Caracterização Reológica de Encosta em Vila Albertina – São
Paulo
Danielle Fernanda Morais de Melo
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, [email protected]
Roberto Cesar de Oliveira Romano
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, [email protected]
Rafael Giuliano Pileggi
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, [email protected]
Wanderley Moacyr John
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, [email protected]
Marcos Massao Futai
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, [email protected]
RESUMO: Nos grandes escorregamentos e corridas, o solo se apresenta como um material que
transita entre as definições de líquido e sólido. A utilização da reologia é aplicável para a
compreensão do comportamento do solo, durante esses eventos, para determinação das relações
entre as tensões e as deformações sofridas durante um processo de movimentação. Essa
complexidade de comportamento dos solos, durante um evento de movimentação de massa, muitas
vezes não é levada em conta em ensaios rotineiros, daí a importância da utilização de novos
métodos para a caracterização. A reologia ainda é pouco utilizada na Engenharia Geotécnica
embora seja amplamente utilizada para caracterizar materiais de construção civil e nas indústrias
cosmética e alimentícia. O trabalho apresenta dois ensaios reológicos que podem ser empregados
objetivando uma melhor classificação que são a reometria compressiva e rotacional. As amostras
utilizadas nos ensaios são de encosta na Vila Albertina, bairro da zona norte da cidade de São
Paulo. Os resultados mostraram que é possível relacionar o teor de umidade com o comportamento
do solo observado através das grandezas reológicas.
PALAVRAS-CHAVE: Reometria rotacional, Squeeze flow, Escorregamento de solos, Viscosidade
de Solos.
1
INTRODUÇÃO
Vila Albertina, localizada na região norte do
município de São Paulo, apresenta um talude
com escorregamento complexo no qual o
movimento é acelerado e desacelerado em
função da oscilação do nível freático.
A encosta passa por modificações antrópicas
desde a década de 50, quando foi alvo de
exploração de uma pedreira. Na década de 70,
se instalou uma urbanização informal, sem
tratamento algum para as águas servidas, que
eram lançadas no local contribuindo para a
instabilização.
Na década de 80, a retirada de solo da
encosta para cobrimento de um aterro sanitário
diminuiu a declividade do terreno, favorecendo
sua ocupação. Devido ao risco iminente de
escorregamento todos os moradores foram
removidos em 2006 e, desde então, a área
manteve-se desocupada havendo recuperação
de parte da vegetação. No entanto verificou-se
que a encosta continua a se movimentar.
Atualmente parte da área está coberta por
entulhos devido às demolições das casas e, no
pé do talude, a área está em constante
modificação
devido
às
movimentações
ocorridas em períodos chuvosos.
Para tentar entender o mecanismo de
instabilização da área foi realizado um estudo,
que serviu de base para uma dissertação de
mestrado, sendo fundamentada em ensaios
tradicionais de laboratório como caracterização
do solo e resistência ao cisalhamento direto e
também foi realizado o monitoramento da
encosta através de inclinómetros, piezômetros,
marcos superficiais e pluviométricos (Godois,
2011).
Através do monitoramento dos marcos
superficiais e da precipitação, foi possível
observar que a velocidade de movimentação
apresentou relação direta com a chuva
acumulada em 30 dias. O pico de velocidade foi
atingido no mês de fevereiro chegando a
65 mm/dia em um dos marcos. Para valores de
precipitação acumulada menores que 150 mm
não há movimentação, valores entre 150 mm e
250 mm somente parte da encosta se move e
para valores acima de 250 mm toda a massa
instável se movimenta.
A análise da estabilidade através do
equilíbrio limite, apesar de ser amplamente
utilizada, é limitada porque é uma idealização
da realidade dos solos, que apresentam um
comportamento muito mais complexo. Nesse
caso específico, o movimento não ocorre em
forma de bloco rígido e apresenta característica
viscosa, assim a análise por equilíbrio limite
não
consegue
representar
bem
o
comportamento.
