i UM ESTUDO DE CASOS SOBRE A APLICAÇÃO DE PRINCÍPIOS ENXUTOS EM SERVIÇOS DE SAÚDE NO BRASIL Augusto Castejón Lattaro Silberstein Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto COPPEAD de Administração Mestrado em Administração Orientador: Kleber Fossati Figueiredo Rio de Janeiro 2006 ii UM ESTUDO DE CASOS SOBRE A APLICAÇÃO DE PRINCÍPIOS ENXUTOS EM SERVIÇOS DE SAÚDE NO BRASIL AUGUSTO CASTEJÓN LATTARO SILBERSTEIN Dissertação submetida ao corpo docente do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências (M.Sc.). Aprovada por: ___________________________________________________ Prof. Kleber Fossati Figueiredo, Ph. D. COPPEAD/UFRJ – Presidente da Banca ___________________________________________________ Profª. Cláudia Affonso Silva Araújo, Ph. D. COPPEAD/UFRJ ___________________________________________________ Prof. Octavio Fernandes da Silva Filho, D. Sc. FIOCRUZ RIO DE JANEIRO 2006 iii Silberstein, Augusto Castejón Lattaro Um estudo de casos sobre a aplicação de princípios enxutos em serviços de saúde no Brasil / Augusto Castejón Lattaro Silberstein. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPEAD, 2006. xiii; 161f: il. Orientador: Kleber Fossati Figueiredo Dissertação (mestrado) – UFRJ/ COPPEAD/ Programa de Pós-graduação em Administração, 2006. Referências Bibliográficas: f. 152-161 1. Princípios enxutos. 2. Gestão de serviços de saúde. I. Figueiredo, Kleber F. (Orient.). II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto COPPEAD de Administração. III. Título iv “Zeit ist Leben und das Leben liegt im Herzen*.” Michael Ende * Tempo é vida e a vida reside no coração. v To mom and dad for whom my love spans from the sky to the fireplace. vi AGRADECIMENTOS Após me debruçar sobre este tema fascinante saio com a convicção do potencial que a mentalidade enxuta possui de contribuir positivamente em todos os processos que compõem as operações. A aplicação dos princípios enxutos, no entanto, não abarca tudo. Muitíssimas pessoas possibilitaram a realização desta pesquisa e não pretendo ser enxuto nos agradecimentos. Em primeiro lugar, agradeço a Deus que torna a vida uma aventura absolutamente apaixonante e a meus pais sempre na torcida a quem dedico este trabalho. Agradeço ao Prof. Kleber pela presteza com que respondia as minhas dúvidas e inquietações, pela sinceridade de apontar os aspectos positivos e negativos do trabalho durante seu desenvolvimento, pelos conselhos e indicações que viabilizaram sua conclusão. Sua dinâmica de orientação constituiu o principal ponto de aprendizado nestes anos de mestrado. Um agradecimento especial cabe à Profª. Cláudia Araújo pela sua presença na Banca examinadora e pelos seus valiosos comentários ao trabalho apresentado. Sou imensamente grato ao Dr. Octávio não só pelo esforço necessário para comparecer à banca e pelos seus comentários instigantes e provocadores (durante a defesa e depois por escrito!) como também pelo acolhimento na nossa primeira conversa e pelas as indicações que foram fundamentais para o desenvolvimento do trabalho. Quero expressar minha gratidão ao Dr. Cláudio Nunes, a Ana Butter Nunes, a Patrícia Prates e ao Dr. José Marcos Badim pela calorosa recepção, pela paciência em ouvir o tema em estudo e por terem facilitado a escolha dos casos. Sem a valiosíssima contribuição de Dr. Jackson Caiafa, Dr. André Volschan, Helaine Miranda, Marcelo Dibo, Fabiana Barini, Alex de Sá e Carlos Inácio este trabalho não existiria. Quero agradecer o tempo que me dedicaram nas entrevistas e dizer que o entusiasmo de cada um pelo seu trabalho é extremamente contagiante. Aprendi muitíssimo de cada um. vii Sou muitíssimo grato à Dra. Cláudia Telles pelo interesse tanto no tema da pesquisa quanto na sua viabilização e à Cristiane Cabral pelos dados fornecidos. O corpo docente do Instituto COPPEAD de Administração é conhecido pela excelência. Sou imensamente agradecido a todos os professores. Além dos professores, os colegas de mestrado ajudaram a tornar este tempo de aprendizagem particularmente gratificante. Considero-me privilegiado por fazer parte desta turma e agradeço a cada um. Sou extremamente agradecido à Cida e à Simone que sabem acolher tão bem os novos alunos e cuja eficiência e apoio foram totais durante todo o período do mestrado. Agradeço ao amigo Herbert Missaka pela apresentação de textos interessantíssimos que serviram de espinha dorsal para a tese bem como pelo olhar clínico capaz de detectar inúmeros erros na minha versão “já final” do trabalho. Os erros que permaneceram são de minha total responsabilidade. Também agradeço aos amigos Leonardo Barbosa Soares e Ricardo Miyashita pelos estímulos e dicas de quem tem a autoridade da experiência. Devo gratidão ao Christian Orglmeister e ao Renato Nishimura por ouvirem com o entusiasmo próprio de amigos a evolução dos trabalhos e facilitarem o acesso a pessoas importantes na discussão dos temas da pesquisa. Quero manifestar gratidão aos colegas e amigos Mário Sozzi (que me introduziu ao mundo lean), Newton Santana, Celso Sapienza, Carlos Eduardo Almeida e Mateus França. Formamos uma equipe de trabalho inesquecível na qual começamos a explorar o conceito lean. Agradeço também ao Maurício Rio pelo incentivo em estudar os processos nas organizações. Este trabalho pode ser considerado uma seqüência dos nossos anos de trabalho em conjunto. Agradeço ao amigo Carlos Bremer pelo apoio e indicações de especialistas no assunto. Sou grato ao Douglas Tacla e à Mayuli Fonseca, fornecedora dos textos que deram um ponta-pé inicial ao trabalho. Agradeço, por fim, ao CAPES pelo apoio concedido. viii RESUMO SILBERSTEIN, Augusto Castejón Lattaro. Um estudo de casos sobre a aplicação de princípios enxutos em serviços de saúde no Brasil. Orientador: Kleber Fossati Figueiredo. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPEAD, 2006. Dissertação (Mestrado em Administração). O pensamento enxuto pode ser considerado um novo paradigma industrial ao sintetizar a eficiência da produção em massa e a flexibilidade da produção artesanal. Operações enxutas têm apresentado resultados superiores tanto em termos de qualidade como de eficiência, dois indicadores de desempenho tradicionalmente considerados em conflito. O dilema entre qualidade e eficiência também se encontra no contexto dos serviços e é uma questão particularmente sensível nos serviços de saúde. O presente estudo analisa o potencial de contribuição do pensamento enxuto para superar o conflito entre qualidade e eficiência nos serviços de saúde. Através da análise de cinco serviços de saúde brasileiros, o estudo pretende verificar como os princípios enxutos se aplicam nestes serviços, em que medida esses princípios estão presentes e quais as adaptações necessárias dadas as especificidades do setor. Os processos e os serviços de saúde estudados são: a atenção integral ao paciente diabético do Projeto do Pé Diabético, o diagnóstico e atendimento de emergência no Hospital Pró-Cardíaco, a recepção no Hospital Dr. Badim, suprimentos no Hospital Copa D´Or, a logística de suporte da Diagnósticos da América. O estudo conclui que a aplicação dos princípios enxutos nos serviços de saúde é possível, exige algumas adaptações, admite diversos graus e tem potencial para contribuir na solução dos conflitos entre qualidade e eficiência. A aproximação da linguagem médica com a linguagem de processos é necessária para a expansão da mentalidade enxuta neste setor. O estudo sugere a existência de sinergias interessantes entre a medicina baseada em evidências e a mentalidade enxuta para a promoção de uma prática médica de qualidade e uma gestão eficiente de processos. ix ABSTRACT SILBERSTEIN, Augusto Castejón Lattaro. Um estudo de casos sobre a aplicação de princípios enxutos em serviços de saúde no Brasil. Orientador: Kleber Fossati Figueiredo. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPEAD, 2006. Dissertação (Mestrado em Administração). Lean thinking can be considered a new industrial paradigm because it synthesizes the efficiency of traditional mass production and the flexibility of craft production. Lean operations have brought forth superior results in both quality and efficiency measures, two performance indicators traditionally considered to be in conflict. The dilemma between targeting quality versus efficiency is also present in the service sector and is a particularly sensitive issue in health care. The present study analyzes the potential contribution of lean thinking to the solution of this dilemma in health care. Through the analysis of five Brazilian health care organizations, this study intends to verify how lean principles apply to these services, in what extent these principles are present and to what degree these principles need modifications due to uniqueness of the health sector. The following processes and organizations compose the study: end-to-end care of a diabetic patient at the Projeto do Pé Diabético, diagnosis and emergency service at the Hospital Pró-Cardíaco, the reception process (first front-line employee contact) at the Hospital Dr. Badim, supply at the Hospital Copa D´Or and support logistics at Diagnósticos da América. The study concludes that applying lean principles in health care is possible, requires some modifications, admits different degrees of incorporation and has potential to contribute to the solution of the conflict between quality and efficiency. A greater approximation between the medical language and the process management language is necessary to deepen the application of lean principles in health care. The study suggests the existence of interesting synergies between evidence-based medicine and lean thinking which may enable further advances in the integration of a high quality clinical practice and an efficient process management in health care. x SUMÁRIO 1 Introdução....................................................................................................... 1 1.1 O problema ............................................................................................... 1 1.2 Objetivo..................................................................................................... 3 1.3 A relevância do assunto............................................................................ 4 1.3.1 A contribuição do pensamento enxuto nas operações ...................... 4 1.3.2 O apelo da abordagem enxuta aos stakeholders dos serviços de saúde ................................................................................................. 5 1.4 Delimitações ............................................................................................. 7 1.5 Organização do Estudo............................................................................. 8 1.6 Contexto de Estudo................................................................................... 8 2 Revisão de literatura .................................................................................... 14 2.1 2.2 2.3 O conceito lean ....................................................................................... 14 Evolução da aplicação do conceito lean ................................................. 17 Princípios lean ........................................................................................ 23 2.3.1 Princípios da provisão enxuta .......................................................... 24 2.3.1.1 Reduzir os trade-offs de desempenho...................................... 24 2.3.1.2 Eliminar as atividades que não agregam valor ......................... 25 2.3.1.3 Estabelecer fluxo contínuo, puxado pelo cliente....................... 25 2.3.1.4 Envolvimento do cliente ............................................................ 26 2.3.1.5 Delegar poder aos empregados ............................................... 27 2.3.2 Princípios do consumo enxuto ......................................................... 27 2.3.2.1 Resolver o problema do cliente completamente ....................... 28 2.3.2.2 Não desperdiçar o tempo do cliente ......................................... 32 2.3.2.3 Oferecer exatamente aquilo que o cliente quer ........................ 34 2.3.2.4 Oferecer o que o cliente quer exatamente onde ele quer ......... 37 2.3.2.5 Oferecer o que o cliente quer onde ele quer exatamente ............ quando ele quer........................................................................ 39 2.3.2.6 Agregar continuamente soluções para reduzir tempo e aborrecimento do cliente........................................................... 41 2.3.3 2.4 Conjugando os princípios da provisão e do consumo enxutos ........ 42 Princípios Enxutos aplicados à saúde..................................................... 45 2.4.1 Princípios da provisão enxuta .......................................................... 47 2.4.1.1 Reduzir os trade-offs de desempenho...................................... 47 2.4.1.2 Eliminar as atividades que não agregam valor ......................... 49 2.4.1.3 Estabelecer fluxo contínuo, puxado pelo cliente....................... 52 xi 2.4.1.4 2.4.1.5 Envolvimento do paciente......................................................... 54 Delegar poder aos empregados ............................................... 55 2.4.2 Princípios do consumo enxuto ......................................................... 56 2.4.2.1 Resolver o problema do paciente completamente.................... 57 2.4.2.2 Não desperdiçar o tempo do paciente ...................................... 60 2.4.2.3 Oferecer exatamente aquilo que o paciente quer ..................... 65 2.4.2.4 Oferecer o que o paciente quer exatamente onde ele quer...... 69 2.4.2.5 Oferecer o que o paciente quer onde ele quer exatamente quando ele quer........................................................................ 69 2.4.2.6 Agregar continuamente soluções para reduzir tempo e aborrecimento do paciente ....................................................... 70 3 2.5 Medicina baseada em evidências ........................................................... 70 2.6 Quadro Conceitual .................................................................................. 74 Metodologia .................................................................................................. 77 3.1 3.2 3.3 3.4 4 Tipo de pesquisa..................................................................................... 77 Seleção dos casos .................................................................................. 78 Coleta e tratamento dos dados ............................................................... 79 Limitações do Método ............................................................................. 80 Descrição dos Casos ................................................................................... 81 4.1 Pólo do Pé Diabético............................................................................... 81 4.1.1 Diabetes........................................................................................... 81 4.1.2 Gênese do Pólo do Pé Diabético ..................................................... 82 4.1.3 O projeto do Pé Diabético................................................................ 83 4.1.4 Educação continuada ...................................................................... 87 4.1.5 Capacitação do pessoal de atendimento ......................................... 88 4.1.6 Próximos passos.............................................................................. 88 4.2 Atendimento de emergência no Pró-Cardíaco ........................................ 90 4.2.1 Introdução ........................................................................................ 90 4.2.2 Decisões sob risco........................................................................... 90 4.2.3 Excelência no atendimento.............................................................. 91 4.2.4 A lógica do diagnóstico baseado em evidências ............................. 93 4.2.5 O protocolo de atendimento de dor torácica .................................... 96 4.2.6 Melhoria Contínua.......................................................................... 100 4.3 O processo de atendimento no Hospital Dr. Badim .............................. 102 4.3.1 Introdução ...................................................................................... 102 4.3.2 Atendimento no Hospital Dr. Badim ............................................... 103 4.3.3 Problemas no processo de atendimento........................................ 105 4.3.4 Solução adotada ............................................................................ 107 xii 4.3.5 Fluxo do consumo e provisão de uma cirurgia eletiva ................... 109 4.4 Suprimentos no Copa D´Or................................................................... 114 4.4.1 Introdução ...................................................................................... 114 4.4.2 Pressão pela redução de custos.................................................... 114 4.4.3 Consignação .................................................................................. 115 4.4.4 Projeto de Dispensário Eletrônico.................................................. 117 4.4.5 Melhoria contínua na farmácia....................................................... 118 4.5 A logística de suporte da Diagnósticos da América .............................. 121 4.5.1 Introdução ...................................................................................... 121 4.5.2 Valores da empresa....................................................................... 121 4.5.3 Estratégia de marcas da DA .......................................................... 122 4.5.4 O papel da logística ....................................................................... 123 4.5.5 Coleta Domiciliar............................................................................ 125 5 Análise dos Casos ..................................................................................... 127 5.1 Princípios da provisão enxuta ............................................................... 127 5.1.1 Reduzir os trade-offs de desempenho ........................................... 127 5.1.2 Eliminar as atividades que não agregam valor .............................. 128 5.1.3 Estabelecer fluxo contínuo, puxado pelo cliente ............................ 130 5.1.4 Envolvimento do cliente ................................................................. 131 5.1.5 Delegar poder aos empregados..................................................... 132 5.2 Princípios do consumo enxuto .............................................................. 133 5.2.1 Resolver o problema do cliente completamente ............................ 133 5.2.2 Não desperdiçar o tempo do cliente .............................................. 135 5.2.3 Oferecer exatamente aquilo que o cliente quer ............................. 137 5.2.4 Oferecer o que o cliente quer exatamente onde ele quer .............. 139 5.2.5 Oferecer o que o cliente quer onde ele quer exatamente ................... quando ele quer ............................................................................. 140 5.2.6 Agregar continuamente soluções para reduzir tempo ......................... e aborrecimento do cliente............................................................. 141 6 Conclusões e Recomendações ................................................................ 143 6.1 6.2 7 Conclusões ........................................................................................... 144 Recomendações ................................................................................... 150 Referências Bibliográficas ........................................................................ 152 Índice de Quadros ....................................................................................... xiii xiii ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1-1: Gasto per capita com saúde pública ................................................ 11 Quadro 1-2: Gasto público com saúde e expectativa de vida .............................. 12 Quadro 2-1: Etapas do processo de consumo ..................................................... 29 Quadro 2-2: Interdependência dos Princípios Lean ............................................. 44 Quadro 2-3: Serviços de saúde citados para ilustrar os princípios enxutos ......... 46 Quadro 2-4: Melhoria de Eficiência no Virgínia Mason Medical Center ............... 48 Quadro 2-5: Fonte de desperdício nos serviços de saúde ................................... 49 Quadro 2-6: Plano estratégico do Virginia Mason ................................................ 55 Quadro 2-7: Iniciativas para implementar o "acesso-livre" ................................... 61 Quadro 2-8: Suprimentos convencionais e suprimentos enxutos......................... 67 Quadro 2-9: Paralelo - Med. Baseada em Evidências e a Mentalidade Lean ...... 72 Quadro 3-1: Casos selecionados ......................................................................... 79 Quadro 4-1: Evolução dos índices de amputação alta ......................................... 87 Quadro 4-2: Nomograma de Fagan ..................................................................... 95 Quadro 4-3: Protocolo de Dor Torácica do Hospital Pró-Cardíaco....................... 99 Quadro 4-4: Cirurgia eletiva antes do redesenho dos processos....................... 110 Quadro 4-5: Cirurgia eletiva depois do redesenho dos processos ..................... 112 Quadro 4-6: Portfólio de marcas da Diagnósticos da América ........................... 123 Quadro 5-1: Processo de consumo para o tratamento do diabetes ................... 134 1 1 Introdução 1.1 O problema Como pólos iguais de dois ímãs se repelem, assim parecem se comportar os termos eficiência e serviços de saúde. As ineficiências nos cuidados da saúde se manifestam de diversos modos e evidenciam que suas operações, via de regra, não estão estruturadas para pôr o paciente em primeiro lugar. A situação do setor de saúde no Brasil tem sido descrita como caótica1 ou calamitosa2. Os problemas que denotam a falta de eficiência deste setor têm freqüentado as manchetes dos jornais: • Longas filas de espera: “Paciente morre na fila de um posto de saúde”; “Até um ano de espera” (O Globo, 3/05/2005) • Aumento desnecessário de exames: “A epidemia dos exames médicos” (O Globo, 9/05/2005) • Má distribuição de responsabilidades entre gestores: “O abismo e sua beira” (O Globo 28/10/05) • Má gestão da capacidade: “Menos leitos nos hospitais – Oferta de vagas do SUS no Estado cai 26% em dez anos, mas população cresce 12%” (O Globo, 29/10/05); “Maternidade sem uso se deteriora ao lado de outra superlotada” (O Globo, 23/11/05) • Dificuldades de acesso ao sistema de saúde: “A via-crúcis até o hospital”, reportagem premiada (O Globo, 29/10/05) • Ineficiência no controle de estoques: “Faltam materiais e medicamentos no Salgado Filho” (O Globo, 5/11/05), “Estoque zero na principal emergência do Rio” (O Globo, 22/10/05) 1 Costa, Célia e Engelbrecht, Daniel. Saúde novamente à beira do caos. O Globo, Rio de Janeiro, 26 out. 2005. 2 Sales, Eugenio. Situação Calamitosa. O Globo, Rio de Janeiro, 12 nov. 2005. 2 Segundo Araújo (2005), o setor de saúde no Brasil está marcado por custos crescentes na assistência juntamente com uma piora na qualidade dos serviços e restrições crescentes no acesso aos serviços de saúde. O aumento dos custos por si só não é negativo, uma vez que é desejável a incorporação de novas tecnologias que melhorem o diagnóstico e tratamento dos problemas de saúde. São as ineficiências denunciadas nas manchetes acima mencionadas e oriundas dos desperdícios na gestão dos serviços de saúde que constituem um problema. A ineficiência na saúde não é uma situação exclusivamente brasileira. Um levantamento feito pelo governo norte-americano identificou uma série de indícios de sub-uso, mau uso e uso em excesso dos serviços de saúde dos EUA para ilustrar tais ineficiências (DHHS, 1998). Sub-usos dos serviços: A sub-utilização dos serviços de saúde pode conduzir a complicações adicionais, custos de tratamento mais altos e mortes prematuras. Entre outros exemplos, o relatório cita que cerca de 80% dos pacientes com ataque cardíaco não receberam tratamento com beta-bloqueadores levando a cerca de 18.000 mortes desnecessárias; 60% dos diabéticos com mais de 31 anos não fizeram o exame óptico recomendado no ano anterior, 30% das mulheres entre 52 e 69 anos não tinham feito uma mamografia nos últimos 2 anos. Mau uso dos serviços: erros na utilização dos serviços de saúde levam a diagnósticos falhos ou tardios, maiores custos e mortes desnecessárias. Num estudo dos hospitais do estado de Nova Iorque o relatório aponta que um em cada 25 pacientes foram lesados pelo tratamento médico que receberam e que estas lesões redundaram em mortes em 13,6% dos casos. Utilização em excesso dos serviços: serviços desnecessários acrescentam custos em todo o sistema e também podem minar a saúde dos pacientes. Metade dos pacientes com uma gripe comum foram tratados desnecessariamente com antibióticos, o que anula a ação destes antibióticos em tratamentos futuros encarecendo-os. 16% das histerectomias3 realizadas nos EUA foram consideradas desnecessárias. 3 Histerectomia: remoção do útero 3 O IOM4 (2001) publicou um estudo sobre a qualidade dos serviços de saúde nos EUA afirmando que as tentativas de entregar as tecnologias disponíveis hoje com os atuais meios de produção médicos são, no campo da saúde, o equivalente a produzir microprocessadores numa fábrica de aspirador de pó. Afirma o estudo que “os custos de desperdício, baixa qualidade e ineficiência são enormes”. Os serviços de saúde, portanto, apresentam muitas fontes de ineficiência e problemas de qualidade que constituem um verdadeiro desafio para os promotores da saúde. Tais ineficiências têm chamado a atenção dos meios de comunicação e requerem estudos para encontrar maneiras de superar estes problemas. 1.2 Objetivo Este estudo pretende verificar a possibilidade de inverter o ímã dos serviços de saúde para que seja atraído em direção ao ímã da eficiência. Há uma maneira de encarar as operações, nascida no ambiente industrial, que busca conciliar simultaneamente qualidade e eficiência. Trata-se da mentalidade enxuta da qual derivam uma série de princípios que norteiam as operações de uma organização. O objetivo deste estudo é o de analisar a aplicabilidade dos princípios enxutos no contexto dos serviços de saúde. Para isso, o estudo quer mostrar em que medida esses princípios estão presentes nestes serviços, entender a necessidade de adaptar os princípios levando em consideração as especificidades deste setor e analisar seu potencial de contribuição para melhorar o atendimento ao paciente em relação à qualidade e à eficiência. 4 O IOM (Institute of Medicine) é uma organização não-governamental dos EUA, associada ao National Academy of Sciences, formada por um grupo de notáveis que tem como missão fornecer análises científicas e sugestões de melhoria nos serviços de saúde. 4 1.3 A relevância do assunto A relevância do assunto pode ser auferida pela contribuição que a mentalidade enxuta tem dado às operações de inúmeras organizações nos mais variados setores e pelos benefícios potenciais desta abordagem aos diversos stakeholders dos serviços de saúde. 1.3.1 A contribuição do pensamento enxuto nas operações Para atingir os níveis de qualidade e de custos exigidos pelos consumidores, as empresas precisam olhar para suas operações, uma compilação de processos que geram valor para o cliente sob a forma de um produto ou serviço. Segundo Allway e Corbett (2002), é necessário olhar para as operações das empresas para fazer frente aos desafios do ambiente que se encontram presentes inclusive nos serviços de saúde: • expectativas crescentes do cliente. No caso da saúde, é o bem-estar e em última análise a vida do paciente que está em jogo. • pressão por aumentar o faturamento. Nos EUA, por exemplo, a Medicare reduziu os pagamentos aos hospitais em decorrência do Balanced Budget Act. No Brasil, o SUS tem preço tabelado para cada tipo de intervenção médica. • pressões competitivas. No setor de saúde, os centros especializados (centros cardiovasculares, centros de tratamento de câncer, etc.) apresentam uma vantagem em custo de 20% a 40% em relação aos centros não especializados. • custos crescentes. Os hospitais enfrentam a necessidade de incorporar novas tecnologias, comprar novos medicamentos que implicam custos crescentes. 5 Os princípios enxutos aplicados nas operações têm dado uma resposta mais que satisfatória a estes desafios de ambiente e têm introduzido, segundo Bowen e Youngdahl (1998), um novo paradigma industrial. Para Allway e Corbett (2002) a abordagem enxuta das operações tem trazido resultados lendários em termos de excelência operacional e lucratividade. Estes autores afirmam que na indústria automotiva e siderúrgica, as empresas enxutas extraem o dobro da produtividade do espaço, estoque e equipamentos do que as empresas tradicionais de produção em massa. Na indústria de computadores, empresas enxutas apresentam um crescimento de vendas e um retorno aos acionistas de 15 a 20 vezes superior que as empresas tradicionais. Em termos operacionais, as empresas enxutas contabilizam melhorias de 35% a 50% na produtividade da mão-de-obra, requerem quase metade do tempo de desenvolvimento de um produto (do conceito ao lançamento), baixam a um décimo a taxa de rejeição de produtos por defeito e têm um tempo de processamento de 80% a 90% mais eficiente. 1.3.2 O apelo da abordagem enxuta aos stakeholders dos serviços de saúde A abordagem enxuta busca analisar as operações e verificar o fluxo de atividades necessárias para atender o consumidor, identificando entre as atividades aquelas que efetivamente geram valor para o consumidor daquelas que não geram valor. Feita esta análise passa-se a questionar o porquê da existência das atividades que não geram valor e como estas podem ser eliminadas. Este procedimento sistemático e reiterativo aperfeiçoa continuamente as operações e pode trazer benefícios para todos os stakeholders envolvidos. A seguir apresentam-se os possíveis benefícios de uma abordagem enxuta para os diferentes stakeholders dos serviços de saúde. Os pacientes. Em primeiro lugar esta abordagem pode beneficiar o próprio paciente, que é a razão de ser de todo o sistema (Araújo, 2005). Fácil acesso ao médico, praticidade ao marcar uma consulta, tempos de espera reduzidos, atendimento mais rápido devido à eliminação do excesso de movimentação do 6 paciente e da duplicidade de exames pedidos podem ser alguns dos resultados de uma gestão enxuta dos serviços de saúde. Os profissionais da saúde. Um processo de atendimento que gera consumidores frustrados também gera insatisfação nos profissionais que os atendem. É uma reivindicação do pessoal da saúde um exercício de sua profissão mais rico, mais centrado e mais responsável (Latas e Robert, 2000). O tempo de um neurocirurgião, por exemplo, que não é empregado em cirurgia constitui um desperdício. O tempo do pessoal de saúde que não for empregado no atendimento dos pacientes, idem (as enfermeiras precisam cuidar dos pacientes e não do sistema). O esforço por eliminar estes desperdícios pode contribuir positivamente para o enriquecimento do trabalho destes profissionais. Os gestores dos hospitais. A diminuição do custo do desperdício aumenta a produtividade e a rentabilidade dos serviços hospitalares. Um dos dilemas da saúde é como fazer mais com os recursos disponíveis. O Brasil tem investido de 7% a 8% do PIB na saúde nos últimos anos. O gasto per capita em saúde tem aumentado. Mas este aumento tem um limite. Como atender à demanda pelos serviços de saúde dentro destes limites senão através da otimização dos serviços e eliminação destes desperdícios? Um hospital enxuto pode fazer mais com cada real gasto em saúde. Os planos de saúde. Os planos de saúde ganham dinheiro recusando-se a pagar por serviços ou restringindo aos assegurados o acesso a médicos e hospitais (Porter e Teisberg, 2004). Os hospitais entram num braço de ferro com os planos de saúde para que as despesas com os pacientes sejam pagas integralmente. Predomina uma desconfiança mútua entre os hospitais e os planos de saúde. Esta desconfiança gera custos que são desperdícios. Os planos de saúde precisam, por exemplo, contratar médicos como auditores para conferir as contas dos hospitais. Processos enxutos, mais transparentes, podem eliminar estes desperdícios. As empresas. Na maioria dos pacotes de benefícios oferecidos aos funcionários está contido um plano de saúde corporativo. Tais custos acabam corroendo as margens de lucro das empresas uma vez que a competição muitas 7 vezes determina o preço final do produto. Segundo uma estimativa do Deutsche Bank Securities, o custo de cuidados com a saúde por empregado da General Motors chegou a US$ 19,14 por hora em 2003, ao passo que a Toyota, recém instalada nos EUA, e com um quinto de empregados, tem um custo de US$ 3,76 por hora por empregado (Panchak, 2003). Não é à-toa que na GM há um forte movimento de disseminação de práticas enxutas aplicadas aos hospitais conveniados. A tentativa de redução destes custos sem afetar a qualidade do atendimento aos empregados é uma questão que envolve a própria competitividade das empresas. Vê-se que as conseqüências da aplicação de uma abordagem enxuta nos hospitais podem trazer um forte apelo a todos seus stakeholders. O que se propõe não é aplicar nos pacientes um conjunto de ferramentas e técnicas ótimas para a produção de veículos. Trata-se de analisar a aplicabilidade dos princípios enxutos nos serviços de saúde, levando-se em consideração as especificidades deste setor (Hines et al., 2004). Trata-se de avaliar a saúde sob o prisma do pensamento enxuto e verificar se esta abordagem é capaz de auxiliar a solução dos problemas comuns enfrentados na operação dos serviços de saúde. 1.4 Delimitações O problema da ineficiência do sistema de saúde brasileiro é complexo. Sua solução passará por uma coordenação multidisciplinar de esforços envolvendo inúmeras áreas. Sua solução passará pela mudança na forma de financiamento do sistema, regulamentação dos seguros de saúde, estabelecimento de um marco regulatório do setor para estimular a competição, profissionalização da gestão do sistema, melhor utilização de sistemas de informação para coordenar as diferentes esferas de atendimento, re-estruturação das operações dos serviços de saúde, entre outros. Este estudo ficará delimitado na questão das operações, isto é, como aumentar a eficiência e melhorar a qualidade através dos processos que suportam suas operações. 8 1.5 Organização do Estudo Este trabalho está estruturado em 6 capítulos. No primeiro, encontram-se o problema, o objetivo do estudo, sua relevância, suas delimitações e uma contextualização do estudo. O capítulo 2 é dedicado à revisão de literatura onde se apresenta o conceito lean utilizado, a evolução da aplicação do conceito em indústrias e em serviços, a descrição dos princípios enxutos e sua aplicação em serviços de saúde e uma breve descrição de um novo paradigma da prática clínica conhecido como medicina baseada em evidências. O capítulo 3 descreve a metodologia utilizada, o porquê da escolha da estratégia de estudo de caso, como os casos foram selecionados, como foram feitas a coleta e tratamento dos dados e as limitações do método. O capítulo 4 está dedicado à descrição dos casos. Cinco organizações foram escolhidas para compor o estudo: o Projeto do Pé Diabético (da Prefeitura do Rio de Janeiro), o Hospital Pró-Cardíaco, o Hospital Dr. Badim, o Hospital Copa D´Or e a Diagnósticos da América. O capítulo 5 analisa como cada um dos princípios enxutos descritos na revisão de literatura se aplicam a estes casos. O capítulo 6 apresenta as conclusões do trabalho e algumas recomendações para futuras pesquisas. 1.6 Contexto do Estudo Esta pesquisa se desenvolve num contexto de escassez de material bibliográfico: artigos, estudos de caso, livros. A difusão dos princípios enxutos oriundos da manufatura no contexto dos serviços é recente. O artigo de Bowen e Youngdahl (1998) pode ser considerado um marco ao defender a adoção destes princípios nos serviços. Dentre o amplo leque de serviços existentes, os serviços de saúde podem ser considerados como a próxima fronteira da expansão dos princípios enxutos. Embora o artigo de Bowen e Youngdahl (1998) traga um exemplo de um hospital com características enxutas, a preocupação por pensar de maneira estruturada e 9 sistemática as operações dos serviços de saúde começa a se consolidar em 2006. O Lean Enterprise Academy (LEA), uma organização sem fins lucrativos voltada para o estudo e a difusão da mentalidade enxuta, organizou em janeiro de 2006 o primeiro congresso sobre a aplicação de princípios lean em serviços de saúde (Lean Healthcare Fórum). Com este congresso abriu-se uma frente de pesquisa específica para este tema5 cujos resultados sairão a seu tempo. Dada a contemporaneidade do assunto, a dificuldade de se encontrar literatura voltada para a realidade brasileira se acentua ainda mais. O Lean Institute Brazil6 é uma das organizações pioneiras no estudo da mentalidade enxuta no Brasil. O pesquisador ao contatar este instituto foi encaminhado para o Lean Enterprise Academy (LEA). Há uma defasagem natural para os resultados das pesquisas do LEA chegarem ao Brasil. Enquanto isso, o desafio é encontrar iniciativas que incorporem elementos da mentalidade enxuta nas operações. Segundo Womack et al. (1992) a mentalidade enxuta reúne características da produção em massa e da produção artesanal, conseguindo conciliar a qualidade e flexibilidade desta com a eficiência e produtividade daquela. Qualidade e eficiência têm sido tradicionalmente considerados como indicadores de desempenho em conflito. Se pela escassez de material é difícil encontrar exemplos de como conciliar qualidade e eficiência nos serviços de saúde há estudos que tratam destes indicadores em separado. Estes estudos revelam o contexto dos sistemas de saúde e sua necessidade de melhorar ambos os indicadores simultaneamente tornando a utilização dos princípios enxutos uma alternativa atraente. No que diz respeito à qualidade dos serviços de saúde, Porter e Teisberg (2004) indicam alguns sintomas da falta de qualidade no sistema de saúde americano: a restrição a serviços médicos imposta pelo sistema, cuidados dispensados a pacientes não conformes com procedimentos e padrões aceitos, a lentidão na difusão de melhores práticas, a persistência de altas taxas de erros médicos evitáveis. 