Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Suplemento especial - Não pode ser vendido separadamente OS FATOS SOB UMA NOVA ABORDAGEM Uma releitura dos grandes momentos O papel (no sentido de função) de um jornal é mais do que informar. Está entre suas premissas retratar e documentar a história, seja de uma Nação, Estado ou mesmo de uma cidade. O Nacional, há 85 anos, percorre o cotidiano de Passo Fundo revelando ao leitor fatos e personagens que fazem a vida do município. Por vezes, esses acontecimentos acabam caindo no esquecimento. Ficam guardados, porém, nas páginas, mesmo que amareladas, do documento chamado jornal. Foi pensando tanto nos leitores mais antigos quanto nos jovens que O Nacional buscou em seus arquivos fatos que marcaram épocas. Para os primeiros, a ideia é fazer reviver o momento, reescrito com uma nova visão por jornalistas que não vivenciaram o período, mas que buscaram a informação direto com personagens das estórias. Para os mais jovens, o objetivo é mostrar como assuntos latentes foram tratados à época, revelando que a tecnologia evoluiu bastante, mas que as notícias continuam basicamente as mesmas. A jornalista Daniela Wiethölter revisitou os arquivos da década de 1980 para retratar os movimentos sociais efervescentes que marcaram o período. Em seguida, Glenda Mendes traz o primeiro transplante de coração realizado no interior do Estado. Quem não lembra do serial killer Adriano da Silva? Pois o jornalista Bruno Todero relembrou a passagem do criminoso pela região. Ainda na editoria policial, Jorge Cabeludo foi outro bandido que marcou época. Quem mostra o tema é a repórter Natália Fávero. E para encerrar este especial, nada como relembrar os velhos bailes de debutantes ou o baile do perfume como chegou a ser denominado por décadas. Natália Arend e Juliana Schneider relembram com nostalgia este glamour. Sucursal em Porto Alegre: GRUPO DE DIÁRIOS - Rua Garibaldi, 659, conj. 102 – Porto Alegre-RS. Múcio de Castro • 1915 + 1981 MC- Rede Passo Fundo de Jornalismo Ltda Rua Silva Jardim, 325 A - Bairro Annes CEP 99010-240 – Caixa postal 651 Fone: 54- 3045-8300 - Passo Fundo RS http://www.onacional.com.br Diretor Presidente: Múcio de Castro Filho Conselho Editorial Diretor Executivo: Múcio de Castro Neto Múcio de Castro Filho Clarice Martins da Fonseca de Castro Milton Valdomiro Roos Antero Camisa Junior Dárcio Vieira Marques Paulo Sérgio Osório Valentina de Los Angeles Baigorria Múcio de Castro Neto Editora Chefe: Projeto gráfico e diagramação: Zulmara Colussi Pablo Tavares O Nacional não se responsabiliza por conceitos emitidos em artigos assinados e não devolve originais, publicados ou não. 2 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Contatos Circulação: [email protected] Comercial: [email protected] Redação: [email protected] Administrativo: [email protected] Fones Geral: (54) 3045 8300 Redação: (54) 3045 8326 Assinaturas: (54) 3045 8336 Classificados: (54) 3045 8344 Representante para Brasília: CENTRAL COMUNICAÇÃO. Representante para São Paulo e Rio de Janeiro: TRÁFEGO PUBLICIDADE E MARKETING LTDA Avenida treze de maio, sala 428 - Rio de Janeiro – RJ. Não nos responsabilizamos pelos conceitos e opiniões emitidos em colunas e notas assinadas ou matérias pagas. Não devolvemos originais, publicados ou não. Filiado à Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 3 Greves marcam os anos 1980 Multidões foram às ruas para demonstrar o seu descontentamento contra o panorama caótico da economia. A cobertura das manifestações ocupou significativo espaço nas páginas de ON, como a da histórica greve dos professores em 1987, a dos bancários e a suspensão das atividades da UPF O s anos 1980, embora conhecidos como a década perdida por causa da estagnação econômica e da inflação descontrolada, não foi um período de retrocesso em outros campos. Marcado por uma intensa participação popular, foi nesse período que aconteceu a retomada das grandes manifestações em massa após a repressão da ditadura militar. Uma época em que pipocaram muitas greves pelo país afora, envolvendo diversos setores e segmentos da sociedade. Segundo dados do Núcleo de Pesquisas da Universidade Estadual de Campinas. Em 1986, houve 2 mil greves no país, em 1989 foram 4 mil paralisações. Na educação, as paralisações do magistério foram marcadas por uma intensa participação popular que resultaram em mais de 90 dias sem aulas. O setor financeiro também foi foco de reivindicações, com grandes greves que pararam o sistema bancário em todo o país por vários dias. Uma crise na UPF (Universidade de Passo Fundo) também abalou a instituição, causando a revolta dos alunos e professores. A UPF chegou a fechar as portas. Passo Fundo foi palco de luta dessas e de outras categorias em vários momentos. Algumas delas se solidificaram no tempo e foram retratadas com ampla cobertura pelo jornal O Nacional. Por Daniela Wiethölter 4 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Redemocratização X desespero social res, multidões foram às ruas pedir eleições Os anos 1980 foram marcados pela luta diretas para presidente da República, direito pela redemocratização, mas também fo- que foi retomado somente em 1989, após 29 ram acompanhados por uma forte crise anos sem a participação popular na escolha econômica que culminou em desespero do governante do país. social. Forças políticas, que operavam na Após anos de repressão e veto a qualquer clandestinidade durante a ditadura mili- negociação, os movimentos sociais ressurgitar, foram efervescendo e conquistando ram como entidades de mediação política. novos adeptos. Naquele momento, o re- Sindicatos, partidos e entidades se mobiligime de governo também perdia legiti- zaram. Surgiram as centrais sindicais (CGT, midade, resultado, em grande parte, da CUT, Força Sindical) e inúmeros movicrise econômica, da dívida externa, dos mentos no campo social e democrático: de resultados negativos dos choques do pe- mulheres, negros, índios, ambientalistas, detróleo, dos baixos salários e do alto índice sempregados ou estudantes. de desemprego e Se, por um inflação. lado, esse foi um “Essa década foi rica em Esse cenário tempo em que a político e econação brasileiexperiências políticas mais nômico influenra viu renascer a duradouras ou, então, mais ciou diversas democracia pelas aglutinadoras, porém, temporárias, mãos de seu povo, categorias, que, em pequenas diferenciadas e reveladoras. Eram o panorama caóou grandes protico da economia lutas de sujeitos ocultos, de desejos fez da década de porções, criaram bandeiras de sociais e grupais, de vozes sufocadas 1980 um tempo lutas nacionais de desesperança por vários anos de repressão” e regionais em e de perdas, de Professor João Carlos Tedesco todo o Brasil. desmobilizações Segundo o proe descrença das fessor do mestramassas, principaldo em História da Universidade de Passo mente no campo político-institucional. Fundo, João Carlos Tedesco, as lutas foram O desemprego, as perdas salariais e o auas mais variadas. “Essa década foi rica em mento sucessivo dos preços dos produtos de experiências políticas mais duradouras ou, primeira necessidade abatiam milhares de então, mais aglutinadoras, porém, tempo- pessoas. A inflação chegou a níveis nunca rárias, diferenciadas e reveladoras. Eram vistos, cerca de 330% ao ano. lutas de sujeitos ocultos, de desejos sociais Diante desse cenário, as mais diversas e grupais, de vozes sufocadas por vários categorias resolveram sair às ruas para anos de repressão”, explica. Os movimentos demonstrar todo o seu descontentamento de esquerda, liderados pelos partidos PCB, com a situação. Na pauta de reivindicaPCdoB e AP foram os principais articula- ções, a recuperação imediata das perdas dores da retomada da busca pelos direitos salariais acumuladas nos últimos anos, resociais. ajustes salariais mensais de acordo com o Um movimento muito expressivo foi o índice real de inflação, congelamento real das Diretas Já, que tomou conta do Brasil. dos preços, combate à recessão e ao deTanto nas capitais como em cidades meno- semprego. 