala. Todos os dias ouvindo os locutores de rádio e assistindo a programas de televisão, as pessoas foram mudando seu modo de falar, aproximando-o de maneira natural à fala do rádio e da TV. A escola também contribui para a mudança na maneira de falar dos estudantes. Segundo GERALDI (1997, p. 33) “o objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido”. Assim, os estudantes vão mudando seu modo de falar, pois o dialeto-padrão tem muitos valores, sendo o principal a ascensão social. 15 3 PRODUÇÃO TEXTUAL 3.1 O texto no processo de apropriação da escrita O conhecimento não é uma capacidade inata, definida. Sendo assim, a construção do conhecimento dependerá das experiências adquiridas ao longo da vida do educando. Para que a aprendizagem se processe de maneira harmoniosa, é necessário que ela esteja ligada aos reais interesses da criança. Considerando a função social da escrita, o texto torna-se o centro da apropriação da língua escrita, pois com ele a palavra terá sentido e dependendo do contexto em que estiver inserida, apresentará diferentes significados. Para o estudante realizar uma boa produção textual é necessário que a sala de aula se torne um ambiente de diálogo e troca de idéias entre professor e estudantes. O professor deve ser um orientador do trabalho e um incentivador à leitura. Certamente, a criança que lê pouco encontrará maiores dificuldades; o aluno que lê muito, escreve bastante, com o tempo passa a ter menos dificuldades para escrever e, conseqüentemente, amplia seu vocabulário. À medida que a criança lê e escreve diversas palavras de um vocabulário mais rico, ela produzirá o seu texto, registrando algo significativo para ela. A produção textual é muito importante para exercitar a escrita, pois por meio dela, o estudante sente a necessidade de usar uma palavra conhecida oralmente e desconhecida graficamente. A partir disso, ele pensará como essa palavra pode ser escrita e utilizará seus conhecimentos para traçar a forma gráfica. 16 Para começar a escrever, as crianças não precisam estudar gramática, pois já dominam a língua portuguesa na sua modalidade oral. A dificuldade está simplesmente no ato de as crianças não conhecerem a forma ortográfica das palavras após seus primeiros contatos com o alfabeto (CAGLIARI, 2000, p. 122). Porém, se o professor ensinar a forma ortográfica e só depois permitir que a criança escreva, essa escrita vai se restringir apenas àquelas palavras aprendidas podendo ocasionar um bloqueio na escrita da criança. A ortografia deve ser ensinada, mas ela não pode ser supervalorizada porque esse não é o objetivo primeiro do processo de apropriação da língua escrita. O estudante deve ser livre para escrever da maneira que sabe, do modo como pensa ser a escrita das palavras, pois se a criança escrever um texto somente com palavras aprendidas na escola, certamente sentir-se-á impedida de escrever o que gostaria, causando problemas com a produção de textos escritos e com o seu desenvolvimento. O professor, por sua vez, deve atuar como orientador quanto à maneira de escrever do estudante, estabelecendo comparações entre o modo como o aluno escreveu e a forma correta (padrão) das palavras para que todos entendam o que foi escrito e a forma padrão. Para CAGLIARI (2000) essa prática deveria ser bastante freqüente, pois é um excelente ponto de partida para todas as outras atividades escolares. A produção textual é um recurso que tem como objetivo favorecer a organização do pensamento e da fala, ajudando o desenvolvimento do raciocínio lógico, oportunizando a realização de atividades que possibilitem aos estudantes se localizarem no espaço, no tempo e numa situação. O processo de construção do conhecimento através da produção de textos dos estudantes é muito importante porque a criança passa a ser sujeito de 17 sua própria criação e não um simples receptor. Isto é muito gratificante, pois causa prazer e desejo de aprender mais, acrescenta novos conhecimentos aos já possuídos, promove situações em que o estudante possa expressar o que pensa, ajuda-o a ter opinião própria, a ser dono da palavra. 