M O V I M E T OS S O C I AI S E PARTICIPAÇÃO MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO Ação Pública e Problemas Sociais em Cidades Intermediárias VOLUME 1. ACESSO À JUSTIÇA, DIREITOS HUMAOS E CIDADAIA VOLUME 2. COSUMOS, LAZERES, MODOS E ESTILOS DE VIDA VOLUME 3. DESEVOLVIMETOS E SUSTETABILIDADE VOLUME 4. EDUCAÇÃO, SABERES E CULTURAS VOLUME 5. GOVERAÇA DE TERRITÓRIOS E DE CIDADES ITERMEDIÁRIAS VOLUME 6. ISEGURAÇA, VIOLÊCIA E CRIME VOLUME 7. MERCADOS DE TRABALHO E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL: MOBILIDADES E FLUXOS VOLUME 8. MORFOLOGIA SOCIAL E DIÂMICAS DAS CIDADES ITERMEDIÁRIAS VOLUME 9. MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO VOLUME 10. POLÍTICAS PÚBLICAS E DESIGUALDADES VOLUME 11. RELAÇÕES SOCIAIS DE GÉERO E RAÇA VOLUME 12. SAÚDE, SISTEMAS DE SAÚDE E CORPO Página 2 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS FICHA TÉCNICA TÍTULO: Ação Pública e Problemas Sociais em Cidades Intermediárias AUTORES: Vários COORDENADORES: Balsa, Casimiro Rodrigues, Luciene Cardoso, Antônio Dimas Soulet, Marc-Henry COMISSÃO DE LEITURA: Albuquerque, Cristina Balsa, Casimiro Boneti, Lindomar Cardoso, Antônio Dimas Diogo, Fernando França, Iara Soares de José, São José Macedo, Luiz António Maia, Rosemere Martins, Luci Helena Nofre, Jordi Olímpio, Marcos Paula, Andréa Rocha de Pires, Iva Rodrigues, Luciene Vaz, Domingos APOIO À EDIÇÃO: Vital, Clara Sampaio, Leonor ISBN: 978-989-20-4086-8 Lisboa, 2013 Página 3 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO ÍDICE ÍDICE ........................................................................................................................................................ 4 MOVIMETOS SOCIAIS EM PORTUGAL. O antes e o depois ................................................................. 5 Fábio Rafael Gonçalves da Silva Augusto (I)DIFEREÇA – REGIMES DE EVOLVIMETO ASSOCIATIVO EM PORTUGAL: o caso específico do VIH/SIDA ............................................................................................................................. 28 Pedro Duarte O Espaço Democrático: assembleias populares e espaço público ............................................................ 46 Daniel Paiva Página 4 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS MOVIMETOS SOCIAIS EM PORTUGAL. O antes e o depois Fábio Rafael Gonçalves da Silva Augusto Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Universidade da Beira Interior [email protected] Resumo Numa perspectiva exploratória, este artigo visa analisar as principais mudanças sofridas pelos movimentos sociais em Portugal, para tal comparam-se dois períodos da história, os movimentos sociais que tiveram lugar no período de 1974-76, sendo estes fortemente impulsionados pelo 25 de Abril de 74, e o período actual, marcado por movimentos sociais que procuram, fundamentalmente, combater a crise económica e social que o país vivencia e que se dão no contexto de um mundo globalizado que anda de mãos dadas com o aparecimento das novas tecnologias de informação e comunicação. Eventos como o que ocorreu a 12 de Março de 2011 marcam um ponto de viragem na estrutura organizacional dos modos de mobilização e contestação da sociedade portuguesa, gerando a necessidade de análise. Neste sentido, procura-se também, questionar o potencial da ferramenta internet, que é vista por muitos como o “milagre” que pode despertar a população portuguesa para que haja uma maior mobilização, quer a nível de movimentos sociais, quer a nível de associativismo. Palavras-chave: Movimentos Sociais, Mobilização, Internet Página 5 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO Considerações Iniciais Com o intuito de analisar as principais mudanças sofridas pelos movimentos sociais em Portugal, comparam-se dois períodos da história, os movimentos que ocorreram entre 1974-76, que se traduz num período de extrema contestação e de profundas mudanças na sociedade portuguesa, sendo marcado por movimentos fortemente impulsionados pelo 25 de Abril de 74, e o período actual, marcado por movimentos que visam, fundamentalmente, combater a crise económica e social que paira sobre o país, onde eventos como os que ocorreram a 12 de Março de 2011 marcam um ponto de viragem na estrutura organizacional dos modos de mobilização e contestação da sociedade portuguesa. Os protestos “Geração à Rasca” (Março de 2011) e “Que se lixe a Troika” (Setembro de 2012) representam importantes movimentos sociais contemporâneos que trazem consigo transformações que geram a necessidade de análise, sendo uma delas, o afastamento, por parte dos activistas da sociedade civil para com as acções sindicais e partidárias. Neste sentido, e tendo em consideração que se trata de um estudo exploratório que se encontra na fase de recolha e análise da informação, procura-se, através de entrevistas dadas por activistas a jornais como “Público”, “Correio da Manhã” e “Expresso”, perceber se os contributos teóricos aqui adoptados são fundamentados pelos discursos dos activistas que participam em primeira pessoa na realidade que se pretende analisar. Para tal, numa primeira fase são apresentados alguns contributos teóricos e conceptuais que visam a compreensão dos movimentos sociais enquanto objecto de análise científica e analisa-se a nova face dos movimentos sociais que tem por base o advento da globalização que anda de mãos dadas com o aparecimento das novas tecnologias de informação e comunicação. Numa segunda fase, são apontadas as grandes mudanças que os movimentos sociais têm vindo a sofrer no contexto português, onde se procura questionar o potencial democrático da ferramenta internet, apontando algumas das suas mais-valias e dos seus pontos fracos. Movimentos Sociais: Contributos Teóricos e Conceptuais No que toca ao debate em torno da caracterização dos movimentos sociais é de destacar o papel central que três teorias clássicas tiveram. Sendo elas, a teoria de Página 6 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS mobilização de recursos, a teoria do processo político e a teoria dos novos movimentos sociais, como nos propõe Alonso (2009). Em resposta às teorias da desmobilização política (com expressão desde 1930 a 1960) de autores como Riesman e Adorno (in Alonso, 2009), que defendiam que a sociedade moderna era marcada por um crescente individualismo que contribuía para um descrédito e desinteresse pela política, apareceram teorias que defendiam que os movimentos sociais continuavam a ter expressão e que não tinham desaparecido como queriam dar a entender os autores supramencionados. Tais teorias apareceram com a emergência de mobilizações nos anos de 1960 na Europa e nos Estados Unidos que não se baseavam na classe, o que gerou a necessidade de novas explicações que fossem além do funcionalismo e do marxismo (grandes sistemas teóricos do séc. XX). Assim, em 1970 surge a teoria da mobilização de recursos, que criticava o funcionalismo ao afirmar que as mobilizações possuíam organização e eram racionais e o marxismo ao valorizarem a explicação do processo de mobilização em detrimento dos motivos. A teoria da mobilização de recursos realiza uma comparação entre movimentos sociais e uma firma, devido à burocratização que é passível de se encontrar nos dois, o que tem como base a criação de normas, a constituição de uma hierarquia interna e divisão do trabalho, onde os líderes dos movimentos seriam os gerentes, que gerem e administram os recursos e coordenam as acções. Quanto mais tempo dura a mobilização, maior seria a possibilidade de se tornar, cada vez mais, burocrática 1 . Podemos resumir esta teoria com as palavras racionalidade, uma vez que a privilegia, organização e descrédito em ideologias enquanto forças motrizes das mobilizações (Lima e Nunes, 2004 e Alonso, 2009). Contudo, ao ignorar explicações com base na cultura e ao valorizar a racionalidade, ao valorizar uma análise conjuntural e consequentemente ao não enquadrar os movimentos em macroestruturas leva a que esta teoria tenha sido fortemente criticada. Colmatando algumas das falhas da teoria referida anteriormente, aparecem a teoria do processo político e a teoria dos novos movimentos sociais que vão valorizar o enquadramento macro-histórico dos movimentos (Alonso, 2009). Estas teorias procuram conjugar política com cultura para explicar os movimentos sociais, particularmente, a teoria do processo político aposta em elaborar uma teoria da 1 Sendo importante de referir, neste contexto, a “lei de bronze” da oligarquia de Robert Michels (in Nunes, 2002). Página 7 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO mobilização política ao passo que a teoria dos novos movimentos sociais centra-se numa teoria da mudança cultural. A teoria do processo político (Alonso, 2009) refere que é necessário que exista uma coordenação entre os activistas para que a mobilização se dê, concordando assim com a teoria de mobilização de recursos, contudo vai acrescentar algo novo à discussão ao argumentar que tal coordenação depende da solidariedade, acrescentando assim um elemento cultural à explicação. Mas mais importante que a solidariedade são as estruturas de mobilização, quer de recursos formais (organizações civis), quer de recursos informais (redes sociais), sendo que é através da mobilização que proporciona que um determinado grupo crie solidariedade e obtenha e controle os recursos necessários para a mobilização. A grande novidade que é trazida por esta teoria prendese com a estrutura de incentivos e/ou constrangimentos políticos, ou seja, só é possível a existência de um movimento se existirem condições políticas favoráveis para o desenrolar do mesmo, esta é a grande diferença face à teoria da mobilização de recursos. Nesta corrente, os movimentos sociais não se desenrolariam contra o Estado, mas sim contra os detentores do poder político. No que diz respeito à teoria dos novos movimentos sociais, é possível referir que se centra no processo de construção de uma identidade colectiva, onde se defende que este processo se regula tendo por base as negociações que os agentes realizam entre si, ou seja, nesta teoria os agentes agem de forma racional, mas é necessário introduzir o factor emocional na equação. Assim, esta teoria introduz três elementos da acção colectiva, sendo eles, um “framework cognitivo” acerca dos objectivos que se pretendem concretizar, dos meios para lá chegar e onde se irá actuar; a “activação prática de relações entre actores”, que se daria através da comunicação, da negociação e de decisões tomadas em conjunto e, por último, o “investimento emocional”, que se traduz num reconhecimento dos actores enquanto membros do grupo (Alonso, 2009). Tendo em conta estes três elementos percebe-se o que está na base do processo de construção de uma identidade colectiva. Assim, compreende-se que a cultura é central nesta teoria dos movimentos sociais, uma vez que explica a transição que os agentes realizam para o activismo através de um processo que une racionalidade e emoção. Em vez de movimentos de classe, estaríamos perante novos movimentos de carácter expressivo, simbólico e identitário. Estes novos movimentos caracterizam-se ainda pela actuação pacífica, de acção directa, descentralizada, sem representação hierárquica e Página 8 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS que actua de forma desburocratizada. O Estado não é o “inimigo” e dirigem-se à sociedade civil, onde se procuram mudanças culturais a longo prazo. As três teorias aqui analisadas procuram explicar e compreender os movimentos sociais, actuando sobre a forma como eles se criam e recriam na sociedade. A teoria da mobilização de recursos focaliza-se na dimensão micro-organizacional, a teoria do processo político valoriza o ambiente macropolítico, explicando a sua importância na organização dos movimentos sociais e introduziu o aspecto cultural na análise, a teoria dos novos movimentos sociais valoriza os aspectos simbólicos e cognitivos na definição dos movimentos sociais, referindo a existência de emoções colectivas (Lima e Nunes, 2004 e Alonso, 2009). Podemos ainda referir que no actual contexto de globalização, o estudo das novas formas de acção colectiva centra-se, fundamentalmente, em duas tradições sociológicas, sendo elas a norte-americana e a europeia (Lima e Nunes, 2004). Nos EUA a teoria da mobilização de recursos (já discutida), com autores como Oberschall e Tilly (in Lima e Nunes, 2004), que interpreta os movimentos sociais como sendo “grupos de pressão organizados” que são, de alguma forma, excluídos do processo que possibilita a tomada de decisões de cariz político 2 . Por outro lado, na Europa, as últimas décadas têm sido marcadas por Alain Touraine (séc. XX) com a sociologia da acção, nesta perspectiva accionista só é considerado movimento social aquele que cumpre três requisitos que são essenciais para Touraine e os seus colaboradores, nomeadamente identidade, oposição e totalidade3 (Lima e Nunes, 2004). Que movimentos sociais? Após analisados tais contributos teóricos, torna-se importante estabelecer o que se entende por movimentos sociais ou orientar algumas linhas de raciocínio que nos ajudem a defini-los, tendo em consideração que alguns passos para a definição já foram dados pelas teorias supramencionadas. No fundo, interessa perceber quais os critérios de classificação que nos permitem distinguir meras aglomerações de pessoas de verdadeiros movimentos sociais. Neste sentido, António Dores (2009) ao questionar-se 2 Assim, estes grupos agem de forma estratégica e racional ao gerirem recursos (financeiros, técnicos e humanos) de forma a cumprirem o objectivo de obter poder político de forma a fazerem valer as suas próprias aspirações e interesses (Lima e Nunes, 2004). 3 Assim, um movimento social deverá possuir actores sociais que partilhem uma identidade que tem por base relações de solidariedade, tal identidade opõe-se a adversários sociais e os actores devem elaborar propostas que visem a mudança social (Lima e Nunes, 2004). Página 9 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO acerca da existência dos mesmos acaba por colocar em debate duas teorias, onde de um lado encontramos Alain Touraine, com uma visão em que os movimentos sociais causam e explicam as mudanças institucionais e, de outro lado, Francesco Alberoni, adopta uma visão mais descritiva dos processos psicológicos que espoletam o ambiente social de onde se alimentam as mobilizações e os movimentos sociais. Touraine defende que os movimentos sociais verdadeiros podem diferenciar-se dos falsos através da coerência das tensões racionalmente criadas com as instituições, defendendo que deveriam ser excluídos da caracterização de movimento social todos os fenómenos que, podendo num determinado momento intitular-se e parecer movimentos sociais, não possuíssem as condições objectivas e subjectivas para ambicionarem causar transformações institucionais, no sentido de mudança histórica. Assim, torna-se clara a separação entre as instituições, que eram o alvo que conduziria à mudança social, e movimentos sociais, enquanto actores e promotores da referida transformação. Francesco Alberoni vem referir que os movimentos sociais são parte da vida quotidiana, podendo ser explicados “pelo acumular de relações sociais à volta de pessoas em estado-nascente” (Dores, 2009: 128), que se caracteriza pela passagem de um estado depressivo para um estado de entusiasmo. Nesta linha de pensamento, pode não haver uma partilha racional de objectivos sociais comuns. O que caracteriza a mobilização é um estado psico-social em que as pessoas se atraem entre si quando se encontram no mesmo estado de espirito. Há uma afinidade natural entre elas, até porque são, geralmente, ostracizadas ou incompreendidas pelas pessoas em estado normal. Para o autor, a oposição entre movimento social e instituição não faz sentido. Ao inverso, aliás, a maior aspiração dos movimentos sociais é eles próprios conseguirem institucionalizar-se. Ambas as definições concordam em atribuir aos movimentos sociais poderes de transformação social. De um lado, os movimentos sociais são vistos como radicalmente separados da estrutura do poder dominante mas capazes de lhe fazerem frente. Do outro lado, os movimentos sociais emergem espontaneamente na vida das pessoas, por razões que advém da natureza humana, muito antes de terem a dimensão e intensidade para se constituírem em alternativa de poder e muitas vezes correndo em outras direcções que não as do poder de estado, como na cultura, na ciência, nos negócios, no desporto e na religião. António Dores (2009) defende que nem todas as transformações sociais são produto de movimentos sociais e nem todos os movimentos sociais implicam Página 10 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS transformações institucionais. Touraine busca uma definição de movimentos sociais que os valoriza como causas das transformações das instituições, que por sua vez induzem a transformação da sociedade, tal como ela é reproduzida. Cabe perguntar, então: de onde surgem os movimentos sociais? Será da sociedade? Como? A sociedade (reproduzida) apenas é transformada pelas instituições? As instituições apenas são transformadas pelos movimentos sociais (sociedade em produção)? Alberoni propõe uma definição que não valoriza acima de tudo a organização e a extensão. Valoriza antes o potencial transformador da vida das pessoas envolvidas (entusiasmadas) nos movimentos e nas que são influenciadas pelo movimento. No fundo, a “luta” entre os autores é uma luta entre a valorização das consequências da acção humana institucionalmente útil e a valorização das vivências humanas expressivas. A aplicação das duas perspectivas teóricas ao contexto português pós 25 de Abril de 1974, que se irá analisar mais