ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema Do projetor: a história de Ráskolnikov a serviço de Weimar a partir da crítica de Paulo Emílio. ZANATTO, Rafael Morato (UNESP– Assis) RESUMO: A presente pesquisa se refere à primeira de três partes que refletem a adaptação de Crime e Castigo, de Dostoiévski para o cinema expressionista pós Primeira Grande Guerra. Através da exibição do filme “Ráskolnikov” (1923), de Wiene na Semana de Cultura Cinematográfica realizada pela Cinemateca Brasileira em 1959, esta pesquisa reflete através de De Caligari a Hitler - História Psicológica do Cinema Alemão de Kracauer o final do primeiro período da República de Weimar (1918-23), centrando-se no vazio mental sofrido pela sociedade após a desilusão com o projeto republicano. A alternativa para a transposição do abismo encontrava no caos instintivo ou na autoridade total elementos que regenerariam a psicologia coletiva de um país em re-estruturação, marcado pela inflação galopante, desilusão com as estruturas morais, etc. O que se propõe é compreender a dinâmica social que possibilitou o nascimento do fascismo, reconhecendo na produção cinematográfica expressionista o irracionalismo, o misticismo e subjetivismo. Esta pesquisa vai alem da produção cinematográfica e estabelece relação com o mundo de Dostoiévski, momento histórico de transformação das relações sociais servis com a inserção da industrialização e das idéias ocidentais. PALAVRAS-CHAVE: República de Weimar; História; Cinema; Ráskolnikov; Crime e Castigo. ABSTRACT: The research here presented refers to the first of tree parts which reflects the adaptation of the roman Crime and Punishment of Dostoievski for expressionist movie after the First Great War. Trough the showing of the movie Raskolnikov (1923) of Wiene in the Week of Cinematographic Culture what has been realized for the “Cinemateca Brasileira” in 1959, this research reflects about the “From Caligari to Hitler – A Psychological History of the German Film” of Kracauer the and of the first period of Weimar Republic (1918-23), what is centering in the mental emptiness suffered for society after the disillusionment with the republican project. The alternative for the transposition of the abyss found on instinctive chaos or on the total authority elements what could regenerate the collective psychology of a country which was structuring itself again, which was signed for galloping inflation, disillusion with the moral structures, and other things more. What is intentioned is to comprehend the social dynamic what has been made possible the birth of the fascism, recognizing in expressionist cinematographically production the irrationalism, the mysticism and the subjectivism. This research goes beyond the cinematographically production and establish relation with the world of Dostoievski, historical moment of transformation of the servile sociality relations with the insertion of industrialization and occidental ideas. KEY-WORDS: Weimar Republic; History; Film; Ráskolnikov; Crime and Punishment. Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema No ano de 1959, a Cinemateca Brasileira, sediada na cidade de São Paulo, realizava a Semana de Cultura Cinematográfica voltada para o estudo do cinema expressionista da República de Weimar. Após a seleção de onze produções que estavam a deteriorar devido ao deficiente apoio público, foram exibidas “O Gabinete do Doutor Caligari” (1919) e “Raskolnikov” (1923), ambos de Robert Wiene e “Metrópolis” (1927) de Fritz Lang. Não se tratava nessa semana de considerar o cinema apenas por sua estética, mas reconhecer em sua forma a dinâmica social que culminou no fascismo. Aproximando-se da critica de Kracauer, em seu livro De Caligari a Hitler - História Psicológica do Cinema Alemão, de 1947, Paulo Emilio entende que o cinema constitui “[…] o folclore da era industrial, de ser um dos maiores fornecedores de fantasia para o homem moderno, de ser um reflexo da vida social que, analisando criticamente, proporciona ao nosso século uma chave até então ignorada para a interpretação das estruturas psicológicas da comunidade” (1981, p. 464). Ao tecer essa afirmação, Paulo Emilio aproxima-se do trabalho de Kracauer, em que considera que Toda nação desenvolve dispositivos que sobrevivem a suas causas primárias e passam por metamorfose própria. Eles não podem ser simplesmente inferidos dos fatores externos vigentes, mas, reciprocamente, ajudam a determinar reações a estes fatores. […] Estes dispositivos coletivos ganham impulso