3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL O CINEMA DE OLNEY SÃO PAULO: UMA ANÁLISE DE GRITO DA TERRA NO CONTEXTO DO CINEMA NOVO Dinameire Oliveira Carneiro Rios 1 Prof. Dr. Claudio Cledson Novaes2 1 INTRODUÇÃO O final da década de 1950 e o início da década seguinte, pré-golpe militar, é um período marcado por transformações e por uma forte efervescência em campos diversos da sociedade brasileira. Se politicamente o país sentia a euforia desenvolvimentista dos 50 anos em 5 propostos pelo governo de Juscelino Kubitschek, no plano cultural e artístico assistia à fundação do primeiro Centro Popular de Cultura, ligado à UNE, que por sua vez se encontrava em um momento de intensa participação política e discutindo, à pleno vapor, assuntos ligados ao quadro político e cultural do país. No que diz respeito às questões culturais, esse momento na história do Brasil se caracteriza como um período em que as discussões acerca da nacionalidade e o desenvolvimento do país estavam cada vez mais intensas, estruturadas a partir de uma produção ideológica que subsidiaria as décadas mais fecundas de uma representação artística em específico, o cinema. Sobre esse período artístico afirmam Heloísa Buarque de Hollanda e Marcos Augusto Gonçalves: No terreno da atividade artística, o ambiente de otimismo e de projeção de um salto bem-sucedido para o desenvolvimento estimulava a prática de uma polêmica vanguarda literária ‒ o movimento da poesia concreta ‒ que se dedicava à experimentação de novas linguagens capazes de expressar as feições modernas que se afiguravam na sociedade brasileira. [...] Passava-se, em suma, por um momento estimulante e propício à articulação de uma produção cultural brasileira, capaz de responder em suas diversas áreas ao projeto nacional de desenvolvimento.i 1 Aluna do Programa de Pós-graduação em Literatura e Diversidade Cultural da Universidade Estadual de Feira de Santana, bolsista FAPESB. 2 Professor Doutor da Universidade Estadual de Feira de Santana, Orientador. ISBN 978-85-7395-210-0 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL É dentro deste fértil terreno que germinam as primeiras sementes daquele que é considerado o principal e mais relevante movimento já ocorrido no cinema brasileiro: o Cinema Novo. Os jovens intelectuais que se reuniam em bares, cafés, livrarias e cineclubes das principais capitais brasileiras, especialmente, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, partiriam para a prática dando início ao Cinema Novo, movimento estéticopolítico com propostas originais que visava construir uma arte revolucionária, engajada em discutir a realidade subdesenvolvida do país, bem como seus problemas mais latentes. 2 AS PROPOSTAS ESTÉTICAS E POLÍTICAS DO CINEMA NOVO O principal líder do movimento, o cineasta baiano Glauber Rocha, declarava quais eram seus objetivos: “Queremos fazer filmes antiindustriais; queremos fazer filmes de autor, quando o cineasta passa a ser um artista comprometido com os grandes problemas do seu tempo; queremos filmes de combate na hora do combate e filmes para construir no Brasil um patrimônio cultural.” ii Empolgados e influenciados pelo Neorrealismo italiano, pela Nouvelle Vague francesa e pela ideias anticolonialistas de autores como Frantz Fanon e Jean Paul Sartre, os cineastas cinemanovistas participaram e opinaram sobre as principais propostas de seu tempo, através de produções que traziam à tona traços e aspectos brasileiros até então desconhecidos do público do nosso cinema. Apesar da produção de alguns filmes que já defendiam ou se relacionavam com ideias que fomentavam a base desse movimento cinematográfico, como foi o caso de Rio 40 Graus, de Nelson Pereira e Aruanda, de Linduarte Noronha, ele é nomeado e lançado por três artigos publicados em 1960: um de Glauber Rocha e dois outros de Gustavo Dahl e Jean-Claude Bernadet. Os cineastas e participantes ativos do movimento almejavam a superação da alienação, do atraso e da dependência cultural do país através do exercício de reflexão e do questionamento presente na linguagem e nos temas abordados dentro de suas criações fílmicas, pois só assim seria possível desvencilhar-se da condição de um país subdesenvolvido e colonizado culturalmente. É isso que Glauber Rocha propõe, também, em seu primeiro manifesto construído dentro dos parâmetros do Cinema Novo, a Estética da Fome, texto em que