Revista Litteris Literatura
Julho de 2010
Número 5
LENDAS E MITOS DA AMAZÔNIA
Maria do Socorro (UFPA)1
Resumo: Os mitos/relatados, que fazem parte do acervo do Projeto: “O
imaginário nas formas narrativas orais populares da Amazônia paraense” são a verdadeira
expressão da multiplicidade do viver amazônico, envolvendo as emoções, os sonhos, os
devaneios, as aspirações, ideais, realizações e frustrações, encantos e desencantos... enfim,
toda vida e utopia de um homem dividido entre a selva e as águas desta vasta planície. O
trabalho propõe-se a fazer uma leitura sobre alguns mitos amazônicos, a partir da visão de
Leminski (1994), que considera o mito como a “ palavra fundadora, a fábula matriz, a
estrutura primordial, leitura analógica do mundo e da vida”
Palavras-chave: Narrativa, Amazônia, Cultura, Oralidade
Key-words: Narrative, Amazonia, Culture, Oralidade
.
A proposta de recolha e reflexão sobre lendas e mitos da Amazônia iniciou
em 1994, sendo que o percurso trilhado, assegurado por pesquisadores, professores, bolsistas
e profissionais de diversas áreas do conhecimento, levou ao patamar em que hoje se
encontra, ou seja, uma proposta institucionalizada, com o formato de Campus Flutuante.
Mas, para bem se entender os caminhos percorridos pelo projeto, vale a pena reconstituir
parte deste percurso.
Inicialmente, o IFNOPAP ( O imaginário nas formas narrativas orais
populares da Amazônia paraense) destinou-se a reunir as várias formas de narrativas orais
contadas pelo amazônida, como já ficou indiciado, numa tentativa de “mapear o que se conta
no Pará”, para preservação da memória da região.
Assim sendo, o Projeto iniciou em 1994, com o formato de Programa de
Pesquisa, tendo sido implantado em seis dos oito Campi Universitários do Interior. Os
municípios atingidos foram: Santarém, Castanhal, Abaetetuba, Bragança, Marabá, Cametá, e
o Campus- sede da UFPA em Belém. O sistema de Campi Avançados constituiu a estrutura
1
Professora Associada II, da
Produtividade do CNPq.
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Universidade Federal do Pará, Bolsista de
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adequada para pesquisa de tão grande alcance, permitindo uma ampla cobertura do território
paraense, envolvendo grande número de professores e de estudantes de todas as
microrregiões do Pará. O material recolhido possui uma riqueza e diversidade ímpares. Tal
fato propiciou inúmeras propostas, organizadas em subprojetos de várias áreas de pesquisa,
principalmente, dos Centros de Letras, Ciências Humanas e Educação. Em 1995, o
Programa foi transformado em Projeto Integrado, atendendo a uma proposta da Instituição,
que se preocupava em privilegiar trabalhos que se ajustassem às chamadas atividades fins
desenvolvidas na Universidade Federal do Para: ensino, pesquisa e extensão.
Em 1997, a coordenação do projeto, juntamente com os professores e bolsistas
sentiram a necessidade de realizar um evento distinto do que tinha acontecido, no ano
anterior, em que se ateve à apresentação dos primeiros resultados da pesquisa de campo e a
algumas propostas de avaliação de novos subprojetos. Naquele ano, considerou-se
necessário reunir professores de outras universidades brasileiras para que a proposta pudesse
ser apreciada por quem já detivesse uma experiência reconhecida, nos meios acadêmicos,
dos temas, em questão. Assim foi que o primeiro encontro se organizou com apresentação
de conferências, palestras e mesas-redondas para discutir temas que o grupo elegeu como os
mais pertinentes do projeto, sobretudo, conceitos relacionados com : "Narrativa Oral e
Imaginário Amazônico”.
