O Caso da empresa Pele Nova Biotecnologia: a Membrana de Látex - Produto Inovador Descoberto pelo Grupo de Pesquisa de Bioquímica da Faculdade de Medicina da USP/RP Autoria: Flávia Oliveira do Prado, Dalton Siqueira Pitta Marques, Simone Vasconcelos Ribeiro Galina A tecnologia é um elemento essencial para a competitividade das empresas, em especial considerando-se o elevado grau de integração mundial dos mercados. Embora o Brasil possua bons indicadores de produção científica, estes não se refletem em produção tecnológica. A transferência de tecnologia é parte integrante da cooperação empresauniversidade que adquire grande importância na transformação do ambiente tecnológico nacional. Dado este contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar o processo de transferência de tecnologia entre o Departamento de Bioquímica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e a empresa Pele Nova Biotecnologia, no caso da membrana de látex. O estudo trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo exploratória, tendo como método o estudo de caso. As conclusões do estudo reafirmam a importância da criação de mecanismos que facilitem a interface entre instituições de pesquisa e empresas e vislumbra novas possibilidades resultantes da Lei de Inovação (Lei Federal nº 10.973/04) regulamentada pelo decreto nº 5.563/05. 1 1 INTRODUÇÃO A globalização tem provocado inúmeras mudanças no cenário mundial e, conseqüentemente, na forma de atuar das empresas. Com o aumento da competitividade e o desenvolvimento da tecnologia da informação, as empresas precisam se adequar a esse cenário imposto pelo mercado, ampliando a sua capacidade de inovação e incorporação de novos conhecimentos, seja a partir de fontes internas ou externas. Nesse contexto, a cooperação entre universidade e institutos de pesquisa e empresas torna-se uma necessidade vital para facilitar a transferência de conhecimento e a melhoria das capacitações tecnológicas nacionais, proporcionando benefícios para ambas as instituições. O presente trabalho aborda o caso da membrana de látex da Faculdade de Medicina da USP/RP, cuja pesquisa gerou um produto que deu origem à empresa Pele Nova – BioCure. Este caso é emblemático, uma vez que a inovação não só se tornou um novo produto, como motivou a criação de uma nova empresa. Além do mais, os desdobramentos que possam surgir desta transferência já refletem as mudanças ocorridas no relacionamento empresauniversidade, em virtude da Lei de Inovação (Lei Federal nº 10.973/04) regulamentada pelo decreto nº 5.563/05. Assim, este estudo pretende analisar o processo de transferência de tecnologia do grupo de pesquisa de Bioquímica da Faculdade de Medicina da USP/RP para a empresa Pele Nova; identificar como aconteceu a aproximação entre o grupo de pesquisa e a empresa; como a questão das patentes foi tratada neste caso; verificar a possibilidade de manter a parceria e desenvolver novos projetos; e identificar a opinião do dirigente do grupo de pesquisa da Bioquímica sobre o relacionamento empresa-universidade. O artigo foi estruturado de modo a atender aos objetivos acima listados. Primeiramente, são discutidos os referenciais teóricos que suportam as análises realizadas. A seguir, é apresentada a metodologia utilizada. Posteriormente, o caso é analisado, por meio de informações coletadas junto ao grupo de pesquisa e em sites da empresa e da Agência USP de Inovação. Por fim, são apresentadas as conclusões do estudo. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Cooperação Empresa/ Universidade/Instituto de Pesquisa A expressão empresa-universidade envolve uma diversidade de atores, conforme já foi tratado por Plonski (1998). A empresa pode ser desde uma organização transnacional até uma microempresa. O termo universidade pode se referir tanto a uma universidade, uma entidade associada ou conveniada a uma instituição ou mesmo um docente que presta consultoria em sua área. As interações estabelecidas entre esses atores também assumem dimensões diferentes. A cooperação pode ser bilateral ou multilateral, pode ser pontual ou constituir-se em parceria estratégica de longo prazo, e pode também envolver ou não recursos materiais ou financeiros. O surgimento do paradigma da universidade-empresa é explicado pelo modelo da “hélice tripla”, descrito por Etzkowitz e Leydesdorff apud Etzkowitz et al. (2000). Este modelo estuda a interação universidade e empresa em função de abordagens diferentes, combinando conhecimentos da sociologia e da economia em relação ao tema, em razão da ocorrência de mudanças profundas tanto na forma de produzir ciência como na incorporação do conhecimento à produção de bens e serviços. 