5 6 Fonte: http://www.leanuk.org/pages/lean_healthcare.htm Fonte: http://www.lean.org.br 10 Spear (2005) afirma que anualmente 185.000 pacientes americanos são prejudicados por erros médicos evitáveis e destes 7.000 chegam a morrer. No mesmo artigo, o autor cita um especialista em segurança nos serviços de saúde que compara o risco de se entrar num hospital americano com o de pular de páraquedas de um prédio ou de uma ponte. Considerando o setor de saúde no Brasil, Araújo (2005) afirma que dada a dinâmica das relações entre os players do setor, os pacientes acabam sofrendo da uma piora na qualidade dos serviços e uma crescente restrição de acesso aos serviços de saúde. Além dos problemas de qualidade nos serviços, a dinâmica das relações entre os players do setor afeta também a eficiência do sistema como um todo. Campos (2004) apresenta os potenciais conflitos de interesses entre os players do sistema de saúde. Eventos que representam custos para a operadora dos serviços de saúde representam receita para os prestadores de serviços de saúde. Eventos que representam custos para os beneficiários, isto é, as mensalidades do plano de saúde representam receita para as operadoras destes planos de saúde. Tais conflitos levam na visão de Porter e Teisberg (2004) a um jogo de soma zero e fomentam o pensamento individual em detrimento da eficiência do sistema como um todo. Wallace (2004) afirma que por mais diversificados que sejam os sistemas nacionais de saúde um aspecto os assemelha: o grosso dos cuidados com a saúde é pago por terceiros, sejam eles o governo ou as seguradoras privadas de saúde. O fato do beneficiário do sistema de saúde ser diferente do pagador tira a pressão pela eficiência nos gastos. Uma análise comparativa dos gastos em saúde entre diferentes países também permite uma avaliação da eficiência na utilização de recursos. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, o governo brasileiro gasta por ano US$ 280 per capita em saúde pública (World Health Report, 2005). Um relatório da FIRJAN7 (2006) compara o gasto com saúde das 60 maiores nações, observando 7 Série Quanto Custa? Nº 2/2005 – 03 de janeiro de 2006 11 que o Brasil ocupa a 35ª posição. Numa análise mais segmentada percebe-se que o Brasil gasta mais do que a média dos países da América Latina e mais do que a média dos países de renda média baixa, da qual o Brasil faz parte. Quadro 1-1: Gasto per capita com saúde pública País ou Países Valor em US$ * Brasil 280 Média dos países da América Latina 261 Média dos países de renda média 142 baixa Média mundial 806 * medido pelo conceito de paridade de poder de compra Fonte: FIRJAN (2006) Apesar de gastar mais, apresenta indicadores de saúde piores. O estudo da FIRJAN (2006) apresenta três indicadores de saúde para comparar a eficiência do gasto em saúde entre os países: mortalidade infantil, expectativa de vida, expectativa de vida vivida em condições de saúde plena. • Mortalidade infantil. Dos 25 países com gasto per capita inferior ao do Brasil, 60% deles (15 países) possuem uma taxa de mortalidade inferior à brasileira. • Expectativa de vida. Dos 25 países com gasto per capita inferior ao do Brasil, 50% deles (13 países) possuem uma expectativa de vida ao nascer superior à brasileira. A seguinte tabela apresenta dados sugestivos relacionando gasto público com saúde e expectativa de vida. 12 Quadro 1-2: Gasto público com saúde e expectativa de vida País Gasto Público com Expectativa de vida ao Saúde (US$) nascer (anos) Brasil 280 68,9 Tunísia 207 71,6 Peru 113 69,7 Vientã 43 69,9 Fonte: FIRJAN (2006) • Expectativa de vida em condições de plena saúde. No Brasil, 87% da expectativa de vida se dá em condições de saúde plena. A média da expectativa de vida em plenas condições de saúde para os 25 países com gasto per capita inferior ao do Brasil e de 88,2%. Algo semelhante ocorre com os EUA em comparação com os países desenvolvidos. Os EUA são o país que mais gasta em saúde. Segundo Ferraz (2005)8 os EUA investiram 15,3% do PIB em saúde no ano de 2004. Dados da OECD (2004) mostram que os EUA possuem uma expectativa de vida menor do que outros países desenvolvidos com gastos mais modestos9. Estes dados demonstram como o simples aumento de investimento em saúde não garante melhoria na qualidade do serviço prestado. Para Ferraz (2005), no contexto dos serviços de saúde no Brasil, “um aumento dos recursos para a saúde pode até não ser considerado um bom investimento, se levarmos em conta 8 Marcos Bosi Ferraz (Gazeta Mercantil, 6/07/05), Professor da Unifesp e vice-presidente do Conselho de Administração do Fleury-Medicina Diagnóstica. 9 Não há uma relação unívoca entre o gasto com saúde e a expectativa de vida da população. Wallace (2004) afirma que só um quinto dos ganhos na expectativa de vida da população inglesa e americana é atribuível aos cuidados com a saúde. Também são fatores importantes a nutrição, o saneamento, a higiene e as condições de moradia. No entanto, estas análises comparativas levantam dúvidas quanto à eficiência na aplicação dos recursos. 13 a ineficiência técnica, produtiva e alocativa atualmente observada em nosso sistema de saúde!” A solução, portanto, passa pelo aumento na eficiência na utilização destes recursos. Eficiência significa fazer mais com os mesmos recursos, eliminando desperdícios. O desafio é conseguir ganhos de eficiência sem afetar a qualidade dos serviços de saúde, conciliar qualidade e eficiência. A mentalidade enxuta parece oferecer um caminho para atingir este objetivo. Este é o enfoque deste estudo. 14 2 Revisão de literatura O objetivo deste capítulo é introduzir e desenvolver o ferramental teórico a ser utilizado no levantamento e na análise dos casos. Em primeiro lugar, levando em conta as múltiplas interpretações possíveis do conceito enxuto, será apresentada a conceituação utilizada neste trabalho. Em segundo lugar, para melhor compreensão do conceito, será feita uma análise da evolução histórica da aplicação deste conceito na indústria e nos serviços. Em seguida, serão apresentados os princípios derivados do conceito enxuto tanto do ponto de vista de quem provê o bem ou o serviço como do ponto de vista de quem o consome. Por fim, buscar-se-á ilustrar aplicações de cada um dos princípios nos serviços de saúde. 2.1 O conceito lean10 Segundo Womack et al. (1992) o termo produção enxuta (lean production) foi cunhado por Krafcik durante uma discussão em que se comparavam sistemas produtivos automotivos. Krafcik foi integrante do International Motor Vehicle Program (IMVP), um projeto de pesquisa do MIT que buscava entender as diferenças na produtividade entre diversos sistemas de produção de veículos. Ao listar as diferenças entre o sistema de produção da Toyota e o sistema tradicional de produção em massa é que surgiu o qualificativo enxuto para descrever o sistema da Toyota. Isto porque tal sistema: • requeria menos esforço humano para desenhar e produzir os produtos; • necessitava de menos investimento por unidade de capacidade produtiva; 10 As palavras lean (no inglês) e enxuto (em português) serão utilizadas de maneira intercambiável neste trabalho. 15 • utilizava menos fornecedores; • tinha fluxos do conceito do produto ao seu lançamento, do pedido à entrega, do problema ao reparo mais rápidos; • precisava de menos peças em estoque em cada etapa do processo produtivo; • resultava numa produção com menos defeitos; • causava menos acidentes de trabalho. Krafcik (1988) anuncia o triunfo do sistema de produção enxuta sobre o sistema tradicional de produção em massa. Com os resultados do IMVP, Womack et al. (1990) publicam o livro “A Máquina que Mudou o Mundo” que popularizou o conceito ao buscar entender e sistematizar a lógica por trás das operações da Toyota. Portanto, o termo “lean” – enxuto – nasce como um adjetivo que qualifica o tipo de operação de uma empresa. Na literatura, o termo lean aparece associado à produção ou a serviço conforme o tipo de operação (lean production, ver Krafcik, 1988; lean service, ver Bowen e Youngdahl, 1998), à filosofia de gestão dos processos numa empresa (lean thinking, ver Hines et al., 2004), à empresa resultante desta filosofia (lean enterprise, ver Womack e Jones, 1994), à solução para os problemas típicos que envolvem a produção, distribuição, manutenção, atualização e descarte de bens e serviços (lean solutions, ver Womack e Jones, 2005). Segundo Hines et al. (2004) o conceito lean sofreu evolução ao longo do tempo. Com o tempo e a difusão do conceito, a palavra foi ganhando cada vez mais peso, sua carga conotativa se amplia paulatinamente a ponto de se substantivar: lean deixa de ser um simples adjetivo para assumir um caráter substantivo. Assim como do adjetivo belo deriva o substantivo beleza e os estudiosos debatem sobre os critérios que definem a essência da beleza numa obra de arte, do adjetivo lean deriva um substantivo leanness ou simplesmente lean e os acadêmicos também debatem sobre a essência do lean. 16 Soriano-Meier e Forrester (2002) apresentaram um modelo para avaliar o grau de “leanness” de empresas de manufatura. Slack et al. (1996) e Womack (2004b) descrevem diferentes conotações do substantivo lean: metas (de alta qualidade, baixo custos, lead-times mais curtos); métodos (do tipo just-in-time), ferramentas específicas (kanban, poka-yoke); fundamentos (trabalho padronizado, balanceamento da carga de trabalho, estabilidade de processo). Num documento lançado pelo National Health Service11 da Grã-Bretanha para auxiliar a incorporação de conceitos enxutos nos serviços de saúde, “lean” aparece como substantivo: Lean is not a toolbox. It is a way of thinking about work12. Lean seria uma mentalidade com a qual se encara o próprio trabalho. O conceito de lean adotado neste trabalho coincide com o adotado por Womack (2004b), pioneiro na sistematização do estudo deste tema e um dos responsáveis pelo IMVP. Lean significa: • Começar pelo cliente (Liker, 2004). • Fornecer valor ao cliente (Hines et al., 2004): o produto ou serviço certo, no tempo certo, no preço certo com qualidade perfeita. • Valor, que é sempre o resultado de um processo, isto é, um ordenamento específico de atividades com começo, fim, entradas, saídas e responsáveis claramente definidos pelos quais é possível medir o tempo, o custo, a qualidade e a satisfação do consumidor (Davenport, 1993). • Maximizar o valor de um processo, eliminando constantemente as etapas do processo que geram desperdícios (Shingo, 1996). • Atingir o desperdício zero, através da criação de um processo capaz (que produz um bom resultado a cada execução), disponível 11 12 O National Health Service do Reino Unido (NHS) seria o equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil. NHS Lean Implementation handbook draft, 15 de janeiro de 2006. Ray Foley [email protected] 17 (produz o resultado esperado a cada execução), adequado (que não causa atrasos), flexível em que cada etapa flui rapidamente de uma a outra puxada pelo cliente (IHI, 2005). • Almejar um processo perfeito, que satisfaça perfeitamente o desejo de valor do cliente sem desperdício algum (Womack e Jones, 1996). A partir desta carga conotativa associada ao conceito enxuto é possível desmembrar uma série de princípios que norteiam a aplicação do conceito às diversas operações. Antes de entrar na descrição destes princípios enxutos e sua possível aplicação nos serviços de saúde será feita uma breve descrição da evolução da aplicação do conceito lean para entender como é possível pensar num chão de fábrica e numa unidade de emergência de um hospital sob a mesma óptica. 2.2 Evolução da aplicação do conceito lean Hines et al. (2004) num estudo sobre a história contemporânea do pensamento enxuto traçam a origem da aplicação do conceito lean ao chão de fábrica de montadoras japonesas no começo da segunda metade do século XX. No entanto, muitos elementos que compõem este conceito já apareceram muito antes. A preocupação pelo resgate da história da gênese e aplicação deste conceito na produção de bens é recente. Womack (2004c) faz uma breve varredura pelos processos industriais ao longo da história em busca de indícios que constituiriam os primórdios da mentalidade enxuta. Entre muitos outros exemplos, cita a indústria de galés de Veneza no início do século XII. O Arsenal de Veneza foi estabelecido no ano 1104 para construir navios de guerra para a cidade. Segundo Womack (2004c), os venezianos adotaram um modelo padronizado para construção dos navios utilizando peças intercambiáveis. Isto permitiu criar uma linha de montagem de galés ao longo de um estreito canal 18 que passava pela fábrica. O casco do navio era produzido em primeiro lugar e, literalmente, fluía através do canal passando pelas diferentes etapas de montagem necessárias para completar o navio. Em 1574 as práticas do Arsenal eram tão avançadas que o rei Henrique III da França foi convidado para assistir à montagem completa de uma galé do começo ao fim - em menos de uma hora num processo de fluxo contínuo. Assim como o fluxo contínuo, modelo padronizado e peças intercambiáveis na produção das galés venezianas, outras indústrias já apresentavam elementos que seriam constituintes do conceito lean. A utilização de um lay-out celular para produção de rifles com fluxo unitário de peças era uma realidade nos EUA em 1822. No final da década de 1930 os alemães já utilizavam a idéia de “takt time” na indústria aeronáutica. As aeronaves eram movidas através das etapas de montagem de maneira sincronizada obedecendo a um ritmo preciso. O que um exame histórico mais detalhado revelaria seria a utilização de elementos lean em diversas indústrias e em diversas culturas o que se pode interpretar numa visão de processos como a história da criação de valor. Mantendo-se uma análise da aplicação contemporânea do conceito lean, isto é, a partir do século XX, como fazem Hines et al. (2004), percebe-se que a aplicação do conceito evoluiu e como estes mesmos autores afirmam continuará a evoluir ao longo do tempo. Tal evolução se explica pelo próprio conceito lean. Um conceito que traz em si a meta de alcançar um processo perfeito tende a não ficar restrito numa área específica da empresa. Um processo por definição abrange inúmeros departamentos, envolve pessoas de funções organizativas diferentes. Pode-se iniciar a aplicação deste conceito no chão de fábrica, por exemplo, mas dadas as sucessivas interações entre os diversos departamentos há potencial para sua expansão. Segundo Womack (2005), não há dúvida que a aplicação do conceito lean nasceu na fábrica. Isto se explica pelo fato de que um processo (um conjunto de ações desenhadas para criar valor a um cliente e executadas corretamente numa seqüência certa no tempo certo) é mais fácil de ser visualizado quando matériasprimas estão sendo fisicamente transformadas em produtos. No entanto, um 19 processo completo de ponta a ponta envolve inúmeros fluxos (de materiais, de informação, de dinheiro), inúmeras funções e inúmeros departamentos. A busca de um processo perfeito não pode se restringir a uma pequena parcela dele. O chão de fábrica de uma montadora de veículos, por exemplo, é responsável pela montagem, que é apenas parte do processo necessário para solucionar um problema de mobilidade do cliente. Por mais otimizado que seja o processo de montagem em si, há inúmeros processos ligados ao planejamento e fornecimento de peças que suportam a montagem bem como outros processos ligados à distribuição, venda e financiamento do veículo, potencialmente carregados de desperdícios, contendo atividades que não contribuem para uma efetiva geração de valor ao cliente. Daí se entende a progressiva expansão da aplicação dos princípios enxutos na Toyota. Segundo Hines et al. (2004) na década de 1950 a Toyota buscou aplicar estes princípios na fábrica de motores, na década de 1960 para todo o chão de fábrica, na década de 1970 a aplicação dos princípios se expande para outros processos da cadeia de fornecimento. A partir deste momento outras organizações parceiras da Toyota, os fornecedores, são envolvidos. Além de repensarem suas operações de chão de fábrica para atender a Toyota, os fornecedores participam do processo de desenvolvimento de produto, que também incorpora os princípios enxutos. A partir dos resultados da aplicação deste conceito na indústria automobilística surge um movimento de emulação nas indústrias ocidentais em vários setores. Womack e Jones (1996) contribuem com esta expansão ao sistematizar os princípios enxutos. Os autores fazem questão de frisar que os aspectos culturais, as barreiras comerciais, a conjuntura macroeconômica que inclui taxas de câmbio e níveis de poupança são fatores secundários para a aplicação destes princípios. A apresentação de “transplantes” bem sucedidos destes princípios para outras culturas e outras indústrias amplia o interesse no potencial de aplicação de conceitos lean, não só em ambientes de manufatura como também em serviços. Duclos et al. (1995) percebem que até a metade da década de 90 as principais revistas de pesquisa acadêmica em operações, ao tratar de princípios 20 enxutos e suas ferramentas, referem-se ao ambiente de manufatura. No entanto, apontam como evidência do interesse nos princípios lean em serviços a proliferação de artigos que tratam do assunto em revistas de pesquisa aplicada. Bowen e Youngdahl (1998) fazem uma defesa da utilização de princípios lean adotados na manufatura como meio de superar as ineficiências do setor de serviços. Womack e Jones (2005a) apontam que apesar da melhora na oferta de bens e serviços em termos de qualidade, preço e abrangência de canais, o processo de consumo por parte do cliente apresenta-se freqüentemente como uma experiência frustrante: o computador recém comprado que é incompatível com a impressora, o atendimento insatisfatório dos serviços de atendimento ao consumidor, a falta daquele produto desejado numa mega-loja com milhares de produtos em estoque, a incapacidade de se receber uma data confiável para a realização de um serviço de manutenção ou conserto, etc.. A frustração se explica pelo fato de que do ponto de vista do cliente – ponto de partida do conceito lean o processo necessário para se consumir um bem ou serviço está impregnado de desperdício, envolvendo etapas e atividades que não geram valor para o cliente. Segundo estes autores a aplicação dos princípios de produção enxuta nos processos que denominam de provisão de bens e serviços exige uma contrapartida no processo de consumo, a próxima fronteira de expansão do conceito. Womack e Jones (2005) propõem uma releitura dos princípios enxutos sob a óptica do consumidor, do processo de consumo. Tal releitura é particularmente interessante para a extensão do conceito no âmbito dos serviços uma vez que a prestação de serviços exige, conforme aponta Schneider et al. (2003), uma maior presença/participação do consumidor. Consumo não é entendido aqui como o ato instantâneo de aquisição de um bem ou serviço. Womack e Jones (2005) entendem o consumo como um processo contínuo orientado para a solução de um problema. Isso envolve a busca, a obtenção, a instalação, a manutenção, o conserto, a atualização e o possível descarte do bem ou serviço. Todas estas etapas envolvem tempo e esforço do 21 consumidor que, se não contribuem diretamente para a solução do problema, são fontes de frustração. Para Womack e Jones (2005) no decorrer da história econômica os consumidores têm comprado uma variedade cada vez mais ampla de bens e serviços cada vez mais sofisticados. O trabalho que recai sobre o consumidor médio é o de entrelaçar um conjunto de bens mais serviços de uma base de oferta em contínua expansão para resolver seu problema. É a expansão constante da oferta de bens e serviços combinado com manutenção do tempo disponível do consumidor que ameaça sobrecarregar os próprios consumidores com muitas decisões e pouco tempo. A realidade da escassez de tempo continuará mesmo que o conceito lean seja aplicado em cada processo de consumo. A última fronteira de aplicação do conceito lean segundo Womack e Jones (2005) seria o desenvolvimento de soluções lean, consumidores e provedores trabalhando para resolver os problemas básicos através de uma combinação de bens e serviços oferecidos por um integrador. Estes autores acreditam que os principais problemas cotidianos com os quais os consumidores se deparam podem ser reduzidos a algumas poucas categorias: moradia, mobilidade, gestão financeira, comunicação, logística pessoal13 e saúde. É possível verificar na literatura o interesse pela aplicabilidade do conceito lean em cada uma dessas categorias. Construção civil14. Garnett et al. (1998) apresentam os resultados de uma força tarefa empreendida no Reino Unido (UK Construction Industry Task Force) para verificar a aplicabilidade dos princípios lean descritos por Womack e Jones (1996) no setor de construção civil. Ferro (2005) descreve como o Aeroporto Internacional de Chubu no Japão pode ser considerado um exemplo de um projeto de construção civil enxuto. Mobilidade. O setor automotivo é o berço contemporâneo da aplicação do conceito lean. Womack e Jones (2005a) descrevem o funcionamento de uma 13 Por logística pessoal, Womack e Jones (2005) entendam o conjunto de bens e serviços que satisfazem as necessidades prosaicas cotidianas dos consumidores, incluindo as compras de supermercado, serviços de lavanderia, material de escritório, etc.. Esta categoria envolve o conjunto de processos de consumo que não podem ser classificados como prazerosos e que se fazem por necessidade e não por lazer. 14 Neste tópico estão inseridas as soluções para moradia dos consumidores individuais. 22 oficina enxuta de manutenção e conserto de veículos. Bowen e Youngdahl (1998) apresentam a Southwest Airlines como exemplo bem-sucedido de uma abordagem enxuta em suas operações. Figueiredo et al. (2003) mostram a aplicação de princípios lean em duas companhias aéreas uma brasileira e outra européia. Gestão financeira. Allway e Corbett (2002) propõem um modelo de 5 fases para a transformação de uma empresa de serviço num serviço enxuto. Em seu artigo descrevem como uma seguradora foi capaz de incorporar em suas operações elementos lean utilizados na manufatura. Swank (2003) apresenta resultados mensuráveis da transformação de uma seguradora enxuta: redução em 70% do tempo entre uma requisição de seguro e a emissão da apólice, redução em 26% dos custos de mão-de-obra e redução em 40% das re-emissões devido a erros. Süffert (2004) demonstra a aplicabilidade de princípios enxutos na operação de um banco e apresenta uma série de iniciativas em funcionamento num grande banco brasileiro. Comunicação. Arbós (2002) descreve a implementação de um processo enxuto de instalação e provisão de acesso a serviços de banda larga via rádio. Aplicando elementos do conceito lean como flexibilidade, trabalhadores multifuncionais e balanceamento da produção o processo é reduzido de 17 a 5 dias. Varejo. Jones (2006) explica como a Tesco, uma rede de supermercados do Reino Unido com operações enxutas, desafia sua concorrente Wal-Mart (5 vezes maior do que a Tesco) a ponto desta pedir proteção ao governo britânico. A Tesco oferece seus produtos a um mesmo preço através de uma ampla gama de canais (lojas de conveniência, supermercados, hipermercados, loja eletrônica). A eficiência é obtida pela negociação centralizada das compras para toda a rede e não por canal de venda. Através de um cartão de fidelidade a Tesco consegue posicionar melhor os produtos em cada canal. Elimina-se assim o trade-off entre tempo e custo oferecendo ao cliente maior valor, isto é, maior conveniência. Saúde. Bowen e Youngdahl (1998) são um dos primeiros autores a enxergar a operação de um hospital sob a óptica dos princípios enxutos trazendo o exemplo do Shouldice Hospital do Canadá, que será discutido mais adiante. 23 Allway e Corbett (2002) comparam medidas tradicionais de produtividade no setor de saúde com medidas mais relevantes que deveriam ser adotadas com uma abordagem enxuta. Spear (2005) apresenta casos práticos da aplicação dos conceitos lean em hospitais. Outros autores e exemplos serão abordados no item 2.4 A ligação que existe entre cada uma das categorias descritas, o elemento comum que existe entre o chão de fábrica e um hospital, o que permite a aplicabilidade universal do conceito lean é a consideração de qualquer organização como um conjunto de processos [ver Duclos et al. (1995), Allway e Corbett (2002), Arbós (2002), Womack e Jones (2005)]. Dado que o objeto próprio do conceito lean é a maximização do valor para o cliente através de um processo eficiente e sem desperdícios, entende-se sua ampla e progressiva expansão dentro de uma organização, para indústrias diferentes, para serviços diferentes, em culturas diferentes. Sob esta óptica de maximizar o valor para o cliente através de processos eficientes é possível extrair alguns princípios genéricos que serão apresentados a seguir. 2.3 Princípios lean Segundo Womack (2004b) a geração de valor é sempre o resultado final de um ou mais processos. A geração de valor para o cliente se dá através da combinação de dois processos: o da provisão e o do consumo. O processo de provisão disponibiliza o bem ou serviço ao consumidor, o processo de consumo corresponde ao conjunto de etapas que o cliente deve percorrer para resolver seu problema. A perspectiva lean procura desenhar ambos os processos para gerar valor ao cliente (Hines et al., 2004) e eliminar constantemente seus desperdícios (Shingo, 1996). 24 Esta sessão fará uma descrição dos princípios lean do processo de provisão reunidos por Figueiredo et al. (2003) e, em seguida, descreverá os princípios lean do processo de consumo baseados em Womack e Jones (2005). 2.3.1 Princípios da provisão enxuta Duclos et al. (1995), Womack e Jones (1996), Bowen e Youngdahl (1998), Liker (2004) fazem uma tentativa de sistematizar os princípios de provisão de bens e serviços que devem nortear qualquer operação enxuta. Neste estudo será utilizada como base de análise dos casos a compilação destes princípios realizada por Figueiredo et al. (2003). 2.3.1.1 Reduzir os trade-offs de desempenho Segundo Bowen e Youngdahl (1998) operações enxutas conseguem reduzir os trade-offs de desempenho entre eficiência e flexibilidade ao combinar a eficiência da produção em massa com a flexibilidade da produção artesanal. O exemplo da Toyota ajuda a entender como isto é possível. Womack e Jones (1990) descrevem como o ambiente de negócios da Toyota diferia significativamente daquele vivido pela Ford e GM logo após a Segunda Guerra Mundial. A Ford e a GM estavam inseridas num mercado de demanda reprimida que procuravam atender com a produção em massa, tomando partido das economias de escala, com grandes máquinas produzindo o maior número de peças possível ao menor custo. Já o mercado japonês pós-guerra era pequeno demandando uma grande variedade de veículos. Por falta de escala, todos os veículos precisavam ser produzidos na mesma linha de montagem. Estas condições ambientais forçaram a Toyota a ser flexível. Para Liker (2004), a exigência de flexibilidade levou a descoberta de que a redução dos lead times dos processos aliada às linhas de produção flexíveis resultam numa maior qualidade, melhor produtividade, melhor utilização do 25 espaço e de equipamentos bem como a uma melhor capacidade de resposta à demanda. 2.3.1.2 Eliminar as atividades que não agregam valor Shingo (1996) assinala como característica principal do sistema de produção da Toyota a busca por eliminar desperdícios. Para enfatizar este princípio compara as operações enxutas da Toyota com um sistema capaz de extrair água torcendo uma toalha seca. Trata-se de uma mentalidade de procurar sistematicamente por desperdícios que normalmente passam despercebidos pois se tornaram aceitos como parte natural do trabalho diário. Como afirmam Figueiredo et al. (2003), este princípio requer conhecer o que significa valor para o cliente, potenciar as atividades que contribuem com a geração de valor e, ao mesmo tempo, considerar como desperdício as atividades que não geram valor. Segundo Liker (2004), 90% das atividades que compõem um processo constituem desperdício do ponto de vista do cliente. A mentalidade lean implica buscar continuamente maneiras de eliminar ou minimizar as etapas que constituem desperdícios. Os empregados são capacitados para melhorar continuamente os processos nos quais trabalham, conforme aponta Spear (2005). Os processos são padronizados para evitar ambigüidades e possibilidade de improviso. A cada melhoria estabelece-se um novo padrão de processo. 2.3.1.3 Estabelecer fluxo contínuo, puxado pelo cliente Womack e Jones (1996) explicam que uma vez eliminadas as atividades que não agregam valor, a provisão enxuta buscará fazer com que a informação, o serviço ou o produto sejam trabalhados do começo ao fim do processo num fluxo contínuo, isto é, percorrendo cada etapa do processo sem esperas de qualquer tipo. 26 Para Liker (2004), o estabelecimento de um fluxo contínuo está no cerne da mensagem de que encurtar o tempo entre a matéria-prima e o produto final (ou serviço final) levará a uma melhor qualidade e a um menor custo. A imagem clássica que ilustra bem o princípio é o da redução do nível de água (estoque) de um lago expondo as rochas (os problemas). É a criação do fluxo contínuo que reduz o nível da água e expõe as ineficiências do processo, exigindo correção imediata. Aumenta-se, portanto, a visibilidade dos problemas de qualidade tanto do produto como do processo. Segundo Bowen e Youngdahl (1998), estabelecer um fluxo contínuo requer abandonar a noção de produção por grandes lotes para atingir ganhos de escala. Não se produz antecipadamente para garantir 100% de utilização dos recursos. A produção ou o serviço são iniciados sob demanda, são puxados pelo cliente. Desta forma reduzem-se os desperdícios do estoque em processo. 2.3.1.4 Envolvimento do cliente Figueiredo et al. (2003) afirmam que este princípio contempla a relação com o cliente e uma efetiva participação deste em vários processos. Liker (2004) descreve a importância de envolver os clientes no processo de desenvolvimento de produtos na mentalidade lean. Bowen e Youngdahl (1998) assinalam que empresas enxutas também envolvem seus clientes no processo de entrega dos produtos. Duclos et al. (1995) lembram que na óptica lean todos os componentes utilizados para produzir um bem ou serviço devem ser visíveis para os que participam do processo. Isto permite aos participantes aprender, controlar e melhorar o próprio processo. No âmbito de serviço, em que o cliente participa diretamente do processo de transformação, quanto maior a integração entre o provedor e o consumidor do serviço mais fácil é a percepção daquilo que o cliente efetivamente considera como valor. 27 2.3.1.5 Delegar poder aos empregados Para Bowen e Youngdahl (1998) a delegação de poder aos empregado é particularmente necessária num sistema de provisão enxuto devido às reduções do estoque em processo e à responsabilidade atribuída aos empregados pela qualidade do produto ou serviço. As ineficiências do sistema ficam descobertas e a responsabilidade por resolver os problemas e tomar decisões desloca-se do supervisor ou gerente de qualidade para o empregado de linha de frente. Os problemas que surgem param as operações e precisam ser resolvidos imediatamente pela equipe diretamente envolvida. Daí a necessidade de investir na formação dos empregados. Delegar ao empregado não significa deixá-lo à vontade para realizar cada atividade conforme lhe parecer melhor. Os processos e cada uma de suas etapas são padronizados. O atual desenho do processo corresponde ao estado da arte daquele processo naquela organização. Desvios ao processo não são tolerados. No entanto, os empregados têm poder para propor melhorias e redesenhar o processo. Segundo Spear e Bowen (1998) a aderência à padronização força os empregados a testar duas hipóteses: primeiro, que o empregado é capaz de realizar a atividade corretamente e segundo, que realizar a atividade leva ao resultado esperado. Qualquer desvio significa ou que o empregado precisa de treinamento ou que a atividade precisa ser redesenhada. Spear (2005) afirma que numa operação enxuta os empregados são encorajados a questionar o desenho atual do processo e propor experimentos para aperfeiçoá-lo. 2.3.2 Princípios do consumo enxuto Desenhar os processos de provisão de bens e serviço baseados nos princípios lean descritos até aqui corresponde apenas a primeira parte da equação. Para o cliente se beneficiar do valor que o bem ou o serviço oferece é necessário consumi-lo. Desenhar os processos de consumo de forma a gerar 28 valor e minimizar os desperdícios do ponto de visto do cliente, ou seja, o consumo enxuto, é a contrapartida necessária à provisão enxuta. Desenhar os processos de consumo na perspectiva lean implica perguntar: o que o cliente quer? Segundo Womack e Jones (2005) o cliente quer: uma solução completa para seu problema, não desperdiçar seu tempo, a disponibilidade do bem ou serviço, conveniência tanto espacial como temporal e soluções integradas. São esses elementos que geram valor para o cliente e deles derivam os princípios lean do processo de consumo. Segue a descrição destes princípios. 2.3.2.1 Resolver o problema do cliente completamente Segundo Blackwell et al. (2001) os consumidores compram coisas quando acreditam que a habilidade do produto em solucionar problemas vale mais que o custo de comprá-lo. Bens e serviços são consumidos para resolver problemas. Para que um consumidor possa resolver seu problema terá que percorrer um processo que Blackwell et al. (2001) denominam o processo de decisão do consumo15 e Desjeux (2003), o itinerário de consumo16. Womack e Jones (2005a) também adotam uma visão do consumo como um processo, não restringindo a obtenção de um bem ou serviço a uma transação única. Ao buscar a solução de um problema, o cliente se engaja num processo de consumo que se estende ao longo do tempo e envolve uma série de etapas: pesquisar, adquirir, instalar, integrar, manter e descartar ou reciclar o bem ou serviço. Em qualquer uma destas etapas pode ocorrer uma falha17 e qualquer falha gera frustração. O primeiro princípio do consumo enxuto implica enxergar o consumo como um processo, identificando suas diversas etapas, as possíveis 15 Para Blackwell et al. (2001) as etapas do processo de decisão do consumidor incluem: o reconhecimento da necessidade, a busca de informações, a avaliação de alternativas pré-compra, a compra, o consumo, a avaliação pós-consumo e o descarte. 16 O itinerário de consumo busca entender o fenômeno do consumo em perspectiva sistêmica tendo como ponto de partida e chegada o espaço doméstico abrangendo a tomada de decisão, a compra, o local da compra. 17 Womack e Jones (2005) as denominam como falhas de consumo (consumption failures). 29 falhas que podem ocorrer e, como indica Spear (2005), introduzindo mecanismos para eliminá-las pela raiz. Quadro 2-1: Etapas do processo de consumo Pesquisar Adquirir Instalar Integrar Manter Descartar Na etapa de pesquisa, pode-se dar o paradoxo da informação: a proliferação de fontes de informação é tão grande, a disponibilidade de informação a baixo custo é tão abundante que o cliente se perde e não encontra exatamente aquilo que precisava. Mesmo que encontre um produto ou serviço, o cliente pode se perder numa miríade de possibilidades e especificações técnicas. Por falta de um aconselhamento especializado, o cliente se contenta com uma solução subótima. Kahneman (1991) descreve como o conceito de racionalidade limitada ajuda a explicar o processo de tomada de decisão. As restrições de tempo e custo limitam a quantidade e a qualidade de informações levadas em consideração na decisão. Estas limitações somadas às limitações de inteligência, de memória e de percepção sugerem que os indivíduos abrem mão da melhor solução para se contentar com uma solução simplesmente aceitável18. Womack e Jones (2005) enumeram algumas falhas que podem ocorrer nas diversas etapas do processo de consumo. Uma vez que o cliente tenha pesquisado e identificado o produto desejado terá que percorrer uma etapa muitas vezes demorada e desgastante (em que os prazos de entrega raramente são 18 Abrir mão da melhor solução para se contentar com uma sub-ótima tem uma expressão própria em inglês: to satisfice. 