UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE LETRAS MARIA DO SOCORRO PEREIRA LEAL ÍNDIOS & BRASILEIROS: POSSE DA TERRA BRASILIS NOS DISCURSOS JORNALÍSTICO ONLINE, POLÍTICO E INDÍGENA NITERÓI 2011 MARIA DO SOCORRO PEREIRA LEAL ÍNDIOS & BRASILEIROS: POSSE DA TERRA BRASILIS NOS DISCURSOS JORNALÍSTICO ONLINE, POLÍTICO E INDÍGENA Tese apresentada ao Curso de PósGraduação em Letras da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Letras. Área de Concentração: Estudos Linguísticos. Orientadora: Profª. Drª. BETHANIA SAMPAIO CORRÊA MARIANI NITERÓI 2011 Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá L435 Leal, Maria do Socorro Pereira. Índios & brasileiros: posse da terra Brasilis nos discursos jornalísticos online, político e indígena / Maria do Socorro Pereira Leal. – 2011. 212 f. Orientador: Bethania Sampaio Corrêa Mariani. Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Letras, 2011. Bibliografia: f. 205-212. 1. Análise do discurso. 2. Posse da terra. 3. Discurso jornalístico. 4. Discurso político. 5. Terra indígena. I. Mariani, Bethania Sampaio Corrêa. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de Letras. III. Título. CDD 801.955 1. 371.010981 MARIA DO SOCORRO PEREIRA LEAL ÍNDIOS & BRASILEIROS: POSSE DA TERRA BRASILIS NOS DISCURSOS JORNALÍSTICO ONLINE, POLÍTICO E INDÍGENA Tese apresentada ao Curso de PósGraduação em Letras da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Letras. Área de Concentração: Estudos Linguísticos. BANCA EXAMINADORA Profª. Drª. BETHANIA SAMPAIO CORRÊA MARIANI (orientadora) Universidade Federal Fluminense Prof. Dr. JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE Universidade do Estado do Rio de Janeiro Profª. Drª. BELMIRA RITA DA COSTA MAGALHÃES Universidade Federal de Alagoas Prof. Dr. DANIEL DO NASCIMENTO SILVA Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Profª. Drª. SILVIA MARIA DE SOUSA Universidade Federal Fluminense Profª. Drª. SILMARA CRISTINA DELA DA SILVA (suplente) Universidade Católica de Pernambuco Profª. Drª. VANISE GOMES DE MEDEIROS (suplente) Universidade Federal Fluminense Niterói 2011 Para meu pequeno coletivo: Daniel, meu filhão, amiguinho de sempre. Odilon, pelo que temos construído. AGRADECIMENTOS À Bethania Mariani, pela aposta persistente que fez em mim nesse percurso de orientação. Impossibilitada de dizê-la toda, limito-me a palavras-chave: forte, competente, generosa, acolhedora. A quem devo esta tese. À Universidade Federal de Roraima e, em especial, aos meus colegas amigos do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas, pelo estímulo e compreensão. Ao professor Bessa Freire, Belmira Magalhães e Vanise Medeiros, pela leitura criteriosa do meu Projeto de Qualificação de Doutorado, pelas sugestões. Aos meus pais, por me fazerem inaugurar o caminho das crianças para a escola, de modo ininterrupto e aos sete anos. Lá, no sertão do Piauí, numa escola à qual chegávamos, com nossos passinhos brincalhões e sem atraso, (per)correndo quatro quilômetros. Às minhas irmãs, Méri e Dorinha, pela força com que me socorrem, mesmo à distância. Ao Odilon, pela partilha ao longo dos últimos dezoito anos. E por sempre dar ouvidos ao meu papo sobre os índios. Aos amigos que fiz no Rio, na UFF, às voltas do discurso: meia dúzia de tempo inesquecível. Em especial, à Luiza Kátia Andrade Castello Branco, porque consegue me ajudar, com um carinho forte, ímpar. E à Vanise Gomes de Medeiros, pela amizade franca, pela alegria. À CAPES pelo apoio financeiro, durante vinte e quatro meses, na forma de bolsa ProDoutoral. RESUMO Esta pesquisa traz para reflexão e análise a disputa pelas terras do Brasil entre índios e brasileiros, tal como é formulada no discurso jornalístico online, bem como nos discursos político e indígena, ao se referirem à posse indígena da terra. O corpus principal é constituído por manchetes de sítios de jornais de três estados: um de Roraima (www.folhabv.com.br, do jornal Folha de Boa Vista), um de São Paulo (www.folhaonline.com.br, da Folha de São Paulo) e um do Rio de Janeiro (www.g1.com.br, das Organizações Globo), cartas escritas pelo grupo político roraimense e cartas formuladas por povos indígenas. Baseia-se nos pressupostos teóricos da Análise do Discurso, conforme explicitados nas diversas obras de Michel Pêcheux, na França, e Eni Orlandi, no Brasil. A análise foi empreendida a partir de diversas temáticas que, nesses textos, são vinculadas ao pertencimento da terra. Busca depreender como são projetados, na dispersão do discurso, os envolvidos na disputa pela terra, os índios e os brasileiros. O discurso jornalístico virtual anuncia a posse indígena da terra por uma trama de vocábulos e expressões que deslocam a questão para o âmbito do jurídico, classificando-a como ilegal. O direito dos índios à terra, à voz indígena não comparecem nas manchetes jornalísticas. O que se torna notícia com a posse indígena da terra remete a negatividades e prejuízos relacionados a todos de Roraima, organizando uma direção de sentidos que legitima a propriedade da terra pelos brasileiros. No discurso político roraimense, apresenta-se como óbvia uma injunção ao desenvolver-se, em relação ao que a posse indígena da terra é significada como problema, como entrave para o desenvolvimento do Estado. Produz-se como efeito, pela construção discursiva da referência de ‘nós’, uma homogeneidade totalizante em relação à defesa da propriedade e da exploração diversa da terra. O discurso indígena apresenta, na materialidade da língua, diversas formas de resistência ao discurso sobre os índios. As construções discursivas das referências de si mesmos e dos envolvidos na questão da disputa pela terra seguem outra diretriz: o discurso indígena não se submete à concisão da língua, em vez disso, dá a ver o um-a-um dos que estão compreendidos na coletividade. Palavras-chave: Análise do Discurso. Posse e Propriedade da terra. Discurso jornalístico. Discurso político. Discurso indígena. ABSTRACT Our research brings to reflection and analysis the struggle over land in Brazil between Indians and Brazilians, as formulated in the journalistic discourse online, as well as in the political and indigenous discourses, to refer to indigenous land ownership. The main corpus consists of newspaper headlines from sites in three states: one of Roraima (www.folhabv.com.br – Folha de Boa Vista), one of São Paulo (www.folhaonline.com.br – Folha de São Paulo) and one of Rio de Janeiro (www.g1.com.br – Globo Organizations); letters written by the political group of Roraima; and letters made by indigenous peoples. This work is based on the Discourse Analysis theoretical framework, as explained in various works of Michel Pêcheux, in France, and Eni Orlandi, in Brazil. The analysis was undertaken from a variety of themes that in the texts reviewed are linked to land belonging. This research attempts to infer how the ones engaged in the dispute over land, Indians and Brazilians, are designed throughout the discourse dispersion. The journalistic discourse online announces indigenous land ownership by a web of words and expressions that moves the issue into the realm of law, calling it illegal. The Indians' rights to land and voice do not appear in news headlines online. When the indigenous land ownership becomes news it is attached to negativity and losses related to all in Roraima, guiding meaning into a direction that makes Brazilians the legitimate land owners. In the Roraimense political discourse the indigenous land ownership is meant as a problem, since it is presented as an obstacle to the development of the state. As a result, the discursive construction of the reference of 'we' produces an effect of a totalizing homogeneity in relation to defense of property and diverse exploitation of land. The indigenous discourse presents, in the materiality of the language, various forms of resistance to the discourse about the Indians. The discursive constructions of the references of the Indians themselves and of those involved in the dispute over land issue follow another guideline: the indigenous discourse is not subject to the conciseness of the language, instead, it gives to see one-on-one of those included in the community. Keywords: Discourse Analysis. Possession and Land ownership. Journalistic discourse. Political discourse. Indigenous discourse. 8 Sumário UMA TRAJETÓRIA DE INTERPRETAÇÃO ............................................................................ 9 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 11 FUNDAMENTOS TEÓRICOS: A ANÁLISE DO DISCURSO................................................ 21 A LEI ........................................................................................................................................... 46 1. Terras do Brasil & Terras Indígenas ....................................................................................... 46 2. Direitos à terra: índios, brasileiros .......................................................................................... 58 3. Upatakon, Nossa terra X ‘Roraima’ ........................................................................................ 73 A NAÇÃO ................................................................................................................................... 91 1. O típico e o estranho nacional ................................................................................................. 91 2. O ‘jovem-urbano-belo-escolarizado’ .................................................................................... 109 A FAMÍLIA ............................................................................................................................... 120 1. Sobre o pequeno coletivo inominável ................................................................................... 123 O DESENVOLVIMENTO ....................................................................................................... 134 1. Desenvolvimento: a naturalidade do discurso jornalístico ................................................... 135 2. Cartas da terra brasilis........................................................................................................... 144 2.1 De ‘brasileiros’ para ‘brasileiros’ .................................................................................... 150 2.1.1 Cartas do desenvolvimento ...................................................................................... 156 2.2 De ‘índios’ para ‘brasileiros’........................................................................................... 172 2.2.1 Cartas da terra........................................................................................................... 180 CONCLUINDO ........................................................................................................................ 193 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................... 