2 Segundo Schugurensky e Naidorf (2004), nestas últimas décadas as universidades foram pressionadas pelos governos para estabelecerem vínculos mais fortes com a empresa e buscarem fontes alternativas de financiamento. Nos anos de 1980, o modelo tradicional, existente desde o século XIX, que assumia a forma de uma educação cooperativa, foi substituído por um novo modelo, mais profundo e global, caracterizado pela intensificação da transferência de tecnologia das universidades para a empresa e a comercialização do trabalho acadêmico. Os autores ressaltam que: Desde então, mais pesquisadores começaram a transferir seus resultados para empresas industriais, e novos escritórios foram construídos nos campi universitários para fortalecer os vínculos entre empresas e universidades como transferência de tecnologia, gerenciamento de contratos, patenteamentos e licenciamentos, desenvolvimento internacional e cooperação industrial (Schugurensky; Naidorf, 2004, p. 1001). Schugurensky e Naidorf (2004) analisaram a cultura acadêmica na parceria empresauniversidade, em um estudo comparativo com acadêmicos do Canadá e da Argentina. Segundo os autores, nos anos de 1980 não havia uma crença firme de que uma relação universidade-empresa mais estreita fosse realmente uma ameaça para o trabalho acadêmico. No fim dos anos de 1990, porém, as mudanças na cultura acadêmica já eram perceptíveis. Enquanto anteriormente a grande maioria acreditava que relações mais fortes com a empresa fossem improváveis, temporárias ou indesejadas, já naquele momento mais pesquisadores começavam a mudar de idéia e aceitavam o novo papel da universidade como inevitável permanente e até desejável. Bicalho-Moreira e Ferreira (2000) destacam que a interação universidade-empresa é crucial para a sobrevivência e eficiência de ambas as instituições bem como para o desenvolvimento tecnológico do país. As autoras sugerem repensar a questão sobre a participação da universidade no desenvolvimento econômico e social, que deve considerar dois tipos de indicadores: os de produção tecnológica e os de contribuição ao desenvolvimento tecnológico, referentes aos projetos desenvolvidos em interação com empresas. Os indicadores de produção tecnológica (acadêmicos) são: convênios firmados com o setor empresarial; número de pessoas envolvidas (docentes e discentes); patentes concedidas; número de patentes obtidas; produtos desenvolvidos; produtos lançados no mercado; processos desenvolvidos; produção bibliográfica; orientações de alunos em andamento; orientações de alunos concluídas; participações em eventos; bolsas concedidas; recursos captados; melhorias efetuadas. Os indicadores de contribuição ao desenvolvimento tecnológico (empresariais) são: número de produtos lançados no mercado; número de desenvolvimento de processos, lucro ou economia obtidos com produtos lançados ou processos desenvolvidos; evolução do faturamento; número de pessoas treinadas na empresa; número de horas de treinamento efetuado na empresa; números da empresa formados pela interação; evolução do número de projetos conjuntos estabelecidos com universidades ou centros de pesquisa; evolução de projetos estabelecidos com outras empresas; evolução da infra-estrutura de pesquisa e desenvolvimento da empresa; evolução do contingente de pessoal de P&D da empresa e evolução do investimento em P&D da empresa (BicalhoMoreira; Ferreira, 2000). Segundo pesquisa realizada por Segatto-Mendes e Sbragia (2002), as principais motivações, para as universidades, na cooperação com empresas, são os recursos financeiros e materiais adicionais, a realização da função social da universidade, o prestígio que será obtido pelo pesquisador, a divulgação da imagem da universidade, a obtenção de conhecimentos práticos sobre os problemas existentes e a incorporação de novas informações aos processos de ensino e pesquisa. Para