aprofundadamente, implicará, como seria de esperar, sentidos e significados distintos. O surgimento de movimentos sociais influenciados pelo golpe de estado (contra a instituição militar e a guerra colonial), quando filtrados pela teoria de Alberoni, podem ser interpretados pela transição colectiva de um povo para um estado nascente (que toma lugar quando um período depressivo acaba). A revolução como festa. Por sua vez, usando a perspectiva de Touraine, a desorganização de ideias e dos ideais dos portugueses, na altura, assim como a desorganização das empresas, da administração, da sociedade civil, que ainda hoje são imagem de marca do País, conduz a uma interpretação diferente das acções colectivas de então. A revolução como acção irracional e, em certa medida, inconsequente. Assim, enquanto a teoria de Alberoni4 revela melhor uma explosão de movimentos sociais em convergência, como foi o caso do 1º de Maio de 1974, Touraine critica os falsos movimentos sociais, fundamentalmente, pela sua desorganização, submissão a interesses dominantes conservadores e, sobretudo, pelos limites do papel transformador dos mesmos. Ainda que os filtros sejam necessários para que se possa perceber a realidade que se está a analisar, eles podem “obscurecer” e, até mesmo, distorcer essa mesma realidade, neste sentido a resposta à questão: que movimentos sociais? Aparece como 4 A teorização de Alberoni (in Dores, 2009) ao olhar para os movimentos sociais como dinâmicas sociais geradas por encontros espontâneos de pessoas em estado-nascente possui potencialidades que devem ser exploradas e aprofundadas. Página 11 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO pertinente, na medida que interessa perceber o filtro que se irá usar para perceber de que movimentos sociais, em concreto, estamos a falar. Neste sentido é de destacar o contributo de Maria Glória Gohn (2011) que aponta para acções sociais colectivas de carácter cultural e socio-político que levam a que uma parte da população se organize em torno de um objectivo comum como definição central. Estas acções colectivas podem traduzir-se em diferentes estratégias, como a pressão directa, indirecta e a denúncia. A pressão directa e, com maior visibilidade, tem por base marchas, mobilizações, concentrações, entre outras formas de protesto. Defende-se que os movimentos sociais possuem um potencial de mudança, contudo, o seu impacto deve ser analisado de um ponto de vista que não descore níveis de análise mais profundos e particulares, onde a extensão e a organização não sejam os únicos factores a considerar. Os movimentos sociais podem representar, de facto, uma alternativa estrutural face ao poder dominante. Contudo, a análise apenas das consequências sociais dos movimentos negligencia, por exemplo, a análise das energias vitais e sociais que levam à mobilização. Sendo de referir que o próprio potencial transformador dos movimentos sociais nem sempre é visível e fácil de medir. Um movimento de hoje pode produzir impactos num futuro distante e não no imediato. Destacam-se as potencialidades da perspectiva de longa duração dos movimentos sociais adoptada por Carlos Faria (2009), onde eles não se esgotam e o seu potencial tal como os seus impactos não se restringem ao momento do “clímax”, avaliam-se assim não só os efeitos imediatos, mas também os tardios da acção colectiva dos actores sociais em termos da mudança. Neste sentido, tal como refere António Dores (2009: 135) “os movimentos sociais existem mas, por vezes, só para os próprios e para aqueles olhares treinados e interessados em observá-los, a partir de concepções que são próprias do observador. Por vezes os movimentos sociais assumem uma visibilidade e um protagonismo públicos […] outras vezes predomina o low profile”. O autor (2009: 144) refere ainda que os actuais movimentos sociais “não parecem vocacionados à hegemonia histórica” e acaba por defini-los enquanto “expressão organizada de dúvidas existenciais profundas e mobilizam a espontaneidade dos descontentes e dos entusiasmados, de modo a institucionalizar as respectivas energias”, referindo ainda que muitos dos movimentos sociais serão estruturalmente irrelevantes no imediato. Contudo, mesmo o potencial dos mais pequenos pode vir a revelar-se de forma inesperada. Página 12 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS De certa forma, podemos considerar que em qualquer movimento social há uma análise de um dado momento da história e a realização de um diagnóstico desse mesmo momento, procurando-se dar a conhecer as soluções que para os participantes fazem sentido (Gohn, 2011). A sua concepção leva à criação e à tomada de sentido de uma identidade colectiva, ou seja, uma identidade que se define por ter como base condições de vida semelhantes e que enfrentam desafios também eles, em si, comuns ou idênticos como defende Melucci (in Alonso, 2009). Assim, os movimentos sociais têm vindo a contribuir para que a sociedade tome consciência e se organize, apresentando soluções para os problemas que a afectam através de práticas de pressão/mobilização. Caracterizam-se por não ser apenas reactivos e por ter um impacto que lhes permite adquirir uma certa permanência e continuidade (Gohn, 2011), mais que não seja, na vida de quem os viveu intensamente ou foi por eles influenciado. Possuem um papel de destaque na construção de uma sociedade democrática e dependem de todo um conjunto de oportunidades e constrangimentos, organizando-se com base em lideranças e estratégias5. A nova face dos movimentos sociais Os movimentos sociais têm vindo a adquirir uma nova face, que tem por base o aparecimento de novos meios de comunicação e informação, como a internet, que aparecem de mãos dadas com o advento da globalização. Os movimentos sociais do século XXI, definidos como acções colectivas em torno de um objectivo comum, utilizam a internet para acções concretas e para se darem a conhecer através dela. Tal ferramenta acabou por se converter “numa ágora electrónica global, onde a diversidade do descontentamento humano explode numa cacofonia de pronúncias” (Castells, 2007: 168). O facto de se adaptar às necessidades dos movimentos sociais e de contribuir para a mudança social, torna a internet um meio “apetecível”. Tal aspecto deve-se ao facto de os movimentos sociais actuais terem na sua génese valores culturais, em segundo lugar deve-se ao facto de a internet vir colmatar as falhas deixadas pela crise 5 Neste sentido destaca-se a definição de movimento social que Melucci, nas palavras de Alonso (2009: 66), fornece ao referir que se trata de “uma forma de acção colectiva, que surge a partir de um campo de oportunidades e constrangimentos e que possui organização, lideranças e estratégias”, uma vez que valoriza aspectos centrais tais como o contexto em que os movimentos se inserem, a organização e as próprias lideranças, ainda pouco aprofundadas pela literatura, como refere Lerbach (2012). Página 13 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO das organizações verticalmente integradas (da era industrial) e em terceiro lugar a internet permite contrariar a tendência de o poder funcionar, cada vez mais, em redes globais, assim os movimentos sociais procuram, também eles, obter um alcance global, através de acções simbólicas, nesta luta, o Estado-Nação perde claramente terreno. (Castells, 2007). Actualmente, e contrariamente ao que acontecia acerca de vinte e cinco anos atrás, os movimentos sociais mais influentes e, portanto, com maior impacto na sociedade tem um forte apoio de base no seu próprio contexto local, que lhes permite, posteriormente, provocar impacto a nível global. É a necessidade de criar coligações globais que leva a que os movimentos sociais de agora necessitem da internet. Contrariando as redes globais de poder, os movimentos procuram, também eles, agir de forma global (Castells, 2007). Contudo, e como se irá procurar analisar, o potencial da ferramenta internet assenta única e exclusivamente no potencial do actor, o que nos leva a adoptar uma postura de distanciamento face a visões demasiado optimistas (tal como demasiado pessimistas) no que diz respeito ao seu potencial democrático. O Caso De Portugal: O Que Mudou? O período de 1974-76 marcou profundamente Portugal no que diz respeito aos movimentos sociais, o golpe de estado (contra a instituição militar e a guerra colonial) a 25 de Abril de 74 a que imediatamente se seguiu um movimento social popular, libertou o país das características fascistas do velho regime6, onde mais tarde, e devido a um processo revolucionário que ocorreu até Novembro de 1975 7 , se deu a institucionalização da democracia representativa com a Constituição de 19768. O país entrou para a União Europeia (em 1986) e a utopia portuguesa deu lugar a preocupações globais. O campo laboral e as estruturas sindicais passaram a enfrentar problemas comuns aos dos restantes países europeus, devendo-se, sobretudo, à globalização económica e à abertura das fronteiras dos diferentes países da UE (Santos, 1984 e Estanque, 2008). A crise revolucionária (1974-75) deveu-se, sobretudo, à forte mobilização das classes populares, à suspensão do poder social do capital e às opções ideológicas da 6 O facto de existir um único partido, as milícias para-militares, a polícia política, o tribunal plenário, os presos políticos e a repressão da liberdade associação e expressão (Santos, 1984: 17). 7 Tal como refere Boaventura de Sousa Santos (1984: 18), a “crise do estado transformou-se numa crise revolucionária, a qual durou até 25 de Novembro de 1975”. 8 Fornece as bases para que, gradualmente, existam condições para essa institucionalização. Página 14 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS camada militar dirigente do Estado. Boaventura (1984) chega mesmo a afirmar que se deu uma explosão de um movimento social popular que se seguiu ao golpe de estado, referindo que se tratou do “movimento social mais amplo e profundo da história europeia do pós-guerra” (Santos, 1984: 18) que assentava numa composição de classe complexa (operariado urbano na cintura industrial de Lisboa, a pequena burguesia assalariada nas grandes e médias cidades e o operariado rural do Alentejo), atingindo diversas áreas da vida social, nomeadamente, “a administração local, a habitação urbana, a gestão das empresas, a educação, a cultura e os novos modos de vida, a reforma agrária, as relações de dominação e subordinação nos campo, etc., etc.” (Santos, 1984: 18). Assim, é possível afirmar que os movimentos sociais tiveram uma importância significativa em Portugal após o 25 de Abril de 74 no PREC - Período Revolucionário em Curso (Baía, 2008). Neste sentido, é importante referir que Portugal caracteriza-se por ser um país periférico no que toca a aspectos de extrema importância, devendo-se tal facto, fundamentalmente, a um desenvolvimento industrial fraco e tardio e um processo de democratização, também ele, tardio e que acarreta contradições. Caracteriza-se ainda pelo desenvolvimento rápido de um Estado de Bem Estar Social que acabou por se traduzir num Estado Social frágil (na Europa já este modelo estava em crise). Deu-se uma modernização das infra-estruturas que se deve, em grande medida à adesão à União Europeia, mas a nível social, as desigualdades, injustiças e dificuldades tiveram e têm tido grande expressão. A entrada no novo milénio trouxe consigo flexibilidade, mas também precariedade no mercado de trabalho, aspectos estes que impulsionados pela competitividade global, contribuíram para o aumento das desigualdades (Estanque, 2009). Face a tudo isto, os movimentos não terminaram no 25 de Abril, chegando mesmo a ser impulsionados por este marco que gerou consciencialização para a necessidade de mudança9, assim os movimentos sociais continuam a fazer-se sentir até aos dias de hoje, ainda que, e como se irá discutir, de forma e por razões diferentes. Eventos como o 12 de Março (movimento “Geração à Rasca”) marcam o início de transformações importantes na estrutura organizacional dos modos de mobilização e contestação da sociedade portuguesa, tornando-se de extrema importância analisar aprofundadamente tais transformações. 9 Todavia, com a, já referida, entrada na Comunidade Europeia, existe quem considera que se deu um domesticar da revolução (Freire e Baum, 2001). Página 15 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO 1) ecessidade colectiva de manter e exercer direitos sociais, políticos e civis /ovo patamar democrático Actualmente, os movimentos sociais em Portugal pautam-se, e ao contrário do que ocorreu nos movimentos pós-25 de Abril, pela necessidade colectiva de manter e exercer os direitos sociais, políticos e civis, fundamentalmente, adquiridos com a libertação do país da ditadura, ou seja, o que se procura, de uma forma geral, não é obter novos direitos, mas antes não perder os que se conseguiram. Isto representa uma mudança significativa, sendo visível em diversos movimentos actuais, como o 12 de Março que ficou conhecido como “Geração à rasca”. Movimentos como este procuram promover a cidadania, defendendo que ela não se esgota no acto de votar, tais movimentos defendem a liberdade de expressar a opinião e a oportunidade de todos participarem nas áreas política, social, educativa e económica. Os assuntos que mais preocupam quem participa nestes movimentos prendem-se com temas relacionados com o desemprego, a crise, a exploração, os governos, a classe política, entre outros (Silva, 2012: 7). Neste sentido, Paula Gil e João Labrincha (fundadores do movimento “Geração à Rasca”) em entrevista afirmam: Eu penso que o protesto de 12 de Março foi muito diferente do 25 de Abril. A Revolução de 25 de Abril foi uma luta contra a opressão, contra o antigo regime. Foi uma busca pela democracia. Neste momento, nós temos já uma democracia e o protesto de 12 de Março apenas demonstrou que todos os portugueses estão disponíveis para lutar, tendo em conta as medidas que a democracia coloca à disposição, de modo a contribuir, de forma positiva, para uma solução e para um desenvolvimento positivo da situação de crise que se apresenta em Portugal neste momento. (Paula Gil em entrevista ao JPN – JornalismoPortoNet a 04/05/2011) Achamos ser necessária uma evolução para uma democracia mais madura. As liberdades actuais permitem-nos progredir de forma positiva sem a necessidade de uma revolução. (João Labrincha em entrevista ao Correio da Manhã a 20/03/2011) Com tais discursos, torna-se patente, como já foi referido, a necessidade de manutenção da democracia e dos direitos que ela implica, torna-se assim visível a chegada a um novo patamar democrático, que se caracteriza, não pela chegada à Página 16 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS democracia (verificável nos movimentos sociais imediatamente pós-25 de Abril), mas sobretudo pelo seu bom uso e proveito por parte do povo. 2) Uso das “ferramentas democráticas” e criação de uniões internacionais Ainda que durante o PREC não existisse um isolamento de Portugal face ao mundo, é certo que os seus actores sociais vivenciaram um contexto de isolamento por não terem sido integralmente socializados em democracia, onde os próprios media não adquiriram imediatamente após o golpe uma liberdade de expressão plena (Silva, 2009), neste sentido é possível afirmar que o próprio contexto dos movimentos mudou desde o 25 de Abril, quem participa num movimento social actual possui uma maior consciência das potencialidades da democracia em paralelo com uma clara noção dos constrangimentos externos a que Portugal está sujeito, havendo consciência de que existe um mundo para além das fronteiras. As manifestações “Que se lixe a troika”10 e dos “indignados”11 demonstram exactamente isso, estamos perante a globalização das consciências e dos conflitos, combatendo-se não só no contexto português. Pessoas de diversos países podem juntar-se com objectivos comuns, os movimentos globalizam-se para poderem combater o mundo e os problemas, também eles, globais, sendo neste contexto que a ferramenta internet e, consequentemente, as redes sociais ganham destaque. Magda Alves (activista feminista que participou numa manifestação “antitroika”) refere: Defendem alternativas ‘que partam da mobilização das populações’ dos países que, ‘reféns da troika e da especulação financeira, perdem a soberania e empobrecem, assim como de todos os países a quem se impõe este regime de austeridade’. E pedem a ‘gregos, espanhóis, italianos, irlandeses, portugueses e todas as pessoas’ que se ‘juntem, concertando acções, lutando pelas suas vidas e unindo as suas vozes’. (Magda Alves em entrevista ao jornal Público a 27/08/2012) 10 O movimento “Que se lixe a troika” representa uma acção de protesto organizada através do facebook e visa combater as políticas de austeridade impostas pelo Governo e pela troika aos cidadãos portugueses (informação retirada da página oficial do movimento: http://www.facebook.com/pages/Que-se-Lixe-aTroika-Queremos-as-nossas-Vidas/177929608998626) 11 O movimento dos “indignados” é iniciado em Espanha a 15 de Maio de 2011 e tem como principal objectivo promover uma democracia mais participativa. Numa fase posterior acaba por contagiar mais de 60 países, Portugal inclusive (Silva, 2012). Página 17 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO Torna-se bem presente a necessidade de criar uniões que ultrapassem fronteiras, uma vez que os próprios problemas que se procuram combater já o fizeram, existe a consciência da existência de riscos que ultrapassam o mero contexto nacional e os movimentos sociais actuais procuram a todo o custo criar tentáculos, em grande medida, através do uso das redes sociais, para que consigam chegar ao maior número de pessoas possível. Sendo tal aspecto verificável também no discurso de Paula Gil quando, em entrevista ao jornal Público a 22/08/2011, aponta para um novo protesto do movimento “Geração à Rasca” com tentáculos em Espanha, afirmando que “O dia 15 de Outubro foi escolhido por ser uma manifestação internacional de solidariedade com Espanha, sendo que há questões transversais aos dois países". 