A REVISTA HABITAT E O MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO
THE HABITAT MAGAZINE AND THE SÃO PAULO MUSEUM OF ART
CANAS, Adriano Tomitão (1)
(1) Professor Adjunto da FAUeD-UFU, doutor em arquitetura e urbanismo pela
FAUUSP, e-mail: [email protected]
RESUMO
O MASP se destaca em seus primeiros anos de atividades organizando importantes exposições que
reuniram artistas e arquitetos, e divulgando as novas linguagens até então não contempladas pelas
instituições museais no país. De acordo com o projeto museológico elaborado para o MASP por
Pietro M. Bardi, tais atividades se inserem em um programa de ação cultural voltado para a difusão
das diversas artes buscando afirmar um principio de unidade: além da exposição das obras de arte
que compõem o seu acervo, o museu organizou mostras didáticas de história da arte, exposições
periódicas de pintura, escultura, arquitetura, desenho industrial, complementadas por conferências e
cursos. Nesse contexto, com a criação da revista Habitat em 1950, podemos compreender o corpo do
projeto elaborado por Bardi para o MASP: ao mesmo tempo em que difunde e coloca o púbico em
contato com as tendências modernas da arte e da arquitetura, o museu impulsiona a formação de
profissionais para atuar nessas novas áreas que estão em desenvolvimento na cidade. Criada e
dirigida por Lina Bo e Pietro M. Bardi, a revista Habitat divulgou as ações do MASP e passou a
atualizar a produção artística nacional, funcionando como a versão impressa do que era apresentado
e discutido dentro do museu. Este texto pretende abordar como a revista Habitat divulgou o MASP,
assim como analisar os projetos realizados pelos arquitetos e artistas que colaboraram com o museu
e divulgados pela revista.
Palavras chave: MASP, Revista Habitat, Pietro M. Bardi, Lina Bo Bardi.
ABSTRACT
Actions promoted by the MASP have been falling into the premises of educational proposals of new
post-war museums, related to cultural diffusion directed to Modern Art and teaching to the public.
MASP stood out in its early years by organizing major exhibitions which brought together artists and
architects, disseminating new ideas hitherto not covered by museum institutions in the country.
According to the museological project prepared for MASP by Pietro M. Bardi, such activities were part
of a program aiming to diffuse various forms of art seeking to affirm a principle of unity: besides the
exhibition of works of art that make up its collections, the museum organized exhibitions teaching art
history, periodic exhibitions of painting, sculpture, architecture, industrial design, complemented by
conferences and courses. In this context, through the creation of the Habitat in 1950, we can
understand the corpus of the project prepared by Bardi for MASP: while spreading and putting the
pubic in touch with modern trends in art and architecture, the museum stimulated the formation of
professionals, in order to work in these new areas developed in the city. Created and directed by Lina
Bo and Pietro M. Bardi, the Habitat magazine published actions of MASP and updated national artistic
production, functioning as the printed version of what was presented and discussed within the
museum. This text intends to analyze how the Habitat magazine presented the MASP, as well as to
analyze the projects made by architects and artists who collaborated with the museum and they were
also published by the magazine.
Keywords: MASP, Habitat Magazine, Pietro M. Bardi, Lina Bo Bardi.
1
A REVISTA HABITAT E O MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO
As ações promovidas pelo Museu de Arte de São Paulo – MASP, desde a sua fundação em
1947, se inserem nas premissas didáticas das propostas dos novos museus criados no pósguerra que abrangem as diversas modalidades de difusão cultural e de formação de público.