De acordo com Keedwell (1984), o principal
objetivo dos ensaios em solos é determinar
valores dos parâmetros tensão – deformação –
tempo que se adequam ao comportamento do
solo e que podem ser utilizadas na análise de
problemas geotécnicos. A validação de uma
interpretação dos resultados obtidos através de
ensaios depende da qualidade da amostra e da
validação do modelo utilizado para representar
o comportamento do solo. Nos casos onde o
modelo
utilizado
não
consegue
boa
representação em relação à realidade, pode ser
necessário que este seja modificado e nesse
ponto a utilização de um modelo reológico pode
ajudar.
Nesse artigo, o solo que está envolvido no
escorregamento será estudado através de
ensaios e conceitos da reologia dos materiais. A
reologia é uma ciência que estuda os materiais
em seu estado fluido, a partir da relação entre a
deformação aplicada e a força obtida como
resposta.
Apesar dos conceitos de reologia serem
comuns em alguns setores de engenharia civil e
de materiais, cosmetologia e alimentos, a
aplicação na caracterização de solos ainda é
pouco explorada. Por esse motivo é importante
que sejam apresentadas breves descrições sobre
os métodos aplicados neste trabalho.
2
REOLOGIA
A reologia é uma ciência relativamente
moderna, citada primeiramente por Bingham
em 1928. Foi criada para responder às
necessidades das novas tecnologias na
caracterização de materiais, utilizando para isso
a investigação experimental sobre os mais
diversos materiais tais como: a borracha, os
plásticos fundidos, polímeros, pastas, os fluídos
electroreológicos, sangue, vernizes e tintas.
Esses materiais apresentam propriedades que a
mecânica de fluidos clássica e a elasticidade
não conseguem descrever.
O interesse e rápido desenvolvimento desta
área ocorreram juntamente com o crescimento
da indústria petroquímica e seus derivados. Os
materiais poliméricos e os plásticos surgiram
como um vasto campo para novas descobertas e
aplicações.
Na indústria, os dados reológicos são
importantes para determinar a funcionalidade de
ingredientes no desenvolvimento de produtos,
no controle de qualidade do produto final e
intermediário, na determinação da vida útil e na
avaliação da textura através da correlação com
dados sensoriais.
Os ensaios de reometria são realizados para
medir propriedades reológicas em laboratório.
Existem vários instrumentos disponíveis para a
realização das medidas de reologia, com três
princípios de funcionamento: compressivo,
tubular ou capilar e rotacional, sendo que os
instrumentos rotacionais podem operar em
cisalhamento estacionário, com velocidade
angular constante; ou dinâmico, com velocidade
oscilatória. Estes ensaios permitem investigar o
comportamento reológico em condição de fluxo
e determinar o comportamento viscoelástico de
fluidos.
conformação final do ensaio, o deslocamento
aplicado foi de 9 mm e com isso parte da
amostra de solo envolveu a parte inferior da
punção.
2.1 Reometria Compressiva – Squeeze flow
A reometria por squeeze-flow consiste na
compressão de uma amostra cilíndrica entre
duas placas paralelas, onde a amostra sofre
deformação enlogacional e de cisalhamento.
Esse tipo de ensaio é utilizado nos domínios da
engenharia, biologia, entre outras áreas
(Engmann, 2005).
O método é simples e versátil, sendo capaz
de avaliar com precisão materiais em ampla
faixa de consistência e com velocidades e graus
de deformação variáveis.
O ensaio pode ser realizado com controle de
força ou de deslocamento: no primeiro caso
uma determinada força é aplicada ao material e
a deformação resultante é registrada, enquanto
no segundo caso o material é submetido a um
deslocamento efetuado com velocidade
constante e a força é medida (Cardoso et al.,
2008).
O resultado obtido em um ensaio de squeezeflow com controle por deslocamento é expresso
na forma de carga vs. deslocamento, conforme
representado na Figura 1.