Em 1998, sob o tema: “A Cultura Amazônica em suas Multivozes”, o II Encontro
Nacional IFNOPAP reuniu um grande número de convidados, de várias IES brasileiras, que
deu um brilho especial às atividades programadas em forma de
palestras, oficinas,
exposições e lançamentos de livros. O evento aconteceu num dos espaços mais interessantes
da UFPA, o Núcleo de Arte, contou com a participação de convidados de outras instituições
e teve grande destaque em mídia impressa.
Sob o tema: "Memória e Comunidade: entre o rio e a floresta.” , o projeto ganhou
novas dimensões.
Com a preocupação de levar cada participante ao universo das narrativas, o IFNOPAP
inovou fazendo o seu III Encontro a bordo do navio Catamarã-PA.
O evento contou com personalidades internacionais, nacionais e regionais, que
engrandeceram o encontro com palestras, oficinas, mini-cursos, exposições sobre temas
variados e de interesse do público; ainda é importante referir que o público do III IFNOPAP
foi agraciado com a presença de artistas paraenses premiados e reconhecidos no mundo
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artístico nacional e internacional. Citamos, entre eles, o violonista Sebastião Tapajós, que
nos brindou com audição de alto nível, em noite de gala, em Santarém; a cantora lírica
Márcia Aliverti, o pianista Antônio José, dançarinos Eder Jastes, Jaime Amaral, os
violonistas Nego Nelson e Maca Maneschy foram notáveis com a sua arte, nas nossas noites
de lazer e convívio social, enquanto o Catamarã singrava as águas do Médio Amazonas. No
retorno, vivemos uma experiência inesquecível, para a maioria: excursionamos nas cavernas
de Monte Alegre, onde pudemos contemplar os exemplares de arte rupestre, em plena
Amazônia paraense.
A Quarta versão do Encontro IFNOPAP, foi marcada por duas grandes mudanças do
projeto. A primeira, foi a entrada do estudo das manifestações culturais da Amazônia, como
tema de reflexão e análise, e, a segunda, foi a parceria firmada entre as áreas de letras e
biologia, inserindo, dessa forma, o estudo da biodiversidade da região mais rica do planeta
como objeto de estudo do IFNOPAP.
A região agora escolhida para a viagem a bordo do Catamarã, foi aquela que dispõe de
um dos rios mais belos da Amazônia – o Trombetas. A pitoresca Oriximiná constituiu o
nosso alvo, onde assistimos a uma particular manifestação religiosa do Estado: O Círio
noturno fluvial, que acontece no segundo domingo de agosto, em homenagem ao padroeiro
Santo Antônio.
A quinta versão do Encontro Nacional do IFNOPAP privilegiou o maior arquipélago
do mundo, com o título: Marajó – um arquipélago sob a ótica da cultura e da
biodiversidade. A importância desse evento deveu-se a certa singularidade: saímos do barco
e convivemos, durante oito dias, com as comunidades de quatro municípios marajoaras, em
atividades diversificadas, simultâneas e
de abrangência distinta, nas diversas áreas do
conhecimento. Assim sendo, ofertamos às comunidades de Breves, Ponta de Pedras, Muaná
e Soure oficinas e cursos desde Iniciação à fotografia (sob a orientação da extraordinária
fotógrafa Fátima Roque) até Identificação de DNA (ministrada pela Dra. Ândrea). Foi uma
experiência notável, que se repetiu nos demais encontros, tornando-se o ponto alto dos
eventos IFNOPAP.