O MASP se destaca em seus primeiros anos de atividades, ainda localizado em sua
primeira sede no edifício Guilherme Guinle na Rua Sete de Abril, 1 organizando importantes
exposições que reuniram artistas e arquitetos nacionais e estrangeiros, e divulgando as
novas linguagens até então não contempladas pelas instituições museais no país. De
acordo com o projeto museológico elaborado para o MASP por seu diretor Pietro Maria
Bardi, tais atividades integram um programa de ação cultural voltado para a difusão das
diversas artes buscando afirmar um principio de unidade: além da exposição das obras seu
acervo, o museu organizou mostras didáticas de história da arte, exposições periódicas de
pintura, escultura, arquitetura, desenho industrial, arte popular, complementadas por cursos
visando formar artistas e público para a arte moderna.
Nesse contexto, com a criação da revista Habitat - Revista das Artes no Brasil em 1950,
podemos compreender o corpo do projeto desenhado por Bardi para o MASP: ao mesmo
tempo que difunde e coloca o púbico em contato com as tendências da arte e da arquitetura
e do desenho industrial, o museu impulsiona a formação de profissionais para atuarem
nessas áreas que estão se desenvolvendo na cidade. Criada e dirigida por Lina Bo e Pietro
M. Bardi2, a Habitat divulgou o MASP e suas ações, e passou a atualizar a produção
nacional em arte e arquitetura, funcionando como a versão impressa do que era
apresentado e discutido dentro do museu, cobrindo carências e buscando uma maior
difusão. Como afirma Silvana Rubino, a Habitat tornou-se o “espaço para o casal Bardi
ensaiar suas primeiras alianças em terras brasileiras e no campo da arquitetura”.3
O Museu na revista
O primeiro número da Habitat é praticamente dedicado à apresentação do MASP. O texto
de Lina Bo “Função Social dos Museus” apresenta os propósitos do MASP, as escolhas que
nortearam a composição de seu acervo, os princípios museográficos, a importância do
museu como um museu formador, e seu distanciamento em relação à ideia de museu
“mausoléu intelectual”. A proposta de um museu didático é afirmada no texto como função
necessária aos museus, e essa nova base deveria alcançar a população não informada
“nem intelectual, nem preparada”.4
2
“Sinopse do Museu de Arte”5 ilustra essa apresentação do laboratório que se tornou o
MASP: a Pinacoteca que reúne coleção de obras-primas, a museografia moderna projetada
por Lina e Giancarlo Palanti, e as instalações dos cursos oferecidos pelo museu. A
museografia adotada para a Pinacoteca e para as salas de exposições temporárias foi
pensada como um projeto didático que buscava aproximar obra de arte e público,
apresentando soluções de desenho próximas das experiências realizadas neste período na
Itália por arquitetos como Edoardo Persico, Marcelo Nizzoli, Pagano, Albini e BBPR.6
Ainda sem um catalogo da coleção7, a Habitat assumiu a tarefa de divulgar as obras da
coleção. Entre 1953 e 1957, a revista cobriu as exposições do acervo realizadas na Europa
e Estados Unidos, reproduzindo as repercussões nas revistas estrangeiras, como a Domus,
de Gio Ponti8 e um artigo de Lionello Venturi, no qual o historiador italiano elogia a alta
qualidade das obras que compõem a coleção e a habilidade de Bardi em suas escolhas.
Para Venturi, com o MASP “surgia em poucos anos o primeiro grande museu de arte
ocidental da América Latina”, e destaca o caráter formador do museu e sua atuação na
“promoção dos problemas estéticos no cotidiano da cidade”, afirmando que essa iniciativa
deveria servir como exemplo para os museus italianos.9
Capa do primeiro número da revista Habitat. Fonte: Habitat, n.1, 1950. / Sinopse do Museu de Arte - MASP Sete de Abril - Plantas, corte e
interiores. Fonte: Habitat, n.1, 1950, pp. 22-23.