as empresas, as principais motivações encontradas foram: acesso a 3 recursos humanos altamente qualificados, redução dos custos e/ou riscos envolvidos nos projetos de pesquisa e desenvolvimento, acesso aos mais novos conhecimentos desenvolvidos no meio acadêmico, identificação de alunos da instituição para recrutamento futuro e resolução dos problemas técnicos que geraram a necessidade da pesquisa em cooperação. As principais barreiras à cooperação levantadas no mesmo estudo foram: burocracia universitária, longa duração dos projetos e diferenças do nível de conhecimento entre pessoas da universidade e da empresa. Como facilitador da cooperação, obteve destaque o item relativo aos fundos governamentais de apoio à pesquisa. Porto (2000) destaca a gestão profissional dos projetos, a competência da universidade e a disponibilidade de tempo por parte da empresa para acompanhar os projetos de cooperação como pré-requisitos para o desenvolvimento de projetos de cooperação, dentre outros fatores que discriminam a atitude dos decisores mais predispostos a buscar a cooperação. Segundo Vedovello (1998) a interação pode ser afetada em razão de diferenças consideráveis na natureza e nos objetivos das atividades, tanto das empresas como das universidades. As diferenças são agrupadas nas seguintes categorias: nas variáveis organizacionais e culturais que envolvem as instituições, e em particular na falta de combinação entre elas; nas características que envolvem as empresas e as indústrias, como as atividades de P&D e o tamanho do setor produtivo; no tempo necessário para atingir o grau de maturidade das tecnologias e na distância geográfica que separa as instituições envolvidas. Segatto e Sbragia (1996) identificam três estágios no processo contínuo que envolve a cooperação: num primeiro momento ocorre a disposição em cooperar, sinalizada por encontros entre as partes; no segundo estágio ocorre a troca de dados, propostas e idéias, porém com poucos resultados obtidos; no terceiro estágio ocorre a cooperação efetiva. Santoro e Gopalahrishnan (2000) destacam que na cooperação é necessário institucionalizar o conhecimento, envolvendo a rotinização das atividades de aquisição do conhecimento, e permitindo assim um fluxo contínuo durante todo tempo. O processo de troca e de aquisição depende largamente do contexto interno da organização, como também da filosofia, da estrutura organizacional e de sua cultura. 2.2 Transferência de Tecnologia A transferência de tecnologia, quando realizada entre universidades e empresas não deixa de ser parte do processo de cooperação, embora seja mais restrita do que este último. Segundo Fernandes (1998, p. 97), a transferência de tecnologia representa a transmissão de conhecimento de um grupo ou indivíduo para outro. Ela pode ocorrer de acordo com os seguintes caminhos: de uma universidade para uma empresa; de um departamento para outro dentro da mesma empresa; de uma empresa para outra; entre agentes do mesmo ou de diferentes países; etc. A tecnologia é um elemento essencial para garantir a vantagem competitiva das empresas no longo prazo, em um processo que se aprofunda quando se insere a empresa no contexto globalizado, com concorrência acirrada na disputa pelos mercados. Embora a empresa nem sempre seja capaz de gerar a tecnologia de que necessita com recursos próprios, a constante dependência de fontes externas pode implicar numa fragilidade da sua posição competitiva (Hemais; Barros e Rosa, 2004, p. 242). Segundo Leonard-Barton (1998), mesmo as empresas com grande capacidade interna de pesquisa precisam buscar fontes externas complementares de tecnologia. A atividade de importação do saber na empresa começa pela identificação de deficiências nas aptidões estratégicas, isto é, no saber tecnológico que é estrategicamente importante, mas que não é familiar à empresa. Essas deficiências podem surgir por muitas razões: de uma deliberada política empresarial de redução da pesquisa interna; de avanços ou descontinuidades 4 consideráveis numa dada tecnologia; ou de oportunidade de fusão de tecnologias recémidentificadas. As fontes de tecnologia para suprir tais deficiências podem ser as universidades, os centros de pesquisa ou outras empresas. Hemais, Barros e Rosa (2004) estudaram