1980 Uma década de protestos 21 dias de greve do magistério 1982 2 dias de greve do magistério 1983 21 de julho - Primeira greve geral dos trabalhadores 28 de agosto - Nasce a Central Única dos Trabalhadores 1984 Todo o país se mobiliza em torno da campanha Diretas já. Os trabalhadores de todo o país deflagraram greve geral de 24 horas contra o arrocho salarial e o desemprego 1985 A Nova República começa com defeitos graves e inflação ascendente. Intensifica-se a reivindicação por reforma agrária. Professores fazem 60 dias de greve 28 de agosto - Dia Nacional de Lutas - Bancários param por dois dias, com a maior adesão da categoria 1986 Plano Cruzado congela os preços no pico e os salários são congelados na média. O plano resulta em demissões de milhares de bancários e fechamento de centenas de agências. Bancários cruzam os braços em um dia de paralisação Na UPF, diretórios acadêmicos promovem o primeiro boicote às mensalidades, o que leva ao fechamento temporário da universidade 1987 Ano começa com a maior greve do magistério, totalizando 97 dias sem aulas. Alunos da Universidade boicotam novamente o pagamento das mensalidades e instituição suspende as atividades 1988 Alunos da UPF realizam nova greve e professores estaduais fazem nove dias de greve 1989 Eleições diretas para a Presidência da República. Início da reestruturação produtiva no universo do trabalho. Professores param 42 dias Estamos em greve Nas páginas de O Nacional, a manchete “Estamos em greve” foi repetida em diversos momentos. As histórias de luta dos professores, bancários e estudantes foram retratadas desde as primeiras mobilizações, durante as acirradas negociações e na retomada das atividades. As reivindicações eram praticamente as Lorivan Figueiredo mesmas: reposição salarial e melhores condições de trabalho, explica o professor Tedesco. Em 1985, duas grandes greves aconteceram em Passo Fundo: do magistério e dos bancários. Os professores ficaram parados por 60 dias, maior greve registrada pela categoria até aquele ano. Movimento liderado pelo professor Lorivan Figueiredo, diretor do Cpers/Sindicato no período entre 1984 e 1987, pela primeira vez o magistério foi maciçamente para as ruas, promovendo grandes atos públicos. “Nas assembleias regionais, o antigo Cine Pampa lotava. Participamos também das assembleias realizadas no Gigantinho, em Porto Alegre, quando enviamos dezenas de ônibus para a Capital”, lembra o ex-dirigente do Cpers. Entre as reivindicações, os grevistas pediam o pagamento do acordo firmado em 1980 com a categoria e ainda a realização de eleições para a direção das escolas. Jair Soares, então governador do Estado, negava atender as exigências dos professores e o magistério rejeitava uma a uma as propostas do governo. Após dois meses de paralisação e seis tentativas de acordo, o magistério encerrou a greve com a garantia da antecipação de 2,5 salários mínimos e a não punição dos grevistas. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 5 Editorial ON O Nacional também publicou, entre as dezenas de reportagens, um editorial em apoio à greve do magistério. Assinado pelo diretor do jornal, Múcio de Castro Filho, o texto dizia: “O professorado tem batalhado para encontrar um ‘lugar ao sol’, para receber uma justa compensação do seu labor. Nada demais, nada em exagero é pleiteado. Apenas busca justiça para o trabalho que desenvolve no dia a dia ensinando, indicando caminhos, buscando a criação de uma mentalidade sã, visando tornar o jovem útil nos tempos futuros”. Em outra parte do texto, o diretor de ON fala sobre a importância do diálogo entre os grevistas e o governo estadual: “É necessário que haja compreensão e entendimento entre as partes (Estado e professorado) processando-se um diálogo para encontrar um divisor comum, compensando a ambos”. A maior greve da história Em 1987, mais uma greve na educação. Foram 96 dias de paralisação. A grande maioria dos professores estaduais aderiu ao movimento, exigindo praticamente as mesmas reivindicações das greves anteriores. Lorivan Figueiredo relata que os professores iniciaram a greve já com a disposição de resistir até a garantia de todas as reivindicações. Pedro Simon era então o governador do Rio Grande do Sul. “O governo estava muito intransigente e demorava dias para negociar. Ele pretendia resolver o problema com o cansaço dos professores, e nós fomos muito determinados, e não cedemos”, conta o ex-dirigente. Luz nas trevas Muitas manifestações e atos públicos aconteceram durante a greve de 1987. Uma passeata, porém, realizada simultaneamente em todo o Estado, destacou-se entre as demais. Intitulada Luz nas Trevas, profes- 6 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 sores realizaram uma caminhada silenciosa pelas ruas de Passo Fundo. A manifestação aconteceu no dia 29 de maio de 1987. Com velas, lamparinas, candelabros e lampiões confeccionados artesanalmente, centenas de professores saíram em caminhada da então 7ª Delegacia Regional de Educação, hoje 7ª Coordenadoria Regional de Educação, em direção ao centro da cidade. Segundo o professor Figueiredo, o objetivo era “iluminar” o governador para que encontrasse uma solução para o impasse com o magistério. “Nossa organização foi perfeita. Eram apenas as luzes e o som de um tambor. Não foi necessário barulho, batucada, gritaria. Simplesmente caminhamos em silêncio, à luz das velas, mostrando para a comunidade que o que os professores queriam era ser ouvidos pelo governo e que nossas reivindicações fossem aceitas”, relata. Estudantes, que apoiavam as reivindicações dos professores, participaram dessa caminhada, além de outras manifestações e assembleias. imprensa. ON acompanhou o fato e publicou uma reportagem no dia seguinte. “Montamos uma estrutura completa de sala de aula na calçada em frente da escola”, relata o empresário André Bolner, presidente do grêmio estudantil da época. Os estudantes apoiavam as reivindicações dos professores, mas não suportavam mais a falta das aulas. “Era uma posição muito complicada. A gente queria aula, mas não acabar com o processo de discussão dos professores com o governo”, lembra Bolner. Estudantes montam sala de aula Nos três meses da greve, milhares de alunos da rede estadual foram prejudicados. Sem aulas, os estudantes perderam conteúdos e tiveram que avançar janeiro adentro para recuperar os dias letivos perdidos. Os alunos do terceiro ano do ensino médio tinham ainda a preocupação com as provas dos vestibulares e de encerrar o ano letivo antes do prazo das matriculas das universidades. No entanto, apesar de todas essas preocupações, os estudantes apoiaram os professores. Com o slogan “Queremos os professores de volta, mas com a barriga cheia”, cerca de 80 alunos do Instituto Cecy Leite Costa protestaram a favor da greve dos professores no ano de 1987. A manifestação, que fechou a Avenida Presidente Vargas na manhã do dia 14 de abril daquele ano chamou a atenção da comunidade e da Vencidos pelo cansaço Greve normalmente durava 30 dias, aquela passou dos três meses. “O governo não negociava, os pais nos pressionavam e os alunos cobravam pela volta às aulas. Então, tudo isso começou a criar um desgaste interno muito grande e os professores resolveram encerrar a greve mesmo sem ter atingido todos os objetivos”, relata o professor Figueiredo. Na década, outras duas greves aconteceram. Em 1988, foram nove dias de paralisação e em 1989, mais 42 dias sem aulas. Apesar da sequência de greves, o ex-dirigente do Cpers destaca que os anos 1980 foram importantes para a categoria. “Era um momento econômico extremamente complicado e estávamos acumulando muitas perdas, mas conseguimos avançar em muitos direitos, como a participação da comunidade escolar no gerenciamento das escolas, a reposição salarial, a convocação de concursados, a inclusão de novos benefícios, como o difícil acesso, e a garantia do plano de carreira”, explica. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 7 Bancos fechados Na categoria dos bancários, o movimento sindical também ganha força no início dos anos 1980, mas só em 1983, com a abertura política, os trabalhadores ficaram mais à vontade para protestar. Uma greve geral, envolvendo cerca de 2 milhões de trabalhadores em todo o país, resultou no surgimento da CUT (Central Única dos Trabalhadores). A mobilização também culminou no movimento pelas Diretas Já. Para a categoria, a CUT foi essencial, pois passou a organizar as mobilizações. Em Passo Fundo, a categoria engajou-se nas lutas nacionais em diversos momentos. As greves de 1985, 1986 e 1987 tiveram ampla participação dos bancários. Naquele período, o presidente do Sindicato dos Bancários era Eugênio Ari Sturm, hoje corretor de imóveis. Ele relata que a principal reivindicação de todas as greves era redução da jornada de trabalho sem redução de salários, o pagamento das horas extras e dos reajustes trimestrais devido ao processo inflacionário. Em 1985, quando o governo implantou o Plano Cruzado, a categoria foi fortemente afetada. As privatizações, fusões e terceirizações de serviços causaram um grande impacto e uma drástica redução dos postos de trabalho no setor. No país foram milhares de demissões. Na região de Passo Fundo, 180 bancários perderam seus empregos, como relatou o ex-presidente à reportagem de ON no dia 5 de setembro de 1986. Uma semana depois, a categoria realizou a primeira greve depois da ditadura. A mobilização paralisou durante dois dias as agências da cidade. “A greve foi um marco para a categoria, pela adesão expressiva e pela retomada do movimento sindical”, conta Sturm. O