A Estética da Fome no primeiro ciclo do cinema de retomada: “Cidade de Deus” e as referências do Cinema Novo Antônio Fabrício E. Barbosa1 Resumo O presente artigo propõe uma analise sob a relação do conceito de Estética da Fome, criado pelo cineasta Glauber Rocha nos filmes brasileiros produzidos entre 1994 e 2002, considerando este período como primeiro ciclo do Cinema de Retomada. O filme Cidade de Deus, será utilizado para análise que terá como ponto de estudo as referências do Cinema novo como tema, recurso e/ou linguagem na película do cineasta Fernando Meirelles. Palavras-chave: Estética da fome. Cinema Novo. Cidade de Deus. Introdução Em 1990 uma nova Lei do Audiovisual injetou investimentos e facilitou a capitalização indireta para produção e circulação de filmes nacionais. Em 1994 o filme “Carlota Joaquina, a princesa do Brazil” de Carla Camurati abre um marco e o Brasil assiste a um aumento substancial nos lançamentos de títulos e nas bilheterias. Em apenas oito anos mais de duzentos filmes são produzidos e as películas brasileiras passam a representar 10% dos ingressos vendidos nos cinemas. Identificaremos este período como o primeiro ciclo do Cinema de Retomada. Boa parte dessas produções abordou temas com referências no cotidiano e na contradição social brasileira. Favelas, guetos e personagens marginais mostraram uma nova perspectiva a fatos contemporâneos. Filmes como “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles, “Como uma onda no ar” de Helvécio Ratton, “Quanto Vale ou é por quilo?” e “Cronicamente Inviável” de Sérgio Bianchi, “Central do Brasil” de Walter Salles, “Baile Perfumado” de Lírio Ferreira, “Santo Forte” e “Edifício Máster” de Eduardo Coutinho, “Bicho de Sete Cabeças” de Laís Bodanzky e também “Carandiru” de Hector 1 Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Tocantins. E-mail: [email protected] Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 Babenco trazem debates de temas esquecidos, omitidos ou distorcidos nos grandes meios de comunicação e nas demais produções cinematográficas. Considerado como o grande ícone do Cinema Novo, e por muitos autores como o grande símbolo do cinema nacional, Glauber Rocha durante a “Resenha do Cinema Latino-Americano”, em Gênova, Itália, apresentou o artigo “Uma Eztetyka da Fome” (conforme a grafia particular do cineasta). Segundo o cineasta é preciso mais que denunciar a fome como uma simples mazela social, o cinema deve considerar a fome também como cultura dentro de um processo sistêmico, assumindo como objetivo denunciar, as instituições, sujeitos e forças responsáveis por tal processo. Durante os anos 60 e 70 a estética da fome tornou-se o principal guarda-chuva teórico do movimento do cinemanovista. Nesse sentido o presente artigo propõe uma análise do primeiro ciclo do Cinema de Retomada, através do filme Cidade de Deus, que mesmo sem se organizar como movimento estético, rediscutiu temas como a violência, o misticismo e a miséria, trazendo referências da estética da fome e do próprio Cinema Novo. O cinema novo e a estética da fome Influenciado diretamente pelo Neo-realismo italiano e da Nouvelle Vague francesa, o Cinema Novo brasileiro reformulou e revolucionou o meio cinematográfico. Uma das características foi o rompimento com o método industrial tradicional que havia no país. Era apenas “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” e realizadores independentes, atores amadores, lotações ao ar livre. Os filmes seriam voltados à realidade brasileira e com uma linguagem adequada à situação social da época. Os temas mais abordados estariam fortemente ligados ao subdesenvolvimento do país.Outra característica dos filmes durante o cinema novo é que eles tinham imagens com poucos movimentos, cenários simplórios e falas mais longas do que o habitual. Muitos ainda eram rodados em preto e branco. (ALMEIDA, 2000, on-line). O cinema brasileiro propôs ao público um outro viés, o revolucionário, trazendo para um espaço que antes era eminentemente burguês, temas e personagens populares, proletários e camponeses. A subversão do cinema como arte e também como Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 meio de comunicação, buscou formar um ideário nacional comprometido com profundas reflexões e mudanças na sociedade. Para Sidney Ferreira Leite (2005, p. 91), “Emergiram reivindicações orientadas para estabelecer uma confluência entre os rumos do país, nas esferas econômica e social, e as aspirações nacionalistas do setor (...)” Em 1964, é lançado o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” sob