como as empresas brasileiras de polímeros mantêm sua competitividade tecnológica, analisando, também, as principais formas de transferência de tecnologia, para tentar avaliar o grau de dependência tecnológica na área. O Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) divide os contratos de transferência de tecnologia segundo quatro categorias: fornecimento de tecnologia; exploração de patentes; serviços de assistência técnica; e outros (que incluem, por exemplo, rateios de pesquisa). Os autores encontraram que 53% dos contratos averbados no INPI, entre 1985 e 2001, referem-se a fornecimento de tecnologia e aproximadamente 35% a serviços de assistência técnica. Apenas 9% são relativos à exploração de patentes. A principal conclusão do trabalho foi que a indústria brasileira de polímeros dependia fortemente da importação de tecnologia para manter sua competitividade no mercado, uma vez que elas firmavam contratos de fornecimento de tecnologia ao invés de manter programas de P&D voltados para essa finalidade. Segundo Hemais, Barros e Rosa (2004), embora no Brasil o acesso das empresas à tecnologia ocorra, em sua maioria, através de contratos de fornecimento de tecnologia, que são formas mais rápidas de acesso, isso não significa que a tecnologia seja absorvida. Geralmente, o fornecedor da tecnologia é um sócio e impõem restrições a futuros desenvolvimentos tecnológicos com base na tecnologia cedida. Segundo Takahashi e Sacomano (2002), a aquisição de conhecimentos tecnológicos externos tem se tornado uma prática comum também nas empresas farmacêuticas, como um modo de obter acesso à enorme variedade de tecnologias, que nenhuma empresa consegue dominar sozinha e é necessária para desenvolver e lançar novos medicamentos no curto prazo. De acordo com Leonard-Barton (1995, apud Takahashi; Sacomano, 2002), o principal objetivo das empresas ao adquirirem conhecimento tecnológico externo é melhorar sua capacidade tecnológica. Se esse objetivo for alcançado, significa que a tecnologia transferida externamente foi bem-sucedida (Takahashi; Sacomano, 2002, p. 182). Entretanto, estudos mostram que nem sempre a aquisição de tecnologias externas é bem-sucedida. A transferência de tecnologia é uma atividade complexa, cujo sucesso depende de uma série de fatores (Takahashi; Sacomano, 2002). Os autores criaram o modelo conceitual apresentado na Figura 1 para analisar o sucesso de projetos de transferência de tecnologia. 5 Figura 1: Modelo Conceitual Fonte: Takahashi; Sacomano, 2002, p. 186 Takahashi e Sacomano (2002) encontraram evidências de que parte da diferença da habilidade em desenvolver capacidade tecnológica está associada à diferença no nível da capacidade de absorção. Níveis mais altos de capacidade de absorção indicam que a empresa busca não somente ser detentora da habilidade de assimilar conhecimentos, mas também de criá-los. Os casos mostraram que quanto maior for o grau da atividade de assessoria em estágios complexos da produção de medicamento maior será a habilidade de a empresa recebedora da tecnologia desenvolver capacidade tecnológica. 2.3 Patentes Conforme já citado, o licenciamento de patentes é uma forma de transferência de tecnologia. De acordo com Fernandes (1998, p. 105), as inovações advindas de pesquisas universitárias raramente são produtos comercializáveis. São idéias que exigem grandes investimentos financeiros para se transformarem em inovações tecnológicas que possam ser aproveitadas pela indústria. Andreassi et al. (2000) analisaram a correlação entre despesas em inovação na indústria e a obtenção de patentes. Os resultados mostraram que há uma correlação positiva e significativa entre essas duas variáveis. Segundo Fernandes (1998), o fato de alguns resultados de pesquisas precisarem ser protegidos por meio de patentes geralmente representa uma área de tensão entre universidades e empresas, devido à falta de entendimento transparente com relação às premissas de interação entre as entidades. Para evitar atritos, “no contrato de transferência de tecnologia com a universidade, a empresa deve negociar os direitos de uso de qualquer patente básica que a universidade detenha, relacionada com a tecnologia do trabalho de pesquisa que está sendo contratado”. Os tipos de propriedade intelectual existentes são, basicamente: patentes, direitos autorais, registros, marcas registradas e segredo comercial. A patente, segundo Fernandes (1998, p. 80), concede ao proprietário da invenção o direito temporário de uso, com exclusão de todos os demais, e é aplicável a invenções ou modelos de utilidade, de aplicação industrial. 