o cineasta sugere, entre outras coisas, a desconstrução 3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 145 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL da concepção europeia de que a América Latina e consequentemente o Brasil seria o locus do primitivismo e da não-civilização, enquanto a Europa representava para o mundo o padrão de civilidade que deveria ser seguido, perpetuando, desta forma, uma mentalidade estritamente colonial. Dentre as diversas discussões englobadas pela produção do Cinema Novo, a região Nordeste e seu aspecto rural ganharam uma notável visibilidade especialmente em seu momento inicial. De acordo com Tolentino (2001) isso se deu principalmente por dois motivos: primeiro por ser esse aspecto do Brasil visto por muitos à época como uma possível reserva de nacionalidade e por ter acontecido nesse período a entrada em cena dos movimentos sociais rurais, fortalecidos pela redemocratização do país a partir do ano de 1946, bem como pelo surgimento das Ligas Camponesas na região Nordeste. Desta forma, temas que eram rejeitados pelo público por mostrar a nós mesmos e ao estrangeiro o nosso lado atrasado e feio, passaram a ser “o sinônimo de brasilidade”. Esse cambiar de posicionamento acontece dentro de uma ampla e complexa conjuntura social, política e cultural e está inserido na dialética de um penoso discurso sobre a formação de nossa identidade. No nosso cinema até meados do século passado “as imagens do Brasil rural produziam desconforto no cinéfilo nacional, que exigia para elas um tratamento, no mínimo, atenuante do que havia de rude, como fazia o nosso principal modelo, o cinema americano, com seus westerns”iii. Mas como aponta, ainda, Célia Tolentino iv para se chegar a essa fase de produção do Cinema Novo, “o cinema brasileiro precisou ganhar em tecnologia, industrializar-se e imitar bem o seu correlato estrangeiro (americano) para poder impor a temática rural para o grande público. E, tal como aquele, afirmá-la como passado, sem vigência, sem tradição”. Apesar das diversas influências externas que recebeu, esse entrelaçamento do cinema nacional a partir da década de 1960 e a nossa ruralidade, tão bem transfigurada na região Nordeste, se materializou através do encontro entre duas artes: o próprio cinema e a literatura, neste caso, a brasileira. É dentro da literatura brasileira, mais especificamente dentro do Modernismo e seu “romance de trinta” que o Cinema Novo encontra “as imagens e enunciados que falavam da “realidade social do país”. Da sua miserabilidade, que vinham ao encontro de sua proposta estética e política.” v 3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 146 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL É através desse diálogo com a literatura de autores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Américo, José Lins do Rego e Jorge Amado que o cinema vai transpor na tela o lirismo da prosa da geração de 30, mas transcendendo algo muito aquém disso, o Cinema Novo propõe e constrói outras e, em alguns casos, mais densas releituras da realidade brasileira e nordestina que compôs as páginas do romance do início do século XX. Assim, dialoga com o Modernismo também no seu sentido crítico, conscientizador das raízes primitivas do povo brasileiro, além de participar de uma discussão fortemente travada no Brasil da década de 60: a problemática da reforma agrária. É através, também, das inúmeras adaptações de livros conhecidos pelo grande público que o Cinema Novo consolida uma relação mais tênue e congregada com as expectativas desse público diante da tela. Com estratégias sociais e políticas visivelmente marcadas, o Cinema Novo se propõe a ser, então, um discurso que trazia à tona a mais pura realidade nacional, desconstruindo retóricas alienantes e nos fazendo refletir sobre o papel e a conjuntura real e espacial daquele “outro” (o rural, o subalterno, o nordestino, o analfabeto etc.) outrora negado pelo nosso inconsciente. Esse “outro”, representado na literatura, por exemplo, pelo estereótipo do Jeca Tatu de Monteiro Lobato e imortalizado no cinema pelos filmes de Mazzaropi, poderia representar a síntese da “nossa mais profunda brasilidade”vi ou simplesmente o símbolo mais cruel do nosso atraso. E, num momento em que as políticas de Juscelino Kubitschek ansiavam cada vez mais por um desenvolvimento pautado na industrialização, o cinema, assim