3.2 Reescrita do texto Quando a criança começa a produzir textos espontâneos, utiliza seu próprio conhecimento para escrever. Nessas tentativas de aprendizagem, muitas vezes, o estudante comete erros, que podem ser sanados com mediação. A escola, muitas vezes, condena as tentativas de aprendizagem da criança, não permitindo que ela descubra, pergunte e cometa equívocos, esquecendo que para aprender a falar, a criança também passou por várias etapas, até conseguir construir seu sistema lingüístico. A escola, na maioria das vezes, não valoriza o pensar da criança. Preocupada com o erro, muitas vezes a escola só vê a produção final do texto sem olhar para o processo, valorizando apenas a escrita que contém todos os símbolos registrados corretamente (Santa Catarina, 1998, p. 39). Se o professor souber analisar, os “erros” cometidos pelos alunos são ricos em informações e devem ser utilizados como instrumento para auxiliar na reflexão e apropriação do conhecimento desejável do aprendiz. A escrita da criança, mesmo que não corresponda à linguagem padrão, precisa ser respeitada, pois ela ajudará o professor a compreender o processo de aprendizagem vivenciado pelo educando. É a partir do processo de escrita e reescrita que a criança vai adquirindo novos conhecimentos sobre a língua. Muitas vezes, o aluno está tão preocupado em “acabar” de escrever o seu texto que não se dá conta de que precisa desenvolver idéias obscuras, ou que seu 18 texto está carente de informações. Nesse momento, cabe ao professor orientar o trabalho do estudante, dar sugestões, apontar os aspectos que devem ser mais explorados ou as idéias que precisam ser mais exploradas. Nesse ponto, nota-se o quanto é importante o processo de reescrita do texto para o crescimento do estudante/ escritor, pois a partir das observações do professor a criança irá reestruturar seu texto. Durante a atividade de revisão, os alunos e o professor debruçam-se sobre o texto buscando melhorá-lo. Para tanto, precisam aprender a detectar os pontos onde o que está escrito não é o que se pretendia, isto é, identificar os problemas do texto e aplicar os conhecimentos sobre a língua para resolve-los: acrescentando, retirando, deslocando ou transformando porções do texto, com o objetivo de torná-lo mais legível para o leitor, o que pode significar torná-lo mais claro e compreensível quanto mais bonito e agradável de ler (PCN de Língua Portuguesa, 1997, p. 80). Com o firme propósito de levar o estudante a melhorar cada vez mais seu texto, a postura do professor é de fundamental importância. Dessa maneira, é necessário que o professor seja um leitor do texto do aprendiz e não um corretor ou crítico literário que julgue por princípios duvidosos a produção do aluno. A prática contínua da reescrita de texto requer uma organização do trabalho educativo voltado para a formação de cidadãos capazes de utilizar a escrita com eficácia e capazes de assumir a palavra – oral e escrita – na produção de textos adequados às mais diversas funções sociais. 3.3 A importância do erro Nas atividades de escrita, o estudante que ainda não consegue escrever convencionalmente precisa esforçar-se para representar graficamente aquilo que quer escrever. Nessas tentativas de aprendizagem, a criança comete muitos erros ortográficos. 19 O erro faz parte da aprendizagem na medida em que expressa ao estudante uma hipótese de construção do conhecimento ou um possível caminho a ser seguido. Para o educador, o erro deve servir de fonte de análise sobre o educando, pois revela como ele pensa e possibilita a reorientação na construção do conhecimento. Para VASCONCELLOS (1995, p. 71): Uma das dificuldades de se trabalhar os erros dos alunos, encontra-se justamente, na dificuldade que o próprio educador tem em trabalhar os seus erros, em decorrência de uma formação distorcida onde não havia lugar para o erro. Saber trabalhar com seus próprios erros é, portanto, condição para saber trabalhar com erros dos alunos, entendendo-s não como “crime”, mas como hipótese de construção do conhecimento. A tarefa do professor deveria ser a de tomar os possíveis erros como diagnóstico