205 9 UMA TRAJETÓRIA DE INTERPRETAÇÃO Desde as reflexões iniciais deste trabalho, algumas inquietações foram se apresentando, sob diversas formas, como entrada para abordarmos a disputa entre índios e brasileiros pelas terras do Brasil. Na leitura e releituras dos textos recolhidos “foramse destacando” – para/pelo nosso olhar –, na materialidade linguística, suspeitas de regularidades, raras aparições, significativas ausências. Assim, chegamos ao que se configurou como partes que constituíram o corpo deste trabalho. Foi assim que iniciamos, não pelo princípio, mas pelo “antes”: o que foi sendo acontecimento antes do projeto de tese. Melhor dizendo, enquanto ainda iniciávamos a análise dos textos dos parlamentares estaduais de Roraima (como pesquisa de mestrado), a terra Raposa Serra do Sol foi homologada: com esse evento principiou-se um arquivo com as primeiras manchetes do sítio do jornal Folha de Boa Vista, de Roraima, que anunciavam o decreto, em abril de 2005. E esse primeiro noticiar a posse indígena da terra tornou-se nossa entrada neste trabalho. Pelas leituras dessas manchetes foi possível observar uma direção de sentidos sendo engendrada para a recente posse indígena da terra, em Roraima. Ao se vislumbrar tal direção de sentidos emoldurando a posse indígena da terra, também se pôde depreender um esboço da constituição dos sujeitos nesse processo: não se fala em disputa, ou resultado da disputa pela terra, sem projetar os envolvidos na questão – os índios e os brasileiros. A partir dessa “entrada” no conjunto que ora constituía nosso arquivo, foi possível ver a repetição, o modo pelo qual essa repetição efetuava-se e como resultava significando. Com isso, uma trajetória se estruturava tomando por eixo base a lei. Ou seja, trilhamos o percurso de sentidos para a posse indígena da terra tomando como fio condutor a lei: mais especificamente, enfatizamos a interpretação dada na primeira contenção de sentidos nas manchetes de 2005 e seus desdobramentos. A ‘posse’ e a ‘propriedade’ da terra compareceram, então, no horizonte de nossa discussão. Fez-se necessário discutirmos como essa diferença é retomada, que sentidos são mobilizados e como a posse indígena da terra é significada em relação a essa cisão. As questões referentes à nacionalidade chegaram-nos, não pela repetição quantitativa em nosso arquivo, mas pela raridade de determinadas construções 10 linguísticas nas manchetes dos jornais online. Certas combinações em torno do vocábulo ‘indígenas’ possibilitaram-nos problematizar e apreender o funcionamento de alguns aspectos pelos quais os índios vão sendo significados em relação à nacionalidade e aos brasileiros. Buscamos discutir como esse modo de referir os índios está implicado com os sentidos de índios e brasileiros em relação à disputa pela terra. O eixo seguinte, ‘A família’, tornou-se questão a ser discutida pelo que nos surpreendeu operando nas manchetes que anunciavam a disputa pela terra. Nesse caso, há uma ausência e uma repetição, definidas em relação à remissão feita: se aos índios ou aos brasileiros. Discutimos como a questão da terra comparece imbricada nos sentidos mobilizados em torno de ‘família’ e a filiação desses sentidos a uma memória. Por fim, podemos perceber uma temática – o ‘desenvolvimento’ – que, ao permear as manchetes imbricava os usos que se faz da terra à posse e à propriedade. Analisamos o funcionamento dos sentidos nesse processo no discurso jornalístico bem como no discurso político, textualizado nas cartas abertas formuladas pelo grupo dos políticos roraimenses. Pelo que foi sendo apontado com as análises, consideramos que em torno dessa temática convergiam pontos fulcrais sobre a disputa pela terra. Com isso, trouxemos o discurso indígena, tomado nas cartas abertas formuladas ao final de assembléias indígenas. A disputa pela terra entre índios e brasileiros, considerada como uma questão política, convoca distintas questões. Neste trabalho, abordamos algumas dessas questões que se tornaram relevantes sob nosso olhar. Desse ‘gesto’, como diz Orlandi (2001), pudemos investigar como no discurso sobre os índios – os discursos jornalístico e político – os índios vão sendo significados. Para transitarmos entre tais relevâncias, guiamo-nos tanto por regularidades quanto por raridades e ausências na materialidade da língua ao dizer sobre a disputa pela terra. Para tratarmos as questões propostas nessa pesquisa, nos apoiaremos nos pressupostos teóricos da Análise do Discurso, como foram propostos por Michel Pêcheux e colaboradores, na França, e Eni Orlandi e pesquisadores, aqui no Brasil. 11 INTRODUÇÃO Demarcação de terras indígenas tem sido notícia na mídia brasileira, nos últimos anos. Ora com mais ora com menos ênfase, mas não é como novidade que se faz saber sobre limitar terra para os índios1 em solo brasileiro. Ao contrário, talvez o procedimento de demarcação de terras indígenas seja uma marca que se tem mantido ao longo da história brasileira e, assim, advém como algo já do cotidiano nacional. Uma forma de deslocar e desnaturalizar a questão da demarcação de terras indígenas é trazer uma indagação que não se formula: por que se demarca terra para os índios em vez de se demarcar terra para os outros, os não índios? Por que soa ingênuo ou absurdo demarcar terra para os não índios visto que eles é que aqui chegaram? O que temos é que, mais de quinhentos anos após a chegada dos portugueses numa terra que já era habitada por diversos povos, há um funcionamento do imaginário que, pela imbricação do social, do histórico e da linguagem, torna possível dizer no Brasil sobre demarcação de terra para os índios e que impossibilita, ao mesmo tempo, dizer sobre demarcação de terras para não índios. É por esse deslocamento que trilharemos, uma vez que ele possibilita adentrar na rede de sentidos que diz do Brasil no lastro da colonização, condição sob a qual se inicia a disputa pela terra entre os índios que aqui habitavam e os outros todos que aqui foram aportando. Condição pela qual se pode discutir a problemática da terra na qual figuram os índios e o outro – seja o português colonizador, seja o brasileiro posteriormente - que passa a senhor de todas as terras do Brasil. Assim, na produção histórica de sentidos para a maior parte da sociedade civil e de instituições federais, hoje, é óbvio que as terras do Brasil pertencem aos brasileiros, e que, sendo dos brasileiros, somente eles podem e devem dispor dessa terra e, eventualmente se o desejarem, reparti-la com quem quer que seja. Por outro lado, escapou da ordem da evidência o dizer segundo o qual a terra pertencia aos índios, o que lhes asseguraria poder continuar a viver nessa terra e dela usufruir segundo sua compreensão e necessidade. Nessa direção do processo de construção de sentido do óbvio, que é histórico, é bastante ilustrativo o verbete ‘Nação’, tal como consta no Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa (1986). 1 Conforme atestam Mazière e Gallo (2007), dentre outros, no Brasil as formas ‘índios’ e ‘indígenas’ são empregadas como substantivos. Ao longo deste trabalho as utilizaremos indistintamente. 12 Nação. [Do latim natione] S. f. 1. Agrupamento humano, em geral numeroso, cujos membros, fixados em um território, são ligados por laços históricos, culturais, econômicos e lingüísticos. [Cf. povo (1).] 2. País (3). 3. O povo de um território organizado politicamente sob um único governo. [...] Para se falar em Nação, de acordo com o que comumente se designa como tal e ganha foro de sentido dicionarizado, faz-se necessário, pois, falar em espaço físico, povo, língua, instância política. Da perspectiva da Análise do Discurso, os sentidos naturalizados e fixados em dicionário são construções, efeitos de suas condições sóciohistóricas de sua produção (NUNES, 2006, 2008; dentre outros). Nação tem uma historicidade, é uma construção histórica, ideológica que remonta à formação dos estados nacionais, como bem se pode ler em Renan (1997): “A nação moderna é, portanto um resultado histórico, produzido por uma série de fatos que convergem para um mesmo ponto (RENAN, 1997, p. 19). Nesse processo, frisa o autor, “o esquecimento, diria até o erro histórico, é um fator essencial na criação de uma nação” (id. p. 20). Isso posto em relação ao Brasil, alguns desajustes podem ser levantados. Com os sentidos assim naturalmente uniformizados – “o povo”, “fixados em um território”, “ligados por laços históricos, culturais, econômicos e lingüísticos” – como restam os distintos povos indígenas cujos laços históricos, culturais e linguísticos são outros? O que essa pretensa unidade homogênea implica quanto aos modos de significar esses povos? Da perspectiva teórica aqui adotada, a Análise do Discurso, podemos provocar o que se põe com essa naturalização/dicionarização dos sentidos atuais de Nação lembrando que “dar sentidos é construir limites, é desenvolver domínios, é descobrir sítios de significância, é tornar possíveis gestos de interpretação” (ORLANDI, 1993, p. 15, retomando PÊCHEUX, 1993). Podemos tomar a discussão secular sobre os que vivem no Brasil e as formas de repartição de sua terra (os direitos à terra) como uma forma de enveredar pelas redes de constituição dos sentidos do Brasil, apreendendo-o por fronteiras outras, as discursivas, e não pela redução ora fixada para ‘Nação’. Desse modo, ao invés do uno e do homogêneo sobressai o múltiplo e o heterogêneo, pelo que 13 se pode vislumbrar o diverso, seja em relação ao povo, seja em relação à língua ... e, também, à posse da terra.2 A partir dessa perspectiva, estipulamos como objetivo norteador da pesquisa analisar o processo de construção dos sentidos sobre a posse indígena das terras do Brasil na atualidade, conforme o discurso midiático online e os discursos político e indígena. Investigaremos o funcionamento de dizeres que, partindo de Roraima, do Rio de Janeiro ou de São Paulo, pretendendo informar sobre essa disputa pela terra, põem em tela um modo de referir e significar o país e aqueles que podem e devem deter a posse de suas terras. Estamos, pois, considerando que ao se referir à demarcação/homologação de terra indígena em Roraima, esses discursos formulam e põem em circulação sentidos sobre uma intensa disputa e, não, a transposição de uma objetividade rotulada como ‘demarcação/homologação de área indígena’. Sentidos que delineiam uma disputa pelas terras brasileiras3 e não entre algumas diferentes etnias indígenas e um grupo de fazendeiros específicos. Ou seja, enfatizamos que tais discursos expõem, ao olhar do analista, o processo de produção de sentidos para a disputa pela posse da terra brasilis que, apesar dos séculos transcorridos, mostra-se uma disputa vigorosa entre os índios e os outros, os não índios. Ou seja, entre os índios e os brasileiros. Urge fazermos algumas observações sobre essa disjunção em que os índios encontram-se de um lado e, do outro, o conjunto formado por todos os outros, igualados entre si e distintos em relação aos índios. Em pesquisa anterior, em que analisamos discursos de parlamentares estaduais de Roraima sobre a demarcação/homologação da terra Raposa Serra do Sol (LEAL, 2006)4, tomamos como questão central a construção dos sentidos de ‘povo roraimense’. Para este trabalho, interessa destacar que em nosso percurso de análise investigamos, dentre outras, a construção discursiva da referência de ‘índio’, de ‘nós’ e de ‘povo roraimense’, observada, sobretudo, pelo processo de denominação/determinação. Com 2 Ao longo da pesquisa fomos nos deparando com os termos ‘posse’ e ‘propriedade’ da terra e, conforme discutiremos na parte seguinte deste trabalho, esses vocábulos remetem a diferentes regiões de sentidos quanto à terra. Diante disso, optamos por utilizar ‘posse’, que remete aos direitos indígenas à terra, o que não se contemplaria em ‘propriedade’, segundo os termos da lei. 3 Empregaremos indistintamente as expressões ‘terras brasileiras’, ‘terras do Brasil’, ‘terra brasilis’ para referirmos o espaço geográfico do Estado brasileiro, o território que constitui o Brasil. É em relação a esse território que se colocam a ‘posse’ e/ou a ‘propriedade’. 4 Dissertação de mestrado realizada no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFF, disponível em www.bdtd.ndc.uff.br sob o título Os sentidos de ‘povo roraimense’ em textos de parlamentares (1999 e 2005), sob a orientação da Profª Drª. Bethania Mariani. Essa dissertação será publicada no formato livro pela editora da UFRR (no prelo). 14 isso, verificamos a produção histórica de duas regiões de sentidos fortemente separadas: uma – em que foram acolhidos os dizeres da demarcação em ilhas – foi circunscrita de forma totalmente positiva, e a outra – em que foram postos os dizeres relacionados à demarcação em área contínua – foi desqualificada, negativizada de várias formas. Com a demarcação em área contínua os fazendeiros deveriam sair das terras indígenas; e com a demarcação em ilhas, eles teriam garantida sua permanência e posse das plantações de arroz onde se encontravam, nas terras indígenas. Da relação entre as construções discursivas de referências nesse discurso político, pudemos concluir que ‘roraimense’ e ‘brasileiro’ estão em relação parafrástica no processo instaurado no discurso parlamentar e são formas de qualificar positivamente os que defendem a demarcação em ilhas. No que concerne aos sentidos construídos discursivamente para o índio, verificamos um movimento: ele é significado tanto em um quanto em outro campo. No entanto essa mobilidade não lhe garante a igualdade. Os sentidos erigidos para ‘índio’ são distintos e o separam de ‘roraimense’/’brasileiro’. Mesmo quando o índio deixa de reivindicar uma extensão maior para suas terras e é dito como aliado no discurso parlamentar, ele resta “ao lado” do brasileiro, sem que, todvia, lhe seja dado ultrapassar as linhas dos sentidos que o cingem no isolamento. De modo geral, pela construção discursiva da referência de ‘índio’, os efeitos de sentidos predominantes o fazem permanecer na disjunção e, mais que isso: o índio é desqualificado e inferiorizado de múltiplas formas. Quando se vislumbra uma saída do campo de negatividades em que os sentidos de índio são circunscritos, não se tem senão um retorno a uma imagem na qual não há lugar para o índio que tem lutado pela sua terra de diversas formas e ao longo dos tempos. Apaga-se o político da disputa pela terra e, com isso, o índio é significado por aspectos culturais, ressaltado pelo exotismo, lá-distante, a-histórico. Com os sentidos produzidos desse modo, o discurso político roraimense repete/mantém aspectos dos sentidos construídos para o índio nos discursos da colonização, em que avulta o cultural em detrimento do político, processo que possibilita tomar os índios igualados entre si, um índio imaginário, singular, uno. (ORLANDI, 1990) Instala-se, com a distinção mantida no discurso parlamentar, uma condição pela qual o índio é isolado de todos os outros no/do Brasil – os brasileiros – no que tange à posse da terra. Em suma, conforme o processo de construção dos sentidos explicitado naquela análise, ‘índio’ não é ‘roraimense’, não é ‘brasileiro’. 