como outros veículos mais de produção cultural, sentia a necessidade de participar da construção de outra imagem do Brasil, mostrar um rosto que a urbanização buscava, a qualquer custo, obscurecer: A visão até culpada destes homens de classe média (os cineastas cinemanovistas) enche a tela de homens pobres sem defeito, de camponeses injustiçados e esfomeados, de perseguidos pelo hediondo latifundiário e pelos devassos imperialistas. Adora-se este povo mítico, reverencia-se a sua miséria e subdesenvolvimento. Uma classe média em permanente processo de desterritorialização, uma burguesia e um operariado com identidades fragmentárias e sem projetos para o país fazem com que esta esquerda volte suas esperanças para os marginalizados da sociedade, para os párias da nação. [...] vão ao Nordeste e ao campo em busca das forças primitivas da nação, da rebeldia, quase instintiva do povo, como também da sua passividade quase animalesca [...].vii 3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 147 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL No debate aflorado que havia no Brasil em meados do século XX direcionado à problemática da reforma agrária, Nelson Pereira dos Santos participou dele de forma significativa quando transpôs para as telas o romance Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, indo “além da superfície do texto, além do que nele se pode ver e ler” viii, para representar e criticar a desigualdade social responsável pela miséria e pela fome no país, em especial, no Nordeste. Esse debate ainda seria fomentado e enriquecido por diversas outras produções no decorrer das primeiras décadas da metade do século. 3 GRITO DA TERRA: A RURALIDADE NO CINEMA DE OLNEY SÃO PAULO Embora o primeiro filme considerado cinemanovista tenha um caráter basicamente urbano, é o aspecto rural que vai predominar durante os primeiro anos desse movimento cinematográfico. Ainda que as propostas do Cinema Novo não tivessem formuladas ou definidas, Linduarte Noronha constrói na Paraíba, no final da década de 50, um filme-documentário que já alinhava-se estético e politicamente com os ideais do movimento, Aruanda, considerado então uma obra de transição. Aruanda, de certa maneira, pela temática que aborda, já prenunciava os rumores presentes em diversos outros filmes que viriam poucos anos depois, como foi o caso de Vidas Secas e Deus e o Diabo na terra do sol. Na produção cinematográfica baiana um filme é considerado pela crítica como o enlace final deste surto rural dentro do Cinema Novo: neste caso considera-se o primeiro longa-metragem do cineasta Olney São Paulo, o filme Grito da terra. Olney São Paulo, cineasta baiano nascido na cidade de Riachão do Jacuípe, realizou ao longo de sua curta carreira, 14 filmes, sob a notável e assumida influência do Neorrealismo italiano e dos westerns norte-americanos. Olney desde muito cedo já manifestava uma veia artística, descoberta posteriormente mais ligada à literatura e ao cinema que qualquer outra arte. Abertamente engajado em discutir a realidade brasileira através de sua obra, esse cineasta buscou representar a conjuntura social e política da época em que foi contemporâneo, de maneira crítica e contextualizada com as mais diversas transformações pelas quais o país passava, de forma que, uma de suas principais realizações, o filme Manhã Cinzenta (1969) lhe rendeu um doloroso processo 3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 148 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL da censura durante a ditadura militar. Este filme é baseado num conto homônimo do próprio Olney escrito em 1966 e a posterior adaptação cinematográfica é considerada um dos pontos máximos da obra do cineasta. Dentro da discussão travada pelo Cinema Novo em relação às questões ligadas à realidade do país, principalmente no diz respeito aos problemas concernentes ao campo nas décadas de 60 e 70, a obra de Olney São Paulo produziu significados não somente dentro do cinema, como também dentro da ficção literária. Seu livro de contos A Antevéspera e O Canto do Sol (1969) traz na sua segunda parte contos relacionados à temática sertaneja, atrelando aspectos já consagrados pela literatura modernista da década de 30, como também retratos e nuanças de um sertão que ainda precisava ser revisto e reinterpretado pelo leitor e pela crítica. Na cinematografia de Olney São Paulo o telúrico