Figura 1: Formato típico curva obtida no squeeze Flow
Na Figura 2 está apresentada foto do ensaio,
sendo que em (a) a amostra está em sua
conformação inicial, já moldada e com a
punção em contato com o solo pronta para
iniciar a aplicação de deslocamento e, em (b) a
Figura 2: Foto do ensaio de squeeze flow em sua
conformação inicial (a) e final (b)
A partir da Figura 1, três estágios podem ser
diferenciados durante a compressão da amostra:
I: deformação elástica; II: deformação plástica
e/ou fluxo viscoso; e III: enrijecimento por
deformação (strain hardening). (Min et al,
1994).
No primeiro estágio, em pequenas
deformações, o material comporta-se como um
sólido, apresentando deformação elástica linear
e está relacionado à tensão de escoamento. No
estágio seguinte (II) a compressão resulta em
deformação radial elongacional e de
cisalhamento, superando as forças que
mantinham o material sob comportamento
elástico e, assim, o mesmo flui por deformação
plástica e/ou viscosa dependendo das suas
características. Nesta etapa, o material é capaz
de sofrer grandes deformações sem aumento
significativo da força necessária para o
deslocamento. No terceiro estágio, ocorre um
aumento exponencial da carga necessária para
prosseguir a deformação do material,
consequentemente, as forças de atrito são
predominantes nessa situação. (Min et al, 1994)
É importante ressaltar que a faixa de
deslocamento e a intensidade variam de acordo
com a composição dos materiais (teores de água
e de ar, dimensões mínima e máxima das
partículas, presença de aditivos) e também com
os parâmetros de ensaio utilizados. Entretanto, a
análise da curva de carga ou tensão versus
deslocamento possibilita a compreensão do
comportamento reológico em diferentes
situações, durante sua aplicação, partindo de
uma condição estacionária representando o
material em repouso, até um elevado nível de
deformação,
cisalhamento
e
restrição
geométrica (Cardoso et al., 2010).
2.2 Reometria Rotacional
Os reômetros rotacionais são equipamentos
utilizados para avaliar o comportamento dos
materiais em diferentes taxas de cisalhamento,
registrando a tensão ou torque de cisalhamento
resultante. Entretanto, as limitações nos níveis
de torque máximo, que restringem a faixa de
consistência que os poucos equipamentos
disponíveis no mercado internacional são
capazes de medir, aliadas ao alto custo, fazem
com que os reômetros rotacionais sejam
utilizados de maneira discreta apenas em
laboratórios de universidades e centros de
pesquisa. (Pillegi, 2001). O equipamento
utilizado no trabalho, apresentado na Figura 3, é
o Reômetro tipo planetário construído conforme
Projeto FAPESP de Auxílio à Pesquisa número
03/12199-4 e pertence ao Laboratório de
Microestrutura da EPUSP.
avaliado o torque necessário para tal. (Pileggi,
2001)
A tensão de escoamento pode ser definida
como a tensão mínima para o material iniciar o
fluxo, sendo uma característica muito
importante na análise dos solos, visto que as
movimentações estão associadas a este
parâmetro reológico. Esta definição usada na
reologia é específica e não é a mesma usada na
Mecânica dos Solos, tal como na Teoria de
Estados Críticos.
O equipamento utilizado é automatizado o
que minimiza a interferência humana, aumenta
o número de pontos de leitura e facilita o
manuseio gerando um resultado com maior
confiabilidade.
Como o equipamento pode ser regulado em
diversas velocidades, ou seja, consegue impor
diferentes taxas de cisalhamento, mostra-se
vantajosa a utilização em solos, tanto em baixas
quanto em altas velocidades simulando
fenômenos de movimentação de massa.
3
MATERIAL
Para a realização do ensaio foi utilizada uma
amostra de solo deformada, ilustrada na Figura
4, coletada a partir da superfície do terreno
dentro da porção inferior da área de
escorregamento. A umidade em campo variou
entre 28 e 42 %.