O VI IFNOPAP foi quase uma ousadia. Á medida em que foi pensado, concebido e
gestado, sentíamos que não se trataria de uma expedição comum, enfim o foco de interesse
era o Xingu. Realizar este encontro nacional, dentro de um navio, com mais de cento e
quarenta pessoas, durante oito dias, “navegando entre o rio e a floresta” foi mais que um
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desafio. Teríamos que enfrentar o Xingu, tentar nos aproximar do entorno de Belo Monte,
depois de passar por Porto de Moz, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu e Altamira, com
uma programação intensa, assemelhada àquelas já vivenciadas nos encontros anteriores, mas
com uma novidade : na primeira noite social, à bordo do Catamarã, participamos de um
interessante “Baile de Máscaras”, que representavam a diversificada fauna do Xingu . Foi,
sem dúvida, uma viagem cheia de surpresas, que incluíram: mudança de embarcação (em
respeito aos calados dos navios), percurso rodoviário, passagem e diversão num hotel
fazenda, para refazer as energias e, depois disso, um terrível suspense, no retorno, porque o
Catamarã não estava aportado no lugar combinado e necessitamos fazer, numa embarcação
de pequeno porte (sem aparato tecnológico de comunicação), um percurso muito mais longo
do que o esperado, numa noite escura, com ameaça de relâmpagos e trovões, assediados por
uma “nuvem” de insetos noturnos; mas, enfim, nem tudo foi tão ameaçador, porque no
caminho entre Senador e Vitória vivemos uma experiência singular: de repente, por volta
das dez horas da manhã, enquanto navegávamos próximos da margem, o navio foi invadido
por número incontável de borboletas, de um verde claro uniforme. Elas atravessaram o
espaço do navio, voando entre nós, absolutamente pasmos, ante o inusitado, e elas
absolutamente indiferentes a nossa estupefação. E, como disse o Reitor, Dr. Alex Bolonha
Fiúza de Mello, de volta ao Campus de Belém: “Tenho a impressão de que saí de um espaço
mágico, o Xingu nunca mais se repetirá”.
“Populações e tradições às margens do Tocantins” foi o título dado ao evento do VII
IFNOPAP. A expedição fez-se em viagem pelos municípios de Abaetetuba, Cametá e
Tucuruí. A imagem mais marcante do VII IFNOPAP, ficou por conta do lançamento do
1º.Dicionário de Língua indígena, no Pará. O Reitor da UFPA, Dr. Alex Bolonha Fiúza de
Mello, passou, em posição de reverência... quase de joelhos, frente aos nossos olhares
atônitos e comovidos, o dicionário e um livro de lendas indígenas, às mãos do chefe Asurini.
O chefe desculpou-se para o público por não ter palavras para agradecer a doação e, nesse
momento, a nossa comoção atingiu o auge, porque aquela figura comovente, que lembrava
os nossos ancestrais, pediu para cantar e, através do seu canto, expressar a sua gratidão. Não
nos contivemos e choramos todos, ante aquele canto simples, melodioso e, particularmente,
solene.
“Rios do Norte, Florestas do Sul: percurso de cultura e de bio- diversidade na
Amazônia paraense” . Fizemos, no VIII IFNOPAP, uma viagem em torno de Belém, no
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primeiro dia de encontro, visitando ilhas e braços de rios que dão um toque de originalidade
a essa paisagem. Nos dois dias seguintes, desenvolvemos nossas atividades em Belém,
Icoaraci, Guajará-Miri, Itacoã e Barcarena. A partir do quarto dia, nossos esforços
destinaram-se ao Sudeste do Pará numa extensa programação em Parauapebas. O inusitado
do encontro, na parte destinada ao Sudeste do Pará, ficou por conta de um acidente, entre os
dois ônibus que conduziam os participantes. Apesar do susto e dos perigos a que estivemos
expostos, o encontro não sofreu solução de continuidade e foi realizado, segundo o previsto,
sendo que a programação foi cumprida, com sucesso.
O IX Encontro IFNOPAP atendeu a uma área do Marajó, distinta daquela que foi alvo
da expedição de 2001, realizando atividades em três dos muitos municípios situados no
arquipélago, considerando as necessidades de levantar dados, repassar informações e
despertar interesse de estudantes e pesquisadores em questões ligadas ao desenvolvimento
sócio-econômico-cultural da região. O retorno do IFNOPAP, ao Marajó, foi enriquecido
com a inclusão de uma vasta programação da SBPC, e apoio da Secretaria de Educação do
Pará. Oficinas, cursos, palestras e mesas-redondas destinaram-se a um público-alvo , ou seja,
professores do Ensino Médio da rede pública, numa média de setecentos participantes.