e levar o estudante a tomar consciência dele para poder superá-los. Os erros, na perspectiva construtiva, não são vistos como falhas ou equívocos, eles são superáveis, pois se referem a um momento evolutivo do processo de aprendizagem da criança; eles têm um papel importante porque informam o adulto sobre o modo próprio do estudante pensar naquele momento. Escrever, mesmo com “erros”, permite à criança avançar no processo uma vez que só escrevendo é possível enfrentar certas contradições. Nos dias atuais, o erro é tão indesejável que é comum ver o estudante utilizando corretivo na tentativa de não deixar vestígios, pois muitos educadores reagem de forma enérgica quando observam que o aluno errou e isso pode causar medo ao educando. Em HOFFMANN (1991, p. 67): 20 A postura do professor frente às alternativas de solução construída pelo aluno deveria estar necessariamente comprometida com a tal concepção de “erro construtivo”. O que significa considerar que o conhecimento produzido pelo educando, num dado momento de sua experiência de vida, é um conhecimento em processo de superação. A criança aprimora sua forma de pensar o mundo na medida em que se depara com novas situações, novos desafios e formula e reformula sua hipótese. Ao expor seu ponto de vista e confrontá-lo com o do colega ou do próprio professor, o estudante vai, gradativamente, fazendo as coordenações necessárias em seu pensamento até atingir a lógica correta. Os erros, portanto, são construtivos para a criança, não são erros, mas hipóteses que ela vai lançando. O erro deveria ser entendido como um estágio ou nível de desenvolvimento das crianças, principalmente quando estão em construção do código escrito. Muitos educadores aceitam “os erros” com naturalidade, mas em muitos casos, não compreendem que os mesmos fazem parte de uma fase da criança e que podem ser superadas com o tempo. Mesmo sendo uma fase passageira, “os erros” exigem dos educadores uma observação mais atenciosa, sendo que a criação de um ambiente de aprendizagem prazeroso é uma das alternativas que podem auxiliar os educandos. Esse ambiente deve ser composto de materiais diversificados, atividades desafiadoras para que o estudante alcance progresso nas suas dificuldades, sem trauma e sem comprometer o gosto que a criança tem ao inventar histórias e escrevê-las. 3.4 Dificuldades para produzir textos Um texto claro, compreensível, agradável, coerente, enfim, bem escrito é o que todo professor deseja que seus alunos sejam capazes de produzir. No 21 entanto, uma das maiores preocupações do educador é justamente perceber que muitos estudantes não conseguem expor com clareza suas idéias no texto. A ordenação do pensamento e das idéias é tão importante que é ela quem encabeça o critério de correção das provas de redação dos vestibulares, que é uma das responsáveis pelo maior índice de reprovação dos candidatos. Para auxiliar o estudante a organizar melhor as suas idéias, a atividade de revisão é de fundamental importância. Cabe ao professor estimular esse hábito e garantir os instrumentos necessários para que cada um assuma a responsabilidade pela tarefa. O segredo é ensinar algumas operações básicas de revisão, como cortar palavras ou trechos excessivos, substituir expressões vagas ou inadequadas, acrescentar elementos para tornar pensamentos mais claros, inverter termos ou seqüências para conferir maior expressividade ou organizar mais claramente as idéias (MEDEIROS, 2003, p. 30). Essa prática faz com que os estudantes sejam capazes de identificar imperfeições nos textos, refletir sobre elas e procurar saná-las. No entanto, não basta somente a ordenação do pensamento para o estudante produzir um texto sem dificuldade, é necessário definir um título ou tema, que precisa ser claro e despertar interesse no educando. O que fazer para cativar o aluno e resgatar o prazer da criação? Para atingir essa meta, o educador deve lançar mão dos mais variados recursos – jogos, brincadeiras, música, textos, figuras, vídeos, etc. – no intuito de despertar e aguçar a sensibilidade, estimulando o ato criador. É de fundamental importância incentivar a expressão oral dos estudantes valorizando-os, independentemente da variante lingüística que manifestar. Depois de ouvir e ser ouvido, mais integrado ao grupo, o aluno estará mais do que estimulado a criar e escrever. 