vem à tona fortemente a partir de Grito da terra, longa-metragem produzido em 1964, fruto da adaptação da obra homônima do escritor Ciro de Carvalho Leite. Descrevendo o filme como “um filmepoema em que o Homem e a Terra [são] os únicos personagens. Um quase documentário, uma crônica rural. Um depoimento sobre a vida do sertanejo desamparado e explorado”ix Olney, através de Grito da terra, insere sua obra, ainda com mais veemência, dentro de uma das mais latentes discussões da época: a releitura de imagens da realidade brasileira, especialmente a agrária, através das lentes do cinema em consonância com país urbano e industrializado que estava surgindo. É dentro do contexto desse diálogo que o filme de Olney se circunscreve num momento político em que as vozes eram cerceadas, mas a arte tentava imprimir uma retórica que, ainda que alegoricamente, denunciasse uma realidade que não coadunava com a mentalidade, senão da população em geral, mas com a dos intelectuais da época. No plano das questões rurais dentro da cultura brasileira, Grito da terra revela a ligação de seu idealizador com o debate sobre a reforma agrária no Brasil, em voga na época, essa discussão é encenada/representada dentro da película através das famílias de Silvério e Apolinário, sertanejos que, em meio à seca e às pressões dos latifundiários, tentam resistir, bravamente, sobrevivendo na terra, e Sebastião, um fazendeiro que aos poucos almejava adquirir as terras dos pequenos proprietários do local. Esse quadro de posturas divergentes é simbolizado dentro do filme através de duas figuras femininas centrais: Loli, amante de Sebastião e filha de Silvério, que almeja, a qualquer custo, 3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 149 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL deixar o sertão e residir no âmbito “desenvolvido” e urbano e Mariá, filha de Apolinário, que crê na força das raízes do campo e deseja resistir às adversidades que afetam os agricultores. As engrenagens desenvolvidas no interior da trama fazem com que ela dialogue, ainda que de forma tênue, com obras de viés mais político e alcance os liames do messianismo, através de personagens como Mariá e o professor negro, este uma figura emblemática dentro do filme que vê na educação uma das formas de emancipação e de reconhecimento social dos direitos dos trabalhadores rurais e aquela por acreditar na vinda do “cavaleiro [...] em seu cavalo negro ( ou branco, como sugeria o roteiro original do filme) e com as mãos cheias de luz”, entendido pela censura da época como uma referência ao Comunismo, mais especificamente, uma referência à figura de Luis Carlos Prestes. Lançando mão desses recursos dentro da construção da obra cinematográfica, Olney São Paulo inclui seu cinema no que Durval Muniz de Albuquerque Junior diz ser o cinema que: se propõe a representar a realidade em sua essência, me mostrar a realidade do seu tempo e do espaço e não os inventar, limitando o trabalho com a linguagem à busca de formas de maior impacto, de choque junto ao público. Eis a busca da violência primitiva, quase instintivas, em que as formas de “rebeldias primitivas” e de “messianismos religiosos” podiam rapidamente ser direcionadas para um projeto revolucionário. Era preciso revolver a camada de esquecimento produzida pelo discurso dominante [...] x Embora o elenco do filme contasse com atores já conhecidos pelo grande público, como Helena Ignez, Lucy de Carvalho, João de Sordi e Lídio Silva, o seu idealizador enfrentou problemas de diversas ordens durante a fase de distribuição e exibição. Além de ter uma de suas cenas cortada pela Censura Federal (a cena em que Mariá faz referência ao “cavaleiro do cavalo branco”), sofreu também com o problema da falta de uma rede para exibição nacional. Se a temática central abordada em Grito da terra se alinhava com as propostas de muitos outros filmes do Cinema Novo, a técnica utilizada ainda estava ligada à formação teórica e cinéfila clássica do seu idealizador. A linearidade com que a narrativa é conduzida, a linguagem utilizada, com planos abertos e longos, contrasta, por exemplo, com Manhã Cinzenta (1969), filme produzido por Olney São Paulo já em 3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 150 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL moldes modernos, vanguardistas, se alinhando melhor tecnicamente com as propostas do