em casos de mudança política radical. A dissolução dos sistemas políticos resulta na decomposição dos sistemas psicológicos e, no tumulto subseqüente, atitudes internas tradicionais, agora liberadas, são impelidas a se tornarem manifestas, sejam elas combatidas ou apoiadas. (EMILIO, p. 21, 1988). Os ‘dispositivos psicológicos’ que permeiam a produção cinematográfica são conceituados por Kracauer como profundas camadas da mentalidade coletiva que se situam mais ou menos abaixo da dimensão da consciência (1988, p.18). Tal tentativa nos remete ao artigo “Antes do Cinema Alemão”, que conserva as considerações tecidas por Paulo Emilio acerca da obra de Kracauer: Se o livro de Siegfried Kracauer se torna cada vez menos convincente, decorridos apenas dez anos de sua publicação, não é por se ter o autor iludido ao crer na possibilidade de vislumbrar através do cinema a dinâmica social que levou os alemães ao hitlerismo, mas por ter forçado sua tese na animação do imediatismo político. (EMILIO, 1981, p.459). Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema Não nos cabe nesta pesquisa contestar as afirmações de Paulo Emílio quanto ao imediatismo político de Kracauer. Ele o tem razão na medida em que observamos o contexto em que a intelectualidade alemã dissidente estava inserida. Como em todos os regimes totalitários, o alemão forjou e encorajou o esmagamento das tendências dissidentes enraizadas nas estruturas sociais. À dissidência restou orientar sua produção no sentido de se opor ao regime que as persegue e as esmaga. Não é desvencilhado da fuga da França ou o exílio nos Estados Unidos que Kracauer publica sua obra em 1947, o que não a faz menos capaz de compreender a dinâmica social que orientou os alemães ao autoritarismo. Dentre as onze produções cinematográficas, a análise de Ráskolnikov, de Robert Wiene será o solo que nos aproximará do ano de 1923. Fruto da adaptação literária de Crime e Castigo, essa obra, expressão ortodoxa do movimento estético, representa dentro da dinâmica psicológica encontrada por Kracauer o momento que chamou de ‘vazio mental’, que desencadeado a partir da desilusão total com as estruturas sociais tradicionais, em rápida transformação a partir da inserção do capitalismo tardio na Alemanha do pós Primeira Guerra Mundial. Como resultado das incertezas advindas da profunda instabilidade política da Alemanha, a psicologia das massas se deparou com um incomensurável dilema crucial, cujas alternativas se posicionavam em dois pólos: “por um lado, a adoção de um regime tirânico, por outro, o caos governado pelo instinto” (KRACAUER, 1988, p.130). O medo do vazio que se produzia na mentalidade coletiva do povo alemão advindo deste dilema crucial fez-se disposto a encontrar um padrão psicológico que se adequasse ao determinado momento da história alemã. A manifestação expressionista pôde contemplar seu apogeu, segundo Louis Dupeux, “entre os anos de 1919 e 1923, antes de recuar diante de diferentes correntes de uma nova objetividade” (1982, p.83), fundada com a superação do vazio. O expressionismo ofereceu alguma resistência às convenções burguesas, intensificando sua critica cultural, fundada na busca do espírito dos seres e das coisas. O abandono do belo se faz a fim de encontrar o verdadeiro. “Seu irracionalismo, misticismo e subjetivismo, assim como a denuncia da grande cidade e o apelo ao sentido de comunidade são características comuns ao nazismo” (DUPEUX, 1982, p.85), “o pessimismo do movimento expressionista não é senão a face negativa da fé na chegada de um mundo novo, realmente belo” (DUPEUX, 1982, p.79). Não se trata aqui de considerar o expressionismo como manifestação fascista. Pelo contrário, este é anterior e nos assinala que os elementos em comum com o fascismo evidenciam o sofrimento Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema da psicologia das massas com o desenvolvimento desigual do capitalismo tardio na estrutura social alemã, “inspirando na psicologia a construção de modelos que se distinguem do desenvolvimento dos fenômenos ou dos processos por certos caracteres de latência, de coesão interna, de autonomia relativa, enfim, de uma resistência à mudança que não exclui as recomposições estruturais” (LAGACHE, 1971, p.82). Segundo Machado, esse processo engendra [...] um conjunto de relações que combina a contemporaneidade das fábricas e a não-contemporaneidade de suas arcaicas condições de vida” […] em que “é vista a partir de sua manifestação mais geral no presente para em seguida ser articulada