30 cumpridos) para completar a aquisição do bem. No momento da entrega inicia-se a etapa de instalação do bem, muitas vezes um item isolado, que precisa ser integrado com outros produtos. É comum que se descubra só nesse momento a necessidade de uma combinação com outros produtos. Instalado o produto e em funcionamento o cliente pode encontrar uma falha no serviço de apoio. Nesta etapa entram em cena as centrais de atendimento ao consumidor que raramente oferecem uma experiência gratificante. O serviço de manutenção que pode ser acionado a partir da detecção de algum defeito no produto ou serviço também tem possibilidade de manifestar falhas (demoras no atendimento, o técnico trouxe a peça errada, etc.), Com o passar do tempo o produto precisa ser atualizado, o que pode implicar um processo mais oneroso e mais longo do que previsto, com o risco do serviço não ser bem feito. Basta pensar na troca do piso de um apartamento que ao ser realizado exigirá a pintura da parede, a troca do rodapé, a remoção do entulho; ou então as atualizações de software que vão requerer um re-trabalho de programação para os sistemas antigos conversarem com a nova versão. Ao percorrer as etapas do processo de consumo, o cliente não adquire simplesmente um produto ou serviço, o que procura é uma solução completa para seu problema. A questão é como as empresas encaram este processo e como se estruturam para resolver as falhas que podem ocorrer ao longo dele. Uma abordagem tradicional é, por um lado, delegar ao máximo para o consumidor a responsabilidade por cada etapa do processo de consumo – pesquisa, acompanhamento da entrega do pedido, instalação, integração, atualização e descarte. Por outro lado, onde não é possível eximir-se da responsabilidade, desenvolver meios (sistemas de informação, centrais de atendimento, serviços de manutenção, planos de contingência, etc.) que se tornam cada vez mais eficientes para lidar com as falhas repetitivas que ocorrem. Segundo Gomes (2004), a maioria dos estudos sobre serviços de atendimento ao consumidor sugere a prevalência da busca pela eficiência na utilização dos recursos em detrimento da qualidade no atendimento. 31 O primeiro contato do cliente com a empresa se dá através dos empregados de linha de frente cujo ambiente de trabalho é caracterizado, conforme aponta Singh (2000), por longas jornadas, falta de autonomia e pressão por atingir índices de desempenho. Trata-se, segundo Gomes (2004) de um mercado de trabalho composto por um alto grau de trabalho temporário, sem estabilidade, com remuneração baixa e treinamento inadequado. Espera-se destes empregados atender o maior número de pessoas no menor tempo possível através de respostas padrão para perguntas padrão. Neste ambiente é alta a probabilidade de frustração na interação entre o cliente e o sistema de atendimento ao consumidor. A abordagem enxuta difere substancialmente da tradicional. Resolver o problema do cliente completamente implica desenvolver mecanismos de feedback inteligente para cada falha que pode ocorrer ao longo de todo processo de consumo. O desafio é criar um mecanismo que elimine de maneira progressiva estas falhas. A empresa busca compartilhar com o cliente a responsabilidade por todo processo de consumo. Ao invés de alocar uma mão-de-obra menos qualificada para lidar de maneira repetitiva com os mesmos problemas dos clientes, uma empresa enxuta emprega na linha de frente uma mão-de-obra altamente treinada não só para resolver o problema específico, mas para identificar a raiz do problema. Identificada a raiz é possível decidir por uma solução permanente para evitar a recorrência do problema. Para Senge (1990), num ambiente de negócios altamente dinâmico, a habilidade de aprender e transmitir aprendizagem entre os envolvidos no processo ajuda a assegurar a prosperidade vindoura da empresa. Spear e Bowen (1999) afirmam que organizações geridas com mentalidade enxuta consideram as pessoas como o ativo mais importante da empresa e que se alcança maior competitividade através do investimento no conhecimento e na capacitação de sua mão-de-obra. Para estes autores é precisamente a maneira como a Toyota capacita seus empregados para resolver problemas de maneira estruturada e científica que constitui o distintivo da Toyota. Decorre da importância atribuída aos 32 empregados o respeito pelas pessoas e a necessidade de lhes proporcionar uma formação contínua (Duclos, 1995; Bowen e Youngdahl, 1998; Spear e Bowen, 1999; Canel et. al., 2000). Permitir que o contato do cliente com a empresa se dê através do contato direto com empregados qualificados contribui para uma experiência de consumo mais satisfatória. Segundo Womack e Jones (2005) esta abordagem é mais eficiente do que pedir a pessoas pouco qualificadas que interajam mecanicamente com clientes para tentar resolver as falhas escalando o problema à medida que a situação se agrava. 2.3.2.2 Não desperdiçar o tempo do cliente Num estudo sobre o tempo na sociedade pós-industrial, Gershuny (2000) apresenta 4 categorias de uso do tempo: tempo pessoal (que envolve dormir, alimentar-se, higiene pessoal, vestir-se), tempo remunerado (empregado no trabalho), tempo de lazer e tempo não remunerado. O tempo pessoal tem se mantido constante nos últimos 200 anos. Em algumas regiões, como na Europa, o tempo remunerado tem decaído com a redução das jornadas de trabalho. Segundo Womack e Jones (2005) trava-se na nossa era uma autêntica competição entre o tempo de lazer e o tempo não remunerado. O tempo de lazer envolve todas as atividades que queremos fazer. O tempo não remunerado envolve todas as atividades que não queremos fazer, mas são necessárias para resolver os problemas da vida cotidiana: limpeza, encargos rotineiros, e todas as atividades que envolvem o processo de consumo (obtenção, instalação, manutenção e descarte de bens e serviços). Parte da frustração que se experimenta na experiência de consumo vem da dupla percepção de que, por um lado, um tempo considerável do processo não é remunerado constituindo um trabalho que foi delegado ao próprio cliente e, por outro lado, este tempo gasto não agrega valor algum. Womack e Jones (2005) apresentam várias experiências de consumo onde relacionam o tempo do cliente 33 empregado em atividades que percebe como geradoras de valor com o tempo total do cliente empregado no processo de consumo como um todo: num serviço de uma oficina mecânica, 28% do tempo é empregado em atividades que geram valor; numa consulta médica para um problema de rouquidão, 19%; numa viagem de avião em duas etapas de 45min, 35% do tempo gera valor. O restante, na óptica do cliente, é tempo não remunerado; na óptica lean é desperdício por causa de processos mal dimensionados. A sensação de que o tempo do cliente não é importante está presente na maioria dos processos de consumo. As filas e os tempos de espera são sintomáticos desta realidade. Como o conceito lean está voltado para a geração de valor para o cliente e a eliminação de desperdícios (Hines et al., 2004), estes sintomas têm um tratamento especial. A chave é desenvolver um processo que incorpore mecanismos para evitar estas perdas de tempo. Por que ocorrem as filas? Filas são resultados do desacoplamento entre a demanda e oferta, isto é, da demanda variável de clientes ao longo do dia e da falta de flexibilidade na alocação de empregados para as diferentes tarefas. A abordagem enxuta desenha um processo capaz de atuar do lado da demanda e da oferta para eliminar sua causa. Do lado da demanda, é possível pensar em mecanismos para evitar os picos e incentivar uma distribuição mais uniforme da demanda (consumidores mais sensíveis a preço, por exemplo, seriam dirigidos para horários menos concorridos). Do lado da oferta, os empregados são treinados para atuar em múltiplas funções e desenha-se um processo que incorpore a rotatividade dos empregados de maneira a acompanhar as flutuações no volume de trabalho (ver Arbós, 2002; Ritzman e Krajewski, 2004). Por que ocorrem os tempos de espera? Ocorrem pela falta de um dos elementos-chave para realizar o serviço: o técnico, o espaço adequado, as ferramentas, as peças ou a informação. Para um cirurgião de um hospital realizar uma cirurgia ele precisa de: uma sala de operações, os instrumentos adequados, os medicamentos e materiais a serem utilizados e informação. Se faltar qualquer um destes elementos todo o sistema fica em espera. O desafio da abordagem lean é gerar um processo sincronizado que permita a disponibilidade de cada 34 elemento no tempo certo, reduzindo ao máximo estes tempos de espera (Duclos et al., 1995; Canel et al. , 2000; Arbós, 2002) As experiências de consumo que envolvem agendamento e um conhecimento mais aprofundado da situação do cliente, como é o caso das consultas médicas, requerem especial atenção para evitar filas, tempos de espera e perdas de tempo. Para estes processos têm particular relevância os seguintes pontos levantados por Womack e Jones (2005): - criar um diálogo rico em informações no primeiro contato com o cliente. Quanto mais qualificada a linha de frente mais informações relevantes serão obtidas do primeiro contato que, com os devidos processos de encaminhamento das informações, poderão economizar uma série de etapas. - diagnosticar com antecedência o problema, o que permitirá garantir a disponibilidade a tempo das ferramentas/instrumentos, peças/remédios e conhecimento necessários. - nivelar a demanda quando possível. - economizar o tempo dos empregados que servem o cliente. Isto requer criar fluxos de trabalho previsíveis na organização separados por famílias de produtos ou serviços: atividades simples com ciclos de tempo estáveis, por um fluxo; atividades complexas com ciclos de tempo estáveis, por outro; atividades complexas com ciclos de tempo instáveis, por um terceiro fluxo. Para cada fluxo, padronizar o trabalho e prever as necessidades em termos de qualificação, materiais e instrumentos. 2.3.2.3 Oferecer exatamente aquilo que o cliente quer Experiências de consumo também são frustradas quando o cliente não encontra o item que procurava. Num estudo mundial sobre o nível de serviço no setor de varejo de bens de consumo, Gruen et al. (2002) encontraram o valor de 35 8% como a média “natural” de falta de produtos19. Isto significa que, em média, numa ida ao supermercado o cliente encontrará um nível de serviço de 92% para cada item de consumo. Se a cesta de produtos da compra mensal de um cliente é composta por 40 itens diferentes, a probabilidade dele encontrar todos os itens disponíveis é de 4% (92% elevado a 40), ou seja, sairá com exatamente aquilo que quer apenas uma vez em cada 25 idas ao supermercado. Após um estudo com mais de 71.000 consumidores de todo o mundo, Gruen et al. (2002) concluem que os consumidores têm pouca paciência ao se depararem com a falta de produtos: 26% dos consumidores substituem-nos por outra marca, 19% dos consumidores substituem-nos por outro produto da mesma marca20. Daí a conveniência das lojas grandes que trabalham com produtos de muitas marcas, ainda que o mesmo estudo aponta que 31% dos consumidores ao se depararem com a falta de um produto compram-no numa outra loja, o que representa simplesmente uma perda de vendas. Womack e Jones (2005) afirmam que a inabilidade de fornecer ao cliente exatamente aquilo que quer não se restringe ao setor varejista, mas se manifesta em quase todas as atividades de consumo incluindo serviços: • O eletricista ou bombeiro que vem fazer o serviço e descobre que lhe falta uma peça específica e terá, portanto, que voltar mais tarde. • O mecânico de automóvel que adia a entrega do veículo devido à falta de peças. • A visita à farmácia para comprar o coquetel de drogas recém receitado pelo médico para tratar do atual problema de saúde e a constatação de que falta um remédio. • A operação cirúrgica que não pode começar por que faltam os materiais necessários. O meio tradicional de aumentar o nível de serviço é aumentar os estoques, em todos os pontos da cadeia – fornecedor, fábrica, distribuidor, varejista. O 19 Os autores denominam esta falta de “out of stocks” (OOS). Os supermercados tem consciência deste problema. A famosa pergunta na caixa “houve algum produto que você queria e não encontrou?” é uma tentativa de medir o nível de serviço. 20 36 estudo de Gruen et al. (2002) afirma que a utilização intuitiva de maiores estoques de segurança não leva necessariamente à redução da indisponibilidade dos itens. Os autores indicam que 25% dos itens em falta (out of stocks) estavam na loja mas não estavam nas prateleiras. Grandes áreas de estocagem parecem impedir a capacidade dos varejistas de reabastecer rapidamente as prateleiras. Além de o estoque contribuir significativamente para o custo total do produto, a existência do estoque em vários níveis exige um controle em cada nível. A conseqüência destes múltiplos pontos de controle é dupla: o aumento do ruído em todo o sistema de fornecimento e a amplificação da demanda por toda a cadeia21. Como resultado tem-se um excesso de estoque na cadeia e um baixo nível de serviço para o cliente final. Gruen et al. (2002) concluem que para aumentar o nível de serviço, mais do que maiores estoques, é necessário lançar mão de processos internos de reabastecimento mais eficientes, sistemas de pedidos com fornecedores otimizados e uma cadeia de suprimentos com maior velocidade de reação. Neste sentido orienta-se a alternativa lean. A abordagem lean propõe estabelecer um único ponto de pedido em resposta ao qual toda a cadeia deverá responder. Segundo Womack e Jones (2005), o ponto de pedido é o próprio ponto de venda, aumenta-se a freqüência de reposição em cada ponto de venda, a reposição corresponde exatamente àquilo que foi consumido (a não ser que se preveja alguma circunstância especial com conseqüências bem definidas na demanda), busca-se aproximar ao máximo as atividades de manufatura e distribuição ao ponto de venda. Desta maneira o próprio ritmo das vendas ou do consumo está ditando a reação da cadeia de fornecimento. Substitui-se a produção empurrada para uma produção puxada pelo cliente. Elimina-se os excessos e as faltas de produtos próprios de um modelo empurrado de fornecimento. Este tipo de abordagem implica: • Criar um único ponto de pedido para regular todo o sistema de provisão e que atue como o marca passo do sistema (Swank, 2003). 21 A amplificação da demanda pela cadeia é conhecido como “efeito chicote”. 37 • Sinalizar a necessidade de reposição frequentemente com uma tecnologia de informações com baixo ruído. • Repor frequentemente em pequenas quantidades todos os pontos de consumo (Trinkhaus et al. 1996; Ritzman e Krajewski, 2004). • Localizar a produção e a distribuição o mais próximo possível entre si e do cliente (Ritzman e Krajewski, 2004). 2.3.2.4 Oferecer o que o cliente quer exatamente onde ele quer Paradoxalmente, enquanto a busca pela eficiência nas indústrias tem levado a reduzir o tamanho das fábricas, a comercialização destes bens no varejo tem migrado para estabelecimentos cada vez maiores. Os “hipermercados” e as “mega-lojas” têm se afirmado como forte canal de vendas para diversos bens de consumo: o setor de alimentos (Carrefour, Wal-mart), livrarias (Saraiva), materiais de construção e decoração (Leroy Merlin), etc.. A lógica perseguida é a da economia de escala: grandes volumes que permitem baixos custos e uma ampla variedade de produtos. Segundo Womack e Jones (2005), é a lógica da produção em massa transferida para o consumo. No entanto, as grandes lojas de desconto não são os únicos canais de venda dos varejistas. As Lojas Americanas, por exemplo, trabalham com múltiplos canais: as lojas tradicionais, as lojas express e o comércio-eletrônico (americanas.com e shoptime.com). As lojas tradicionais são maiores (em média, as 25 novas lojas tradicionais inauguradas em 2005 possuem cerca de 1100m2) e, portanto, podem oferecem uma maior variedade de produtos. As lojas express são bem menores (em média, as 12 lojas express inauguradas em 2005 possuem cerca de 460m2)22 e funcionam como lojas de conveniência. Através do site, oferece-se ao cliente uma variedade ainda maior de produtos que podem ser adquiridos da própria casa. 22 Informações extraídas do Relatório Anual das Lojas Americanas, ver LASA (2005). 38 Cada canal apresenta uma composição específica em termos de variedade/quantidade de produtos, preço e conveniência para o cliente. A estratégia de múltiplos canais permite atender ao cliente conforme suas circunstâncias variarem. Clientes sensíveis a preço buscarão as lojas grandes de desconto localizadas, via de regra, em lugares mais distantes demandando um maior dispêndio de tempo. Clientes mais sensíveis à conveniência, abrirão mão de um desconto por grandes quantidades para obter o produto que lhes falta rapidamente na loja mais próxima. Clientes sem tempo disponível algum e insensíveis ao preço buscarão o comércio eletrônico para satisfazer suas necessidades. É a circunstância que ditará o tipo de trade-off que o cliente fará entre variedade/quantidade, conveniência e preço. Womack e Jones (2005a) afirmam que os clientes não se classificam em categorias estanques. Os clientes se utilizam de uma variedade de formatos na medida em que suas circunstâncias variam e assim minimizam seu custo total de consumo balanceando as variáveis conveniência e preço. O princípio de redução de trade-offs de desempenho descritos por Bowen e Youngdahl (1998) contribuem diretamente para oferecer o que o cliente quer exatamente onde ele quer. Womack e Jones (2005) advogam que o trade-off entre preço e conveniência pode ser fortemente reduzido. Para estes autores, é possível colocar um produto a um mesmo custo em qualquer canal de venda. Isto é possível através da criação de um sistema único de reposição, que negocie com os fornecedores de maneira centralizada o volume a ser distribuído em toda a rede através de todos os canais. Dada a crescente restrição de tempo dos clientes, a busca de canais mais convenientes que oferecem preços semelhantes aos das grandes lojas de desconto tende a crescer revertendo o movimento em direção às mega-lojas como canal principal de vendas. 39 2.3.2.5 Oferecer o que o cliente quer onde ele quer exatamente quando ele quer Num estudo sobre a aplicação do conceito lean ao comportamento organizacional, Emiliani (1998) identifica uma série de atitudes que, por não fazer o valor fluir no processo de trabalho, representam desperdícios no relacionamento inter-pessoal e afetam negativamente o trabalho23. Segundo este autor, quando este tipo de comportamento predomina numa organização o resultado é um desempenho significativamente inferior na medida em que estas atitudes geram atrasos, custos, re-trabalhos e baixos níveis de confiança e cooperação. Esta idéia também se aplica entre as organizações. Fukuyama (2000) afirma que a confiança é “como um lubrificante que torna mais eficiente o funcionamento de qualquer grupo ou organização”. A confiança além de ter um valor ético intrínseco tem um valor monetário associado na medida em que reduz os custos de transação24. Ritzman e Krajewski (2004) assinalam como essencial a cooperação da empresa com seus fornecedores para a implementação de uma operação enxuta bem-sucedida. Lamming (1996) ao tratar do relacionamento de uma empresa com seus fornecedores afirma que para uma cadeia de fornecimento enxuta se tornar uma realidade os clientes devem compartilhar informações (inclusive dados de custo) com seus fornecedores e estar abertos a idéias dos fornecedores que afetem suas operações. Segundo Lamming (1996) a empresa e seus fornecedores são os “guardiães” do “valor-emtrânsito” para o cliente final. Womack e Jones (2005) advogam pela necessidade de cooperação entre a empresa e seu cliente final, uma vez que só através desta cooperação que é possível criar valor e reduzir desperdícios para ambos. No princípio anterior, o provedor de serviços ou produtos se esforça por oferecer diversos canais para atender as exigências de conveniência do cliente 23 Emiliani (1998) apresenta uma longa lista de comportamentos carregados de desperdício, que não agregam valor ao trabalho. Cita como exemplo destes comportamentos, entre outros: demonstrar desconfiança, favoritismo, ambigüidade, observações desnecessárias, cinismo, não retornar ligações, bajulação, enganar, etc.. 24 Custos de transação podem ser entendidos como os custos de monitorar, contratar, julgar e forçar o cumprimento dos acordos formais. 40 em relação ao lugar; neste princípio está em jogo poder atender as exigências de conveniência do cliente em relação ao tempo. Em ambos a questão chave é poder atender ao cliente conforme suas circunstâncias variam. Há itens de consumo para os quais se espera uma disponibilidade imediata. Há outros itens de consumo para os quais é perfeitamente cabível trabalhar com prazos mais dilatados de entrega. Há também itens de consumo para os quais o cliente ora exige disponibilidade imediata ora aceita trabalhar com prazos. O transporte aéreo, por exemplo, é um desses itens de consumo cuja exigência de disponibilidade é híbrida. Há circunstâncias em que o cliente tem uma viagem de negócio imprevista e inadiável para o qual está disposto a pagar mais caro, e há circunstâncias, como uma viagem a lazer, em que o cliente está disposto a reservar a passagem com maior antecedência obtendo uma redução no custo. Do ponto de vista das operações, a questão é dimensioná-las para trabalhar com estes dois tipos de demanda. A cooperação entre cliente e empresa é fundamental para saber em que circunstância o cliente se encontra. Womack e Jones (2005) propõem transferir esta lógica da reserva de passagens aéreas para o planejamento de produção e entrega dos bens e serviços de maneira geral. O princípio é variar o momento da entrega, isto é, o tempo que o cliente está disposto a esperar em relação ao preço do produto. Quanto maior o prazo, mais barato para o consumidor e mais conveniente para o provedor, que se planeja para produzir produtos sob medida. Quanto mais produtos sob encomenda menor o estoque indesejado, menor o custo de inventário. Segundo Womack e Jones (2005) os diversos sistemas de produção são capazes de lidar com pequenas quantidades de pedidos para entrega imediata desde que haja um espaço planejado na grade de produção prevista para pedidos de última hora e que estes espaços não excedem determinado percentual da produção. O custo de se fazer um produto rapidamente sob encomenda para entrega imediata será sempre maior, pois é necessário interromper a seqüência planejada, disponibilizar as peças e ferramentas adequadas e dar prioridade à entrega a este cliente. Há clientes dispostos a pagar mais por isso. Por outro lado, 41 trabalhar com uma carteira de pedidos sob encomenda do próprio cliente permite reduzir os custos do provedor uma vez que este tem tempo para planejar com os fornecedores a entrega de peças na quantidade e tempo certo. Daí a possibilidade de cobrar menos pelo pedido feito com maior prazo. Num estudo da OECD (2004) sobre maneiras de enfrentar os desafios para melhorar a eficiência dos serviços de saúde, aponta-se para o fato de que, em pelo menos uma dúzia de países da OCDE, o tempo de espera para se realizar uma cirurgia eletiva é excessivo25. O princípio de atender o que o cliente quer exatamente quando ele quer implica dimensionar a capacidade das operações dos centros médicos para absorver dois tipos de demanda: a demanda pelo serviço imediato, isto é, cirurgia eletiva para já; e a demanda pelo serviço no futuro. Uma política de preço diferenciada seria o mecanismo para ajustar os tipos de demanda com a capacidade disponível. No caso de cirurgias eletivas, o quando passaria a ser uma escolha do cliente em função da sua sensibilidade a preço e tolerância a espera. O paciente compartilha seus planos com o provedor do serviço médico em troca de preços mais baixos. O centro médico precisa desenvolver a habilidade de cooperar com o paciente para determinar o quando da cirurgia: os pacientes que fazem questão de resolver o problema imediatamente pagam mais; pacientes mais sensíveis a preço seriam auxiliados a planejar a cirurgia, a um preço menor, numa data futura. 2.3.2.6 Agregar continuamente soluções para reduzir tempo e aborrecimento do cliente Womack e Jones (2005a) apontam para o fenômeno de que os consumidores dependem de mais e mais fornecedores para resolver problemas cada vez menores. Esta realidade é diametralmente oposta ao que se verifica nas indústrias onde há uma tendência de racionalizar a base de fornecedores. 25 Para uma cirurgia de reposição de quadril, um paciente inglês tem que esperar em média 250 dias, um finlandês, 210 dias; um espanhol 125 dias; um holandês, 90 dias. 42 A abordagem lean propõe desenvolver fornecedores capazes de entender de fato o problema do cliente e oferecer uma solução completa que integre todos os elementos necessários. Davis e Meyer (1998) referem-se ao conceito de empacotamento para a oferta de bens e serviços que em conjunto atendem às necessidades dos clientes e afirmam que valor é criado quando cada componente da oferta já não pode existir de forma isolada. No que diz respeito à saúde, Womack e Jones (2005) propõem que os pacientes tenham um único ponto de contato para seus cuidados com a saúde. Uma empresa que procurasse ser este único ponto de contato e agregar soluções para o paciente estruturaria suas operações para aconselhar o tipo de plano de saúde mais adequado, manter os dados clínicos do paciente ao longo de sua vida, oferecer suporte em qualquer lugar e para qualquer tipo de problema que o paciente enfrentar, cuidar de todas as implicações financeiros decorrentes do uso de serviços de saúde. Esta empresa teria médicos com conhecimento direto das necessidades de cada paciente e seria o ponto de contato para obter as informações e a experiência médica que o paciente requer em cada momento da vida. 2.3.3 Conjugando os princípios da provisão e do consumo enxutos Os princípios apresentados não são mutuamente excludentes. Considerando os princípios que compõem o bloco da provisão enxuta e o bloco do consumo enxuto isoladamente, pode-se perceber como se influenciam mutuamente. Dos princípios da provisão enxuta pode-se dizer, por exemplo, que eliminar atividades que não agregam valor permite criar um fluxo de valor contínuo ao longo do processo. Por outro lado, estabelecer um fluxo de valor contínuo ajuda a detectar os problemas no processo e exige empregados capazes de resolvê-los eliminando assim fontes de desperdício (empowerment). Dos princípios de consumo enxuto pode-se dizer o mesmo. Resolver o problema do cliente completamente terá como efeito não desperdiçar o tempo do cliente que por sua vez reduz o aborrecimento do cliente. 43 De maneira semelhante, uma análise conjunta dos princípios de provisão e consumo enxuto permite a constatação de interdependências. Por exemplo, estabelecer um fluxo contínuo para reposição de produtos é uma maneira de garantir a disponibilidade do produto e oferecer exatamente aquilo que o cliente quer. Ou então, oferecer o que o cliente quer exatamente onde ele quer exige reduzir o trade-off entre conveniência e preço. Esta interdependência se dá devido ao fato dos princípios enxutos derivarem desta particular mentalidade de encarar o trabalho: foco na criação de valor ao cliente e redução sistemática dos desperdícios embutidos nos processos. Pode-se dizer que os princípios da provisão enxuta predispõem e preparam a empresa e seus empregados a aplicar esta mesma mentalidade nos processos de consumo. O Quadro 2.2 ilustra como os princípios são interdependentes. 44 Quadro 2-2: Interdependência dos Princípios Lean Princípios de Provisão Enxuta Delegar através poder de aos sua Princípios de Consumo Enxuto empregados ... resolver o problema do cliente qualificação completamente e potencializa a capacidade da empresa ... agregar continuamente soluções de... Eliminar ao cliente atividades que não ... não desperdiçar o tempo do cliente agregam valor leva a... Estabelecer fluxo contínuo, puxado ... oferecer exatamente o que o pelo cliente é uma maneira de... Reduzir os desempenho trade-offs entre flexibilidade cliente quer de ... oferecer o que o cliente quer e exatamente onde o cliente quer produtividade, conveniência e preço permite... Envolvimento do cliente no ... oferecer o que o cliente quer processo de agendamento possibilita exatamente quando ele quer conhecer suas reais necessidades e... Fonte: Elaboração do autor 45 2.4 Princípios Enxutos aplicados à saúde Segundo Womack (2004) e Spear (2005) ainda não existe a “Toyota” dos hospitais. As iniciativas de aplicação do conceito lean nos serviços de saúde estão apenas engatinhando, tanto no desenho dos processos de provisão dos serviços como no desenho de seus processos de consumo. Wysocki (2004) faz um levantamento de algumas iniciativas em que técnicas de produção enxuta usadas na Toyota são aplicadas em hospitais, com a ajuda de consultores oriundos da Toyota ou outras indústrias com produção enxuta. Ben-Tovim (2006), após 2 anos de implementação do conceito num hospital universitário da Austrália, afirma estar apenas no princípio: há áreas do hospital que ainda não foram abordadas e o dilema que diz enfrentar constantemente é escolher entre aprofundar numa área ou iniciar o trabalho numa nova. O primeiro evento para difusão de conceitos lean na área da saúde, o Lean Healthcare Forum, ocorreu em janeiro de 2006 e foi organizado pelo Lean Enterprise Academy da Grã-Bretanha contando com a presença do National Health Service26. O objetivo desta sessão é descrever algumas iniciativas que exemplificam possíveis aplicações dos princípios enxutos em serviços de saúde. Na revisão de literatura não foram encontrados casos para todos os princípios. O Quadro 2.3 relaciona os serviços de saúde a serem descritos com o respectivo princípio que pretendem ilustrar. 26 O evento ocorreu no dia 25 de janeiro de 2006. Ver o site: http://www.institute.nhs.uk/NHSInstitute/ServiceTransformation/Lean+Thinking.htm - acesso 6 de abril de 2006 46 Quadro 2-3: Serviços de saúde citados para ilustrar os princípios enxutos Processo Princípio Reduzir os trade-offs de Virginia Mason desempenho Medical Center Eliminar atividades que Enxuta Local EUA Hospital Municipal Cardoso Fontes Brasil Shadyside Hospital EUA Envolvimento do cliente Shouldice Hospital Canadá Delegar poder aos Virginia Mason empregados Medical Center não agregam valor Provisão Serviço de Saúde Estabelecer fluxo contínuo, puxado pelo cliente Resolver o problema do cliente completamente Consumo Enxuto Flinders Medical Center 1) Atendimento primário Não desperdiçar o tempo 2) Hospital Kaiser Permanente do cliente 3) Hospital Mãe de Deus e H. São Lucas Oferecer exatamente o South Side Hospital que o cliente quer Oferecer onde o cliente quer Oferecer quando o cliente quer Agregar continuamente soluções ao cliente EUA Austrália EUA Brasil EUA Não foi encontrado exemplo 1) Flinders Medical Center 2) Hospital Mãe de Deus e H. São Lucas Austrália Brasil Não foi encontrado exemplo 47 2.4.1 Princípios da provisão enxuta Do ponto de vista da provisão de serviços de saúde, a mentalidade enxuta propõe desenhar as operações na perspectiva de geração de valor para o paciente, identificar as atividades que geram e as que não geram valor, buscando eliminar estas e otimizar aquelas. A eliminação de atividades que não geram valor juntamente com outros desperdícios tais como materiais desperdiçados, medicamentos não usados e atrasos desnecessários ajudam a estabelecer um “fluxo de valor” do paciente. Este fluxo de valor do paciente incluiu a seqüência da avaliação clínica, investigação, decisão clínica, tratamento e liberação do paciente. Tal fluxo permite que o paciente o percorra sem interrupções, desvios, retornos ou esperas27. Dessa forma consegue-se aumentar a eficiência das operações e melhorar a qualidade do atendimento simultaneamente. Descreve-se a seguir como os princípios da provisão enxuta são aplicados a alguns serviços de saúde. 2.4.1.1 Reduzir os trade-offs de desempenho O Virginia Mason Medical Center (VMMC) de Seattle, EUA, exemplifica a estruturação das operações de um serviço de saúde baseada em princípios lean. O VMMC é um centro integrado de cuidados da saúde e conta com um hospital de 336 leitos, 9 clínicas, 400 médicos e 5.000 funcionários. Dificuldades financeiras constituíram um imperativo de mudança para a organização levando-a a rever suas operações e a se re-estruturar. O objetivo do Virginia Mason foi desenhar seus sistemas e processos ao redor das necessidades dos pacientes e não dos provedores dos serviços. Foi desenvolvido o sistema de produção Virginia Mason (Virginia Mason Production System – VMPS) baseados nos princípios do sistema Toyota de Produção (Toyota Production System – TPS). Segundo o relatório do IHI (2005) o VMPS almejava 27 Proposta do Southern Adelaide Health Service (Austrália). Extraído de http://www.flinders.sa.gov.au/redesigningcare/pages/leanthinking/6864/. Acesso em: 11 abr. 2006 48 alcançar o aperfeiçoamento contínuo de suas operações através da criação de valor sem a necessidade de investir em novos recursos, pessoas, equipamentos, espaço ou estoque. A idéia era fazer mais com menos, buscar simultaneamente qualidade e eficiência nos serviços evitando o trade-off entre um e outro. A partir do ano 2002, todos os 5.000 empregados participaram de um curso introdutório aos princípios lean, que serviu de ponto de partida para a organização de work-shops de melhoria de processos. Cada work-shop tinha duração de uma semana durante a qual a equipe deveria analisar um processo e em seguida propor, testar e implementar uma melhoria. Entre o período de janeiro de 2002 e março de 2004, foram realizados 175 work-shops de melhoria. Os resultados destes dois anos de trabalhos demonstram os ganhos de eficiência nas operações do Virginia Mason e estão descritos no Quadro 2.4. Quadro 2-4: Melhoria de Eficiência no Virgínia Mason Medical Center Categoria Resultados em Métrica 2004 (depois de 2 Mudança em relação à 2002 anos de “lean”) Estoque US$ 1.350.000 dólares Redução 53% Produtividade 158 FTE´s 36% realocações* Espaço 22.324 pés2 Redução 41% Lead time 23.082 horas Redução 65% Distância Percorridos 264.793 pés Redução 44% Percorridos 272.262 pés Redução 72% 7.744 horas Redução 82% (pessoas) Distância (produtos) Tempo de set-up *36% dos empregados foram realocados para posições em aberto Fonte: IHI (2005) 49 Spear (2005) aponta para o fato de que os ganhos de eficiência de espaço, de trabalho e de equipamentos tornou desnecessário a adição de uma câmara hiperbárica às instalações (evitando o dispêndio de US$ 1 milhão) e evitou a mudança dos quartos de endoscopia, ao mesmo tempo que aumentou de 120 a 188 (56%) o número de pacientes tratados na unidade de oncologia. O comprometimento da organização com a melhoria dos processos não só tornou-os mais eficientes como também aumentou a qualidade da prestação do serviço. Em 2002, por exemplo, 34 pacientes contraíram pneumonia no hospital devido ao uso de ventilação mecânica. Cinco destes pacientes vieram a falecer. Em 2004, apenas 4 pacientes contraíram a doença, com um óbito decorrente. 2.4.1.2 Eliminar as atividades que não agregam valor Atividades que não agregam valor são desperdício que devem ser constantemente eliminados através de revisões sistemáticas dos processos. Latas e Robert (2000) e Bushell et al. (2002) apresentam uma lista de desperdícios presentes nos serviços de saúde. Tais desperdícios contribuem para uma experiência frustrante no consumo destes serviços. Quadro 2-5: Fonte de desperdício nos serviços de saúde • Acúmulo de pacientes em sala de espera • Longos tempos de espera associados aos tempos de preparação para cada paciente em cada etapa do processo de diagnóstico e/ou tratamento. • Duplicação de exames por desconfiança, complementariedade ou falta de coordenação entre os diferentes responsáveis • Realização de exames desnecessários por falta de preparo da equipe de saúde 50 • Excesso de movimentação do pessoal hospitalar e de transporte dos pacientes • Excesso de tempos de tratamento por dificuldade de estabelecer procedimentos repetitivos de coordenação entre os diferentes departamentos • Informação errada ou não disponível • Ferramentas/equipamentos errados ou não apropriados • Correção, retrabalho, inspeção • Excesso ou falta de materiais e medicamentos • Desperdício de potencial humano • Comunicação ineficiente Fonte: Latas e Robert (2000); Bushell et al. (2002) Como afirma Spear (2005), a aplicação do conceito lean em serviços de saúde implica capacitar os profissionais da saúde a melhorar seu trabalho enquanto o realizam. Isto requer enxergar os desperdícios embutidos no processo, o que, conforme o relatório do IHI (2005) é uma tarefa particularmente difícil para estes profissionais. Uma enfermeira que sai à caça de remédios, o faz para servir o paciente e pode não enxergar esta atividade como perda de tempo (para o paciente em concreto que precisa do remédio isto não é perda de tempo, mas a situação em si representa um desperdício de potencial humano). Esta mesma enfermeira pode não se perguntar por que o remédio não estava disponível no momento certo e no lugar certo. Caso estivesse, certamente a enfermeira ocuparia seu tempo com alguma atividade mais condizente com sua formação, estaria mais tempo cuidando do paciente e não de um processo falho em atender o paciente. Um serviço de saúde enxuto está atento a estas e outras fontes de desperdício e seus médicos, enfermeiros e funcionários são treinados para detectá-los e propor maneiras de eliminá-los. O exemplo do Hospital Municipal 51 Cardoso Fontes (Rio de Janeiro) ilustra bem o grau de desperdício que pode estar incrustado em cada processo, neste caso, o serviço de imagem. O Hospital Municipal Cardoso Fontes (Rio de Janeiro) Almeida et al. (2000) apresenta dados de um estudo da área de serviço de imagem do hospital. No período de janeiro a setembro de 2000 foram realizados cerca de 30.000 exames gerais, 1.800 mamografias e 2.000 exames de tomografia computadorizada. Foram utilizados neste período cerca de 65.000 filmes somente para exames gerais e destes cerca de 15% foram perdidos devido à necessidade de repetir o exame. Isto representa um custo anual com perdas de exames de R$ 205.822,00. Uma análise mais detalhada do processo apontou outras fontes de desperdício. A falta de procedimentos de controle das ações de manutenção impossibilitava a realização de manutenção preventiva. As empresas de manutenção contratadas eram acionadas, portanto, quando algum problema impedia o funcionamento do aparelho. No que diz respeito à radioproteção, foram identificados desperdícios advindos do excesso de proteção. As portas de acesso às salas de raio-X do hospital eram de correr, guiadas por trilhos em cima e em baixo. Estas portas possuíam um excesso de blindagem, pois eram revestidas tanto na face interna como na externa. Em conseqüência, o peso desnecessário das portas aumentava o atrito nos trilhos dificultando sua movimentação. Esta dificuldade fazia com que os técnicos simplesmente deixassem as portas abertas permitindo assim doses de radiação bem acima do aceitável em áreas livres. No que diz respeito aos filmes, verificou-se que as lâmpadas vermelhas instaladas nas 4 câmaras escuras não eram adequadas para o tipo de filme utilizado. A inconstância das temperaturas do revelador de filmes e falhas no preparo dos materiais químicos também contribuíam para a perda dos filmes. O estudo analisou os principais motivos de repetição de exames. Verificou que 64% das perdas eram resultantes de filmes super ou sub expostos à radiação. O segundo motivo principal de perda era o posicionamento inadequado do filme 52 (8,7%) e o terceiro motivo, o posicionamento inadequado do paciente (6,3%). Almeida et al. (2000) aponta para o fato de um baixíssimo percentual de perdas ser resultante da falta de uma crítica mais rigorosa dos técnicos e médicos quanto à qualidade da imagem. 