Cinema Novo, quando comparado ao filme Grito da terra. O sertão baiano se transforma dentro do filme de Olney São Paulo em um dos personagens centrais, servindo de grande palco para a trama que se desenrola no decorrer da narrativa fílmica, dando ênfase ao segundo maior personagem dentro do filme, o homem sertanejo, como sugeriu o próprio cineasta ao afirmar ser seu filme “um filme-poema em que o Homem e a Terra [são] os únicos personagens”. _________________________ i Hollanda; Gonçalves, 1984, p. 32-33. Rocha, apud Hollanda; Gonçalves, 1984, p. 37. iii Tolentino, 2001, p.12. iv Idem. v Albuquerque Junior, 2001, p. 272. vi Tolentino, 2001, p.11. vii Albuquerque Junior, 2001, p.275. viii Avellar, 2007, p.35. ix São Paulo apud José, 1999, p.71. x Albuquerque Junior, 2001, p.276. ii RESUMO Este trabalho apresenta uma análise do filme Grito da terra (1964), do escritor e cineasta baiano Olney Alberto São Paulo, em contraposição ao contexto em que foi produzido, período de surgimento do Cinema Novo. Olney São Paulo produziu seu primeiro longa-metragem, Grito da terra (1964), em um período crítico e importante no cenário da cultura nacional, especialmente para o cinema, devido ao surgimento do movimento denominado Cinema Novo, e traz no bojo desta obra importantes discussões que estavam latentes no campo cultural e político daquele momento, como a necessidade de realização de uma reforma agrária no Brasil, a construção de um discurso, principalmente nas produções fílmicas, sobre a região Nordeste, o processo de urbanização da sociedade brasileira, etc. Neste sentido, analisa se como esse primeiro longa-metragem produzido por Olney São Paulo dialoga técnico e tematicamente com outras obras fílmicas produzidas e lançadas dentro desse contexto de preparação e surgimento do Cinema Novo, e neste caso tem-se produções como Aruanda (1959), Vidas Secas (1963), Os fuzis (1963), Deus e o Diabo na terra do sol (1964), e de qual forma o cineasta baiano neste filme Grito da terra esteve preocupado em reiterar e/ou 3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 151 3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911-2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL discutir as questões presentes naquela conjuntura da sociedade brasileira e que já estavam sendo debatidas no interior de diversos outros filmes, em especial os engajados com as propostas cinemanovistas. PALAVRAS-CHAVE: Cinema nacional; Grito da terra; Análise em contexto. ABSTRACT This paper presents an analysis of the film Grito da terra (1964), writer and filmmaker by Alberto Olney Bahia Sao Paulo, in contrast to the context in which it was produced, the emergence period of Cinema Novo. Olney São Paulo produced his first feature film, Grito da terra (1964), in a critical and important setting of national culture, especially for the film, due to the emergence of the movement known as Cinema Novo, and brings in the midst of this work major discussions that were latent in the cultural and political moment that, as the need to carry out an agrarian reform in Brazil, the construction of a discourse, especially in filmic productions on the Northeast region, the urbanization of Brazilian society, etc.. In this sense it looks like this is the first feature film produced by Olney Sao Paulo and technical dialogue with other thematically filmic works produced and released within this context of preparation and appearance of the Cinema Novo, in which case it has productions as Aruanda (1959), Vidas Secas (1963), Os fuzis (1963), Deus e o Diabo na terra do sol (1964), and which forms of the Bahian filmmaker in this movie scream of the land was concerned to reiterate and / or discuss the issues in that brazilian context society and that were already being discussed within several other films, particularly those engaged with the proposals cinemanovistas. KEYWORDS: National Cinema; Grito da terra; Analysis in context. BIBLIOGRAFIA ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz. A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: Editora Massangana, 2001. AVELLAR, José Carlos. O chão da palavra. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. HOLLANDA, Heloísa Burque de; GONÇALVES, Marcos Augusto. Cultura e Participação nos anos 60. 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Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 144-153. 153