a assinatura de Glauber Rocha, que é aclamado internacionalmente. Segundo o cientista político Flávio Reis (2005, p.14) o filme foi visto como “alegorização que retratou o misticismo religioso e a violência desordenada no sertão sob o viés da alienação”. Na película Glauber explora o recurso do Transe, onde personagens eram mergulhados profundamente para exemplificar a catatonia política no Brasil e toda América Latina. Os caminhos como messianismo ou a violência (representada pelo cangaço) figurariam uma busca infida por justiça. Glauber mostra que nem o messianismo ou o cangaço conseguiria propiciar essa justiça. Seus filmes se encarregariam de indicar que o tormento de Glauber sempre passou pela possibilidade de junção dos dois caminhos. Ele não transita simplesmente da rejeição a proximidade em relação ao messianismo, entre os filmes da década de 60 e os da década de 70. Toda a sua obra é atravessada por uma profunda vinculação com a força do misticismo e do transe enquanto formas de expressão essencialmente plástica, onde o caráter estético se sobrepõe às categorizações racionalizadoras, abstratas. Bradava por uma “ruptura com os racionalismos colonizadores” incapazes de falar da fome latina senão como sintoma, subdesenvolvimento, falta de algo, numa utilização do signo marcada pela idéia de predomínio do significante, que retirava das coisas a possibilidade da existência mítica. (REIS, 2005, p.13). O princípio se opunha a: Filmes de gente rica, em casas bonitas, andando em automóveis de luxo; filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens, e de objetivos puramente industriais. Estes são os filmes que se opõem à fome, como se, na estufa e nos apartamentos de luxo, os cineastas pudessem esconder a miséria moral de uma burguesia indefinida, e frágil, ou mesmo os próprios materiais técnicos e cenográficos pudessem esconder a fome que está enraizada na própria incivilização. (ROCHA, 1965, on-line). Para Glauber Rocha estes filmes se opunham a fome maquiando-a atrás de “materiais técnicos e cenográficos”. O caminho para um novo cinema no Brasil seria Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 através da fome que estava: “enraizada na própria incivilização”, na fome como conteúdo, mas também como forma: De “Aruanda” a “Vida Secas”, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, escuras; foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo. (ROCHA, 1965, on-line). O que o cineasta coloca como “o período das grandes crises de consciência e de rebeldia, de agitação e revolução” é o período entre o governo de Jânio Quadros e João Gullar, que é abruptamente surpreendido pelo golpe militar em 1964. O país passa a viver sob uma ditadura militar de direita. Não era passível ao Governo que filmes que denunciassem um problema social quase crônico, que tinham como raiz os próprios ideais explorador da direita. A fome pela fome, mostraria os famintos em suas expressões mais primitivas evocando uma violência política contra a sub-humanização do latino, Glauber Rocha acreditava que, Uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado: somente conscientizada sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo o horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo: foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino. (ROCHA, 1965, on-line). Incorporada no drama, a estética da fome não se refletiu a melodramas ou na violência sem finalidade nela própria, mas sim em um caminho duplo de denúncia para conscientização e apontamento para um caminho, não um atalho para a revolução, mas sim um caminho de construção do indivíduo oprimido em um faminto revolucionário. A Retomada Em 1990 Fernando Collor de Melo, o primeiro presidente eleito através de eleição direta depois do golpe militar, regeu seu governo por uma série de “pacotes” para estabilizar a economia nacional. Estas ações foram conhecidas como Plano Collor, e entre as medidas mais contundentes estavam, a extinção do cruzado novo e a volta do Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 Cruzeiro como moeda nacional; o bloqueio dos depósitos em contas correntes e cadernetas de poupança o fim de subsídios e incentivos fiscais; o lançamento do Programa Nacional de Desestatização; a extinção de vários órgãos do governo, entre estes órgãos extintos estava a Embrafilme, a empresa estatal que subsidiava os filmes no país. Sem políticas públicas para a produção e com o país imerso em crises econômicas, o que resultou em um número reduzido de filmes brasileiros sendo produzidos. Mesmo com o governo federal