15 A partir da separação delineada naquela análise, mas também pelo estudo e compreensão do nosso atual arquivo, é que formulamos nossas questões principais nesta pesquisa. Isso, no entanto, não quer dizer que tomaremos essas conclusões como definitivas, ao contrário, é considerando a disjunção abrigada no “ainda” que nos permite averiguar como essa direção de sentidos esboçada no discurso jornalístico virtual apresenta-se nos discursos político e indígena. Empregaremos, indistintamente, as expressões ‘jornalismo virtual’, ‘jornalismo online’ e ‘jornalismo midiático virtual’ para nos referirmos ao texto jornalístico armazenado na internet. Para esta pesquisa, não só textos jornalísticos, mas também todo o conjunto de textos analisados encontramse/encontravam-se armazenados na internet. Nesse sentido, não só o discurso jornalístico é virtual, mas todo o material sob análise. Estamos considerando como discurso jornalístico virtual o conjunto de notícias armazenadas na internet; o discurso político, os textos divulgados em nome do grupo político roraimense; e o discurso indígena, os textos divulgados em nome de um ou de diversos povos indígenas. Considerando a disjunção entre índios e brasileiros, por enquanto, repetimos como hipótese forte o que dissemos na conclusão de nossa pesquisa de mestrado: “brasileiro é brasileiro, índio ... é outra coisa” (LEAL, 2006, p. 177). Mas esse repetir não é sem lembrar que, para a Análise do Discurso, os sentidos não são fixos, não são eternos, nem soltos ao vento. Os sentidos não são em si, mas se constituem sempre “em relação a” outros discursos (CANGUILHEM, 1976), e não se produzem fora da determinação histórica. Dessa perspectiva, pode-se sair da pretensão de que os sentidos são sempre inaugurais e ressaltar o seu processo de construção histórica. Pode-se admitir pensar o processo de colonização do Brasil ainda determinando sentidos para a Nação brasileira e seus povos. Nos termos de Orlandi (1990, p. 16), “o discurso colonial continua produzindo os seus sentidos, desde que se apresentem as condições.” A partir desse entendimento, pode-se vislumbrar que, como todos os que aqui aportaram tornaram-se “os brasileiros”, o índio pode até vir a ser brasileiro no discurso jornalístico virtual. Esperemos pelas conclusões desta pesquisa que ora se anuncia. Desse modo, nosso problema de análise nesta pesquisa circunscreve-se em torno dos índios, das terras, dos brasileiros na configuração atual do jogo histórico-político materializado no discurso jornalístico virtual, mas também no discurso político e no discurso indígena. No discurso, o que se apaga na relação entre língua e história, em termos da constituição de sentidos do discurso jornalístico online, deixa vestígios – marcas regulares, ausências significativas – sobre os quais trabalharemos. Assim, nossa 16 discussão será permeada pelos problemas anteriormente mencionados: uma obviedade construída e fixada (demarcação de terras para os índios) e, simultaneamente, o que essa evidência impossibilita (demarcação de terras para os não índios, ou seja, para os brasileiros). Recuemos um pouco na nossa história. Conforme a tradição dos estudos históricos postula (PRADO JÚNIOR, 1998; HOLANDA, 1995), a terra brasilis foi alvo e palco de uma disputa secular. Foi um embate envolvendo os diversos povos que aqui viviam e os europeus que chegaram, a princípio, os portugueses. Em momentos posteriores, de um lado, estavam os portugueses em aliança com alguns povos originários contra outros europeus que almejavam ter o domínio sobre a nova terra. Várias foram, portanto, as etapas dessa luta, sobretudo, nos dois primeiros séculos. Interessa-nos nesse processo sublinhar que o Brasil tornou-se o que os europeus que aqui chegaram puderam e deviam dele dizer (PÊCHEUX, 1993). Ou seja, o que se pôde ver e dizer a partir da visada eurocêntrica, pela qual o que era próprio às sociedades européias as qualificava como superiores em relação a qualquer outro ser humano das outras regiões do mundo. E o dizer conformado por essa concepção eurocêntrica do mundo teve força suficiente para se sobrepor e estipular, por exemplo, a quem pertence a terra, a língua a ser falada, os princípios classificatórios e os valores, enfim. Dessa forma, resulta desse trajeto uma memória sobre as terras do Brasil. Memória discursivizada e oficialmente repetida em livros didáticos, bancos escolares, órgãos oficiais e discursos políticos. Na construção dessa memória não interessa lembrar que o solo brasileiro era já secularmente povoado. Por essa construção, certos fatos, mesmo grandiosos, podem (devem) ficar fora como, por exemplo, uma guerra cuja duração fora de setenta anos. Estamos nos referindo à Guerra dos Bárbaros, travada no período colonial, de 1650 a 1720, pelos colonizadores contra os povos Tapuia, na região que hoje se estende dos estados da Bahia até o Maranhão (PIRES, 1990, 2007). Ou seja, há uma memória que trabalha para não deixar ressoar (SERRANI, 1993) que as terras que vieram a ser o Brasil pertenciam aos diversos povos que foram denominados/classificados pelos portugueses como ‘índios’, memória que também, em não formulando dizeres sobre diversos acontecimentos históricos, não os deixa circular e significar enquanto fatos históricos de resistência indígena, por exemplo. Conforme essa memória construída pela visada eurocêntrica e assegurada pela repetição, o Brasil passa a existir com a chegada dos portugueses. Como se faz atestar pela repetição do que se tornou memória, o Brasil foi descoberto pelos portugueses: 17 Pedro Álvares Cabral aqui chegou no dia 22 de abril de 1500. Antes ..., não havia antes na memória construída pelo colonizador. Para essa afirmação não parecer descomedida, pode ser proveitoso pensar em respostas possíveis de serem dadas por estudantes ao final do ensino médio (após doze anos de escolarização, que é a formação máxima da ampla maioria da população brasileira), ou de um curso superior, ou talvez mesmo ao final da vida: o que sabem sobre esse antes e suas gentes? Afinal, atualmente, tempos em que as línguas indígenas já não são mais obstáculos tão grandiosos, uma vez que diversos povos indígenas sequer falam a língua de seus antepassados, o que é dado conhecer e, sobretudo, o que se põe em circulação sobre os séculos anteriores ao “descobrimento” do Brasil e sobre os saberes e os conhecimentos dos povos indígenas dessas terras? É nesse sentido que nos referimos, sem muito receio de excesso, ao “tempo do antes e seus povos inexistentes”5 para nomearmos e qualificarmos a lacuna da/na história oficial (e, concomitantemente, da pauta escolar) sobre os diversos povos que há muito aqui viviam. Como afirma Ribeiro (1992, p. 18) ao discutir sobre a dita descoberta da América: “Claro que lá, no indescoberto, havia gentes, (...) mas era como se não existissem (...). Os povos americanos inexistiam (...).” E, tomando o caso específico do Brasil, diz Carneiro da Cunha (1992), retomando Todorov (1983): a cada lugar, o nome do santo do dia: Todos os Santos, São Sebastião, Monte Pascoal. Antes de se batizarem os gentios, batizou-se a terra encontrada. De certa maneira, desta forma o Brasil foi simbolicamente criado. Assim, apenas nomeando-o, se tomou posse dele, como se fora virgem. Assim também a história do Brasil, a canônica, começa invariavelmente pelo “descobrimento”. São os “descobridores” que a inauguram e conferem aos gentios uma entrada – de serviço – no curso da História. (CARNEIRO DA CUNHA, 1992, p. 9. Grifo nosso.) Com essa forma de “entrada no curso da história” é que se pode afirmar que no que se re-conta sobre o Brasil e os índios não havia/há o antes. Nesse sentido, vale mencionar que, como resultado da resistência dos povos indígenas ao apagamento de suas memórias, à exclusão de histórias, chegou-se à obrigatoriedade da inclusão da história e da cultura dos povos indígenas como tema de estudos. Estamos falando do ensino brasileiro, fundamental e médio, em pleno século XXI. Além disso, se os negros 5 Em relação a essa denominação, mencionamos o livro Antes, o mundo não existia, de Umusin P. KUMU e Tolamãn KENHIRI. E, ainda sem sair dos títulos, também vale citar “A história de um esquecimento”, de FREIRE, José R. Bessa. In: Rio Babel: a história das línguas na Amazônia. Rio de Janeiro, RJ: Atlântica Ed.; EdUERJ, 2004. 18 conseguiram essa “façanha” em 2003 (Lei 10.639/03), aos índios isso só foi possível em março de 2008 (Lei 11.645/08). Mesmo com essas conquistas, vale ressaltar que data de janeiro de 2009 a publicação do primeiro livro elaborado a partir do que se pôs na letra da lei quanto a dar outra abordagem para negros e índios na história e na cultura brasileiras. O livro é de autoria de João Alves Tiradentes e Denise Rampazzo da Silva. Trata-se de um livro de dupla entrada: de um lado, os negros (Sociedade em construção – História e cultura negra brasileira. O negro na formação da sociedade brasileira, com 171 páginas); de outro, os índios (Sociedade em construção – História e cultura indígena brasileira. O índio na formação da sociedade brasileira, com 71 páginas). Considerando a nossa pesquisa, não podemos deixar de interrogar: meramente quantitativa essa diferença de páginas dedicadas a cada uma das partes em se pensando o apagamento do índio nos discursos do descobrimento?6 Conforme o acima exposto, não nos restringiremos ao que os portugueses puderam aqui ver. ‘Puderam’ aqui significando não só o fato de poder conseguir – tecnicamente falando, com o desenvolvimento dos meios de navegação –, mas também aquilo que é determinado historicamente, a forma possível de o povo português dar sentidos, na sociedade daquele modo constituída e naquela época, conforme apontamos anteriormente (ORLANDI, 1990; MARIANI, 2004, 2007, entre outros). Mas é, sobretudo, considerando o funcionamento do discurso jornalístico online sobre a demarcação/homologação de terra indígena que buscaremos apreender nesse discurso, ao noticiar e discutir sobre as fronteiras geográficas e políticas, a distribuição de poder entre os que aqui vivem: separam-se os que podem e devem ter a posse da terra brasilis, os que podem deter e se manter no poder. No percurso desses dizeres, não nos interessam em si os milhões de quilômetros que ininterruptamente perfazem a extensão territorial do país, ou a milimetragem que divide a terra em indígena e não indígena.7 Nos dizeres que trazem a disputa pela posse de terras entre índios e não índios, interessam-nos os sentidos que são postos em circulação e que circunscrevem os limites discursivos da Nação brasileira. Nesse sentido, buscaremos elucidar a natureza das linhas retraçadas na materialidade da 6 A Lei 10.639/03 e parte deste livro, mais especificamente a História e cultura negra brasileira, são objetos de uma pesquisa que está sendo desenvolvida por Mário Abdala Netto, no Programa de PósGraduação da UFF, sob a orientação da Profª. Drª. Bethania Mariani. 7 A título de exemplo, citamos a precisão minuciosa da extensão da terra Raposa Serra do Sol, que vai da casa de um milhão à dos centiares: “superfície total de um milhão, setecentos e quarenta e sete mil, quatrocentos e sessenta e quatro hectares, setenta e oito ares e trinta e dois centiares (...)”. (BRASIL. Decreto nº 73, de 18/04/2005. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 15 de abril de 2005. 