6 2.4 Lei de Inovação Segundo Matias-Pereira e Kruglianskas (2004) e Brito Cruz (2000), o Brasil consegue produzir ciência de fronteira, porém não consegue interagir em um nível adequado com o setor produtivo, de modo a transformar ciência em desenvolvimento de tecnologia. Isso faz com que os produtos das empresas brasileiras se tornem pouco competitivos, tanto no mercado nacional quanto no mercado externo, quando comparados a concorrentes internacionais. Uma das maneiras de solucionar este descompasso é criar instrumentos regulares da relação entre o setor produtivo e o científico-tecnológico. Matias-Pereira e Kruglianskas (2004) analisaram a importância da construção de um arcabouço legal que contribua para uma maior integração entre o desenvolvimento científico e tecnológico e a produção da inovação, tendo como referência para tal a Lei da Inovação (Lei Federal nº 10.973/2004). A referida lei “tem como objetivo criar um ambiente propício para aumentar o envolvimento das empresas no desenvolvimento de projetos inovadores que levem a gerar novos produtos e processos”, buscando uma elevação do nível de parcerias entre empresas, universidades e institutos científicos e tecnológicos para que ganhem força e estimulem o processo de inovação. Entre as disposições normativas da Lei de Inovação, tem-se o incentivo à interação entre entidades de pesquisa e a iniciativa privada, com destaque para a viabilização de empresas emergentes, por meio do processo de incubação. A Lei de Inovação está orientada também para a criação de estímulos para a participação das entidades públicas de pesquisa no processo de inovação, definindo normas que permitam a transferência e o licenciamento de tecnologia das universidades e institutos de pesquisa públicos do país para o setor produtivo nacional. “Ao colocar a inovação como foco principal, a Lei de Inovação tecnológica reconhece que não basta para um país fazer tão-só C&T e P&D. É preciso transformá-los em novos produtos e processos ou melhorar o que já existe para que os produtos finais sejam desejados pelos mercados nacional e internacional” (Matias-Pereira; Kruglianskas, 2004). Matias-Pereira e Krugliankas (2004) concluíram, em seu estudo, que a Lei de Inovação surge como mais um instrumento para facilitar a criação de uma cultura de inovação no país. Entretanto, apenas a sua aprovação não é suficiente para mudar a realidade científica e tecnológica do país. É preciso um maior envolvimento e compromisso dos atores envolvidos. Além do mais, algumas questões, como a falta de flexibilidade de gestão das instituições de pesquisa, não foram tratadas na lei. É necessário, também, gerar estímulos para as empresas criarem departamentos específicos de P&D e não dependerem apenas da aquisição de tecnologia dos institutos de pesquisa e universidades. 2.5 Agência USP de Inovação Em um contexto marcado pela intensificação da dinâmica tecnológica em vários setores e pela Lei de Inovação que incentiva a interação entre entidades de pesquisa e a iniciativa privada foi criada a Agência USP de Inovação, em fevereiro de 2005. O seu objetivo é promover de forma institucionalizada um maior esforço para transformar o conhecimento científico e técnico da universidade em inovações e, portanto, promover o desenvolvimento econômico e social. Foi uma importante decisão da USP, já que, com a criação deste canal de comunicação, a universidade tornará mais acessível a sua competência científica e tecnológica a fim de aumentar a competitividade das empresas brasileiras, que tenha por prioridade a inovação de seus produtos e processos. 