2.4.1.3 Estabelecer fluxo contínuo, puxado pelo cliente Shadyside Hospital em Pittsburgh (EUA) é um hospital de 486 leitos que faz parte do University of Pittsburgh Medical Center, um dos maiores sistemas integrados de saúde sem fins lucrativos dos EUA. Graças a uma verba recebida do Jewish Healthcare Foundation conseguiram introduzir o conceito de fluxo contínuo nos processos do departamento de patologia reduzindo significativamente o tempo de preparação e análise das amostras de tecido, conforme descreve o relatório do LEI (2004). O fluxo de trabalho e o layout tradicional do departamento de patologia deste hospital se assemelhava às fábricas de produção em massa: equipamentos e atividades organizadas por tipo (não em seqüência) e processamento em grandes lotes. Os problemas que o departamento encontrava eram os mesmos daqueles derivados do processamento de grandes lotes nas fábricas de produção em massa: longo tempo de processamento, longos tempos de espera entre uma atividade e outra, demoras na identificação de problemas escondidos nos grandes lotes, alta complexidade no rastreamento e na movimentação, incremento nos custos associados a maior necessidade de espaço, capacidade e mão de obra para processar os grandes lotes. As amostras de tecidos chegavam das diferentes unidades do hospital e precisavam passar pelos seguintes processos: corte, fixação, montagem, fatiamento, derretimento, tingimento, acabamento, inspeção e análise. Corte e fixação. Os tecidos eram cortados e inseridos em recipientes plásticos. Havia duas máquinas de processamento de tecidos que substituíam a 53 água por um líquido de fixação. O processo automático durava 12 horas e era rodado durante a noite. Montagem. Após a fixação, os tecidos eram transferidos para outra sala, retirados dos recipientes plásticos, inseridos num molde metálico, cobertos com cera, e resfriados por 20 minutos. Em seguida, em outra sala, ocorria o processo de fatiamento. Fatiamento e derretimento. A cera endurecida permitia que o tecido fosse cortado em fatias muito finas e colocado sobre uma lâmina de vidro. Uma vez formado um lote de lâminas, eram colocadas num forno (localizado em outra parte do laboratório) para o derretimento da cera (17 minutos). Tingimento e acabamento. As lâminas só com tecido (sem a cera) passavam então por um processo automatizado de tingimento (45 minutos). Esta máquina era localizada próximo ao local da fixação. Em seguida, outra máquina depositava uma fina camada de vidro sobre a lâmina e colava uma etiqueta de papel. Inspeção e análise. O lote de lâminas então era enviado para uma pessoa que conferia as lâminas com as ordens escritas e, finalmente, todo o material era encaminhado ao patologista para análise. Após um estudo diligente de todo o processo, a equipe responsável pela implementação do fluxo contínuo criou uma célula de trabalho em que cada etapa de processamento era localizada próxima a outra e realizada em seqüência. A equipe percebeu que nem todos os tecidos precisavam passar por um processo de 12 horas de fixação. Uma porção significativa dos tecidos poderiam ser fixados em 3 horas. Uma máquina foi alocada para os processamentos longos e outra para os curtos. Ao invés de trabalhar com lotes de 12 amostras de tecido, foram desenvolvidos recipientes para o processamento de lotes unitários. No novo layout celular, cada pessoa cuidava de dois processos. No caso de sobrecarga mais uma pessoa poderia ser acrescentada a algum processo. Este lay-out permitiu que os tecidos fluíssem pela montagem, fatiamento, derretimento e tingimento com 54 menos erros e num tempo menor com nenhuma amostra (ou quase nenhuma) esperando entre as etapas. Como resultado, pequenas amostras de tecido eram processadas e enviadas ao patologista para análise. Os resultados saíam no mesmo dia ao invés de demorar de 24h a 48h. Os erros eram descobertos imediatamente. Em termos de produtividade, o laboratório está realizando a mesma quantidade com menos mão-de-obra (28% da mão-de-obra foi transferida para outras funções). 2.4.1.4 Envolvimento do paciente Uma das primeiras descrições da aplicação de princípios lean em hospitais foi feita por Bowen e Youngdahl (1998). Trata-se do Shouldice Hospital, localizado no Canadá, um hospital focado em operações de hérnia e, mais especificamente, em tipos externos de hérnia abdominais. O processo prevê um elevado grau de cooperação entre o paciente e os profissionais da saúde, desde a preparação até o pós-operatório. O envolvimento do paciente já começa com o processo de entrada. O paciente pode baixar da internet os quesitos necessários para internar-se. Ao dar a entrada o paciente recebe um diagrama no qual deve marcar a posição da hérnia a ser operada. Baseada nesta informação o médico determina o tipo de hérnia e avalia os riscos da cirurgia. Na preparação para a cirurgia o próprio paciente é encorajado a realizar a tricotomia28, no pós-operatório os pacientes caminham da mesa de operação para a cadeira de rodas com a ajuda dos cirurgiões, os pacientes recémoperados são colocados em leitos próximos a novos pacientes, e dessa forma, os “veteranos” podem repassar suas experiências reais nas fases pré e pósoperatório. Tal tipo de relacionamento é de incontestável importância tanto na recuperação dos “antigos” como dos “novos” pacientes. Esta colaboração libera as enfermeiras a cuidarem de outras atividades para as quais podem agregar mais valor. 28 Retirada dos pêlos na região da cirurgia. 55 2.4.1.5 Delegar poder aos empregados O Virginia Mason Medical Center introduzido anteriormente também exemplifica o princípio de delegar poder aos empregados. O plano estratégico ilustrado no Quadro 2.6 demonstra a preocupação da organização em estruturar seus processos colocando o paciente em primeiro lugar e explicita que um dos seus pilares estratégicos são as pessoas. Segundo Spear (2005), em 2002, após uma visita a uma fábrica lean no Japão, os gestores perceberam a importância dos empregados na criação de uma cultura de aperfeiçoamento contínuo. O Virginia Mason Prodution System (VMPS) criado para suportar esta cultura tem seis áreas de foco, duas das quais diretamente relacionadas à delegação de poder aos empregados: uma política de não demissão e um sistema de alerta de segurança ao paciente. Quadro 2-6: Plano estratégico do Virginia Mason Fonte: IHI (2005) 56 A direção da Virginia Mason comprometeu-se publicamente a não demitir nenhum de seus empregados, criando assim as condições de entorno necessárias para um real comprometimento dos empregados com melhorias do processo. Era dos próprios empregados que se esperavam análises, sugestões e implementações de melhorias. Com esta política, era garantido que as melhorias de eficiência não se voltariam contra seus próprios criadores. O sistema de alerta de segurança ao paciente é o equivalente da “paragem da linha de produção” existente nas indústrias lean. Qualquer empregado da Toyota, por exemplo, tem o poder e o dever de parar a linha de produção quando um defeito ou um erro é identificado. Os empregados puxam uma corda que aciona um alarme e engatilha um processo de resolução do problema. Evita-se assim que o defeito seja embutido no produto final. Na VMMC qualquer empregado pode “parar a linha”, isto é, o processo de cuidado da saúde em questão quando detecta algum erro. A pessoa que sinaliza o erro juntamente com um gerente apropriado e outros envolvidos no processo avaliam a situação e buscam resolver o erro pela raiz. Em 2002, eram feitos em média 3 alertas por mês. No final de 2004, esse número subiu a 17. Os alertas diziam respeito a erros de medicamentos, problemas com equipamentos, com sistemas de informação, com as instalações. 2.4.2 Princípios do consumo enxuto Do ponto de vista da experiência de consumo, para gerar valor é preciso identificar o que paciente busca ao procurar os serviços de saúde. Para Womack e Jones (2005), o paciente quer: • Resolver seu problema de saúde completamente, isto é, um diagnóstico sem falhas e o melhor tratamento. • Minimizar seu custo total, em particular, evitar perder seu tempo. • Obter o diagnóstico e receber o tratamento quando ele quiser, sem esperar longas horas em consultórios. 57 • Obter o diagnóstico e receber o tratamento onde ele quer, idealmente perto do trabalho ou de casa. Seguem alguns exemplos que descrevem a aplicação destes princípios nos serviços de saúde. 2.4.2.1 Resolver o problema do paciente completamente Spear (2005) apresenta como contra-exemplo de operação lean o testemunho de uma enfermeira que afirma confrontar “o mesmo problema, todo dia, anos a fio”. É o equivalente hospitalar da “indústria de falhas29”, onde os empregados sem autonomia, e sem chegar à raiz do problema, procuram solucionar eficientemente as mesmas e sempre recorrentes falhas no processo de consumo. Como afirmam Bowen e Youngdahl (1998), operações enxutas qualificam o empregado a tomar decisões e a resolver problemas. Quanto mais qualificado o empregado do primeiro atendimento, melhor o processo de consumo como um todo. O caso do Flinders Medical Center é um bom exemplo. Flinders Medical Center30 (FMC) é um hospital universitário de médio porte localizado em Adelaide na Austrália. Seu departamento de emergência atende anualmente cerca de 50.000 pacientes. Em 2003 sua Emergência estava bastante congestionada e se tornava um lugar inseguro. Mais de 1000 pacientes tiveram que esperar mais de 8 horas para serem atendidos na emergência. A capacidade do hospital de realizar cirurgias eletivas estava sendo comprometida pela demanda na emergência. Para lidar com esta situação, iniciou-se um projeto para aplicar princípios lean neste hospital. Percebeu-se que a origem do problema 29 Expressão utilizada por Womack e Jones (2005) para designar todo o esforço necessário para resolver os problemas de consumo com os quais os consumidores se deparam envolvendo estratégias de serviços de atendimento ao consumidor, call centers, sistemas de informação, etc.. 30 Informações extraídas de artigo de autor anônimo entitulado “Redesigning care reduces emergency waiting times” Australian Nursing Journal North Fitzroy:Dec 2004/Jan 2005. Vol. 12, Iss. 6, p. 29 (1 pp.) e de material próprio do FMC disponível na internet: http://www.flinders.sa.gov.au/redesigningcare 58 estava na triagem dos pacientes e formou-se uma equipe multifuncional para repensar o processo. O sistema de triagem de pacientes vigente era composto por 5 categorias. Havia um tempo prescrito de atendimento para cada categoria. Pacientes nas categorias mais baixas, numa situação menos urgente eram passados para trás à medida que chegavam pacientes de uma categoria superior. Com o aumento da demanda (em maio de 2004, o hospital chegou a ter um recorde de 80 pacientes esperando um atendimento) a meta de atendimento para cada categoria já não era alcançada. O processo de triagem foi simplificado, criando-se dois grupos. Os enfermeiros responsável pela recepção foram treinados para distribuir os pacientes em dois grupos: grupo A - os que provavelmente seriam internados; grupo B - os que provavelmente poderiam voltar para casa. Havia uma equipe clínica alocada para cada grupo de pacientes. O grupo A passaria a ser atendido em ordem de prioridade clínica. O grupo B passaria a ser atendido em ordem de chegada. A taxa de acerto dos enfermeiros chegou a 80%. O tempo de espera na emergência do Flinders Medical Center (FMC) foi reduzido em 20%. Como conseqüência houve também uma redução na superlotação da emergência. Quer-se destacar neste exemplo a questão da qualificação dos enfermeiros do primeiro atendimento na emergência. O grau de envolvimento dos enfermeiros no novo processo com a delegação de maior poder de decisão na própria triagem dos pacientes além de alcançar maior eficiência no processo melhorou o moral dos empregados. Houve uma efetiva redução na taxa de rotatividade de enfermeiros, que atingiu seu menor nível desde a fundação do centro médico. A iniciativa de incorporar princípios enxutos nas operações do FMC recebeu o nome de Redesigning Care e apresenta os seguintes indicadores de melhoria de eficiência operacional: • O tempo médio de espera na emergência caiu de 7h para 5.5h. • Em 2005, 70% dos pacientes que provavelmente não precisariam ser internados (Grupo B), saem do hospital devidamente tratados em menos de 4h. Em 2003 este percentual era de 60%. 59 • O cancelamento de cirurgias eletivas devido à indisponibilidade de camas caiu 83% (238 para 40). • Houve uma redução de 32% no número de pacientes que esperam mais de 12 horas na Emergência antes conseguir uma cama (3,338 para 2,276) • Redução de 41% no número de pacientes que decidem deixar a emergência sem ver um médico (2,533 para 1,497) • O número de readmissões ao hospital caiu 11%. • Houve aumento de demanda de quase 3% no departamento de emergência do hospital no mesmo período. 60 2.4.2.2 Não desperdiçar o tempo do paciente Filas para agendar consultas, exames e cirurgias bem como salas de espera que exigem longas esperas são barreiras para o acesso aos sistemas de saúde. Ao inflar o tempo necessário para se resolver os problemas de saúde, tais barreiras além de causar aborrecimento ao paciente pelo tempo desperdiçado, podem prejudicar a própria qualidade dos serviços prestados. Murphy e Noetscher (1999) afirmam que do ponto de vista do hospital, o tempo de permanência de um paciente no hospital é um indicativo da sua eficiência. Bundy et al. (2005) propõem e testam uma alternativa para reduzir estas barreiras realizando um piloto de um processo de agendamento de consultas denominado de “acesso-livre31”. O “acesso-livre” é um sistema de agendamento de consultas baseado no princípio de que a demanda por consultas é previsível e, portanto, é possível adequar a capacidade à demanda esperada. Isto permitiria oferecer ao paciente um horário para consulta no próprio dia em que o contato é feito. Bundy et al. (2005) afirmam que o “acesso-livre” tem potencial para reduzir o não-comparecimento do paciente, melhorar a continuidade da atenção médica e aumentar a satisfação do cliente e dos profissionais da saúde. O estudo de Bundy et al. (2005) analisou o impacto da adoção da prática de acesso-livre em 4 unidades de atendimento primário na Carolina do Norte (EUA). Cada unidade se comprometeu a implementar o acesso-livre e a colher os dados conforme um conjunto padronizado de medidas de desempenho, que incluíam entre outras: tempo médio de espera para uma consulta, número de não comparecimentos à consulta, satisfação do paciente. O Quadro 2.7 exemplifica ações tomadas para reduzir o tempo de espera dos pacientes. 31 Em inglês: Open-Access, também conhecido como “advanced access” (acesso avançado) ou “same-day scheduling” (agendamento de consulta no mesmo dia). 61 Quadro 2-7: Iniciativas para implementar o “acesso-livre” Ações Exemplos Balancear a oferta de Prever a oferta de consultas levando em consultas com a demanda consideração férias, feriados e trabalho não clínico Prever a demanda por consultas baseado em dados históricos Aumentar a capacidade nos picos Estar preparado para os aumentos sazonais previsíveis na demanda Reduzir o backlog (a lista Distinguir o bom backlog (cuidado planejado) do de espera) mau (cuidado que foi adiado) Eliminar o mau backlog aumentando temporariamente o número de consultas por dia Padronização Padronizar a duração de cada consulta Padronizar os materiais em todas as salas A primeira consulta da manhã e da tarde devem começar no horário Reduzir a demanda futura Maximizar a atividade durante a consulta para do paciente evitar demanda futura Aumentar o intervalo para retorno Usar estratégias de fluxo Não adiar o trabalho contínuo Utilizar as pausas previstas para realizar atividades não ligadas à consulta (retorno de telefonemas) Identificar e eliminar os gargalos no fluxo clínico Fonte: Bundy et al. (2005) 62 Todas as quatro clínicas implementaram com sucesso o acesso-livre ao longo de um ano. As medidas de desempenho tiveram melhoras significativas: 1. O tempo médio de espera para uma consulta caiu de 36 dias para 4 dias (89% de redução). 2. O número de não comparecimentos à consulta reduziu: no primeiro trimestre de implementação do acesso-livre houve 16% de não comparecimentos; no último trimestre, 11%. 3. Satisfação do paciente: proporção de pacientes que avaliaram como “excelente” sua visita ao médico subiu de 45% no primeiro trimestre para 61% no último. As técnicas do acesso-livre também são aplicáveis no contexto de um hospital, como exemplifica o Hospital Kaiser Permanente descrito por Womack e Jones (2005). Hospital Kaiser Permanente (EUA) O hospital Kaiser Permanente na costa oeste dos EUA repensou seu processo de agendamento de consultas com êxito notável. O médico encarregado de melhorar a eficiência da operação do hospital percebeu que a dificuldade de se marcar uma consulta se dava pelo processo de triagem de pacientes. Os empregados responsáveis por receber as chamadas telefônicas não tinham conhecimento suficiente para separar os casos agudos daqueles que podiam esperar. Esses empregados serviam de intermediários entre o paciente e o médico, retornavam a ligação e marcavam a consulta. A consulta, por sua vez, sempre era marcada para daqui a 2 meses. Percebeu-se também que este prazo era padrão o que significa que o volume de trabalho era constante. Para que jogar a consulta para frente? O novo processo denominado “acesso livre” previa que qualquer paciente que quisesse ver seu médico fosse atendido no primeiro espaço livre da agenda 63 daquele mesmo dia. Dada as características da demanda do hospital, a probabilidade de ser atendido no dia era bastante alta. O seguro de saúde do hospital em questão estava disposto a reembolsar o médico por uma consulta de no máximo 15 minutos. Como alguns pacientes exigiam mais do que 15 minutos a fila de espera para atendimento tendia a crescer e a parte burocrática de preencher papéis era deixada para o fim do dia após o horário normal de expediente. A solução adotada foi agendar as consultas em intervalos maiores do que o tempo médio de uma consulta e obrigar o médico a preencher os papéis logo após a saída do paciente. Após a última consulta o médico não precisaria consumir horas-extras com trabalho burocrático e já voltava para casa. Uma vez eliminados os dois meses de consultas já agendadas, a carga de trabalho dos médicos diminuiu, o acesso ao médico tornou-se praticamente direto, o prazo para marcar uma consulta reduziu drasticamente (de 2 meses para praticamente um dia) e o tempo de espera no consultório desapareceu. Hospital Mãe de Deus e Hospital São Lucas (Porto Alegre) Segundo Friedrich et al. (2004), a maior causa de incapacidades físicas e cognitivas em nosso meio é o Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI). O AVC (acidente vascular cerebral) é uma síndrome causada pela interrupção no fluxo sanguíneo cerebral. O AVC é classificado como hemorrágico quando ocorre uma ruptura no vaso. É classificado como isquêmico quando um coágulo provoca o bloqueio do vaso sanguíneo. Ambos os tipos podem implicar em seqüelas graves. Tecnicamente, através da terapia trombolítica, é possível elevar significativamente a chance de uma recuperação completa de um AVCI. O procedimento consiste em injetar uma enzima, o rt-PA32, para dissolver o coágulo. O fator crítico para o sucesso da intervenção é o tempo. Estima-se que os efeitos do AVCI podem ser minimizados se a enzima for aplicada em no máximo 3h da 32 rt-PA: ativador tecidual plasminogênio recombinante. 64 ocorrência da interrupção. O grande desafio, portanto, é de operacionalizar o procedimento neste tempo. Os requisitos necessários para se criar um Comprehensive Stroke Center são: protocolos de AVC, equipes de AVC, capacitação da Emergência para atendimento do AVC, capacidade de realizar rapidamente a tomografia de crânio, capacidade de realizar eletrocardiograma e coleta de sangue rápido, cobertura neurocirúrgica dentro de duas horas, unidade de AVC, capacidade de manejar pacientes complexos, especialistas treinados nas áreas de Neurologia, Neurocirurgia, Neurorradiologia. Friedrich et al. (2004) prepararam o Hospital Mãe de Deus (HMD) e o Hospital São Lucas (HSL) em Porto Alegre para poder dar a população local este atendimento. O primeiro passo foi o de estabelecer os protocolos para a trombólise, formar as equipes de AVC e treinar os médicos e a enfermagem da Emergência. Foram estabelecidos indicadores de qualidade para a terapia trombolítica. Dada a criticidade do tempo neste processo, não pode haver espaço para ambigüidade, não pode haver margem para improvisação. É fundamental a padronização do processo de atendimento e a adesão dos profissionais da saúde a estes protocolos. A rapidez necessária para um atendimento bem-sucedido exige uma integração entre as diversas áreas do hospital e a criação de uma célula multidisciplinar de profissionais. Para escapar da estrutura funcional predominante nos hospitais, foram escritos e assinados documentos cooperativos de coresponsabilidade entre o chefe da equipe e as chefias do laboratório e do centro de imagem para garantir a rapidez e prioridade de atendimento a pacientes do protocolo de trombólise. No Hospital Mãe de Deus foi utilizado o recurso áudiovisual para sinalizar os pacientes elegíveis para o tratamento. Observa-se o fato de haver um médico e uma equipe responsável pelo tratamento do começo ao fim. Isto elimina a ambigüidade na responsabilidade pelo paciente que em tratamentos complexos envolvendo múltiplas disciplinas pode gerar negligências graves. 65 O paciente é triado pelas enfermeiras da emergência, que foram treinadas para identificar qualquer sinal de um AVC. Quando identificado um potencial caso, o paciente é prontamente transferido para a Unidade Vascular dentro da emergência onde percorre o fluxo de atendimento para o AVC. Todo o processo de atendimento precisou ser estudado para minimizar os tempos. A unidade de emergência precisa ser treinada e capacitada para ser um “pit-stop” do AVC. O contínuo treinamento e aperfeiçoamento das equipes levaram a melhoria do tempo de atendimento. No caso do Hospital Mãe de Deus o tempo entre a chegada no hospital (da porta) até a decisão de iniciar o tratamento caiu de 1h40 em dezembro de 2002 para 49min em outubro de 2003. Dados publicados de outros centros de referência (Canadá e Suécia) mostram tempos entre 48min e 106min. O percentual de pacientes com mínima ou nenhuma incapacidade em 3 meses devido ao tratamento é de 58%. Esta taxa constitui uma referência internacional. O caso do tratamento trombolítico no HMD e no HSL é um exemplo de como é possível seguir um processo bem definido, obter a adesão ao processo por todos os envolvidos, aperfeiçoá-lo continuamente eliminando os desperdícios de tempo até atingir os mais altos padrões de qualidade. Pela criticidade do tempo, o tratamento trombolítico ou é enxuto ou não funciona. 2.4.2.3 Oferecer exatamente aquilo que o paciente quer Um paciente quer resolver seu problema de saúde, está lidando com a dor e encontra-se numa posição física e psicologicamente fragilizada. Por um lado, quer ser compreendido, apoiado e amparado em seu sofrimento através de um processo humanizado de atendimento, que na visão de Deslandes et al. (2004) compreende um atendimento de qualidade técnica articulando avanços tecnológicos juntamente com um bom relacionamento. Por outro lado, requer a disponibilidade de materiais e medicamentos para resolver prontamente seu 66 problema. Dependendo dos processos vigentes, estas duas necessidades – atendimento humanizado e disponibilidade de materiais e medicamentos - podem entrar em conflito. Rivard-Royer et al. (2002) apontam para o fato de que processos ineficientes de gestão de suprimentos subtraem horas de trabalho que poderiam ser aplicadas no cuidado e atenção aos pacientes. Num estudo de caso de um hospital no Canadá, estes autores estimaram que 10% do tempo total de enfermagem era empregado na busca de medicamentos33. Para Spear (2005) as enfermeiras gastam um tempo desproporcional cuidando não do paciente, mas do sistema ao se envolver com a buscar de materiais, medicamentos e informações necessárias. Para Rivard-Royer et al. (2002), a busca por maior eficiência nos processos de suprimentos tem um ganho indireto na qualidade do serviço prestado. Ao garantir a disponibilidade de materiais e medicamentos de maneira mais eficiente, aumenta-se o tempo de atenção ao paciente e contribui-se assim para oferecer exatamente aquilo que o paciente quer. Rivard-Royer et al. (2002) afirmam que a cadeia de fornecimentos no setor de saúde se caracteriza pela complexidade. Esta complexidade advém da enorme quantidade de fornecedores e ainda maior variedade de itens de consumo que fluem através de diferentes canais: alguns itens são entregues diretamente pelos fornecedores, outros através de distribuidores intermediários. Além disso, existe uma alta complexidade nos próprios serviços de saúde que não são os usuários finais destes itens. Estes serviços devem desenhar sua própria rede logística para que os itens cheguem até as diferentes unidades e, em última análise, até o ponto de consumo, que é o próprio paciente. O setor de saúde é caracterizado pela presença simultânea de duas cadeias de fornecimento: uma externa e uma interna. Primeiramente será apresentada a aplicação da mentalidade lean na cadeia externa de fornecimento e, em seguida, através do exemplo do South Side Hospital, na cadeia interna. 33 Isto significava 4.030 horas por ano desviadas da função principal das enfermeiras: atender o paciente. 67 Rivard-Royer et al. (2002) apresentam uma comparação entre o método convencional e o método lean de lidar com a cadeia externa de fornecimento, descrito no Quadro 2.8. Os números correspondem à realidade de um hospital de 400 leitos. Quadro 2-8: Suprimentos convencionais e suprimentos enxutos Característica Método Convencional Método lean Forma de entrega pelo Lote Unidades de uso Semanal Diária fornecedor Freqüência de entrega Número de fornecedores 35+ 1-2 Funcionários clínicos Número significativo Quase nenhum 6.000 pés2 300 pés2 Dias em estoque 6 a 8 semanas 1-3 dias Giro de estoque 6.5 a 8.7 171 a 365 Tempo empregado na 31 13 envolvidos com tarefas relacionadas a materiais Tamanho do almoxarifado do hospital gestão de materiais34 Fonte: Rivard-Royer et al. (2002) South Side Hospital na University of Pittsburgh Medical Center (UPMC) Spear (2005) relata como a farmácia do South Side Hospital na University of Pittsburgh Medical Center (UPMC) resolveu os problemas na sua cadeia interna de fornecimento de medicamentos. A farmácia era responsável por realizar entregas de medicamentos em todo hospital a tempo das enfermeiras medicarem 34 Medido em FTE´s (full time equivalents). 68 os pacientes conforme um cronograma pré-definido. O que se constatava com freqüência era que o medicamento necessário não estava disponível. A busca deste medicamento implicava interrupção no atendimento e consumia horas da enfermeira, do farmacêutico e do técnico responsável pela distribuição. Identificou-se que o problema estava na maneira como o processo estava dimensionado para funcionar, isto é, baseado em lotes. Os médicos faziam a ronda pelos pacientes de manhã receitando os medicamentos apropriados. Ao longo do dia, caso houvesse alguma alteração na condição do paciente uma nova receita era prescrita. Estas receitas eram periodicamente colhidas e entregues à farmácia. O farmacêutico inseria os pedidos no sistema que se acumulavam ao longo do dia. No fim do dia imprimia-se uma lista geral para todos os pacientes. No dia seguinte, os funcionários da farmácia fariam a coleta dos medicamentos nos estoques, aprontando o mix e o volume adequado para cada paciente. Este trabalho era completado no início da tarde quando o responsável pela entrega levaria estes pedidos às unidades de enfermagem. Dado que do momento em que o medicamento era receitado até o momento de sua entrega na unidade de enfermagem se passavam de 12 a 24 horas, era bem possível que as necessidades do paciente se modificassem, causando transtornos para se conseguir o medicamento certo e gerando retrabalhos de re-estocar os medicamentos não consumidos além do trabalho burocrático de garantir que os pacientes não eram cobrados pelos remédios que não foram utilizados. A solução adotada foi regular os sistemas de fornecimento da farmácia para atender aos pedidos de medicamentos no ritmo da demanda. Eram os pedidos dos médicos que funcionariam como o “marca passo” de entrega. Verificou-se que se a farmácia operasse ao ritmo em que o medicamento era consumido teria que produzir e entregar um pedido a cada 3 minutos. Com uma meta bem definida, o grupo começou a rever os processos e a fazer experimentos para verificar a capacidade de operar a este ritmo. Um dia de trabalho foi suficiente para levantar uma série de impedimentos. Cada impedimento foi eliminado. As soluções incluíam modificar a disposição dos medicamentos nos estoques de acordo com a freqüência de uso, modificar os 69 horários de saída dos medicamentos da farmácia, rever a rota de distribuição no hospital, rever a disposição dos pedidos na cesta do entregador. Como resultado, a farmácia passou a processar lotes de pedidos a cada duas horas ao invés de a cada 24h e a incidência da falta de disponibilidade de medicamentos nas unidades de enfermagem caiu 88%. Em relação à farmácia, o tempo gasto na busca de medicamentos caiu 60% e a falta de estoque na farmácia diminuiu em 85%. O estoque de medicamentos diminuiu e os custos de medicação caíram, pois se reduziu a probabilidade dos medicamentos se perderem, estragarem ou se desperdiçarem. 2.4.2.4 Oferecer o que o paciente quer exatamente onde ele quer Não foi encontrado um caso em serviços de saúde para ilustrar este princípio. 2.4.2.5 Oferecer o que o paciente quer onde ele quer exatamente quando ele quer O princípio de oferecer o que o paciente quer exatamente quando ele quer tem implicações no dimensionamento da capacidade de atendimento. Num hospital isto se traduz na gestão do conflito entre atender casos de emergência e casos que podem esperar. O hospital Flinders apresentado no item 2.4.2.1 padecia deste problema, sua capacidade de atender cirurgias eletivas estava sendo comprometida pela demanda oriunda da emergência. A revisão dos processos de triagem e eliminação dos desperdícios nos processos de atendimento feita pelos próprios empregados envolvidos conseguiu reduzir os cancelamentos das cirurgias eletivas devido à indisponibilidade de camas em 83%. A questão de dimensionar a capacidade para atender a emergência sempre será um desafio. É preciso dar prioridade à emergência por se tratar de uma 70 questão de vida ou morte. A eficiência com que este processo é dimensionado permitirá dedicar recursos do hospital a outros tipos de demanda. O exemplo do Hospital São Lucas e do Hospital Mãe de Deus de Porto Alegre citados no item 2.4.2.2 mostra a preparação necessária para o atendimento de emergência. Esta preparação incluiu o entendimento processo da terapia trombolítica, a criação de um fluxo específico para o paciente sofrendo de AVCI, o acordo entre as diversas áreas funcionais e treinamento adequado. Cada tipo de paciente terá um fluxo específico. Cada fluxo poderá receber dois tipos de demanda: imediata ou programada. O desafio é coordenar e gerenciar e coordenar estas demandas com os diferentes fluxos. 2.4.2.6 Agregar continuamente soluções para reduzir tempo e aborrecimento do paciente Não foi encontrado um caso em serviços de saúde para ilustrar este princípio. 2.5 Medicina baseada em evidências Segundo artigo do JAMA35 (1992), um novo paradigma da prática médica está emergindo. Por paradigma entende-se uma maneira de olhar o mundo que define tanto os problemas a serem legitimamente estudados como o espectro de evidências admissíveis para solucioná-los. Quando as deficiências de um paradigma se acumulam a ponto de torná-lo insustentável, o paradigma é questionado e substituído por uma nova maneira de enxergar o mundo. A mudança em andamento na prática médica envolve o uso mais efetivo da literatura médica como guia das decisões clínicas e é, segundo este mesmo artigo, profunda o suficiente para designá-la como uma mudança de paradigma. Este paradigma tem recebido o nome de medicina baseada em evidências e é 35 JAMA: Journal of the American Medical Association. 71 definido por Sackett et al. (1996) como “o uso cuidadoso, explícito e acurado da melhor e mais atualizada evidência na tomada de decisão sobre o cuidado de determinado paciente”. Para Sackett et al. (1996) praticar a medicina baseada em evidência significa integrar a experiência clínica individual com a melhor evidência clínica externa disponível resultante de uma pesquisa sistemática. Por experiência clínica individual entende-se a habilidade e o julgamento que cada clínico adquire com o passar do tempo através do exercício de sua prática médica. Por melhor evidência externa entende-se uma pesquisa clínica relevante que indique a acurácia e a precisão dos diagnósticos, o poder de prognóstico, a eficácia e segurança das medidas de tratamento, reabilitação e prevenção. Dada a crescente produção de artigos científicos, uma evidência clínica relevante pode invalidar um teste diagnóstico previamente aceito e substituí-lo por um novo mais potente, mais eficaz e mais seguro. Pfeffer e Sutton (2006) afirmam que apenas 15% das decisões clínicas dos médicos são baseadas em evidências. Os autores listam uma série de outros fatores que não a evidência clínica externa para a tomada de decisões e que podem levar a resultados menos eficientes: • um conhecimento obsoleto do assunto por falta de atualização. Davidoff et al. (1995) afirmam que um médico dedicado para se manter atualizado em sua especialidade teria que ler 17 artigos por dia, 365 dias por ano36. • maior confiança na experiência pessoal e numericamente mais limitada em detrimento de pesquisas que são mais impessoais mas cuja amostra é mais significativa. • o viés da própria especialidade. Um especialista tende buscar a solução do problema no campo em que possui pleno domínio. • a exposição aos instrumentos de propaganda da indústria farmacêutica. Dada pressão de tempo e a quantidade de informações disponíveis, as pessoas se 36 Segundo estes autores, a medicina baseada em evidências procura oferecer ao clínico ferramentas de pesquisa para facilitar o acesso às informações relevantes. 