Exposições de arte e arquitetura
A Habitat divulgou as exposições organizadas pelo museu, sendo as montagens realizadas
por Lina reproduzidas e analisadas. Entre as exposições que mereceram destaque na
revista estão as mostras dedicadas ao conjunto da obra de Le Corbusier (1950) e Max Bill
(1951), Salão de Propaganda (1951), Roberto Burle Marx (1952), Saul Steinberg (1952),
dentre outras. As retrospectivas dedicadas a Le Corbusier e Max Bill reuniram a produção
dos dois arquitetos em todas as áreas em que atuaram (pintura, escultura, arquitetura e
3
urbanismo, desenho industrial), e representaram uma novidade no meio cultural do período,
possibilitando ao público compreender as relações entre as diversas áreas. A ampla
cobertura das duas mostras pela Habitat colaborou para incentivar o debate arquitetônico.
A revista dedicou grande espaço para a exposição de Le Corbusier em seu primeiro
número. O artigo “Novo mundo do espaço de Le Corbusier” 10 apresenta fotografias da
exposição, detalhes dos painéis e análise da montagem. O texto analisa as questões
estéticas presentes em seu trabalho, afirmando a importância da obra do arquiteto e sua
contribuição para a formação da nova arquitetura brasileira. Como se sabe, Le Corbusier
tornou-se uma das principais vozes em favor da integração ou síntese das artes na busca
por uma qualidade plástica para a arquitetura moderna. Essa característica de sua trajetória
marcará a contribuição do arquiteto para a arquitetura moderna brasileira quando de sua
passagem pelo Brasil em 1936, com sua participação na elaboração do projeto para o
Ministério da Educação e Saúde Pública do Rio de Janeiro junto da equipe de Lucio Costa,
projeto realizado em conjunto por arquitetos, pintores, escultores e paisagistas. 11
No número seguinte, um artigo de Lina retoma o tema da plasticidade e da integração das
artes para analisar o edifício do Ministério. No texto “Bela Criança”, a arquiteta defende a
particularidade da arquitetura moderna brasileira em resposta a críticas de arquitetos e
historiadores estrangeiros, entre os quais Bruno Zevi, que identificavam na plasticidade
presente nos projetos brasileiros um distanciamento dos seus referenciais europeus e um
processo de academização. Para Lina, a arquitetura moderna brasileira, que escolheu os
meios de Le Corbusier, embora jovem e apresentando defeitos, “nasceu como uma bela
criança”, porém, necessitava “educá-la e encaminhá-la para seguir sua evolução”.12
A revista reproduziu nesse mesmo número a exposição dedicada à obra de Max Bill, e um
artigo de sua autoria, “Beleza provinda da função e beleza como função”13, no qual
estabelece a relação entre beleza e função, apontando para a necessária compreensão
social e responsabilidade moral para a produção dos objetos de uso cotidiano, que deviam
se refletir no tratamento das próprias formas, impulsionando assim a uma nova expressão
formal. Para Bill, fazia-se necessário o emprego racional dos materiais e dos meios técnicos
adequados, conjugando o “racionalismo do engenheiro e a beleza construtiva”, que Henry
van de Velde em seu tempo sintetizou na ideia de “beleza de conformidade à razão”. Esse
mesmo raciocínio, empregado para os objetos utilitários valeria também para pensar a
arquitetura.14 Para Max Bill, a arquitetura é antes de tudo uma arte social e não a “expressão
individual do arquiteto”. A Habitat publicou uma nota apontando a importância para o país da
4
realização da exposição de Max Bill logo após a mostra dedicada à Le Corbusier, e
denunciou a ausência da crítica e debate no meio local.15
MASP Sete de Abril: Exposição de Le Corbuiser (1950). Fonte: Habitat, n.1, 1950, p. 39. / Exposição Max Bill (1951) Fonte: Habitat, n.2,
1951, p. 65.