ex-sindicalista lembra que para evitar o acesso dos bancários ao local de trabalho, os trabalhadores organizavam comissões de esclarecimento que tentavam sensibilizar os colegas para aderir ao movimento e ainda explicar para a comunidade os motivos da greve. A Brigada Militar resguardava a manifestação. “Os grevistas levantavam faixas nas entradas dos bancos, impedindo o acesso para o local de trabalho”, relembra o exsindicalista. Apesar de a ditadura ter acabado anos antes, o clima ainda era tenso. Segundo Sturm, durante as greves, a Brigada Militar esteve sempre presente e após muitos dirigentes 8 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Eugênio Ari Sturm eram convocados a prestar esclarecimentos ao Exército e à Polícia Federal. “Nunca tivemos nenhum confronto violento, mas eles estavam sempre a postos, resguardando a segurança dos bancos”, relata. Para o sindicalista, a década dos anos 1980 foi importante para a categoria conquistar novos direitos trabalhistas, mas também foi quando aconteceu o maior número de demissões. “A categoria foi perdendo a força. Hoje não conseguimos tanta participação popular, pois o número de bancários foi drasticamente reduzido com a informatização dos serviços e o fechamento de várias agências”, analisa o ex-bancário. A Universidade de Passo Fundo também foi manchete do jornal durante os anos 1980. A grave crise econômica vivenciada trouxe sérias consequências para a instituição. A hiperinflação achatou os salários dos professores e provocou uma explosão nas mensalidades dos alunos. Sem condições de pagar pelos reajustes, que eram mensais, estudantes boicotaram as mensalidades e uma greve levou o Conselho Universitário a suspender as atividades da instituição em meados de 1987. Segundo o padre diocesano Elydo Alcides Guareschi, exreitor da universidade, a crise era vivenciada em todos os setores da economia. “A crise não foi nossa, foi da economia do país. O país estagnou e na universidade aconteceu o mesmo.” As mensalidades aumentavam mês a mês, 10%, 20%, 30%, o que causava a indignação dos alunos. O deputado federal Beto Albuquerque, que então era presidente do Diretório Acadêmico dos Estudantes, liderou a greve dos alunos. “Defendíamos que além do debate político e ideológico, as discussões precisavam tratar sobre a vida real do estudante e suas dificuldades dentro da UPF, e nesse período a grande questão eram os altos reajustes das mensalidades”, disse o expresidente do DCE. O fechamento da UPF Debates calorosos O clima tenso dentro da universidade provocou diversos conflitos entre a “As tentativas de negociação resultaram em fracasso, graças à intransigência do presidente do DCE.” Alcides Guareschi, em nota à imprensa publicada no jornal O Nacional de 9 de junho de 1987 O caminho do entendimento Sem retornar às aulas e com o movimento dos estudantes aumentando a cada dia, a Reitoria acatou uma das reivindicações dos alunos: a realização de uma auditoria. As conclusões do estudo, publicadas em O Nacional, mostraram a existência de falhas administrativas e contábeis. Além disso, a direção convidou os estudantes a participar do Conselho Diretor da UPF, medida que foi essencial para amenizar os conflitos. “Chamamos todos para um debate aberto. Apresentamos a realidade financeira da universidade e todos puderam se manifestar. O resultado foi que os alunos perceberam de que não adiantava manter todo aquele radicalismo”, relembra o ex-reitor. As atividades foram retomadas no final de julho de 1987, mas os alunos foram obrigados a pagar o reajuste para voltar a frequentar as aulas. Para Albuquerque, as ações na época refletiram em grandes mudanças para os alunos da universidade. “A pressão política foi positiva porque conseguimos formalizar um acordo Reitoria, os professores, mas, principalmente, entre os alunos. Guareschi afirma que a situação econômica do país foi a causa de todos os problemas. “É claro que o governo jogou o problema sobre as universidades. Eles não assumiam a culpa e diziam que eram os professores e funcionários que queriam ganhar mais e os alunos que não conseguiam pagar os reajustes”, relata o exreitor. Foi então que surgiram os conflitos, de um lado os professores do outro os alunos. E a Reitoria no centro dos ataques. “O pessoal perdia o raciocínio, entravam em uma verdadeira paranoia. Quando os alunos não frequentavam as aulas, tudo parava”, complementa. Albuquerque esteve à frente de muitas dessas manifestações. “Paramos a universidade ao longo de 45 dias. Não havia como aceitarmos pagar o aumento que a universidade propunha. Foram dias de muito tumulto. Nós chegamos a invadir a Reitoria. Eu, pessoalmente, travei um debate, que, infelizmente, ficou pessoal contra o padre Alcides”, relembra o exdirigente do DCE. O movimento estudantil entrou na Justiça e uma liminar suspendeu os 128% de aumento aplicado naquele semestre. O ex-reitor também recorda desses momentos de tensão. “Os alunos não imaginavam outra alternativa fora a greve para chamar atenção para suas reivindicações. Foram várias paralisações, às vezes, só de um dia, mas algumas de mais tempo e com adesão maior dos estudantes”, conta Guareschi. “Eu, pessoalmente, travei um debate, que, infelizmente, ficou pessoal contra o padre Alcides.” Beto Albuquerque, ex-presidente do DCE que permitiu uma série de avanços para instituição, mas o grande resultado daqueles embates foi a formação política dos alunos”. O ex-reitor concorda: “Algumas lideranças estudantis da época eram negativas, mas outras eram realmente preocupadas com a questão social e coletiva dos alunos. Hoje nós não vemos mais esse tipo de jovem, comprometido com as questões sociais”. Para o deputado, o atual movimento estudantil precisa resgatar o debate político ideológico. “Hoje as coisas estão mais na razão das coisas materiais, não políticas, não ideológicas”, explica. Guareschi afirma que o período de crise também foi importante para o amadurecimento da instituição. “A universidade começou a aperfeiçoar seu modelo de instituição comunitária. Reformamos o estatuto e trouxemos a comunidade para o centro das discussões. Para os alunos, o momento também foi positivo, porque eles também entenderam que havia um caminho de entendimento e que existiam alternativas mais pacíficas para chegar até os seus objetivos. O confronto não levava a solução dos problemas”, finaliza. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 9 O grande feito da medicina de Passo Fundo O mês era junho de 1990. Enquanto centenas de milhares de adolescentes brasileiros tinham os olhos vidrados nos jogos da Copa do Mundo, Itamar de Souza caminhava tateando as paredes de casa por causa de uma insuficiência cardíaca grave, que o fazia sentir-se cansado durante todo o dia. Aos 14 anos, ele já era veterano de uma cirurgia para a troca da válvula mitral do coração, procedimento a que se submeteu aos nove anos. Mas o mais grave de tudo era que a válvula estava se deteriorando, e os médicos haviam dado ao rapaz apenas mais seis meses de vida. Vindo do interior de Ciríaco, estava internado no Hospital São Vicente de Paulo, onde os pais e ele esperavam por uma resposta ou por um milagre que pudesse tirar-lhes da angústia. A equipe médica, então, resolveu dar um grande e ousado passo: um transplante de coração. Mas se a cirurgia fosse realmente marcada, Passo Fundo entraria para a história como a primeira cidade, fora as capitais, a realizar um transplante de coração. E era logo o transplante do órgão que representa sentimentos e está todo envolto de uma simbologia que define vida e morte. Afinal, a sabedoria popular sentencia que a vida chega ao fim quando o coração para de bater. Por Glenda Mendes 10 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Sem esmorecer, porém cheios das melhores expectativas, os médicos confirmaram aos pais e ao menino que a melhor opção seria o transplante. E foi assim que a equipe, então liderada pelo medido Luís Sérgio Fragomeni, o Hospital São Vicente de Paulo e Passo Fundo tiveram seu grande marco na história da medicina. Até hoje, a cidade figura como a primeira do interior de um Estado a realizar um transplante de coração e no paciente até então mais jovem do Rio Grande do Sul. Tudo isso aconteceu no dia 15 de junho de 1990. O grande feito tomou então a atenção de toda a comunidade passo-fundense. E certamente do jornal O Nacional, na época completando 65 anos de existência. O assunto foi tema de diversas edições, em textos assinados pela jornalista Fátima Trombini, que acompanhou desde o momento que os médicos divulgaram a intenção de realizar a cirurgia até o desfecho da história de Itamar que, infelizmente, morreu em 2 de outubro daquele mesmo ano. Na edição especial de aniversário de ON estava a manchete: “Transplante de coração: Cirurgia dramática e revolucionária”. No texto, a