Figura 3: Reômetro rotacional utilizado no trabalho
Figura 4: Amostra de solo deformada coletada na encosta
Parâmetros como viscosidade e tensão de
escoamento podem ser determinados através de
dois princípios básicos de funcionamento: (1)
aplicação de torque ao fluido (ou suspensão) e
medida do cisalhamento resultante ou (2) o
cisalhamento aplicado é controlado sendo
A composição granulométrica do solo
utilizado no ensaio é apresentada na Figura 5,
sendo 43% de fração argila, 28% de fração silte,
28% de areia fina e 1% de areia média. O limite
de liquidez, wL, foi de 49%, o de plasticidade,
wP, de 25% e consequentemente, o índice de
plasticidade (IP) foi de 24%. Sendo assim, o
Areia
Fina
Areia
Média
0,01
0,1
1
Diâmetro dos grãos (mm)
Figura 5: Distribuição granulométrica da amostra
4
MÉTODOS
Os ensaios de caracterização do solo foram
realizados seguindo as recomendações das
normas ABNT pertinentes, conforme listado a
seguir:
Limite de Liquidez (NBR 6457)
Limite de Plasticidade (NBR 6459)
Grãos de Solos que Passam na Peneira
4,8mm – Determinação da Massa
Específica (NBR 6508)
Análise
Granulométrica
por
Peneiramento e Sedimentação (NBR
7181)
Para a realização dos ensaios reológicos, o
solo foi seco ao ar e passado na peneira # 4,
com abertura de 4,76 mm, sendo posteriormente
umedecido através da adição de água destilada
até chegar à umidade próxima a desejada para
fazer o ensaio.
O ensaio de squeeze flow foi realizado com
as amostras moldadas em um anel de PVC
rígido de diâmetro de 100,1 mm e punção,
através da qual a força é aplicada na amostra, de
diâmetro 50,05 mm. A utilização do anel de
PVC é recomendada quando o material a ser
ensaiado apresenta-se muito fluido, sendo o
anel utilizado para evitar o escoamento e manter
a geometria adequada para o ensaio (Cardoso et
al., 2005).
Os testes foram realizados em uma máquina
universal de ensaios (Instron, modelo 5569)
com células de carga de 1 kN. A velocidade de
deslocamento adotada foi de 0,1mm/s, pois leva
10
1500
II
homogeneização
do solo
I
1250
posicionamento da mesa
Silte
a uma situação na qual é favorecida a separação
de fases. A deformação imposta foi a maior
possível, para que o comportamento do material
fosse avaliado numa ampla faixa de
deformações, de 0 a 80%. (Cardoso et al., 2008)
Para a realização dos ensaios de reometria
rotacional foram utilizados aproximadamente
3,5 kg de solo de cada amostra na umidade
desejada. Esse solo foi submetido a
cisalhamento continuo, com variação de
velocidade de aplicação de cisalhamento de 50
a 1250 rpm. Uma ilustração da programação do
ensaio é mostrada na Figura 6: I primeiro
estágio, com velocidade de 100 rpm, refere-se
ao posicionamento da mesa em que o solo ainda
não está em contato com a raquete, II segundo
estágio, a 500 rpm, ocorre a homogeneização da
amostra para deixá-la apropriada para o ciclo de
cisalhamento que é o terceiro estágio, III.
Velocidade (rpm)
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
0,001
Argila
Porcentagem Passada
solo é classificado como argiloso e, em relação
à umidade, plástico.
1000
750
500
250
III
ciclo de cisalhamento
0
0
20
40
60
80
100
Tempo (s)
120
140
160
Figura 6: Programação do ensaio de reometria rotacional
5
RESULTADOS E DISCUSSÕES
As umidades utilizadas nos ensaios de
reometria foram determinadas em relação aos
índices físicos, sendo que foi adotada uma
amostra com umidade próxima ao wP (com
w=26%) amostra entre o wP e o wL (com
w=39%) e duas amostras com umidade superior
ao wL (w=58 e 65%).