7 Segundo a Agência USP de Inovação (2006), a sua missão é promover a utilização do conhecimento científico, tecnológico e cultural produzido na USP em prol do desenvolvimento sócio-econômico do Estado de São Paulo e do país. A Agência USP de Inovação tem ainda como objetivos identificar, apoiar, promover, estimular e implementar parcerias com o setor empresarial, governamental e não governamental na busca de resultados para a sociedade. Além disso, compete à Agência USP de Inovação apoiar os pesquisadores no registro de patentes, marcas e software; orientar a comunidade USP na elaboração de contratos e convênios, bem como no processo de licenciamento de patentes; apoiar no processo de transferência de tecnologia e na negociação com o setor privado, buscar oportunidades de cooperação, promover a cultura da inovação no âmbito da universidade e estimular a adequação das estruturas normativas para assegurar que os interesses da USP e dos pesquisadores sejam efetivamente protegidos. 3 METODOLOGIA O artigo consiste em uma pesquisa qualitativa do tipo exploratória. A pesquisa qualitativa, conforme Silva e Menezes (2001, p. 20), tem como focos principais o processo e seu significado. Neste estudo, a pesquisa tem caráter exploratório, uma vez que ela visa proporcionar maior familiaridade com o problema, de modo a torná-lo explícito e construir hipóteses para pesquisas futuras (Gil, 1991). Do ponto de vista do procedimento, o artigo utiliza o método do estudo de caso. De acordo com Yin (2001, p. 28), o estudo de caso é adequado para responder perguntas do tipo “como” e “por que” sobre um conjunto contemporâneo de acontecimentos sobre o qual os pesquisadores têm pouco ou nenhum controle. Conforme descrito por Schramm (1971, apud, Yin, 2001, p. 31), a essência de um estudo de caso é tentar esclarecer uma decisão ou um conjunto de decisões, o motivo pelo qual foram tomadas, como foram implementadas e com quais resultados. Ainda segundo Yin (2001, p. 32), o estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão bem definidos (Yin, 2001, p. 32). Assim, foi realizada uma entrevista em profundidade, semi-estruturada, com o professor responsável pelo projeto, pertencente ao departamento de Bioquímica da Faculdade de Medicina da USP/RP, em julho de 2005, a fim de conhecer o caso da membrana de Látex, bem como o processo de transferência de tecnologia e cooperação empresa/universidade. Outras informações foram obtidas no site da empresa e da Agência USP de Inovação. 4 TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA ENTRE UNIVERSIDADE E EMPRESA: O CASO DA MEMBRANA DE LÁTEX E A EMPRESA PELE NOVA A membrana de látex foi desenvolvida na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo, no departamento de Bioquímica e Imunologia, pelo prof. Dr. Joaquim Coutinho Neto e Drª Fátima Mrué. Essa membrana possui resultados muito eficazes na cicatrização de úlceras crônicas e na reconstituição de esôfagos e tímpanos perfurados, segundo o prof. Coutinho e Ereno (2003). Além disso, por ser proveniente do látex, matériaprima abundante no país, possui um custo bem inferior comparado com os produtos que possuem propriedades similares de grandes empresas farmacêuticas multinacionais. 8 4.1 Trajetória da Pesquisa: Da construção de Próteses à descoberta do curativo Em 1994, a médica Fátima Mrué, aluna de mestrado até então, foi ao laboratório do Prof. Coutinho pedir ajuda para construir uma prótese para constituição de esôfago que ela havia visto no Japão. Essa prótese era constituída de silicone e colágeno. Mas, por problemas técnicos, eles não conseguiram que os dois materiais se unissem. O prof. Coutinho teve a idéia de fazer a prótese com o látex da seringueira. Eles encontraram na região de São José do Rio Preto a empresa Globor, que fabricou as próteses de acordo com um molde passado pelos médicos. As próteses foram implantadas no esôfago de oito cães. Depois de dez dias, os animais evacuaram as próteses e os pesquisadores ficaram surpresos com o fato de nenhum animal ter morrido, motivando, assim, a realização de uma endoscopia para verificar o que havia acontecido. Eles descobriram que o esôfago tinha sido reconstituído, mostrando uma neoformação tecidual. Assim, eles verificaram que o látex possuía uma propriedade angiogênica (referente à formação de novos vasos sanguíneos). Foi uma descoberta casual, já que esse não era o objeto de pesquisa, de uma propriedade importante do látex, que poderia ser útil na cicatrização de feridas. Essa descoberta só foi possível, pois a biomembrana não foi obtida pelo processo de vulcanização, com temperaturas de 110° C a 120°C, e sim com temperaturas menores, fazendo com que a propriedade angiogênica fosse preservada. Assim, foram realizados diversos testes em animais a fim de comprovar essa propriedade. O segundo passo foi a elaboração de um projeto e o envio à Comissão de Ética do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, para autorizar estudos sobre a cicatrização de feridas e úlceras crônicas em humanos. Os resultados das pesquisas tanto em humanos quanto em animais comprovaram a propriedade angiogênica do látex. 