72 utilizam de atalhos (também denominados de heurísticas) para encurtar o processo decisório. As decisões sobre que medicamento receitar podem ser tomadas baseadas na facilidade com que determinado produto vem à memória. É o que Tversky e Kahneman (1973) chamam de heurística da disponibilidade. Uma propaganda eficaz posiciona o produto na mente e pode influenciar a decisão de seu uso. • tradições cientificamente infundadas. • a pressão do cliente pela realização de exames e o risco de ser processado. Pfeffer e Sutton (2006) advogam pela transposição da filosofia e prática de medicina baseada em evidências para o contexto da gestão empresarial. Uma série de elementos da medicina baseada em evidências apresentam uma forte correlação com os princípios e as práticas lean até aqui apresentadas, conforme sintetiza o Quadro 2.9. Quadro 2-9: Paralelo entre a Medicina Baseada em Evidências e a Mentalidade Lean Medicina Baseada em Evidências Mentalidade Lean Novo paradigma da prática clínica Novo paradigma industrial (Bowen e (JAMA, 1992). Youngdahl, 1998) A partir do paciente são construídas Começar pelo cliente (Liker, 2004) as questões clínicas a serem Foco na geração de valor para o respondidas, e para ele, cliente (Hines et al., 2004) individualmente, os resultados serão aplicados, se forem válidos, importantes e úteis. (Gomes, 2001) Maior envolvimento do paciente Envolvimento do cliente (Duclos et al., (JAMA, 1992) 1995; Bowen e Youngdahl, 1998; Liker, 2004) 73 Medicina Baseada em Evidências Mentalidade Lean Centrada no desenvolvimento de um Utilização de processo de decisão médica com científica para ênfase nos aspectos científicos problemas (Spear e Bowen, 1999) uma abordagem solucionar os (Gomes, 2001) Protocolo busca a otimização dos Redução benefícios, redução de riscos e custos desempenho (Bowen e Youngdahl, na aplicação dos recursos existentes. 1998) (maior custo-efetividade) (Gomes, Eliminação dos desperdícios (Ritzman 2001) e Krajewski, 2004) Reduz as taxas de incerteza e de Eliminação condutas aleatórias na clínica processo (Spear, 2005) de das trade-offs ambigüidades de do (Gomes, 2001) Propõe reduzir as taxas de erros e Mecanismos e procedimentos para aumentar a qualidade do atendimento evitar e eliminar erros (Spear e (Gomes, 2001) Bowen, 1998; Womack e Jones, 2005; Spear, 2005) Gerar experimentos, testar hipóteses Propor experimentos (Spear, 2005) constantemente (Pfeffer e Sutton, 2006) Necessidade de constantes Melhoria contínua (Womack, 2004b) aperfeiçoamentos da prática (Gomes, 2001) Tem como tônica a educação Formação contínua (Duclos, 1995; permanente que leva a atualização Bowen e Youngdahl, 1998; Spear e constante do conhecimento e o Bowen, 1999; Canel et. al., 2000) aumento da experiência pessoal. (Gomes, 2001) Fonte: Elaboração do autor 74 2.6 Quadro Conceitual Características do Conceito Lean Uma mentalidade com a qual se encara o trabalho: • Voltada para a geração de valor ao cliente • Centrada no processo • Inconformada com todos os tipos de desperdício • Disposta a um esforço de aperfeiçoamento contínuo • Em busca de um processo perfeito Princípios da Provisão Enxuta Reduzir os trade-offs • de desempenho Busca simultânea de eficiência nas operações e flexibilidade para atender ao cliente • Reduzir lead times dos processos Eliminar as atividades • Reconhecer o que é valor para o cliente que não agregam valor • Busca sistemática de fontes de desperdício • Capacitar o profissional a melhorar seu trabalho enquanto o realiza • Padronização do processo Estabelecer fluxo • Reduzir as esperas contínuo, puxado pelo • Reduzir os lotes de processamento cliente • Aumentar a visibilidade dos problemas de produto/processo • Iniciar a operação sob demanda do cliente Envolvimento do • Efetiva participação do cliente no processo cliente • Permitir ao cliente que aprenda, controle e melhore o processo 75 Princípios da Provisão Enxuta Delegar poder aos • empregados Responsabilidade por resolver os problemas é dos empregados da linha de frente • Investir na formação dos empregados • Empregados propõem experimentos para aperfeiçoar o processo Princípios do Consumo Enxuto Resolver o problema • Entender o consumo como um processo que se do cliente desenvolve ao longo do tempo em colaboração completamente com o cliente • Identificar falhas em cada etapa do processo de consumo • Desenvolver mecanismos para eliminar as falhas pela raiz • Alta qualificação dos empregados que entram em contato com o cliente Não desperdiçar o • tempo do cliente Considerar o tempo do cliente como um elemento a ser otimizado no processo • Treinar empregados para atuar em múltiplas funções • Sincronizar os elementos do processo (informação, material, mão-de-obra, etc.) • Obter o máximo de informação sobre o problema no primeiro contato • Criar fluxos organização de trabalho previsíveis na 76 Princípios do Consumo Enxuto Oferecer exatamente • aquilo que o cliente quer Criar um único ponto de pedido para regular o sistema de provisão • Repor freqüentemente em pequenas quantidades • A reação da cadeia de suprimentos é ditada pelo ritmo de consumo • Localizar a produção e a distribuição o mais próximo possível entre si e do cliente Oferecer o que o • Ampliar oferta de canais cliente quer • Sistema único de provisão para estes canais • Cooperar com o cliente para identificar suas exatamente onde ele quer Oferecer o que o cliente quer, onde ele quer exatamente circunstâncias e atender suas necessidades • quando ele quer Desenvolver a capacidade de trabalhar com 2 tipos de necessidades: imediata e a planejar. • Estabelecer mecanismos de precificação diferenciado para ajustar os tipos de demanda com a capacidade disponível Agregar • continuamente soluções para reduzir tempo e aborrecimento do cliente Desenvolver soluções cada vez mais completas para o cliente • Racionalizar fornecedores para o cliente a base de 77 3 Metodologia Este capítulo tem como objetivo descrever a metodologia utilizada neste estudo. São apresentadas as razões que motivaram a escolha do tipo de pesquisa, a forma como os casos foram selecionados, a maneira como os dados foram coletados e as limitações deste método. 3.1 Tipo de pesquisa Existem inúmeras estratégias de pesquisa nas ciências sociais: experimento, levantamento, análise de arquivo, pesquisa histórica, estudo de caso, etc.. Segundo Yin (2001), a escolha de uma estratégia de pesquisa depende de três condições: 1) o tipo de questão da pesquisa proposto; 2) a extensão de controle que o pesquisador tem sobre os eventos comportamentais efetivos; 3) o grau de enfoque em acontecimentos históricos em oposição a acontecimento contemporâneos. A estratégia de pesquisa adotada será a do estudo de caso. Yin (2001) considera a estratégia de estudo de caso especialmente adequada para uma investigação empírica que faz “uma questão do tipo ‘como’ ou ‘por que’ sobre um conjunto contemporâneo de acontecimentos sobre o qual o pesquisador tem pouco ou nenhum controle”. A questão central desta pesquisa é: “Como se aplicam os princípios lean nos serviços de saúde?” A aplicação de princípios lean em serviços é um assunto recente na literatura e sua aplicação no âmbito dos serviços de saúde está em seu estágio embrionário. Trata-se, portanto, de um assunto contemporâneo. A incorporação destes princípios em qualquer operação seja de um bem ou um serviço é um fenômeno complexo, admitindo diversos graus. O pesquisador não tem nenhum controle sobre os acontecimentos que levam ou levaram à adoção destes princípios. Cabe ao pesquisador constatar o grau de aderência dos 78 processos que compõem as operações dos serviços de saúde aos princípios lean. Daí a escolha da estratégia do estudo de caso. Este estudo tem um caráter exploratório e descritivo. É exploratório porque na revisão de literatura não se encontrou evidência de trabalhos prévios relacionando princípios lean com serviços de saúde no Brasil. É também descritivo porque busca entender como os princípios são incorporados nas operações destas organizações. 3.2 Seleção dos casos Para o estudo foram selecionados cinco casos. Para se chegar às organizações que seriam objeto de estudo foram realizadas algumas entrevistas com pessoas que conjugavam conhecimentos na área de saúde, pela formação em saúde que tiveram ou por atuarem nesta área há muitos anos; e conhecimento gerencial, por terem feito alguma especialização em gestão ou por terem ocupado postos gerenciais. A estas pessoas foi-lhes explicado o objetivo do estudo e os princípios que se procurava analisar. Por se tratar de um assunto recente não se esperava encontrar alguma organização da saúde que se utilizasse explicitamente de princípios lean para organizar suas operações. No entanto, ao explicar os princípios lean, as pessoas entrevistadas foram capazes de indicar organizações cujas operações incorporavam de certo modo tais princípios. Nove organizações foram contactadas das quais cinco se prontificaram a participar do estudo. O objetivo do estudo não é o de fazer comparações entre as organizações nem estabelecer uma espécie de ranking em relação a práticas lean. Uma vez que o objetivo do estudo é verificar como os princípios lean se aplicam aos serviços de saúde nos seus diversos processos, selecionaram-se processos diferentes em cada organização. Assim evitou-se o desconforto e as possíveis resistências de uma perspectiva de comparações. Além disso, as organizações escolhidas estão inseridas em nichos de mercado diferentes e não competem entre si. 79 O Quadro 3.1 apresenta as organizações que foram estudadas, o processo analisado, as pessoas entrevistadas com seu respectivo cargo. Quadro 3-1: Casos selecionados Organização Processo Pessoa Cargo Pólo do Pé Atenção integral Dr. Jackson Chefe do pólo do pé Diabético ao pé diabético Caiafa diabético e idealizador do projeto Hospital Diagnóstico e Dr. André Pró-Cardíaco atendimento de Volscham Chefe da emergência Emergência Hospital Recepção e Dr. Badim atendimento de Marcelo Dibo Gerente administrativo Helaine Coordenadora de Miranda suprimentos Gestora de negócios cirurgia eletiva Hospital Suprimentos Copa D´Or Diagnóstico da Logística de coleta Fabiana América de exames Barini Carlos Inácio Especialista – da Silva Administração Alex de Sá Especialista - Logística 3.3 Coleta e tratamento dos dados Foram realizadas entrevistas pessoais com os responsáveis pelos processos selecionados. O roteiro da entrevista consistiu de perguntas abertas para melhor entender o funcionamento do processo a ser estudado além de permitir a inclusão de temas não previstos. 80 Cada pessoa foi entrevistada duas ou três vezes e cada entrevista durou cerca de uma hora. As entrevistas, feitas entre julho e agosto de 2006, foram gravadas, depois transcritas e a partir da transcrição foi redigido o caso. Quando disponível na Internet, foram utilizadas na elaboração dos casos informações retiradas de suas respectivas páginas eletrônicas. Os casos foram enviados aos entrevistados para validação. O tratamento e a análise dos dados seguiram as indicações de Yin (2001) buscando comparar as práticas adotadas nas organizações com o modelo teórico construído através da revisão de literatura. 3.4 Limitações do Método O método do estudo de casos apresenta algumas limitações. Por parte do pesquisador, existe a possibilidade de introdução de um viés nas descobertas e na interpretação dos fatos (“para um martelo tudo parece prego”). Além disso, não é possível separar e controlar todas as inúmeras variáveis que compõem cada caso. Por parte dos casos em si, pelo fato de tratar-se de uma amostra pequena, não existe fundamento estatístico para fazer generalizações. Do ponto de vista das entrevistas sobre as quais os casos foram elaborados, embora sejam uma fonte muito rica de informações, deve-se levar em consideração que os entrevistados também podem introduzir um viés pessoal na exposição dos fatos. Dado que os entrevistados eram os idealizadores ou gestores do processo em estudo prevê-se a tendência de frisar os aspectos positivos do processo. O viés do idealizador ou gestor do processo poderia ser mitigado com a realização de entrevistas com outros participantes do processo. Quanto maior o número de entrevistados melhor a percepção de como o processo está contextualizado na organização. No entanto, por se tratar de um estudo exploratório, fez-se uma opção por incluir um número maior de processos em detrimento de uma pesquisa em profundidade de cada processo. 81 4 Descrição dos Casos 4.1 Pólo do Pé Diabético 4.1.1 Diabetes Segundo Azevedo et al. (2002) o diabetes mellitus é um grupo de doenças metabólicas caracterizadas por uma incapacidade do organismo em manter a glicemia dentro dos limites normais, levando à hiperglicemia (excesso de açúcar) e a um metabolismo alterado de outras fontes de energia. O excesso de açúcar no organismo é causado pela deficiência na produção de insulina pelo pâncreas endócrino. A hiperglicemia crônica é a principal responsável pelas complicações tardias, com disfunção e falência de vários órgãos-alvo, especialmente olhos, rins, nervos, coração e vasos. Malerbi e Franco (1992) afirmam que o Brasil tem uma taxa de prevalência do diabetes comparável aos países desenvolvidos. Estimam que cerca de 7,6% da população brasileira na faixa etária de 30 a 69 anos seja portadora de diabetes mellitus, atingindo 17,4% na população acima de 70 anos. Azevedo et al. (2002) estimam que na população brasileira existam 5 milhões de pacientes diabéticos, sendo que aproximadamente um quarto desta população não recebe tratamento médico. O diabetes pode gerar dificuldades no fluxo sanguíneo. O diabético sente com freqüência dormência nos pés, sua pele fica fragilizada, os nervos malirrigados morrem e os músculos atrofiam, deformando os pés e causando feridas. Tais feridas podem levar à amputação do membro. Segundo o Dr. Caiafa, chefe do Pólo Secundário do Pé Diabético do Hospital da Lagoa, 27% do custo no tratamento do diabético está ligado ao tratamento dos pés, um custo que nos EUA corresponde a US$ 13 bilhões de dólares por ano. O pé diabético não é a única complicação que existe, mas é a que mais chama a atenção do paciente e o leva a buscar uma ajuda especializada. O 82 Projeto do Pé Diabético foi projetado para dar uma atenção integral ao paciente diabético. 4.1.2 Gênese do Pólo do Pé Diabético A gênese do Pólo do Pé Diabético pode ser traçada numa experiência vivenciada pelo Dr. Caiafa, médico vascular e idealizador do pólo, em que percebeu o quanto era falho o cuidado dispensado para estes doentes no hospital. O próprio Dr. Caiafa narra esta experiência: “Eu internei um doente, que tinha uma lesão grave na perna direita. Tive que amputá-la logo abaixo do joelho. A operação foi tecnicamente perfeita e a recuperação do doente evoluiu muito bem: a perna cicatrizou e 9 dias depois ele recebeu alta para casa. Para mim ele só voltaria ao hospital para retirar os pontos. Em nenhum momento eu entrei em detalhes de como é que ele chegou naquele ponto, nem entrei em detalhes de como ele iria - dali para frente - resolver o problema de ficar sem uma perna. Perguntas do tipo - Será que ele vai ter uma cadeira de rodas? Será que a cadeira passa pelas portas de sua casa? Será que depois de tanto tempo com infecção ele tem força para usar uma muleta? – estavam fora das preocupações de um médico de hospital. Seis meses depois o paciente dá entrada na clínica de novo, apresentando uma lesão por esforço repetitivo em ambos os joelhos. Surpreso perguntei ao doente como ele tinha machucado os joelhos. - Em casa eu não consigo andar de muletas, não passa cadeira de roda, eu moro sozinho, só consigo me locomover em casa de “gatinhas”. Em 6 meses, o joelho da perna boa tinha uma infecção tão grave que a perna precisaria ser amputada na altura da coxa. A partir daquela operação ele não poderia andar mais nem de “gatinhas”. Aquilo me chamou atenção de uma forma tal que me levou a refletir e a entender que eu falhei no processo. Até a primeira amputação eu tratei o paciente bem. Depois disso, cuidei dele mal. Não criei para o paciente um caminho para 83 que não se lesasse de novo. A partir daí surgiu a idéia de um ambulatório de pé diabético”. 4.1.3 O projeto do Pé Diabético O projeto do Pé Diabético visa dar uma atenção integral ao paciente com pé diabético. Para isto foi necessário criar um fluxo de atendimento ao paciente para otimizar: o o esforço do paciente, que apresenta dificuldades de locomoção, o o tempo de seus familiares, que acompanham o paciente, o os recursos do sistema de provisão do serviço médico. O cuidado com o paciente com pé diabético passa por 4 níveis de atendimento. 1º) Pólo primário de atendimento. É composto por 108 ambulatórios formando uma rede capilar de atendimento no município do Rio de Janeiro. Os ambulatórios são distribuídos geograficamente de maneira a facilitar o acesso da população. As principais atribuições dos ambulatórios são: captar os diabéticos da região, examinar e classificar o risco de cada paciente, prover uma educação continuada, tratamento básico da doença e cuidados especiais. Os ambulatórios atendem uma determinada região geográfica e se responsabilizam por captar o diabético desde muito antes de surgirem complicações. Cada ambulatório conta com uma equipe composta por um médico, um enfermeiro e um técnico de enfermagem que examinam cada paciente e lhe atribuem uma classificação de risco do pé. Esta classificação orientará a periodicidade com que deverá retornar ao ambulatório. Um paciente com grau 0 de risco, por exemplo, deve retornar de 6 em 6 meses. Estes ambulatórios provêem um cuidado preventivo e educativo à população. Quanto mais cedo se identifica a doença e se começa um processo de educação alertando para os riscos do diabetes maior a aderência a seu 84 tratamento. Consegue-se assim postergar e, muitas vezes, evitar as complicações, aliviando todo o sistema. O objetivo de cada ambulatório é tornar-se um local de referência para o diabético. No momento em que o paciente identifica qualquer problema – uma infecção ou nova lesão - ele vai ao ambulatório próximo de sua residência. A equipe de cada ambulatório foi treinada para acolher bem o paciente e oferecer todo apoio necessário no cuidado do diabetes. Se o paciente tiver dificuldade de cortar as unhas, por exemplo, seja por motivo de idade, obesidade, ausência de familiares, etc., o técnico de enfermagem irá cortar-lhe as unhas, lixar e hidratar o seu pé a cada 15 dias. Aproveitam-se estas visitas para oferecer uma orientação sobre os cuidados básicos que o diabético deve ter com a saúde, a higiene e a alimentação bem como, com a periodicidade recomendada, fazer a glicemia capilar e o controle do diabetes. Estes detalhes ganham a confiança do paciente que percebe o bom atendimento. 95% dos pacientes atendidos no ambulatório dão continuidade ao tratamento. A diretriz no pólo primário é atendimento imediato. Os retornos são todos programados, mas o paciente sabe que se surgir alguma emergência antes ele será atendido imediatamente. Caso não seja possível resolver a complicação no ambulatório, devido ao grau de risco que o pé do paciente se encontra ou a complexidade que o tratamento exigir, o paciente é encaminhado para o pólo secundário ou diretamente para o atendimento terciário, isto é, o hospital. 2º) Pólo secundário de atendimento. O pólo secundário foi criado para otimizar o atendimento dos pacientes com maior risco. Sem este pólo secundário, o paciente com uma complicação não tratável no ambulatório teria que marcar uma consulta num hospital. Pode esperar até 6 meses para ser atendido, período suficiente para perder uma perna. O pólo secundário foi projetado para atender este paciente em no máximo 48 horas. Na implementação do pólo secundário de atendimento, havia o medo de que o pólo seria sobrecarregado pela demanda advinda do atendimento primário. 85 Tal medo mostrou-se infundado devido às condições de atendimento no pólo primário. A capacitação das equipes foi chave para reduzir o fluxo de pacientes para o pólo secundário. Há 2 pólos secundários de atendimento: no Hospital da Lagoa e no Hospital do Andaraí. Cada pólo conta com uma equipe multidisciplinar mínima com 6 tipos de profissionais: médico angiologista ou cirurgião-vascular, endocrinologista, enfermeiro, nutricionista, psicólogo e fisioterapeuta. O modelo de atendimento nos pólos secundários foge ao tradicional modelo de um consultório para cada profissional. O paciente não marca uma consulta com um endocrinologista, outra com o psicólogo, outra com o médico vascular, etc.. O paciente marca um horário de atendimento no pólo e é encaminhado para um “box” de atendimento. Não é o paciente que vai ao médico, mas o médico que percorre cada “box” para atender ao paciente. A distribuição espacial dos “boxes” permite a interação dos pacientes, o que facilita a troca de experiências e minimiza ansiedades. Este modelo otimiza tanto o tempo do paciente como o do médico. Numa consulta o paciente pode ser atendido por 6 profissionais e passar por 6 procedimentos. Numa manhã, o médico endocrinologista do pólo secundário, por exemplo, pode atender mais pacientes do que num regime de consultório. Por estar localizado num hospital, caso se perceba a necessidade de um exame nefrológico ou oftalmológico, o paciente pode ser facilmente encaminhado para a respectiva área. O pólo secundário também realiza cirurgias mais simples (não vasculares) o que alivia o fluxo de pacientes para o atendimento terciário. Foi o conhecimento aprofundado da situação do paciente de pé diabético que permitiu a incorporação deste procedimento no pólo secundário. Nas palavras do próprio Dr. Caiafa em seu depoimento sobre o Pólo Secundário do Pé Diabético: “A principal causa do pé diabético é a neuropatia. Esta neuropatia atinge o músculo que deforma o pé, tira-lhe a sensibilidade e gera pontos de pressão e úlceras. Após 25 anos de formado fui entender a profundidade desta neuropatia. Ela permite que opere o doente sem a anestesia. O principal gargalo para fazer 86 uma amputação de dedo era a indisponibilidade de um anestesista. Hoje amputamos até parte do pé aqui ao invés de interná-lo no hospital”. Para que um paciente possa ser amputado no pólo secundário deve reunir um conjunto de condições: estar clinicamente apto para submeter-se à cirurgia proposta, ter neuropatia (não sentir dor), ter acompanhante, poder voltar ao pólo todos os dias para fazer o curativo. Mais de 60% dos pacientes reúnem estas condições. Fazer a cirurgia no próprio pólo secundário apresenta uma dupla vantagem. Do ponto de vista do sistema de saúde, representa uma grande economia por evitar os gastos com internações. Do ponto de vista do paciente, representa segundo o Dr. Caiafa “uma humanização brutal em seu atendimento”. Esta humanização se dá, pois o paciente cria um laço com os profissionais do pólo que darão continuidade nos seus cuidados e, principalmente, por não ter que se separar da família durante a cirurgia (como ocorre num caso de internação hospitalar). A questão da separação da família é particularmente sensível em pacientes idosos por trazer complicações psicológicas adicionais. Quando a cirurgia é realizada no pólo secundário tais complicações são minimizadas. O paciente permanece no pólo secundário até o momento em que retorna ao nível de risco tratável no pólo primário. Caso o paciente precise passar por uma cirurgia vascular ele é preparado e encaminhado para a internação hospitalar. 3º) Atendimento terciário. Trata-se da internação hospitalar. Graças à integração com o pólo secundário que cuida do paciente antes e depois da operação é possível reduzir o tempo total de internação e, conseqüentemente, de consumo de recursos do hospital. Libera-se o leito mais rapidamente aumentando o giro dos leitos. O fluxo otimizado de atendimento ao paciente com pé diabético passando pelo primeiro e segundo níveis de atendimento tem reduzido o número de amputações altas. O Quadro 4-1 demonstra a redução do nível de amputações altas de pacientes oriundos do pólo secundário de atendimento, realizadas no 87 Hospital da Lagoa. Segundo o Dr. Caiafa, um nível considerado referência mundialmente é de 10% e o projeto tem condições de atingi-lo se melhorar a integração com o hospital. Quadro 4-1: Evolução dos índices de amputação alta Ano Amputação Amputação Outros Internação alta baixa proc. clínica 2003 34,1% 39,0% 4,9% 22,0% 2004 21,7% 44,4% 11,1% 22,7% 2005* 20,6% 38,1% 17,5% 23,8% * Dados até agosto de 2005 Fonte: Núcleo de Epidemiologia do Hospital da Lagoa Número de procedimentos 41 198 63 4º) Atendimento quaternário. Após uma amputação, o estilo de vida do paciente se altera consideravelmente. O paciente precisa ser orientado nesta nova etapa e precisa de próteses (no caso de amputação alta) ou de um calçado especial (órteses, no caso de amputações baixas). Quando se utiliza um sapato adequado, o pé volta a apresentar úlceras em 20% dos casos. Quando não se usa um sapato adequado, novas úlceras aparecem em 99% dos casos. O Projeto do Pé Diabético conseguiu assinar um convênio entre a Prefeitura e a Associação Brasileira Beneficiente de Reabilitação (ABBR) para fornecimento dos sapatos especiais37. Toda vez que um paciente precisa de um sapato especial, um técnico da ABBR vai ao pólo secundário e faz um sapato sob medida para o paciente. O sapato é entregue ao paciente após a aprovação do médico38. 4.1.4 Educação continuada A questão da educação continuada para o paciente e sua família é um dos pilares do projeto. Em todos os níveis de atendimento esta preocupação está 37 A ABBR devia dinheiro para a Prefeitura e não tinha como pagar e passou a fazer os sapatos especiais para saldar sua dívida. 38 A ABBR é especialista em sapatos ortopédicos. No entanto, estes sapatos não se adaptam ao diabético. Houve um processo de aprendizagem para a fabricação de sapatos especiais para diabéticos. No início do convênio, 70% dos sapatos feitos sob medida voltavam devido a erros. Hoje, 10% voltam. 88 presente. No atendimento primário, a enfermeira é chamada de enfermeira educadora. No pólo secundário, a sala de espera funciona como auditório. Aproveita-se a espera para sensibilizar o paciente dos cuidados que deve ter com o pé, o rim, a necessidade de consultar um oftalmologista ao menos uma vez ao ano. No atendimento terciário, a psicóloga e a assistente social são preparadas para atender os pacientes no hospital. 4.1.5 Capacitação do pessoal de atendimento A capacitação das equipes em cada nível de atendimento é fundamental para o sucesso do projeto. Quanto melhor a qualidade de atendimento na ponta, menores as complicações para o paciente e menor o fluxo de pacientes para os níveis mais elevados de atendimento. Para garantir a qualificação dos profissionais foi elaborado processo de treinamento constante. Para o Dr. Caiafa, o grande diferencial do projeto é a mudança de mentalidade da equipe ambulatorial antes de começar o projeto. Isto se consegue através de um treinamento presencial forte. Entre o pólo primário (108 ambulatórios) e o secundário (2 pólos) de atendimento existem 4 pólos intermediário voltados para o treinamento e análise constante dos fluxos dos pacientes. Uma vez por ano, cada equipe dos ambulatórios passa uma semana no pólo intermediário para um re-treinamento. Este treinamento também funciona para integração dos níveis. As equipes da periferia conhecem exatamente para onde encaminham seus pacientes e sabem que serão bem atendidos. Segundo o Dr. Caiafa, após o treinamento as equipes saem motivadas e “passam a acreditar que é possível fazer algo diferente no serviço público”. 4.1.6 Próximos passos Os idealizadores do Projeto do Pé Diabético têm planejado uma série de iniciativas para melhorar a efetividade no tratamento: 89 o Implementar um sistema de informação que integre todos os níveis de atendimento. Com este sistema será possível rastrear cada atendimento. o Ampliar a capacidade de cirurgias ambulatoriais nos pólos secundários. Isto desafogaria as emergências dos hospitais públicos. o Reforçar o processo de capacitação e treinamento das equipes. 90 4.2 Atendimento de emergência no Pró-Cardíaco 4.2.1 Introdução O Hospital Pró-Cardíaco foi fundado em 1959 e tem como objetivo ser referência absoluta em medicina de alta complexidade no Brasil. Possui uma unidade de Emergência, uma unidade de terapia intensiva, uma unidade coronariana e uma unidade Pós-Operatória. Foi o primeiro hospital a organizar uma unidade de dor torácica no país. Primeiramente, serão apresentados as decisões e os respectivos riscos incorridos num hospital de alta complexidade. Em segundo lugar, serão descritas as bases sobre as quais o Pró-Cardíaco se apóia para prestar um serviço de excelência: a qualificação do pessoal e a estratégia de sistematização do atendimento. Em seguida, será apresentada a lógica do diagnóstico baseado em evidências para então explicar o funcionamento do protocolo de atendimento de dor torácica desenvolvido pelo hospital. Finalmente, será descrita a preocupação do Pró-Cardíaco pela melhoria contínua da prática clínica. 4.2.2 Decisões sob risco Quando um paciente sofrendo de dor torácica chega a um hospital, dois encaminhamentos não desejáveis podem ocorrer: 1) o paciente é liberado, isto é, mandado de volta para casa e algum tempo depois sofre de um problema que deveria ter sido identificado no hospital; 2) o paciente é internado num hospital de alta complexidade e não apresenta nenhum problema merecedor de internação. No primeiro caso ocorreu um erro que, além de prejudicar o paciente, atinge diretamente a reputação do hospital. No Pró-Cardíaco, é precisamente sua reputação que lhe permite cobrar um preço premium pelos seus serviços. No segundo caso ocorrerá um desperdício de tempo e de dinheiro não desprezível das pessoas envolvidas, uma vez que houve internação de um “pseudo-paciente” 91 num hospital de alta complexidade. Portanto, o encaminhamento de um paciente com dor torácica sempre envolve uma decisão sob risco. Para evitar estes extremos não é viável realizar todos os exames existentes e assim se chegar a uma certeza absoluta sobre qual o melhor encaminhamento: a internação ou a liberação. A inviabilidade de se realizar todos os exames se dá por motivos econômicos e por motivos de tempo. Por um lado, a proliferação de exames é uma das causas da ineficiência nos serviços de saúde39. Por outro lado, muitas vezes o estado do paciente é tão grave que não há tempo hábil para realizar todos os exames. Além disso, em medicina, não existe certeza absoluta, não existe risco zero. Portanto, é necessário trabalhar com o conceito de custoefetividade. Para minimizar os erros é necessário qualificar ao máximo a assistência, que deve saber os exames a pedir e o grau de certeza que estes exames fornecem. Trata-se de estabelecer procedimentos que subsidiem os médicos com as informações necessárias para atingir níveis razoáveis de certeza na tomada de decisão. Este é o objetivo da medicina baseada em evidências e sob esta óptica o Hospital Pró-Cardíaco estrutura suas operações. 4.2.3 Excelência no atendimento O Pró-Cardíaco prima pela excelência no atendimento e para atingi-la depende da qualificação de seu pessoal e de uma estratégia de sistematização de atendimento. A preocupação pela capacitação e pela valorização do pessoal é permanente e se manifesta através da contínua aprendizagem científica, tecnológica e humana a que se submetem seus colaboradores. A equipe da unidade de emergência é composta por cardiologistas, todos certificados pelo Advanced Cardiac Life Support, um curso voltado para o atendimento emergencial dos cuidados cardiovasculares. Há uma discussão 39 Segundo artigo do The Economist (December 17th, 2005), médicos estimam que até 15% das rotinas de exame requisitadas são desnecessárias. A principal função destes exames é resguardar o médico de ações judiciais (a chamada medicina preventiva). Os EUA gastam um furacão Katrina por ano (R$ 200 bilhões de dólares) com processos judiciais relacionados com os cuidados da saúde. 92 periódica de todos os casos e uma discussão quinzenal dos casos considerados mais difíceis. A equipe é incentivada a aprimorar a prática clínica de acordo com as novidades que surgem da literatura, mantendo-se assim constantemente atualizada. A necessidade de qualificação do pessoal se reforça quando se leva em consideração as características peculiares do Pró-Cardíaco. O nicho de mercado no qual este hospital se insere atinge pacientes (e seus familiares) com boa capacidade intelecto-cognitivas que, por um lado, são extremamente sensíveis a explicações dos procedimentos a serem realizados e, por outro lado, possuem elevada expectativa quanto a resultados. No treinamento dado aos envolvidos no processo frisa-se o desenvolvimento da capacidade de explicar bem por que e como serão realizados os procedimentos, o expertise técnico do procedimento, a rapidez na resposta ao chamado, a empatia com relação à situação do paciente. Procura-se efetivamente envolver o paciente, explicando-lhe cada uma das etapas do processo e fazendo-o participar da tomada de decisão. A estratégia de sistematização do atendimento parte da medicina baseada em evidências e procura dar um caráter objetivo ao processo de decisão médica que é subjetivo. Para tanto se desenvolve um protocolo de atendimento, isto é, uma padronização na forma de atender cada paciente. A unidade de emergência é sistematizada com rotinas clínicas bem definidas de dor torácica e sepse. No Pró-Cardíaco, o primeiro protocolo a ser desenvolvido foi o de dor torácica (DT). Introduzido em 1996 a partir da experiência do Hospital St. Agnes em Baltimore (EUA), este protocolo vem sendo desde então sistematicamente revisto e melhorado. O objetivo inicial do protocolo era evitar que os pacientes recebessem alta com risco de infarto ou que um paciente sem risco fosse admitido num hospital complexo e caro. Com este protocolo procura-se também atingir uma estratégia de custo-efetividade, isto é, atender o paciente com o menor custo e com a maior precisão possíveis. Segundo o chefe da emergência do PróCardíaco: “Se é a melhor estratégia custo-efetiva eu não sei. Não conheço ainda uma estratégia de avaliação metodologicamente correta que consiga me provar o custo-benefício das unidades de DT da forma como elas são implementadas. 93 Estou falando de custo-benefício... Agora, que é o melhor método para chegar a esse objetivo inicial de fazer uma boa prática clínica, isto não tenho a menor dúvida”. 4.2.4 A lógica do diagnóstico baseado em evidências Segundo Jaeschke et al. (1994) o ponto de partida de qualquer processo de diagnóstico é o paciente apresentando uma série de sintomas e sinais. O conjunto de sinais e sintomas leva a um diagnóstico clínico e a atribuição de uma probabilidade pré-teste do paciente apresentar determinada doença. Via de regra, esta probabilidade pré-teste é insuficiente para definir o encaminhamento do paciente. Faz-se necessário continuar a investigação através de um teste diagnóstico. Maia e Cunha (2001) afirmam que um teste diagnóstico é todo procedimento complementar que ajuda a confirmar ou refutar um diagnóstico clínico. O teste diagnóstico pode ser um exame laboratorial, funcional ou de imagem. O que estes testes fazem é modificar a probabilidade pré-teste gerando uma nova probabilidade pós-teste facilitando a tomada de decisão clínica. A direção e a magnitude da mudança da probabilidade pré-teste vai depender das propriedades do teste. Uma destas propriedades é conhecida como a razão de verossimilhança (RV) e indica o quanto um teste diagnóstico aumenta ou diminui a probabilidade pré-teste de uma doença. Este valor está em função da acurácia do teste, isto é, da sua capacidade de gerar resultados verdadeiros. Os valores da RV são obtidos comparando o teste diagnóstico com o teste considerado ideal ou padrão. O teste ideal nem sempre é exeqüível por ser mais invasivo, mais caro, necessitar de uma tecnologia não disponível ou exigir mais tempo do que se dispõe. Daí a necessidade de utilizar um teste alternativo. O nomograma de Fagan, representado no Quadro 4.2, é uma ferramenta bastante utilizada para calcular a probabilidade pós-teste a partir do valor da RV. A linha da esquerda representa a probabilidade pré-teste, a linha do meio apresenta 94 os diferentes valores da razão de verossimilhança e a linha da direita representa a probabilidade pós-teste. Para se chegar à probabilidade pós-teste basta traçar uma linha que liga a probabilidade pré-teste com o valor da razão de verossimilhança e verificar em que ponto ela cruza a linha de probabilidade pósteste. Quanto maior o valor da RV maior a sua utilidade para confirmar a doença. Quanto menor o valor da RV maior a sua utilidade para excluir a doença. Por exemplo, se a probabilidade pré-teste de uma doença é de 70% e se realiza um teste diagnóstico cuja RV é 10, a probabilidade pós-teste da doença é de 96%. Este valor pode ser suficiente para o clínico decidir prosseguir com o tratamento. Se a probabilidade pré-teste de uma doença é de 30% e se realiza um teste diagnóstico cuja RV é 0,1, a probabilidade pós-teste da doença é de 3%. Este valor pode ser suficiente para o clínico decidir liberar o paciente. Da conjugação da probabilidade pré-teste com o valor da RV do teste diagnóstico é que se determina a utilidade de se realizar ou não este teste diagnóstico para determinado paciente. O que se busca é selecionar os testes que gerarão impacto significativo fornecendo ao clínico o maior grau de certeza possível para a tomada de decisão tanto no sentido de confirmar a existência da doença e prosseguir com o tratamento como no sentido de excluir a existência da doença e mandar o paciente para casa. Caso o teste diagnóstico não traga um grau de certeza razoável é necessário continuar o processo diagnóstico com outros exames. 95 Quadro 4-2: Nomograma de Fagan Um teste diagnóstico com razão de verossimilhança (RV) igual a 10, por exemplo, é adequado para confirmar a presença de determinada doença. Este teste modifica a probabilidade pré-teste de 70% para uma probabilidade pós-teste de 96%. Um teste diagnóstico com RV igual a 0,1 é adequado para excluir a presença de determinada doença. Uma probabilidade pré-teste de 30%, por exemplo, após a aplicação do teste modifica a probabilidade do paciente ter a doença para 3%. Estes novos valores pós-teste subsidiam os médicos com maiores informações e elevam os níveis de certeza para a tomada de decisão clínica. No caso do Hospital Pró-Cardíaco que lida com doenças complexas com elevado risco de vida, a estratégia de escolha e seqüência dos exames é crítica 96 para um atendimento custo-efetivo. Para isto foi desenvolvido o protocolo de atendimento de dor torácica. 