enfraquecido devido os seguidos esquemas de corrupção descobertos nas constantes CPIs, com uma herança econômica problemática deixada por Collor e sem nenhum projeto no campo político, o governo Itamar Franco cria em julho de 1993 a Lei 8.695, que ficou conhecida com a primeira Lei do Audiovisual (NABIG, 2002). O código previa deduções de impostos a empresas e instituições apoiadoras ou patrocinadoras de produções cinematográficas. Conforme o artigo 1º: Até o exercício fiscal de 2010, inclusive os contribuintes, poderão deduzir do imposto de renda devido as quantias referentes a investimentos feitos na produção de obras audiovisuais cinematográficas brasileiras de produção independente, mediante a aquisição de cotas representativas de direitos de comercialização sobre as referidas obras (...). (AGENCIA NACIONAL DE CINEMA, 2000, on-line). Consonante aos novos incentivos públicos através da lei do audiovisual e das novas possibilidades de produção, o cinema brasileiro volta a despertar a atenção do público. Filmes nacionais como “Carlota Joaquina” (película considerada por muitos como o marco da retomada do cinema brasileiro) de Carla Camurati, “O Quatrilho” (filme indicado ao Oscar de 1994 como melhor filme estrangeiro) de Fábio Barreto e “Central do Brasil” (também indicado ao Oscar, mas no ano de 1995) de Walter Salles alcançaram mais de 1 milhão espectadores nas salas de cinema. É fácil constatar que as leis de incentivo, os prêmios e particularmente a Lei do Audiovisual proporcionaram uma abertura democrática no panorama cinematográfico nacional. Como costuma enfatizar o secretário do Audiovisual, José Álvaro Moisés, entre 1994 e 2000, 55 novos cineastas surgiram no país, “número tão expressivo àquele que deu origem à Nouvelle Vague, na França, nos Anos 50”. Inúmeros diretores que, no início dos anos 90, estavam confinados ao curtametragem, a partir de 1994 puderam se lançar no longa, com obras Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 que já se tornaram marcos em nossa cinematografia. (NABIG, 2002, p.13). Chamado, convencionalmente, de Cinema de Retomada esse movimento extrapola o caráter de boom nas produções nacionais e o sucesso de mercado (Campos, 2005). A ampliação no quadro de realizadores, o fortalecimento da quebra do monopólio do eixo de produção Rio - São Paulo e a revalorização de diretores consagrados (entre eles nomes do Cinema Novo) apontam também um novo paradigma estético para o cinema nacional. [...] estreantes no longa-metragem como Tata Amaral, Beto Brant, Rosane Svartman, Eliane Caffé, Fabrízia Alves Pinto, Toni Venturini, Eduardo Caron, Mirella Martinelli[...] encontram-se em pé de igualdade com veteranos como Cacá Diegues, Nelson Pereira do Santos, Carlos Reichenbach, Walter Lima Jr.[...], ou com uma geração intermediária, como Walter Salles, Murilo Salles, André Klotzel, Sérgio Bianchi, Guilherme de Almeida Prado. [...] o Brasil se mostra em sua geografia ampla, para além do eixo Rio-São Paulo: Estão representados o Amazonas (Aurélio Michiles, Djalma Limongi Batista), o Ceará (Rosemberg Cariry, josé Araújo, Marcus Moura), Pernambuco (Paulo Caldas, Lírio Ferreira), Brasília (André Luiz Oliveira, Afonso Brazza), Espírito Santo (Amylton de Almeida), Minas Gerais (Helvércio Ratton, Eder Santos), Paraná (Sylvio Back), Rio Grande do Sul (Jorge Furtado, Otto Guerra, Mônica Schmiedt). Cineastas vindos da publicidade encontram representantes do cinema novo, documentários estão ao lado da ficção comercial, dramas contemporâneos se alinham a filmes históricos. (NABIG, 2002, p.13). Por outro lado, o Cinema de Retomada estava longe de ter apenas um fio condutor ideológico. Segundo a pesquisadora Lúcia Nabig, os mais diversos temas abordados pelos cineastas têm em comum o caráter de “autoria”, uma das características precípuas do movimento Cinema Novo. Mesmo sem uma tematização geral, muitos filmes da Retomada voltaram a propor discussões sociais como pano de fundo e até mesmo como temática central. O filme “Central do Brasil”, um dos ícones do movimento, do cineasta Walter Salles é um bom exemplo. Segundo o próprio cineasta (in NAGIB, 2002, p. 417), “Central do Brasil” é um microcosmo daquilo que acontece no país. É por isso que o filme começa na própria estação ferroviária, com o desejo de mostrar um país sem maquiagem, sem véus, com todas as suas mazelas. A partir do momento em que o filme ganha a estrada, à Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 procura de uma inocência perdida, o Brasil deixa de ser aquele da Central do Brasil, há possibilidade de redenção e