22 4 A AVALIAÇÃO DA ESCRITA 4.1 A avaliação de textos Corrigir e avaliar as produções textuais são etapas em que o estudante não pode ficar de fora. O ato de corrigir um trabalho é um momento de reflexão do professor e do aluno, juntos. Nessa interação, cada sucesso do estudante merece um elogio e cada insucesso uma nova orientação. O conceito não deve ser uma escala fria relacionando pontos e acertos, pois em uma produção textual o emocional está envolvido, uma vez que o aluno sempre acaba pensando que sua produção é melhor ou pior que a do colega. Para RICHE e HADDAD (1991, p. 18): As avaliações devem ser feitas com toda a turma e a conceituação, discutida. Nessa oportunidade, os alunos mostram-se severos em suas avaliações. Cabe, portanto, lembrar aos alunos a necessidade de se avaliar com justiça os trabalhos. A experiência nos tem mostrado que, uma vez delegada a responsabilidade de se avaliar o seu trabalho em relação ao do colega, o conceito de justiça vai surgindo naturalmente. Assim, para os autores citados acima, a menção atribuída a cada texto deve ser votada e a nota deve ser respeitada e discutida pelo professor com a turma. Assim, as crianças ficam “ligadas” e no decorrer do processo pode-se observar mudanças no texto de cada um porque todos nascem para ter sucesso e por ele brigam. Ninguém aceita o fracasso, muito menos o estudante, que convive com um grupo e está sempre sendo observado e criticado pelos colegas. Quando o sucesso não acontece, é preciso bastante sensibilidade para detectar o porquê e ajudar o estudante a vencer as dificuldades. Nesse sentido, a ficha de avaliação é 23 muito importante. O estudante deve ter acesso a ela a fim de acompanhar seu desempenho com plena consciência de suas dificuldades, que poderão ser superadas se ele for devidamente orientado. Para RICHE e HADDAD (1991), nas fichas os conceitos devem sair da subjetividade de uma visão pessoal para serem subdivididos em itens, tornando-se mais objetivos. Ao acabar de escrever o texto, o estudante faz uma revisão com o apoio da ficha que deve abranger o desenvolvimento do tema, a organização frasal, a ortografia e a pontuação para que sejam conceituados separadamente. O educador poderá atribuir uma nota a cada item isoladamente. Dessa maneira, fica mais fácil detectar onde está a maior dificuldade de cada estudante e assim acabar com a supervalorização da ortografia em relação aos outros elementos tão ou mais importantes do que ela. É mais importante que o educador oriente o estudante a distanciar-se de sua produção textual. Ele deve se colocar na posição de leitor, avaliando se o que foi escrito está compreensível. De acordo com os PCN (Brasil, 1997, p. 76): Quando se pretende formar escritores competentes, é preciso também oferecer condições de os alunos criarem seus próprios textos e de avaliar o percurso criador. Evidentemente, isso só se torna possível se tiverem constituído um amplo repertório de modelos, que lhes permita, criar e recriar as próprias criações. Portanto, é necessário que diante do texto do estudante, o professor assuma uma postura de orientador, evitando ser um simples avaliador. Assim, irá detectar as dificuldades encontradas em cada estudante, propondo atividades direcionadas a partir das correções para a superação desses problemas. 24 A avaliação deve ser assumida como um instrumento de diagnóstico que possibilita ao professor compreender o estágio de desenvolvimento do estudante, visando conduzir o processo de ensino-aprendizagem de maneira eficiente para que o aprendiz tenha condições de avançar em termos de aquisição do saber. 