No X IFNOPAP, projetamos fazer um “Retorno às origens: caminhos para Bragança”
e a justificativa para esse percurso é bem simples e plausível – foi em Bragança que fizemos
a nossa primeira investida no interior do Pará, com a finalidade de atender a uma das
premissas da proposta: “mapear o que se conta no Pará”
A escolha não poderia ter sido mais acertada. Bragança é uma das cidades mais antigas
do Estado e, ainda, guarda aquele clima de fascínio e tradição das nossas primeiras aldeias:
os casarões, paralelepípedos, coretos, praças, prédios de administração pública, colégios
religiosos e públicos, de tudo se respira início do século XIX. Dos recônditos destes
ambientes fechados ou nos campos abertos e alagados da região emanaram belíssimas
narrativas que nos deram conta da tradição, dos encantos e da vida do homem do Nordeste
do Pará, desde as histórias vindas com o colonizador, passando por incríveis matintas e
curupiras e desembocando numa figura, estritamente, bragantina – o Ataíde.
O X IFNOPAP foi um sucesso, em todos os sentidos, mas vale ressaltar o apoio de um
grupo de professores, que deixa os seus compromissos profissionais, em IES de todas as
regiões do Brasil, e vêem ao Pará contribuir, em níveis distintos e áreas diferenciadas, para a
formação de jovens professores da rede pública, universitários e público, de modo geral.
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Assim, mais uma vez, cumprimos a nossa missão IFNOPAP, deixando a nossa marca
acadêmico-científica entre cerca de 700 pessoas, nos municípios de Bragança, Capanema e
Castanhal.
Os eventos XI e XII foram realizados no arquipélago do Marajó, sendo que
revisitamos Ponta de Pedras, Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari e tivemos a
oportunidade de levar para as comunidades, destes municípios, atividades relacionadas com
pesquisa, ensino e extensão, nas áreas de Letras, Humanidades, Saúde, Tecnologia e
Sócio-Economia.
Ainda que o Projeto se tenha espraiado da área de Letras para as demais, e se
convertido num Programa de Estudos Geo-Bio-Culturais da Amazônia, com a nominação de
Campus Flutuante, o objetivo primeiro, ligado às narrativas da Amazônia, mantém certo
encanto e magia que nos motiva a continuar buscando esta região no que ela tem de mais
legitimamente representativo, quais sejam: seus mitos e lendas.
Em “Metamorfose: uma viagem pelo imaginário grego” (1994: 34) Leminski
considera que o mito é a “palavra fundadora, a fábula matriz, a estrutura primordial, leitura
analógica do mundo e da vida”. Visto sob este aspecto o mito é entendido como explicação
para a vida, a natureza, a história e as relações sociais do homem em seu espaço de origem.
O artigo se propõe a fazer, através das várias exposições, uma curta discussão sobre mito,
enquanto discurso fundador - cerne da história e identidade de uma cultura, no nosso caso
específico: da cultura amazônica e suas manifestações míticas.
Não temos a intenção de sustentar uma discussão sobre conceitos de mito, mas
abrir espaço para análise de conceitos que se vinculavam, ainda que indiretamente, a nossa
proposta de investigação: mitos e lendas amazônicos. As discussões nesta área são sempre
muito proveitosas, mas como é de se esperar, até porque faz parte da natureza da atividade
de pesquisa, nada é conclusivo, estamos sempre tentando nos aproximar da verdade e, nessa
área de investigação, é tudo muito subjetivo. Ressalte-se, no entanto, que não é pelo fato de
ser subjetivo, impalpável, que devamos nos contentar com as abstrações, muito pelo
contrário: estamos sempre buscando e tentando sustentar e legitimar as nossas discussões.