Na Figura 7 são apresentadas as curvas
referentes ao ensaio de reometria rotacional em
função da variação do teor de umidade. Como o
ensaio foi realizado em duas etapas, aceleraçao
e desaceleração da velocidade de rotação, as
setas vermelhas se referem à etapa de
aceleração e as setas azúis à desaceleração.
Independente do teor de umidade, os solos
apresentam perfil reológico de materiais
pseudoplásticos com torque de escoamento. Ou
seja, apresentam um aumento do torque em
função do aumento da rotação, e uma
diminuição da viscosidade com o aumento da
rotação.
Estimativa de Torque (N.m)
16
14
12
10
w = 25,7%
w = 39,2%
w = 57,8%
w = 64,6%
8
6
4
2
0
0
250
500
750
Rotação (rpm)
1000
1250
Figura 7. Resultado do ensaio de Reometria rotacional
O termo tixotropia é usado para descrever a
tendência de alguns materiais a fluir facilmente
quando agitado e se solidificar gradualmente
quando a fonte de agitação for removida. Um
exemplo bem conhecido é a bentonita misturada
com água. Esta mistura é frequentemente usada
como lama de perfuração, onde no furo a
mistura é constantemente agitada pelas
ferramentas de perfuração e, se mantém sob a
forma de uma lama, mas nos poros do solo em
torno do furo, onde é protegido de agitação se
torna um gel. (Keedwell, 1984)
O perfil de tixotropia positiva foi observado
nas amostras com menores quantidades de água,
sendo que na amostra com 64,6% de umidade
foi observado o perfil de reopexia ou tixotropia
negativa.
A tixotropia positiva indica que a taxa com
que o material se fluidifica, causada a partir da
aplicação de esforços, é maior do que a taxa que
ele se solidifica com a retirada desse esforço e o
contrário para a tixotropia negativa, ou
reopexia, no qual o material tem mais facilidade
para se solidificar do que para fluir.
O solo foi avaliado após mistura com água
sob baixa energia de cisalhamento, utilizando
espátula e almofariz de porcelana, não sendo
suficiente para o completo rompimento dos
aglomerados. Em argamassas, os aglomerados
se formam devido às forças de interação de van
der Waals, forças eletrostáticas entre partículas
com cargas opostas e forte interação ou ligação
envolvendo as moléculas de água ou hidratos
(Romano et al., 2009), o mesmo processo
ocorre nos finos do solo. E essa aglomeração é
responsável pela retenção de parte da água
quando a energia de mistura não é suficiente
para o rompimento dos aglomerados.
Nas amostras mais secas, durante o período
de aceleração da rotação, os aglomerados foram
rompidos. Na etapa de desaceleração, a taxa de
reaglomeração dessas partículas foi mais lenta
que a desaglomeração, gerando o perfil de
tixotropia positiva. No caso da amostra com
umidade de 64,6%, a taxa de reaglomeração foi
maior. Assim, quanto menor o teor de água
maior o torque necessário para impor à rotação
no solo e maior a área de histerese (área inscrita
entre as curvas de aceleração e desaceleração).
A partir das curvas apresentadas na Figura 7
foi possível estimar o torque de escoamento e a
viscosidade aparente, respectivamente na
mínima e na máxima velocidade de rotação. A
viscosidade foi definida por Newton em 1687
como a resistência ao deslizamento de suas
moléculas devido à fricção interna, sendo que
quanto maior o grau de fricção interna de um
fluido, maior é a sua viscosidade, em geral é
função da temperatura.
Na Figura 8, são apresentadas essas
grandezas reológicas em função do teor de
umidade em cada solo. Em (a) estão os
resultados da viscosidade e em (b) do torque de
escoamento.
Fica nítido que as alterações nos parâmetros
reológicos, sob solicitação de fluxo, foram
diretamente proporcionais aos teores de
umidade.