4.2 Linhas norteadoras do processo de avaliação A ação enquanto mediação supera os procedimentos relacionados a todas as formas radicais de poder no ambiente escolar. A valorização das hipóteses elaboradas pelos estudantes pode acontecer se o professor transformá-las em outras questões ou considerá-las como argumentos dignos e importantes para discussão. A confiança mútua entre o educador e o educando quanto às possibilidades de reorganização conjunta do saber pode transformar o ato avaliativo em um momento especial de descoberta, estímulo e troca de conhecimentos. HOFFMANN (1991) aponta algumas linhas norteadoras de avaliação numa perspectiva mediadora: Mudança dos métodos de correção tradicionais (de verificação de erros e acertos) em métodos investigativos de interpretação das alternativas de soluções propostas pelos alunos às diferentes situações de aprendizagem. Realização de avaliações conscientes que visem a aprendizagem do estudante sem a preocupação de registrar periodicamente tudo o que ele faz só para cumprir as questões burocráticas. 25 Compromisso do educador com o acompanhamento do processo de construção do conhecimento do estudante numa postura epistemológica que privilegie o entendimento e não a memorização. O desafio que se enfrenta é, principalmente, a tomada de consciência dos educadores sobre sua prática. Em síntese, avaliar a aprendizagem implica estar disponível para acolher, dialogar e auxiliar o educando em sua trajetória escolar. Para tanto, necessita-se de cuidados com a teoria que orienta a prática escolar educativa, assim como de cuidados específicos com o ato de avaliar. 4.3 Finalidade da avaliação A avaliação é um processo abrangente da existência humana que implica numa reflexão crítica sobre a prática no sentido de captar seus avanços, suas resistências, dificuldades e possibilitar uma tomada de decisão sobre o que fazer para superar os obstáculos. Segundo VASCONCELLOS (1998), a avaliação realizada hoje nas escolas está direcionada às questões políticas, ao poder, aos objetivos, às finalidades, aos interesses que estão em jogo no trabalho educativo. O que vemos, felizmente, é que uma nova concepção de avaliação escolar já está em evidência e vai exigir uma mudança por parte de todos os educadores. Esta pedagogia tem como objetivo a construção da autonomia e da solidariedade, onde a avaliação passa a ser uma referência para a própria criança no sentido de suprir suas necessidades. 26 Enquanto instituição educativa, o que se espera da escola é a colaboração na formação do indivíduo através da mediação do conhecimento, garantindo a aprendizagem a todos. A partir dessa concepção dialética de educação, supera-se tanto o sujeito passivo da educação tradicional quanto o sujeito ativo da educação nova em direção ao sujeito interativo. Aqui, o professor tem resgatado o seu papel fundamental, pois não fica na posição de esperar a criança “amadurecer”, mas pode ajudá-la pela interação porque a boa aprendizagem se antecipa ao desenvolvimento. Isso faz com que o aluno perceba o educador de maneira diferente porque passa a reconhecê-lo como aquele que está ali para ensiná-lo. Essa mudança na relação pedagógica parece pouco, mas na prática faz muita diferença. 4.4 Avaliação no processo ensino-aprendizagem A avaliação deve ser contínua para que possa cumprir sua função de auxílio ao processo de ensino-aprendizagem. A avaliação que importa é aquela que é feita no processo, quando o educador pode estar acompanhando a construção do conhecimento pelo educando; avaliar na hora que precisa ser avaliado para que o estudante construa seu conhecimento verificando os vários estágios do seu desenvolvimento e não julgando apenas num determinado momento. A separação entre avaliação e processo de ensino-aprendizagem, o fazerse a avaliação não no cotidiano do trabalho de sala de aula, mas em momentos especiais, causou sérios problemas para a educação escolar. Em nome da objetividade, da imparcialidade, do rigor científico chegou-se a uma profunda desvinculação da avaliação como processo educacional (VASCONCELLOS, 1998, p. 57). 27 No seu verdadeiro sentido, a avaliação sempre faz parte do processo de ensino aprendizagem, pois por meio dele o educador vai acompanhar a construção do conhecimento do aluno, percebendo em que nível se encontra, possibilitando assim a interação na perspectiva do senso comum. 