Portanto, que fique claro, não estamos a propor conceitos ou definições sobre
mito. Consideraremos, apenas, alguns pensamentos já existentes e que se adequem aos
nossos propósitos.
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Chamamos, então, Mircea Eliade (Aspectos do mito 1977:86), neste primeiro
momento, uma vez que ele próprio considera que essa definição é a mais perfeita, porquanto
a mais ampla: “ O mito conta uma história sagrada, narra um fato importante ocorrido no
tempo primordial ” . E vai além, apontando três funções do mito: o mito conta, o mito
explica, o mito revela. Das três funções apontadas por Eliade, nos interessa: O mito conta.
O mito é uma narrativa. O mito é , portanto, animado pelo dinamismo da narrativa, do que
originou a definição proposta por Gilbert Durand ( As estruturas antropológicas do
imaginário, 1987: 103) : “ Entendemos por mito um sistema dinâmico de símbolos, um
tema dinâmico que, sob o impulso de um esquema, tende a organizar-se em narrativa”
Revendo os gregos, encontramos mito, que remonta a “mythos”, relacionado
com palavra formulada, que pode ser narrativa, diálogo ou enunciação. Desde o sentido
original: (fábula), até a modernidade, a palavra tem merecido um número crescente de
significados.
Nesse contexto, considerar-se-á mito como fábula matriz, leitura analógica do
mundo e da vida, conforme foi referido no início deste trabalho, quando recorremos ao
conceito de Leminski .
Para Cassirer (1977:45) o mito se enquadra na poiésis e é como atividade
poética que manifesta a sua especificidade discursiva. Para Huizinga (1972:154) “o mito,
qualquer que tenha sido a forma em que chegou até nós, é sempre poesia. Em forma poética
e com recursos de fabulação, oferece um relato das coisas que se apresentam como
ocorridas.”
Dentre as muitas considerações, convém reafirmar que o mito é a linguagem
inaugural em que se encontram os traços fundadores da memória da humanidade e que num
ininterrupto fazer-se
funda os sentidos que percorrem e se traduzem a/na história da
sociedade.
Há que se levar em conta, portanto, que é a palavra relatada no e do mito que
constrói no imaginário social, mediante efeitos discursivos de sentido, representações de
identidade que permitem ao indivíduo afirmar a sua existência no mundo, além de ser (o
mito) o elemento justificador do próprio sentido e existir do mundo .
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De acordo com Cassirer (1977:62), a lógica do mito é “incomensurável com
todas as novas concepções de verdade empírica ou científica”. Visto sob esse aspecto, o
conjunto de mitos de uma sociedade adquire um valor documental que se evidencia e que
não pode ser desconhecido ou relegado pelas ciências humanas e nem pelas demais ciências.
A narrativa mítica, enquanto forma de discurso proferido, encontra-se
diretamente associada à categoria de performance, a partir da qual “o mito deve ser
entendido como cultural e socialmente contextualizado” (Shezer, 1990:11). Por conseguinte,
enquanto ato narrativo, o mito deve ser entendido como uma forma peculiar de arte verbal,
envolvendo contadores, audiência e espaço acordado com a prática do contar.
O narrador, ao contar o mito, insere-se ele mesmo numa linhagem tradicional e
institucionalizada de “o contador de histórias” que, por sua vez, legitima a performance . Ao
mesmo tempo, esse mesmo narrador introduz as marcas de sua individualidade, que é única
e irrepetível. Na realidade, cada nova performance é uma espécie de recontar/recriar, que
traz os sinais do engenho artístico de cada narrador.
Uma performance verbal pode ser caracterizada por materiais diferenciados: o
narrador pode ficar imerso nas fontes da tradição, ser capaz de imprimir suas marcas
pessoais no que relata e pode, ainda, referir elementos relacionados com os avanços sócioculturais do grupo.
É nesse sentido que se afirma que cada performance verbal é irrepetível, além
de mobilizar, ao mesmo tempo: a tradição e a inovação, o individual e o coletivo.