3) História do colectivo assente na força do individuo A história dos movimentos sociais actuais não é a história de quem os lidera mas antes de quem neles participa, estando muito assente a ideia de que cada um individualmente pode fazer a diferença, ainda que a chegada de D. Sebastião ou o retorno de acções como as que foram levadas a cabo pelos capitães de Abril continue em aberto e a sociedade portuguesa se caracterize pela procura de um herói salvador. Isto é bem visível no discurso de Alexandre Carvalho (fundador do movimento “Geração à Rasca”), em entrevista à RTP a 12 de Março de 2012, ao referir que se tratou “do despertar de uma das maiores manifestações populares de Portugal desde a instauração da democracia, uma manifestação quase sem rei nem roque, cada um trouxe à manifestação aquilo que queria” e no discurso de João Labrincha (fundador do movimento “Geração à Rasca”) que em entrevista ao jornal expresso a 23 de Fevereiro de 2011 (antes do movimento ocorrer) pede às pessoas para que “levem consigo uma folha A4 onde digam as suas razões para estar no protesto e indiquem uma solução para os problemas ou para o problema que o assalta” para que sejam entregues na Assembleia da República, onde se verifica, claramente, que existe uma preocupação por parte dos organizadores em valorizar as experiências individuais e em procurar integrar essas experiências num colectivo, assim, verifica-se por parte dos próprios “líderes” uma distribuição do poder, ou seja, cada um deve fazer por si, expressando problemas e soluções, para que posteriormente se actue colectivamente, de forma a ter um maior impacto e visibilidade. Página 18 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS Podemos afirmar que talvez a grande diferença do pós-25 de Abril para o período actual seja de carácter ideológico, onde o sentido colectivo da acção tem vindo a sofrer mudanças, aliás a própria individualização da sociedade o proporciona, existindo actualmente, preocupações muito próprias de cada um, ainda que os discursos se relacionem e apontem para objectivos e problemas idênticos a todo um colectivo, as preocupações são de cada um e, cada um, individualmente (mais que não seja, numa primeira fase) deve “ir à luta”. Contudo, a população percebe o potencial de mudança dos movimentos colectivos e num processo de negociações que envolve exigências e cedências encontra pontes de entendimento que o fazem ser parte integrante de uma acção. 4) Desinstitucionalização e individualização dos modos de acção política As forças políticas deixam gradualmente de conseguir controlar os movimentos sociais em seu proveito, e torna-se possível afirmar que movimento que “se preze”, na actualidade, afirma-se apartidário (sem filiações a partidos ou sindicatos) e movimentase em terreno virtual, tendo que “facebookar” e/ou “tweetar”. Acredita-se na mudança através de novas vias que ultrapassam as organizações burocráticas e as lideranças, baseando-se na solidariedade. Assim, a organização formal é colocada de lado para dar lugar a movimentos que se organizam de forma natural e espontânea que se opõem a qualquer género de manipulação. Neste sentido, é importante referir o crescente processo de desinstitucionalização e individualização dos modos de acção política, que se traduz no progressivo afastamento dos modelos convencionais de participação, fundamentalmente, por parte dos jovens. As recentes gerações socializadas integralmente em democracia possuem características sociais que as diferenciam das gerações que vivenciaram a institucionalização da mesma, no que diz respeito à religiosidade, escolaridade, modos de vida, valores sociais, entre outros. Assim, não surpreende que estas novas gerações possuam uma relação diferente com o sistema democrático e com as diversas formas de autoridade. Em paralelo com o processo de desinstitucionalização política verifica-se um processo de revinculação a domínios não institucionais, ou seja, a participação passa a dar-se por vias não convencionais, assim, não se coloca em causa o desprezo pela política, mas antes o reinventar da mesma, usando novas formas e ferramentas, como é Página 19 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO o caso das redes sociais. A desvinculação dá-se porque as formas convencionais não correspondem às expectativas dos actores sociais (Augusto, 2008). Tal como refere Nuno Augusto (2008: 163) é possível associar a inconvencionalidade política a três dimensões, a já referida desinstitucionalização (afastamento dos modelos de participação institucionalizados), a relação de distanciamento face às elites 12 que conduz a um distanciamento de qualquer acção política levada a cabo por elas, e por último, a privatização das lógicas e agendas de acção política, onde se passa a valorizar a experiência quotidiana. Estamos assim perante actores sociais que procuram a todo o custo afastar-se da participação que lhes procuram impor as elites, assim, procuram mostrar que é possível participar politicamente (e não só), através de novas vias. O desinteresse dos jovens pode ser visto ora como uma resposta ao desagrado sentido face ao sistema político, ora pelo contexto de incerteza e insegurança vivido actualmente. Em Portugal o interesse pela política demonstrado pelas gerações mais velhas e mais novas não apresenta discrepâncias significativas, ainda que os contextos de socialização sejam consideravelmente diferentes entre quem vivenciou contextos prédemocráticos e a instauração da mesma e quem viveu nela toda a sua vida. Contudo a utilização de lógicas não convencionais aumenta à medida que aumenta o nível de escolarização, o que coloca as novas gerações a apropriar-se de novas formas de participar face às mais velhas, nomeadamente face às gerações que vivenciaram a instauração da democracia (Augusto, 2008). Podemos assim afirmar que a escolaridade e a socialização democrática são os factores que mais separam as gerações que viveram a instauração da democracia das gerações que sempre viveram nela, sendo estes factores que mais contribuem para a desinstitucionalização e autonomização (Augusto, 2008). 5) Impacto da internet Os movimentos de hoje utilizam as redes sociais para espalhar a (s) sua (s) palavra (s) e conseguem, desta forma, chegar a mais pessoas de uma forma mais rápida, 12 Lê-se no jornal “Expresso” o discurso dos organizadores do movimento dos “indignados” em manifesto internacional: “Unidos em uma só voz, faremos saber aos políticos e às elites financeiras que eles servem, que agora somos nós, o povo, que decidirá o nosso futuro. Não somos mercadorias nas mãos de políticos e banqueiros que não nos representam” (notícia “Indignados: o protesto de hoje passo a passo” publicada a 15/10/2011). Página 20 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS exemplo disso são as 500 mil pessoas que saíram para as ruas em protesto no 12 de Março que foram convocadas por redes como o facebook, representando este o maior protesto desde o 1º de Maio de 1974. O aparecimento da ferramenta internet permitiu que se desse uma outra mudança face aos movimentos pós-25 de Abril, que é a abrangência dos movimentos, torna-se possível, num curto espaço de tempo, reunir num mesmo local um conjunto significativo de pessoas com interesses e objectivos comuns. Contudo, e como se verá, o papel dos media tradicionais continua a ter uma importância significativa no que toca a fazer chegar a mensagem à população (Simões et al., 2011). 5.1) O potencial da internet enquanto potencial do actor social Ainda que se defenda, tal como Mendes e Seixas (2005), que Portugal, por influência da revolução de 25 de Abril de 74, tem vindo a assistir a movimentos de acções reivindicativas e de protesto no espaço público, marcados por um acentuado localismo, é certo que Portugal tem vindo a ser caracterizado pela fraca capacidade de mobilização dos portugueses, que terá por base uma fraca sociedade civil que apresenta baixos níveis de autonomia nos espaços da produção e da cidadania, contudo ela é “forte, autónoma e auto-regulada no espaço doméstico”, o que contribui para a existência de uma sociedade providência que colmata as lacunas de um não EstadoProvidência, segundo Boaventura de Sousa Santos (citado por Mendes e Seixas, 2005). No mesmo sentido, Manuel Braga da Cruz (citado por Mendes e Seixas, 2005), refere que se deu uma explosão de participação política em Portugal entre 1974-76, contudo tal explosão traduziu-se numa “descompressão social e política” e não numa mudança de comportamentos e atitudes, tal facto é comprovado, uma vez que após se terem verificado alguns anos de grande movimentação social e política, Portugal regressou a baixos níveis de participação. Parece existir, entre os cientistas sociais consenso no que toca à baixa participação política, movimentação social, e à existência de uma vida associativa marcada por uma fraca adesão. Uma das possíveis explicações apresentadas para esta anemia participativa tem na base a instauração do Estado-Providência, uma vez que, no caso português se tratou de uma decisão política, onde não houve a realização de um pacto social assente na negociação ou na luta por longos períodos de tempo e de longa maturação social e cultural, o que conduziu a uma aquisição de direitos sociais que não foram interiorizados pelos cidadãos, assim, estes ao não se sentirem parte integrante de tais Página 21 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO direitos, acabam por não lutar pelos mesmos, ou seja, o facto de Portugal não ter na sua base um forte Estado-Providência construído pelo e para o povo, acaba por levar a um fraco envolvimento dos cidadãos e, consequentemente, uma fraca sociedade civil (Santos, 1987). A nível de associativismo, Portugal também tem vindo a ser caracterizado por um baixo índice de envolvimento, sendo o já referido 25 de Abril de 74 e a adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE) que permitiram fortalecer e fazer emergir o associativismo, contudo nos anos seguintes ele continua a cair e Portugal continua a não ter níveis de associativismo significativos quando comparado com o resto dos países da Europa, o que para diversos autores se prende com o facto de Portugal ter adquirido, tardiamente, o direito a uma livre associação (Morais e Sousa, 2012). Também a nível de associativismo se verifica um afastamento das organizações convencionais, como os sindicatos ou partidos políticos, sendo que os jovens procuram, fundamentalmente, organizações não partidárias para praticar a sua participação cívica (Augusto, 2008). Sendo neste contexto onde se caracteriza Portugal pelo baixo associativismo e até mesmo por um baixo envolvimento dos cidadãos para fazer rolar a democracia que o potencial das novas tecnologias da informação e comunicação, em particular a internet, constituem alvo de estudo, pois a sua utilização massiva é vista por diversos autores como uma forma de aumentar o associativismo e a participação em geral dos cidadãos. Assim à Internet e às redes sociais são atribuídas potencialidades no que concerne à “ (…) partilha de informação, à coordenação de acções e intervenções públicas e até a participação em processos de tomada de decisão” (Viegas et al., 2010 citado por Morais e Sousa, 2012: 8). Interessa, neste sentido, perceber quais as reais potencialidades desta ferramenta, defendendo-se que o seu potencial democrático assenta no potencial democrático do actor social, constituindo a internet apenas uma ferramenta à disposição de agentes sociais que se podem valer dela para potenciar a sua acção. Wilson Gomes (2005) realiza, de uma forma sintética, uma análise que recobre os principais argumentos defendidos por cépticos e optimistas no que diz respeito às capacidades da internet enquanto ferramenta que pode contribuir, ou não, para o potencial democrático da sociedade civil. Se olharmos para as vantagens democráticas desta ferramenta, a internet pode, antes de mais, e como já foi referido, ultrapassar os constrangimentos de tempo e espaço para a participação política, permite o acesso a uma grande quantidade e “qualidade” de informação, é uma ferramenta que se usa de uma forma cómoda e confortável, o acesso Página 22 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS é facilitado, não possui filtros nem controles, é uma ferramenta interactiva e, em último lugar, “dá voz” às minorias ou aos grupos excluídos. Por sua vez, se olharmos de forma critica, a internet possui algumas limitações, a primeira prende-se em saber se a informação política é realmente qualificada, ou seja, até que ponto o cidadão selecciona informação credível, relevante e de confiança, existe uma quantidade absurda de informação na rede e apenas as elites possuem os aparelhos necessários para operar, contudo, as massas vêm-se confrontadas com informação que pode nunca vir a traduzir-se em conhecimento real. Em segundo lugar, destaca-se a desigualdade a nível de acesso, onde a desigual distribuição de competências técnicas, de recursos económicos e de habilidades educacionais levam a que a internet, ao invés de diminuir as desigualdades, contribua para o seu aumento, assim, as oportunidades de participação digital continuam fora do alcance de uma parte da população. Em terceiro, aponta-se para a inexistência de cultura política, o que leva a que, mesmo que exista informação relevante e de qualidade, o desinteresse por ela conduz a uma não utilização e consequente não participação. Em quarto, defende-se que os meios de comunicação tradicionais continuam a ser centrais no que toca a fazer chegar a informação aos cidadãos, contrariamente ao que se pensava, a internet não veio substituir os meios tradicionais, que continuam a controlar a esfera pública. Em quinto, o sistema político continua a ser fechado, os próprios partidos apenas se fazem valer da internet para se auto publicitarem, assim a internet acaba por ser controlada por eles, evitando a entrada do cidadão no sistema político. Em último lugar, questiona-se a liberdade e o controlo, a internet é vista como um meio que valoriza acima de tudo a liberdade de expressão, onde não há controlos nem interesses das elites que se sobrepõem aos das massas, contudo, a internet possui informação perigosa e antidemocrática, pois a liberdade funciona nos dois sentidos, o anonimato veio permitir que posições extremistas e contra a dignidade humana aparecessem na rede, no fundo interessa perceber onde começa e acaba a liberdade de quem usa a internet. Tendo em conta estas duas visões, torna-se evidente que a internet possui vantagens e limitações, neste sentido, visões demasiado optimistas ou pessimistas negligenciam o real, é importante perceber que cabe ao actor social adquirir conhecimento para que possa participar a nível social, político e cultural, tal conhecimento tem que provir de informação relevante e não distorcida, em segundo lugar é necessário que seja atribuída a possibilidade de participar em debates públicos, é necessário que o cidadão possua meios e oportunidades de participar em instituições Página 23 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO democráticas ou grupos de pressão e em último lugar é necessário que possua um leque da habilitações comunicacionais para que possa fazer valer a sua vontade e os seus argumentos. Só tendo por base estes pressupostos é que a democracia pode servir os cidadãos e vice-versa (Gomes, 2005). Portanto, o potencial da internet, assenta única e exclusivamente no potencial do agente, o que nos leva a concluir que em a internet é apenas um recurso tecnológico que, tal como um livro na biblioteca, pode ou não ter potencial para o actor social. Tal como é necessário saber ler e interpretar para que o livro sirva o actor, também a internet pressupõe todo um conjunto de condições. Considerações Finais A estrutura organizacional dos modos de mobilização e contestação da sociedade portuguesa sofreu transformações que têm na base o aparecimento das novas tecnologias de informação e comunicação. O protesto “Geração à rasca”, fruto das redes sociais, tem vindo a ser caracterizado como uma das maiores manifestações dos últimos anos, o que gerou especulação em torno do potencial da internet, enquanto possível “remédio democrático”. Neste sentido, torna-se crucial perceber quais as principais mudanças que os movimentos sociais têm vindo a sofrer no contexto português desde o período de 1974-76, marcado por uma forte contestação social que tem na base o 25 de Abril de 74 que gerou consciencialização para a necessidade de mudança, até ao período actual, onde a internet trouxe consigo novas possibilidades. Assim sendo, apontam-se cinco grandes mudanças, a primeira passa por uma necessidade colectiva de manter e exercer os direitos adquiridos com a revolução que colocou fim à ditadura, Portugal encontra-se num novo patamar democrático, onde se luta por um bom uso e proveito dos direitos sociais já existentes e adquiridos, no fundo contesta-se por um não retrocesso democrático. Em segundo lugar, deu-se uma mudança de contexto e consciência, os movimentos sociais actuais lutam contra problemas que ultrapassam as fronteiras nacionais e os seus actores possuem uma maior noção das potencialidades da democracia, fazendo-se valer dela enquanto ferramenta de contestação. Em terceiro, aponta-se para a valorização do indivíduo enquanto agente de mudança, ou seja, a história dos movimentos sociais actuais não é a história de quem os lidera, nem das grandes figuras, estando muito assente a ideia de que cada um, individualmente, pode fazer a diferença, tal ideia encontra-se bem presente no discurso Página 24 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS dos próprios organizadores dos movimentos, como o “Geração à Rasca”, onde os seus líderes distribuem protagonismo e responsabilidade com todos os participantes. Em quarto lugar, aponta-se para os processos de desinstitucionalização, que se traduz no progressivo afastamento dos modelos convencionais de participação, e individualização dos modos de acção política. Existe actualmente, um afastamento dos modelos de participação institucionalizados, das elites e das acções políticas levadas a cabo por elas, existindo em simultâneo uma valorização da experiência quotidiana, havendo uma privatização das lógicas e agendas de acção política, como explica Augusto (2008). Em último lugar, refere-se o impacto da internet, enquanto ferramenta que se adapta às necessidades dos movimentos sociais actuais, podendo potenciar a sua acção. Contudo, o seu potencial assenta no potencial do actor social, não podendo, desta forma realizar “promessas” nem “milagres”. Bibliografia ALONSO, Angela (2009). “As teorias dos movimentos sociais: um balanço de debate”. In: Lua ova, nº76, pp. 49-86. AUGUSTO, Nuno Miguel (2008). “A juventude e a(s) política(s): Desinstitucionalização e individualização”. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 81, pp. 155-177. BAÍA, João (2008). “Bairro da Relvinha (1974-1976): De Barracas a condições condignas”. In: Actas dos ateliers do VI Congresso Português de Sociologia, pp. 2-15. CASTELLS, Manuel (2007). A Galáxia Internet: Reflexões sobre internet, negócios e sociedade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. DORES, António Pedro (2009). “Movimentos sociais existem?”. In: Interface: a jornal for and about social movements, v.1, nº 1, pp. 125-146. ESTANQUE, Elísio (2008). “Sindicalismo e movimentos sociais: Ação colectiva e regulação social no contexto europeu e português”. In: Revista Lutas Sociais, nº 23, pp. 1-17. ESTANQUE, Elísio (2009). “Sociologia e engajamento em Portugal: reflexões a partir do trabalho e do sindicalismo”. In: Caderno CRH, v.22, nº 56, pp. 311-324. Página 25 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO FARIA, Carlos Vieira (2009). As cidades na cidade: movimentos sociais urbanos em Setúbal 1966-1995. Lisboa: Esfera do Caos. FREIRE, André e BAUM, Michael A. (2001). “Partidos políticos, movimentos de cidadãos e referendos em Portugal: os casos do aborto e da regionalização”. In: Análise Social, vol. XXXVI, nº 158-159, pp. 9-41. GOHN, Maria da Glória (2011). “Movimentos sociais na contemporaneidade”. In: Revista Brasileira de Educação, v.16, nº47, pp. 333-361. GOMES, Wilson (2005). “Internet e participação política em sociedades democráticas”. In: Revista Famecos, nº27, pp. 58-78. LERBACH, Brena Costa (2012). “Liderança e movimentos sociais: apontamentos sobre a importância do líder”. In: Revista Simbiótica, nº1, pp. 136-156. LIMA, Marinús Pires e NUNES, Cristina (2004). “Movimentos colectivos na era da globalização”. In: Actas dos ateliers do V Congresso Português de Sociologia, pp. 61-67. LUSA (2011). “Indignados: o protesto de hoje passo a passo”. In: Expresso (publicado a 15/10/2011) [disponível em 02/01/2013] <URL: http://expresso.sapo.pt/indignados-o-protesto-de-hoje-passo-a-passo-video-efotogaleria=f680564>. MADEIRA, Paulo (2012). “Convocada manifestação anti-troika com passagem frente à representação do FMI”. In: Público (publicado a 27/08/2012) [disponível em 02/01/2013] <URL: http://www.publico.pt/economia/noticia/convocada- manifestacao-antitroika-com-passagem-frente-a-representacao-do-fmi1560602>. MATEUS, Bruno; FARIA, Isabel; MARQUES, José e SILVA, Gonçalo (2011). “Rostos de uma geração à rasca”. In: Correio da manhã (publicado a 20/03/2011) [disponível em 17/09/2012] <URL: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/rostos-de-uma-geracaoa-rasca>. MENDES, José Manuel de Oliveira e SEIXAS, Ana Maria (2005). “Acção colectiva e protesto em Portugal: Os movimentos sociais ao espelho dos media (19922002)”. In: Revista Critica de Ciências Sociais, nº 72, pp. 99-127. MONTEIRO, Tânia (2011). “Paula Gil: vale sempre a pena lutar”. In: JornalismoPortoNet – JPN (publicado a 04/05/2011) [disponível em 14/12/2012] <URL:http://jpn.c2com.up.pt/2011/05/04/paula_gil_vale_sempre_a_pena_lutar.html>. Página 26 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS MORAIS, Ricardo e SOUSA, João Carlos (2012). “Do envolvimento associativo à mobilização cívica: o potencial das redes sociais”. In: Actas dos ateliers do VII Congresso Português de Sociologia, pp. 1-15. NUNES, Neila Ferraz Moreira (2002). “Gestão democrática e partidos de massa: utopia ou realidade?”. In: Revista vértices, nº1, pp. 32-36. PINTO, Paula (2011). “As caras por trás do “Protesto da Geração à Rasca””. In: Expresso (publicado a 23/02/2011) [disponível em 03/01/2013] <URL: http://expresso.sapo.pt/as-caras-por-tras-do-protesto-da-geracao-arasca=f633712>. ROSENDO, Manuel (2012). “Entrevista a Alexandre Carvalho e Paula Gil”. In: RTP – Antena 1 (publicado a 12/03/2012) [disponível em 05/01/2013] <URL: http://www.rtp.pt/antena1/index.php?t=Entrevista-a-Alexandre-Carvalho-ePaula-Gil.rtp&article=4813&visual=11&tm=16&headline=13>. SANTOS, Boaventura de Sousa (1984). “A crise e a reconfiguração do estado em Portugal (1974-1984)”. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 14, pp. 7-29. SANTOS, Boaventura de Sousa (1987). “O Estado, a sociedade e as políticas sociais: o caso das políticas de saúde”. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 23, pp. 13-74. SANTOS, Romana Borja (2011). “’Geração à Rasca’ volta às ruas no dia 15 de Outubro”. In: Público (publicado a 22/08/2011) [disponível em 05/01/2013] <URL: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/geracao-a-rasca-volta-as-ruas- no-dia-15-de-outubro-1508660>. SILVA, Célia Maria Taborda (2009). “A comunicação como estratégia política da Ditadura e da Democracia”. In: Anexos dos Congressos do 6º SOPCOM/8º LUSOCOM, pp. 420-431. SILVA, Célia Maria Taborda (2012). “Dos “Antigos” aos “Novos” movimentos sociais”. In: Actas dos ateliers do VII Congresso Português de Sociologia, pp. 19. SIMÕES, Maria João; BARRIGA, Antónia do Carmo e JERÓNIMO, Nuno Amaral (2011). “Brave New World? Political participation and new media”. In: SOTICS, International Conference on Social Eco-Informatics, pp. 55-60. Página 27 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO (I)DIFEREÇA – REGIMES DE EVOLVIMETO ASSOCIATIVO EM PORTUGAL: o caso específico do VIH/SIDA Pedro Duarte CESNOVA ESTGL-Instituto Politécnico de Viseu [email protected] Resumo A alteração das sensibilidades nas sociedades modernas promovem um emergente interesse em torno dos «sofrimentos e de compaixões» verificáveis em diferentes formas de manifestação que podem apresentar olhares diferenciados consoante o quadrante político ou o sentir coletivo relativamente a certos aspetos da vida social. O sentimento de vulnerabilidade, associado às vítimas de VIH/SIDA, poderá ser um dos fatores promotores de diferentes interpretações críticas e manifestações coletivas de indignação que é denunciada publicamente pelos movimentos associativos ligados a esta problemática, originando controvérsias, disputas e conflitos na arena pública que diferentes gramáticas de motivação conduzem os atores a associar-se. Adequação das ações e das gramáticas às especificidades dos universos culturais e simbólicos que a SIDA incorpora permitiu a abertura de espaços de intervenção de atores não estatais em virtude das respostas indiferenciadas de carácter universalista que o Estado tendencialmente produz. A mobilização destes atores, surge em consequência do cruzamento das intenções do indivíduo e do coletivo, fazendo com que os indivíduos atuem individualmente como partes de um coletivo que persegue um fim comum sujeito a um acordo. A especificidade do acordo e as modalidades de cooperação da ação são ingredientes fundamentais para perceber qual a gramática e regimes de ação em que se baseiam as organizações ligadas à defesa desta causa. Palavras-chave: Movimentos associativos, Regimes de ação, VIH/SIDA Página 28 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS ota introdutória A comunicação que se apresenta, faz parte do estudo exploratório de investigação para tese de doutoramento em Sociologia e que tem como objetivo primordial, partindo da análise dos sentimentos de caridade/compaixão e de solidariedade, refletir em torno dos princípios histórico-sociais que poderão promover uma alteração das sensibilidades dos cidadãos relativamente aos quadros sociais do sofrimento humano no domínio do VIH/SIDA, dando lugar a diferentes quadrantes de operações criticas, integradas em quadros de ação coletiva (Associações / O.N.G’s), na prossecução de um bem comum. Propõe-se compreender, em que medida a produção social das controvérsias – disputas no espaço público na defesa da distribuição de um «bem comum», entre o Estado e a sociedade civil, poderá contribuir para a mobilização dos sujeitos. 1 – O associativismo – a re-emergência da sociedade civil e a renovação do espaço público como fatores de mobilização dos novos movimentos sociais 1.1 – Contextos de mobilização coletiva na modernidade Para se perceber alguns dos contornos estruturantes dos novos movimentos sociais, torna-se pertinente analisar que mecanismos históricos estão associados aos processos de constituição destes movimentos no espaço público. Se procedermos a uma análise compreensiva e explicativa do conceito de associativismo que etimologicamente decorre das palavras associativo, associar e que deriva do latim «associãre», tipifica “um sistema dos que se encontram unidos por um ideal ou objetivo comum, dos que pertencem a uma associação” (Casteleiro, 2001). Pode-se assim depreender, a prossecução de um fim comum, construído com base em quadros de uma ação coletiva na arena dos movimentos sociais e definida como “o conjunto de crenças e de significações orientadas para a ação…que inspiram e legitimam as atividades dos segmentos organizacionais de um movimento social” (Snow, 2003: 28), onde os indivíduos procuram dar resposta a um objetivo partilhado pelo coletivo. Página 29 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO O associativismo é uma atividade que embora não tenha surgido na atualidade; é uma manifestação coletiva centenária que foi apresentando diferentes configurações e estruturas de acordo com fatores de índole política, económica, cultural e religiosa permitindo também que no mesmo espácio-temporal, tal como sucede atualmente, exista uma convivência de diferentes conceções associativas: “tradicional ou revivalista”; “pragmática ou empresarial”; e “emergente” (nova tipologia) (Fernandes, 2003: 171). Estas formas / conceções de mobilização coletiva que contribuem para o engrandecimento da construção da ordem social, poderá ter por objetivo minimizar os constrangimentos a ela associados resultantes da amplitude das transformações sociais ocorridas nos vários domínios de uma sociedade; caracterizando-se esta cada vez mais pela sua complexidade, tem sido analisada de maneira diversificada pelas diferentes correntes / teorias sociológicas à luz do Projeto Imaginado de Modernidade 13 Contextualizado geograficamente na Europa Ocidental, atravessa vários períodos desde o final do Antigo Regime/época das luzes até à contemporaneidade (modernidade liberal restrita - século XVIII a XIX; modernidade organizada – século XIX a 1960; modernidade liberal alargada / tardia / reflexiva – 1960 à atualidade) (Wagner, 1996). O paradigma da modernidade (Giddens, 2001), decorre das vivências num mundo marcado por acentuados processos de mudança de cariz tecnológico, que vão influenciando significativamente as relações sociais dos indivíduos, originando tensões, conflitos, divisões e roturas sociais, convocando por um lado, os indivíduos a “controlar” de uma forma melhorada os seus destinos e por outro, proporcionar a construção de projetos de vida, que podem consubstanciar-se em diferentes formas de ação coletiva, enformados sob o domínio da reflexividade. Partindo desta análise da modernidade proposta por Giddens, convém sublinhar que a “questão social” em virtude das suas vicissitudes, vem neste período promover de forma mais intensa na arena social, um maior número de iniciativas visando uma coletivização da ação de disputa por justiça em torno de um «bem comum»14. 13 A Modernidade pode entender-se “como o equivalente tosco de mundo industrializado”, apresentando este conceito duas dimensões; o industrialismo, visto como o “eixo institucional da modernidade” referente “às relações sociais implicadas no uso generalizado da energia mecânica e das máquinas nos processos de produção” e o capitalismo enquanto “sistema de produção de mercadorias que implica tanto mercados concorrenciais de produtos quanto a mercadorização da força de trabalho” (Giddens, 2001: 13). 14 As «disputas por justiça» configuram-se em cenas da vida nas quais as pessoas, em desacordo, se apoiam em diferentes princípios de justificação para argumentar o seu ponto de vista e eventualmente encontrar a forma de um acordo legítimo em que o fundamento do sentido de justiça é a referência a uma humanidade comum e o reconhecimento do bem comum (Boltanski e Thévenot, 1991: 182-183). Página 30 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS A afirmação da “questão social” entre o século XIX e os anos sessenta, presente já nas sociedades pré-industriais, e que traduz o movimento das classes trabalhadoras em luta pelos direitos de liberdade e igualdade, é “uma aporia fundamental sobre a qual uma sociedade experimenta o enigma da sua coesão e tenta conjurar o risco da sua fratura. É um desafio que interroga, põe em questão a capacidade de uma sociedade” na prossecução de uma existência como “um conjunto ligado por relações de interdependência” (Castel, 2006: 25-26). Em Portugal, o desenho da “questão social” apresenta-se sob a forma de um antagonismo entre trabalhadores urbanos e rurais, por um lado, e as distintas frações da burguesia (industrial e latifundiária) por outro; é anterior à forma de Estado designado entre nós como Estado Novo, cuja edificação decorre entre 1933 e 1945, período em que emerge também a sua organização de proteção social, que assenta essencialmente sobre três pilares: Os Princípios Gerais da Constituição da República Portuguesa; o Estatuto do Trabalho Nacional e a Lei 1884 de 1935 que define as bases da Previdência Social Portuguesa (Cruz, 1988: 38). Estes pilares da estrutura político social em que assentava o Estado Novo pretendia entre outras coisas, por um lado, dar um enquadramento corporativo às organizações operárias, criando ele mesmo os sindicatos, numa tentativa de disciplinar o movimento operário e reprimir as suas lutas económicas, e por outro, como referia a Constituição (art. 41) promover instituições de solidariedade, previdência, cooperação e mutualidade15. Apesar de em Portugal o movimento associativo se afirmar desde meados do século XIX e se desenvolver com a República, a instauração do Estado Novo vai promover a ilegalização de partidos e sindicatos; o controlo através da fiscalização e inspeção das atividades culturais das associações e particularmente das associações de classe tornou-se uma realidade, enfraquecendo assim também desta forma o movimento sindical em virtude “da restrição das liberdades públicas e individuais” bem como da “abolição do direito à greve” (Patriarca 1995: 19). 15 É neste contexto social e político que a Liga da Ação Social Cristã (criada em 1907), norteando-se pelos princípios da Encíclica «Rerum Novarum», promove “a aproximação das classes segundo as normas da justiça e da caridade”, contribuindo para o surgimento até 1931 de muitas organizações, tais como “Círculos Católicos Operários, Juventude Católica Feminina, Conferências Vicentinas, Corpo Nacional de Escutas, Associação dos médicos Católicos, Associação dos Juristas Católicos” os quais irão constituir posteriormente a Ação Católica Portuguesa (Carvalho e Mouro, 1987: 65, 66) Esta linha de análise é coincidente e simultaneamente reforçada quando é referido que a partir do reforço político de Salazar “assiste-se, lentamente ao aparecimento de correntes católicas e nacionalistas que, dentro e fora das associações de classe, disputam a liderança à esquerda (Patriarca, 1995: 20). Página 31 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO Verifica-se a sobrevalorização neste período das “atividades recreativas e desportivas em detrimento das atividades de educação cívica e da perspetiva emancipatória que animava a vida e o projeto das associações” (Fernandes, 2003: 169). 