As ideias de Max Bill foram divulgadas pela Habitat, que se alinhava com o racionalismo
presente em seu trabalho em sua tentativa de chamar a atenção para o problema do
desenho industrial; ideias que estavam presentes nos cursos organizados pelo MASP,
através da orientação de vários artistas cujas ideias se revelaram próximas dos mesmos
princípios. Se, por um lado, a mostra de Le Corbusier apresentava o conjunto de sua obra e
as referências que originaram as particularidades da arquitetura brasileira, reconhecida
internacionalmente e que vinha sendo alvo por parte da critica especializada justamente por
sua “expressão individual”, por outro lado, a exposição de Max Bill trazia o problema do
funcionalismo e dos comprometimentos sociais avessos às particularidades e expressões
individuais dos arquitetos. Essas duas exposições organizadas pelo MASP e reproduzidas
nas páginas dos dois primeiros números da Habitat refletiram o debate internacional no
campo da arquitetura do período e revelaram o empenho dos Bardi em promover a
discussão em torno das origens e caminhos trilhados pela arquitetura moderna brasileira.
Design e cultura urbana
Assim como se empenha na difusão e crítica da arquitetura, a Habitat dedicou grande
espaço ao design e às questões relacionadas à arte e indústria. Para a revista, os objetos
de uso cotidiano são compreendidos como o índice correto para julgar o nível estético de um
povo. Já em seu primeiro número a revista divulgou mobiliário moderno, equipamentos para
cozinha, vitrines e lojas, que são temas abordados através do trabalho desenvolvido pelos
arquitetos e artistas que colaboraram nos cursos do museu, como é o caso de Giancarlo
Palanti, Roberto Sambonet, Leopoldo Haar, Bramante Buffoni, entre outros.
5
Nas páginas da Habitat, o desenho industrial é utilizado como combate e alternativa ao
gosto dominante, a “decoração”. O termo é visto pela revista como “a palavra que maltrata
uma das mais sérias responsabilidades: o arranjo interno da casa, a formação do ‘habitat’ no
verdadeiro sentido da palavra”.16 A revista tratará constantemente do tema, se valendo de
“Alencastro”, pseudônimo utilizado por Lina e Bardi na seção “Crônicas” para criticar sempre
de forma irônica e jocosa a vida fora do museu e o gosto provinciano da elite paulistana pela
decoração e pelas “cópias do passado”.17 Essa difusão do gosto moderno, exposto e
aprendido no museu e encampado pela Habitat, ao mesmo tempo propagava os exemplos a
serem seguidos e ironizava o gosto vigente. Vale lembrar o texto de Lina Bo Bardi sobre a
decoração das vitrines do centro de São Paulo, no qual afirma que as vitrines de uma cidade
podem destruir anos de trabalho na construção do gosto, pois representam o espelho e a
denúncia rápida da personalidade da cidade, e justamente por estarem na cidade – “sala
pública, uma grande sala de exposições, um museu” – aquele que quiser ter um papel
público atuando na cidade “toma a si uma responsabilidade moral”.18
Contrapondo-se ao “gosto burguês”, Lina defende as vitrines excluídas dos bairros
populares, que com suas feiras inspiradas por seus movimentos espontâneos “alheios a
qualquer rotina esnobística da ‘arte’, não erram”. 19 Exibidas na Habitat e inseridas entre
projetos de arquitetura, mobiliário e gráfica modernos, as instalações do MASP, sem dúvida,
atraíram a atenção para os problemas do desenho moderno de interiores, e funcionava
como vitrine desse projeto que buscava alcançar a cidade. As mesmas técnicas e raciocínio
espacial utilizados para os espaços expositivos são transpostos para os espaços de morar,
vitrines de lojas e stands de feiras. Com a publicação do primeiro projeto de Lina em São
Paulo, a “Casa de Vidro” (1951), esse princípio projetivo que compreendia o espaço de
morar e o desenho do mobiliário, possibilitava uma compreensão de unidade, como um
projeto integrado e um mesmo processo construtivo.20 O espaço contínuo da Casa de Vidro,
que tem a definição de seus ambientes indicados pela disposição de elementos
transparentes remete aos suportes desenhados por Lina para o MASP da Sete de Abril e já
anunciava a museografia adotada para a futura sede no Trianon.