Discorrer sobre mito, cultura e tradição, ou sobre outros temas dessa natureza,
sempre se constituiu uma espécie de barreira a ser enfrentada, bem como dificuldades a
serem suplantadas. E não se trata, apenas, do preconceito, em geral, colocado pelos
defensores da academia elitista, comprometida com a formação e divulgação de
conhecimento, a partir da mentalidade de que o erudito é o detentor de todo o crédito ;
trata-se, na verdade, também, das próprias dificuldades de se caminhar por uma área em
que os estudos se alternam entre o eruditismo extremo e/ou a simples aventura dos que
estão em busca do exótico e do “pitoresco”, o que, enfim, acaba por comprometer a
pesquisa, a reflexão e os conceitos atinentes ao assunto.
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Apesar das dificuldades, como ficar indiferente aos encantos dos
mitos, da cultura e de uma tradição como a da Amazônia, por exemplo. Como não se expor
às freqüentes barreiras, quando o fascínio se deve a uma região como essa? É difícil, para
não dizer “quase impossível”, quando se vive anos a fio em meio a tanta exuberância .
Os mitos relatados/gravados, que fazem parte do acervo do projeto IFNOPAP,
são a verdadeira expressão da multiplicidade do viver amazônico, envolvendo as emoções,
sonhos,
devaneios,
aspirações,
realizações,
frustrações,
ideais,
encantos,
desencantos...enfim, toda a vida e utopia de um homem dividido entre a floresta e a água
dessa vasta planície.
T.S.Eliot (1998:23), no seu Notas para uma definição de cultura, afirma, que
“se perdermos algo de modo absoluto e irreparável, deveremos arranjar-nos sem ele” para
mais tarde considerar que não teremos idéia de como a sociedade nos julgará ou se será
desejável uma estrutura social que se assente sobre perdas. A idéia de se fazer uma pesquisa
para recolher o máximo do que “se conta no Pará” não teve (ou tem) a ambição de
“resgatar” a cultura regional, para evitar desmandos irrecuperáveis no futuro. Até porque
somos partidária de que o decréscimo do interesse da comunidade pela sua cultura pode
resultar em danos, em uma certa medida, numa visão futura e totalitária, mas não redundará
na extinção de suas manifestações, em termos absolutos. Haverá sempre resíduos
significativos que emergirão em algum momento e de alguma maneira. Os mitos relatados e
gravados estão aí para o provar.
É, ainda, Eliot que considera “que as utopias redentoras da sociedade
nem sempre são as projetadas para o futuro” (1998:23); a relação de identidade deve estar
vinculada ao passado, ao primevo, à tradição.
Assim sendo, passado e o futuro não
acontecem dissociados .
O que se realiza em termos de pesquisa sobre oralidade e narrativa no Pará,
não tem a pretensão de ser absoluto ou totalitário, mas deve marcar a continuidade de
elementos da tradição e da vida do homem amazônida entre um passado (que se faz, ainda,
tão presente) cheio de magia e encanto, o presente do relato, pleno de vida, e um futuro de
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estudos pertinentes e instigantes e indispensáveis aos questionamentos próprios da academia
, e, quiçás, da sociedade como um todo.2
Eidorfe Moreira (1960:53), em Amazônia - o conceito e a paisagem,
afirma que a Amazônia é um anfiteatro , de forma “excessivamente alongada” , nesse
imenso e solene anfiteatro não apenas se representa e desfila a vida em infindas
manifestações performáticas, mas ele, anfiteatro, é a própria síntese de uma espécie de vida
e de vivência, marcadas por experiência plena de magia e sedução.
O anfiteatro assimétrico e irregular, de que fala Eidorfe Moreira, é constituído
de rio e de floresta que sintetizam para o homem amazônida uma realidade com dupla
função : uma imediata, lógica, objetiva fonte de vida e subsistência e outra mediata, mítica,
mágica , plena de encantos e encantamento, responsável por todos os seus sonhos e
devaneios. A intersecção dos dois espaços resulta numa síntese complexa e ao mesmo tempo
simbólica, em que residem os substratos mais legítimos da cultura amazônica.