entrevista concedida por Fragomeni a Fátima contava como estava a preparação da equipe e do hospital para a realização do transplante. O médico explicava que todos os quesitos necessários para a realização do procedimento haviam sido preenchidos pelo hospital e que a emoção de “prolongar uma vida” era uma constante na vida dos médicos. “Nós vivemos diariamente a luta em favor da vida, pois quase que todo dia se realiza esse tipo de cirurgia. Vivemos diariamente a ambiguidade de curar ou perder o paciente. É difícil conviver com isso, mas se aprende com o tempo”, declarava Fragomeni à jornalista. O transplante Dias depois, em 15 de junho, aconteceria o transplante. Era uma sexta-feira e o procedimento seria realizado à noite. Momentos antes da cirurgia, Itamar perguntava à equipe médica se, com um novo coração batendo em seu peito, continuaria gostando das mesmas pessoas. A dúvida, segundo os médicos, é a mesma em quase todos os pacientes que sabem que serão submetidos ao transplante. Eram 19h quando a equipe deu início à cirurgia. Horas depois, o novo coração estava lá. Poucos segundos se passaram, mas a apreensão era geral e a expectativa parecia durar horas. A grande dúvida? Se o coração voltaria a bater. Felizmente, a emoção tomou conta da equipe quando. Logo em seguida, o novo coração de Itamar começava bater, dando mostrar de que a cirurgia tinha sido um sucesso. Por volta das 24h, a equipe deu por encerrada a cirurgia. Bastava esperar que o paciente acordasse. No sábado, dia seguinte, 16 de junho, por volta das 10h, Itamar já conversava com médicos e enfermeiros e pedia para assistir ao jogo da Copa do Mundo daquela tarde, quando o Brasil jogaria contra a Costa Rica. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 11 De volta para casa Com ampla divulgação de ON, Itamar passou 29 dias no hospital, até ser liberado para voltar para casa. Os médicos admitiam: “Ganhamos um filho”, afirmação que deu título à matéria divulgada no dia 2 de julho. Para poder ir para casa, Itamar precisou aprender como se cuidar. Com carinho e atenção, todos os médicos, enfermeiros e equipe de saúde ensinaram-lhe como deveria se comportar nos próximos meses. E no dia 14 de julho, 29 dias após a cirurgia, Itamar despedia-se de todos, tendo como destino a casa dos pais, em Ciríaco. Infecção que não tinha cura Porém, Itamar viveria menos de três meses. Na noite de 1º de outubro, ele teve de retornar ao Hospital São Vicente de Paulo. Uma grande infecção havia tomado o organismo do menino, que, segundo Fragomeni, tinha contraído o ciclomegalovírus, para o qual não existia tratamento na época. Não resistindo à gravidade, Itamar morreu na madrugada seguinte, deixando tristeza em toda uma comunidade muito esperançosa em sua recuperação. A época, o momento Exatos 20 anos depois, ON procurou o médico Luís Sérgio Fragomeni para relembrar como foi o momento, o que acontecia à época, em que uma equipe de médicos teve como mote salvar a vida de um menino de apenas 14 anos, que buscava esperança e a teve na realização de um transplante. Segundo Fragomeni, o início da década de 1990 favorecia a realização de transplantes. O momento era de difusão das técnicas e Passo Fundo já vinha de uma tradição de cirurgias cardíacas. Aliado a isso, Fragomeni havia passado um ano nos Estados Unidos, na Universidade de Minnesota, especializando-se em transplantes. No mundo, 12 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 vivia-se a melhora nos resultados desses procedimentos. “Por se sempre interessado em transplantes que eu fui aos Estados Unidos e fiquei um ano em Minnesota, só nessa área de transplante de coração e pulmão. Quando voltei para cá, nós nos organizamos aqui em Passo Fundo, no Hospital São Vicente, para fazermos o transplante. Esse era o cenário: nós tínhamos preparado o conhecimento, uma experiência boa em cirurgia cardíaca. Então, foi uma questão só de organização e de tempo. Encontramos esse menino e o hospital estava bem disposto”, conta Fragomeni. De acordo com o médico, Itamar foi considerado um receptor inusitado, “porque ele era um menino de 14 anos, que já tinha sido operado cinco anos antes do coração em Porto Alegre, onde havia trocado uma válvula, mas houve uma deterioração e ele estava muito mal. Ele estava com insuficiência cardíaca classe 4, que é a mais alta, comenta. Fora das capitais Junto ao caso, que por si só era um estímulo para que se criassem fortes expectativas, era a primeira vez que um transplante seria realizado fora das capitais. “Ninguém na época pensou que fora das capitais seriam feitos transplantes, mas nós éramos um centro ativo, como somos hoje. Passo Fundo atualmente, se for comparar cirurgia cardíaca no Estado, eu acho que só perde para o Instituto do Coração de Porto Alegre”, avalia. Além disso, segundo Fragomeni, tudo foi resultado de muito estudo e a experiência em cirurgias cardíacas. “Não era nenhuma bravata. Foi uma coisa muito bem estudada. Foram anos estudando, só fazendo isso. O pessoal aqui já era experiente e foi só uma forma de organizar como fazer. O hospital disse que estava interessado, porque existe um custo muito elevado. São necessárias diversas pessoas, é multidisciplinar. Esse foi o clima da época”, salienta. O caso Fragomeni lembra que o caso de Itamar não era o ideal para a realização do primeiro transplante. “Já era um caso complicado, um adolescente, um jovem, que já tinha passado por uma cirurgia cardíaca que complica a situação, Além disso, tem a questão do tamanho do coração e outros detalhes técnicos, mas foi ele o receptor que precisava com mais urgência”, ressalta. Foi assim que, dentro de um cenário cheio de expectativas, não só dos médicos ou familiares, mas de toda a comunidade, que se envolveu com a história, que a cirurgia aconteceu. “Nós não tivemos problema algum no transplante. Todos aqueles riscos e dificuldades por ser uma recuperação, por trazer o doador a uma sala contígua, tudo gerava muita expectativa, era muita apreensão, mas estávamos bastante seguros, porque fazíamos já cirurgias em um bom número, com pessoal bem treinado e resultou positivamente, porque o menino recebeu o órgão e não teve problema de rejeição aguda”, lembra Fragomeni. O médico conta que quando teve alta, 29 dias depois, Itamar foi para casa bem, medicado, controlado “e passado alguns meses ele reinternou. Esse que foi o grande problema, nós perdemos um pouco o controle dele quando foi para casa e ele acabou pegando uma infecção por um vírus que, na época, não tinha tratamento no Brasil, que é o ciclomegalovírus. Ele acabou morrendo em virtude dessa infecção viral e não de rejeição, de infecção por bactérias, que é o grande problema”, destaca Fragomeni. Porém, 20 anos depois, o feito ainda é único para Passo Fundo e sempre vai manter a marca de ter sido o primeiro. Sempre terá a lembrança do empenho de uma equipe de médicos audazes, que enxergaram além e deram a Itamar a nova chance que ele queria. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 13 O rastro de um assassino serial O Nacional acompanhou de perto a saga do maníaco Adriano da Silva, que, em sua curta passagem pela região, deixou um legado de dor e sofrimento para as famílias dos meninos assassinados E ntre os meses de março de 2003 a janeiro de 2004, Passo Fundo passou, talvez, por um dos períodos de maior apreensão e medo em seus 153 anos de história. Boatos de que um assassino serial estaria agindo espalhavam-se pela cidade. Mês a mês, em casos até então tratados como isolados, outro e mais outro menino era morto e violentado em algum ponto da periferia da cidade. A cada novo crime, aquilo que parecia boato ganhava contornos de realidade. Novos relatos chegavam de outras cidades da região, espalhando temor na população. Dez meses se passaram, com um total de 14 meni- nos assassinados ou desaparecidos na região. A polícia insistia que não havia ligação entre os casos. O medo transformou-se em revolta no fatídico 6 de janeiro de 2004, quando um paranaense de nome Adriano da Silva foi preso, assumindo a autoria de 12 homicídios, seis na cidade e outros seis em Soledade, Lagoa Vermelha e Sananduva (mais tarde, mudou o depoimento e assumiu oito crimes). Terminava ali a saga de sangue e dor espalhados pelo homem, apelidado de Monstro; ficava para a história esse triste capítulo da cidade, retratado por O Nacional em mais de uma centena de edições. Por Bruno Todero 14 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 As várias versões de Adriano Depois da prisão, os repórteres de ON cobriram uma sequência de depoimentos e reconstituições dos crimes, que mobilizaram centenas de pessoas. Na primeira versão apresentada, divulgada na edição de 8 de janeiro, Adriano confessava o assassinato de 12, dos 14 meninos encontrados mortos na região Norte naquela época. O depoimento