Na Figura 9, são apresentados os resultados
do ensaio de squeeze flow em função dos teores
de umidade do solo.
(a)
0,012
0,010
0,009
R² = 0,98
0,005
0,004
0,000
0,30 20
wL
wP
25
30
35
40
45
0,001
50
55
60
65
(b)
umidade do solo (%)
0,236
0,25
70
0,20
0,143
0,15
0,10
R² = 0,99
0,066
0,05
wL
wP
0,00
20
25
30
35
40
45
0,008
50
55
60
65
70
Umidade do solo (%)
Figura 8 Relação entre a viscosidade aparente (a) ou o
torque de escoamento (b) com o teor de água
500
w = 25,7%
w = 39,2%
w = 57,8%
w = 64,6%
450
400
Carga (N)
350
300
250
200
150
100
50
0
0
1
2
3
4
5
6
Deslocamento (mm)
7
8
9
Figura 9: Perfil das curvas de squeeze flow
As amostras com os menores teores de
umidade (25,7 e 39,2%), as quais representam
umidades próximas às encontradas em campo,
apresentaram comportamentos distintos das
demais, sendo observado o regime elástico
desde as menores deformações impostas
durante o ensaio, comportamento típico de
material sólido. As demais amostras, com
maiores teores de água, apresentaram fluxo
viscoso e atingiram maiores deformações sem
aumento expressivo da carga.
Da mesma forma que apresentado
anteriormente, no ensaio de reometria
rotacional, a umidade governou o fluxo sob
compressão. Quanto menor o teor de água
maior a viscosidade elongacional e mais difícil
o espalhamento. A aproximação e o rearranjo
das partículas geram forças restritivas ao fluxo,
dificultando a movimentação de massa. Por
isso, a resposta do solo mais úmido é uma
maior facilidade em sofrer movimentações.
A área assinalada na Figura 9 com o círculo,
representa uma região onde foi encontrada
maior resistência devido à presença de um
aglomerado ou um grão de areia embaixo da
punção, sendo que o maior diâmetro de grão
encontrado na granulometria foi de 2 mm. Após
o rompimento da barreira a curva seguiu sua
tendência normal.
A relação entre a umidade do solo e a carga
necessária para deformação de 15%, adotada
somente como um parâmetro comparativo, é
apresentada na Figura 10. A relação entre a
deformação fixa e a umidade precisaria de
ensaios complementares para definir melhor o
formato da curva. Mesmo com essa limitação,
estabeleceram-se duas possibilidades de
interpretação, conforme apresentado na Figura
10.
Carga para deformação de 15% (N)
Estimativa da viscosidade aparente
(N.m.rpm)
Estimativa do torque de escoamento
(N.m)
0,015
250
205
200
182
150
100
50
wL
wP
0
20
25
30
7
35 40 45 50 55
Umidade do solo (%)
10
60
65
70
Figura 10: Relação entre umidade e deslocamento em
carga constante e carga em deformação constante obtida
através do squeeze Flow
As amostras que foram avaliadas com teor
de umidade abaixo do limite de liquidez
apresentaram cargas compressivas muito mais
altas que as amostras com umidade acima do
limite de liquidez. Um aumento de 19% no teor
de água (de 39,2% para 57,8%) resultou em
uma redução de mais de 95% no valor da carga
compressiva.
6
CONCLUSÕES
O limite de liquidez do solo avaliado ficou em
49% e o de plasticidade em 25% obtidos a partir
da realização de ensaios de acordo com as NBR
6457 e NBR 6459. Por isso, os ensaios de
reometria rotacional e compressiva foram
realizados com as amostras varrendo esses
teores e além deles.
De acordo com os resultados do ensaio de
squeeze flow as amostras com teores de
umidade abaixo do limite de liquidez
apresentaram comportamento de sólidos
elásticos enquanto que, para teores de umidade
acima, foi observado comportamento de fluidos
viscosos.