esquematicamente como expressão dos diferentes segmentos e das classes sociais que a reproduzem. (MACHADO, 1998, p. 59-60) Para Kracauer, o vazio metal diagnosticado em Weimar no ano da exibição de Ráskolnikov assinala a tentativa dessa produção apresentar uma solução ao dilema que perturbava a alma alemã. É viável para o estudo da história considerar essa produção sob o ponto de vista da dialética histórico-cultural de Benjamin, em que compreende o momento social como um “composto de bipartições segundo pontos de vista determinados, de modo que, de um lado, se situe à parte da época fértil, plena de futuro, vital e positiva, e de outro, a estéril, atrasada e morta” (2004, p.34). Encontrar a solução proposta pela adaptação para o ‘vazio mental’ assume como premissa que a história não é positiva e nem negativa, mas a ser revelada a partir da noção de que os “contornos dessa parte positiva apenas poderão ser claramente revelados, quando se traça o perfil dessa parte positiva contra a negativa” (BENJAMIN, 2004, p. 34). As considerações de Benjamin nos permitem compreender a solução apresentada pelo filme como um resquício ideológico do passado, este que ao se fundir com a parte positiva (modernismo), pode conceber o complexo ideológico que produziu na mentalidade coletiva a conformidade e a aceitação das regras como premissa para a superação da crise e nos dá a possibilidade de considerar o irracionalismo, o misticismo e o subjetivismo presente na forma expressionista como os elementos do passado (parte negativa) anteriormente eliminados que re-emergiram com a nova divisão social fascista, mas diverso do antes designado (2004, p. 34-5), em um momento que o capitalismo necessitou do antagonismo não contemporâneo (heterogeneidade), para delimitar suas contradições rigorosamente contemporâneas. “Utilizou Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema de um passado ainda vivo como meio de divisão e de luta contra o futuro que se engendra dialeticamente dos antagonismos capitalistas”. (MACHADO, 1998, p.61). Segundo Machado, a contradição entre o campo e a metrópole foi compreendida por Ernst Bloch de modo que pode considerar o mundo social alemão do período a partir do que definiu de dialética pluridimensional e pluriespacial, que consiste na relação dialética entre a heterogeneidade do tempo e do espaço, da relação tempo espaço produzido no campo e na metrópole a partir do modo de produção de determinada localidade. Para Bloch, não é o atraso econômico do capitalismo na Alemanha que permite explicar a frágil situação dos pequenos burgueses, dos camponeses e dos empregados diante da ‘trapaça nazista’. Segundo ele, esta expressão trata-se de um resíduo ideológico e econômico de épocas anteriores (BLOCH apud MACHADO, 1998, p.50). Sua origem direta está na desagregação dos elementos da realidade, na coerência desmedida e nos múltiplos relativismos do tempo que reúne suas partes em novas figuras (BLOCH apud MACHADO, 1998, p.51). A partir da síntese entre elementos da contemporaneidade moderna com elementos não contemporâneos (sociedade agrária), puderam produzir indivíduos cuja peculiaridade nos aproxima dos personagens de Dostoievski, retratados sob a ideologia do realismo russo, que consistia em se valer a literatura para denunciar politicamente as idéias e os desmandos do regime czarista russo no momento da inserção da modernidade em sua estrutura social. Segundo Frank, A literatura serviu, mais ou menos, como válvula de escape através da qual os assuntos proibidos podiam ser apresentados, ou pelo menos, sugeridos. Isto se deve apenas ao fato de que a literatura não é um adorno ou acessório da existência cotidiana; é a única forma na qual os russos podem ver discutidos os verdadeiros problemas com os quais se preocupam e que seus governantes sempre acharam melhor que ignorassem. (FRANK, 1992, p. 62) As relações sociais em acelerada transformação, tanto na Rússia como em Weimar produziram os apátridas transcendentais que Lukács definiu em seus estudos sobre Dostoievski. Estes homens, imersos em um dilema que não encontrava solução no mundo exterior, buscaram no âmago as forças que restauraram seus valores morais. Apoiaram-se na autocrítica para preencher o vazio mental ou o abismo da alma, autocrítica ou ética metafísica delimitada pela rebeldia ou o caos instintivo, de um lado, e o conformismo e a aceitação das ordens, do outro. Jovem Lukács nos anuncia que este abismo atravessado pelo indivíduo se faz em três partes. O isolamento e a busca de si em si como