A paisagem composta e emoldurada por rios e florestas significa para o
amazônida, portanto, não apenas o espaço de vida e trabalho num cotidiano repetitivo, mas
também o elemento mediador de uma ligação com o maravilhoso e com o fantástico. Nessa
paisagem, homens, animais, seres, rios, florestas são vistos e observados com a perspectiva
de perscrutação e captação do sentido íntimo das coisas.
Os rios da Amazônia constituem uma realidade excepcional e não apenas por
formarem uma bacia de 4.778.374 km de curso de água, mas por
ser o rio, nesse
incomparável espaço, quase tudo, ou seja, por estar intimamente ligado à vida e à cultura
da região:
“Rio, pão líquido, andar em procissão de espumas,
alimento de lendas, poesia
- piracemas de ânsias, preamares, sílabas” (Paes Loureiro ) 3
2
- Independente do que venha a ser produzido futuramente, o projeto tem subsidiado
trabalhos em diversas áreas e de diversas modalidades: Livros publicados 15, Monografias
46, Dissertações de Mestrado 17, Teses de Doutorado 06, Artigos publicados 64,
Oficinas e mini cursos
153, Videos
03, Curtas metragens
04, Cd- roms
03, Subprojetos 18.
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Desses rios emergem botos, iaras, boiunas, cobras-noratos e todo um mundo
encantado que habita as suas profundezas para conviverem com o caboclo ou com o homem
citadino, numa permanente unidade :
“Isso aconteceu na Vila do Curuaí. Uma noite, uma moça, enquanto ela
dormia, veio um homem, todo de branco... e levou a moça bem pra perto do rio. A casa dela
ficava bem pertinho do rio.
Então, ele levou a moça pra lá. E, quando foi de manhã, a família da moça
procurou por ela e não encontrava a moça. Foram achar a moça nua, lá na beira do rio. E a
moça dizia, quando ela acordou, que um rapaz gostava dela e tinha abusado dela. Só que o
feiticeiro, um velho do interior, disse que tinha sido o boto.
E o boto, ele sempre aparecia. Ele aparecia para os homens também. Uma vez,
ele apareceu para um rapaz. O nome do rapaz era João e ele quis tirar o calção do João, mas
o João conseguiu fugir.
Diziam que alguns rapazes não conseguiam escapar do boto.”4
Com a extensão de 4.161.482m , a floresta amazônica é o outro lado
significativo dessa fascinante paisagem.
A floresta, na tradição literária, tem sido eleita como índice do espaço
sintetizador das aventuras, venturas e desventuras do homem, desde a sua concepção,
independentemente das discussões que se possam levantar em torno dessa origem : desde as
aventuras da cavalaria medieval até as guerrilhas modernas, a floresta tem sido considerada
o espaço/refúgio ideal de encantados, entidades mítico/místicas, amantes perseguidos como
Tristão e Isolda, santuário natural da mitologia celta, guardadora do Santo Graal, além de se
configurar como símbolo do amor eterno na mitologia indígena, paraíso edênico ou reino
das trevas.
Elemento primevo na constituição da paisagem, a floresta amazônica absorve e
catalisa o comportamento do homem amazônida , imprimindo à região uma espécie de estilo
de vida e cultura.
Dessa floresta, vista metaforicamente, pelos que olham à distância, como um
arquétipo , responsável pela sustentação da vida no planeta, nessa dobrada de milênio, e
3
LOUREIRO, J. J. Paes. Porantim. In:Cantares Amazônicos. p.62,63
- Adaptada do livro:SIMÕES & GOLDER. Santarém conta... p.41,42
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cuja destruição representaria uma catástrofe, dessa mesma floresta assistimos à afloração de
histórias cheias de encanto.
“Na
Missão do Cururu, às margens do rio Tapajós, ouvia-se sempre
uma história contada pelos índios vindos dos vilarejos.