A Habitat também publicou artigos sobre os artistas e arquitetos que lecionaram nos cursos
do MASP, dando visibilidade aos seus trabalhos e ao mesmo tempo noticiando as atuações
dentro e fora do museu. Já em seu primeiro número, publicou o mobiliário desenvolvido por
Lina e Giancarlo Palanti para o Studio de Arte Palma. O Studio Palma foi criado em 1947
por Bardi, Lina e Palanti com a intenção de produzir mobiliário com desenho moderno e
suprir a carência de uma produção industrializada desses objetos em São Paulo. Embora já
existisse no país mobiliário desenhado por arquitetos como Warchavchik, Graz e Terneiro, o
6
mercado era praticamente inexistente. Os Bardi identificaram essa situação ao procurar uma
cadeira para ser utilizada no auditório do MASP, e não encontrando a peça apropriada, Lina
desenhou uma cadeira dobrável que se adequava às funções múltiplas do auditório.21 A
experiência se voltava principalmente para a criação de cadeiras, poltronas e estantes. No
texto da Habitat o desenho do mobiliário é associado às qualidades dos materiais
brasileiros, assim como de sua adaptação ao clima, resultando na eliminação dos
estofamentos exagerados e na utilização dos tecidos naturais como o sisal, lonas e couros,
os mesmo utilizados no artesanato popular. Apesar de certa visibilidade alcançada com
alguns projetos executados, a proposta dos arquitetos foi aceita apenas por uma minoria.
Além da produção realizada em parceria com Lina e Bardi no Studio Palma, a Habitat deu
visibilidade aos primeiros projetos arquitetônicos realizados por Palanti em São Paulo. Os
projetos para o Cine Jussara (1951) 22 e o Edifício Lily (1951) 23 foram destacados por suas
soluções espaciais, resoluções técnicas e detalhes. Os projetos também revelavam a
importância dada à integração de elementos artísticos na arquitetura, característica que
marcou a trajetória profissional de Palanti no país com projetos realizados em colaboração
com artistas plásticos como Roberto Sambonet e Bramante Buffoni. A Habitat também
publicou o projeto realizado por Palanti para os escritórios da Olivetti no Edifício Conde de
Prates (1957), período de sua associação com o arquiteto Henrique Mindlin.24 O texto de
Bardi que apresenta o projeto o considera “talvez a melhor arquitetura de interiores feita no
Brasil” no período, rememorando a importância da atuação do arquiteto no campo
arquitetônico italiano durante os anos 1930.25 Bardi destaca também os painéis elaborados
pelo artista Bramante Buffoni, assim como todo material publicitário.26
Buffoni teve seu trabalho publicado na Habitat assim que chegou ao Brasil em 1953 e
passou a integrar o corpo de professores dos cursos do MASP. A Habitat destacou o
trabalho que o artista desenvolveu na Itália para a Pirelli e Trienal de Milão, e sua atuação
como artista gráfico para a Domus.27 Buffoni executou os painéis para as diversas lojas da
Olivetti projetadas por Palanti e Mindlin em várias capitais do país.28 No ano de 1958,
colaborou com Palanti, Mindlin e Bardi na realização da exposição da Olivetti promovida
pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A Habitat publicou matéria com texto de
Bardi em que afirma a importância da mostra ao colocar o público em contato com as
pesquisas formais no campo do desenho industrial. O projeto da exposição utilizava a
mesma linguagem que Palanti desenvolveu para as instalações das lojas Olivetti.29
A Habitat dedicou várias matérias aos trabalhos realizados por Roberto Sambonet, incluindo
pinturas, arte gráfica e moda. Um encarte especial contendo quatro desenhos foi publicado
7
no quarto número da revista: “Bairro”, “Floresta”, “Samambaias” e “Cestas” (1951). São
desenhos que remetem à mesma pesquisa visual que Sambonet desenvolveu na realização
dos painéis para os projetos de Palanti em São Paulo e possuem como tema a paisagem, a
flora e a cultura popular brasileira, representadas apenas por linhas e tramas. Um dos