1.2 - A justiça da constituição de novas formas de organização coletiva Após a breve análise de fatores histórico-sociais determinantes para a compreensão da evolução da estrutura social atual, urge tentar compreender os comportamentos dos membros da sociedade civil e do Estado perante determinadas preocupações públicas e verificar em que medida a pluralidade de bens distintos (por exemplo, bens em si mesmo, como o direito à preservação da vida humana e da natureza) à escala de um bem comum podem ser convocados pelos sujeitos nas arenas públicas; Os novos movimentos sociais que surgiram na Europa a partir dos anos sessenta16 na defesa dos direitos culturais ou de autonomia, têm expressão, através da constituição de “novas associações pelo anticolonialismo, o antirracismo, a não discriminação entre homem e mulher, a defesa do ambiente e do património construído, a promoção e divulgação artísticas, …, a cooperação com os países do Terceiro Mundo” (ibidem, 2003: 169). Verifica-se pois uma questão relacionada aos diferenciais de poderes entre os indivíduos e grupos sociais, que se manifestam na capacidade de reivindicação dos direitos e na defesa dos interesses. Os resultados destas disputas em que se reclama justiça, dependem em parte da possibilidade de os indivíduos se conseguirem organizar em grupos de influência e de pressão. É desde este período que se verifica um conjunto de “mudanças ao nível do crescimento acelerado do número de associações, da diversificação das necessidades e interesses”, associados aos problemas que preocupam a sociedade civil, bem como 16 Surge um novo conceito ligado ao estudo dos movimentos sociais designado por «frame» que analisa os processos de alinhamento, os aspetos mais significantes e discursivos das interações “no interior dos movimentos, entre movimentos e de outros atores organizados (adversários elites, …públicos, movimentos contrários) ” e no interior do campo / espaço em que se confrontam, contrastando com a análise tradicional dos movimentos como “portadores de crenças e de significações preexistentes, classicamente contextualizados em termos ideológicos”. No âmbito deste conceito os movimentos sociais traduzem-se como «agentes significantes» que se encontram “ligados nas atividades de produção, manutenção e recondução do sentido para os seus parceiros, opositores e simpatizantes”, estando implicados numa «política de significação» (Snow, 2001: 27-33). Página 32 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS ainda ao “nível da organização e funcionamento visando poder possibilitar a intersubjetividade e a participação no seio das associações” (ibidem, 2003: 169). A este respeito o autor refere que “a visibilidade da força de pressão da sociedade civil17, possível pelos media18 em afirmação através dos novos movimentos sociais 19 , opera a transição de um envolvimento traduzido por um voluntariado passivo20, existente até aquele momento nas diferentes formas de organização cívica, para a defesa de uma cidadania ativa” (ibidem, 2003: 167). A emergência da sociedade civil em Portugal, ou seja de um espaço público renovado, marcado pela consciência crítica e prática coletiva só possível num Estado de direito democrático (Barril, 2003: 365), onde exista liberdade de expressão e de opinião passível de debater de forma contraditória e autónoma o «bem comum», surge a partir de Abril de 1974, caracterizando-se por um processo de lenta consolidação, manifestando-se “na expansão e diversificação do associativismo (solidariedade social, educação, criação artística, defesa do património, preservação do ambiente, cooperação com os países africanos e ex-colónias) ” (Fernandes, 2003: 170). A liberdade de associação, consagrada no artigo 46ª da Constituição da República Portuguesa de 1974, tem-se traduzido, nas últimas décadas, em novas formas de associativismo, permitindo exercitar a democracia participativa na defesa dos direitos consagrados relacionados com determinados segmentos da população (crianças e jovens, idosos, mulheres, pobres e excluídos socialmente, …), bem como pelo reconhecimento de novos direitos associados às minorias, antirracismo e ambiente, o que traduz um alargamento do objeto das associações. 17 Tendo por base os estudos sócio históricos relativos à emergência de um espaço público na europa ocidental, múltiplos espaços públicos (onde são evocadas diferentes formas de publicitação do poder), tendem a coincidir com aquilo que atualmente é designado “por sociedade civil, ou seja formas de organização política não estatais de cidadãos (associações, O.N.G….) ” (Barril, 2003: 364). 18 Nos Estados com um regime político democrático cabe aos espectadores dos média “um papel preponderante na série de mediações que devem ser ativadas para fazer cessar ou atenuar o sofrimento à distância”, podendo constituir-se estas mediações como “uma resposta adequada à exigência da ação” (Boltanski, 2003: 269-270). 19 Tal como o referenciado anteriormente, muitos dos movimentos sociais que surgiram nos finais do século XIX na europa, eram de cariz filantrópico e tinham inspiração cristã, como os “«settlements» (organizações de voluntariado) e os centros sociais (charities organizations societies) enquanto instituições que procuravam dar corpo a uma estruturação racional da caridade” (Carvalho e Mouro,1987: 32). 20 A atuação do voluntariado tradicional baseava-se essencialmente no altruísmo e na boa vontade (frequentemente vinculado a instituições religiosas), e considerava que a formação devia incidir exclusivamente sobre os profissionais remunerados. Este tipo de voluntariado, disposto a suprir as carências do Estado, que praticava a beneficência, hoje não faz sentido pois o voluntariado atual apresenta uma nova maneira de atuar, em que assume a deteção de necessidades e a reivindicação de soluções, obrigando-o a ser menos paternalista e a ter maior competência técnica e humana (Pinto, 2002). Página 33 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO Destarte, é no contexto atual da reinstalação da ideologia liberal que emerge um novo tipo de associativismo, em que as novas práticas sociais enformadas pelos princípios da solidariedade e participação, dão espaço à “organização dos cidadãos, materializada em associações formais e não formais e ancorada nos direitos humanos, constitui-se como modo cultural alternativo”, ou seja, espaços que permitem a “expressão pessoal e exercício da cidadania ativa e espaços de educação, na cidade, para o desenvolvimento” (ibidem, 2003:171). Perante o exposto, poder-se-á perguntar que motivações / regimes de ação poderão ter sido acionados pelos dirigentes das associações / O.N.G’s nas disputas pelo «bem comum»? Se interligarmos os diversos pontos de análise sobre a “questão social”, os movimentos associativos a ela ligados, bem como a emergência de novas formas de associação, encontramo-nos também perante uma questão primordial em torno de diferentes gramáticas de motivação que conduzem os atores a associar-se, onde as intenções do indivíduo e do coletivo se entrecruzam fazendo com que os indivíduos atuem individualmente como partes de um coletivo que persegue um fim comum (Trom, 2001) que está a ser sujeito a um acordo (umas vezes mais precário, outras vezes menos precário). O tipo de acordo e as modalidades de cooperação da ação são ingredientes fundamentais para perceber, por um lado qual a gramática política em que se baseiam os movimentos destacados neste estudo, e, por outro lado qual a transformação que vai ocorrendo ao longo do tempo. Estas ações contribuem em certos casos para o surgimento de novas organizações e que a “identificação das causas e motivos está regulada por constrangimentos semânticos que pesam no processo de publicitação das ações coletivas” (Cefaï, 2001: 77). A mobilização dos atores motivados para uma ação voluntária, que pode apresentar diferentes configurações, voluntariado formal e informal21, no âmbito de uma lógica diversa de gramáticas de ação que poderão estar relacionadas com a prossecução e defesa de um determinado bem comum, cuja forma continua a ser convocada, pelos dispositivos associativos, para valorizar a solidariedade (Thévenot, 1999). 21 O voluntariado Formal (é realizado em todo tipo de instituições) e o Informal (desenvolve-se no âmbito da ajuda a familiares e vizinhos). Segundo um estudo realizado por Ana Nunes de Almeida e João Ferrão no âmbito do Ano Internacional do Voluntariado, que visava caracterizar o voluntariado em Portugal, e que incidiu num tipo particular de trabalho voluntário (voluntariado formal) em organizações do terceiro sector (área da solidariedade social), observou-se dentro deste duas formas de voluntariado: voluntariado de direção e voluntariado de execução. Página 34 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS Ao estarmos perante a constituição de novas formas de «laço social», em que o individualismo serve de base à criação do «nós», novos modelos de vida em sociedade, realização pessoal e liberdade individual harmonizam-se, assim como o respeito pelo outro e pelos interesses do coletivo. Esta criação do «nós» é o produto de um processo de individuação que contempla entre outros aspetos, as competências morais dos sujeitos na construção e procura de «bens comuns» no âmbito das interações. Deste modo, torna-se importante analisar o papel das organizações da sociedade civil em contraponto com a intervenção do Estado e do Poder Político, pois as organizações da sociedade civil na sua ação de disputa na arena pública estão sujeitas, direta ou indiretamente, a novas formas de regulação no jogo das controvérsias, pois está inerente ao próprio espaço público “um princípio regulador que fornece uma descrição das condições que devem ser satisfeitas ao nível da organização do poder político do Estado e da sociedade, para que eles possam ser qualificados de democráticos” (Barril, 2003: 371). Nesta linha de análise, refere-se que o Associativismo e o Voluntariado Social correspondem a mecanismos, emergentes na sociedade civil, tendentes ao reforço da inclusão e coesão social, na medida em que funcionam como um fator gerador de oportunidades e simultaneamente um instrumento facilitador da integração, podendo esta sua ação ser no entanto portadora dos princípios de regulação emanados pelo Estado, dando origem a novas formas de regulação. Esta interpretação promove o desenvolvimento da seguinte questão: Quem efetivamente regula o espaço público e as organizações a ele confinadas e o que se regula concretamente? A solidariedade atual, apresenta-se como uma decorrência evolutiva da piedade / caridade, centrada em grande parte nos pressupostos constituintes de uma sociedade de vítimas, dando lugar à construção de uma categoria social de vítima22 consequência de um sistema que se construiu em torno dela (Erner, 2006). Esta categoria social apresenta as vítimas como possuidoras de estatuto próprio, específico, promovendo um sentimento de compaixão, sobre o qual assentam algumas 22 Para Erner, apesar da nada apriori predestinar as pessoas nos seus sofrimentos heterogéneos, com histórias e percursos de vida distintos, todas elas na nossa sociedade atual são tratadas de igual forma, dando assim lugar ao nascimento da sociedade das vitimas, onde o olhar do outro joga um papel determinante na sua definição, pois não existem normas biológicas ou psicológicas que permitam distinguir / definir as suas características (2006: 17). Página 35 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO políticas, dando origem a O.N.G’s e associações que transportam uma certa opinião pública consentânea com o quotidiano do sofrimento. É esta conjugação objetiva que constitui a “sociedade das vítimas” (ibidem, 2006). Esta análise que o autor faz das vítimas é redutora pois apresenta-as como objeto das diversas formas de ação, não aportando para a reflexão as competências que lhes estão associadas e que são acionadas na defesa de um «bem comum». Deste modo e na sequência das anteriores questões, poder-se-á colocar a seguinte pergunta de reflexão: que tipo de competências são mobilizadas pelas vitimas, em que cenários e qual o fim último? A relação vitima / injustiça deve ser clarificada no âmbito de todos os processos de compaixão social e de vitimização, podendo estar na origem de uma outra relação vitimização / humanismo. O desenvolvimento das sensibilidades na sociedade atual promove um renovado interesse em torno dos «sofrimentos e de compaixões» verificáveis em diferentes formas de manifestação, podendo apresentar olhares diferenciados consoante o quadrante político ou o sentir coletivo relativamente a certos aspetos da vida social. Estas formas de manifestação coletiva, traduzem uma indignação (enquadrada por um determinado quadro emocional) que geralmente culmina em diferentes formas de denúncia (suportada pelo equilíbrio entre a emoção subjetiva e as causas objetivas), (Boltanski, 2003: 101). A atual pluralidade de modelos ou «regimes de ação», bem como de pontos de vista e perspetivas da realidade, decorre da complexidade estrutural das sociedades, cada vez mais abertas e plurais. As sociedades contemporâneas caracterizam-se, deste modo, pelo pluralismo, pela heterogeneidade social, pela tolerância, pela aceitação das diferenças e das singularidades, o que se reflete na definição do bem comum. 2 - Associativismo e as modalidades de envolvimento na ação É perante este conjunto de aspetos que muitas associações e O.N.G’s foram criadas em torno de novos problemas sociais, muitos deles ligados ao produto que Castel designa de metamorfose das questões sociais, e segundo lógicas específicas de determinadas causas comuns, como experiência de solidariedade quotidiana. São a forma visível de movimentos cívicos estáveis e resistentes à dissolução uma vez que Página 36 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS possuem estruturas, um conjunto diversificado de recursos humanos, materiais e institucionais. A procura de bens (como a preservação da vida), a defesa de novas causas e de problemas comuns, isto é, que preocupam comunidades de pessoas, como a SIDA, o ambiente e os acidentes rodoviários, entre outros, despertam a consciência social e mobilizam a solidariedade com o próximo, de forma organizada, apresentando-se as associações e O.N.G.’s que diretamente se relacionam com as questões referidas, como espaços de formação, facilitadores da expressão e capacitação para a cidadania. A pertinência da compreensão das lógicas subjacentes ao conjunto de mobilizações e disputas associadas às novas causas e problemas comuns supracitados, permitirá retirar ilações objetivas junto dos movimentos e organizações associativas portuguesas, que de diferentes modos se constituíram e avaliaram uma questão ou causa pública, podendo tal, ter suscitando por vezes conflitos no âmbito dos seus projetos de concretização (Thévenot, 2001b). As associações / O.N.G’s podem constituir-se enquanto aliança de interesses individuais ou particulares que, mediante uma gramática mais aberta ou fechada procura a publicitação de bens ou podem, simultaneamente, passar pelo engrandecimento de uma pluralidade de bens distintos associados a diferentes grandezas, a saber: • De ordem cívica (laços entre as pessoas mediatizados pela vontade coletiva; princípio de grandeza: o abandono do estado particular), • De ordem inspirada (grandeza adquirida pelo acesso a um estado de graça em relação com um princípio superior); • Ou de ordem doméstica (grandeza corresponde a um lugar numa ordem hierárquica), o que obriga a compromissos mais alargados entre diferentes ordens de grandeza (ibidem). Para além dos movimentos associativos que se orientam no sentido do bem comum, é necessário considerar também, as associações concebidas especificamente para integrar outros modos de compromisso, pessoais ou de proximidade, a nível local, que estão aquém das exigências do bem público (Thévenot, 2001b). Convém pois realçar a preocupação com a realização dos bens», como condição da vida em sociedade, por oposição à procura individual do bem particular (que poderá também convocar diversas formas de grandeza) que advém da capacidade que os indivíduos possuem de se interrogarem sobre o sentido e os princípios da sua existência individual e coletiva e de desenvolverem uma consciência crítica e reflexiva acerca das Página 37 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO responsabilidades inerentes à vida em sociedade e das tarefas que lhe são imputadas, tanto a nível público como privado. É pois no âmbito de uma mobilização política que em Portugal o voluntariado social que traduz de forma individual e coletiva o princípio de defesa «de bens», tem-se vindo a desenvolver nas últimas décadas, mais especificamente um voluntariado centrado nas áreas ecológica, artística e cultural. O conjunto de motivações para a decisão de fazer voluntariado passa pela afirmação do desejo de ajudar os outros, a satisfação e a felicidade decorrente da ação de ajudar os necessitados; num outro patamar de motivações surgem a ocupação de tempos livres, promoção da sua própria saúde, o estabelecimento de relações de amizade e convívio social, aquisição de conhecimentos e competências, obtenção de prestígio e reconhecimento na sua comunidade (Delicado, 2002). É neste sentido que «a proximidade ao outro elabora-se na familiaridade de experiências vizinhas» e as Associações «contribuem para o acomodamento das tensões entre o compromisso cívico e o que se prende com uma ancoragem local ou pessoal», não obstante um conjunto de críticas e denúncias acerca da qualidade desses laços (Thévenot, 1999). Deste modo, a ação voluntária de tipo informal, poderá no âmbito da analogia dos «regimes do próximo» (Thévenot, 1999 e 2001a)), basear-se num compromisso pessoal, centrado numa experiência intimista, que remete para ações individuais e interações locais, cujo reconhecimento pluridimensional do sujeito da ação enquanto pessoa independente, autónoma e completa, é compatível com a adesão aos movimentos coletivos e a sua definição como membro de grupos. A procura de «bens» pressupõe modos de ação no que respeita à capacidade de julgamento dos indivíduos, que se distingue em quatro modos de ação»: «disputa em justiça»; «disputa em justeza»; «disputa em violência» e «amor como agapê», que surgem do cruzamento da oposição disputa/paz (Boltanski, 1990: 110-124). Quando referenciamos os «regimes de ação» de Boltanski e Thénenot (1991), referimo-nos à elaboração de estratégias de ação na procura de «bens», podendo a sua materialização assumir diferentes configurações, que são diferenciadas de acordo com a heterogeneidade de contextos e