4.2.5 O protocolo de atendimento de dor torácica A dor torácica pode ser causada por uma série de problemas: síndrome coronariana aguda (infarto agudo de miocárdio, angina instável), síndrome aórtica aguda, embolia pulmonar. Quando um paciente com dor torácica chega ao PróCardíaco realiza-se uma classificação da sua dor. Neste momento procura-se colher o máximo de informação possível40: data e hora de início da dor, duração da dor no momento da admissão do paciente, duração do episódio mais intenso, localização da dor, qualidade da dor, intensidade, irradiação, desencadeamento, dor prévia, sintomas associados, levantamento de fatores de risco e história clínica, medicações em uso, entre outros. Estas informações permitirão classificar a dor do paciente em uma de 4 categorias: A – dor definitivamente anginosa B – dor provavelmente anginosa C – dor provavelmente não anginosa. D – dor definitivamente não anginosa. As 4 categorias de dor obedecem a uma classificação decrescente da probabilidade desta dor torácica ser de origem cardíaca e, consequentemente, decresce a complexidade de investigação e tratamento do paciente. A classificação da dor permite estabelecer uma probabilidade clínica do tipo de doença, mas não é suficiente para definir o melhor encaminhamento para o paciente. A realização de alguns testes (eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma) e exames laboratoriais são necessários para jogar a probabilidade pós-teste do paciente ter determinada doença o mais próximo de 100% para interná-lo ou de 0% para liberá-lo. A anamnese cuidadosa, isto é, o levantamento detalhado de informações, juntamente com os testes e exames laboratoriais são primordiais para a alocação 40 Na linguagem médica, este procedimento de coleta de informações é denominado de anamnese. 97 do paciente numa das rotas de atendimento. Esta rota define o fluxo do paciente no hospital. Na definição do Pró-Cardíaco: “a rota é a maneira mais objetiva, rápida e custo-efetiva de se chegar ao diagnóstico e tratamento do problema que motivou a admissão do paciente à unidade de emergência e obter resolutividade clínica”. Por exemplo, para se chegar ao diagnóstico de infarto agudo de miocárdio, dois testes realizados em paralelo são fundamentais: o eletrocardiograma (ECG) e um exame de sangue. Se o paciente tiver um padrão eletrocardiográfico em que o segmento ST encontra-se elevado41, o paciente entra na Rota 1 e é encaminhado diretamente para a sala de hemodinâmica. É preciso desobstruir a artéria do paciente o mais rápido possível. Isto significa que dor tipo A (dor definitivamente anginosa) com elevação de ST resulta numa probabilidade pós-teste do paciente ter infarto agudo de miocárdio maior que 99%. Se o paciente não tiver uma alteração tão específica em seu ECG, é alocado para a Rota 2. Ainda considera-se que tem alta probabilidade de ter infarto. Para a Rota 3, é alocado um paciente com um ECG normal e uma dor tipo C (dor provavelmente não anginosa). A probabilidade de se ter uma doença coronariana assim como a complexidade da intervenção decresce de rota para rota. Para completar o diagnóstico de infarto, é fundamental uma análise de sangue que detecte a elevação dos níveis de 2 enzimas42 do miocárdio. Num infarto, as células mortas do miocárdio liberam estas 2 enzimas. Um exame positivo que acusa a presença destas enzimas joga a probabilidade pós-teste de infarto próximo a 100%; um exame negativo, a próximo de 0%. Portanto, este exame de sangue é muito bom tanto para excluir como para confirmar a ocorrência de um infarto agudo de miocárdio43. Na ausência das enzimas, 41 Em linguagem médica: Supra de ST. Estas enzimas são conhecidas como os marcadores de necrose do miocárdio: troponina e creatinofosfoquinase 43 Isto se dá porque o teste das enzimas tem um alto valor preditivo positivo e um alto valor preditivo negativo. O valor preditivo positivo é a probabilidade da doença em um paciente cujo resultado do teste foi positivo. O valor preditivo negativo é a probabilidade de o paciente não ter a doença quando o resultado do teste é negativo 42 98 submete-se o coração a uma estratificação funcional que verifica sua capacidade de suportar as atividades diárias. Conforme o resultado, o paciente ou é submetido ao cateterismo ou é liberado. De maneira semelhante, conjugando os diversos testes e exames de acordo com seus valores de razão de verossimilhança se procura atingir um alto nível de certeza sobre a presença ou ausência das outras doenças (Síndrome Aórtica Aguda na Rota 4A e embolia pulmonar na Rota 4B) e assim encaminhar o tratamento através do cateterismo ou a liberação do paciente. O Quadro 4.3 ilustra o protocolo de atendimento da dor torácica. O diagnóstico e o tratamento de problemas oriundos de dor torácica exigem intervenções tempo dependentes. O fator tempo é crítico para a resolutividade dos problemas e está incorporado em todos os processos. Na rota 1, por exemplo, o tempo percorrido para efetivar o diagnóstico e o tratamento (realizar a angioplastia na artéria) é de 60 minutos. Já para a rota 2 ou 3, o diagnóstico demora 8h, pois faz-se necessário esperar os resultado dos exames. Para garantir a pronta disponibilização dos exames o hospital Pró-Cardíaco trabalha em parceria com o laboratório Lâmina Medicina Diagnóstica. Este laboratório tem uma rotina com tempos bem especificados para cada etapa do exame. Para o exame de sangue que detecta a presença de enzimas liberadas pelo miocárdio, por exemplo, o Lâmina tem 50 minutos para apresentar o resultado dos exames: 3 minutos para atender a chamada, 10 minutos para a coleta de sangue, 10 minutos para a centrifugação, 20 minutos para o processamento, 4 minutos para a análise dos resultados, 3 minutos para a liberação dos resultados. 99 Quadro 4-3: Protocolo de Dor Torácica do Hospital Pró-Cardíaco Legenda Exames Sintomas ECG: Eletrocardiograma DT: Dor torácica ECO: ecocardiograma BRE: Bloqueio do ramo esquerdo transtorácico Doenças TE: Transesofágico SAA: Síndrome Aórtica Aguda MNM: marcadores de necrose EP: Embolia Pulmonar miocárdica Encaminhamento TC: Tomografia computadorizada AR: Alto Risco RM: Ressonância Magnética Internação Æ CAT: Cateterismo Cint Pulm: Cintilografia Pulmonar LiberaçãoÆ Ausência de SIA: Síndrome isquêmica aguda 100 4.2.6 Melhoria Contínua O protocolo de dor torácica de 10 anos atrás é bem diferente do atual. A experiência e o aprendizado levaram a sucessivas alterações e melhorias no protocolo. Há 10 anos, por exemplo, o exame de sangue detectava a presença de 4 enzimas e era realizado 4 vezes: no momento da admissão, 3 horas depois, 6 horas depois e 9 horas depois. O primeiro passo foi perceber que uma enzima, a mioglobina, não contribuía para aumentar a precisão no diagnóstico. Esta enzima foi eliminada dos exames. Num segundo momento, ao passar de 4 para 3 enzimas foi estabelecido que seriam feitos 3 exames: na admissão, com 3 horas e com 9 horas. Estudos mostraram que até a 8ª hora as enzimas já eram detectadas. Como a maioria dos pacientes chegam ao hospital pelo menos 2 horas após o início da dor, bastaria fazer o exame na 6ª hora após a entrada no hospital. Hoje só é necessário colher 2 exames, no momento da admissão e 6 horas depois, e basta a análise de 2 enzimas para diagnosticar o infarto. Reduziram-se o número de exames, a quantidade de enzimas analisadas e o tempo para tomada de decisão. Dada a complexidade do protocolo e a necessidade de atingir altos níveis de confiança nos resultados dos exames, qualquer alteração envolve muita discussão e a obtenção de consenso de todos os envolvidos. Trata-se, portanto, de um processo longo. Atualmente, a unificação da rota 2 e 3 é percebida como uma oportunidade de melhoria. Em termos de investigação não há muita diferença entre as duas rotas. A rota 2 incorpora o ecocardiograma, a rota 3 não. Os doentes da rota 2 e 3 diferem entre si também pela abordagem farmacológica. A vantagem desta unificação consistiria na redução de complexidade do protocolo e maior padronização na investigação dos pacientes. Segundo o chefe da emergência do Pró-Cardíaco: “Através de bom senso, de uma coleta detalhada de informações, de muita discussão com as pessoas envolvidas se aperfeiçoa este protocolo.” Uma análise de custo-efetividade para os eventos intra-hospitalares mostra um real progresso no protocolo atual em comparação com o primeiro de 10 anos 101 atrás. No entanto, como frisou o chefe da emergência, é preciso incorporar uma medida de efetividade do tratamento após a alta hospitalar. Ainda não existe uma ferramenta para fazer este acompanhamento. 102 4.3 O processo de atendimento no Hospital Dr. Badim 4.3.1 Introdução O Hospital Dr. Badim (HDB) entrou em operação no ano 2000. Está localizado na Tijuca, possui 85 leitos (28 na CTI, 3 na emergência e 54 nos andares), opera com um corpo clínico aberto, conta com 400 funcionários e tem como filosofia “o paciente em primeiro lugar44”. Sua proposta é oferecer um serviço de alta capacidade técnica, seguro e, ao mesmo tempo humanizado. Será estudado como esta filosofia se traduz em seu processo de atendimento. O processo de atendimento de um hospital tem um grande impacto tanto do ponto de vista do paciente que consome um serviço de saúde como do ponto de vista das operações do hospital que provêem este serviço. Para o paciente, o atendimento corresponde ao primeiro “momento da verdade” da sua relação com o hospital e estabelece uma primeira impressão da qualidade do serviço prestado. Para o hospital, o processo de atendimento fornece uma série de informações que disparam outros processos como reserva de vagas, autorização do convênio, faturamento, transferência do paciente para outro hospital, marcação de exames internos e externos, entre outros. Primeiramente, será apresentada a maneira como o processo de atendimento afeta o Hospital Dr. Badim (HDB). Em seguida, serão descritos os problemas com os quais o hospital se deparava derivados deste processo e a solução adotada. Finalmente, será dado um exemplo da reformulação de um processo de atendimento implementado no hospital. 44 Extraído do site: http://www.badim.com.br/filosofia.htm Acesso em: 11 de agosto de 2006 103 4.3.2 Atendimento no Hospital Dr. Badim O Hospital Dr. Badim (HDB) trabalha com a máxima de que “a primeira impressão” é a que fica. Se num primeiro momento de interação com o paciente ocorre alguma falha que cause certa frustração (demora no atendimento, falta de uma orientação adequada, informações imprecisas, etc.), há grande probabilidade de o paciente ter uma predisposição de enxergar os outros processos de forma negativa. A reversão desta impressão é muito custosa. No HDB há quatro maneiras distintas de acesso ao hospital, cada qual obedecendo a um fluxo e um tipo de interação diferente: 1) o paciente chega para a emergência; 2) o paciente chega para um procedimento eletivo (préprogramado); 3) um acompanhante ou uma visita quer ter informação/ver o paciente; 4) via telefone. Os colaboradores que compõem a recepção são os que se responsabilizam por este primeiro atendimento. Emergência Ao receber um paciente para a emergência é necessário esclarecer duas informações importantes: a) o que o hospital pode oferecer; b) se o que o hospital oferece ele pode comprar. Qualquer ruído na comunicação envolvendo estas duas informações gera frustração para o paciente, ineficiência para o hospital e constrangimento para ambos. Se uma paciente precisa dos cuidados de um ginecologista e não há ginecologista de plantão, se necessita de uma tomografia e o tomógrafo por algum motivo não está disponível no momento, não adianta dar entrada no hospital (será necessário dar o primeiro atendimento ao paciente e encaminhá-lo a outra unidade assegurando a continuidade da assistência). Se um paciente possui determinado plano de saúde é preciso, antes de aceitar o paciente, saber de que tipo é e se o hospital é coberto por este plano. No caso de não haver vaga no hospital para um paciente de emergência é preciso garantir o suporte à vida, a continuidade no tratamento e sua transferência para outro hospital. É a recepção que buscará uma vaga em outro hospital. No caso inverso, outro hospital quer transferir um paciente para o HDB, é a recepção 104 que se encarrega de todo o trâmite legal para a transferência (autorização do convênio, solicitação de vaga, contato com médico). Uma vez que o paciente é aceito no hospital é a própria recepção que se responsabiliza por gerenciar cada etapa de atendimento: o gerar o formulário de atendimento, que alimenta o sistema de faturamento; o conseguir do convênio a autorização e a senha para cada exame médico a ser realizado; o se for necessário fazer algum exame fora do hospital, contatar a ambulância; o no caso de internação, é preciso obter uma vaga dentro do hospital o fechamento da conta do cliente. Por gerar os formulários de atendimento, a recepção tem um papel fundamento no sistema de faturamento do HDB. Cada atendimento, cada convênio tem um formulário de atendimento específico. O preenchimento tardio ou incompleto do formulário de atendimento gera glosa, isto é, não pagamento do atendimento e, consequentemente, afeta diretamente o fluxo de caixa do hospital. Cirurgias eletivas As cirurgias eletivas são procedimentos pré-programados cuja realização bem-sucedida depende da coordenação de várias partes: a fonte pagadora, que precisa autorizar o procedimento; o médico externo, que precisa programá-lo com antecedência; o cliente, que precisa ter toda a documentação em ordem para internação. Sem um conhecimento de cada parte do processo, sem um responsável por integrar todas as partes, introduz-se a falta de sincronização entre pessoas, informações e materiais o que gera frustração para todos os envolvidos. O processo de atendimento das cirurgias eletivas deve impedir que isto aconteça. O último item deste caso descreve como o HDB redesenhou seus processos para criar sincronia entre estes elementos. 105 Clientes acompanhantes Sem a devida orientação, os clientes que acompanham os pacientes podem causar um transtorno à operação do hospital. Cabe à recepção coordenar a chegada, a entrada, a permanência e a identificação destes clientes. O cuidado em fornecer a informação precisa ao cliente acompanhante – em que quarto se hospeda o paciente, se já saiu ou se permanece da CTI, seu estado de saúde – é fundamental para suavizar expectativas e evitar “choques” inesperados (que podem inclusive gerar processos judiciais). A orientação completa sobre exatamente o que o plano de saúde cobre em relação ao acompanhante e ao paciente (pernoite, refeições, TV, etc..) precisa ser dada antecipadamente ao cliente e deve orientar a hotelaria para que prepare o quarto devidamente. Todo aspecto de gestão da informação está incluído neste processo de atendimento e fica a cargo da recepção. Atendimento Telefônico Novamente, informações precisas e conhecimento de todo o processo são fundamentais para impactar positivamente o cliente que chama por telefone. Não basta ter uma telefonista. Quem se responsabiliza por este atendimento precisa um conhecimento mais aprofundado do negócio: escala de ambulatório, tipos de convênio, o que cada convênio atende, etc.. 4.3.3 Problemas no processo de atendimento O processo de atendimento no HDB evidenciava uma série de problemas cujos sintomas eram a insatisfação do paciente, as reclamações constantes do corpo clínico, glosa (não pagamento) e práticas anti-éticas por parte das recepcionistas, sendo que estes dois últimos afetavam diretamente o fluxo de caixa do hospital. A insatisfação do paciente era gerada pela descortesia no atendimento, pelos longos tempos de espera entre as diversas etapas, pelas “surpresas” 106 desagradáveis no decorrer do processo. Era freqüente o paciente descobrir (numa hora inadequada) que tal exame não era coberto pelo convênio, que o pernoite do acompanhante deve ser pago pelo cliente, que o médico por quem aguardava não estava nem estaria no hospital, etc.. As reclamações do corpo clínico incluíam a demora na chegada do paciente e, consequentemente, atrasos na cirurgia, a falta de informação precisa sobre a localização do paciente, a falta de aviso da autorização do procedimento pelo convênio gerando ociosidade da equipe médica ou o aviso muito em cima da hora da autorização exigindo a convocação imediata da equipe já envolvida em outras atividades. A glosa era ocasionada pela falta de autorização dos convênios para os procedimentos médicos, pelo preenchimento indevido dos formulários de atendimento, pela má gestão da informação. Não é incomum nos hospitais a existência de esquemas ilícitos nos quais os empregados se engajam em benefício próprio. Existe “tráfico” de pacientes, por exemplo, quando há um conluio entre alguém da recepção com outro hospital. Este hospital oferece uma gratificação para a recepcionista que diz não haver vaga no hospital que representa e “transfere” o paciente para o hospital “pagador”. Pode ocorrer também uma combinação extra-oficial entre a recepção e a empresa de ambulâncias. Quando o paciente precisa ser transportado nem sempre se aciona a ambulância que presta o melhor serviço, mas a que oferece uma bonificação ao funcionário que a privilegiou. Outra possibilidade é ganhar dinheiro indicando serviços de funerária. Por este motivo que o HDB coloca uma forte ênfase no controle e na transparência do processo. As causas destes sintomas assentavam-se num tripé: falta de formação adequada dos empregados de linha de frente, falta de um processo padronizado de atendimento e baixa remuneração. 107 4.3.4 Solução adotada Foco na formação dos empregado. O mercado de recepcionistas de hospitais tem como perfil pessoas com formação de nível médio e baixa remuneração, o que gera uma alta rotatividade dos colaboradores por não aprendizagem. O eixo sobre o qual se reconstruiu o processo de atendimento no HDB foi a formação dos colaboradores. Segundo o gerente administrativo: “O sucesso de tudo são as pessoas. O sucesso de tudo chama-se treinamento. Na hora que resolvemos buscar a pessoa certa e potencializar esta pessoa, entramos no caminho certo”. Foi contratada uma equipe de recepcionistas que não tinha nenhuma experiência no setor de saúde para evitar a introdução de vícios e comportamentos antiéticos. Estruturou-se um plano de treinamento de três meses que buscava não apenas ensinar as tarefas e rotinas de responsabilidade própria da recepção, mas também de fazer entender em que contexto cada rotina se inseria. Estimulava-se o entendimento dos porquês de cada atividade. Com o passar do tempo, o hospital passou a contar com uma equipe de empregados de linha de frente muito mais capacitada que a anterior. O gerente administrativo do HDB afirma que “o diferencial das minhas recepcionistas é que entendem muito do processo de saúde, sabem da complexidade de um paciente para o CTI e o significado de uma vaga negada a ele, sabem o que é monitorizar um paciente, entendem do procedimento de urgência que estão marcando”. O conhecimento do processo de saúde faz com que a participação das recepcionistas se estenda além das fronteiras estritas da sua função. O seguinte incidente exemplifica o conhecimento do processo e o grau de iniciativa da recepcionista. A direção do hospital recebeu um telefonema de uma recepcionista nestes termos: - Aquela vaga que foi liberada para o paciente no CTI foi negada pelo doutor e pela enfermeira. Eles afirmavam que o cabo do aparelho de monitoração não estava disponível. Fui ao CTI e vi qual era o monitor. Sei que na emergência 108 tem um aparelho semelhante. Este não estava sendo usado, peguei o cabo, coloquei na CTI e dei a vaga. A interação da recepcionista com o paciente, os médicos e os funcionários do hospital é constante de maneira a impedir interrupções desnecessárias no processo. Se um paciente precisa fazer um exame é necessária a justificativa do médico para obter a autorização do convênio, a recepcionista busca o que falta com o médico responsável. A falta de coordenação entre paciente, médico e convênio pode levar a tempos de espera excessivos. A recepcionista assume o papel de sincronizar as partes e catalisar o processo. A meta é marcar o exame no mesmo dia em que foi requisitado. Outro exemplo do papel decisivo da recepção na sincronização das partes ocorre no processo de exames externos ao hospital. Local do exame, liberação do convênio, ambulância e familiares exigem ser coordenados. O conhecimento do passo a passo deste processo pela equipe da recepção evita os seguintes problemas que antes eram bastante comuns: agendamento do local sem verificar se o plano cobria, acerto do local e do exame mas sem marcar a ambulância, a ambulância chegava sem estar presente o familiar, exame marcado com a ambulância na porta e presença do familiar sem a documentação em ordem. Padronização do atendimento. A formação da equipe foi acompanhada da padronização de todos os procedimentos. O hospital trabalha com 4 turnos de recepcionistas. Padronização e criação de pontos de controle são fundamentais para garantir a continuidade na informação. No caso dos exames externos, por exemplo, os controles levam a: dar retorno à equipe médica do exame marcado; registrar local, data, ambulância, horário de saída, horário do exame, pessoa da família contactada; dar baixa nos exames feitos, etc.. Ao trocar o turno da recepção não se interrompe o fluxo do paciente no hospital. Remuneração. No que diz respeito à remuneração foi estabelecido um plano de carreira com a criação de líderes de plantão permitindo salários diferenciados além de oferecer oportunidades de crescimento em outras áreas do hospital. Estas iniciativas reduziram a rotatividade das recepcionistas. No entanto, a rotatividade continua alta. De acordo com o gerente administrativo, “as 109 recepcionistas são potencializadas de tal forma que recebem propostas de outras instituições para ocuparem cargos de supervisão”. O HDB tem lidado com esta situação mantendo pessoas-chave capazes de serem multiplicadores de conhecimento e do modo de trabalho no processo de atendimento neste hospital, evitando perdas na qualidade. 4.3.5 Fluxo do consumo e provisão de uma cirurgia eletiva Antes da reformulação do processo Por definição, a cirurgia eletiva é programada antecipadamente entre o médico e o paciente. Do momento da consulta em que o médico e o paciente combinam a data da cirurgia e a cirurgia propriamente dita ocorrem uma série de etapas cuja coordenação não é trivial: o médico precisa reservar a data e o horário da cirurgia no centro cirúrgico do hospital, o hospital precisa obter a devida autorização do convênio para realizar o procedimento, o material a ser utilizado na cirurgia deve ser solicitado ao fornecedor, a sala cirúrgica e o quarto precisam ser aprontados, a documentação do paciente preparada. Por ser marcada com antecedência e por falhas no processo de atendimento, o paciente nem sempre lembrava o horário certo em que devia se apresentar no hospital, nem os documentos necessários. Ao chegar no hospital iniciava-se o processo de obter a autorização do convênio. Um paciente que chegasse às 7h00 da manhã precisaria aguardar o horário de abertura do funcionamento do convênio mais todo o trâmite burocrático de liberação do convênio, mais o tempo de preparação do próprio hospital para então ser encaminhado para o quarto. O Quadro 4.4 descreve as etapas necessárias para resolver o problema de saúde do paciente desde a marcação da cirurgia até a liberação do paciente. Cada caixa representa uma etapa e sua dimensão está em função do tempo gasto nela. A parte de cima do quadro representa as atividades do ponto de vista do paciente, isto é, o processo de consumo do serviço de saúde. A parte de baixo representa as atividades a serem realizadas do ponto de vista do hospital para 110 prover o serviço. Para o consumidor este processo demandava 464 minutos e para o hospital 447 minutos, gerando aborrecimento para o paciente e transtornos para a equipe médica. Quadro 4-4: Cirurgia eletiva* antes do redesenho dos processos *Os tempos foram calculados para uma cirurgia de artroplastia de quadril. 111 Cirurgia Eletiva Antes da Pré-Internação Ponto de vista do paciente Chegada ao hospital Espera para atendimento Cadastro Espera para ser encaminhada ao consultório Consulta Levar o pedido de internação Sub-total Consulta Chegada ao hospital Fazer check-in Aguardar autorização do convênio Assinar documentos Aguardar liberação do quarto Levar paciente ao quarto Preparação para cirurgia Cirurgia Fazer pagamento Sub-total Cirurgia Total min Ponto de vista do hospital min Chegada ao hospital 3 5 10 15 5 38 2 185 15 16 3 15 180 10 426 464 Cadastro 5 Consulta 15 Sub-total Consulta 20 Chegada ao hospital Fazer check-in do paciente Ligar para médico para obter detalhes Esperar abertura de funcionamento convênio Ligar para convênio Esperar autorização do convênio Falar com médico Obter assinaturas Pedir para aprontar o quarto Arrumar o quarto Levar paciente ao quarto Preparação para cirurgia Cirurgia Aviso de alta Fechar conta do paciente Sub-total Cirurgia Total 2 5 50 10 120 5 15 1 15 3 15 180 1 5 427 447 Depois da reformulação do processo O processo foi reformulado para minimizar o tempo de espera do paciente e fornecer a informação à equipe médica com a necessária antecedência. Quando o paciente chega no hospital para a intervenção, o atendimento é mais rápido e sistemático. Muitas etapas podem ser cumpridas antes do dia da cirurgia e não requerem o envolvimento do paciente. Foi criado um setor de pré-internação para antecipar a obtenção das autorizações e senhas dos convênios. A recepção entra em contato com o paciente na véspera da cirurgia para relembrar o horário, dar as orientações pertinentes e fazer um pré-cadastro. Também na véspera a recepção reserva o quarto do paciente. Quando o paciente chega no hospital, precisa apenas assinar os documentos e já é encaminhado ao quarto. O tempo despendido do paciente no processo é de 289 minutos, uma redução de 38%. O 112 tempo despendido pelo hospital no processo é de 302 minutos, uma redução de 32%. Quadro 4-5: Cirurgia eletiva depois do redesenho dos processos 113 Cirurgia Eletiva Depois da Pré-Internação Ponto de vista do paciente min Chegada ao hospital Espera para atendimento Cadastro Espera para ser encaminhada ao consultório Consulta Levar o pedido de internação Sub-total Consulta Atender ligação Preparar documento Chegada ao hospital Fazer check-in Assinar documentos Aguardar liberação do quarto Ponto de vista do hospital Chegada ao hospital 3 5 10 15 5 38 5 5 2 15 16 Cadastro 5 Consulta 15 Sub-total Consulta 20 Médico marca cirurgia no centro cirúrgico Médico passa fax para pré-internação Ligar para convênio Ligar para fornecedor Confirmação do convênio Falar com médico Ligar para fornecedor Confirmar com paciente Sub-total pré-internação 5 5 10 5 5 5 5 5 45 Levar paciente ao quarto Preparação para cirurgia Cirurgia 3 15 180 Fazer check-in do paciente Obter assinaturas Pedir para aprontar o quarto Arrumar o quarto Levar paciente ao quarto Preparação para cirurgia Cirurgia Fazer pagamento Sub-total Cirurgia 10 251 Aviso de alta Fechar conta do paciente Sub-total Cirurgia Total min 289 Total Ponto de vista do paciente Antes da Pré-Internação Depois da Pré-Internação 38 38 426 251 464 289 Redução 38% Ponto de vista do hospital Sub-total Consulta Sub-total pré-internação Sub-total Cirurgia Total Antes da Pré-Internação Depois da Pré-Internação 20 20 45 427 237 447 302 Redução 1 5 237 302 Resultado final Sub-total Consulta Sub-total Cirurgia Total 2 15 1 15 3 15 180 32% 114 4.4 Suprimentos no Copa D´Or 4.4.1 Introdução O Hospital Copa D´Or foi inaugurado no ano 2000 oferecendo um atendimento em nível terciário, adulto e pediátrico, abrangendo todas as especialidades cirúrgicas e conta com um Setor de Emergência aberto 24 horas do dia. Na definição do próprio hospital: “a preocupação com a qualidade do atendimento está presente em todas as atividades exercidas. A padronização e o treinamento contínuo estão incorporados ao dia a dia do hospital45”. Este caso terá como enfoque a área de suprimentos do Copa D´Or. Primeiramente será apresentada a pressão pela redução de custos que a área de suprimentos recebe. Em seguida serão descritas três iniciativas adotadas para aumentar a eficiência da cadeia de suprimentos do hospital: a consignação, o dispensário eletrônico e algumas melhorias implementadas na farmácia. 4.4.2 Pressão pela redução de custos Há uma diretriz estratégica do Hospital Copa D´Or que prioriza o investimento nas áreas produtivas. A área de suprimentos não é considerada uma área produtiva e recebe, portanto, uma forte pressão para reduzir custos em termos de espaço, estoque e mão de obra. A questão do espaço é particularmente crítica neste hospital, pois o prédio é uma adaptação de um hotel e está localizado num bairro nobre cujo metro quadrado é bastante caro. A área de suprimentos recebeu o desafio de reduzir custos sem afetar o nível de serviço. Para alcançar esta meta, o hospital precisou trabalhar na redução da complexidade e no aumento da eficiência da sua cadeia de fornecimento. Para reduzir a complexidade da cadeia de fornecimento o hospital decidiu criar uma lista de produtos de referência. Para os 20.000 itens de referência, a área de 45 http://www.rededor.com.br/hcd/index.htm - Acesso 11 de agosto de 2006. 115 suprimentos garante disponibilidade imediata. Itens fora desta lista podem ser requisitados, mas necessitarão de mais tempo para entrega. Junto com o estabelecimento dos itens de referência houve um trabalho de racionalização dos fornecedores. O hospital trabalha com cerca de metade do número de fornecedores do que há 3 anos. São várias as iniciativas para aumentar a eficiência da cadeia de fornecimento. O desmembramento da cadeia de fornecimento do hospital em duas conforme sugere Rivard-Royer (2002) facilita o entendimento do impacto destas iniciativas: o a cadeia externa, que abrange o fluxo dos medicamentos e materiais desde os fornecedores ao estoque central do hospital o a cadeia interna, que abrange o fluxo dos medicamentos e materiais do estoque central do hospital, passando pelos almoxarifados satélites, até chegar ao ponto de uso A iniciativa da consignação refere-se à cadeia externa ao passo que a iniciativa do dispensário eletrônico e as melhorias na farmácia se referem à cadeia interna de fornecimento. 4.4.3 Consignação O hospital trabalha com dois tipos de itens: itens ativados e itens consignados. Itens ativados são aqueles itens comprados que ao serem entregues no almoxarifado central pelo fornecedor passam a fazer parte como ativo do balanço contábil do hospital. Itens consignados são entregues pelo fornecedor no almoxarifado central, mas o estoque continua figurando nos ativos do fornecedor. Independente do tipo de item, sua freqüência de reposição está em função de sua criticidade: o itens A: 1 vez/dia o itens B: 1 vez/semana o itens C: 2 vezes/mês 116 A modalidade de relacionamento hospital-fornecedor denominada de consignação não é nova. Itens de alto custo e baixo giro tradicionalmente se utilizavam desta modalidade. Hoje a área de suprimentos busca incluir a maior quantidade possível de fornecedores nesta modalidade. O pivô desta reorientação foi a imprevisibilidade da demanda, que gerava um alto nível de compras emergenciais. Compras emergenciais são mais caras pela necessidade de acelerar todos os processos e pelo aumento nos custos administrativos tanto para o hospital como para o fornecedor. Daí a tentativa de estabelecer a consignação também para os itens de baixo custo e alto giro. Após 3 anos de reorientação, 40% dos fornecedores de itens A trabalham com a modalidade de consignação. Neste tempo, o valor em estoque de todos os itens consignados aumentou 375%. A conversão de fornecimento tradicional para fornecimento consignado implica uma mudança contábil e um aumento físico do estoque de produtos. O volume de itens em estoque aumenta ao mesmo tempo em que sai do balanço do hospital para o do fornecedor. O fornecedor prefere carregar um estoque maior que o hospital carregaria para garantir a disponibilidade e, consequentemente, a venda do produto. A grande inovação deste relacionamento é que não se trabalha mais com previsão de vendas. O contrato de fornecimento de um volume fixo de produtos é substituído pelo fornecimento baseado no consumo real. Antes a área de suprimentos fazia uma previsão do consumo baseado nos dados históricos e comprava um volume para três meses. Agora, o fornecedor enxerga o consumo que passa a ser o único ponto de pedido para regular todo o sistema de provisão. O consumo funciona como o marca passo do sistema e melhora a qualidade do estoque. O giro de estoque passou de 12 vezes ao ano para 21 vezes, o custo de reposição emergencial foi reduzido significativamente. O melhor conhecimento da demanda tem beneficiado tanto o hospital como o fornecedor. O valor em dinheiro do estoque no hospital considerando itens consignados e itens ativados foi reduzido em 30%. O fato de enxergar o consumo 117 real melhora a capacidade de planejamento do próprio fornecedor o que lhe permite reduzir seu estoque central. A visão de consumo por parte do fornecedor ainda não é em tempo real. Atualmente é o hospital que informa os níveis de consumo ao fornecedor. No futuro, o hospital pretende oferecer ao fornecedor a possibilidade de enxergar o próprio sistema e monitorar em tempo real o consumo de seus itens. 4.4.4 Projeto de Dispensário Eletrônico Este projeto possui dois objetivos principais: garantir a disponibilidade e o controle de materiais e medicamentos de pronto-atendimento nos postos de enfermagem. O dispensário eletrônico é um armário composto por gavetas e portas cuja abertura é controlada por crachás eletrônicos. Foram implementados um total de 5 dispensários eletrônicos contendo um total de 625 itens imprescindíveis. São produtos para pronto uso e com alta freqüência de uso. Quando o atendimento ao paciente requer algum produto do dispensário, a enfermeira que o atende se dirige ao dispensário e com um leitor de código de barras se identifica pelo código de seu crachá, identifica o paciente para o qual o produto será retirado e identifica o produto na própria gaveta em que se encontra. Feita estas identificações, a gaveta se abre, a enfermeira retira o produto, a informação do consumo deste produto é enviada para a conta do paciente e para o almoxarifado dando baixa no estoque. Caso haja necessidade de devolução do produto procede-se pelo caminho inverso. Cabe, portanto, à enfermagem a retirada e a devolução dos produtos. A área de suprimentos, por sua vez, se responsabiliza pelo reabastecimento dos produtos e pela contagem dos itens no estoque. A reposição dos itens se dá 4 vezes ao dia. Caso haja alguma falha no abastecimento e o produto não se encontra na gaveta, a contingência consiste em dirigir-se ao dispensário mais próximo. Como todos são exatamente iguais com os produtos armazenados nas mesmas gavetas, 118 a enfermeira poderá rapidamente encontrar o que necessita. A ocorrência é registrada e se busca chegar à sua causa. Desde que se implementou o projeto em março de 2006, nunca houve falta destes produtos. O sistema de informação que suporta todo o processo permite o registro do consumo em tempo real que novamente marca o ritmo de todo o processo de reposição. Tal informação é crítica para garantir a disponibilidade do produto. Este sistema também permite o rastreamento do produto ao profissional que o manipulou, evitando fraudes bem como falhas e retrabalhos no registro de consumo. O processo de contagem de estoque ficou simplificado. Este projeto significou uma simplificação na cadeia interna de fornecimento do hospital em termos de controle, de processo para reposição, de integração com o faturamento ao cliente. Foi possível a redução de 17 FTE´s. Antes do projeto, por exemplo, havia um profissional designado por cada almoxarifado satélite. Com a divisão de tarefas entre a enfermagem e a área de suprimentos este profissional pode ser transferido a outras atividades. A estratégia adotada para implementar este projeto foi iniciar pelas áreas onde havia sobreposição de mão-de-obra entre a enfermagem e a área de suprimentos. O critério escolhido foi almoxarifados intensivos em mão de obra mesmo que o volume de dinheiro em estoque fosse menor. Prevê-se sua expansão para os centros cirúrgicos, CTI´s, unidade de emergência e hemodiálise. 4.4.5 Melhoria contínua na farmácia Todos os dias, os médicos visitam seus pacientes para monitorar sua evolução, receitar os medicamentos e definir os horários que deverão ser ministrados durante o dia46. As receitas dos médicos são encaminhadas por fax para a farmácia e disparam o processo de preparação dos medicamentos. A farmácia do Copa D´Or funciona como uma fábrica que produz kits personalizados para os pacientes. Há uma linha de produção para manipulação de 46 No jargão médico do hospital este procedimento é conhecido como “passar visita”. 