trajetória que culmina em uma Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema ética – metafísica, experimentada pelo individuo à medida que suas ações individuais transcendem a concepção maniqueísta do mundo. Segundo Machado, “os apátridas transcendentais que se constituem diante de um mundo em reorganização abandonam a primeira ética, ética do dever kantiano, desvencilhando sua alma da subordinação ao Estado e suas normas e regras, de onde passam a criar a partir da autocrítica, a realidade da alma ou segunda ética, em que o novo homem passa a conservar em si a primazia de sua relação com o mundo exterior” (2004, p. 65-6). Primeira ética: veracidade: eliminação do mal entendido. Relação nessa esfera: vida e não construção (ainda um dever – existência é vivida – Kant sobre respeito). Luta e conflito na alma entre a ação e a convenção (felicidade como mera qualidade de imediato; deduz - se assim o matrimonio: fidelidade como virtude da primeira ética). Transição a segunda ética em Kierkegaard: suspensão teleológica da ética: incógnito (Abramo) importante para Kierkegaard: essa por essência seja boa como ruim. Demoníaca é cada individualidade que sem participação (daqui a taciturnidade a respeito de todos os outros), apenas tramita se aquela está em relação com a idéia. Se a idéia é Deus então a individualidade é religiosa; se a idéia é o mal, então é demoníaca em senso estrito. (LUKÁCS, 2000, p. 71). O novo épos que se constitui a partir do re-ordenamento da relação do homem com o mundo, nas obras de Dostoiévski, só é possível na medida em que vem à luz uma nova ética formada a partir da ação dos personagens, como configuração à priori que descreve o processo de realidade da alma, construída analogamente a primeira ética, a partir das convicções de cada singularidade (MACHADO, 2004, p.62). Segundo Bakhtin, os heróis de Dostoievski são os veículos de sua própria palavra, eles possuem independência em sua concepção filosófica própria e plena, donde seus personagens não são apenas objetos do discurso do autor, mas os próprios sujeitos do discurso (1981, p. 1-2). A partir das consciências concretas e integras de seus heróis, eles desarticularam as teses ideológicas, que ou se dispunham numa série dialética dinâmica, ou se opunham umas as outras como antinomias absolutas irrevogáveis (BAKHTIN, 1981, p. 5). As teses ideológicas de que fala Bakhtin se assemelha ao que Lukács define de primeira ética e o processo de desarticulação destas é justamente donde resulta o florescimento da ‘segunda ética’ ou a ‘realidade da alma’. Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema O personagem Ráskolnikov, enlouquecido pela miséria, pode formular diante das idéias que estavam em voga na sociedade russa uma ética metafísica que o proveu de mecanismos para interagir no mundo russo em rápida transformação. A adaptação de uma obra literária para o cinema impõe algumas alterações de forma que impossibilita sua comparação, como o caso dos personagens. Paulo Emilio considera que não é a comparação estética que interessa para a compreensão do cinema, “mas é a sociologia que reflete a sua originalidade” (1968, p. 106). O cinema é visto por esse critico como um teatro romanceado ou romance teatralizado. A primeira afirmação, porque como no teatro o cinema possui as personagens da ação encarnadas em atores, as é graças aos recursos narrativos do cinema, onde tais personagens adquirem uma mobilidade, uma desenvoltura no tempo e no espaço equivalente às das personagens do romance. Estes porem são feitos exclusivamente de palavras escritas e no cinema são feitos exclusivamente por pessoas, o que segundo Paulo Emilio retira do cinema a liberdade fluida com que o romance comunica suas personagens aos leitores (1968, p. 111). O fato de o filme Ráskolnikov ser criado a partir da atuação do “The Moscow Art Theatre Players”, remete-nos diretamente a redução do personagem central, interpretado por Gregory Khmara, a um digesto simplificado e pobre. As obras de arte são esteticamente incomparáveis. Segundo Lukács, as obras de arte apenas são revitalizadas quando correspondem a ansiedades similares aquelas no qual foram produzidas (JOHNSON, 1982, p. 9). Talvez diante da esperança da mentalidade coletiva alemã encontrar uma solução para esse dilema, esta se reconheceu com o do povo russo da década de 60 do século XIX, do qual pode Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema vislumbrar a transposição do abismo que lhes foi imposto quando seus valores tradicionais foram dilacerados