provocou alvoroço nas autoridades policiais da cidade, já que o criminoso confessava crimes até então atribuídos a outras pessoas. “A polícia de toda a região está sendo surpreendida, pois Adriano assumiu a autoria de crimes considerados esclarecidos, com inquéritos policiais encerrados e com pessoas já indiciadas”, dizia o jornal. Prova disto é que a prisão de Adriano trouxe a Passo Fundo o delegado João Paulo Martins, então chefe do Departamento Estadual de Investigações Criminais. Foi ele quem concedeu a primeira entrevista coletiva, quando contou detalhes do depoimento do maníaco. Adriano disse à polícia que era procurado desde 2001, quando teria escapado de uma cadeia no Paraná, onde cumpria pena de 27 anos pela morte de um taxista. Desde então, O fim do horror A prisão de Adriano de Silva foi o encaixe da peça que faltava no quebra-cabeça em que se transformou a sequência de assassinatos de meninos na região. Para se ter uma ideia da importância com que o caso foi tratado nas páginas de O Nacional, das 24 edições publicadas em janeiro de 2004 (mês da prisão), 13 tiveram como manchete principal matérias sobre o criminoso. A partir da prisão de Adriano, em uma forma de resposta à sociedade, o jornal tentou traçar, em uma sequência de reportagens, o perfil do assassino, que começava a ser chamado de maníaco e psicopata. No dia 8 daquele mês, o jornal mostrava na capa a foto dos seis meninos assassinados em Passo Fundo, com um pouco da história de cada um, e outra foto, ao centro, do criminoso. O título, “Foram oito meses de horror”, deixava evidente o desabafo do editor-chefe do jornal. circulou pelo interior gaúcho sob nomes falsos e vivendo de bicos. Com frieza e sem demonstrar, em nenhum momento, arrependimento, confessou os crimes. Ele dizia apenas que o autor dos crimes não era ele, mas outro homem que estava dentro de seu corpo. Disse que teria cometido o primeiro da série de crimes contra meninos em agosto de 2002. A vítima escolhida foi Éderson Leite, 12 anos, que vendia rifas na cidade de Lagoa Vermelha. Depois, passou por Soledade, onde matou o menino Douglas de Oliveira Hass, 10 anos, cujo corpo foi escondido sob a churrasqueira de uma casa abandonada e encontrado apenas após a confissão do assassino. Outras três crianças foram mortas naquela cidade na época, mas os crimes foram atribuídos a traficantes. Com o cerco apertando contra ele em Soledade, Adriano mudou-se para Passo Fundo, onde teria chegado no início de 2003, quando passou a frequentar locais como o Parque da Gare, onde se alimentava e dormia com moradores de rua. Mais tarde, alugou uma casa no bairro Santa Marta, região em que aconteceram quatro, dos seis crimes cometidos pelo maníaco na cidade. Recorte da edição de 21/01/2004 Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 15 Vício de matar De acordo com a reportagem de O Nacional, ainda no primeiro depoimento, o maníaco contou aos delegados que só atacava meninos de origem humilde, geralmente encontrados nas ruas, e empregava a mesma técnica para matá-los: atraía os adolescentes até locais desertos com a promessa de que ganhariam dinheiro em troca de pequenos serviços. Chegando ao local escolhido, geralmente previamente, os nocauteava com golpes de muay thai, uma das paixões do assassino serial. Com as vítimas inconscientes, Adriano as estrangulava com pedaços de corda, geralmente náilon. Em pelo menos três, dos nove casos atribuídos a ele, manteve relações sexuais com o cadáver da vítima. A mente criminosa e perversa o traía, já que com isso Adriano estava deixando no corpo dos meninos a prova que a polícia precisava para prendê-lo, o próprio DNA. Em certo depoimento, quando perguntado por um delegado sobre tamanha brutalidade, Adriano teria respondido que sentia “uma vontade íntima, um vício de matar”. Laudo confirma psicopatia Em março de 2005, O Nacional teve acesso ao laudo psiquiátrico produzido pelo IPF (Instituto Psiquiátrico Forense) do maníaco Adriano da Silva a pedido da Justiça. O diagnóstico concluiu que o assassino serial sofre de transtorno antissocial de personalidade, transtorno de pedofilia e transtorno de necrofilia (atração sexual por cadáveres). O laudo psiquiátrico também afirma que Adriano da Silva tem consciência dos seus atos, mas sua capacidade de discernir o certo ou errado é reduzida. De acordo com os psiquiatras, o maníaco não tem cura e representa perigo à sociedade. Além disso, o laudo do IPF desaconselha internação em manicômio judicial ou qualquer redução de pena, recomendando o completo isolamento do da sociedade em penitenciária de segurança máxima. O laudo ainda alerta para o risco de Adriano da Silva cometer novos delitos, inclusive contra os companheiros de prisão. 16 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Os erros da polícia Um detalhe espantoso nesse caso, repercutido também na edição de 8 de janeiro de 2004 e em outras nos dias seguintes, é que Adriano da Silva já havia sido detido pela polícia pelo menos quatro vezes em sua trajetória de crimes pela região, mas em todas acabou liberado. Em uma das ocasiões, o avô do menino Leonardo Dornelles dos Santos, assassinado em novembro do ano anterior, chegou a levar o criminoso para a delegacia, dizendo que ele teria sido visto em companhia do neto antes de desaparecer. Na delegacia, porém, Adriano apresentou a carteira de trabalho do irmão, Gabriel, que residia no Paraná e que não tinha antecedentes criminais. Sem provas, foi liberado. Entrevistado pela reportagem de ON, o avô do menino Leonardo, o policial reformado Gideon Dornelles, afirmou que a polícia havia sido negligente. Esse foi apenas um dos erros cometidos pela investigação. Outro problema determinante foi a falha no Infoseg, o sistema integrado de informações da polícia e do Judiciário. Desde maio de 2003, o governo do Paraná, onde Adriano era foragido da Justiça, deixou de atualizar os dados no sistema. Assim, a condenação do criminoso não aparecia em qualquer pesquisa. O entendimento na época, repercutido no jornal O Nacional, é que, se a foto de Adriano constasse no Infoseg como procurado, ele poderia ter sido identificado antes de cometer todos os crimes. O terceiro erro capital da polícia, que ainda hoje é sustentado por investigadores que trabalharam no caso, foi a prisão de outras pessoas em pelo menos dois casos confessados por Adriano em seu primeiro depoimento. O mais emblemático é o assassinato do menino Volnei Siqueira dos Santos, encontrado morto em um mato da Vila Jardim. A investigação apontou sete adolescentes como os autores do crime. Eles inclusive ficaram detidos por mais de dois meses em centros de detenção de adolescentes infratores do Estado. Depois da confissão do maníaco, as mães dos meninos fizeram um protesto na cidade acusando po- liciais de terem torturado os suspeitos para que confessassem o crime. “Mães dizem que adolescentes foram vítimas da polícia”, dizia o jornal em 9 de janeiro de 2004. Dois dias depois de preso, Adriano mudou a versão dada no primeiro depoimento e confessou apenas a prática de violência sexual contra Volnei, mas negou o assassinato, apontando os adolescentes presos como os autores do crime. As várias versões dadas pelo maníaco para a sequência de crimes também foram repercutidas na época por O Nacional. No outro caso emblemático, a polícia pediu a prisão de um representante comercial morador de Gravataí, pela morte do menino Jeferson da Silveira, encontrado morto na região da Vila Santa Marta. Sobre os equívocos, os delegados disseram na época que mesmo com a confissão de Adriano, havia dúvidas a respeito dos crimes, por isso pelo menos seis casos seriam mantidos em aberto. As dúvidas deixadas pela polícia foram retratadas nas edições de 10, 11 e 12 de janeiro de 2004. Frases retiradas dos julgamentos “Ainda não é hora de falar. Vou esperar todos esses processos acabarem” Adriano da Silva “É aquela história. Dizem que não importa muito o que eu falo. Aquele psiquiatra diz que eu nunca vou estar falando a verdade” Adriano da Silva ON suspeitou de ligação entre os casos Na edição de 8 de outubro de 2003, O Nacional publicou, em reportagem de capa, que a polícia estava unificando investigações por suspeitar que o sumiço de três meninos em menos de um mês poderia estar ligado a um mesmo criminoso. Dez dias depois, a capa trazia a notícia de que família de um quarto menino temia que o destino dele, até então desaparecido, fosse o mesmo das outras crianças encontradas mortas. Até então, porém, o nome de Adriano da Silva não era cogitado nem mesmo pela Polícia Civil. A suspeita recaía sobre o representante comercial de Gravataí, que havia sido preso preventivamente como suspeito da morte do menino Jéferson. A investigação também não ligava os quatro casos em sequência (no final de outubro aconteceria outra morte na cidade), ao