4.2 Cooperação entre o grupo de Bioquímica e Imunologia da FMRP e a empresa Pele Nova A descoberta começou a ser divulgada em vários congressos de medicina, sendo inclusive vinculada em programas de televisão de abrangência nacional. Assim, o expresidente da Embraer, Ozires Silva, presidente de uma ONG, chamada Academia Brasileira de Estudos Avançados, procurou o prof. Coutinho interessado na descoberta. Esta academia tem como objetivo realizar a ponte entre cientistas e os investidores a fim de mostrar produtos com potencial inovador a empresários e captar recursos necessários para levar adiante os projetos e/ou montar uma empresa. Assim, foi promovido um encontro entre médicos que trabalhavam com feridas e oncologia, empresários e o responsável pelo projeto. O prof. Coutinho apresentou a pesquisa aos empresários e estes decidiram, após realização de estudos de viabilidade econômica e de mercado, abrir a empresa Pele Nova Biotecnologia, para comercializar a biomembrana. A unidade industrial da empresa Pele Nova Biotecnologia foi instalada em Campo Grande (MS) e a unidade administrativa em São Paulo. Para viabilizar a produção da membrana, a empresa precisava dos conhecimentos do grupo de pesquisa. O processo de transferência de tecnologia foi realizado por meio de um intercâmbio de informações entre os investidores e os pesquisadores, testes para a confecção dos curativos no laboratório da FMRP, visitas de membros da empresa para conhecer a pesquisa e a rotina do laboratório e treinamentos. Como a Pele Nova iria comercializar o curativo, ela adquiriu da Globor a patente da substância química (composta por enxofre, dióxido de zinco e tanol) misturada ao látex para a produção da membrana. Segundo o entrevistado, a descoberta realizada pelo grupo de 9 pesquisa do departamento de bioquímica da FMRP não é patenteável, pois o que foi descoberto foi apenas uma nova utilidade para o látex: a sua propriedade angiogênica. O pedido de patente referente a essa proteína foi registrado, em 2002, e será objeto de estudo para desenvolvimentos de pesquisas para a produção de medicamentos com a substância angiogênica. 4.3 Planos Futuros de Cooperação, a Lei de Inovação e a Agência USP de Inovação Segundo o site da Pele Nova (2005), a empresa tem como estratégia empresarial “investir intensamente em pesquisas e desenvolvimento, explorando caminhos para contribuir com o sucesso do investimento”. Refletindo esta missão, segundo o entrevistado, a empresa possui intenção de ampliar a cooperação com o grupo de pesquisa da FMRP. Segundo o entrevistado, com a aprovação da lei de inovação, a questão do licenciamento de patentes sofreu alterações. Anteriormente havia necessidade de se ter um processo licitatório. Com a lei de inovação, a universidade publica um edital para a comunidade dizendo que possui determinado pedido/patente e que está procurando parceiros para realizar a transferência. A empresa que apresentar a melhor oferta pagará royalties à universidade. Segundo a Agência USP de Inovação (2006), quando a USP é a única titular, o Inventor (ou inventores) terá direito a 50% das rendas provenientes de patentes e os outros 50% serão divididos conforme Interpretação da Consultoria Jurídica (40,5% para o Departamento(s) do(s) Docente(s), 4,5% para Unidade (s) e 5,0% para Reitoria). Como se pode observar, uma grande parte da porcentagem que cabe à USP é destinada para o (s) departamento (s) que gerou a patente a fim de fomentar novas pesquisas. Segundo o entrevistado, esse é um mundo novo para todos os pesquisadores, em que muitas barreiras deverão ser quebradas, principalmente com relação à questão das patentes, já que muitos pesquisadores são reativos e têm preconceito contra a comercialização de tecnologias por parte da universidade e são contra o envolvimento de seus pesquisadores com o mercado. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS, SUGESTÕES E LIMITAÇÕES O caso da membrana de látex pode ser considerado um exemplo de transferência de tecnologia, por ter possibilitado a criação de um novo produto, conforme Takahashi e Sacomano (2002). Ele também pode ser considerado parte de um processo de cooperação, de acordo com definição de Fernandes (1998). Cabe ressaltar que as informações apresentadas limitam-se àquelas coletadas a partir da entrevista com o pesquisador da Universidade e no site da empresa e da Agência USP de Inovação. Esse caso enfatiza a importância da interface entre a universidade e a empresa. No estudo, essa aproximação foi realizada por meio de uma organização não-governamental (Academia Brasileira de Estudos Avançados), que propiciou o encontro entre o cientista e os empresários, dando oportunidade de se realizar discussões e transformar uma inovação em um produto comercializável. Deste modo, atingiram-se os objetivos de ambos. De um lado, a empresa pôde ser constituída. De outro, a universidade cumpriu seu papel social, pois, além de gerar o conhecimento, também possibilitou a criação de um produto de uso médico com menor custo do que os produtos importados e a criação de uma empresa que gera empregos e divisas para o país. Iniciativas, como esta de aproximação, devem ser estimuladas 10 continuamente a fim de que os resultados de pesquisas nas universidades possam se tornar produtos comercializáveis. Para tanto, observa-se que a Lei de Inovação, instrumento que veio harmonizar a base legal do sistema nacional de inovação, veio facilitar as parcerias entre a empresa e a universidade, como mencionado pelo pesquisador entrevistado. A lei ainda estimula a criação de Agências de Inovação que poderão entre outros objetivos fomentar as parcerias entre universidade/ empresa e auxiliar os docentes em todo o processo de licenciamento e transferência de tecnologia. Espera-se que na USP, a Agência USP de Inovação, consiga promover essas parcerias e a cultura de inovação dentro da universidade. Vale citar, ainda, que o processo de desenvolvimento da membrana de látex não foi realizado, inicialmente, com o objetivo de gerar um novo produto. O incremento da cooperação e transferência de tecnologia entre universidade e empresa, portanto, depende de uma maior estruturação deste processo e mecanismos que facilitem essa aproximação, como, por exemplo, elaboração de contratos e convênios de forma ágil e encontros entre pesquisadores e a iniciativa privada, para que novos casos sejam bem sucedidos. Entretanto, algumas barreiras terão que ser superadas, como, por exemplo, a resistência de muitos cientistas para patentear suas descobertas e se relacionar com o mercado e a flexibilização das normas da universidade para que seja possível estabelecer parcerias entre a universidade e a iniciativa privada em um tempo hábil. Isto é ainda mais importante neste contexto se considerarmos que os empresários não possuem como objetivo realizar a pesquisa e sim desenvolver novos produtos e/ou processos, como ilustrado no caso da biomembrana e da criação da empresa PELE NOVA BIOTECNOLOGIA. Para estudos futuros, os autores ressaltam a importância de realizar outros estudos que aprofundem a questão da transferência de tecnologia entre universidades e empresas, de modo que sejam investigadas as questões segundo a ótica de pesquisadores, empresários e universidades; avaliando o impacto da Lei de Inovação nas pesquisas desta natureza. 6 REFERÊNCIAS AGÊNCIA USP DE INOVAÇÃO. Transferência de Tecnologia. Disponível em www.inovacao.usp.br. Acesso em 30 março 2006. ALVIM, P. C. R. C. Cooperação universidade-empresa: da intenção à realidade. In: Universidade Interação Empresa. Brasília. IBICIT, 1998. p. 99-124. ANDREASSI; Tales; ALBUQUERQUE, Eduardo da M.; MACEDO, Paulo B. R.; SBRAGIA, Roberto. Relação entre inovação tecnológica e patentes: o caso brasileiro. RAUSP - Revista de Administração, v. 35, 1, p. 63-71, 2000. BICALHO-MOREIRA, Lucinéia Maria; FERREIRA, Marta Araújo Tavares. Inovação Tecnológica na Universidade: Representação nos indicadores de ciência e tecnologia. 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