28 5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS 5.1 Metodologia Para caracterizar a pesquisa realizada, faz-se necessário mencionar que é do tipo básico de natureza qualitativa, participativa, exploratória, descritiva e analítica. Para o levantamento de informações foi adotado como instrumento de pesquisa textos dos alunos. Os sujeitos da pesquisa foram vinte e dois alunos da terceira série do Ensino Fundamental, sendo que a coleta de dados foi realizada com dez alunos do Colégio Estadual Princesa Isabel e doze estudantes da Escola de Educação Básica Municipal Zuleima Búrigo Guglielmi, localizadas no centro do município de Morro da Fumaça – Santa Catarina. O método adotado para o tratamento dos dados levantados na pesquisa foi análise dos textos produzidos pelos alunos. 5.2 Análise dos dados Para elaborar esta pesquisa usou-se produções textuais de vinte e dois estudantes das escolas públicas da rede estadual e municipal de ensino, classificadas conforme os “erros” cometidos, seguindo as teorias de Luiz Carlos Cagliari e também de Antonio Manuel Pamplona de Moraes e Marcos Bagno. 29 CAGLIARI divide os erros em onze categorias subdivididas em transcrição fonética, uso indevido de letras, hipercorreção, modificação da estrutura segmental das palavras, juntura intervocabular e segmentação, forma morfológica diferente, forma estranha de traçar, uso indevido de letras maiúsculas e minúsculas, acentos gráficos, sinais de pontuação e problemas sintáticos. Vejamos exemplos de cada categoria: 1 Transcrição Fonética Para CAGLIARI (2000) a categoria que apresenta o maior número de casos é a transcrição fonética, pois as crianças, muitas vezes, escrevem como falam. Analisando as produções textuais dos alunos, verifica-se que existem muitos erros enquadrados nesta categoria, sendo que alguns deles estão relacionados abaixo: • O estudante escreve “i” no lugar de “e”. • O estudante escreve “u” no lugar de “o”, pois fala “u” e não “o”. 30 • O estudante não escreve o “r” por não haver som correspondente na sua fala. • O estudante não escreve “r” porque pronuncia a vogal que o antecede de maneira mais longa, englobando o som de “r”. • O estudante escreve “r” no lugar de “l”, pois quando fala faz essa troca. Conforme CAGLIARI (2000, p. 81) Os modos diferentes de falar acontecem porque as línguas se transformam ao longo do tempo, assumindo peculiaridades características de grupos sociais diferentes, e os indivíduos aprendem a língua do dialeto da comunidade em que vivem. 31 • O estudante usa “u” no lugar de “l”. • O estudante transcreve sua pronúncia da juntura intervocabular. 2 Uso indevido de letras O uso indevido de letras também é uma categoria muito freqüente pois em nossa língua a notação gráfica de um mesmo som (fonema) pode variar bastante. Assim, a tendência dos alunos é reproduzir na escrita todos os sons que aparecem na fala. Nas produções analisadas, aparecem muitas construções encaixadas nessa categoria. • No trecho a seguir, o estudante usa a letra “z” para representar a letra “s” na palavra casinha. 32 • Na frase a seguir, a criança utiliza na palavra aceitou “ss” para representar o som de “c”. • O estudante troca a letra “q” pela letra “g” na palavra “quando”. • O estudante escreve “m” no lugar de “n”. • O estudante representa o som de “s” com a letra “c”. 3 Hipercorreção A hipercorreção é muito comum quando o estudante já conhece a escrita correta de determinadas palavras e sabe que a pronúncia delas é diferente. Então, passa a generalizar esta forma de escrever; por exemplo, como muitas palavras que terminam com a letra “e” e são pronunciadas com “i”, escreve todas as palavras com a letra “i”. 33 Esse é apenas um exemplo, existem muitos outros encontrados nos textos dos estudantes. Alguns deles estão relacionados abaixo: • O estudante escreve “l” ou “o” no do “u”. 