assassinato do menino Alexandro Silveira, que havia desaparecido em março daquele ano. “Só matei em Sananduva. Os outros crimes eu tive que assumir. Fui obrigado, mas não vou falar quem me obrigou. Tenho medo de retaliações contra minha família. Até porque ‘eles’ disseram que sabem onde moram” Adriano da Silva “Essa história é um filme com roteiro macabro, cujo ator principal é o réu: a morte travestida de gente” Promotor de Justiça, Álvaro Poglia “A pena máxima vai asfixiar a liberdade que o réu não merece” Promotor Álvaro Poglia “Mentir, vagar e corromper está na natureza do réu” Promotor Álvaro Poglia “Adriano da Silva mentiu quando disse que fazia serviços gerais. A verdadeira profissão dele é matador de crianças” Promotor Álvaro Poglia Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 17 Série de julgamentos Após toda a repercussão que teve o caso Adriano da Silva, ON também esteve presente em todos os momentos em que o maníaco retornou à cidade e região, seja para prestar novos depoimentos ou para ser julgado. A cada nova operação para trazê-lo da Penitenciária de Segurança Máxima de Charqueadas (onde está preso desde 2004), uma equipe de reportagem era mobilizada para acompanhar os desdobramentos. Nas primeiras vezes em que pisou na cidade, um forte aparato policial foi necessário para evitar que Adriano fosse linchado pela população e por familiares das vítimas. Em 2006, em um desses momentos de “liberdade” do assassino serial, os repórteres de ON conseguiram entrevistar Adriano da Silva, que demonstrou toda a frieza que os delegados atribuíam a ele depois que foi preso. Na ocasião, já orientado pelos advogados de defesa, negou envolvimento em todos os crimes registrados em Passo Fundo, assumindo apenas o assassinato do menino Daniel Lourenço, em Sananduva, o último da série de assassinatos. A conversa durou menos de três minutos. Veja o que o Adriano respondeu na época: O Nacional - Quais assassinatos você assume? Adriano da Silva - Eu só assumo o crime que cometi em Sananduva. Você matou somente Daniel Lourenço? Isso mesmo. Por que você assumiu todos os crimes ocorridos na região? Isso eu deixo para responder na hora do júri. Na hora do júri? É. Tem muita coisa errada nessa história. 18 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Você se arrepende de assumir crimes que não cometeu? Nessas alturas, eu me arrependo de tudo. Do que mais você se arrepende? De ter facilitado minha prisão. Se eu soubesse que daria um rolo desse tamanho não tinha facilitado. Você confirma a versão da família, que entregou o Leonardo para uma outra pessoa? Que eu passei para outra pessoa eu não posso confirmar, mas eu entreguei essa criança para uma mulher pensando que era a mãe. Você espera voltar para as ruas algum dia? Sei lá. A sequência de crimes 16 de agosto de 2002 - Lagoa Vermelha Vítima: Éderson Leite, 12 anos. O menino saiu de casa para vender rifas da escolinha de futebol e nunca retornou. O corpo só foi encontrado três semanas depois do crime, em uma sanga no interior do município. Na primeira confissão em depoimento à polícia, Adriano disse ter levado Éderson a um lugar ermo, prometendo que compraria um número de rifa. Ali, teria aplicado um golpe na traqueia do menino para que desmaiasse e posteriormente o asfixiou usando um cinto. Condenação: em novembro de 2008, Adriano da Silva foi condenado a 22 anos de reclusão pela morte do menino Éderson. 09 de março de 2003 - Passo Fundo Vítima: Alexandro Silveira, 13 anos. O menino era engraxate e tinha como ponto principal de clientes a praça Tamandaré. Foi ali que, supostamente, teria conhecido Adriano da Silva. Com a promessa de um trabalho, Alexandro foi levado até uma área deserta do bairro Petrópolis, onde foi estrangulado e violentado. Sua ossada só foi encontrada em 20 de setembro de 2003. Familiares o reconheceram pelas roupas e pelo calçado que o menino usava quando sumiu. Condenação: pelo crime, Adriano foi condenado, em 2006, a pena de 21 anos e cinco meses por homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver. 19 de abril de 2003 - Soledade Vítima: Douglas de Oliveira Hass, 10 anos. O menino foi atraído por Adriano até um moinho abandonado, onde foi morto por asfixia mecânica. Em depoimento, o maníaco confessou que transportou o corpo de Douglas em um carrinho de mão até uma casa em construção, onde o criminoso fazia bico de pedreiro. Ali, enterrou o corpo sob a churrasqueira, escondendo com cimento. A ossada de Douglas só foi encontrada pela polícia depois da confissão de Adriano. Condenação: pelo crime, o Tribunal do Júri de Soledade condenou Adriano da Silva a pena de 21 anos e cinco meses de reclusão por homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver. 09 de julho de 2003 Passo Fundo Vítima: Volnei Siqueira dos Santos, 12 anos. O menino era vendedor de rapaduras na região do bairro Nossa Senhora de Aparecida. Trata-se do caso mais emblemático envolvendo Adriano da Silva. No primeiro depoimento, o maníaco confessou o crime e disse ter violentado o cadáver do menino. Depois, voltou atrás e confessou somente a violência sexual. Sete adolescentes foram presos, confessaram o crime, ficaram 45 dias detidos e foram soltos após revelarem que confessaram sob pressão policial. O DNA de Adriano da Silva foi encontrado no sêmen recolhido das roupas de Volnei. O corpo foi encontrado cinco dias depois do crime, em um mato da Vila Jardim. Condenação: em outubro de 2007, Adriano da Silva foi condenado a 32 anos, dois meses e 15 dias por homicídio duplamente qualificado, atentado violento ao pudor e ocultação de cadáver do menino Volnei. Em 2010, o julgamento foi anulado a pedido da defesa. Um novo júri popular deve acontecer no próximo ano. 14 de setembro de 2003 - Passo Fundo Vítima: Júnior Reis Loureiro, 10 anos. O menino era índio e costumava ser visto vendendo artesanato em posto de combustíveis localizado às margens da ERS-153, na saída para Ernestina. Foi naquele local que conheceu Adriano da Silva, que o atraiu com a promessa de que venderia os cestos. Adriano caminhou com a vítima por cerca de 500 metros até uma rua deserta, onde o asfixiou e matou. Para dificultar o encontro da vítima, colocou uma tábua sobre o cor- po. Em depoimento, disse a polícia que pensou em violentar o cadáver, mas que teve nojo do cheiro do menino. O corpo foi encontrado no dia 22 do mesmo mês. Condenação: em setembro de 2006, Adriano da Silva foi condenado a 29 anos, três meses e 20 dias pelo homicídio duplamente qualificado do menino Júnior. 29 de setembro de 2003 - Passo Fundo Vítima: Jéferson Borges Silveira, 11 anos. Outro caso que intrigou a polícia, já que um representante comercial, de 48 anos, chegou a ser preso pelo crime. Adriano assumiu o crime, mas voltou atrás e afirmou que só tinha mantido relações sexuais com o cadáver. O corpo do menino foi encontrado no dia 3 de outubro, em um mato da perimetral. Ele foi morto por estrangulamento. Condenação: é o único dos casos envolvendo Adriano da Silva que ainda não foi a julgamento, marcado para 6 de outubro de 2010. 02 de outubro de 2003 Passo Fundo Vítima: Luciano Rodrigues, 9 anos. O menino participava de programas sociais da Secretaria de Cidadania e Assistência Social e teria sido abordado por Adriano da Silva em uma dessas atividades, na Vila Xangrilá. Com a promessa de dinheiro, a vítima foi atraída pelo criminoso e seguiu com ele por mais de 2 quilômetros. O menino foi morto em um antigo campo do quartel, no bairro Nossa Senhora Aparecida. A ossada foi encontrada em 29 de novembro. Condenação: pelo crime, Adriano da Silva foi condenado, em 2006, a 21 anos, dez meses e 20 dias de reclusão, por homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver. 31 de outubro de 2003 - Passo Fundo Vítima: Leonardo Dornelles dos Santos, 8 anos. O menino era morador da Vila Santa Marta, onde costumava frequentar um fliperama. Jogando videogame conheceu Adriano da Silva, que passou a tarde pagando fichas de jogos para alguns meninos. Naquele dia, foi atraído pelo criminoso até um mato, onde foi asfixiado e morto. A ossada foi encontrada no dia 17 de dezembro daquele ano. Condenação: pelo crime, Adriano da Silva foi condenado a 21 anos e oito meses de reclusão. 