situações com que os indivíduos são confrontados. As conceções de justiça funcionam como guias para a ação. Como tal, cada ator possui a competência para se guiar em diversos contextos sociais, podendo apresentar reações diferenciadas quando confrontados com diferentes conceções de sentido do Página 38 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS justo (logo diferentes argumentos consoante as pressões sentidas quanto às tarefas a cumprir e as exigências observadas nos diversos mundos que percorre no seu quotidiano), ou seja uma atividade crítica por eles desenvolvida a par das dinâmicas de justificação apresentadas face a situações concretas (Boltanski, 2001: 15). As formas de reivindicação acionadas nas diversas arenas onde se disputam as conceções de «bem comum» em torno da solidariedade, do seu significado e do seu uso, reportam para a necessidade de definição das responsabilidades públicas (Estado), privadas de interesse público (Associações / O.N.G.) e individuais (sujeito autónomo, crítico e responsável – a relação com a comunidade implica assumir-se como parceiro exigente junto dos serviços da administração local e central), no âmbito da compreensão da responsabilidade social dos sujeitos individuais e coletivos. As disputas na defesa de «bens» compreendem certamente diversas formas de acordo e contratualização; podendo o «bem» apresentar-se como um objetivo permanente tanto para os decisores políticos como para os elementos da sociedade civil, contribuindo para a mobilização das forças sociais, particularmente da sociedade civil organizada, constituída como Terceiro Sector coexistente com o sector público – Estado – e com o sector privado – Mercado. Quando referenciamos os «regimes de envolvimento na ação» a perspetiva de análise a que recorremos é a sociologia dos regimes de envolvimento (Thévenot, 2006). Segundo os autores deste quadro teórico (Thévenot, op.cit., Boltanski e Thévenot, 1991), os indivíduos, quando procuram coordenar a sua ação com a de outros, fazem-no através de diferentes “modos de entrada” nessa mesma ação. Para Laurent Thévenot, estes “modos” podem ser adequadamente entendidos como diferentes regimes de envolvimento na ação. Os principais eixos diferenciadores dos diversos regimes de envolvimento na ação, no seio desta perspetiva, são para Thévenot, a avaliação ou julgamento que os indivíduos fazem, em situação, sobre a sua própria conduta – procurando uma ação conveniente à situação específica em que se encontram – e o apoio que essa avaliação ou julgamento encontra na própria situação (Cfr. idem). Segundo esta análise, Thévenot identifica três diferentes regimes de envolvimento na ação, os quais variam entre um modo de envolvimento mais íntimo e pessoal e um espaço de constrangimentos convencionais típicos da esfera pública, mais geral e racional. Destarte e segundo o autor, temos três regimes de envolvimento, assentes num eixo que vai do singular ao geral: o regime familiar, o regime de plano e o Página 39 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO regime público, diferenciados de acordo com o julgamento feito pelo indivíduo em situação pela forma de coordenação conveniente à mesma num eixo de gradações de generalidade das relações entre os seres em presença. Thévenot define o primeiro destes regimes como (2006): Dans le régime d’engagement familier, le bien maintenu est localisé et personnalisé. Nous l’avons nommé aise. (…) Le bien-être éprouvé dans la commodité d’un entourage dépend étroitement de la personne qui se l’est accommodé et du cheminement de familiarisation effectué d’auprès du milieu façonné par l’usage. Ce bien est plus qu’une habitude, notion faible pour exprimer le rapport dynamique avec un milieu rapproché, qui est lui aussi éprouvé (Thévenot, 2006). O regime de ação em plano solicita uma subida em generalidade das relações entre os seres em presença, na medida em que vai para lá do círculo das solidariedades construídas pelo uso íntimo (Cfr. idem): Le régime de l’action en plan correspond à un niveau d’engagement si commun qu’il porte le risque d’être invisible dans la spécificité de son appréhension d’événements en tant que conduites humaines. (…) Le bien de cet engagement en plan tend lui aussi à se dissoudre dans l’idée banale d’une action accomplie. (…) [L]’engagement en plan connaît un premier élargissement dans une prise à témoin d’autrui, qui concourt à l’engagement par-delà les choses en gage. C’est la promesse qui connaît une modalité plus formalisée dans les organisations: le projet. L’engagement en plan s’élargit encore en prenant en compte autrui dans sa propre capacité d’agent individuel engagé dans son plan. L’engagement est alors stratégique, tenant compte d’autrui, asymétriquement (Thévenot, 2006). Por último, o regime de maior generalidade na forma como os indivíduos julgam e coordenam as suas ações em situações específicas é o regime público. L’engagement est apprécié selon un ordre de grandeur légitime qui s’adosse à une spécification du bien commun (…). La réalité n’est probante que pour autant qu’elle est publiquement qualifiée selon cette grandeur en termes de prix, d’efficacité, de renom, etc. La personne trouve des gages de son engagement dans la disposition de ces choses qualifiées, dans un dispositif de leur agencement cohérent. (…) L’agent est une personne qualifiée selon la grandeur, non pas un simple individu. Son pouvoir légitime repose sur cette qualification qui marque sa participation au bien commun. (…) Il est clair que ce régime est préparé pour des engagements mutuels qui ne s’enferment pas Página 40 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS dans les ententes à demi-mot épousant deux familiers, ou les contrats conjoignant les plans de deux individus, mais qui s’ouvrent à un autrui généralisé (…). Une coordination d’un ensemble plus complexe d’actions impliquant des ajustements réciproques à distance, avec des acteurs anonymes, fait venir des demandes de garantie publique correspondant à ce régime (Thévenot, 2006). O quadro teórico de Luc Boltanski e Laurent Thévenot implica, que se analisem as modalidades pelas quais os indivíduos em situação desenvolvem julgamentos sobre a sua conduta, no sentido de a coordenarem com as exigências que reconhecem nessa mesma situação ou de convocarem eles próprios exigências de coordenação sobre outros23, num quadro de variáveis que oscila entre a proximidade do regime familiar e a generalidade do regime público. 3 - O VIH /SIDA no contexto associativo português O VIH / SIDA desenvolveu e continua a desenvolver um conjunto de desafios, quer aos estados quer à sociedade civil, que as políticas sociais tiveram que analisar e consequentemente negociar, e que em consequência desses mesmos desafios foram surgindo diferentes respostas públicas e privadas (Lopes, 2000). Quando falamos num domínio de intervenção tão peculiar, convém alertar para o quadro de relações com uma carga de significação política e social acentuada, pois recai sob questões como a liberdade, igualdade, direitos e os comportamentos (ibidem, 2000). A mobilização da sociedade civil em Portugal em torno da defesa da causa do VIH / SIDA, acompanhou diferentes fases da doença entre os meados da década de 80 até metade da década de 90: 1 – doença associada a grupos estigmatizados socialmente (homossexuais); 2 – a SIDA passa a ser considerada como uma doença com repercussões globais, podendo afetar qualquer sujeito; 3 – a SIDA deixa de ser considerada doença terminal e passa a ser considerada doença crónica. Paralelamente a correspondência das reações da sociedade civil em cada uma destas fases manifesta-se do seguinte modo. 1 – mobilização pela ausência de políticas públicas; 2 – constituição de agendas de discussão e participação públicas que permitem desenvolver a primeiras respostas no domínio da informação e da prevenção; 3 – organizações da sociedade civil 23 Por exemplo, quando exigem uma reparação por um ato ou omissão cometidos por outro sujeito. Página 41 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO em ação competitiva e de alternativa aos serviços oferecidos pelo Estado (ibidem, 2000). Em resposta ao universalismo associado às políticas de saúde do Estado português surgem que não incide ao nível das exigências que “determina a centralidade da adequação de respostas e das linguagens de intervenção às especificidades destes universos”, permite a constituição de espaços a intervenção de atores não estatais que vão de encontro às necessidades de respostas diferenciadas, pois como a autora supra: O caráter reivindicativo e a força relativa dos agentes privados não lucrativos passa muito pela sua capacidade de inovação organizacional, nomeadamente ao nível da descoberta de formas de alternativas de financiamento e gestão organizacional. […] No caso português, a SIDA serviria para demonstrar como as ONG’s podem ser agentes de peso na definição de políticas quando são escolhidas por exemplo, como a forma de manifestação e corporização dos interesses dos grupos minoritários (Lopes, 2000). Da análise que se efetuou no âmbito da pesquisa, que incidiu na Associação Abraço, poderemos referenciar que os regimes de envolvimento e consequentemente de mobilização dos atores em torno da SIDA que se apresentaram foram os regimes familiar e público. Relativamente ao primeiro regime de ação (regime familiar), foi-nos permitido perceber que alguns dos voluntários da Abraço detinham um envolvimento com esta organização em consequência de também terem contacto com a doença, quer de forma direta ou indireta. No que concerne ao regime de ação público, verificámos através das entrevistas efetuadas que existia por parte dos voluntários um agenciamento coerente na justa medida das ações em que se envolviam convocando-os para ajustamentos permanentes e recíprocos no intuito de poder perseguir o bem-comum associado à causa em que estavam envolvidos. Bibliografia ARENDT, Hannah (2001), Sobre a revolução, Lisboa, Relógio D’ Água Editores. Página 42 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS BARRIL, C., CARREL, Marion, et al. (orgs.) (2003), Le publique en action – Usages et limites de la notion d’espace publique en sciences sociales, Paris, L’Harmattan. BOLTANSKI, Luc (1990), L’amour et la Justice comme compétence, Paris, Éditions Métailié. BOLTANSKI, Luc (2001), «A Moral da Rede? Críticas e Justificações nas Recentes Evoluções do Capitalismo», Forum Sociológico, Lisboa, nº 5/6 (IIª série), pp. 13-35. BOLTANSKI, Luc (2003), La Souffrance à distance – Morale humanitaire, médias et politique, Paris, Éditions Métailié. BOLTANSKI, Luc, THEVENOT, Laurent (1991), De la Justification : les économies de la grandeur, Paris, Éditions Gallimard. CARVALHO, Anabela, MOURO, Helena (1987), Serviço Social no Estado ovo, Coimbra, Centelha. CASTEL, Robert (2006), Les métamorphoses de la question sociale, Paris, Gallimard. CASTELEIRO, João (org.) (2001), Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Lisboa, Academia de Ciências de Lisboa – Fundação Calouste Gulbenkian. CEFAÏ, Daniel, (2001), «Les cadres de l’action collective», in CEFAÏ, Daniel, TROM, Danny (eds.), Les formes de l’action collective – Mobilisations dans des arènes publiques, Paris, Éditions L’EHESS, pp. 51-97. CEFAÏ, Daniel, (2007), Pourquoi se mobilise-t-on? – Les théories de l’action collective, Paris, Éditions La Découverte. CEFAÏ, Daniel, PASQUIER, Dominique (2003), Les sens du public – Publics politiques, publiques médiatiques, Paris, Presses Universitaires de France. CRUZ, Manuel Braga (1988), O Partido e o Estado no Salazarismo, Lisboa, Editorial Presença. DELICADO, Ana (2002), «Caracterização do Voluntariado Social em Portugal», in Revista Intervenção Social, nº 25/26, pp.127-140. ERNER, Guillaume (2006), La Société des Victimes, Paris, Éditions La Découverte. FERNANDES, Ernesto (2003), «O associativismo no tempo da globalização: voluntariado e cidadania democrática», Revista Intervenção Social 27, pp.159190. GHIGLIONE, Rodolphe, MATALON, Benjamin (1993) – O Inquérito – Teoria e Prática, Oeiras, Celta Editora. Página 43 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO GIDDENS, A. (2001, 1ª edição 1994) – Modernidade e Identidade Pessoal, Oeiras, Celta Editora. HAROCHE, Claudine (1992), «La compassion comme amour social et politique de l’autre au XVIIIème siecle», in La solidarité : un sentiment républicain ?, PUF, pp.11-25. LABORIER, Pascal, TROM (2003) – Historicités de l’action publique, Paris, Presses Universitaires de France. LAKATOS, E., Marconi, M. (2001) – Fundamentos de Metodologia Científica, São Paulo, Editora Atlas. LOPES, Alexandra, (2000), “RCAAP” Portugal: disponível em http://repositorioaberto.up.pt/handle/10216/13782. PATRIARCA, Fátima (1995) (Vol. I), A Questão Social no Salazarismo 1930-1947, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda. PINTO, Segismundo (2002), «A Formação dos Voluntários para uma Intervenção de Qualidade: Algumas Reflexões», in Revista Intervenção Social, nº 25/26, pp. 157-170. SNOW, David (2001), « Analyse de cadres et mouvements sociaux», in CEFAÏ, Daniel, TROM, Danny (eds.), Les formes de l’action collective – Mobilisations dans des arènes publiques, Paris, Éditions L’EHESS, pp. 27-49. THEVENOT, Laurent (1994), «Le regime de familiarité – Des choses en personnes», in Genèses, nº 17, septembre, pp. 72-101. THEVENOT, Laurent (1999), «Faire entendre une voix – Régimes d’engagements dans les mouvements sociaux», in Mouvements, nº3, mars-avril (La Découverte), pp. 73-82. THEVENOT, Laurent (2001a), «Constituer l’environnement en chose publique – Une comparaison franco-américaine, in BLAIS, Jean-Paul, GILLIO, Claire et ION Jacques (eds.), Cadre de vie, environnement et dynamiques associatives, Paris, PUCA, pp. 203-219. THEVENOT, Laurent (2001b), «S’associer pour composer une chose publique», in CHOPART, Jean-Noël et alii (eds), Actions associatives, solidarités et territoires, Saint-Etienne, Publications de l'Université de Saint Etienne, pp.267274. THEVENOT, Laurent (2006), L’action au pluriel – sociologie des régimes d’engagement, Paris, Éditions la Découverte. Página 44 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS THEVENOT, Laurent (s.d.), «Une Science de la vie ensemble dans le monde», in CAILLE, A., DUFOIX, S. (dir.), L'idée d'une théorie sociologique générale a-telle encore un sens aujourd'hui ?, La Revue du M.A.U.S.S., 34. TROM, Danny, (2001), «Grammaire de la mobilisation et vocabulaires des motifs», in CEFAÏ, Daniel, TROM, Danny (eds.), Les formes de l’action collective – Mobilisations dans des arènes publiques, Paris, Éditions L’EHESS, pp. 99-134. WAGNER, P. (1996) – Liberté et Discipline. Les deux crises de la modernité. Paris, Éditions Métailié. Página 45 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO O Espaço Democrático: assembleias populares e espaço público Daniel Paiva Centro de Estudos Geográficos Instituto de Geografia e Ordenamento do Território [email protected] Resumo Nos últimos dois anos, tem-se assistido a um aumento de visibilidade e de alcance dos movimentos sociais na Península Ibérica. Nesse contexto, a experiência dos movimentos de Indignados em organizar assembleias populares começa em Maio de 2011 e decorre até hoje. Neste período, o conceito de assembleia popular foi sendo discutido e tem evoluído. A ligação entre política e espaço é essencial: se a democracia representativa ocorre em espaços de acesso restrito aos cidadãos, a democracia participativa deve ocorrer no espaço público, acessível a toda a urbe. A comunicação que aqui se apresenta aborda a conceptualização e a materialização da assembleia popular pelos diversos grupos locais de Indignados que existem em cidades e vilas na Área Metropolitana de Lisboa, tal como o valor intrínseco dessas ações. Recorreu-se a uma análise com dois pilares: a entrevista a membros dos grupos de Indignados e a análise dos documentos emitidos por esses grupos. As conclusões deste estudo permitem compreender como a criação de espaços democráticos através da prática pode ser um impulsionador da participação cidadã e criador de centralidades urbanas. Palavras-chave: Assembleia popular, Espaço público, Democracia participativa Página 46 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS 1. Introdução Nos últimos dois anos têm-se realizado vários protestos, incluindo manifestações, greves e ações simbólicas, numa base regular. Desde manifestações que envolvem o país todo, em protesto contra medidas governamentais que afetam a toda ou quase toda a população, a protestos locais contra medidas específicas, seja a nível público ou contra entidades privadas, a ação coletiva tem sido recorrente. A crise internacional, e as medidas que esta leva a governos e entidades privadas, particularmente patronais, a realizarem é o grande foco impulsionador destas ações. Entre estas, a assembleia popular tem proliferado desde as primeiras vezes que se realizaram estas em Maio de 2011. Esta é uma iniciativa que começou tendo um conteúdo principalmente simbólico, inserido em protestos específicos, mas evoluiu até a tornar-se uma instituição espontânea organizada com alguma regularidade temporal. Aqui toma-se o grupo dos Indignados em Lisboa como foco, devido ao facto da organização de assembleias populares e a difusão de informação sobre como realizar estas serem um aspeto central deste movimento. Ainda assim, a assembleia popular já ultrapassou o campo do protesto anti-austeridade e têm sido realizadas em vários pontos de Portugal com índoles distintas, ainda que com características comuns. O presente ensaio pretende problematizar a questão da assembleia popular, e apresentá-la como uma iniciativa inovador com potencial para ser solução a alguns problemas identificados nas sociedades contemporâneas que vêm já desde o assentar da democracia representativa no período moderno. Aborda a conceptualização e a materialização da assembleia popular pelos diversos grupos locais de Indignados que existem em cidades e vilas na Área Metropolitana de Lisboa, tal como o valor intrínseco dessas ações. Recorreu-se a uma análise com dois pilares: a entrevista a membros dos grupos de Indignados e a análise dos documentos emitidos por esses grupos. Começar-se-á por debater os conceitos de espaço público, esfera pública e homem público, a sua relação com o político e a sua evolução histórica, fulcrais para compreender a importância da assembleia popular no contexto histórico atual. De seguida, apresentar-se-á algumas tensões patentes nas democracias contemporâneas, como a questão da representatividade ou a questão das mudanças a nível de territórios sociopolíticos, a que a assembleia popular poderá responder. Finalmente, apresentar-seá o conceito de assembleia popular e uma curta evolução destas em acontecimentos Página 47 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO recentes para se concluir como esta iniciativa tem um potencial prometedor no contexto atual de governança. Mostrar-se-á como a criação de espaços democráticos através da prática pode ser um impulsionador da participação cidadã. 