Havia, em certa tribo, duas índias muito amigas. Elas estavam sempre
juntas e eram admiradas por essa amizade.
Um dia, elas estavam passeando pela aldeia e encontraram um homem
muito bonito, vistoso, forte e as duas logo se apaixonaram por ele. Todo aquele gostar,
contudo, era sentido em segredo. Apesar de amigas, elas não trocaram confidências sobre a
sua paixão. Até que ficou impossível uma esconder da outra que estava amando .
Confidenciaram sobre a sua paixão, mas mantiveram, em segredo, o objeto do seu amor.
O tempo foi passando e, a certa altura, elas fizeram um acordo:
revelariam, ao mesmo tempo, uma para outra, o nome do seu amado.
Qual não foi a surpresa... ambas estavam apaixonadas pelo mesmo
homem !
Os mais velhos da tribo, ao saberem o que estava acontecendo,
chamaram o jovem índio e sugeriram que ele fizesse a escolha da sua eleita, para por fim a
uma situação de desconforto na tribo.
Após confessar às duas jovens que as amava com a mesma
intensidade, o jovem amante sugeriu que o seu amor fosse disputado por elas
através de
uma prova de destreza.
A prova consistia no seguinte: em um dia combinado, as índias iriam
à floresta munidas de arco e flecha e a escolhida seria aquela que conseguisse ferir uma ave,
apontada pelo cacique, em pleno vôo.
Todos os habitantes da tribo foram à floresta para assistirem ao
resultado da competição.
A vencedora foi homenageada por todos e realizou o seu sonho de
amor casando-se com o belo moço. A perdedora, a princípio, parecia conformada com o
resultado da peleja, mas, à medida que transcorreu o tempo, ela foi ficando cada vez mais
triste e isolada.
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Um dia, Tupã perguntou a jovem porque ela parecia infeliz e estava
sempre tão só . Ela, então, confessou que jamais voltaria ao seu estado natural, porque não
se conformava com a perda do homem amado. Era doloroso, para ela, vê-los em colóquios
permanentes, mas , ao mesmo tempo, não gostaria de afastar-se da tribo, pelo muito que os
amava. Não queria incomodá-los com a sua presença e o ideal seria estar com eles, sem ser
percebida. Que tal se ela fosse transformada numa ave?
Tupã atendeu ao seu desejo, mas percebendo que, ainda assim, ela
continuava muito triste, resolveu compensá-la e deu-lhe um dom especial: um lindo canto,
o mais melodioso da floresta.
Dizem os índios da Missão Cururu que, até hoje, é possível ouvir, sempre ao
entardecer, um canto sem igual que encanta a todos e ressoa por toda a mata. O canto é
indescritível e a ave é o uirapuru.” 5
O discurso mítico é constitutivo da identidade de um povo, forma através da
qual os indivíduos explicam o seu “ethos” e a sua organização sócio-econômica. Qualquer
olhar sobre a imensa planície amazônica, ainda que sem muita “detença”, dará conta de que
é dos mitos que os amazônidas se utilizam para enunciar seus sonhos e realidade, sua
verdade e sua utopia ou, mais completamente,: quem são, o que pensam e como vêem e
apreendem o seu “mundus vivendi”.
Para evitar que se prive a comunidade de narrativas como essas e se
inviabilize estudos sobre a arte de contar , sobre o próprio contador e cultura amazônidas é
que o Projeto Integrado “O Imaginário nas Formas Narrativas Orais Populares da Amazônia
Paraense” continuará perseguindo os seus objetivos na tentativa, também, de manter não
apenas vívidas as lembranças da região, mas de propiciar discussões pertinentes sobre
oralidade, cultura e situações narrativas no âmbito da academia.
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EDUFPA, 2007.
_____________. Ensino, pesquisa e extensão: reflexões e práticas
científico-acadêmicas. Belém: EDUFPA, 2008.
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