03 de janeiro de 2004 - Sananduva Vítima: Daniel Bernardi Lourenço, 14 anos. O menino era vendedor de picolés e foi atraído por Adriano da Silva com uma encomenda de R$ 29 em sorvetes para uma suposta festa. Chegando ao local combinado, foi espancado e violentado sexualmente. O corpo foi localizado no dia do crime, o que deflagrou uma caçada ao então foragido Adriano da Silva, preso três dias depois escondido em um matagal em Maximiliano de Almeida. A perícia comprovou, dias depois, que o sêmen encontrado nas roupas de Daniel era de Adriano. Condenação: Adriano da Silva foi condenado a 24 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado. Mais 23 anos na cadeia Mesmo com a anulação do julgamento no caso Volnei, Adriano da Silva já soma mais de 185 anos de condenação por outros oito assassinatos, entre eles um latrocínio, cometido no Paraná em 2001. Isso obriga que ele cumpra a pena máxima estipulada pela legislação brasileira, que é de 30 anos de detenção em regime fechado, já reduzida a progressão de pena de um sexto do tempo a que o réu tem direito. Como já cumpriu sete anos, poderá ser liberado daqui a 23 anos. Contudo, de acordo com a análise de juristas entrevistados por O Nacional, Adriano nunca voltará ao convívio da sociedade, já que deverá ser transferido para algum instituto psiquiátrico assim que cumprir a pena na prisão. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 19 20 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 21 A foto mostra Jorge com bastante cabelo, mas conforme relatos, na época em que ele aterrorizava Passo Fundo, o criminoso não era cabeludo. O porte físico pequeno escondia a maldade do bandido O bandido que transformou a cidade na ‘Chicago dos Pampas’ “Mais uma vítima da quadrilha de Jorge Cabeludo”: manchetes como essa eram estampadas nas capas do jornal O Nacional na década de 1970. A quadrilha do Jorge Cabeludo formada por jovens criminosos aterrorizou a cidade e o Estado. As ações violentas da gangue deram a Passo Fundo a fama de Chicago dos Pampas J 22 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 orge Cabeludo era um jovem de aproximadamente 18 anos, baixinho, branco, com um pouco mais de um 1,60m e ao contrário do que diziam não era cabeludo. Atrás do pequeno porte físico do rapaz existia um espírito perverso que não titubeava em matar. Ele era o líder da maior quadrilha que Passo Fundo e região conheceram na década de 1970. A gangue era formada por outros comparsas famosos, como Jorge Borracha, Jorge Tripa, Arroz, Rasga Diabo e Ringo. Para relembrar esta história vamos contar com a ajuda de um radialista e colunista policial de ON por muitos anos, que noticiava as façanhas da quadrilha na época e que conseguiu uma entrevista com ele no próprio covil do bandido: Júlio Rosa. Por Natália Fávero Perfil da quadrilha Os fatos que envolvem a quadrilha de Jorge Cabeludo ocorreram há 30 anos, em Passo Fundo, cidades da região e na Serra Gaúcha. Carazinho, Fontoura Xavier, Soledade, Vacaria, Lagoa Vermelha e Caxias do Sul foram os principais alvos da quadrilha, que se diferenciava das demais gangues da época. Geralmente, os grupos eram formados por homens de meia-idade. Os comparsas de Jorge Cabeludo eram jovens, chamados de pivetes pela polícia e comunidade, porque tinham entre 15 e 18 anos. Apesar de serem “meninos”, tinham os mesmos, ou até piores, objetivos que outras “A quadrilha do Jorge Cabeludo foi a mais famosa, perigosa e com maior número de mortes em Passo Fundo” Julio Rosa quadrilhas: furtar, assaltar, estuprar e matar. As gangues disputavam o poder e se espalhavam pelos bairros da cidade, Vila Luiza, Annes, Operária, Santa Marta e Entre Rios. Era um tempo em que havia liderança nos grupos. O chefe tinha a fidelidade dos comparsas. As quadrilhas eram formadas por oito ou dez integrantes, mas quando se juntavam para “trabalhar”, o grupo aumentava. Na época não havia drogas pesadas, um pouco de maconha, xaropes e umas ampolas do Uruguai. “Maconheiro na época era celebridade no meio dos viciados. Hoje em dia, ele é visto pelas pessoas do meio como um cara totalmente sem graça”, disse Júlio Rosa. A quadrilha de Jorge Cabeludo cometia muitos latrocínios. Eles matavam para roubar sem pensar duas vezes. Na época, os casais namoravam na frente de casa ou dentro dos carros. Essas eram presas fáceis para as quadrilhas. “Não existiam motéis naquela época e as gangues se aproveitavam dessas vítimas. A moça era geralmente estuprada e o rapaz era morto ou largado a pé em alguma localidade vizinha”, relembra Julio Rosa. As mortes eram cruéis Entre as várias ações, uma marcou e definiu a quadrilha como sendo a mais perversa da época. A morte de dois tradicionalistas, que foram competir carreiras, próximo a Carazinho, é considerada por Júlio Rosa um dos maiores crimes cometidos pela quadrilha, por serem duas pessoas bastante conhe- cidas na cidade. O nome dos carreiristas não é lembrado pelo radialista, mas a história nunca saiu de sua mente. Rosa contou que certa noite, os tradicionalistas estavam voltando de uma competição em um Fusca, quando um dos pneus furou. Os dois desceram do carro e a quadrilha, que estava de prontidão naquele trecho, apareceu para oferecer ajuda. Os integrantes do grupo liderado por Jorge Cabeludo trocaram o pneu. Quando terminaram o serviço, um dos carreiristas teve a infeliz sorte de reconhecer a quadrilha. Nesse momento, os tradicionalistas foram alvejados com diversos tiros pela gangue. “A quadrilha do Jorge Cabeludo foi a mais famosa, perigosa e com maior número de mortes em Passo Fundo”, afirmou Júlio Rosa. “Você olhava pra ele e achava uma figura insignificante, mas contra a polícia e suas vítimas ele era perverso e sem medo. Os comparsas o obedeciam de olhos fechados.” Hábil motorista: Jorge Borracha Toda a quadrilha precisa ter um bom motorista para tirar os comparsas da mira dos inimigos ou fugir da polícia. A quadrilha do Jorge Cabeludo tinha esse motorista: Jorge Borracha. Em uma noite boêmia, Jorge e sua turma estavam em uma casa noturna chamada Bicão, “Com os pés, ele [Jorge Borracha] controlava a direção e com as mãos comandava os pedais, de cabeça para baixo. Uma ré impressionante e suicida que tirou a quadrilha de lá”, relembrou o radialista que ficava em uma rua sem saída, atrás da rodoviária, próximo à ponte sobre o rio Passo Fundo. Naquele dia, a região da boate foi cercada pela polícia militar, que desejava intensamente pegar a famosa gangue de pivetes. Quando a quadrilha percebeu a ação da Brigada Militar, Jorge Borracha colocou os parceiros dentro do carro “lata dura”. Jorge Borracha saiu de ré até a Avenida Brasil. O detalhe estava no modo como dirigiu. “Com os pés ele controlava a direção e com as mãos ele comandava os pedais, pois estava de cabeça para baixo. Uma ré impressionante e suicida que tirou a quadrilha de lá”, relembrou o radialista. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 23 Passo Fundo: Chicago dos Pampas A quadrilha do Jorge Cabeludo era tão perigosa que as pessoas tinham medo de vir para Passo Fundo. As façanhas do grupo eram conhecidas em todo o Estado. “Jorge Cabeludo apavora a Serra Gaúcha” e “Mais uma Vítima de Jorge Cabeludo” eram manchetes constantes nos principais jornais. A imagem da cidade era de violência. “A quadrilha foi responsável por muito dos apelidos dados ao município na época: “Passo Fundo: Chicago dos Pampas” e “Passo Fundo, capital do mundo”, explicou Júlio Rosa. A forma que as façanhas de Jorge Cabeludo eram noticiadas Júlio Rosa contou que as ações da quadrilha eram noticiadas todos os dias nos jornais e nas emissoras de rádio da cidade. No rádio, o comunicador usava uma tática. “Eu tinha de noticiar, mas temia que eles não gostassem e viessem se vingar. Então, procurava um ponto da quadrilha digno de um elogio. Eles gostavam de ser elogiados”, revelou o comunicador. Antes de dar a notícia nua e crua, Júlio Rosa usava argumentos dizendo que a quadrilha era organizada e agia em modos de gangues internacionais. Isso aliviava o receio do radialista. O radialista Júlio Rosa é uma das pessoas que mais conhece a história da quadrilha. As ações dos integrantes da gangue eram noticiadas diariamente por ele na década de 1970 Jorge Borracha virou motorista de Júlio Rosa Jorge Borracha foi preso um tempo depois e pegou cerca de cem anos de prisão, mais do que o próprio Jorge Cabeludo. Júlio Rosa conhece muitas dessas histórias, porque quando Jorge Borracha ganhou liberdade provisória, o radialista deu uma carta de recomendação para o ex-bandido ser o seu motorista e segurança. Inclusive, Borracha foi o responsável por ensinar alguns dos filhos do comunicador a dirigir. “Jorge Borracha nunca mais cometeu crimes. Ele me dava as informações e me relatou mui- 24 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 to desses fatos que estou contando agora”, disse Rosa. Em uma época, Borracha teve de voltar ao Presídio de Santo Ângelo e surpreendeu o juiz por ter pena mais extensa do que o próprio chefe da quadrilha. Rosa contou que o hábil motorista gostava muito de levar a fama pela morte das vítimas, mas, na verdade, ele só dirigia o carro nas fugas. “Durante os interrogatórios, ele sempre dizia que havia matado, mas muitos dos crimes não foi ele quem cometeu. Borracha gostava de se achar o cara e assumia os crimes”, revelou. que já tinha rodado em um programa de rádio uma entrevista gravada com outro bandido da época. “Eu