19 língua, pelas quais interrogamos: de que modo a pretensa exatidão dos marcos políticogeográficos do país entremostra-se significada no/pelo processo discursivo? Em lugar da continuidade do traço, buscaremos pôr em relevo a porosidade das fronteiras discursivas cujas linhas descontínuas, múltiplas e contraditórias tramam os sentidos do Brasil contemporâneo, repartindo o poder político internamente. Para estabelecer uma analogia, remetemos ao movimento – quase sempre invisível, mas contínuo – das diversas camadas da terra a re-configurarem lentamente sua superfície física que nos é perceptível como um produto. A partir disso, podemos vislumbrar o funcionamento das fronteiras discursivas da Nação, em uma sempre movência de sentidos na qual se entrelaçam semelhanças e dessemelhanças resultando em abalos e alterações nos seus tênues contornos semânticos – aparentemente imutáveis, mas já-sempre sujeitos a outros reajustes, a re-acomodações temporárias de sentidos. Tal processo, não cabe ao leitor dos dizeres sobre a demarcação de terra indígena apreendê-lo em sua leitura diária, mas ao analista que, percorrendo marcas dispersas a partir de sua pauta de questões, depreende direção de sentidos. Há que se ponderar que o discurso midiático online, mesmo no seu processo de produção de sentidos postos em circulação num ritmo frenético, não abarca o que se tem a dizer, mas necessariamente “elege” e traz para si parcelas do dizível sobre os índios e a posse de terras brasileiras. Por esse mecanismo, faz vigorar certos dizeres e relega outros às margens, enfraquecendo-os. Trabalha-se a construção/manutenção de uma memória e, ao mesmo tempo, trabalha-se o esquecimento de outra(s) memória(s). Assim, também buscaremos investigar como e o quê o discurso jornalístico repete como memória ao dizer de demarcação/posse de terra. Não se deixa de destacar que a relação tempo-espaço do midiático virtual é marcada pela grande quantidade em curta fração de tempo e pelo alargamento do espaço físico em que ela pode chegar. Avulta os dizeres que afirmam a mistura dos lugares e tempos. Conforme aponta Lévy (1996), a virtualização submete a narrativa clássica a uma prova rude: unidade de tempo sem unidade de lugar (graças às interações em tempo real por redes eletrônicas, às transmissões ao vivo, aos sistemas de telepresença), continuidade de ação apesar de uma duração descontínua (como na comunicação por secretária eletrônica ou por correio eletrônico). (... ) a sincronização substitui a unidade de lugar, e a interconexão, a unidade de tempo. (LÉVY, 1996, p. 21) 20 Grosso modo e com várias ressalvas, tomando o exemplo de Boa Vista, Roraima, e considerando que, há poucos anos, os jornais do sudeste do Brasil lá só chegavam muitas horas depois, hoje, uma parcela dos que vivem em Roraima – incluindo também parte dos índios – pode “acessar” grande volume de notícias não só de Roraima e do Brasil, mas do mundo, no instantâneo do virtual. Desse modo, o sítio do jornal boa-vistense, como os outros, não são mais exatamente jornais ‘locais’, pois, além da possibilidade de poderem circular em um espaço que aponta para o ilimitado, também há o fato de a manchete apresentar-se com estrutura idêntica em dois sítios, ou até mesmo o texto ser integralmente idêntico. Pode repetir-se o que se diz em fontes que têm como referência física de origem uma outra região, ou mesmo um outro país. Ou seja, não mais se separam de forma marcada as fronteiras físicas de onde vem a notícia, nem por onde ela segue. Como efeito, erige-se para a notícia um caráter de “notícia de lugar qualquer e de um tempo do agora instantâneo”. Apresenta-se uma indistinção, como se fosse possível apagar as diferenças entre os lugares e os tempos, como se aí não se imbricasse o trabalho do social, do histórico e da linguagem singularizando-os, tramando conjunturas específicas. Como bem coloca Jobim (2006): Um lugar é, antes de mais nada, uma construção elaborada por várias gerações de homens e mulheres que nele habita, ou por ele passaram, e que ajudaram a formular o sentido que tem. Ele é construído por redes públicas de sentido, formadoras de subjetividade. Nele se constituem interpretações públicas simbolicamente mediadas, inclusive sobre o sentido deste lugar e sobre o que significa estar inserido nele. Num lugar, circulam elementos que de algum modo impõem sentido às experiências singulares dos sujeitos, elementos em relação aos quais estes sujeitos interpretam suas experiências (e os textos que lêem), bem como direcionam suas ações. Em outras palavras, o lugar é sempre fonte de pré-concepções que de alguma maneira contribuem para a elaboração do nosso dizer, pois nele se situa o sistema de referências deste dizer – incluindo o universo de temas, interesses, termos etc. –, sistema que sempre já estabelece um limite dentro do qual nosso campo de enunciação se circunscreve. Lugares têm sempre história, e mesmo o apagamento de certos elementos constitutivos da história do lugar também é decorrente de razões históricas. (JOBIM, 2006, p. 95. Grifos nossos.) Assim, é considerando com Jobim (id., ibid.) que os lugares têm sempre história e que essa história também é constituída por apagamentos, que nos voltaremos para o jornalístico depositado no mundo virtual, em vez de embarcarmos no consenso apressado sobre a natureza sem fronteiras da internet. 21 FUNDAMENTOS TEÓRICOS: A ANÁLISE DO DISCURSO Muito embora a demarcação de terras indígenas e, em particular, a Raposa Serra do Sol, já tenha sido objeto de pesquisas nos campos da comunicação social, antropologia, história e geografia, por exemplo, entendemos que, da visada teórica da qual partimos, nossa análise tem a oferecer um exame diferenciado. Da perspectiva discursiva, ao formular questões que possibilitem discutir o Brasil e seus povos na rede de sentidos, esperamos contribuir para uma reflexão sobre nós, povos do Brasil neste início de século XXI. A Análise do Discurso, teorizada por pesquisadores liderados por Michel Pêcheux (anos sessenta a oitenta), na França, e Eni Orlandi (anos setenta até os dias de hoje), no Brasil, nos fornece o arcabouço necessário para percorrer o processo de construção dos sentidos não só de demarcação de terra indígena, mas o que – com isso e a partir disso – pode-se depreender do funcionamento dos sentidos do Brasil e seus povos, entremostrando-se na relação entre atualidade e memória. Dessa perspectiva teórica, os sentidos não são dominados por aquele que enuncia, mas teoriza-se sobre a língua em sua inseparabilidade com a história, sempre em mudança/movimento, numa relação de determinação e constituição. É a partir desses e de outros pressupostos da Análise do Discurso, apresentados abaixo, que nortearemos nossa análise, obrigatoriamente saindo da concepção cotidiana (e teórica) da transparência da linguagem e da separabilidade entre língua e história, entre língua e ideologia, entre língua e inconsciente. Análise do Discurso Cumpre observar que, dado o complexo arcabouço da Análise do Discurso e os objetivos de nossa pesquisa, focalizaremos sobretudo os conceitos que serão necessários para a análise que empreenderemos. Voltaremos a esses conceitos nas etapas destinadas à análise. Segundo Orlandi (2000), os precursores de certas reflexões propostas pela Análise do Discurso (que, às vezes, aparecerá abreviada como AD) datam de há muito, 22 mas a tomada de um objeto de estudo específico só veio efetivar-se sob a conjuntura francesa dos anos sessenta, profundamente marcada pela discussão e práticas políticas. A Análise do Discurso é considerada um novo campo do saber, por propor um novo objeto de estudo: o discurso. Com isso não se está afirmando que todos os seus pressupostos são inaugurais, ao contrário, para fundamentar a Análise do Discurso como uma outra perspectiva de análise da linguagem, tendo em vista a concepção e a análise do seu objeto, Michel Pêcheux (1969, 1975) reterritorializa alguns conceitos teóricos advindos da Linguística, do Marxismo e da Psicanálise. Mais especificamente, Pêcheux não deixa de considerar duas releituras produzidas nessa época (anos sessenta), articulando-as em sua proposta: a releitura de Marx, feita por Althusser e a de Freud, empreendida por Lacan. Além disso, como não poderia deixar de ser, estabelece diálogo com o campo devotado à linguagem, a Linguística, que se encontra numa fase de ampla influência sobre outras ciências. A Análise do Discurso e seu objeto Inicialmente, cumpre apresentar o discurso como objeto teórico, observando como ele é demarcado em relação a outros objetos, o que, concomitantemente, estabelece fronteiras entre esse novo campo de conhecimento e alguns que têm estudado a linguagem no decorrer dos tempos. Situar esse objeto em relação à língua, talvez seja uma das primeiras tarefas que se coloca para a AD. Pode-se dizer que a Análise do Discurso ao propor o discurso está também propondo uma noção de língua. Mas em que concerne sua especificidade? A língua funcionando como um código de comunicação transmitindo informações e sendo manipulada conscientemente conforme a vontade do falante são pontos questionados pela Análise do Discurso. Concebe-se a língua constitutivamente relacionada à exterioridade; de modo que está, portanto, na constituição dos sentidos o históricopolítico-ideológico. Assim, a transparência e a literalidade não são em si e para todos, mas são efeitos, construções que resultam dos embates sociais, na história, e desse modo se fixam. Não se mantém o caráter abstrato da língua dos moldes estruturalistas: ganha lugar a forma-material, marcada pela inseparabilidade entre língua e história na constituição dos sentidos, em lugar de um sistema de regras auto-suficiente e de um exterior que só circunda a língua. Propõe-se que o processo do dizer e seus sentidos são 23 configurados na relação das forças sociais, desiguais e em contínuo movimento, conforme detalharemos adiante. Nos termos de Pêcheux (1997 [1975]), diferentemente do nível estritamente linguístico, “o discursivo só pode ser concebido como um processo social cuja especificidade reside no tipo de materialidade de sua base, a saber, a materialidade lingüística” (id., ibid., p. 179. Grifo nosso). Enquanto processo social, sua materialidade não resta sozinha, anulando os aspectos sócio-históricos, mas carrega em si uma complexidade que é linguística e ao mesmo tempo histórica. Se a ordem da língua diz respeito à organização interna com suas regras e sua sistematicidade, pelo que se pode dizer de arranjo e de combinatória, e em que se opõem forma e conteúdo, a ordem do discurso remete à “noção de forma material que se distingue da forma abstrata e considera, ao mesmo tempo, forma e conteúdo enquanto materialidade” (ORLANDI, 2004, p. 47). Além disso, interessa observar que “a noção de materialidade nos leva às fronteiras da língua e nos faz chegar à consideração da ordem simbólica, incluindo nela a história e a ideologia” (id., ibid., p. 46). Ou seja, não se prescinde da língua, mas também não se restringe às suas regras internas. Resumindo, nos diz Mariani (1998, p. 27) que “significar, produzir sentidos, está na ordem do discurso, que é uma ordem distinta da ordem da língua, mas que a supõe como base”. É desse modo, pois, que a Análise do Discurso dimensiona a língua com a qual trabalha. Pêcheux (1993 [1969]) critica o modelo da comunicação humana, proposto por Jakobson, centrado na transmissão de informação entre interlocutores que trocam mensagens possibilitadas pelo domínio de um mesmo código, a língua. Em vez de uma mensagem codificada por um falante e decodificada por um seu igual, o interlocutor, Pêcheux (ibid., p. 82) propõe o discurso como “efeito de sentidos entre os pontos A e B”, em que há sempre que se considerar as condições de produção. E, com isso, os elementos da comunicação ganham estatutos outros e sequer são elementos da comunicação: Pêcheux ressalta a língua para comunicar e não comunicar. Inicialmente, convém notar que não são os indivíduos fisicamente que interessam nesse processo de constituição dos sentidos. São as posições ocupadas por tais indivíduos nas formações sociais, enquanto lugares que “estão representados nos processos discursivos em que são colocados em jogo” (id., ibid., p. 82), que fazem com que possam dizer e o que dizem resulte no sentido X ou Z. No processo de significação contam, pois, as representações dessas posições, eventualmente ocupadas por alguém que diz o que diz a um outro também em uma certa posição, em um dado contexto 24 sócio-histórico e ideológico. E é nesse contexto que se produzem as imagens sobre esses lugares sociais, imagens que determinam modos de dizer e de significar cada um dos envolvidos no processo de uso da língua. Não se trata, pois, de realidade, mas de “representações imaginárias das diferentes instâncias do processo discursivo” (PÊCHEUX, 1993 [1969], p. 85). Pêcheux (ibid., p. 85) nota que essas representações imaginárias e os próprios dizeres por elas sustentados, só são possibilitados a partir daquilo que já foi dito, do que já se sabe. Assim, ao invés de o falante apresentar-se na origem, ele é apresentado no movimentado curso da linguagem com seus “já-ditos” e suas formas de representar. Cumpre lembrar que, para exemplificar, Pêcheux (1993 [1969]) utiliza-se do discurso político, mais especificamente, da situação de pronunciamento de um deputado que, para dizer, não o faz, senão “a partir de condições de produção dadas” em que o deputado é “situado no interior da relação de forças existentes entre os elementos antagonistas de um campo político dado” (id., ibid., p. 77). Assim sendo, o que é dito “deve ser remetido às relações de sentido nas quais é produzido”, constituindo-se numa resposta direta ou indireta a outro discurso. Courtine (2009 [1981]), ao discutir a relação entre os enunciados e a constituição dos sentidos, propõe o entrelaçamento de “domínios” da seguinte forma: o mecanismo pelo qual sequências discursivas coexistentes “se citam, se respondem ou se refutam” constitui o “domínio de atualidade” (id., ibid., p. 111). Para que esse movimento de concomitância sobrevenha, há uma memória sendo re-atualizada pela remissão às formulações já pré-existentes, condensadoras de certos sentidos no “domínio de memória”. Pelo “domínio de memória” é que “se poderá aproximar os processos que garantem a referência dos nomes por um sujeito enunciador e autorizam, assim, a predicação e a correferencialidade” (id., ibid., p 111). Além desses, o autor propõe o ‘domínio de antecipação’, pelo qual o que é da instância do acontecimento numa atualidade configura-se já também como um tecido para a possibilidade de acolhimento de futuras formulações. Ou seja, pelo ‘domínio de antecipação’ remarca-se que “se existe um sempre-já do discurso, pode-se acrescentar que se terá aí um sempre-ainda” (id., ibid., p. 111). Dessa visada, é realçado que aquilo que se dirá – e se dirá – não brotará de si, mas, do que fora memória, e de como essa memória vai sendo reatualizada. Pela noção de ‘domínio de antecipação’ faz-se saber, em estado de projeção, que advirá memória: num enlaçamento imprevisível, no entanto, sempre no processual do imbricamento de fragmentos de passado e de atualidade que, em não tendo fim, 25 oferece ao analista o exato ponto em que pode vislumbrar em que medida o discurso é aberto, mas “não para qualquer coisa”. Vale notar que na relação entre esses domínios pode-se depreender não “a sequência ‘natural’ do antes, do agora, e do depois, mas sim, as rupturas, os limites e as transformações de um tempo processual” (COURTINE, (2009 [1981]), p. 111). De modo geral, a apreensão desse complexo entrelaçamento dos processos de produção de sentidos a serem compreendidos é a grande questão que se põe para o analista do discurso. Sujeito, sentidos, ideologia Uma vez que se recusa o empirismo no que tange aos interlocutores, ao referente, enfim, ao processo de funcionamento da linguagem, torna-se imperioso para a Análise do Discurso referir às condições de produção específicas do discurso para que se apreenda como nessas condições as palavras fazem sentido. Para isso, a Análise do Discurso constrói um arcabouço teórico-analítico. Nesse sentido, cumpre ressaltar que a AD afasta-se do entendimento ordinário segundo o qual, ao enunciar, o indivíduo o faz percebendo-se na origem do que diz e também tendo a certeza de que mantém sobre seu domínio o exato sentido do seu dizer. Na perspectiva da AD, isso se constitui tão somente em uma dupla “ilusão necessária”, sem tomá-la como princípio teórico. Propõe-se a existência de um duplo esquecimento interligado: o esquecimento número um e o esquecimento número dois (PÊCHEUX, 1993 [1975]). O esquecimento número dois, da ordem da enunciação, é aquele pelo qual se identifica “a fonte da impressão de realidade do pensamento para o sujeito”, apagando-se que há outras maneiras de dizer que não a dele. E, “inevitavelmente inerente à prática subjetiva ligada à linguagem” (id., ibid., p.176), tem-se o esquecimento número um, da ordem (inacessível) do ideológico, pelo qual o falante crê estar em si a fonte dos sentidos, apagando as determinações decorrentes de sua inscrição, como sujeito, na língua e na história. Assim, Pêcheux requer para a língua certa compreensão de enunciação e de ideologia. A partir de Althusser (1970), sobretudo de sua concepção de indivíduo sempre interpelado em sujeito pela ideologia, resultando no assujeitamento sob a ilusão de liberdade, Pêcheux (1993 [1975], p. 166) postula a inseparabilidade de ideologia e discurso, de forma que se deve “conceber o discursivo como um dos aspectos materiais 26 do que chamamos de materialidade ideológica”, e que “a espécie discursiva pertence ao gênero ideológico”. A ideologia tem, portanto, papel constitutivo nos sentidos, nos termos que é pelo trabalho da ideologia que são produzidas “as evidências pelas quais ‘todo mundo sabe’ o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado ‘queiram dizer o que realmente dizem’” (PÊCHEUX, 1997 [1975], p. 160). Esse processo institui a linguagem como transparente, ao apagar “aquilo que é o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados” (id., ibid., p. 160). Da perspectiva discursiva, o referente é “um objeto imaginário (a saber, o ponto de vista do sujeito) e não realidade física” (PÊCHEUX, 1993 [1975], p. 83). É construção linguística que se efetiva pelo processo de substituição, sinonímia, paráfrases, mecanismos possíveis em um discurso específico e, não, algo já fixado e que assim permanecerá. Como cunha Orlandi (1984) o que há são processos de “construção discursiva dos referentes.” Pêcheux apresenta duas noções relacionadas: ‘formação ideológica’ e ‘formação discursiva’. As formações ideológicas são entendidas de maneira que cada uma “constitui um conjunto complexo de representações que não são nem ‘individuais’ nem ‘universais’ mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classes em conflito umas com as outras” (PÊCHEUX, 1997 [1975], p. 166). Essas formações ideológicas “comportam uma ou várias formações discursivas interligadas que determinam o que pode e deve ser dito (...) a partir de uma posição dada numa conjuntura” (id., ibid., p. 166). Assim, o sentido é resultante de sua vinculação a uma dada formação discursiva, determinada por certa formação ideológica. No entanto esse processo de determinação pela formação ideológica é velado, de modo que os embates que definem um certo estado conjuntural não são percebidos. Em outros termos, a relação do sujeito com uma formação discursiva (FD) realiza-se sob a forma da ‘interpelação’: “os indivíduos são interpelados em sujeitosfalantes (em sujeitos de seu discurso) pelas formações discursivas que representam na ‘linguagem’ as formações ideológicas que lhes são correspondentes” (id., ibid., p. 161). No entanto a inscrição do sujeito em uma FD que lhe franqueia o sentido é apagada, o que implica o apagamento da natureza simbólica da linguagem a exigir sentido. Adquire caráter natural aquilo que possui uma materialidade e é interpretado segundo práticas sociais cristalizadas. Assim sendo, o sentido “perde” seu caráter material e sua 27 historicidade, apresenta-se literal e transparente; e o sujeito “perde” o caráter de resultado de uma identificação: apresenta-se livre e autônomo. A ideologia produz evidências, e constitui o sujeito e os sentidos. O sentido encerra, pois, outro tipo de relação com o falante, que não a de domínio e a de consciência. Apesar de se realizar no falante, o sentido traz em seu funcionamento o jogo entre as diversas posições sociais no embate político-ideológico. Com isso, o que se apresenta sob a aparência da escolha individual para esse falante dáse sob a forma de identificação. Para esclarecer a natureza dessa identificação, Pêcheux (1997 [1975]) retoma de Althusser (1970) a noção de ‘forma-sujeito’, segundo a qual “todo indivíduo humano, isto é, social, só pode ser agente de uma prática se se revestir da forma de sujeito. A ‘forma-sujeito’, de fato, é a forma de existência histórica de qualquer indivíduo, agente das práticas sociais” (PÊCHEUX, 1997 [1975]), p. 183, nota 31). Assim, o sujeito identifica-se espontaneamente, não com uma forma-sujeito qualquer, mas com a forma-sujeito da formação discursiva que o domina e o constitui (id., ibid., p. 163). E para tal processo não se requer um prévio consentimento ou consciência por parte do falante. Em suma, pela perspectiva acima exposta, postula-se que os sentidos não estão nas palavras nem são dados pelo sujeito, nem as palavras pertencem a uma única formação discursiva. Mais especificamente, Pêcheux (ibid., p. 160) afirma que o “sentido se constitui em cada formação discursiva, nas relações que tais palavras, expressões ou proposições mantêm com outras palavras da mesma formação discursiva”. Nesse sentido, Pêcheux (ibid., p. 160) propõe que o “processo discursivo passará a designar o sistema de substituição, paráfrases, sinonímias, etc., que funcionam entre elementos linguísticos − ‘significantes’ − em uma formação discursiva dada”. A noção de formação discursiva é uma das noções que foi rediscutida ao longo das fases da Análise do Discurso. Em 1971, entendemos que Haroche, Henry e Pêcheux (1971) já a reterritorializam no campo da Análise do Discurso destacando sua pluralidade e seu caráter não estanque: as formações ideológicas comportam necessariamente, como um de seus componentes, uma ou várias formações discursivas interligadas que determinam o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma harenga, um sermão, um panfleto, uma exposição, um programa etc.) a partir de uma posição dada, numa conjuntura, isto é, numa certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico (PÊCHEUX & FUCHS, 1993 [1975], p. 166. Grifo nosso). 28 Dessa conexão entre as FDs resulta que não se sustenta falar em formação discursiva senão caracterizada pela instabilidade de seus contornos, pelos limites fluidos não separando radicalmente os saberes de seu interior e do seu exterior. Conforme Pêcheux, “uma formação discursiva é constitutivamente ‘invadida’ por outros elementos que vêm de outro lugar (isto é, de outras FD) que se repetem nela, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais” (PÊCHEUX (1993 [1983]), p. 314). É marcada pela heterogeneidade e sua constante relação com outras formações discursivas: não há, pois, fechamento e o sentido existe nessa relação, em conformidade com uma conjuntura sócio-histórica dada, com uma formação ideológica predominante. Em outros termos, é somente ao serem considerados outros dizeres, proferidos em outras posições, que se podem alocar os sentidos de uma certa palavra ou expressão. Encontram-se, pois, em uma FD dizeres que estão em outros lugares, em outras FDs, relacionados entre si de diversos modos. E é nessa relação mesma entre os discursos que atravessam cada formação discursiva que essa formação discursiva se estrutura. Retomemos um aspecto. A Análise do Discurso ao discutir a natureza do não fechamento dos sentidos no seu próprio processo de construção – sentidos construídos sobre sentidos já existentes, sobre o já sedimentado –, estipula o conceito de ‘interdiscurso’. Nos termos de Pêcheux (1993 [1983], p. 314), o interdiscurso é “(...) ‘o exterior específico’ de uma FD”. É esse espaço que dá sustentação ao sentido, que o faz acontecer. É um processo que independe do falante, que pré-existe a um dizer específico e que o torna possível. Essa complexa rede interdiscursiva é o terreno preparado para a continuidade, uma vez que só se pode dizer a partir do que já foi dito. Assim, esse conjunto de “já-ditos” autoriza “novas” formulações, o intradiscurso. Nos termos de Pêcheux (1997 [1975], p. 167), “o intradiscurso, enquanto ‘fio do discurso’ do sujeito, é, a rigor, um efeito do interdiscurso sobre si mesmo, uma ‘interioridade’ inteiramente determinada como tal ‘do exterior’.” Nesse sentido, Orlandi (2000, p. 33), retomando Courtine (2009 [1981]), ressalta que a formulação (o que se está dizendo) só é possível por sua relação com o que já foi dito, da seguinte forma: “todo dizer, na realidade, se encontra na confluência dos dois eixos: o da memória (constituição) e o da atualidade (formulação)”. Segundo a autora, entre a constituição e a formulação há sempre uma tensão e esse procedimento característico da linguagem configura-se através dos processos parafrásticos e polissêmicos. Os processos parafrásticos “são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória” e os polissêmicos são aqueles 29 em que temos “deslocamento, ruptura de processos de significação” (ORLANDI, 2000, p. 36). Assim, há uma contínua relação entre a manutenção − o mesmo − e a transformação − o diferente. A criatividade é marcada pela sua raridade, não se manifestando em cada dizer, mas é a