mudança. Para a jornalista Maria do Rosário Caetano, do site Revista de Cinema, filmes como Central do Brasil “mantêm sintonia fina com os deserdados'”. O nordeste volta a ser cenário. O drama agora segue o caminho contrário do filme “Vidas Secas” de Nelson Pereira do Santos (baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos), o sertanejo nordestino representado pelo personagem Josué (Vinícius de Oliveira) volta para sua terra, em busca de seu pai, de suas raízes. Mas a pobreza, propositalmente, retratada no filme cria um dos grandes paradoxos do Cinema de Retomada. Evidencia-se aqui uma atitude que se tornará recorrente no cinema brasileiro até o presente: cineastas procedentes de classes dominantes dirigem um olhar de interesse antropológico às classes pobres e à cultura popular, com destaque para os movimentos religiosos. Tentase vencer o abismo econômico entre realizadores e seus objetos, se não com adesão, pelo menos com solidariedade. (NAGIB, 2002, p.16). Já o filme “O Invasor”, de Beto Brant, traz consigo uma nova visão da pobreza. O colunista do site Digestivo Cultural, Lucas Pires acredita que a película que no início levanta um clima noir e depois traz à tona a dicotomia centro/periferia. A violência do filme, que não mostra nenhuma cena de sangue ou tiro, contrasta com o pacifismo de Central do Brasil. Em entrevista para a revista Época, o pesquisador e crítico Jean-Claude Bernardet diz sobre o filme: “O Invasor” é dos filmes mais importantes da produção atual. E principalmente porque o símbolo da classe baixa começa como coadjuvante e vai tomando conta da narrativa até adquirir status de personagem principal. Ele vai dirigindo os outros. E é dos raros filmes que se arrisca a falar da classe social de seu diretor. (REVISTA ÉPOCA, 2004, on-line). Outras temáticas, que não sociais, foram mostradas nas telas a partir de 1994. Porém, o recorte feito baseia-se na lista dos 20 melhores filmes do cinema de retomada, entre eles, “Central do Brasil”, “O Invasor” e “Cidade de Deus”, sendo este último objeto do ocorrente artigo. Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 O filme “Cidade de Deus” pode ser considerado um dos ícones do cinema de retomada devida sua quantidade de indicações para prêmios, como por exemplo, o Festival de Cannes e o Oscar. Paulo Lins teve seu livro “Cidade de Deus” adaptado a um roteiro por Bráulio Mantovani. A película que foi dirigida por Fernando Meirelles, grande pai do projeto, e co-dirigida por Kátia Lund, traz a tela a história da indústria do narcotráfico na comunidade “Cidade de Deus” no Rio de Janeiro. Referências da estética da fome em “cidade de Deus” Assim como nos filmes do Cinema Novo, “Cidade de Deus” traz consigo um conjunto de referências sociais, construindo um contexto mais amplo das questões colocadas na película. Em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, uma das referências sociais apresentada é uma dicotomia marxista. O opressor e o oprimido são vistos sob a relação entre o vaqueiro Manuel e o coronel Moraes, que culmina na primeira reviravolta da trama, quando o vaqueiro mata o coronel e vê como única alternativa filiar-se aos ideais messiânicos do Santo Sebastião e logo depois ao cangaço sendo apadrinhado a Corisco, o duplo de Lampião. Glauber mostra os equívocos destas alternativas para a “justiça social”, sendo esta, a grande busca de Manuel e Rosa. O filme de Meirelles, com uma linha narrativa não-cronológica, tem como ponto de partida uma seqüência que desemboca no confronto entre duas forças: o bando do Zé Pequeno (uma espécie de antagonista da trama) e os policiais liderados pelo corrupto Cabeção (um outro antagonista). Entre os dois está o personagem Buscapé, que é construído sob a ótica do cidadão comum, e que se vê sem saída para o dilema social da favela: "Na Cidade de Deus é assim, se correr o bicho pega e se ficar o bicho come". De um lado, estava a exploração do estado corrupto e opressor e de outro, o cerco da rede de crimes de outros oprimidos. Uma referência muito forte que é utilizada nessa primeira seqüência é o de uma galinha que é mostrada "observando" outras galinhas serem abatidas para servirem de almoço ao bando do Zé Pequeno. Esta mesma galinha protagoniza uma cena de fuga em busca de sua sobrevivência quando é perseguida pelo bando de Zé Pequeno. Depois de quase ser atropelada pelo carro da polícia, ela acaba nas mãos de Buscapé. A ave mostrou-se como a representação da busca por alternativa para o sujeito, que não o descaso do estado ou as práticas criminosas. Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 Outra referência encontrada em ambas as produções são os Ritos de Passagem, Glauber se utilizou desses ritos para delimitar pontos de mudança no caminho da narrativa do seu filme. Estes rituais delimitavam as fases e evoluções dos personagens, como por exemplo, quando Manuel é obrigado a sacrificar uma criança para “limpar” a alma de Rosa. Depois do ato o personagem se fecha numa reflexão que o condena pelo ato. O Santo Sebastião, mentor do ato, tem um momento de hesitação e é esfaqueado por Rosa. A fase messiânica do filme se “encerra” e logo após Manuel, Rosa e toda a trama entram no ambiente do Cangaço. Já Meirelles coloca os ritos de passagem como fator que determina o futuro da história/estória. Um desses ritos acontece quando o personagem Filé-com-Fritas é obrigado por Zé Pequeno a escolher e matar um dos meninos da Caixa Baixa para retaliar os assaltos cometidos pela patota. No fim da estória, o traficante é morto pelos meninos da Caixa Baixa, sob a égide da vingança. Outro caso é o do Mané Galinha, que durante uma seqüência de cenas, que termina em um assalto a banco, faz um rito de passagem, onde a morte de inocente passa de exceção à regra. A morte de um desses inocentes é o que desencadeia a queda de Mané Galinha. No filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” percebemos o uso continuo da câmera tátil, os enquadramentos em close que tem como objetivo descrever os detalhes de uma cena com a exasperação da violência, como por exemplo, no início do filme quando Manoel observa um boi morto ou quando o mesmo personagem paga uma penitência carregando a pedra até o alto do Monte Santo. Glauber Rocha se utiliza desse recurso para, nos detalhes da violência, criar um incômodo no espectador. O filme “Cidade de Deus” explora bastante essa técnica, como na cena onde Marreco e Alicate estão em cima de uma árvore escondidos da polícia. O tato da câmera mostra toda agonia e inquietação do personagem, no caso Alicate. que está à beira de um transe. Outro destaque desta técnica é quando a namorada do Mané Galinha está sendo estuprada pelo Zé Pequeno. A montagem propõe uma oscilação entre o ponto de vista da namorada do Mané Galinha e um plano todo em preto. O áudio alterna entre o silencio absoluto e o som “ambiente” do estupro, com a voz de Zé Pequeno, os gritos e gemidos da vítima e o chacoalhado da guia dada pelo Pai-de-Santo a Pequeno. A câmera tateia ainda o rosto do Mané Galinha, que está sendo pisado por uma comparsa de Pequeno, mostrando toda sua impotência. Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 Cabe frisar que as angulações de câmera e planos seguem estilos diferentes, enquanto em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” os planos são mais longos propondo um tempo de reflexão grande, os ângulos seguem uma justaposição narrativa e a fotografia mostra influências do neo-realismo italiano, o filme “Cidade de Deus” por sua vez, se utiliza dialoga com a técnicas e estéticas da TV e da publicidade. Enquanto aos personagens, Glauber Rocha propôs em seu filme o personagem de Antônio das Mortes, o matador de cangaceiro, uma construção de violência anárquica desmedida e sem uma determinada canalização. O personagem é erguido, desde o nome até seus diálogos, em uma tensão daqueles que o rodeiam, sejam coronéis, padres ou cangaceiros. O personagem é um barril de pólvora, “Das Mortes não reconhece senão sua própria lei, seu código particular de vingança e obrigação.” (REIS, 2005, p. 18). O sertão vale-se da sua própria lei que é a violência, e Antônio é consonante a isso, a esse código. De suas matanças ele não carrega culpa, mas sim um senso de estopim para o que ele considera como a guerra maior. O espírito revolucionário de Antônio parece espreitar-se em sua capa colonial, no seu comportamento solitário e na sua resignação involuntária as ações que “dividem águas”. Antônio das Mortes assume assim, um papel paralelo ao do vaqueiro Manuel (BERNARDET, 1967). Glauber constrói, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, outro personagem bastante dicotômico. Corisco, o cangaceiro que carrega no seu corpo a alma de Lampião, também figura a violência anárquica, mas sempre seguindo a lógica do cangaço. A violência é sua arma e sua desrazão, a sua força e seu fim. O cineasta não mostra a violência como sintoma, mas sim como força de reivindicação por mudanças, transformação social de um povo oprimido. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é um filme sobre os caminhos equivocados da sociedade em busca de uma transformação. A efervescência dos anos 60 e a orientação política de Glauber Rocha indicavam uma revolução social embasadas nas filosofias da esquerda, que ditam os conceitos de povo, opressão e justiça dentro do próprio filme. E estética da fome é dentro desse contexto uma forma de dar textura a trama para uma finalidade de entendimento político, de identidade nacional (LEITE, 2005). No filme “Cidade de Deus” Dadinho, um delinqüente juvenil sedento por sangue, faz uma escalada de crimes até se transformar no mítico Zé Pequeno, um personagem que age sem nenhum escrúpulo e é abastecido por uma busca por respeito e Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 poder (financeiro) dentro da favela. A violência é a garantia de suas ambições dentro a sociedade de consumo, por mais que ele se reclua unicamente a favela durante todo o filme. Porém, Zé Pequeno não pode ser identificado simplesmente com um antagonista clássico, uma vez que sua violência pluridirecional, passa a ser signo da violência do oprimido contra ele mesmo. Segundo Domenach (apud MINAYO, 1999, on-line): a violência está inscrita e arraigada nas relações sociais, não podendo, portanto, ser considerada apenas como uma força exterior se impondo aos indivíduos e às coletividades, havendo, desta forma, uma dialética entre vítima e algoz. No filme de Fernando Meirelles, a violência é a consciência da trama é o fator que desperta um dos mais importantes personagens e desencadeia uma das principais temáticas da película. Meirelles utiliza-se da violência para contar a violência urbana e a sua estruturação sistemática sustentada nos descaso do sistema. Mané Galinha é um cobrador de ônibus, ex-militar raso, que é infligido constantemente pela violência, representada por Zé Pequeno, mas mesmo assim segue subserviente a esta condição. Mané chega a expressar seu descontentamento e sua vontade de deixar a comunidade, só que não há essa oportunidade. Quando Mané Galinha vai encontrar com sua namorada acaba cruzando com Zé Pequeno, que se encaminhava para mais uma de suas incursões contra os domínios de outro traficante, Sandro Cenoura. Na seqüência, a namorada de Mané é estuprada por Pequeno, ele é humilhado e depois de tudo o traficante e seu bando metralha a casa de Mané Galinha, matando seu irmão e seu tio. Esse é o ponto de transformação de Mané Galinha, que se alia a Sandro Cenoura e entra para a guerra do tráfico de drogas motivado pela vingança, justiça e sobrevivência. O personagem mergulha na violência, agora como sujeito ativo. Todavia, mesmo perdendo o foco de seu objetivo naquele contexto, a violência não consegue transformar completamente Mané Galinha, que é acometido por momentos de consciência, preocupa-se com o envolvimento de pessoas “do bem” na violência urbana, que é entendida como arma e é racionalizada inconscientemente pelo personagem. A expressão “Uma câmera na mão e uma idéias na cabeça”, imprimiu a proposta de desprendimento com as premissas das mega-produções para a construção do cinema. Tirar a câmera do tripé e colocá-la no ombro mostraria toda a humanização da câmera, seja através das tremidas ou dos movimentos imperfeitos, colocando-a próxima de seu Ano VI, n. 10 – Outubro/2010 objeto, a fome. Essa aproximação foi vital para romper com a banalização e paternalização da miséria e dos demais problemas sociais. Em “Cidade de Deus” a câmera na mão, passou para o steandcam e agora aparatos técnicos intermedeiam as propostas estéticas que valorizam a proximidade da câmera com o seu objeto. Os cortes rápidos narram a falta de tempo de reflexão do próprio homem quando ele vive em uma realidade ligada a violência, pobreza e fome, onde a glamourização está no contexto midiático. A inclusão da tecnologia como forma de expressar melhor a realidade foi utilizada inclusive no Cinema Novo, quando Glauber Rocha inseriu no cinema brasileiro câmeras mais leves, vindas da Itália e Alemanha, que proporcionaram uma “facilidade” para tirá-las do tripé. Referências ALMEIDA, Marcel de. Entre estereótipos, transgressões e lugares comuns: notas sobre a pornochanchada no cinema brasileiro. Disponível em: < http://www.intexto.ufrgs.br/n10/a-n10a5.html>. Acesso em 04 de fev. de 2007. BRASIL, Agência Nacional Do Cinema. Lei No 8.685, De 20 De Julho De 1993. Disponível em: <http://www.ancine.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=5630&sid=68>. Acesso em 10 de jun. de 2007 BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em Tempo de Cinema. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. 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