sempre tive medo, mas a gente é blindado pela coragem para conseguir uma reportagem”, disse o comunicador. Destino dos integrantes da quadrilha Muito pouco se sabe sobre o destino dos integrantes da quadrilha. Júlio Rosa contou que em uma das ações do grupo, em um restaurante na rodovia que leva a Porto Alegre, a quadrilha foi atacada com pedaços de madeira e pedras por um grupo de pessoas. Segundo relatos, a gangue estava jogando snooker quando foi reconhecida. Alguns integrantes teriam sido mortos e outros preNo covil do bandido sos, mas Jorge Cabeludo conseguiu escapar Júlio Rosa conseguiu uma entrevista ex- e foi preso um tempo depois em uma operaclusiva com Jorge Cabeludo em seu escon- ção comandada pelo delegado Almeida, no derijo, na Vila Anesconderijo, na Vila nes. O argumento “Não teve outra quadrilha mais Annes. utilizado pelo comuSegundo Júlio perversa, mais cruel e com nicador para conseRosa, Borracha estaguir a entrevista foi va cumprindo pena maior número de façanhas que outros bandidos no Presídio de Passo e que mais propagou Passo estavam se aproveiFundo e Arroz teria tando da fama de Fundo negativamente no Brasil sido morto em uma Jorge Cabeludo para do presídio de como a de Jorge Cabeludo”, fuga cometer delitos. O Charqueadas. Uma finalizou Júlio Rosa. maior criminoso da reportagem publiépoca aceitou concecada em 1992, por der a entrevista. O Nacional, diz que Júlio Rosa agendou um horário com o Jorge Cabeludo teria sido morto em 1991, bandido e foi até seu covil com um grava- por vingança, depois de ter tentado estuprar dor. Gravar uma entrevista para transmitir a mulher do homem que o matou. Cabeluposteriormente era uma coisa rara na épo- do estava em liberdade condicional quando ca. “Quando rodaram a entrevista do Jorge foi morto no Loteamento Dom Rodolfo. Cabeludo na rádio em que eu trabalhava, a Antes de morrer, estava debilitado e com polícia cercou a empresa e achou que o ban- tuberculose. As últimas notícias publicadas dido estava lá dentro”, contou Rosa. informavam que Rasga Diabo estava em dia O comunicador disse que não fez nada de com a Justiça e Ringo teria se tornado um novo, apenas tinha copiado a tática de gra- cidadão honesto e chefe de família em Porvação usada pelo jornalista Argeu Santarém, to Alegre. Matéria de ON de 1992 reproduz as ações da quadrilha de Jorge Cabeludo Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 25 A noite dos sonhos impressa nas páginas do O Nacional D esde meados dos anos 1950, quando os bailes de debutantes do clube Comercial eram conhecidos como “Baile do Perfume”, houve sempre a cobertura especial do Jornal O Nacional. Dos seus preparativos até a grande noite, notícias sobre as meninas a serem apresentadas para sociedade eram repassadas para os leitores, criando um clima de expectativa ainda maior e fazendo com que elas se sentissem realmente a atração principal daquela noite onde seriam apresentadas para a sociedade. Os bailes não acontecem mais com a freqüência de tempos atrás, pois debutar deixou de ser desejo dos pais e das próprias meninas. Mas quando eles aconteciam, a cobertura de ON era parte do ritual de passagem que caracterizava a grande noite de cada uma das garotas. Por Juliana Scchneider e Natália Arend 26 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Um grupo de amigas está reunido. Enquanto a dona da casa prepara o jantar, as outras mulheres abrem um bom vinho, dão risadas, falam da vida, dos novos projetos, da carreira, dos filhos, dos maridos. Até aí tudo normal para amigas que se conheceram ainda na adolescência, mas o que deixa a história desse grupo mais interessante é a circunstância em que boa parte delas se encontrou pela primeira vez. O grupo se reuniu em março de 1974, quando começava os preparativos para o Baile de Debutantes do Clube Comercial. Durante aquele ano, foram feitos vários encontros que antecediam o baile, que naquela época significava passe livre para que as meninas pudessem passar a freqüentar outras festas promovidas na cidade, depois de serem oficialmente apresentadas a sociedade. Os preparativos para o baile envolviam a aula de etiqueta em que uma professora especializada ficava encarregada de ensinar Debs de 1974: um dos maiores grupos de debutantes que a sociedade passo-fundense já viu o grupo de meninas como se comportar em festas e ocasiões formais. Depois acontecia o coquetel que era uma grande festa onde cada debutante podia reunir amigos e namorados na boate do clube. O Chá das Debutantes era o momento em que cada uma das meninas apresentava a sua madrinha, que a acompanhava nos momentos que antecediam o baile. O retiro espiritual era a última etapa antes do debut. Durante o final de semana a turma de debutantes de 1974 que tinha cerca de 75 meninas, aproveitou os dois dias na Casa de Retiros para fazer muita bagunça e novas amizades. O baile de debutantes daquele ano aconteceu no dia 21 de setembro de 1974. Nos dias que antecediam o evento, o jornal O Nacional publicava em suas páginas fotos das debutantes e pequenos perfis de cada uma. Esse momento mexia com os ânimos das garotas que se preparavam para ter sua foto publicada em ON. Na noite do debut, um número recorde de 75 meninas foi apresentada à sociedade Passo-fundense, em um baile que se repetiu no Clube Comercial e no Clube Caixeral. Depois da tão esperada noite, cada uma das meninas seguiu a sua vida, freqüentando outras festas, namorando, revendo as ami- As debutantes de 1974 nas páginas de O Nacional Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 27 O grupo de debutantes de 74 durante o retiro espiritual. zades que foram feitas entre as debutantes, construindo carreiras e famílias, como conta a debutante de 1974, a empresária Silvia Benincá. Em 2004, trinta anos depois do baile o grupo de debutantes resolveu se reen- contrar, e assim nasceram as “Debs 74”. Os encontros são periódicos e o objetivo é cultivar a amizade, relembrar os bons tempos quando os clubes de Passo Fundo ficavam lotados de meninas cheias de expectativas para essa nova fase da vida. Silvia Benincá debutante de 1974 “Foi um período maravilhoso! Assim eu defino o ano de 1974, quando debutei. Naquele tempo debutar era mais simples. Claro que nos preocupávamos com o vestido, afinal era o nosso dia, queríamos estar lindas, mas era só. O que queríamos mesmo era nos divertir. Engraçado! Não me lembro do “debut” como uma coisa cafona, fora de época. Ainda hoje seria muito bom. Realmente me diverti muito, ri e chorei muito, dancei muito e, principalmente, fiz grandes amigas que mantenho até hoje. E para mim esta é a grande herança daquele momento: minhas amigas, as Debs 74.” Sílvia Benincá, empresária, debutou no Clube Comercial em 1974. 28 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 29 Entrevista Momento de Estrela Segundo Fernanda Viacelli Falcão, debutante de 1995, o jornal sempre esteve presente nos principais momentos que antecediam o grande evento, além disso, ela disse em entrevista para ON, que todas elas tinham seus momentos de “estrela” no jornal. ON - Por que você optou por debutar? Fernanda - Na época em que debutei os preparativos e a emoção do momento eram grandiosos, assim como acredito que continue sendo para todas as meninas que ainda participam deste evento. Havia uma grande expectativa, não apenas da parte pessoal, mas também por parte de familiares e amigos de sermos apresentadas à sociedade. Era um momento único, no qual não poderia deixar passar. Uma viagem, opção de muitas meninas hoje, poderia ser feita futuramente, mas os 15 anos não voltariam mais. ON - Sua geração foi uma das últimas a presenciar o glamour de um baile de debutantes, como foi para você? Fernanda - O envolvimento começava meses antes, desde a escolha do vestido, as festas, a escolha da madrinha, jantares, os ensaios para o baile, enfim, Fernanda Falcão nas páginas do jornal recebendo um presente de sua mãe e com o grupo de debutantes de 1995 30 - Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 todos os preparativos para a grande noite. Ficávamos ansiosas, mas ao mesmo tempo realizadas. Era a fase das descobertas. Muitas amizades foram feitas e permanecem até hoje. Foi um momento único do qual nunca esquecerei, onde as lembranças estão guardadas na mente e no coração. ON - Como era a cobertura do O Nacional na época em que você debutou? Fernanda - O Jornal O Nacional sem- pre se fez presente nos principais momentos. Todas as debutantes tinham seu momento de “estrela” no jornal. Eram fotos, entrevistas, filmagens que ficarão guardadas sempre. O envolvimento das pessoas que faziam as coberturas dos eventos era intenso. O Jornal O Nacional fez parte do sonho de todas as debutantes e continua a fazer parte da história de Passo Fundo de forma cada vez mais brilhante. Sábado e domingo, 19 e 20 de junho de 2010 - 31