possibilidade de ter-se o diferente que faculta a continuação mesma da linguagem. Isto posto, faz-se mister que nesta pesquisa empreendamos uma reflexão sobre o complexo trabalho de construção da memória em sua relação necessária com o esquecimento. Os discursos jornalístico e político, ou indígena, independentemente de como são consolidados no imaginário social (neutros, democráticos, reacionários etc.), “elegem” e trazem para si parcelas do dizível sobre os brasileiros, os índios e a posse de terras brasileiras. Vão-se agregando a uma ou a outra rede de sentidos e, com isso, fazem vigorar certos dizeres e relegam outros às margens, enfraquecendo-os. Trabalhase a construção/manutenção de uma memória e, ao mesmo tempo, trabalha-se o esquecimento de outra(s) memória(s). Ressalte-se o que nos disse Pêcheux, em 1983: “Memória deve ser entendida aqui não no sentido diretamente da psicologia da “memória individual”, mas nos sentidos entrecruzados da memória mítica, da memória social inscrita em práticas, e da memória construída do historiador” (PÊCHEUX, 1999 [1983], p. 50. Grifos nossos.) Na impossibilidade de tudo abarcar, afinal, o que os discursos jornalístico virtual, político e indígena repetem como memória ao dizer de posse das terras brasileiras? Considerando que o político na língua aponta para a divisão dos sentidos e a política, enquanto manifestação do discurso político, para a administração de sentidos, pensamos ser relevante investigar o funcionamento dos discursos jornalístico e político e ao dizerem (rememorarem) sobre demarcação de terras para índios em relação aos dizeres também desses índios. Ou seja, pensaremos esses discursos buscando discutir “a questão da memória como estruturação de materialidade discursiva complexa, estendida em uma dialética da repetição e da regularidade”, ou seja, conforme Pêcheux (1999) propõe a noção de “memória discursiva”: a memória discursiva seria aquilo que, face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem estabelecer os “implícitos” (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível. (PÊCHEUX, 1999 [1983], p. 52) 30 Por esse entrecruzamento, discutiremos os sentidos de Brasil, de brasileiros, de índio, a posse da terra brasilis, considerando que existe “um outro interno em toda memória” que “é a marca do real histórico como remissão necessária ao outro exterior, quer dizer, ao real histórico como causa do fato de que nenhuma memória pode ser um frasco sem exterior” (PÊCHEUX, id., p. 50). Ou seja, os discursos jornalístico, político e indígena retraçam os sentidos de Brasil e a posse dessas terras sempre considerando o que, pelas repetições anônimas, tornou-se sentido possível de ser dito, fazendo reverberar certos sentidos e, ao mesmo tempo, silenciando outros. O dispositivo de análise Conforme exposto, na perspectiva da Análise do Discurso, não se pressupõe para cada palavra um sentido único e fixo, nem para os textos a existência de uma interpretação verdadeira, mas requer-se a compreensão de como a linguagem enquanto objeto simbólico faz sentido em/para um sujeito constituído pelo inconsciente e pela ideologia. Para realizar essa tarefa, recorre-se ao dispositivo analítico, construído pelo analista para trabalhar as questões por ele levantadas em conformidade com seus objetivos, em relação a um corpus específico. Segundo Orlandi (2000, p. 60), “o dispositivo analítico, a escuta discursiva, deve explicitar os gestos de interpretação que se ligam aos processos de identificação dos sujeitos, suas filiações de sentidos: descrever a relação do sujeito com a memória.” Ao analista cabe, pois, mediado permanentemente pelo dispositivo teórico, trabalhar “(n)os limites da interpretação”, uma vez que “ele não se coloca fora da história, do simbólico ou da ideologia”. De uma “posição deslocada”, cumpre ao analista “contemplar (teorizar) e expor (descrever) os efeitos da interpretação” (id., ibid., p. 60). Para pensar o trabalho do analista, cumpre observar uma noção interligada ao conceito de discurso já exposto: o de texto. Na perspectiva da Análise do Discurso, o texto é o objeto empírico, a superfície linguística com começo, meio e fim a ser recortada pelo analista. Nessa unidade aparente, no entanto, tanto o sujeito pode ocupar diversas posições quanto os enunciados podem ser oriundos de diferentes formações discursivas. Enfim, nos termos de Orlandi (ibid., p. 70), no texto tem-se “uma dispersão do sujeito” e “um exemplar do discurso.” Ou seja, todo texto resulta “heterogêneo, quanto à natureza dos diferentes materiais simbólicos: imagem, grafia, som, etc.; quanto 31 à natureza das linguagens: oral, escrita, científica, literária, narrativa, descrição, etc.; quanto às posições do sujeito.” Assim, sendo o texto atravessado por várias posições do sujeito e enunciados derivados de diferentes lugares, o que se verifica é um trabalho de organização dos sentidos devido a uma Formação Discursiva dominante. O analista do discurso trabalha, pois, com textos enquanto exemplares do discurso. E, assim, o discurso “tem sua materialidade marcada por uma dispersão de textos”. E o discurso, por sua vez, sempre reenvia a outro discurso, possibilitando falar não em um discurso, mas em estado de um processo discursivo. Esse estado deve ser compreendido como resultado de processos discursivos sedimentados, institucionalizados. Como coloca Orlandi (1999b), o discurso é caracterizado duplamente pela dispersão: a dos textos e dos sujeitos. Assim, no processo de análise, o analista movimenta-se do texto para o discurso, entre a unidade e a dispersão, e viceversa. Trazendo essas proposições para pensar este trabalho em torno dos processos de construção de sentidos para a posse das terras brasileiras nos discursos jornalístico, político e indígena, podemos especificar que os textos analisados são um conjunto constituído por manchetes do jornalismo virtual, cartas de representantes políticos e dos índios, em que são produzidos e movimentados sentidos sobre essa temática. Esses textos “dialogam” entre si, entrecruzam-se pelos enunciados que são repetidos, reformulados em cada um desses subconjuntos. Em cada texto podem comparecer tanto enunciados oriundos de diversos campos do saber, notadamente da história, da geografia, da antropologia, da geologia, da economia, como também esses enunciados podem mobilizar direções de sentidos distintas. Ou seja, são enunciados procedentes de diversas formações discursivas e, por isso, podem resultar em diferentes efeitos de sentido. Tais efeitos de sentido, todavia, comparecem já sistematizados conforme a FD dominante no texto em que os enunciados constam, diferenciando-o dos demais textos. O corpus e o arquivo Para a Linguística, o corpus pode equivaler à junção dos componentes, dos itens sobre os quais incidirá a análise; correspondendo, pois, a um conjunto específico de dados, de documentos, de informações em torno de determinada questão. Assim compreendido, o corpus, remete à exaustividade do material que será manuseado e 32 investigado. A Linguística de corpus, por exemplo, lida com quantidades tão volumosas que, em virtude dessa extensão, o corpus deve ser digitalizado, ou seja, deve estar armazenado e disponibilizado em computador para que possa ser manuseado e analisado, e, ainda, acrescido a cada nova pesquisa. Considerando as noções de texto (objeto empírico) e de discurso (objeto teórico da Análise do Discurso), percebe-se que se impõe um deslocamento em relação à concepção de corpus acima. Na perspectiva discursiva, como cogitar o isolamento sendo o próprio texto uma dispersão de enunciados e de posições do sujeito, sendo o texto portador do heterogêneo e apresentado como um exemplar do discurso e, sobretudo, o discurso apresentando-se sempre em processo, re-enviando a outros? Desse modo de conceber o texto e o discurso resulta a impossibilidade de pensar teoricamente o corpus como algo acabado e finito, seja em marcas impressas, sonoras, seja nos mais diversos suportes: em CD-ROMs, discos hards ou flexíveis ou mesmo na virtualidade da internet. Assim, para a Análise do Discurso as linhas limítrofes do corpus são outras. A natureza da abertura referente ao corpus diz respeito, sobretudo, à concepção teórica de processo discursivo, das múltiplas relações entre os sentidos. E, independente da quantidade material organizada, a incompletude sempre se colocará e, assim, cabe ao analista do discurso assumir sua questão como parte de um processo discursivo, em que estão sempre imbricados diferentes “domínios” (COURTINE, 2009 [1981]), de modo que os dizeres ao circularem tanto estabelecem relações entre si, como atualizam uma memória passada, que não é sem esquecimento, e, assim também já apontam para uma antecipação de futuros sentidos, visto que estes não se inauguram em si. Vale sublinhar que a própria construção do corpus, na perspectiva discursiva, já se caracteriza como princípio de análise, tendo em vista que os arquivos institucionais, ao serem tomados, são, de certa forma, desmontados pelo analista em função dos objetivos de sua pesquisa. Nos termos de Orlandi (2003, p. 10): “o corpus em Análise do Discurso é instável e provisório” e marcado pela abertura, pela possibilidade de construção ao longo da pesquisa. O conjunto mais amplo de material coletado é, conforme Courtine (2009 [1981], p. 58), o corpus complexo, aquele em que podem constar, por exemplo, sequências discursivas produzidas em diferentes espaços, tanto em sincronia quanto em diacronia. Diante disso, há que se estabelecer como transitar por essas materialidades linguísticas recolhidas já segundo um marco orientadoraglutinador. Nesse sentido, o analista é convocado, tendo em vista os objetivos de sua 33 pesquisa, a sistematizar esse material e a construir seu arquivo de pesquisa. Como nos ensina Mariani (2003), arquivo, aqui, deve ser entendido como uma noção discursiva que permite ao analista operar com a produção dos sentidos a partir de uma diversidade de textos. A noção de arquivo não corresponde a uma mera acumulação de textos institucionais produzidos ao longo da história. Um arquivo nunca está pronto, pré-estabelecido. Ao contrário, seu modo de funcionamento é opaco. Para o analista do discurso, a exploração arquivística permite a construção de um corpus heterogêneo e é a partir desse corpus que ele vai buscar os processos discursivos. (MARIANI, 2003, p. 81) No nosso caso, para lidar com a extensa textualidade recolhida, tomamos como eixo o que foi formulado sobre a posse indígena da terra, sobre a nacionalidade, a família e o desenvolvimento. Com esse gesto, construímos nosso arquivo, em conformidade com as questões e objetivos da pesquisa, “composto por um conjunto de sequências discursivas do conjunto preliminar de textos” (MARIANI, 1998, p. 52). Sequências discursivas são aqui entendidas conforme Courtine (2009 [1981], p. 55): são “seqüências orais ou escritas de dimensão superior à frase”. Nas sequências discursivas, extraídas de uma vasta massa textual dispersa, compreendendo os discursos jornalístico, político e indígena, interessa-nos buscar apreender o funcionamento, considerando certas marcas que deixam entrever – pela regularidade, mas também por certas ausências – como os discursos sob análise vão tornando possíveis processos de sentidos para o Brasil, os povos que nele vivem, ao pôr em tela a posse indígena da terra. Pode-se apreender o modo pelo qual se vai trabalhando o sentido em uma direção e não em outra. Por esse funcionamento, compreenderemos como os discursos jornalístico, político e indígena se relacionam e sob que forma: aliança, ou recusa, ou oposição. Depreenderemos se o discurso jornalístico trabalha a institucionalização de uma direção de sentido que se irmana ou não com a direção (ou direções) apontada no discurso político e no discurso indígena sobre o Brasil, suas gentes e a posse de suas terras. Assim, tendo sido o arquivo construído pelo analista, voltemo-nos sobre o trabalho discursivo com a materialidade textual. Para isso, consideramos a noção de ‘recorte’ proposta por Orlandi (1984, p. 14). Distinto da “segmentação linguística”, pautada no âmbito da análise frasal, “o recorte é uma unidade discursiva. Por uma unidade discursiva entendemos fragmentos correlacionados de linguagem-e-situação. Assim, um recorte é um fragmento da situação discursiva. (...) Pretendemos que a idéia 34 de recorte remeta à polissemia e não à de informação.” Assim, uma palavra, uma expressão, um enunciado são analisados sempre tomados em relação a suas condições de produção, relação essa de caráter constitutivo. E ainda repetindo Orlandi (2003a), os recortes “não são o fato do