2. O Público e o Político A relação entre o público e o político é central na contemporaneidade, fazendo parte da genealogia do sistema político democrático. A existência de uma esfera pública é um requisito essencial para a democracia moderna e é o campo essencial de participação cidadã. Hannah Arendt (1958) providenciou uma análise inicial, que permanece central, sobre o significado do que é público nas sociedades contemporâneas Ocidentais. Para a autora, o conceito de público refere-se àquilo que é tornado visível às nossas percepções, que é publicitado. Consequentemente, o público refere-se ao mundo que nos rodeia, tanto no seu aspecto físico e natural como ao nível das relações humanas onde nos inserimos. Assim, “o espaço da aparição acontece sempre que os Homens se juntam no modo de discurso e acção” (1958: 199). Para Arendt, o público surge como oposição ao privado, que é aquilo que não é visível. Aquilo que é público, assim, é mais do que simplesmente o político: é tudo o que se coloca visível aos outros. No entanto, é na esfera do que é público que o político emerge. Jürgen Habermas (1962, 1992) discutiu como nas sociedades capitalistas dos séculos XVII e XVIII se desenvolveu uma esfera pública que condicionou a estrutura política. O filósofo refere esta como a esfera pública burguesa, dado entender que é no tempo-espaço específico da sociedade burguesa que se encontraram as condições particulares que potenciaram o nascimento de uma esfera pública. Para Habermas, a esfera pública é “uma categoria que é típica de uma época. Não pode ser abstraída do desenvolvimento histórico único da “sociedade civil” originada na Idade Média europeia tardia; nem pode ser transferida, ideal tipicamente generalizado, para qualquer número de situações históricas que representam formalmente constelações semelhantes” (1962, 1992: xvii). O autor encontra nas economias de mercado capitalistas a base para a criação de uma esfera pública, devido à importância e poder que estas deram a agentes privados. A noção do privado aqui é essencial, pois a esfera pública nasce a partir da congregação dos privados, ela é “acima de tudo (…) a esfera de pessoas privadas a juntarem-se enquanto um público” (1962, 1992: 27). Ainda assim, não foi apenas o empowerment de agentes privados em Página 48 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS contraste com a administração pública do estado que contribuiu. Novas instituições de sociabilidade surgiram. Habermas destaca a imprensa como meio fundamental, tal como Benedict Anderson (1983, 1991) o viria a fazer mais tarde. A imprensa, para além de ser meio de difusão de informação, fomenta a criação de espaços num sentido mais físico, onde se formavam grupos de debate. Desde os mais formais clubes literários até aos cafés que se multiplicavam no espaço urbano, começaram a surgir locais onde se debatiam assuntos públicos. George Steiner (2005), ao debater a ideia de Europa, aponta para o papel que os cafés tiveram enquanto espaços da intelectualidade europeia e vê este como um aspecto central do pensar a Europa. Os cafés eram essencialmente lugares de congregação, de vida social, onde eram debatidos os assuntos do Estado – aquilo que então era considerado ser a coisa pública. Ray Oldenburg (1989, 1999), por sua vez, aponta para os efeitos que cafés, beer gardens, pubs, tavernas e coffeehouses têm enquanto lugares que surgem em alternativa aos dois principais lugares no quotidiano humano: a casa e o local de trabalho. Para Oldenburg, este terceiros lugares são o sítio da vida social e fortalecem o sentido de comunidade. Estas novas sociabilidades eram fundadas no discurso racional e crítico que neste período se tornava dominante nos salões cultos. Portanto, nestes novos espaços criados, era o uso da racionalidade e não o estatuto social que determinava a decisão sobre algum assunto. O debate burguês tornava-se inclusivo por natureza. Foi então possível que uma elite se pensasse em si própria como sendo o público, como contraposição à autoridade pública. Para Habermas, “a sociedade civil tornou-se existente como o corolário de uma autoridade estatal despersonalizada” (1962, 1992: 19). Não obstante, a esfera pública não se limitava ao debate dos assuntos estatais. Ela começava a problematizar áreas que até então eram raramente questionadas, como a Igreja. Neste momento, a tensão entre uma sociedade civil forte e o Estado torna-se instável, mas também é o que potencia novos modos de diálogo político. Habermas defende que “essa zona de contacto administrativo contínuo tornou-se “crítico” também no sentido de que provocou o julgamento crítico de um público a fazer uso da sua razão” (1962, 1992: 24). Esta tensão contribuiu para o estabelecimento de um modo de discurso crítico que se torna a base do posterior modelo político democrático. Este parece então tornar-se inevitável dado que a esfera pública só podia ser conceptualizada totalmente quando o estado fosse tido como um lugar impessoal de autoridade. A noção moderna de público que surge neste período implica contraposição entre o Estado e da sociedade. Página 49 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO Tem sido criticado como esta importância do público tem decrescido até aos dias de hoje. O próprio Habermas argumentava que o aumento da quantidade de participantes na esfera pública implicou a diminuição da qualidade do discurso embora visse isso como inevitável. Outros têm contestado esta posição (Schudson in Caldhoun, 1992). Todavia, o principal crítico do declínio do público nas sociedades contemporâneas tem sido Richard Sennett (1976, 1993). A análise de Sennett tem um cunho geográfico bastante vincado dado que o sociólogo vê na expansão urbana uma variável determinante no declínio do público. “Na dispersão em direcção ao limite vazio” – diz Sennett – “o desenho evita a alteridade concentrada no centro” (1976, 1993: 95). O centro como lugar de encontro com a diversidade e com as posições contrárias perde-se em detrimento de um lugar do igual, levando à cidade segregada. Ainda assim, a análise histórica de Sennett centra-se numa escala mais micro. Ele identifica uma melhoria geral das condições materiais nas sociedades ocidentais no século XVIII que tornou difícil a distinção das pessoas e o seu enquadramento imediato através do aspecto num grupo social. Assim, a rua tornou-se um lugar de esbatimento da realidade e isso condicionou a sinceridade no espaço público. O homem público lentamente é substituído pelo espectador, o flâneur que vagueia pelo espaço urbano, pelos novos espaços como as boulevards de Paris ou as arcades de Londres, apenas observando a espectacularidade e não participando realmente na vida pública. Como se foi assim desde as fantasmagorias de Walter Benjamin à sociedade do espectáculo de Guy Débord é conhecido. Sennett argumenta que assim se afirmou o triunfo do individualismo moderno e a perda de confiança nas experiencias comunitárias, procurando-se defender ao máximo o íntimo na vida pública. O espaço público então tornou-se um “espaço vazio, um espaço de liberdade abstracta mas sem ligação humana durável” (1976, 1993: 375). Numa perspectiva diferente mas coerente, Mike Davies (1992) considera que a destruição do espaço público nos Estados Unidos está ligada à procura da segurança. O autor identifica uma cruzada empreendida para tornar a cidade segura, que culminaria idealmente numa cidade-fortaleza. Neste processo, o espaço público foi desvalorizado em detrimento do fechado e do seguro. Condomínios fechados, mega centros comerciais, espaços que eram pedestres e são hoje grandes vias automóveis: tudo isso são maneiras de se fechar o espaço para alguns ficarem “dentro” e seguros e outros, os perigosos, ficarem “fora”. A afirmação de Davies é paradigmática: “O opróbrio contemporâneo ligado ao termo “pessoa da rua” é em si um índice Página 50 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS preocupante da desvalorização do espaço público” (Davies, 1992: 226). O “homem público” de Sennett já nem é aqui considerado. Ainda assim, o espaço urbano tem sido perspectivado nos últimos dois decénios como público nos seus aspectos quotidianos. Sharon Zukin (1995), numa análise que teve um grande impacto, considera que o espaço público tem hoje as mesmas características que sempre teve: o de ser o lugar de encontros. Zukin reconhece a tendência actual para a privatização do espaço público mas entende essa questão como apenas um numa série de conflitos ao longo da história que moldaram a cultura pública urbana. Para a autora, é de facto esses conflitos latentes que tornam o espaço público ““(…) intrinsecamente democrático. A questão de quem pode ocupar o espaço público, e assim definir a imagem da cidade, é aberta.” (Zukin, 1995: 11). E é essa tensão constante de definir a quem o espaço pertence, quem pode lá estar e que regras se aplicam aí é aquilo que molda constantemente o espaço público e a cultura pública. Estes dois conceitos são paralelos e estão sempre abertos à negociação social. Um dos grandes contributos de Zukin foi justamente apresentar e abordar o espaço público de uma maneira não estática que tomava em conta as negociações constantes e a importância do tempo na definição do que é e quais são os espaços públicos e do que é e como deve ser a cultura pública. A “proximidade, diversidade e acessibilidade” (Zukin, 1995: 262) são as principais características do espaço público. Com esta abrangência, mais próxima da definição de Arendt de público do que da de Sennett e de Davies, Zukin afastou-se da definição do espaço público somente enquanto o espaço exterior e não-privado para considerar lugares como a Disneylândia, entre outros espaços privados como mercados ou centros comerciais, como espaço público, devido à apropriação que é feita desses lugares. Pode ser criticada neste ponto de vista não ser inteiramente considerado o carácter de exclusão que estes lugares podem ter. Os “novos pobres”, que Baumann (2005) identifica como aqueles sem capacidade – financeira ou outra – de participar na sociedade de consumo, estão à partida excluídos de uma cultura pública que esteja localizada nos espaços privados das grandes corporações. Esta transferência da cultura pública para a sociedade de consumo, deste modo, enfraquece a qualidade da mesma. Borja e Muxí (2000) apontaram o uso do espaço público exterior como possível solução para essa exclusão. Defendem que “o espaço público como lugar de exercício dos direitos é um meio para o acesso à cidadania para todos aqueles que sofrem algum tipo de marginalização ou relegação” (Borja & Muxí, 2000: 66). Os autores consideram Página 51 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO fundamental a ligação da cultura pública ao espaço público, vendo este último como onde a sociedade se faz visível numa linha de pensamento próxima da de Arendt. A dispersão metropolitana, a segregação social e a segmentação da área urbana são entendidos como problemas aos quais é possível dar resposta através da valorização do espaço público nas áreas de crescimento recente. Esta valorização é importante porque estes espaços podem funcionar como mecanismos de integração e redistribuição social, por terem a capacidade de ser centralidades “onde antes não havia nada” (Borja & Muxí, 2000: 68). Ao existirem estas centralidades, geram-se pontos relacionais entre diferentes segmentos da sociedade. Assim, para Borja e Muxí, o espaço público será especialmente rentável em termos sociais, culturais e cívicos, mas também a médio prazo em termos políticos, a nível de governabilidade, e em termos económicos, pelas actividades que se estabelecem. 3. Democracia Representativa e Participação O potencial de inclusão que o espaço público tem foi compreendido pelo movimento Indignados. Este movimento social intrinsecamente político incluiu o espaço público como solução na sua crítica da democracia contemporânea. Antes de entrarmos em detalhes específicos, no entanto, será útil rever a importância da questão da participação na democracia contemporânea. Segundo Arendt, a política tornou-se um assunto público devido ao advento da cidade. Para a teórica, o espaço público “não se torna político até estar seguro dentro de uma cidade” (Arendt, 2005: 123). E é na Antiga Grécia que Arendt identifica este processo. Para a autora o público é instituído na poesia: ele surge quando os heróis da Ilíada conseguem reconhecer o outro 24 . Este espaço público, que é neste passo mental, materializa-se na cidade, na Ágora, onde os homens livres podem encontrar-se enquanto iguais. A cidade é a polis, torna-se política enquanto materialização do público e é isso que a distingue de outros tipos de habitats humanos existentes. Seria preciso esperar pelas revoluções americana e francesa para novamente se falar de democracia enquanto sistema político viável. Quando estas revoluções de 24 No final desta obra, o troiano Príamo vai desarmado ao acampamento dos Aqueus pedir a Aquiles que devolva o cadáver de Heitor, prostrado em combate com este, para que sejam realizados os ritos de passagem. Aquiles, ao ver em Príamo a dor que iria causar aos seus a sua morte, que sabia ser eminente, concede-lhe o pedido. Este momento é o expoente do reconhecimento do próprio no outro na poesia épica da Grécia Antiga. Página 52 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS deram, no entanto, a escala da política já não era a da cidade. Tinha-se transposto para a nação. A nação, essa comunidade imaginada (Anderson 1983, 1991), passava lentamente para o primeiro plano da teoria política como alternativa aos conceitos de reino ou império, demasiado associados ao Ancien Régime. A esta escala, a democracia no espaço público, aberta a todos os cidadãos parecia impossível. Ainda que Montesquieu (1748, 1973) e Rousseau (1762, 2010) fossem buscar conceitos à Antiguidade, nomeadamente o da própria democracia, eram necessárias novas estruturas para lidar com a escala da nação. Assim, estes dois filósofos tornaram-se, apesar de si mesmos até, os primeiros teóricos políticos legitimadores da democracia representativa ao proporem a separação dos poderes políticos e um novo contrato social, respectivamente. Nos Estados Unidos da América, Roma teve uma influência muito maior no sistema que se instaurou. O conceito de representatividade manteve-se em praticamente todas as constituições políticas modernas Ocidentais, apesar de várias correntes políticas terem feito extensivas críticas deste conceito, nomeadamente a marxista e a anarquista, que propuseram democracias participativas. De facto, para Arendt (1972), a representatividade é um factor de crise permanente na República, pois impede a participação de todos no que é público, e isso é patente desde a génese desse sistema político. Já no Século passado, tem sido pensada a democracia participativa dentro da democracia representativa, isto é, aprofundar a participação dos cidadãos nos processos de decisão política sem refrear as instituições da democracia representativa. Arstein (1969) ensaiou uma crítica seminal à capacidade de participação de um cidadão comum nos assuntos políticos. A autora definiu, como modelo de análise para a participação cidadã, a escada da participação dos cidadãos. Esta implicava em si não só uma análise, mas a metáfora escolhida – a escada – apontava também para um caminho a seguir. Este continha oito níveis possíveis de participação, cada degrau superior tendo um nível de participação mais profundo. Estes níveis de participação eram enquadrados em três níveis de poder dos cidadãos. Os dois primeiros níveis de participação, de manipulação e terapia, são enquadrados como não-participação, dado que aqui a participação cívica é passiva – o cidadão é “educado” ou algum problema social é “curado”. Trata-se de acções definidas por quem detém o poder em que o cidadão colabora mas sem ter algum poder de decisão sobre o que é realizado. A seguir temos os degraus de simbolismo na escada da participação. Estes são aqueles em que o cidadão é informado do planeamento de acções políticas a decorrer ou já decididas, em que é consultado no processo, e lhe é Página 53 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO permitida a possibilidade de indicar os seus interesses em determinada situação, mas o poder de decisão final continua nas mãos do grupo que detém o poder, seja estadual, administração local, ou mesmo privada. Os últimos níveis são os de poder do cidadão. São três as formas de empoderar os cidadãos que Arstein define. A primeira é a criação de parcerias, em que o poder é partilhado entre cidadãos e autoridades. A segunda é o poder delegado, em que certas funções administrativas ou de planeamento passam para o controlo dos cidadãos. A última será o controlo completo dos cidadãos sobre as decisões tomadas. Figura 1- O Cubo democrático de Fung (2006: 72) Mais recentemente, num paradigma de governança complexa (Borja & Castells, 1997), tem sido sugerido o aprofundar da democracia participativa. Novos modelos governativos como o Orçamento Participativo ou a Agenda 21 Local tem tentado realizar esse projecto. Também da academia têm surgido construções teóricas para fundamentar este projecto. O trabalho de Fung (2006) foi particularmente influente neste prisma. Este autor definiu o cubo da democracia, como modelo para ser usado na avaliação da capacidade de participação dos cidadãos na governança complexa. Este cubo fundamenta-se em três eixos: o dos participantes, o da comunicação e modo de decisão, e o da autoridade e poder. O primeiro refere-se a quem é seleccionado para participar no processo de decisão. Este eixo tem oito níveis e pode ir desde uma Página 54 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS selecção elitista de administradores especialistas no assunto até à inclusão de todos, ou seja, a abertura da participação a toda a esfera pública. Já o eixo da autoridade e poder determina a capacidade que cada participante tem para fazer valer os seus interesses. São admitidos cinco níveis: educação individual (na esteira da noção de Arstein de manipulação), influência, consultadoria, co-governação e finalmente, autoridade directa. Por último, o eixo da comunicação e modo de decisão, com seis níveis que vão desde a mera audição enquanto espectador até à decisão enquanto especialista técnico, ajuda a enquadrar a conjugação dos participantes no processo de tomada de decisão. Fung defende que este quadro de análise permite verificar melhor a legitimidade, justiça e eficácia das decisões tomadas. Na Figura 1, retirada de Fung (2006), é demonstrado como o Orçamento Participativo da cidade de Porto Alegre no Brasil permitiu alargar o leque de participantes no orçamento da cidade, num processo de decisão que incluía negociação e deliberação, permitindo estender o poder aos residentes da cidade e não só aos governantes. 