desenhos (“Floresta”) se tornaria a base para o primeiro cartaz que Sambonet produziu para
o MASP “Visite o Museu de Arte” (1951).30 A revista publicou outras duas experiências de
Sambonet realizadas em São Paulo: a pesquisa junto aos internos do Hospital Psiquiátrico
Juqueri e o projeto para a Moda Brasileira. No artigo “Psiquiatria e Pintura”, o psiquiatra Edu
Machado Gomes relatou a experiência desenvolvida por ele e Sambonet na busca por uma
forma de tradução para a arte da “experiência emocional” que se estabelece na relação
psiquiatra-paciente. A revista reproduziu a série de desenhos “Estudos sobre a Loucura” que
buscou capturar os distintos estados analisados nessa experiência.31 O projeto da Moda
Brasileira foi amplamente publicado na Habitat, que apresentou o resultado do trabalho
desenvolvido pelos professores e alunos dos cursos do Instituto de Arte Contemporânea IAC do MASP em 1952. Foram reproduzidos os desenhos que Sambonet desenvolveu para
modelos, estampas e assessórios como sapatos e chapéus, assim como as peças gráficas
criadas para o desfile. Para o lançamento dessa experiência, Sambonet também elaborou
vitrines para o Mappin utilizando-se de reproduções de peças do acervo do MASP.32
Também as vitrines realizadas pelo polonês Leopoldo Haar para as lojas Olivetti mereceram
destaque nas páginas da revista, sendo constantemente citadas como bom exemplo a ser
seguido.33 Haar trabalhou no escritório de propaganda da Olivetti em São Paulo no mesmo
período em que lecionava no IAC, e mantinha junto ao seu irmão, o fotógrafo Zygmunth
Haar, o “Haar Studios”, escritório que desenvolveu design gráfico, vitrines e stands para
feiras industriais. A Habitat publicou as maquetes criadas para vitrines e material publicitário
para a Olivetti. Junto ao seu trabalho foi publicado o artigo “Plásticas Novas”, no qual Haar
afirma que a aproximação da plástica contemporânea e da estética funcional é
“imprescindível à realização de exposições e apresentações no campo comercial e
industrial”. Para Haar, a vitrine – “janela para o mundo” – é justificada “pelo objeto que nela
figura”, e torna-se campo de experimentação das conquistas da arte – “exigências estéticas
do homem que usa geladeira, conhece as sulfas e é contemporâneo de Max Bill”. 34
O pintor italiano Gastone Novelli também teve seu trabalho divulgado na Habitat. Trata-se
de pinturas e cerâmicas realizadas no início dos anos 50. A revista destacou a simplificação
do desenho e das formas em seu trabalho, bem como a presença “lírica e violenta” da
paisagem brasileira, mantendo a qualidade da “simples vida formal, popular, inteligente e
8
útil”.35 Entre os anos de 1953 e 54, Novelli desenvolveu vários projetos para pavilhões e
stands de exposições e elaborou vitrines para as lojas Kirsch e King em São Paulo.36
A contribuição desses arquitetos e artistas estrangeiros em projetos na cidade de São Paulo
pode ser compreendida como uma ação que se identificava com as atividades que exerciam
junto aos Bardi no MASP, tendo nos cursos, exposições e na revista Habitat o espaço para
a difusão de suas ideias e de seus trabalhos. Giancarlo Palanti e Bramante Buffoni
chegaram ao país com uma trajetória sólida e já delineada na Itália, desenvolvendo essa
experiência no MASP e em diversos projetos no país. Leopoldo Haar trouxe para o MASP a
experiência gráfica e a ambientação que se alinhava com as vanguardas concretistas, tendo
participado e assinado o manifesto do grupo RUPTURA em 1952. Roberto Sambonet e
Gastone Novelli permaneceram poucos anos no Brasil, tendo aqui desenvolvido pesquisas
que se mostraram importantes para suas trajetórias quando retornam à Itália. As várias
ações registradas pela Habitat buscaram promover o moderno em todos os campos, tendo o
museu como a principal vitrine das artes, da arquitetura e do design. A revista funcionou
como um dos meios de formar um público para essas novas experiências, de realizar a
transposição do universo das artes para o cotidiano.