analista mas da relação do analista com o material de análise, na detecção dos processos significativos que nele se inscrevem” (id., ibid., p. 11. Grifo nosso). Resultam do trabalho (do analista) de seleção de fragmentos, em quantidade não previamente estipulada, posto que não é a quantidade ou a extensão, mas uma “exaustividade vertical, em profundidade”, em que podem ser tomados os “(...) ‘fatos’ de linguagem com sua memória, sua espessura semântica, sua materialidade lingüístico-discursiva” (ORLANDI, 2000, p. 62). Não se trata, pois, de um dado a ser manipulado, pois não se tem o acabado, mas parte do que não se inicia nem termina, e que se vincula tanto ao passado quanto ao futuro: são “estados de um processo discursivo” (id., ibid., p. 62). No entanto pode-se apreender esse processo e observá-lo em seu funcionamento. Vejamos de que forma. Conforme Orlandi (ibid., p. 62), retomando Pêcheux e Fuchs (1993 [1975]), o trabalho imediato no texto é de “dessuperficialização”, transitar na dispersão do texto e dos textos para, então, chegar-se à discursividade, ao objeto discursivo e ao processo discursivo. Para isso, faz-se necessário considerar a materialidade linguística em circunstâncias sócio-históricas dadas, e examinar o funcionamento de marcas diversas que nessa materialidade tornam-se significativas, e podem ser indicadoras de múltiplas direções de sentidos mobilizadas em relação a certa memória e seus esquecimentos específicos. Desta maneira, pode-se entrever que aquilo que parece possível só ser dito de uma exata forma pode ser contraposto a outros dizeres, construídos sob outras condições e em relação a outras memórias. No processo discursivo busca-se, então, apreender como as formações discursivas estão articuladas à formação ideológica, à relação da língua com a ideologia. Num constante ir-e-vir entre a teoria, o corpus e a análise, “o que temos como produto de análise é a compreensão dos processos de produção de sentidos e de constituição dos sujeitos em suas posições” (ORLANDI, 2000, p.72) Assim, não cabe pensar em demonstração, mas em “mostrar como um discurso funciona produzindo (efeitos de) sentidos” (id., ibid., p. 63). Em poucas palavras, para a Análise do Discurso, não se toma o corpus como natural, sempre já-lá, pelo apagamento de sua historicidade. Não é demais repetir que não lidamos com dados em si e por si, mas com “(...) ‘fatos’ da linguagem” em que há espessura semântica (ORLANDI, 35 2000.). Isso significa também dizer que o corpus em AD é concebido remetendo à questão da ideologia e da memória discursiva (e, portanto, ao esquecimento). O corpus é tomado já de início em relação à instância ideológica que determina o lugar que o constitui, as relações de poder de que faz parte esse lugar. Assim, consideradas a recolha das materialidades textuais e a forma de abordálas em Análise do Discurso, temos a pretensão de percorrer as seguintes etapas: 1) Inicialmente, fazer o levantamento e analisar o modo de referir a posse indígena da terra e fazer o levantamento e analisar as questões aí convocadas. Para isso, tomaremos o discurso jornalístico virtual e, posteriormente, nos voltaremos para os discursos político e indígena, produzidos, principalmente, de 2005 a 2010. Nesse período, trabalharemos, particularmente, com o mês de abril, em que a discussão acerca da terra costuma ser mais intensa; 2) Relacionar essas etapas considerando de que modo a memória irrompe na disputa atual pelas terras do Brasil: não mais entre portugueses e certos povos indígenas; não mais entre portugueses e outros europeus; mas a disputa pela posse da terra brasilis entre índios e não índios; ou seja, entre o índio e os outros – os brasileiros.); 3) Com isso, esperamos circunscrever como na atualidade são traçadas as principais direções de sentidos sobre a posse da terra, dando margens às fronteiras discursivas da nação, pelas quais se faz significar um território e o direito des-igual a essa terra pelos povos que nela vivem. Tendo em vista o acima exposto, o acúmulo, o fechamento e a completude dos arquivos institucionalizados apresentam-se como efeito para o analista do discurso. No âmbito da prática do analista há que se considerar o arquivo sendo construído em conformidade com os objetivos de suas questões de investigação. Não tomaremos, pois, o conjunto dos textos midiáticos online tal qual estruturados pela empresas de comunicação; não lidaremos com as manchetes exata e obrigatoriamente na sequência em que se nos apresenta a temporalidade linear em que foram publicadas. Assim, desde uma primeira recolha de materialidades linguísticas já se nos impõe uma escolha em prol das orientações da pesquisa. Diante disso, o analista intervém e realiza o seu recorte. Discorreremos, a seguir, sobre os procedimentos adotados neste trabalho. A base principal de nosso corpus é constituída por textos jornalísticos publicados online sobre a temática da posse indígena das terras do Brasil. Durante a elaboração da pesquisa a demarcação/homologação da terra Raposa Serra do Sol, em Roraima, foi dada como paradigma para as futuras decisões sobre a posse indígena da 36 terra e foi amplamente noticiada na mídia. Com a proliferação de notícias sobre essa temática, consolidou-se nossa decisão de trabalharmos com textos de sítios situados em diferentes regiões geográfico-políticas do Brasil. Assim, analisaremos como a disputa pela terra entre índios e brasileiros é noticiada em três sítios jornalísticos, sendo dois desses sítios oriundos www.g1.globo.com, das de jornais Organizações considerados Globo (do de referência Rio de nacional: Janeiro) e www.folhaonline.com.br, do jornal Folha de São Paulo (de São Paulo), e o sítio www.folhabv.com.br, de um dos mais antigos jornais de Roraima, o Folha de Boa Vista. Vale observar que, em conformidade com a noção de corpus com que trabalhamos, não buscamos a exaustividade e, assim, não estamos propondo analisar todo o conjunto do discurso jornalístico virtual referente à temática da posse das terras brasileiras. Assim, num primeiro momento, diante do interesse pessoal por quaisquer notícias referentes à disputa pela terra indígena, já percebemos a necessidade de intervenção do analista ao estipular um critério para lidar com a grande quantidade de textos arrolada e, com isso procedermos à construção de nosso arquivo. Em uma segunda etapa, em virtude tanto da leitura discursiva da materialidade textual compilada, foi possível determinar como período o intervalo que sucedeu a homologação da terra Raposa Serra do Sol, em 2005 até o ano de 2010. Neste intervalo temporal, fizemos mais dois recortes: nos restringimos às manchetes que foram publicadas no mês de abril de cada ano e, excepcionalmente, acrescentamos o mês de agosto de 2008. Essa opção deveu-se também ao que constatamos após as nossas primeiras incursões discursivas feitas no corpus, e que não deixam de ter efeitos significativos: o mês de abril, em que se consagra uma data como Dia do Índio, concentra maior profusão de notícias sobre a posse da terra. Quanto à opção pelo mês de agosto de 2008, deu-se em virtude da decisão que deveria ser dada pelo Supremo Tribunal Federal sobre a homologação da Raposa Serra do Sol. Todos os setores sociais envolvidos mobilizaram-se, tornou-se público o embate e pôs-se em circulação diferentes dizeres sobre a problemática da posse indígena da terra no Brasil. A princípio, nos reportaríamos também aos pronunciamentos do conjunto dos senadores e dos deputados federais de Roraima. Cumpre dizer que nossa decisão de retirar tais pronunciamentos do corpus, deveu-se a duas razões: por termos analisado os discursos dos deputados estaduais de Roraima sobre a Raposa Serra do Sol em nossa pesquisa de mestrado (LEAL, 2006), e, sobretudo, por uma das conclusões aí 37 apontadas, a saber: delineou-se uma unanimidade contrária à homologação da terra Raposa Serra do Sol em área contínua; e, pelas primeiras leituras dos discursos feitos em Brasília, percebemos não ter havido alteração na composição do quadro político roraimense no âmbito federal e, quanto aos pronunciamentos, consideramos que não havia nenhum indício de termos uma direção de sentidos diferente, quanto à questão da terra, da que fora apontada na pesquisa acima referida. Com isso, o discurso político encontra-se contemplado através de três cartas divulgadas em nome da totalidade dos políticos roraimenses que, após rediscutirem longamente o assunto, apontam sua posição sobre a questão da posse da terra. Ao longo deste trabalho, nos reportaremos ao conjunto dessas cartas como ‘cartas políticas’. Diante dos textos jornalísticos e políticos arrolados sobre a disputa da terra, ainda nas leituras iniciais fomos percebendo a desigualdade com que se divulgava o dizer indígena – ou mesmo a ausência. Tendo em vista o pouco comparecimento da voz dos índios nos sítios considerados de referência, recorremos a outros espaços. Assim é que também se somam ao nosso corpus textos produzidos por diversos povos indígenas: são dez cartas de associações e organizações de povos indígenas de Roraima. Duas cartas são de assembléias do povo Yanomami, ocorridas em 2000 e em 2003; e oito cartas são documentos resultantes de um evento denominado Assembléia dos Povos Indígenas do Estado de Roraima, que teve sua trigésima nona “edição” realizada em 2010. Reunimos as cartas das assembleias que ocorreram de 2003 a 2010. Ao longo deste trabalho, o conjunto dessas cartas estará sendo referido como ‘cartas indígenas’. Os textos relacionados – os textos jornalísticos, as cartas dos políticos bem como as cartas indígenas –, todos se encontravam disponíveis na internet, o que se configurou também como um critério para a seleção dos textos. Resumindo: o arquivo para este trabalho resultou constituído pelas manchetes que divulgam a questão da terra em disputa entre índios e brasileiros em três sítios jornalísticos, e como essa questão é discutida em três cartas do grupo político de Roraima, bem como em oito cartas de assembleias gerais de povos indígenas. Também contaremos com um corpus auxiliar, formado por conjuntos de textos sobre os quais não incide diretamente a análise, mas a que recorreremos sempre que se fizer necessário. Considerando que os sentidos são constituídos sempre em relação a outros dizeres, traremos dois grandes blocos de textos com os quais os discursos midiático virtual, político e indígena mantêm intensa relação. Em um conjunto estão pronunciamentos diversos – do Presidente da República, em datas comemorativas, 38 como o Dia do Índio; de dirigentes da FUNAI; de autoridades do Exército. Além desses discursos, há diferentes documentos, tais como pareceres da Assessoria Geral da União, laudos antropológicos e, recentemente produzidos no âmbito do Supremo Tribunal Federal, os textos que compreendem o relatório e os votos dos Ministros. Enfim, nos reportaremos a uma gama de textos de cunho jurídico que sempre acompanharam essa questão. Nesse conjunto de textos também se incluem a Lei de Terras e textos constitucionais. No outro conjunto que compõe o corpus auxiliar, estão outros textos produzidos pelos índios. Cumpre enfatizar que alguns povos indígenas do Brasil, além de terem acesso à internet, dispõem, se não de sítios próprios, de acesso a sítios em que são disponibilizados textos dos próprios índios, em que a questão da terra é discutida. Nesse bloco também se somam a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (aprovada em 2007) e artigos oriundos de diversos campos do conhecimento nos quais se discute a questão indígena considerando as diferenças desses povos, suas necessidades, seus direitos. Enfim, são dizeres que levantam questões outras e carreiam sentidos que não se igualam aos predominantes nos discursos midiático virtual e no político quando se trata da posse da terra brasilis. Ao contrário, como dissemos, com este último conjunto de textos poderemos fazer um contraponto com os dizeres político e midiático online sob análise. Com essa materialidade textual oriunda de distintas regiões do Brasil e, sobretudo, materialidade em que se constituem diferentes posições discursivas relacionadas de forma variada, pensamos poder apreender direções de sentidos diversas sobre a posse das terras do Brasil. Com isso, passemos a algumas observações sobre o jornalismo online. Como já dissemos, todos os textos que compõem nosso arquivo estão/estavam armazenados na internet. Em virtude disso, faremos algumas observações sobre aquilo que, do funcionamento no/do espaço virtual, afeta mais diretamente nossa questão de pesquisa. Os estudos voltados para o universo virtual têm destacado a estrutura não linear como