A partir da reometria rotacional foram
observados perfis de tixotropia positiva e
negativa dependendo do teor de umidade, onde
as maiores umidades representaram tixotropia
positiva e a menor umidade negativa.
Ainda de acordo com a reometria rotativa,
foram observados, para todos os valores de
umidade,
comportamentos
de
fluidos
pseudoplásticos com torque de escoamento.
As propriedades reológicas, sejam as
quantificadas por reometria compressiva ou
durante o fluxo contínuo, apresentaram relação
direta com o teor de umidade, variável de maior
impacto nos ensaios.
A grande vantagem desses ensaios é que eles
caracterizam as amostras para diversas taxas de
cisalhamento. A análise através da reologia
permite que sejam explorados os efeitos da
umidade na estrutura do solo, sendo que foi
possível observar a mudança do comportamento
sólido para a fluidização. A quantificação da
influência da umidade nas propriedades do solo,
que não é facilmente obtida em ensaios comuns
realizados em solos, é obtida através do uso da
reometria.
Para que haja um melhor aproveitamento dos
dados que são obtidos através da utilização
desses
ensaios,
é
necessário
um
aprofundamento em suas bases teóricas, o que
está sendo feito de forma gradual.
A adequação dos conceitos de reologia para
o setor de Engenharia Geotécnica pode ser uma
ferramenta importante para a avaliação de
escorregamentos onde os modelos existentes
não conseguem representar o comportamento
observado, sendo uma prática nova que pode
agregar valor as análises realizadas de
estabilidade e na caracterização do solo.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao CNPq pelo apoio
financeiro.
REFERÊNCIAS
Cardoso, F.A., Pileggi, R.G., Jhon, V.M. (2005)
Caracterização reológica de argamassas pelo método
de squeeze-flow. VI Simpósio Brasileiro de
Tecnologia de Argamassas, Florianópolis/SC.
Cardoso, F.A., Pileggi, R.G., Jhon, V.M. (2008) Squeezeflow aplicado a argamassas de revestimento: Manual
de utilização, Boletim Técnico da Escola Politécnica
da USP, São Paulo/SP.
Cardoso, F.A., Pileggi, R.G., Jhon, V.M. (2010)
Aplicabilidade de argamassas de revestimento:
avaliação empírica e comportamento reológico por
squeeze-flow, 3º Congresso Português de Argamassas
de Construção, Lisboa, Portugal.
Engmann, J., Colin, S. e Burbidge, A.S. (2005) Squeeze
flow theory and applications to rheometry: A review.
Journal of Non-Newtonian Fluids Mechanics v. 132,
p. 1-27.
Godois, J. V. S. (2011) Estudo do comportamento de um
escorregamento ativo da Serra da Cantareira – SP.
Dissertação (Mestrado) em Geotecnia, Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo, São
Paulo/SP.
Keedwell, M. J. (1984) Rheology and Soil Mechanics,
Elsevier Applied Science Publishers, Department of
Civil
Engineering
and
Building,
Coventry
(Lanchester) Polytechnic, UK, 323p.
Min, B.H., Erwin, L, Jennings, H.M. (1994) Rheological
Behavior of Fresh Cement Paste as Measured by
Squeeze Flow. Journal of Materials Science, v. 29, n.
5, p. 1374-1381.
Pileggi, R.G. (2001) Ferramentas para o estudo e
desenvolvimento de concretos refratários. Tese de
Doutorado, Engenharia de Materiais e Metalúrgica,
Universidade Federal de São Carlos, 187 p. São
Carlos/SP.
Romano, R. C. O., Schreurs, H., Silva, F. B., Cardoso, F.
A., Barros, M. M. S. B., John, V. M., Pileggi, R. G.
(2009) Impacto do tipo de misturador e do tempo de
mistura
nas
propriedades
de
argamassas
industrializadas. Revista Ambiente Construído, v. 9,
n. 4, p 109-118, Porto Alegre.
Download

Caracterização Reológica de Encosta em Vila