e assimilados pela modernização de sua sociedade. Tanto a adaptação de Wiene, como a forte vendagem das obras de Dostoiévski editadas pela Moeller van den Bruck expliquem a grande popularidade desse escritor durante o período de modernização da sociedade alemã, do período entre - guerras (KRACAUER, 1988, p. 132). Essas contradições parecem do mesmo modo ter influenciado o expressionismo alemão, já que Bloch considera que “o Expressionismo está em conexão com a própria montagem do texto, isto é, o modo como as contradições espaço - temporais se manifestam no campo e na metrópole” (apud MACHADO, 1998, p.55). Em “O Gabinete do doutor Caligari” (1919), o roteiro escrito por Mayer e Janowitz decorreu diretamente da guerra. Sua ideologia consistia no horror pelo princípio de autoridade e de respeito ao chefe, tão importante na visão social alemã e responsável, segundo eles, pelo que houvera de pior durante a carnificina de 1914-18. Estavam convencidos que a autoridade necessariamente secreta o crime. (GOMES, 1981, p. 469-70) “O gabinete do doutor Caligari foi para Wiene uma revelação, sendo Raskólnikov sua tomada de consciência […] nessa adaptação (Ráskolnikov), Wiene procura soluções novas para os inúmeros problemas suscitados por Caligari” (GOMES, 1981, p.473). Talvez um desses problemas fosse propor uma alternativa estética que representasse uma resposta ao dilema, restaurando a tradição então degenerada pela modernidade. O resultado que encontra em sua adaptação “foi o restabelecimento do respeito à autoridade e a apresentação da rebeldia como um caso de loucura” (GOMES, 1981, p. 470). Esse problema certamente influenciou na escolha de adaptar Crime e Castigo, como mais uma tentativa de reforçar a opção pela tradição. Do vazio mental conceituado por Kracauer, os alemães procuraram uma solução suficientemente capaz de preencher essa lacuna psicológica do mesmo modo que os personagens de Dostoievski encontraram na autocrítica uma solução para o abismo que as transformações imputadas pela modernidade careciam de solução. A tendência emocional da Alemanha no pós – guerra, período marcado pela revolução espartaquista derrotada e pelo fracasso do plano de recuperação econômica, apoiou-se no auto-sacrifício para encontrar uma solução ao dilema. A revolução não solucionaria o dilema. A revolução só produzirá Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219 ANAIS DO IX SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA HISTÓRIA E MEMÓRIA – LITERATURA NO CINEMA e III Simpósio Gêneros Híbridos da Modernidade – Literatura no cinema catástrofe. O homem deve sofrer. O homem mais nobre é aquele que sofre não apenas por si mesmo, mas por todos os seus semelhantes. Como o mundo não pode ser mudado, o homem deve ser mudado pelo amor (KRACAUER, 1988, p.132). REFERÊNCIAS: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Ed. Forense – Universitária, 1981. BENJAMIN, Walter. Teoria do Conhecimento, Teoria do Progresso. In: Memória e Vida Social: Assis, 2002. DUPEUX, Louis. História Cultural da Alemanha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. FRANK, Joseph. Pelo Prisma Russo – Ensaios Sobre Literatura e Cultura. São Paulo: Ed. EDUSP, 1992. GOMES, Paulo Emílio Sales. A Personagem Cinematografia. In: CANDIDO, Antonio (org.). A Personagem da Ficção. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1968. _______________________. Crítica de Cinema no Suplemento Literário – Volume I. Rio de Janeiro: Paz e Terra – Embrafilme, 1981. JOHNSON, Randal. Literatura e Cinema. Macunaíma: Do Modernismo na Literatura ao Cinema Novo. São Paulo: T.A Queiroz Editor,1982. KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler – Uma História Psicológica do Cinema Alemão. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar Editor, 1988. LAGACHE, Daniel. Estrutura em Psicologia. In: BASTIDE, Roger (org.). Usos e Sentidos do Termo Estrutura. São Paulo: Editora Herder; EDUSP, 1971. LUKÁCS, György. Dostoevskij. Milano: Ed. SE – Saggi e Documenti Del Novecento, 2000. MACHADO, Carlos Eduardo Jordão. As Formas e a Vida – Estética e Ética no Jovem Lukács (1910-18). São Paulo: Editora Unesp, 2004. ______________________________. Um capítulo da história da modernidade estética: debate sobre o expressionismo. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998. RÁSKOLNIKOV. Produção e Direção Robert Wiene. República de Weimar, Michael J. Gouriand, 1923. 1h 27´. Seminário Nacional de Literatura, História e Memória (9. : 2009 : Assis – SP) ISSN: 2175-943X Páginas 211-219