119 medicamentos, outra linha para separação dos medicamentos em unidades (unitização), há uma célula que embala os medicamentos nos kits individuais para cada paciente. O controle de qualidade é bastante rigoroso uma vez que erros na medicação afetam diretamente a recuperação do paciente. Muitas iniciativas foram tomadas para melhorar a eficiência e a qualidade dos processos da farmácia. Uma delas foi adequar a cobrança pelo resultado do processo com a formação do profissional. Atribuía-se à farmacêutica-chefe a responsabilidade pela qualidade na montagem dos kits individuais. A baixa tolerância aos índices de erros levou à substituição de duas farmacêuticas-chefe. Percebeu-se que os erros eram devidos ao processo e contratou-se um engenheiro de produção para redesenhá-los. O engenheiro se responsabiliza pela qualidade do processo e a farmacêutica-chefe se responsabiliza pela qualidade da manipulação dos medicamentos. O redesenho de processos permitiu atacar pela raiz possíveis fontes de erros. Por exemplo, medicamentos com nomes ou formas semelhantes foram realocados para evitar confusões. A disposição dos medicamentos nas prateleiras foi refeita levando em consideração a freqüência de uso e a facilidade de localização. Pontos de controle foram adicionados para evitar que um erro prossiga no processo. Outra iniciativa em estudo para implementação é a prescrição médica eletrônica. Ao invés de escrever à mão a receita para cada paciente ao “passar visita”, o médico prescreveria os medicamentos, a dosagem e horário de administração num aparelho eletrônico que transmitiria a informação diretamente para a farmácia. A prescrição médica eletrônica irá reduzir alguns desperdícios no processo. Será eliminado o processo de transmissão das receitas por fax. As receitas dos médicos ficavam se acumulando num escaninho aguardando a chegada de uma enfermeira para enviá-las. Ao ser recebido pela farmácia, os dados do fax são inseridos manualmente no sistema da farmácia. Dependendo da letra do médico algum tempo era empregado para decifrá-la. Uma vez no sistema, eram geradas as ordens de produção que iniciavam o processo de picking e embalagem dos 120 medicamentos. Com a prescrição eletrônica todas estas etapas são desnecessárias. A própria receita eletrônica é transmitida diretamente à farmácia e gera a ordem produção. Elimina-se o tempo de espera para passar o fax, o tempo para decifrar a letra do médico e o re-trabalho de digitar novamente os medicamentos. Reduzem-se assim os erros na transcrição das informações do fax para o sistema e o tempo entre a prescrição e a disponibilização do medicamento no ponto de uso. 121 4.5 A logística de suporte da Diagnósticos da América 4.5.1 Introdução A Diagnósticos da América (DA) é a maior empresa de medicina diagnóstica da América Latina. Tem como visão: “Proporcionar a todas as classes sociais acesso a serviços e produtos relacionados à saúde, com qualidade e tecnologia atualizadas”47. Está estruturada em 214 unidades espalhadas pelas principais cidades do país e emprega 5.500 profissionais que atendem diariamente 20.000 pessoas e processam um volume diário de 90.000 exames de análises clínicas. Primeiramente, serão descritos alguns valores que norteiam a DA. Em seguida será descrita a estratégia de marcas da empresa e o papel da logística que a suporta. Finalmente, será apresentado o sistema de coleta domiciliar. 4.5.2 Valores da empresa A DA procura investir em pessoas e em tecnologia para potencializar o que denomina do ciclo virtuoso da qualidade. Para a empresa, seu crescimento sustentável exige o investimento em pessoas e tecnologia que desenvolvam processos eficientes capazes de satisfazer clientes. Clientes satisfeitos geram retorno financeiro e permitem investir novamente em pessoas e tecnologias. Para alcançar este objetivo a empresa cultiva valores como foco no cliente, capacidade de decisão de seus colaboradores (empowerment) e efetividade. A DA quer se tornar o fornecedor preferencial do cliente (seja ele o paciente ou o médico) atendendo suas necessidades com qualidade e no tempo adequado. O mercado brasileiro de exames diagnósticos pode ser dividido em dois: 40% dos exames são clínicos e 60% são por imagens. A DA também disponibiliza equipamentos para realização de exames por imagem em suas unidades. Ao 47 http://www.diagnosticosdaamerica.com.br/quemsomos_visao.php - Acesso 11 de agosto de 2006. 122 oferecer exames clínicos e por imagens, a DA torna-se capaz de ser de fato o ponto único de contato para o paciente em termos de exames diagnósticos. Com relação ao cliente médico, a DA possui um corpo clínico especializado que entra em contato com o médico do paciente para alertar sobre possíveis complicações identificadas a partir dos resultados exames. Dessa forma, agilizam-se os passos do tratamento. O ambiente de trabalho é propício para o desenvolvimento de seus colaboradores que aprendem a delegar e a receber novas responsabilidades, estruturando os processos de trabalho de forma a exceder expectativas com o menor custo operacional possível. Todos os processos são documentados e mantidos atualizados em meio digital. Há uma rotina que recomenda a revisão anual dos processos. Evita-se assim que o dono e os usuários do processo esqueçam de atualizar as modificações ocorridas. 4.5.3 Estratégia de marcas da DA O crescimento da DA se dá de maneira dupla: orgânica, abrindo novas unidades e por aquisição de novas marcas. A estratégia de marcas da DA nasceu do desejo de proporcionar a todas as classes sociais acesso a exames de qualidade e da constatação do forte valor que o brasileiro atribui à marca dos seus serviços de saúde. A DA atua respeitando as marcas de cada região e os nichos de mercado em que cada marca se posiciona. Há pequenas lojas com 64 m2 e megaunidades com 2500 m2. Há marcas premium, marcas executivas e marcas básicas. Atualmente, a DA tem um portfólio de 12 marcas. No Rio de Janeiro, por exemplo, há 51 unidades que se dividem em 3 marcas. O Bronstein é a marca básica da região. É uma marca de efetividade operacional, com custo baixo e preços melhores. No Bronstein, 80% da fonte pagadora advém dos planos de saúde. O Lâmina é a marca executiva e por atingir um público de melhor poder aquisitivo tem um percentual menor de pagamentos oriundos dos planos de saúde, apenas 40%. O Clube DA é a marca premium que se localiza em áreas exclusivas de algumas unidades Lâmina. 123 Esta estratégia de marca permite oferecer um atendimento diferenciado. A ambientação de cada local é feita de acordo com o perfil do público-alvo de cada marca, o que permite cobrar um preço também diferenciado. O Quadro 4.6 lista as diferentes marcas que compõem o portfólio da DA. Quadro 4-6: Portfólio de marcas da Diagnósticos da América 4.5.4 O papel da logística Se por um lado, devido à segmentação de mercado, o atendimento é diferenciado, a qualidade dos exames é exatamente a mesma. A DA trabalha com uma logística centralizada, corporativa, que atende indiscriminadamente as diferentes marcas. A logística de suprimentos é a mesma, o processo de coleta de exames é o mesmo, o processamento dos exames é realizado num mesmo local. Hoje a DA possui 6 núcleos técnicos operacionais (NTOs) espalhados pelo país. São os NTOs juntamente com o suporte da logística os responsáveis pelo processamento e disponibilização dos resultados dos exames. Cada núcleo atende determinada região. No Rio de Janeiro existe um NTO localizado em Botafogo. A DA espera ser a empresa de menor custo de operação no mercado. À medida que a empresa crescer e aumentar a escala de operação dos NTOs seu custo de operação se tornará cada vez mais competitivo. Cabe à logística viabilizar um sistema de coleta que otimize as operações dos NTOs e atenda às exigências de tempo estipulados para cada exame. 124 O sistema de coleta da DA transporta material biológico das unidades para os NTOs. Trata-se de um material de alto risco na escala de periculosidade de produtos e exige, além da aderência a uma série de requisitos legais, uma especialização grande não só das pessoas como também dos equipamentos. São mais de 3000 exames diferentes, cada qual com condições e tipos de acondicionamento diferentes. Daí a necessidade de treinamento constante de todos os envolvidos com este processo. De acordo com a distância e o volume de exames processados por dia em cada unidade define-se uma freqüência de coletas ao longo do dia. Existem unidades, por exemplo, com 5 coletas por dia, outras com 4, algumas menores com 1 coleta diária. No Rio de Janeiro, há 11 veículos que percorrem roteiros préestabelecidos fazendo a coleta de exames nas 51 unidades da região. A sincronização do trabalho na unidade e o sistema de coleta é crítico para atingir os prazos estipulados, o que requer uma padronização dos procedimentos e disciplina por cumpri-los. Cada unidade sabe exatamente o horário em que o material será coletado e precisa se programar para preparar o material, fazer o tratamento inicial (alguns exames precisam passar por um micro-processamento na unidade, por exemplo, uma centrifugação), acondicionar o material, fechar as caixas e disponibilizá-las para a coleta. Da parte dos veículos de coleta, a tolerância de atrasos é de 10 minutos na unidade. Todo o processo está documentado com instruções de trabalho bem detalhadas de maneira que a ocorrência de qualquer desvio é analisada e corrigida. Todos os envolvidos no processo, inclusive os motoristas, são equipados com aparelhos de comunicação por rádio que permitem a localização do veículo. Existem exames que por sua própria natureza exigem o processamento em menos de 40 minutos. Nesses casos prevê-se uma coleta especial. Outros exames exigem equipamentos tão específicos que só se viabilizam trabalhando em escala nacional. Estes exames são encaminhados via aérea para a central de processamento nacional. Cada uma dessas circunstâncias é levada em consideração para precificar o exame. 125 A preocupação com a rastreabilidade de todo processo é uma constante. Cada tubo de ensaio recebe uma etiqueta com código de barras. As caixas embaladas também são etiquetadas e contém a informação do material que leva, a que pacientes pertencem, número de tubos de ensaio, etc.. Cada vez que há uma mudança de pessoa que manipula o material, cada vez que uma etapa do processo é concluída a informação é registrada. Como a informação é processada em tempo real, diante de qualquer problema ou atraso é perfeitamente possível rastrear onde e com quem se encontra o material e tomar as devidas providências. Num segundo momento, analisa-se a causa do problema e se implementam mudanças para evitar uma nova ocorrência. Os principais desafios da logística na DA são localização e tempo. Em termos de localização, a logística precisa apoiar a expansão da empresa integrando as novas unidades às operações da empresa de maneira eficiente. Em termos de tempo, todo o sistema logístico precisa garantir a disponibilização dos exames no prazo prometido ao paciente. 4.5.5 Coleta Domiciliar O serviço de coleta domiciliar dá mais um passo em direção à superação dos desafios de localização e tempo. A aceitação deste serviço varia de região para região. Em São Paulo, a adesão ao serviço é baixa, pois os pacientes preferem não chamar a atenção com carros de coleta a sua porta e, portanto, dirigem-se para as unidades para fazer os exames. Já no Rio de Janeiro, a coleta em casa é percebida como sinal de status e o serviço é bastante acionado. A maior freqüência de chamadas para o atendimento domiciliar concentra-se na Zona Sul e na Vila Isabel, Zona Norte. No Rio de Janeiro, a DA conta com uma frota de 29 veículos para realizar as coletas domiciliares. Cada veículo realiza uma média de 6 coletas diárias que somam aproximadamente 170 pacientes por dia. Este volume equipara este serviço a uma unidade de porte médio. Atender na casa do paciente na hora que lhe é mais conveniente abre o leque às circunstâncias, necessidades e preferências mais díspares. Há um 126 pequeno percentual de pacientes que demandam o serviço de madrugada (em média, 5 por noite). Como o núcleo operacional técnico encontra-se fechado nestes horários, os exames são enviados para algum hospital onde se encontram unidades Lâmina que funcionam 24h por dia. O exame é processado na própria madrugada e o resultado do exame é logo comunicado ao paciente e seu médico. Todo o processo segue exatamente os mesmos padrões de uma coleta na unidade. O agendamento pode ser feito com 24 horas de antecedência (ainda que em casos de emergência, o agendamento é feito no momento da necessidade). Um profissional qualificado é destacado para fazer a coleta que é realizada na residência nos mesmos moldes que na unidade. O paciente paga uma taxa extra por este serviço para cobrir os custos logísticos desta operação. As mudanças de infra-estrutura logística para suportar a coleta domiciliar ilustram a preocupação da empresa pelo contínuo aperfeiçoamento do processo em relação a custo e ao mesmo tempo em relação ao nível de serviço. Utilizavamse como meio de transporte para este serviço três cooperativas de táxi que cobravam as tarifas de táxi comum para cada viagem. Devido ao fato do táxi não estar à disposição em regime de exclusividade para a empresa, o nível de serviço às vezes deixava a desejar. Por outro lado, esta característica era precisamente a que permitia pagar apenas o custo variável do transporte, que era coberto pelo preço premium cobrado pelo serviço. Havia a percepção de que para aumentar o nível de serviço seria necessário transformar um custo variável em custo fixo, encarecendo o processo. A maior conta de fornecedores da empresa era a dos táxis, somando o valor gasto com as coletas domiciliares com o uso corporativo. A equipe de logística buscou desenvolver um fornecedor que concordasse em cobrar apenas pelo custo variável e garantisse o nível de serviço exigido. Com o histórico do número de coletas e dos valores envolvidos foi possível chegar a um acordo. Hoje, o fornecedor mantém uma frota de 29 veículos que além de fazer o transporte para as coletas domiciliares também realiza serviços de táxi cobrando uma tarifa mais baixa que a do táxi comum. 127 5 Análise dos Casos Este capítulo buscará sublinhar as evidências da incorporação dos princípios enxutos contidas nos casos estudados. Para comentar como os princípios lean se aplicam aos casos estudados será utilizada como guia a seqüência de princípios e ações resumidas no Quadro Conceitual (2.6). 5.1 Princípios da provisão enxuta 5.1.1 Reduzir os trade-offs de desempenho Que a redução dos tempos de processamento juntamente com linhas de produção flexíveis melhoram a qualidade e a produtividade também no âmbito dos serviços de saúde pode ser verificado no Projeto do Pé Diabético. A redução dos tempos de espera para marcar uma consulta, que antes da criação do pólo secundário poderia demorar meses e agora com o pólo é marcada em no máximo 48h, teve um grande impacto na qualidade do atendimento. A rapidez de atendimento impede a evolução da doença como demonstram a redução do número de amputações altas após os 3 anos de funcionamento do projeto. A questão de reduzir trade-offs de desempenho também aparece de maneira explícita no Hospital Pró-Cardíaco através da meta de oferecer o tratamento mais custo-efetivo possível. Faz parte da medicina baseada em evidências, mentalidade com a qual o Pró-Cardíaco trabalha, buscar um processo que otimize os benefícios e reduza os custos. Embora a meta esteja clara, sua mensuração é difícil. A custo-efetividade é medida para os eventos intrahospitalares, mas não há uma estratégia definida para medi-la após a alta do paciente. Porter e Teisberg (2004) explicam como o tratamento de um grande volume de pacientes com uma mesma doença gera melhores resultados no atendimento com menores custos. A especialização do Hospital Pró-Cardíaco e do projeto do 128 Pé Diabético em dor torácica e diabetes, respectivamente, contribui para um rápido processo de aprendizagem, evita erros, alavanca a eficiência do processo fazendo a qualidade e a eficiência do atendimento aumentarem simultaneamente. A área de suprimentos no Copa D´Or recebeu o desafio simultâneo de reduzir custos e manter os níveis de serviço. O caso ilustrou como a adoção de práticas da mentalidade enxuta (reposição freqüente em pequenas quantidades, reação da cadeia de suprimentos em função do ritmo de consumo, estabelecimento de fluxo contínuo nos processos de reposição, localização dos estoques próximos ao ponto de uso, melhoria contínua dos processos) contribuiu para atingir estes dois objetivos. O modelo de negócio da Diagnósticos da América também consegue conciliar os trade-offs de desempenho. A premissa da empresa é oferecer exames de qualidade, a estratégia de marcas diferenciadas permite flexibilidade no atendimento aos diferentes públicos e o sistema único de coleta de exames garante a produtividade do processo. 5.1.2 Eliminar as atividades que não agregam valor Ao eliminar atividades que não agregam valor ao cliente, tem-se como resultado um processo mais enxuto e uma melhora na relação (atividades que geram valor)/(total de atividades do processo). Esta relação sempre pode ser melhorada. Uma característica da mentalidade enxuta é buscar o processo perfeito em que esta relação tende a 1, isto é, um processo composto por atividades que só agregam valor e que não têm nenhum desperdício embutido. Daí a preocupação constante de rever o processo e promover uma melhoria contínua. Entre os casos estudados, esta preocupação está particularmente presente no modo de operação do Hospital Pró-Cardíaco como demonstram as sucessivas melhorias no protocolo de dor torácica. Para evitar a reincorporação das atividades eliminadas, organizações enxutas procuram explicitar o novo processo. O novo processo corresponde a melhor forma de atingir determinado resultado naquela organização, portanto, é o 129 novo padrão a ser seguido por todos os envolvidos. A preocupação pela padronização do processo mostrou-se presente em todos os casos estudados. No caso do Pró-Cardíaco, o protocolo de atendimento da dor torácica representa o estado da arte deste processo não só na organização como também no Brasil. O protocolo é seguido por centenas de organizações no país. Por isso, o Pró-Cardíaco reconhece a responsabilidade que tem ao propor qualquer mudança. Embora haja uma equipe de médicos constantemente buscando aperfeiçoar o atendimento, mudanças no protocolo são implementadas mediante evidências nítidas de que o processo realmente melhore. O HDB também percebe a necessidade de padronização do processo. A alta rotatividade de seus colaboradores de linha de frente exige o treinamento constante de funcionários. No entanto, ainda não há no HDB a descrição por escrito de todos os processos da recepção. No Copa D´Or as melhorias implementadas pela farmácia são um indicativo da orientação dos colaboradores para a redução sistemática dos desperdícios. O projeto da prescrição médica eletrônica elimina uma série de atividades que não agregam valor: tempos de espera, re-trabalhos, fontes de erro. No caso da Diagnósticos da América, a empresa está orientada por processos. Todos os processos estão descritos e disponíveis em meio eletrônico. Cada processo tem o seu dono que se responsabiliza por mantê-lo atualizado. Existe um rotina estabelecida que obriga os donos dos processos, com uma freqüência no mínimo anual, a verificar se a descrição do processo corresponde à realidade. A busca sistemática por reduzir os desperdícios foi ilustrada com o caso do transporte domiciliar. Foi necessário desenvolver um novo fornecedor e ampliar seu escopo de atuação (incluindo serviços de táxi para a corporação) para criar uma alternativa às cooperativas de táxi que fosse mais eficiente e com melhor nível de serviço. É o investimento nas pessoas preconizado pela DA que capacita o empregado a melhorar o processo enquanto realiza seu trabalho. 130 5.1.3 Estabelecer fluxo contínuo, puxado pelo cliente O projeto do Pé Diabético desenvolveu uma estrutura de atendimento original para criar um fluxo contínuo no tratamento oferecido. Numa linha de produção enxuta, o bem produzido se desloca de estação em estação onde os trabalhadores adicionam valor ao bem. No pólo de atendimento secundário, não é o paciente quem se desloca de médico em médico para receber o procedimento necessário; pelo contrário, como o paciente apresenta dificuldades de deslocamento, é o médico que se desloca até o paciente. Tanto no projeto do Pé Diabético como no Hospital Pró-Cardíaco há rotas bem definidas para cada tipo de paciente, conforme sua classificação de risco. No Pró-Cardíaco a rota garante rapidez e precisão no diagnóstico e tratamento da doença. A preocupação por reduzir as esperas e estabelecer um fluxo contínuo está presente. O projeto de prescrição médica eletrônica do Copa D´Or é um exemplo de como estabelecer um fluxo contínuo. Este projeto reduz os tempos de espera das receitas médicas que se acumulavam até alguém tomar a iniciativa de enviá-los via fax para a farmácia. A utilização da receita eletrônica evita a formação de lotes de receitas nos escaninhos para serem transmitidas à farmácia. A receita eletrônica evita também a espera pela re-inserção dos dados da receita no sistema para então iniciar o processo de separação e embalagem dos medicamentos. Cada receita é um lote unitário que passa a fluir melhor pelo processo. Cabe a farmácia produzir os kits de medicamentos ao ritmo da demanda. O sistema logístico da Diagnósticos da América está estruturado para estabelecer um fluxo contínuo. As rotas, a freqüência e o horário das coletas estão pré-estabelecidos e todos os envolvidos sincronizam suas atividades para fazer fluir o processo. A preocupação da empresa não é tanto de atingir o lote econômico para o transporte e processamento do material coletado mas sim de cumprir os prazos prometidos. Daí a freqüência de coleta de até 5 vezes ao dia em determinadas unidades, daí a coleta especial de um único exame caso exija 131 rapidez em seu processamento. Procura-se assim reduzir os tempos de espera do material. A DA também mostrou preocupação por aumentar a visibilidade do produto e do processo. A visibilidade se torna possível com o sistema de código de barras. O exame de cada paciente, cada tubo de ensaio é rastreável em tempo real. Quaisquer atrasos, qualquer necessidade de conferir em que parte do processo se encontra o exame, qualquer mudança de pessoa que manipulou o material biológico é identificável. Ações corretivas para eventuais ocorrências podem ser realizadas no momento que são detectadas. Posteriormente, verifica-se a raiz do problema e se identifica uma solução para evitar sua recorrência. 5.1.4 Envolvimento do cliente Os problemas decorrentes do diabetes exigem uma re-educação dos hábitos do portador da doença. Para minimizar as complicações da doença é fundamental o envolvimento do paciente e de seus familiares. Portanto, o sucesso do projeto do Pé Diabético depende de sua capacidade de envolver o paciente no processo de aprendizagem. Daí a importância da figura da enfermeira educadora prevista no projeto e sua ênfase na educação continuada. Em moldes semelhantes ao do Shouldice Hospital apresentado no capítulo 2, incentiva-se a interação dos portadores de diabetes entre si. O lay-out dos “boxes” de atendimento no pólo secundário de atendimento, por exemplo, permite a troca de experiências entre os pacientes e reduz o nível de ansiedade dos pacientes. O envolvimento do paciente também é uma das características da medicina baseada em evidências. Assim, o Hospital Pró-Cardíaco que tem suas operações estruturadas com essa mentalidade se preocupa em envolver o paciente. Este envolvimento se dá principalmente na participação do paciente na tomada de decisão. Os médicos procuram explicar ao paciente cada exame que é feito, os resultados obtidos e os possíveis encaminhamentos. Leva-se em consideração as preferências do paciente nas decisões clínicas. 132 5.1.5 Delegar poder aos empregados A preocupação pela formação dos colaboradores foi mencionada em todas as entrevistas. No caso do projeto do Pé Diabético, a consciência de que quanto melhor for a qualidade de atendimento na ponta, menor as complicações para o paciente, menor o fluxo de pacientes para os demais níveis de atendimento e, portanto, menores os custos totais de tratamento do diabetes levou a inclusão de uma sistemática de treinamento constante e periódica. Os pólos intermediários responsáveis pelo treinamento das equipes são de tal eficácia que, nas palavras do idealizador do projeto, as equipes “passam a acreditar que é possível fazer algo diferente no serviço público”. No caso do Pró-Cardíaco, é da essência da medicina baseada em evidências a atualização constante dos médicos. Além disso, um dos pilares sobre os quais o hospital se apóia para atingir a excelência no atendimento é a qualidade de seus colaboradores. As práticas clínicas são constantemente confrontadas com a literatura e os casos mais difíceis são estudados quinzenalmente. No caso do Hospital Dr. Badim, nas palavras do gerente administrativo: “o sucesso de tudo são as pessoas, o sucesso de tudo chama-se treinamento”. A solução dos problemas na recepção enfrentados pelo HDB só foram resolvidos com a qualificação dos seus colaboradores. Na Diagnósticos da América a delegação de poder aos empregados é um dos valores explicitados pela empresa. O ciclo virtuoso da qualidade é iniciado pelo investimento nas pessoas. Da capacidade que seus colaboradores têm de assumir novas responsabilidades depende a expansão da empresa. A velocidade da expansão aliada à orientação da DA para a efetividade nos processos exige uma equipe de colaboradores flexível, inovadora e que assuma o processo como próprio. A solução de transporte para a coleta domiciliar é um exemplo de como as melhorias se originam dos próprios empregados. Processos eficientes satisfazem os clientes e geram resultados financeiros que por sua vez podem ser reinvestidos nas pessoas. 133 5.2 Princípios do consumo enxuto 5.2.1 Resolver o problema do cliente completamente O projeto do Pé Diabético ilustra bem o princípio de resolver o problema do cliente completamente uma vez que pretende dar uma atenção integral ao paciente. O projeto nasceu da percepção de que o atendimento prestado aos portadores de diabetes era falho por ser pontual e desconectado do contexto do paciente. O atendimento era pontual, pois se resumia na interação do paciente com o sistema de saúde num estágio da doença que lhe exigia uma amputação. Era desconectado do contexto do paciente, pois, da parte do serviço de saúde, não havia a menor preocupação pelo antes nem pelo depois da intervenção médica. Resolver o problema de diabetes, ou melhor, o tratamento desta doença se encaixa na categoria de processo de consumo que se desenvolve ao longo do tempo e envolve uma série de etapas: identificar o problema, aprender e adquirir novos hábitos, realizar intervenção cirúrgica, adquirir acessórios (próteses, órteses, bengalas, cadeira de rodas, etc.), realizar check-ups periódicos. O Quadro 5.1 ilustra graficamente as etapas do processo. Em cada uma destas etapas podem ocorrer falhas que acabam por prejudicar o portador da doença: identificação tardia do problema, ausência de uma orientação adequada de como lidar com a doença, atrasos desnecessários para intervenções cirúrgicas, falta de acessórios adequados, falta de acompanhamento da evolução da doença. O projeto do Pé Diabético foi elaborado para evitar estas falhas e atender ao paciente em cada um destas etapas. O projeto pretende atuar na prevenção das complicações oriundas do diabetes e por isso tem uma forte ênfase na identificação precoce da doença na população e na promoção de uma educação continuada aos doentes e seus familiares. No caso de complicações mais graves há todo um procedimento pré-estabelecido para a solução do problema incluindo a fabricação de um calçado sob medida para o paciente e uma orientação sobre os novos hábitos a serem desenvolvidos. 134 A alta qualificação dos profissionais que entram em contato com o cliente é outra característica que contribui para este primeiro princípio do consumo enxuto. A alta qualificação dos profissionais permite-lhes identificar a raiz das falhas e eliminá-las. No caso do projeto do Pé Diabético, este papel é assumido pelas equipes do pólo primário. Uma vez diagnosticada a doença, estas equipes são treinadas para identificar hábitos, circunstâncias familiares, situações de trabalho que podem impedir um bom acompanhamento da doença e propor soluções. Quadro 5-1: Processo de consumo para o tratamento do diabetes O caso do Hospital Dr. Badim (HDB) também evidencia como a qualidade do atendimento melhorou sensivelmente com a qualificação dos colaboradores da recepção. A equipe que forma a recepção do HDB não se restringe à função de meros atendentes que executam mecanicamente um conjunto limitado de atividades. A equipe tem um conhecimento do negócio de saúde, tem uma visão 135 de processos e sabe identificar o impacto de sua ação ou omissão nos outros processos do hospital. O grau de envolvimento da recepção para fazer o paciente fluir pelo sistema de saúde é intenso. 5.2.2 Não desperdiçar o tempo do cliente No que diz respeito a não desperdiçar o tempo do cliente, a primeira característica de um processo de consumo enxuto é embutir no desenho do processo a necessidade de otimizar o tempo do cliente. O projeto do Pé Diabético foi projetado para otimizar não só o tempo do paciente como também o de seus familiares. O pólo secundário ilustra até que ponto a economia de tempo do ponto de vista do paciente é possível. O paciente marca uma única consulta e é atendido em no máximo 48h, o que contrasta com os possíveis 6 meses de espera para uma consulta não emergencial num hospital público. A estrutura de “box” de atendimento no pólo secundário permite a otimização do tempo tanto do paciente e de seus familiares como dos médicos. O paciente pode ser atendido por até seis profissionais diferentes numa única consulta. Sem esta estrutura o paciente teria que marcar seis consultas diferentes, provavelmente em dias e locais diferentes. Dadas as dificuldades de locomoção destes pacientes algum familiar teria que acompanhá-lo nesta seqüência de consultas. Os médicos, por sua vez, são capazes de atender um número muito maior de consultas por dia do que se tivessem num consultório. O “box” também possibilita a sincronização de todos os elementos do processo de atendimento: paciente, médicos, materiais e informação. Como num “pit-stop” da Fórmula 1 todos os procedimentos necessários são ministrados rapidamente ao paciente durante sua permanência no “box”. Diagnosticar com antecedência o problema também ajuda a não desperdiçar o tempo do cliente. O projeto do Pé Diabético está estruturado para detectar a doença antes do surgimento das complicações, isto não só evita o desperdício de tempo do paciente para resolver as complicações no futuro como lhe garante uma qualidade de vida melhor. 136 No caso do HDB foi o grau de insatisfação dos pacientes e dos médicos com os excessivos tempos de espera que provocou a revisão do processo das cirurgias eletivas. Houve uma redução média de 38% do tempo do paciente para a realização de uma cirurgia eletiva (artroplastia de quadril). O novo processo também reduziu em 32% o tempo empregado pelos colaboradores do hospital para prestar o mesmo serviço. A qualificação da recepção do HDB resultou em atribuir-lhe a responsabilidade por sincronizar todos os elementos do processo que, ao evitar atrasos desnecessários, reduz o desperdício de tempo no processo. A sincronização é facilmente percebida no processo de cirurgias eletivas e no processo de requisição de um exame externo para um paciente internado. Para realizar uma cirurgia eletiva é preciso coordenar a vaga do hospital com a disponibilidade do médico, a autorização do convênio e a documentação do paciente. O processo está desenhado para garantir que cada um desses elementos seja verificado no tempo certo. Para efetivar um exame externo, o conhecimento de todo o processo auxilia a sincronização das diferentes atividades: agendar o local do exame, obter liberação do convênio, chamar a ambulância, avisar e preparar a documentação do acompanhante. Tal como o exemplo da terapia trombolítica no Hospital Mãe de Deus e no Hospital São Lucas citados no capítulo 2, o protocolo de dor torácica do Hospital Pró-Cardíaco foi estruturado para lidar com doenças cujo diagnóstico e tratamento são tempo-dependente, isto é, o fator tempo é crítico para a resolução do problema. A rota 1 do protocolo, por exemplo, é a mais urgente de todas pois diz respeitos aos pacientes que já apresentam infarto agudo do miocárdio. A realização do cateterismo a tempo é uma questão de vida ou morte. Obter o máximo de informações no primeiro contato é uma prática que evita as sucessivas interrupções no fluxo do paciente. No Pró-Cardíaco a obtenção do máximo de informações possíveis no primeiro contato (a anamnese rigorosa e detalhada) está prevista pelo protocolo de atendimento e tem a função adicional de ajudar a classificação da dor do paciente. Esta classificação juntamente com os resultados dos exames levam a inserção do paciente numa determinada rota. A 137 rota é a maneira mais rápida e objetiva de se resolver o problema do paciente. Nesse sentido, as rotas também podem ser entendidas como os fluxos de trabalho previsíveis na organização. Esses fluxos são recomendados para evitar o desperdício de tempo dos pacientes. Tanto o Pró-Cardíaco como o Projeto do Pé Diabético apresentam estes fluxos bem definidos. A pronta disponibilização dos resultados dos exames também é crítica para o diagnóstico das doenças. Para isso, os passos de descritos pelo protocolo de diagnóstico da dor torácica são sincronizados com os procedimentos do laboratório. As atividades e os tempos de cada atividade do laboratório são rigorosamente monitorados. O exame que detecta a liberação das enzimas do miocárdio, por exemplo, leva 50 minutos desde o atendimento da chamada até a liberação dos resultados do exame. O laboratório responsável pelos exames clínicos no Hospital Pró-Cardíaco é o Lâmina, que pertence à Diagnósticos da América. Um dos pilares do modelo de negócio desta empresa é atender as necessidades do cliente com qualidade e no tempo adequado. Portanto, em todas as unidades da DA encontra-se a mesma preocupação que a demonstrada no Lâmina do Pró-Cardíaco em atender os prazos estipulados para disponibilização dos exames. O tempo gasto pelo cliente é um dos elementos que se procura otimizar nesse processo de atendimento. 5.2.3 Oferecer exatamente aquilo que o cliente quer Na revisão de literatura foi apresentado exatamente o que um paciente quer: um atendimento humanizado juntamente com a disponibilidade de materiais e medicamentos. Foi demonstrado como estas duas necessidades podem ser conflitantes. Um atendimento humanizado requer tempo dedicado ao paciente. Processos ineficientes de gestão de suprimentos retiram este tempo precioso do médico, das enfermeiras e dos auxiliares de enfermagem que ao invés de cuidar do paciente, têm que remediar um processo ineficiente. Todos os casos que trataram do atendimento ao paciente demonstraram de alguma forma a preocupação pela humanização do atendimento, isto é, o 138 atendimento de qualidade, voltado para a pessoa e para a construção de um bom relacionamento com o paciente. O projeto do Pé Diabético demonstra a preocupação pela humanização quando se propõe a criar confiança no paciente e prestar-lhe uma série de serviços (cortar as unhas, lixar e hidratar o pé, etc.). No Hospital Dr. Badim o atendimento humanizado aparece na filosofia do próprio hospital. No Hospital Pró-Cardíaco, a preocupação pelo atendimento humanizado se manifesta na prática de explicar ao paciente as diversas etapas do diagnóstico e fazê-lo participar do processo de decisão. No que diz respeito à disponibilização de materiais e equipamento, os processos de suprimentos do Copa D´Or incorporam uma série de características do pensamento enxuto. O comparativo de Rivard-Royer et al. (2002) entre o método lean e o método convencional de suprimentos apresentado no capítulo 2 serve de base para afirmar que o processo de suprimentos no Copa D´Or caminha em direção ao fornecimento lean. Houve um forte trabalho de redução de fornecedores. Em 3 anos, o hospital reduziu pela metade o número de fornecedores. As iniciativas de melhora na cadeia de suprimentos aumentou o giro de estoque do hospital de 12 vezes ao ano para 21 vezes. Isto demonstra que a qualidade do estoque melhorou. Houve também uma otimização na utilização dos recursos para gerir este processo. A iniciativa da consignação e do dispensário eletrônico exemplificam como a reação tanto da cadeia externa como da cadeia interna de fornecimento caminha para ser ditada por um único fator, o ritmo do consumo. Na iniciativa da consignação, o fornecedor enxerga o consumo real e repõe os produtos no hospital baseado neste fator. A freqüência de reposição é determinada pela criticidade do produto, sendo diária para os itens A. Na iniciativa do dispensário eletrônico o consumo do produto também dita a reposição. Os dispensários são reabastecidos 4 vezes ao dia, o que está em linha com a recomendação da mentalidade lean de repor freqüentemente em pequenas quantidade. Ainda em relação ao dispensário eletrônico, o Copa D´Or também segue a recomendação de localizar a distribuição dos materiais e medicamentos o mais próximo possível do cliente. Há um dispensário em cada andar o que economiza o 139 tempo de busca dos enfermeiros e aumenta o tempo disponível para dedicação ao paciente. O projeto da prescrição médica eletrônica aperfeiçoa o sistema de regular a provisão a partir de um único ponto de pedido. No caso, o ponto de pedido é o ponto de uso, no leito do paciente. Todo o sistema será integrado eletronicamente otimizando o fluxo do medicamento desde sua prescrição até sua administração. A farmácia responde sob demanda. 