4. O Potencial da Assembleia Popular Margarida Queirós (2010) refere que existe actualmente uma discrepância entre o que são os territórios administrativos, definidos há muito, que são rígidos e burocráticos no seu funcionamento, e aquilo a que se refere como territórios emergentes. Estes últimos são os novos territórios da comunicação, que emergem das redes de actores, públicos e privados, e que absorvem um grande número de participantes. São possibilitados pelas TIC’s, que constroem mais interacções locais e globais e tornam possíveis novos tipos de colaboração (e aceleram os existentes, empoderando os cidadãos). Deste modo, actores que não são tradicionais nos processos de decisão ganham o poder de interferir repetidamente nesses processos. Para além disso gera-se uma multi-escalaridade no campo de acção, dado que os novos movimentos cidadãos que emergem destes processos têm redes de relações a várias escalas. Assim, os actuais territórios administrativos são desafiados pela complexidade político-social actual. Queirós (2010) refere que isto processa um conflito entre uma cultura da representatividade, que detém a legitimidade democrática das instituições do Estado-nação, e uma cultura participativa, de fóruns interactivos multi-actor, sem mediação formal, possibilitados pelos movimentos espontâneos que reivindicam novos espaços de cidadania por não se sentirem representados pelas entidades existentes. A Página 55 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO questão espacial é aqui claramente fulcral. Estes territórios emergentes, em si, são descentralizados e geralmente aterritoriais. A assembleia popular pode surgir como um modo de materializar e dar centralidades a estes territórios, dado o potencial de centralidade do espaço público que Borja identifica e a que nos reportámos anteriormente. Têm sido realizadas assembleias populares nos últimos dois anos em Portugal em várias cidades: Lisboa, Porto, Coimbra, Vila Real, entre outras. A informação aqui disponível sobre estas decorre de uma abordagem sobre o caso do movimento Indignados em Lisboa (IL). Este movimento tem a sua génese na própria ocupação e apropriação do espaço público. O grupo dos IL surgiu a partir da Acampada que ocorreu numa das praças do Rossio em Lisboa em Maio de 2011. Esta Acampada surge no seguimento de uma série de protestos que havia começado em 12 de Março de 2011 com o protesto «Geração á Rasca», de onde surgiu o Movimento 12M. A 19 de Maio de 2011, no seguimento dos eventos em Madrid onde foi reportada repressão policial aos protestos anti-austeridade, organizou-se um protesto em frente à Embaixada de Espanha em Lisboa, e no mesmo dia montou-se uma Acampada numa das praças do Rossio, tal como havia sido montada uma em Puerta del Sol, Madrid. O termo acampada, que implica já o conceito de ocupação e apropriação do espaço público, havia surgido em Espanha para se referir aos acampamentos montados25 em praças públicas como modo de protesto contínuo contra as políticas de austeridade. O uso destes acampamentos em Espanha e Portugal tem inspiração na ocupação ininterrupta da praça Tarik em Cairo, no Egipto, durante o período de protestos que eventualmente resultou na demissão do presidente Mubarak. Depois de Espanha, um pouco em todo o mundo Ocidental repetiram-se esses métodos de protesto, tendo daí nascido o movimento Occupy. Desde então, o website takethesquare.net tem sido um instrumento fundamental na organização destes movimentos e existe no website muita informação disponível sobre as ocupações e acampamentos que existem ou existiram. Estes acampamentos são mais do que meras agregações de pessoas – acabam por se tornar centros de gestão dos movimentos sociais onde se organizam várias atividades, em particular assembleias populares. O grupo dos IL em si tem a sua génese quando se separa dessa ação que entretanto se tinha denominado Acampada Lisboa – Democracia Real Já!. A razão dessa separação era considerarem que instituições políticas que são parte constituinte da 25 Em especial aquele montado na Praça Puerta del Sol em Madrid, mas existiram outros. Página 56 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS democracia representativa – como partidos políticos ou sindicatos – s estavam a apropriar e a usar a ação como vantagem política. O movimento então centrou-se na organização e difusão de assembleias populares como um método independente de democracia participativa. O activista Sveinung Legard (2011) afirma que as assembleias populares são parte constituinte das revoltas públicas pelo menos desde a Revolução Francesa. Ele encontra um exemplo mais recente de um movimento de assembleia popular de grande escala na Argentina, em 2001 e 2002, durante uma das primeiras revoltas contra o neoliberalismo no Século XXI. Em tempos mais recentes, as assembleias populares têm sido importantes na Europa, sendo talvez as mais mediáticas as realizadas na praça Puerta del Sol em Madrid ou na praça Syntagma em Atenas. Em Lisboa, foi a Acampada realizada em Maio de 2011 que iniciou este tipo de protesto. Os lugares onde têm ocorrido as acampadas em Lisboa têm duas tipologias: grandes praças públicas (Rossio) e os locais onde se encontram os poderes públicos administrativos (S. Bento). De um modo simples, assembleias populares são assembleias organizadas no espaço público, onde todos são livres de participar na discussão de matérias públicas. Têm providenciado um espaço político alternativo e de certo modo utópico. Analisando os textos dos IL, podem-se identificar alguns conceitos-chave ligados às assembleias populares. Em primeiro lugar, destaca-se a importância da democracia participativa. É neste plano em que é considerada a coisa pública. Os princípios dos IL declaram que “cada indivíduo é o seu próprio representante”. Isto pretende empoderar o cidadão comum, devido ao facto do movimento considerar que a estrutura política existente retira poder ao cidadão comum, dando-lhe apenas um voto esporádico, e confere aos grandes grupos económicos muito maior preponderância devido às suas ligações aos partidos políticos. A democracia participativa, assim, vem como alternativa às vicissitudes encontradas na democracia representativa. Deste modo, a assembleia popular torna-se uma oposição direta à Assembleia da República. A realização destas junto ao Palácio de S. Bento, geralmente enquadradas em manifestações, confere ao ato um significado de confronto direto. Relacionado com o conceito de democracia participativa está o de horizontalidade, que estrutura a realização das assembleias populares. Para garantir a igualdade de todos os participantes, os IL propõem uma estrutura horizontal sem líderes nas assembleias populares. Mesmo cargos secundários, como secretários e tesoureiros, são afastados. Apenas na necessidade direta da realização da tarefa são definidos postos, como o de moderador. Assim, ao evitar formar Página 57 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO uma estrutura fixa, tenta-se evitar a hierarquia e a verticalização em processos de decisão top-down. Como método de legitimação das decisões é colocado o consenso. O consenso surge como alternativa ao voto e à decisão da maioria, como modo de acolher a posição de todos em cada decreto. O consenso pode surgir espontaneamente através da aceitação de todos ou pode recorrer-se ao consenso de mínimos. Esta baseia-se numa solução criada em conjunto através do debate coletivo. O conceito-chave que está aqui em causa é o do pensamento coletivo. Este surge em contraste com o pensamento individualista, que os IL consideram hegemónico na sociedade. O pensamento coletivo é a criação de ideias em conjunto, não simplesmente através da junção da iniciativa de cada um mas como resultado das dinâmicas de conjunto. São valorizadas qualidades como a empatia e o respeito no debate. Com a assembleia popular, através de uma nova vivência e uma nova performance do protesto, foi possível criar espaços efémeros de democracia. Estas foram realizadas inicialmente no seio das manifestações e das acampadas que aí surgiram, mas foram evoluindo para fora dessa realidade, criando assim espaços centrais de democracia que vão para além do reacionário. Esta materialização de esforços dos IL acaba também por ser a publicação dos seus esforços, em duplo sentido da palavra. Isto é, tornam públicos os seus esforços e as suas ideias mas também criam públicos abertos àqueles que podem agora ver o evento político em primeira instância. Ao criar um espaço distintos com alguma continuidade temporal, oferecem uma instituição alternativa, por efémera que seja, ao cidadão que procura amplificar a sua voz política. O uso do espaço público é aqui central. Para os IL, o espaço público significa a abertura a todos e as assembleias populares devem ser organizadas sempre nesse espaço. Isto é contrastado com a Assembleia da República, que se realiza dentro de um edifício fechado com acesso limitado aos cidadãos. São valorizadas pelos IL as qualidades de espaço a céu aberto em contraste com o edifício fechado, do lugar acessível em contraste com o lugar limitado. No exterior, qualquer cidadão consegue entrar directamente na assembleia popular e participar imediatamente. Para além disso, é completamente visível para todos o que é realizado nestas. Assim, os espaços democráticos criados pelos IL são também espaços de resistência ao sistema político hegemónico. Surgem como absoluto oposto às características da assembleia que pertence à polity portuguesa. Para além da política, é importante considerar como a assembleia popular pode trazer benefícios em outros aspetos, como o social ou o cultural. Algumas assembleias locais de Lisboa, como a de Graça ou a de Benfica, têm Página 58 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS contactos constantes com associações locais ou de residentes no sentido de dinamizar ações locais a nível social. 5. Conclusão: Espaço Público encontra-se pela primeira vez com a Esfera Pública nas sociedades contemporâneas? Como se viu, nas estruturas políticas das sociedades contemporâneas, evolução dos pressupostos debatidos e estabelecidos a partir do período moderno, os conceitos de espaço público e de esfera pública não são necessariamente harmoniosos. Mais que isso, o lugar da política raramente se situa dentro do espaço público ou da esfera pública, e é disso sintomática a procura recente de novas instituições que ofereçam à democracia representativa uma possibilidade real de participação cidadã. A assembleia popular, não sendo um conceito inovador, parece surgir rejuvenescida na condição em que nos encontramos. Alguns aspetos devem ser apontados para sublinhar o potencial desta ação para as sociedades contemporâneas. Primeiro, o carácter inclusivo. Este carácter parte justamente do uso da qualidade inclusiva do espaço público. Este, enquanto não tenha fronteiras físicas ou humanas que impeçam a entrada, permite que qualquer cidadão possa entrar e participar, caso o deseje. Permite, numa terminologia arendtiana, que o cidadão apareça. Relacionado também com as qualidades do espaço público surge-nos o segundo aspeto: o carácter de centralidade que a assembleia popular pode ter em sociedades fragmentadas. A dissertação de Borja e Muxí alerta-nos para a capacidade do espaço público ser uma centralidade que reúna não só aqueles que têm poder na sociedade, mas também aqueles que permanecer marginalizados. A assembleia popular pode trazer para o centro aqueles que habitualmente são periféricos na sociedade. O carácter abrangente que esta ação tem não é no entanto apenas a nível social, o que nos traz ao terceiro aspeto. As assembleias populares a nível local têm-se revelado frutíferas a nível de congregar recursos e passar para níveis que vão além do político. Relembrando como a esfera pública vai para além do político, é necessário também considerar a assembleia popular tem este potencial de se estender a um nível mais quotidiano e potenciar conhecimento e sinergias locais. De facto, a assembleia popular por si é um evento particularmente inconsequente. O seu sucesso estará sempre na capacidade em se articular com a vida local mas também em rede. Como sempre, a questão multiescalar será fulcral. Página 59 de 61 MOVIMETOS SOCIAIS E PARTICIPAÇÃO Em suma, é importante considerar a assembleia popular enquanto um projecto prometedor a nível de governança, especialmente à escala local. É em particular o contexto histórico-político em que surge que o torna inovador, visto que faz confluir a esfera pública, até agora principalmente na sua acepção política mas com potencial para abranger o todo sociopolítico, e o espaço público, de uma forma que não é possível encontrar em outro lugar nas sociedades atuais. Bibliografia ANDERSON, Benedict (1983, 2996). Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of ationalism. Londres, Verso. ARENDT, Hannah (1958). The Human Condition. Chicago, University of Chicago Press. ARENDT, Hannah (1972). Crises of the Republic: Lying in Politics; Civil Disobedience; On Violence; Thoughts on Politics and Revolution. Nova Iorque, Harcout Brace & Company. ARENDT, Hannah (2005). The Promise of Politics. Nova Iorque, Schocken. ARNSTEIN, Sherry R. (1969). “A Ladder Of Citizen Participation”. In: Journal of the American Institute of Planners, 35:4, 216-224. BAUMANN, Zygmunt (2005). Work, Consumerism and the ew Poor. Berkshire, Open University Press. BORJA, Jordi; CASTELLS, Manuel (1997). “Globalización, informacionalización y gestión de las ciudades” In: Jordi Borja; Manuel Castells (orgs.). Local y Global. La gestión de las ciudades en la era de la información, pp. 21-34. BORJA, Jordi; Muxí, Zaida (2000). El espacio público, ciudad y ciudadanía. Diputació de Barcelona, Xarxa de Municipis. DAVIES, Mike (1992). City of quartz: excavating the future in Los Angeles. Nova Iorque, Vintage Books. FUNG, Archon (2006). “Varieties of Participation in Complex Governance”. In: Public Administration Review, December 2006, pp. 66-75. HABERMAS, Jürgen, (1962, 1992). The structural transformation of the public sphere: an inquiry into a category of bourgeois society. Cambridge, Polity Press. Página 60 de 61 AÇÃO PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS EM CIDADES ITERMEDIÁRIAS LEGARD, Sveinung (2011). Popular Assemblies in Revolts and Revolutions, [disponível em 05/02/2013] <URL: http://new-compass.net/articles/popularassemblies-revolts-and-revolutions>. MONTESQUIEU (1748, 1973). O espírito das leis. São Paulo, Martins Fontes. OLDENBURG, Ray (1989; 1999). The great good place : cafés, coffee shops, bookstores, bars, hair salons, and other hangouts at the heart of a community. Nova Iorque, Marlowe. QUEIRÓS, Margarida (2010). “Territórios Emergentes vs Territórios Administrativos: Conflito e Cooperação para a Evolução das Culturas de Planeamento”. VII Congresso da Geografia Portuguesa, FLUC. ROUSSEAU, Jean-Jacques (1762, 2010). O contrato social. Lisboa, Presença. SCHUDSON, Michael (1992), “Was There Ever a Public Sphere? If So, When? Reflections on the American Case”. In: Craig Calhoun (org.). Habermas and the Public Sphere. Cambridge, MIT Press. SENNETT, Richard, (1976, 1993). The fall of public man. Londres, Faber and Faber. STEINER, George (2005). A Ideia de Europa. Lisboa, Gradiva. ZUKIN, Sharon (1995). The cultures of cities. Oxford, Blackwell. Página 61 de 61