O início das obras da sede definitiva do MASP no Trianon projetada por Lina Bo Bardi foi
divulgado pela revista em 1960. A maquete do novo museu ainda não representava o
projeto definitivo e a denominação “centro cultural” ainda não era comumente usada, mas já
se identificava no projeto uma arquitetura que buscava traduzir a proposta de um museu
atuante na cidade. Diz o texto: “Está em construção na Avenida Paulista o Conjunto Museu
de Arte de São Paulo. Certamente, o ponto é ideal, sob todos os aspectos, principalmente,
pelo fato de defrontar um grande parque, pelas condições excepcionais de tráfego que o
circundam e o servem, e finalmente, pelo relevo arquitetônico quase monumental que o
grande bloco oferecerá no fecho do panorama, visível de vários pontos da cidade”.
37
Giancarlo Palanti e Henrique Mindlin: Escritórios Olivetti - Edifício Conde de Prates, 1957. Painéis de Bramante Buffoni. Fonte: Habitat,
n.49, 1958, p.1./ Giancarlo Palanti e Alfredo Mathias: Cine Jussara - Painel de Roberto Sambonet, 1951. Fonte: Habitat, n.6, 1952, p. 65./
Maquete para a sede do MASP Trianon. Fonte: Habitat, n. 62, 1960, p. 55.
9
Notas
1
O MASP foi oficialmente fundado em 10 de março de 1947 e inaugurado em 2 de outubro do mesmo ano. O museu ocupou
inicialmente o primeiro andar do edifício comercial, ainda em obras, da empresa Diários Associados, projeto do arquiteto
francês Jacques Pilon e de propriedade do empresário Assis Chateaubriand, localizado na Rua Sete de Abril, n. 230, centro de
São Paulo. Após a finalização das obras do edifício, o Museu passou a ocupar mais três pavimentos e foi reinaugurado em
1950. Permaneceu em atividade nesse endereço até sua transferência para o belvedere do Trianon, na Avenida Paulista, em
1968, sua sede definitiva e projeto de arquitetura de Lina Bo Bardi.
2
A revista Habitat passou pelos seguintes editores-chefes: Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi (1950 – 1954), Abelardo de
Sousa (1954) e Geraldo Ferraz (1954 -1965). MIRANDA, C. L. A crítica nas revistas de arquitetura nos anos 50: a expressão
plástica e a síntese das artes. Dissertação (Mestrado), EESC-USP, 1998, pp. 75-76.
3
RUBINO, Silvana. Rotas da Modernidade: Trajetória, Campo e História na atuação de Lina Bo Bardi, 1947- 1968. Unicamp,
Campinas, 2004, p. 79.
4
BARDI, Lina Bo. Museu de Arte de São Paulo: Função Social dos Museus. Habitat, n. 1, out.- dez. São Paulo, 1950. p. 17.
5
Sinopse do Museu de Arte. Habitat, n. 1, 1950, pp. 20-29.
6
ANELLI, Renato. Interlocução com a arquitetura italiana na constituição da arquitetura moderna em São Paulo. São Carlos,
EESC-USP, 2001, pp. 51-53.
7
O primeiro catálogo do MASP foi lançado em 1965.
8
O texto traduzido poderá ser encontrado em: Introdução ao Museu de Arte. Habitat, n. 14, pp. 53-54.
9
Uma opinião de Lionello Venturi sobre o Museu de Arte de São Paulo. Habitat, n.14, 1954, pp. 51-52.
10
Novo Mundo do espaço de Le Corbusier. Habitat, n. 1, 1950, p. 37-41.