5.2.4 Oferecer o que o cliente quer exatamente onde ele quer Um paciente com pé diabético quer ser atendido o mais próximo possível de sua residência para evitar os incômodos do deslocamento. O projeto do Pé Diabético conta com 108 ambulatórios espalhados pelo município do Rio de Janeiro. Esta pulverização de ambulatórios permite oferecer ao portador de diabetes uma efetiva conveniência espacial. Para atender exatamente onde o cliente quer, Womack e Jones (2005) propõem que as empresas ampliem sua oferta de canais e estruturem um único sistema de provisão para estes canais. Estas duas características encontram-se presentes nas operações da Diagnósticos da América. Por querer proporcionar exames de qualidade a todas as classes sociais e adequar-se aos perfis dos diferentes públicos-alvo, a DA trabalha com canais diferenciados. Cada segmento de mercado encontra na DA um canal apropriado, isto é, uma marca com a qual se identifica. O modelo da DA se assemelha ao da varejista Tesco na medida em que oferece diversas marcas e todas as marcas são atendidas por um mesmo sistema de suporte logístico. Isso garante a homogeneização da qualidade nos exames e uma maior eficiência do sistema pelos ganhos de escala no volume atendido. O número de unidades (no Rio de Janeiro são 51 lojas) facilita o acesso ao cliente que pode escolher fazer os exames numa loja próxima a sua residência ou 140 ao local de seu trabalho. Existe também a opção da coleta domiciliar o que minimiza o desperdício de tempo do paciente. 5.2.5 Oferecer o que o cliente quer onde ele quer exatamente quando ele quer Nos problemas de saúde de modo geral, atender o paciente exatamente quando ele quer implica poder atender quando ele necessita. Ninguém quer ter um infarto agudo de miocárdio, no entanto, se vier a sofrer um infarto, o paciente quererá ser atendido neste momento. Portanto, o dimensionamento da capacidade da emergência define o quanto um hospital pode atender o paciente exatamente quando ele quer (ou necessita). A fronteira entre um problema que necessita de atendimento imediato e um que pode esperar nem sempre é muito nítida. Womack e Jones (2005) propõem um sistema de precificação dos serviços para ajudar a balancear a demanda por estas duas circunstâncias do cliente. Os serviços “para atendimento imediato” seriam mais caros do que os serviços que podem ser programados. No entanto, a possibilidade de aplicar esta lógica para os serviços de saúde não se mostrou muito viável nos atuais moldes do sistema de saúde. O principal motivo é o fato de que os sistemas de saúde, conforme afirma Wallace (2004), funcionam como um seguro contra faturas médicas não esperadas. Isto significa que o grosso dos cuidados da saúde é pago por terceiros. Quando surge um problema de saúde, o paciente que paga um plano de saúde sente-se no direito de exigir atendimento imediato forçando o atendimento pela emergência. Dado que é um terceiro que pagará a conta, não há espaço para negociação e prevalece a exigência pelo atendimento imediato independente da necessidade. A cooperação com o paciente é fundamental para identificar as suas reais necessidades, que, em relação ao tempo, ora serão de atendimento imediato, ora de atendimento que pode ser planejado. No caso do projeto do Pé Diabético, suas 141 unidades de atendimento estão estruturados para trabalhar com ambas as necessidades. Como o diabetes é uma doença que exige monitoramento constante, a grande maioria dos atendimentos são pré-programadas e já entraram na rotina específica do paciente. No entanto, emergências podem surgir e a diretriz para todos os níveis de atenção é de atendimento imediato. Procura-se desenvolver um relacionamento de confiança com o paciente. Assim, o ambulatório torna-se referência para o paciente e ele confia na capacidade de atendimento do serviço tanto para as consultas pré-programadas como nas necessidades que requerem uma atenção imediata. A coleta domiciliar de exames clínicos apresentada no caso da Diagnósticos da América ilustra este princípio de oferecer o que o cliente quer exatamente quando ele quer. O fato de ocorrerem coletas domiciliares de madrugada sinaliza a prontidão da empresa em oferecer conveniência temporal ao paciente. As coletas de madrugada tem um caráter emergencial e requerem uma infra-estrutura de apoio considerável para realmente resolver o problema do paciente. Não só a logística de suporte à coleta deve estar em funcionamento mas também alguma unidade de processamento dos exames. Os núcleos técnicos operacionais não funcionam de madrugada. A solução, portanto, passa por processar os exames nas unidades localizadas em hospitais que precisam funcionar 24 horas. Dessa forma se garante a disponibilização do resultado dos exames a tempo fornecendo ao médico do paciente a informação necessária para a tomada de decisão. 5.2.6 Agregar continuamente soluções para reduzir tempo e aborrecimento do cliente Womack e Jones (2005) propõem uma estreita colaboração entre consumidor e provedor do bem ou serviço para que as soluções oferecidas sejam cada vez mais completas ao consumidor. Quanto mais completa a solução menor 142 a necessidade do consumidor despender tempo e energia para integrar outros bens e serviços e assim resolver seus problemas. Os problemas de saúde são particularmente complexos e os consumidores dos serviços de saúde precisam lidar com uma série de fornecedores para resolver seu problema: médicos de diversas especialidades, planos de saúde, farmácias, diversos canais de atendimento. Pensar num processo de consumo enxuto de um serviço de saúde requer também oferecer soluções para minimizar o número de interfaces entre o consumidor e os diferentes provedores que integram a solução. O projeto do Pé Diabético pretende ser este único ponto de contato do paciente. O projeto foi concebido para resolver todas as complicações que podem daí surgir. Para isto realmente funcionar é necessário um sistema de informação que integre todos os níveis de atendimento. Este sistema integrado está previsto na próxima fase do projeto. Com este sistema será possível rastrear todo atendimento, disponibilizar a história clínica do paciente em qualquer ambulatório e garantir a atualização constante das informações gerenciais. Para que este projeto seja de fato o único canal de acesso às soluções para as complicações decorrentes do diabetes precisa deixar de ser o projeto do Pé Diabético. O pé não é a única complicação desta doença. Ela pode causar disfunção de órgãos vitais como olhos, rins, coração, entre outros. Seria necessário ampliar o escopo dos serviços oferecidos para se tornar simplesmente o Pólo do Diabetes. A preocupação por agregar continuamente soluções para o cliente aparece claramente na proposta da Diagnósticos da América ao pretender ser o fornecedor preferencial de seus clientes. Está em jogo a redução do número de fornecedores necessários para diagnosticar uma doença. As marcas que a DA adquiriu no Rio de Janeiro, Lâmina e Bronstein, trabalhavam apenas com análises clínicas. Para algumas doenças faz-se também necessário fazer alguns exames de imagem (ressonância magnética, tomografia, etc..). A DA está equipando suas unidades com aparelhos que possibilitem também a realização destes exames. Assim, oferecendo num mesmo lugar a 143 possibilidade de realizar tanto exames clínicos como exames de imagem, reduz-se para o paciente o tempo e o esforço necessários para resolver completamente o problema de diagnosticar uma doença. 6 Conclusões e Recomendações Este estudo buscou analisar como os princípios enxutos se aplicam nos serviços de saúde. Para tanto, foi feita uma revisão de literatura para definir o conceito lean e levantar quais os princípios que caracterizam a mentalidade enxuta na gestão das empresas. Procurou-se fazer uma compilação tanto dos princípios da provisão enxuta como os princípios do consumo enxuto de um bem ou serviço. Por provisão se entende o conjunto de atividades necessárias para disponibilizar o bem ou serviço ao cliente e por consumo entende-se o conjunto de atividades que o consumidor realiza para resolver seu problema. A revisão de literatura mostrou que o conceito lean é um conceito em evolução. Sua carga conotativa aumenta progressivamente a ponto de ser usado não só como adjetivo para qualificar determinado tipo de operação como para designar uma mentalidade com a qual se encara um processo, uma operação, uma empresa, uma solução para um problema de consumo. A aplicação do conceito também tem migrado da produção de bens para a prestação de serviços nas mais variadas indústrias. Os serviços de saúde podem ser considerados a próxima fronteira de expansão do conceito. As poucas referências bibliográficas tratando especificamente da mentalidade lean nos serviços de saúde e a falta de exemplos específicos da saúde para ilustrar todos os princípios lean demonstram como o assunto é incipiente. Referências de estudos no Brasil são ainda mais raras. Neste sentido, este estudo pretendeu oferecer uma contribuição. Daí o caráter exploratório do estudo. 144 A metodologia de estudo de casos foi considerada a mais adequada dada a natureza do objeto em estudo: um assunto contemporâneo em que o pesquisador não tem nenhum controle sobre os eventos e busca responder a uma questão do tipo “como”. A pergunta central do estudo é: “Como se aplicam os princípios lean nos serviços de saúde?”. Daí o caráter descritivo do estudo. Foram escolhidas cinco organizações brasileiras para comporem os casos do estudo. Nenhum dos casos foi escolhido por ser um exemplo bem sucedido da aplicação de princípios lean. As próprias pessoas entrevistadas desconheciam o termo. Portanto, as operações e os processos estudados não são conseqüência de uma opção explícita e consciente de desenhar as operações baseadas nos princípios lean. Os casos foram escolhidos por que pessoas com conhecimento em gestão e em saúde reconheceram a aderência destes princípios nas organizações estudadas. A mentalidade lean está voltada para o processo. Em cada caso selecionado buscou-se analisar um processo diferente. Assim, compõem o estudo o processo de: 1. atenção integral ao paciente diabético no Projeto do Pé Diabético; 2. diagnóstico e atendimento de Emergência no Hospital Pró-Cardíaco; 3. recepção no Hospital Dr. Badim; 4. suprimentos do Copa D´Or; 5. coleta de exames da Diagnósticos da América. A seguir serão apresentadas as conclusões do estudo. 6.1 Conclusões A revisão de literatura comprovou que o estudo sobre a mentalidade enxuta nos serviços de saúde ainda é muito incipiente. Existem algumas iniciativas que se propõem aprofundar no tema, mas o assunto ainda é pouco explorado. Foi encontrada pelo menos uma aplicação prática de cada princípio enxuto. A aderência dos princípios nos casos estudados reforça a tese de que qualquer 145 processo pode incorporar princípios lean (Womack e Jones, 1996 e 2005), inclusive os processos que compõem os serviços de saúde (IHI, 2005). A incorporação de princípios lean nas operações de serviços de saúde pode dar uma importante contribuição para aumentar simultaneamente a qualidade e a eficiência na prestação do serviço. A análise dos casos permitiu verificar como os princípios lean se adaptam às especificidades dos serviços de saúde. Percebeu-se a necessidade de adaptação de dois princípios em particular: “oferecer exatamente o que o paciente quer” e “oferecer o que o paciente quer exatamente quando ele quer”. A razão de ser dos serviços de saúde e o seu fim específico singularizam este serviço entre os demais. O enfermo é a razão de ser dos serviços de saúde e a enfermidade é o estado intermediário entre a saúde e a morte (Stork, 1996). O fim específico dos serviços de saúde é restaurar a saúde do enfermo ou prevenir sua deterioração. É isto que torna este serviço único. Nestas circunstâncias, o enfermo encontra-se física e psicologicamente fragilizado e é para uma pessoa neste estado que os serviços de saúde são desenhados. Assim, “oferecer exatamente aquilo que o cliente quer” não pode se resumir simplesmente na disponibilização do produto ou serviço, mas deve incluir também um atendimento humanizado em que a condição fragilizada do paciente é compreendida e amparada. Em relação ao princípio de “oferecer o que o paciente quer exatamente quando ele quer” percebeu-se que o modelo de financiamento dos serviços de saúde nos moldes vigentes (onde um terceiro - plano de saúde ou o governo paga a conta) impede a adoção de um mecanismo de precificação para balancear a demanda. Atender o “quando” passa a depender da capacidade da organização lidar com os picos de demanda. Para entender o modus operandi de um dos casos, do Hospital PróCardíaco, foi necessário aprofundar na medicina baseada em evidências (MBE), um novo paradigma da prática clínica. A análise dos princípios que configuram esta prática possibilitou estabelecer um forte paralelo entre a medicina baseada em evidências e a mentalidade lean. Este paralelo pode oferecer um campo 146 comum para se promover uma aproximação entre a linguagem médica e a linguagem da gestão de processos. Este paralelo sugere que a MBE e a mentalidade lean podem se reforçar mutuamente. Por um lado, a expansão da mentalidade lean pode ser facilitada nos serviços de saúde orientados pela MBE. Eventuais resistências da aplicação nos serviços de saúde de princípios originários da indústria poderão ser vencidas se vinculadas ao próprio desenvolvimento da prática clínica. Maior envolvimento do paciente, desenvolvimento de um protocolo que maximize a custo-efetividade, redução da taxa de erros e aleatoriedade na clínica, aperfeiçoamento contínuo da prática, educação continuada, gerar experimentos são práticas próprias da medicina baseada em evidências que servem de substrato para a incorporação de outros princípios lean. Por outro lado, a medicina baseada em evidências pode se aproveitar da mentalidade lean na medida em que esta oferece uma visão de processos, uma visão de gestão e aperfeiçoamento do processo rigorosa capaz de dar sustentabilidade às reivindicações da MBE. As organizações estudadas apresentaram uma forte preocupação pela excelência nos processos selecionados como objeto do estudo de caso. Dado que o conceito lean traz em si a busca pela perfeição do processo, foi possível estabelecer um terreno comum para a análise dos princípios. Um bom critério de seleção de um processo para começar a aplicar princípios lean é o processo que se pretenda levar à excelência. Nenhum dos casos estudados incorporou todos os princípios enxutos, o que apóia a afirmação de Womack (2004) e Spear (2005) de que ainda não existe a “Toyota” dos hospitais ou, por extensão, dos serviços de saúde. Isto significa que há muito espaço para melhora. Mesmo que houvesse uma organização entre as estudadas que aplicasse todos os princípios, isto não seria suficiente para considerá-la uma “Toyota” uma vez que existem diversos graus de incorporação destes princípios. Para surgir uma “Toyota” dos serviços de saúde, é preciso adotar a mentalidade lean voltada para a geração de valor ao paciente, centrada no processo, com foco na eliminação sistemática de desperdícios em todos os 147 processos num esforço de aperfeiçoamento contínuo. Nenhum dos processos estudados nas cinco organizações incorpora plenamente esta mentalidade. Alguns princípios estão mais presentes nos casos estudados que outros. Dos princípios da provisão enxuta, três aparecem em 4 organizações: reduzir os trade-offs de desempenho, eliminar as atividades que não agregam valor, estabelecer fluxo contínuo. Dos princípios do consumo enxuto, o princípio de não desperdiçar o tempo do paciente foi o mais presente, encontrando-se em 4 das organizações estudadas. No entanto, embora presente nas diversas organizações, a adoção de cada princípio difere em grau, motivação, intensidade e extensão na organização. Dessa forma, o princípio de não desperdiçar o tempo do paciente, por exemplo, encontra-se presente no Pró-Cardíaco por tratar de intervenções tempodependentes em que o desperdício de tempo pode ser fatal. Encontra-se também presente no Hospital Dr. Badim na introdução da pré-internação para acelerar o processo das cirurgias eletivas em que está em jogo a experiência de consumo do serviço médico. No primeiro caso, minutos fazem a diferença, no segundo, não. Este princípio também se encontra no Projeto do Pé Diabético e na Diagnósticos da América. Ambos levam em conta o tempo do paciente no desenho de seus processos, contudo, com perspectivas diferentes. Na DA o resultado do exame tem hora para sair, no projeto do Pé Diabético a perspectiva de acompanhamento do paciente é de longo prazo. Portanto, não é possível comparar as organizações entre si. Cada organização pode comparar-se a si mesma ao longo do tempo e verificar se houve progressos na eliminação do desperdício do tempo do paciente. O aperfeiçoamento contínuo é sinal da adoção da mentalidade lean. O mesmo raciocínio vale para os outros princípios. O princípio de reduzir os trade-offs de desempenho merece especial menção. O nascimento do pensamento enxuto pode ser considerado como fruto de uma síntese entre a produção em massa e a produção artesanal, o que significa que consegue conciliar a eficiência de um, a flexibilidade e a qualidade de outro. É interessante notar como o dilema entre qualidade e eficiência é 148 minimizado nos casos em que este princípio aparece. Cada caso apresenta determinado aspecto da redução do trade-off de desempenho. No caso do Projeto do Pé Diabético, a melhor qualidade no atendimento implica identificar e tratar o quanto antes o que significa menores tempos de espera, menores complicações e maior eficiência no sistema. No caso do PróCardíaco, a busca da custo-efetividade no diagnóstico e tratamento está embutido na sua filosofia de trabalho. No caso do Copa D´Or, através da utilização de práticas lean nos processos de suprimento, o nível de serviço foi melhorado juntamente com a eficiência. No caso da Diagnósticos da América, seu modelo de negócio flexibiliza o atendimento conforme cada público, oferece a mesma qualidade nos exames a todos os públicos e ao processar os exames de maneira centralizada garante ganhos de eficiência. Estes exemplos demonstram o potencial da mentalidade lean na superação dos conflitos entre estes indicadores de desempenho. Do ponto de vista das organizações estudadas, pode-se afirmar que cada caso exemplifica e ilustra de maneira mais plena determinado princípio. O Projeto do Pé Diabético exemplifica o entendimento do processo de consumo de um serviço de saúde e como se estruturar para “resolver o problema do paciente completamente”. O Hospital Dr. Badim demonstra como qualificar o pessoal da linha de frente aumenta a eficiência do processo também contribuindo para “resolver o problema do paciente completamente”. O Hospital Pró-Cardíaco com sua estratégia de sistematização do atendimento ilustra o princípio de “não desperdiçar o tempo do paciente”. O Hospital Copa D´Or incorpora bem em seu processo de suprimento o aspecto de disponibilizar o produto, que é parte do “oferecer ao paciente exatamente o que ele quer”. A Diagnósticos da América ao oferecer marcas diferentes com um único sistema de reabastecimento, coleta de exames e processamento de exames exemplifica o “oferecer ao paciente o que ele quer exatamente onde ele quer”. No que diz respeito à adoção mais plena do princípio de “não desperdiçar o tempo do cliente” pode-se afirmar que os serviços de saúde encontram-se numa situação privilegiada em relação a outras indústrias. Faz parte da realidade dos 149 serviços de saúde se deparar com situações em que a solução do problema do paciente é tempo-dependente, isto é, o fator tempo é crítico para a qualidade de vida ou mesmo a sobrevivência do paciente (como foi exemplificado no caso do infarto agudo de miocárdio do Hospital Pró-Cardíaco e na terapia trombolítica do Hospital Mãe de Deus e no Hospital São Lucas). O risco da morte pressiona o desenvolvimento de um processo mais enxuto, exige a eliminação de tempos desnecessários, estimula a criatividade para encontrar soluções mais eficientes. Esta situação cria na organização um processo de aprendizagem que pode também ser aplicado em outros processos que não sejam tempo-dependentes e que não tenham um desfeche fatal, mas que consomem tempo inútil dos envolvidos. Por que não estruturar todos os processos nos serviços de saúde como se fossem uma questão de vida ou morte? No que diz respeito a dados quantitativos, o que se percebe nas organizações estudadas é o desenvolvimento de uma cultura de medição que ainda não atingiu sua maturidade. Existe a consciência da necessidade de medir os resultados dos processos, mas as organizações estudadas ainda se deparam com questões do tipo o que medir, como medir, que tecnologia usar, como obter a aprovação orçamentária necessária para contar com pessoas para fazer as medições. Sem o comprometimento com a obtenção e o acompanhamento constante de dados quantitativos que refletem o desempenho dos processos é impossível o aperfeiçoamento contínuo. Quantificar o desperdício de tempo, dinheiro, movimentos, atividades, re-trabalhos, etc. é condição sine qua non para implementar plenamente a mentalidade lean. Todos os entrevistados mostraram interesse e abertura no sentido de conhecer novas idéias e práticas mais eficientes de gestão. Verificou-se nas organizações estudadas um real interesse pela melhoria dos processos, o que torna promissora a possibilidade de aprofundar e expandir a incorporação de princípios enxutos nestas organizações. 150 6.2 Recomendações Seguem algumas recomendações para futuros estudos nesta linha. Ao se propor a estudar serviços de saúde, o pesquisador deve deixar claro que não pretende fazer comparações entre instituições. No âmbito dos serviços de saúde, percebeu-se uma tal sensibilidade em relação à exposição da organização a comparações que a pretensão de fazer um estudo comparado pode inviabilizar a pesquisa. Uma possibilidade de pesquisa seria fazer um estudo mais aprofundado numa única instituição. Escolher-se-ia uma instituição de referência para mapear todos os processos e analisar a aderência dos princípios em cada processo. O desafio está em entender os diferentes fluxos que os pacientes percorrem no serviço de saúde e como os outros processos os suportam. Faz falta uma pesquisa para definir um padrão de processos lean para a área de saúde. A partir deste padrão seria possível medir o quanto uma organização se aproxima ou se afasta dos princípios lean. O processo de consumo de serviços de saúde ainda está por ser explorado. Um estudo que levantasse todas as atividades que o consumidor precisa realizar para resolver seu problema de saúde completamente e as possíveis fontes de frustração em cada etapa contribuiria para um melhor entendimento do processo. Seria possível enxergar o serviço de saúde através do olhar do consumidor, indicando os diversos fornecedores com os quais o paciente precisa lidar e apontando interessantes oportunidades de redução de desperdício. Outra linha de pesquisa interessante é buscar entender qual a pressão que mais propícia para a adoção de princípios enxutos: a pressão por redução de custos ou a pressão por aumentar a qualidade. O pesquisador faria uma segmentação de mercado posicionando os serviços de saúde nos diversos nichos para avaliar em que segmento existe maior aderência aos princípios enxutos. Daqui a alguns anos, seria interessante voltar às mesmas organizações descritas nesta dissertação para verificar se houve alguma evolução em relação à 151 incorporação dos princípios enxutos. Os princípios foram “transplantados” para outros processos? Houve melhora nos processos estudados? O princípio “oferecer exatamente aquilo que o paciente quer” merece maior aprofundamento. Conciliar a promoção de um atendimento humanizado e ao mesmo tempo eficiente é entender mais uma redução de trade-off de desempenho no campo da saúde. Trata-se de estudar a possibilidade de humanizar a medicina com processos eficientes. Outra síntese interessante para pesquisa seria entre a medicina baseada em evidências e a mentalidade lean. A questão de como integrar a prática clínica baseada em evidências com uma gestão lean de processos poderá trazer uma importante contribuição para uma medicina simultaneamente de qualidade e eficiente. 152 7 Referências Bibliográficas Anônimo. “Redesigning care reduces emergency waiting times”. Australian Nursing Journal, North Fitzroy, Vol. 12, Iss. 6, p. 29, Dec 2004/Jan 2005. Allway, M.; Corbett, S. “Shifting to Lean Service: stealing a page from manufacturers´ playbooks”. Journal of Organizational Excellence, Spring, 21, 2, 2002. Almeida, C. D.; Ferreira, R.; Marechal, M. H.; Milano, N. E. “Programa piloto para implantação da portaria 453 do Ministério da Saúde no serviço de imagem do Hospital Municipal Cardoso Fontes”. Anais do V Encontro Nacional de Aplicações Nucleares, 2000. Araújo, C. A. S. Fatores a serem gerenciados para o alcance da qualidade para os clientes internos: um estudo em um conjunto de hospitais brasileiros. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPEAD. Tese (Doutorado em Administração), 2005. Arbós, L. C. “Design of a rapid response and high efficiency service by lean production principles: Methodology and evaluation of variability of performance”, International Journal of Production Economics, Vol. 80, n. 2, p. 169-183, 2002. Ben-Tovim, D. “Can lean save health care?” Disponível em <http://www.leanuk.org/articles> Acesso em: 26 mai. 2006 Blackwell, R. D.; Miniard, P. W. e Engel, J. F. (2001). Comportamento do Consumidor. São Paulo: Pioneira Thomson Learning (tradução da 9ª Edição norte-americana), 2005 153 Bohmer, R.; Edmonson, A.C.; Feldman, L.R. “Intermountain Healthcare”. HBS Case9-603-066. Cambridge, MA: Harvard Business School Publishing. Rev. 3 de junho de 2003 Bowen, D. E.; Youngdahl, W. E. "Lean" service: in defense of a production-line approach, International Journal of Service Industry Management, Bradford, Vol. 9, Iss. 3, p. 207-225, 1998 Bundy, D. G.; Randolph, G. D.; Murray, M.; Anderson, J.; Margolis, P. A. “Open Access in Primary Care: Results of a North Carolina Pilot Project”, Pediatrics, Vol. 116, No. 1, July, p. 82-87, 2005. Bushell, S.; Mobley, J.; Shelest, B. “Discovering lean thinking at Progressive Healthcare”, The Journal for Quality and Participation, Vol. 25, No.2, p. 20-25, June 2002. CAMPOS, C.C. Um estudo das relações entre operadoras de plano de assistência à saúde e prestadores de serviço. Porto Alegre, 2004. Dissertação (Mestrado) – Escola de Engenharia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2004. Canel, C.; Rosen, D.; Anderson, E. A. “Just-in-time is not just for manufacturing: a service perspective”. Industrial Management & Data Systems Vol. 100, No. 2, p. 51-60, 2000. Davenport, T. H. Process innovation: reengineering work through information technology. Boston, MA: Harvard Business School Press, 1993. Davis, S.; Meier, C. Blur: the speed of change in the connected economy. Reading: Addison-Wesley, 1998 154 Davidoff, F.; Haynes, B.; Sackett, D.;, Smith, R. Evidence based medicine: a new journal to help doctors identify the information they need. BMJ; 310:1085-6, 1995. Desjeux, D. Réflexions sur la logique des innovations dans l’espace domestique: Une entrée anthropologique pour comprendre la consummation comme un processus social, 2003 http://www.iae.unicaen.fr/recherche/doc/CD_journees_normandes_conso/cd1_jour nees2/Caen%202003/Atelier%205/DESJEUX.pdf Acesso em: 12 de jun. 2006 Deslandes, S.; Ayres, J.R. de C.M.; Minayo, M.C., Boaretto, C., Campos, R.O. Ciênc. saúde coletiva., Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141381232004000100003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 06 de ago. 2006. DHHS. The Challenge and Potential for Assuring Quality Health Care for the 21st Century. Publication No. OM 98-0009. Prepared by the Department of Health and Human Services for the Domestic Policy Council, Washington, DC, June 17, 1998. http://www.ahrq.gov/qual/21stcena.htm Acesso em: 15 de mai. 2006 Duclos, L.; Siha, S.; Lummus, R. “JIT in services: a review of current practices and future directions for research”. International Journal of Service Industry Management, Vol. 6 No. 5, p. 36-52, 1995. Emiliani, M.L. “Lean behaviors”. Management Decision, 36/9, p. 615–631, 1998. Ferraz, M. B. Dilemas do sistema de saúde. Gazeta Mercantil, São Paulo, 06 jul. 2005. Ferro, J. (2005), “Novas fronteiras de aplicação do sistema Lean em serviços”. Disponível em <http://www.lean.org.br> Acesso em: 23 ago. 2005 155 Figueiredo, K.; Escobar, D; Suarez, M.; Paixão, R. En Busca del Lean Service: Un Estúdio de Casos em Dos Compañías Aéreas, una de Brasil, outra de Europa. In: ENCONTRO ANUAL DA ANPAD, 27, 2003, Atibaia. Anais… Atibaia: ANPAD, 2003. FIRJAN. Série Quanto Custa? Nº 2/2005 – 03 de janeiro de 2006 Friedrich, M.; Mannetti, E.; Martins, S. “Implementação da Terapia Trombolítica no Hospital São Lucas da PUCRS e no Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre, Rio Grande do Sul”. Revista Neurociências Vol. 12 No. 2, Abr/Jun, 2004. Fukuyama, F. A Grande Ruptura: a natureza humana e a reconstituição da ordem social, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000. Garnett, N.; Jones, D.; Murray, S. "Strategic Application of Lean Thinking”. Proceedings 6th IGLC Conference, Guarujá, Brazil, 1998. Gershuny, J. Changing Times: Work and Leisure in Postindustrial Society. London: Oxford University Press, 2000 in: Womack, J; Jones, D. Lean Solutions. How companies and customers can create value and wealth together. New York: Free Press, 2005. Gomes, L. M. O dilema entre qualidade e produtividade no service de atendimento ao cliente (SAC): um estudo de caso brasileiro. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPEAD. 133p. Dissertação. (Mestrado em Administração), 2004. Gomes, M. M. Medicina baseada em evidências: princípios e práticas. Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso Ed., 2001 156 Gruen, T. W.; Corsten, D.; Bharadwaj, S. “Retail Out-of-Stock: a Worldwide Examination of Exent, Causes and Consumer Responses”. Washington, D.C.: Grocery Manufacturers of America, 2002. Hines, P.; Holweg, M.; Rich, N. “Learning to evolve: A review of contemporary lean thinking”. International Journal of Operations & Production Management Vol. 24 Issue 10, p. 994-1012, 2004. IHI. “Going Lean in Health Care”. Institute for Healthcare Improvement. Innovation Series, 2005. IOM. “Crossing the Quality Chasm”, Institute of Medicine, 2001. JAMA. Evidence-based medicine. A new approach to teaching the practice of medicine. Evidence-Based Medicine Working Group. JAMA. 268: 2420-2425, 1992. Jaeschke, R.; Guyatt, G. H.; Sackett, D. L. User´s guide to the medical literature. III. How to Use an Article About a Diagnostic Test. JAMA. 271(5):389-391, 1994. Jones, D. “Broken Business Models”, Management Services. Spring, 2006. Krafcik, J.F. "Triumph of the lean production system", Sloan Management Review, Vol. 30 No. 1, p. 41-52, 1988. Lamming, R. “Squaring Lean supply with supply chain management”, International Journal of Operations & Production Management, Vol. 16, No. 2, p. 183-196, 1996. 157 LASA (2005), Relatório Anual. Disponível em: <http://ri.lasa.com.br/site/informacoesfinanceiras> Acesso em: 16 mai. 2006 Latas, J.; Robert, C. (2000), “O Hospital do Século XXI”, Nota Técnica publicada pela División de Investigación del Instituto de la Empresa, Madrid. Vol. 16 no. 2, p. 24-41 LEI. “The Anatomy of Innovation”. Lean Enterprise Institute. 2004. Disponível em: http://www.ihi.org/IHI/Topics/MedicalSurgicalCare/MedicalSurgicalCareGeneral/Lit erature/TheAnatomyofInnovation.htm Acesso em: 23 de jul. 2006 Levitt, T. "Production-line approach to service", Harvard Business Review, Vol. 50 No. 5, p. 20-31, 1972. Liker, J. K. The Toyota Way: 14 Management Principles from the World´s Greatest Manufacturer. New-York: McGraw Hill, 2004. Kahneman, D. Judgment and decision making: a personal view. Psychological Science, v. 2, n. 3, May, 1991. Maia Filho, H. de S.; Cunha A. J. L. “Diagnóstico” in: Gomes, M. M. Medicina baseada em evidências: princípios e práticas. Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso Ed., 2001. Murphy, M. E.; Noetscher C. M. “Reducing hospital inpatient lengths of stay”, Journal of Nursing Care Quality: Using Health Care Data to Improve Utilization and Outcomes Special Issue Frederick: Nov. Iss. 1, p. 40-54, 1999. 158 NHS (2006). National Health Service - Lean Implementation handbook draft, 15 de janeiro de 2006. Disponível em: http://www.institute.nhs.uk/NHSInstitute/ServiceTransformation/Lean+Thinking.htm Acesso em: 6 de abr. 2006 OECD. “Towards High-Performing Health Systems”, 2004. Panchak, P. “Lean health care? It works! ”. Industry Week. November, 2003. Pfeffer, J.; Sutton, R. I., “Evidence-based management”. Harvard Business Review. p. 63-74, January, 2006. Porter, M.; Teisberg, E. O. “Redefining Competition in Health Care”, Harvard Business Review. Vol. 82, Issue 6, p. 64-79, June, 2004. Ritzman, L.P.; Krajewski, L. J. Administração da Produção e Operações. São Paulo: Prentice Hall, 2004. Rivard-Royer, H.; Landry, S.; Beaulieu, M. “Hybrid stockless: a case study. Lessons for health-care supply chain integration”. International Journal of Operations & Production Management, Vol. 22 No. 4, p. 412-424, 2002. Sackett, D.L.; Rosenberg, W.M.C.; Muir Gray, J.A.; Haynes R.B., Richardson, W.S. Evidence based medicine: what it is and what it isn't. BMJ; 312:71-72, 1996. Schneider, B.; Godfrey, E. G.; Hayes, S. C.; Huang, M.; Lim, B.; Nishii, L. H., Raver, J. L.; Ziegert, J.C. The human side of strategy: employee experiences of strategic alignment in a service organization. Organizational Dynamics, New York, v. 32, n. 2, p. 122, 2003. 159 Senge, P. The Fifth Discipline. New York, NY: Currency, Doubleday, 1990. Singh, J. “Performance productivity and quality of frontline employees in service organizations”. Jornal of Marketing, Vol. 64, p. 15-35, April, 2000. Slack, N.; Chambers, S.; Johnston, R. Administração da Produção. 2ª Edição, São Paulo: Atlas, 2002. Soriano-Meier, H; Forrester, P.L. “A model for evaluating the degree of leanness of manufacturing firms”, Integrated Manufacturing Systems; 13, 2, p. 104-109, 2002. Shingo, S. O Sistema Toyota de Produção do ponto de vista da Engenharia de Produção. 2ª Edição, Porto Alegre: Bookman, 1996. Spear, S.; Bowen, H. K. “Decoding the DNA of the Toyota Production System”. Harvard Business Review, p. 97-103, September-October ,1999. Spear, S. Fixing Health Care from the Inside, Today. Harvard Business Review. September, 2005. Stork, R. Fundamentos de Antropologia, Pamplona: EUNSA, 1996. Süffert, W. R. O pensamento enxuto nos serviços: um estudo de caso no setor bancário brasileiro. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPEAD. Dissertação. (Mestrado em Administração), 2004. Swank, C. “The lean service machine”. Harvard Business Review, p. 123-129, October, 2003 160 Trinkhaus, J.; Dannenbring, D.; Nathan, J. “A JIT-type stocking system for hospital pharmacies: The stockless method”. Hospital Material Management Quarterly Rockville: May. Vol. 17, Iss. 4, p. 1-14, 1996. Tversky, A., Kahneman, D. “Availability: A heuristic for judging frequency and probability”. Cognitive Psychology, 5, 207-302, 1973. Towill, D.R.; Christopher, M. “An evolutionary approach to the architecture of effective healthcare delivery systems”. Journal of Health Organization and Management Vol. 19 No. 2, p. 130-147, 2005. Wallace, P. “The health of nations”, The Economist, July 15th, 2004. Womack, J. “Competition equals lean?”, carta a Colin Mason da Engineering Industries Associates UK comentando artigo de Porter, 2004. __________. “The Tower of Babel”, Outubro de 2004b. Disponível em: <http://www.leanuk.org/lean_community_articles.htm> Acesso em: 24 abr. 2006 __________. “Walking Through Lean History”, Dezembro de 2004c. Disponível em: <http://www.leanuk.org/lean_community_articles.htm> Acesso em: 24 abr. 2006 __________. “The Dramatic Spread of Lean Thinking”, Abril de 2005. Disponível em: <http://www.leanuk.org/lean_community_articles.htm> Acesso em: 24 abr. 2006 Womack, J; Jones, D. “From Lean Production to the Lean Enterprise”, Harvard Business Review, 00178012, Mar/Apr, Vol. 72, Issue 2, 1994. 161 ___________________. Lean Thinking: Banish Waste and Create Wealth for Your Corporation, New York, NY : Simon and Schuster, 1996. ___________________. Lean Solutions. How companies and customers can create value and wealth together. New York: Free Press, 2005. ___________________. “Lean Consumption”, Harvard Business Review. March. p58-68, 2005a. Womack, J; Jones, D. T. e Roos, D. A Máquina que Mudou o Mundo. 17ª Edição, Rio de Janeiro: Campus, 1992 Wysocki Jr., B. (2004). Industrial Strength: To Fix Health Care, Hospitals Take Tips From Factory Floor; Adopting Toyota Techniques Can Cut Costs, Wait Times; Ferreting Out an Infection. Wall Street Journal (Eastern Edition). New York, N.Y.: Apr 9, 2004. Yasin, M.; Zimmerer, L. W.; Miller, P.; Zimmerer, T. W. “An empirical investigation of the effectiveness of contemporary managerial philosophies in a hospital operational setting”, International Journal of Health Care Quality Assurance Bradford. Vol. 15, Iss. 6/7, p. 268-276, 2002. Yin, R. K. Estudo de Caso: planejamento e métodos. 2ª Edição, Porto Alegre: Bookman, 2001.