4 Modificação da estrutura segmental Para CAGLIARI (2000) alguns erros de grafia não estão diretamente relacionados com a fala. São maneiras de escrever que o aluno lança mão porque ainda não domina bem o uso de certas letras como a distribuição de “m” e “n”, “v” e “f” nas palavras. A escola, normalmente, considera esses erros, graves indícios de discriminação auditiva (o que é falso), quando deveria entender que a criança faz uma aproximação muito grande da letra certa; ela não escolhe uma letra que nada tem a ver com o som que quer representar. Analisando as produções textuais dos estudantes, verifica-se alguns erros encaixados nesta categoria: • No trecho abaixo, o estudante troca a letra “m” pela “n”, pois ainda não diferencia o som dessas letras. 34 • O estudante troca o “l” pelo “ch”. • O estudante escreve “g” no lugar de “q”, como no caso da palavra circulada abaixo. • O estudante troca a letra “b” pelo “p”. • O estudante usa “v” no lugar de “f”. 35 5 Juntura intervocabular e segmentação Ao escrever textos espontâneos, observa-se que o estudante costuma juntar algumas palavras. Isso acontece porque quando a criança analisa a fala de uma pessoa, ela observa que não há separação entre as palavras. Outro critério que o estudante utiliza para analisar a fala são os grupos de sons ditos em determinadas alturas; estes são recursos que a criança usa para dividir as palavras. Ao analisar as produções dos alunos, observa-se alguns casos de juntura e segmentação. Vejamos adiante: • • Juntura intervocabular. Segmentação. 36 MORAES (1997, p. 180) reforça a teoria de Cagliari dizendo: Em determinada fase do desenvolvimento, a criança não consegue perceber que os espaços em branco indicam intervalos entre as palavras. Esse fato pode acarretar dificuldades para o aluno compreender a relação existente entre palavra escrita e falada. 6 Forma morfológica diferente CAGLIARI (2000) afirma que alguns erros na grafia das palavras acontecem por causa da variedade lingüística. Algumas palavras apresentam características próprias da norma coloquial de certos grupos sociais e dificultam o conhecimento da norma culta. Alguns exemplos: estória – história; veio – velho; ermã – irmã; princundol – perguntou. Essas palavras podem ser observadas nas produções abaixo: 37 Na escola, o professor lida com classes heterogêneas, ou seja, com diferentes culturas, diferentes modos aprendidos de pensar, dizer e escrever que devem ser respeitados. Segundo BAGNO (2001, p. 144): Deve-se respeitar a variedade lingüística de toda e qualquer pessoa, pois isso equivale a respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano, porque a língua permeia tudo, ela nos constitui enquanto seres humanos. 7 Forma estranha de traçar as letras Cada estudante tem sua própria maneira de escrever e, às vezes, traça as letras de forma estranha. O leitor considera que houve uma troca de letras, no entanto, está fazendo uma má interpretação do que foi escrito. Analisando as produções textuais, observa-se alguns exemplos: 38 8 Uso indevido de letras maiúsculas e minúsculas CLAGLIARI (2000) afirma que quando os estudantes das séries iniciais aprendem que os nomes próprios são escritos com letras maiúsculas, muitos deles passam a escrever, principalmente, os pronomes pessoais com este tipo de letra. É comum também, observar nas produções dos estudantes nomes próprios escritos com letras minúsculas, como no caso das produções abaixo: 39 9 Acentos gráficos Nas produções textuais dos estudantes, observa-se em muitas palavras a ausência dos acentos gráficos. Para CAGLIARI (2000), algumas palavras não são acentuadas porque no início da aprendizagem da escrita isso não é ensinado às crianças. 10 Sinais de pontuação Os sinais de pontuação raramente ocorrem nos textos espontâneos. Isso, segundo CAGLIARI (2000), acontece porque não são ensinados no início do processo de aprendizagem da escrita. 40 Para MORAES (1997), os estudantes não utilizam os sinais de pontuação porque não existem referências concretas na linguagem falada sobre sua utilização; por isso, a criança apresenta dificuldades para empregá-los. 11 Problemas sintáticos Nas produções dos estudantes, aparecem erros de concordância e de regência. Esses erros revelam os diferentes modos de falar o dialeto privilegiado pela ortografia. Aparecem ainda construções estranhas que só acontecem no uso oral da linguagem. • O estudante escreve “ele chegaram” no lugar de “eles chegaram”. • O estudante escreve “foram feliz” no lugar de “foram felizes”. 