11
Sobre a síntese das artes no Brasil ver: FERNANDES, Fernanda. Arquitetura no Brasil no segundo pós-guerra: a síntese das
artes. Anais do VI Seminário DOCOMOMO Brasil. Rio de Janeiro, Novembro 2005.
12
“Para se concretizar, escolheu a arquitetura brasileira os meios de Le Corbusier, que mais respondiam às aspirações de uma
gente de origem latina; meios poéticos, não contidos por pressuposições puritanas e por preconceitos. Esta falta de polidez,
esta rudeza, este tomar e transformar sem preocupações é a força da arquitetura contemporânea brasileira, é um contínuo
possuir de si mesmo, entre a consciência da técnica, a espontaneidade e o ardor da arte primitiva”. BARDI, Lina Bo. Bela
Criança. Habitat, n.2, 1951, p.3.
13
BILL, Max. Beleza provinda da função e beleza como função. Habitat, n. 2, 1951, pp. 61-64.
14
Idem, p. 64.
15
A revista publicou também as observações polêmicas de Max Bill em entrevista concedida a Flavi o de Aquino, quando o
arquiteto visitou o país em 1953 na qual apontou os excessos e formalismos nas soluções da arquitetura brasileira. Ver:
AQUINO, Flavio. Max Bill. O inteligente iconoclasta. Habitat, n. 12, 1953, pp. 34-35.
16
Decoração. Habitat, n. 2, “Crônicas”, 1951, p. 91.
17
Desenho Industrial. Habitat, n. 1, “Crônicas”, 1950, pp. 94-95.
18
Vitrinas. Habitat, n. 5, 1952, p. 60.
19
Idem, ibidem.
20
BARDI, Lina Bo. Residência no Morumbi. Habitat, n. 10, 1953, pp. 31-40.
21
Em paralelo à criação do Studio Palma, os Bardi e Palanti fundaram a empresa Pau Brasil Ltda., fábrica de móveis para a
execução desse novo mobiliário. A empresa trouxe para o Brasil marceneiros e oficiais de móveis da região da cidade italiana
de Lissoni, importante centro de fabricação de móveis modernos. Móveis Novos. Habitat, n. 1, 1950, pp. 53-59.
22
Um Cinema em São Paulo. Habitat, n. 6, 1952, pp. 64-65.
23
Prédio de apartamentos em São Paulo. Habitat, n.10, 1952, pp. 19-23
24
BARDI, P. M. Uma arquitetura de interiores para a Olivetti. Habitat, n. 49, jul./ago. 1958, pp. 1-12.
25
Idem, p. 1.
26
Idem, p. 4.
27
Buffoni. Habitat, n. 13, 1953, pp. 64-65.
28
SANCHES, Aline Coelho. A obra e a trajetória do arquiteto Giancarlo Palanti, Itália e Brasil. EESC-USP, 2004.p. 297.
29
Desenho Industrial. Habitat n. 50, 1958, p. 22.
30
O cartaz “Visite o Museu de Arte” foi publicado na Habitat, n. 5, 1951.
31
GOMES, Edu Machado. Psiquiatria e pintura. Habitat, n. 9, pp. 27-31.
32
Problemas da Vitrina. Habitat, n. 10, 1953, pp. 76-77.
33
Crônicas. Habitat, n. 4, 1951, p. 89.
34
HAAR, Leopoldo. Plásticas Novas. Habitat, n. 5, 1951, p. 57.
35
Novelli, pintor e ceramista. Habitat, n. 9, 1952, pp. 32-33.
36
RINALDI, Marco. La Casa Elettrica e il Caleidoscopio. Temi e stile dell´allestimento in Italia dal razionalismo alla
neovanguardia. Roma: Bagatto Libri, 2003. pp 211-216.
37
Conjunto Museu de Arte de São Paulo. Arq. Lina Bo Bardi. Habitat, n. 62, 1960, p. 55.
10
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