41 5.3 Conclusão da análise dos dados Por meio dessa pesquisa, verificou-se que as teorias de Cagliari são verdadeiras, pois os alunos da 3a série do Ensino Fundamental, que foram pesquisados, apresentam os mesmos erros que o autor mencionou em seus trabalhos. Isso ocorre porque a escrita não é uma mera transcrição da fala, pois nossa língua não é fonética, mas alfabética, daí a dificuldade, principalmente das crianças em escrever corretamente as palavras. O professor que se dedica ao ensino da Língua Portuguesa deve ter consciência dessas particularidades referentes à escrita para poder ajudar o estudante a compreender melhor a relação entre a língua escrita e a falada. 42 CONCLUSÃO Com a finalização desta pesquisa, já é possível refletir de maneira científica sobre crianças que apresentam na construção/ apropriação da escrita, maneiras peculiares de aprender e que, portanto, devem ser respeitadas. Pôde-se analisar de forma mais concreta o processo ensino-aprendizagem e sentir as angústias e certezas que educadores e estudantes experimentam em seu decorrer, sobretudo nas séries iniciais. Na atualidade, o “erro” está sendo visto sob uma nova perspectiva. Ele é variável, inerente ao processo de construção de conhecimento, tendo uma conotação mais de hipótese, experimentação. Sabemos que só erra quem faz e na apropriação da escrita, o erro não revela a ignorância do aluno, mas funciona como uma pista diagnóstica para o professor. Não se trata de aplaudir o “erro” gráfico ou de coerência e coesão, mas de, inteligentemente, se aproveitar dele para mediar a forma de superá-lo. Sob esse enfoque, avaliar é dar valor, valorizar, objetivando o aperfeiçoamento da capacidade criativa e construtora do educando. Como o objetivo central da pesquisa é analisar as causas das dificuldades na escrita dos alunos, verificou-se que são vários os fatores que as causam. Entre elas está a realidade lingüística da criança, o ensino desvinculado da realidade, a falta de leitura, o nosso sistema de escrita que é alfabético e não fonético, entre outros. O professor que se propuser a trabalhar respeitando a liberdade da criança na manifestação de suas produções textuais, orais e escritas, aceitando suas dificuldades como caminhos para atingir os objetivos propostos, estará 43 auxiliando-os para um crescimento harmonioso, inserindo-os no funcional e significativo mundo de cidadãos “alfabetizados” na mais ampla concepção dessa palavra. É preciso registrar que esta investigação não teve a pretensão de esgotar o tema; ao contrário, hoje entende-se que é somente o início de uma trajetória que deverá continuar não só por esta investigadora, mas por outros educadores que sentirem as mesmas necessidades de estudo. 44 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: O que é, como se faz. 7. ed. São Paulo: Loyola, 2001. 179 p. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. nacionais: Língua portuguesa. Brasília, 1997, 187 p. Parâmetros curriculares CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e lingüística. 10. ed. Scipione, 2000. 191 p. GERALDI, João Vanderlei et al. O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 1997. 247 p. HOFFMANN, Jussara Maria Lerch. Avaliação: mito ou desafio: uma perspectiva construtiva. Porto Alegre, 1991. 274 p. MEDEIROS, Maria A. A chave para o bom texto: revisão. Nova escola, São Paulo: Abril, n. 167, p. 30-1, nov. 2003. MORAES, Antonio Manuel Pamplona. Distúrbios da aprendizagem: uma abordagem psicopedagógica. São Paulo: Edicon, 1997. 155p. RICHE, Rosa; HADDAD, Luciane. Oficina da palavra: ler e escrever bem para viver melhor. 4. ed. São Paulo: FTD, 1991. 207p. SANTA CATARINA. Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Proposta curricular de Santa Catarina: Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio. Florianópolis: Cogen, 1998. 244p. VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Avaliação: concepção dialética libertadora do processo de avaliação escolar. São Paulo: Libertad, 1998, 110 p.