característica do texto em rede, o hipertexto, como tem sido chamado. Essa estrutura diferenciada do hipertexto, tomado em relação ao texto impresso, é possibilitada por certos vocábulos ou expressões que são oferecidos como pontos de abertura para outros textos (LÉVY, 1996). Conforme Marcuschi (1999): 39 O termo hipertexto foi cunhado por Theodor Holm Nelson em 1964, para referir uma escritura eletrônica não-seqüencial e não-linear, que se bifurca e permite ao leitor o acesso a um número praticamente ilimitado de outros textos a partir de escolhas locais e sucessivas, em tempo real. Assim o leitor tem condições de definir interativamente o fluxo de sua leitura a partir de assuntos tratados no texto sem se prender a uma seqüência fixa ou a tópicos estabelecidos por um autor. Trata-se de uma forma de estruturação textual que faz do leitor simultaneamente co-autor do texto final. O hipertexto se caracteriza, pois, como um processo de escritura/leitura eletrônica multilinearizado, multiseqüencial e indeterminado, realizado em um novo espaço. (MARCUSCHI, 1999, p. 21-22) A natureza dinâmica que o hipertexto oferece enquanto “forma de estruturação textual” para um percurso de leitura em que o internauta pode movimentar-se, posto que se “permite ao leitor o acesso a um número praticamente ilimitado de outros textos”, condensa o aspecto peculiar da relação entre o hipertexto e o internauta. Essa característica tem sido amplamente exaltada e apontada como uma grande revolução, a reinvenção da escrita. Não obstante as consagrações concedidas pelos entusiastas às ilimitações do virtual e à liberdade proporcionada ao internauta, é oportuno aqui (re)fazer algumas ressalvas. Primeiramente, há que se destacar que, embora se apresente como um mundo, pode-se dizer da internet como ‘um mundo à parte’ no mundo: não são poucas as áreas fora do perímetro da rede, como também não são tantos assim os que estão entre os ‘todos’ que têm acesso a esse reduto, seja para dizerem seja para serem ditos. A internet como o ‘mundo sem fronteiras em que todos estão’, conforme apregoam o senso comum e alguns teóricos, não é senão com esquecimentos: vários países, amplas regiões e um continente quase em sua totalidade estão fora da cobertura do ‘todo espaço’ abarcado pelo mundo virtual. Nas mesmas estatísticas, consideradas sérias, em que podem ser vistos os países e os índices de usuários da internet, também podem ser vistas as largas as faixas do globo e os gráficos de não usuários que indicam o lado de fora do mundo virtual. A superposição do mapa do mundo virtual sobre o mapa-múndi bem mostra a falta de alcance geográfico, o dentro e o fora da internet8. Nesse sentido, vale recorrer a esses outros números: se hoje somamos no mundo cerca 8 Diversas tabelas e vários gráficos indicativos da distribuição de usuários da internet no mundo, por regiões geográficas, podem ser vistos em http://www.internetworldstats.com/stats.htm. Acesso: 02/09/10. 40 de seis bilhões e meio de pessoas, os que têm acesso à internet não chegam à casa de dois bilhões. Ou seja, mais de 70% das pessoas do mundo estão fora do universo virtual. As cifras referentes ao Brasil nos dizem que dos cento e noventa e dois milhões de habitantes, somente sessenta e sete milhões podem adentrar no universo virtual, conforme afirmam os números mais otimistas. E isso sem que seja considerada a qualidade do acesso. O resto, a ampla maioria que fica fora como seres não-virtuais, tanto existe nas camadas mais pobres de qualquer metrópole avançada do sul e sudeste, quanto vive em grande parte de certas regiões brasileiras. Na região norte, mesmo em algumas capitais – como Boa Vista (RR) – a banda larga não vai além de trechos de dois bairros, com uma conexão que não ultrapassa meia unidade de megabyte, contra os cem megabytes disponíveis em algumas cidades do sudeste brasileiro. Não é fora desse contexto que muitos brasileiros – e índios – têm acesso ao mundo virtual. Os índios, muitas vezes em conjunto com outros povos, têm acesso à internet e construíram seus próprios sítios. A título de exemplo, mencionamos o sítio www.indiosonline.org.br, que se apresenta sob os seguintes termos: ÍNDIOS ONLINE é um canal de dialogo, encontro e troca. Um portal de diálogo intercultural, que valoriza a diversidade, facilitando a informação e a comunicação para sete nações indígenas: Kiriri, Tupinambá, PataxóHãhãhãe, Tumbalalá na Bahia, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó em Alagoas e os Pankararu em Pernambuco e para a sociedade em forma geral. Os mesmos índios se conectam a internet em suas próprias aldeias, realizando uma aliança de estudo e trabalho em beneficio de suas comunidades e o mundo. 9 No que diz respeito ao jornalismo online, sublinhamos alguns pontos relevantes para este trabalho. Não é demais lembrar que nem tudo se noticia: há fatos que parecem “naturalmente” escapar do amplamente divulgável. Isso se dá como se certos acontecimentos brotassem, por si, sempre-já-fora da zona do interessante do dizer e, por isso, ficassem sem possibilidades de construção/circulação, enfim, sem fazer sentido entre os outros dizeres já gestados na linhagem do poder-fazer-sentido. A despeito de toda essa orquestração, devemos sublinhar que o funcionamento da língua não se dá fora do jogo de poder entre as diferentes classes sociais. Podemos apontar naquilo que é dado como francamente noticiável uma das formas de materialização exemplar do que predomina em nossa desigualdade social, do que resulta proeminente na distinção com 9 Disponível em: http://www.indiosonline.org.br/novo/quem-somos/. Acesso: 06/12/2010 41 que os indivíduos entram/estão na cena social ao mesmo tempo em que a (re)produzem, dizendo de si e dizendo-a enquanto sociedade. Assim, o que pode vir-a-ser notícia é já determinado historicamente, é efeito das práticas sociais nas quais opera uma ideologia dominante. Desse modo, há muitos acontecimentos sociais que a internet não (su)porta, fatos que não constam no ‘tudo’ nela divulgado e arquivado. Assim compreendendo, o que escapa do todo noticiável do jornalismo online quando divulga a disputa pela posse das terras brasileiras? Veremos detalhadamente esse aspecto no decorrer das análises, pois, relembrando, de nossa perspectiva teórica, o sentido, em sendo “relação a”, também o é em relação ao que poderia ter sido dito. Um outro aspecto relevante para este trabalho é que, no virtual, não cessa de valer que os dizeres (e seus sentidos) têm suas condições de produção como constitutivas: os sentidos não são produzidos no não-lugar atemporal. A existência de inquantificáveis sites, blogs, facebooks, os distintos serviços de comunicação instantânea, enfim, as mais diversas formatações do virtual não permitem vislumbrar o acesso de qualquer cidadão à rede mundial de computadores e, por outro lado, entre os que lá estão, não há uma participação igualitária. Em outros termos: diz-se sempre de um lugar histórico-político-ideológico em relação a outros lugares; trama tecida sempre conforme dada conjuntura, numa arquitetura que ultrapassa os indivíduos, constituindo/forjando suas vontades, preferências e desinteresses. Assim sendo, não há uma relação direta de causa e efeito entre a quantidade de dizeres/textos produzidos e postos em circulação na internet e a força dos sentidos que portam. Tampouco se toma parte, fraternalmente, na roda da disputa do poderio dos dizeres e sentidos. Em uma palavra: o virtual não instaura uma igualdade do dizer, pela qual todos os textos resultariam pasteurizados com uma mesma acuidade significativa, conforme se poderia supor no lastro dos sentidos correntes sobre a internet. Não encampamos, pois, sem reservas, esse caráter ilimitado atribuído à internet, e pontuaremos ao longo das análises que partilhar a crença desse poderio virtual é, de certa forma, vivificar a concepção de sujeito como sumo de si e origem de seu dizer, para quem a língua é objeto manipulável, instrumento de comunicação maxipotencializado pela rede. Contrapondo-nos a isso, discutiremos o ‘jornalístico na internet’ como artefato atualizado do fenômeno ‘imprensa’ como instituição. Vale recorrer ao que nos diz Mariani (1998) sobre o modo de funcionamento específico do discurso jornalístico. Para a autora, o discurso jornalístico deve ser tomado como um dizer institucional resultante 42 de um lento processo histórico fortemente moldado pelo jurídico, pelo qual se constituiu a imprensa. (No caso do Brasil, os contornos do que atualmente é o fazer jornalístico são forjados com base nos primeiros impressos nos domínios de Portugal, no século XV. Mas essa não é nossa questão.) Uma imprensa de cujo modo de existência histórica o virtual é tributário, apesar de a notícia ter saído do papel e des-materializado-se em outro meio, a tela do computador. Com isso não tentamos desvirtuar todos e quaisquer avanços incorporados ao jornalismo advindos da tecnologia e a partir dos quais o jornalismo vem redesenhando sua história. No entanto enfatizamos que o jornalismo virtual não deixa de configurar-se como uma geração que necessariamente convive com gerações anteriores e das quais não há como desvencilhar-se.10 Vale notar que, em um dos sítios analisados, o do jornal Folha de Boa Vista (RR), não há sequer links permeando o texto e, além disso, em diversas matérias informa-se que a íntegra estará na versão impressa do dia seguinte. Ou seja, não apresenta uma das características apontada como basilar no hipertexto. Dada a natureza do jornalismo como construção histórica, interessa-nos destacar as implicações decorrentes para o dizer desse lugar institucional que, ao formular e fazer circular, reveste-se de uma caracterização própria ao ‘discurso sobre’. Conforme propõe Mariani (1998) ao analisar o discurso jornalístico sobre o Partido Comunista Brasileiro, o discurso jornalístico existe sob o efeito de “tornar objeto aquilo de que se fala”, apresentando-se como discurso intermediário entre a ‘origem’ e os receptores. Assim, constrói para si uma imagem daquele que “apenas mediatizaria – falaria sobre – da forma mais literal possível um mundo objetivo.” E, em virtude disso, opera sob o efeito de imparcialidade, dado pelo distanciamento do objeto descrito: “mascara-se um apagamento da interpretação em nome de fatos que falam por si”. A isso se soma que “cabe ao discurso jornalístico organizar e ordenar cotidianamente os acontecimentos, de modo a mostrar que pode haver mais de uma opinião/explicação para o fato em questão, mas nunca um fato diferente do que foi relatado” (MARIANI, 1998, p. 63). Ou seja, o discurso jornalístico propõe-se a “desambigüizar o mundo” (id., ibid.), utilizando-se de 10 Nesse sentido, vale mencionar que um dos mais antigos jornais do Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil, teve sua última edição impressa em 30/08/2010. O jornal, no entanto, continuará no formato online. Independentemente dos motivos que levaram a isso, ressaltamos o flagrante de um exemplo da mudança vivida pelo jornalismo: uma espécie de ritual de passagem em que o ancestral, o papel jornal, desmaterializa-se nas telas, muda de suporte. 43 uma linguagem dita objetiva e dada como transparente, a serviço de uma informação neutra e totalizante. É compreendendo o jornalismo online como um discurso sobre que atribui ao dizer caráter de legitimidade e de didatismo neutro no repasse de informações, de um lugar autorizado que relaciona e oferece ao leitor os fatos em torno de causas e consequências linearizadas. É, pois, frente a esse legado constitutivo, e a ele recorrendo sempre que necessário, que discutiremos o jornalismo virtual deste início do século XXI ao noticiar a disputa entre índios e brasileiros pela posse das terras do Brasil. De que forma, o “excesso do dizer virtualizado” enquanto processo de produção e circulação de sentidos interfere nesse processo? De que modo esse funcionamento toca a dominância de um sentido em relação aos outros? Diante das afirmações correntes sobre a liberdade do internauta no hipertexto, da perspectiva discursiva faz-se necessário tecer algumas observações. É fato que é possível abrir/estar em vários sítios, simultaneamente, em diversas línguas, um de cada continente. No entanto isso não é sem estar fisgado e identificado a uma dada região de sentidos, dispersa, heterogênea e contraditória, sim. Mas nada que nos autorize a vislumbrar o sujeito desconectado de uma realidade histórico-política cuja ideologia o interpela e fornece-lhe sentidos para si e para que se sinta significando o mundo ao seu redor. Os efeitos dessa “enxurrada” de textos, de repetições e paráfrases não desmantelam os processos de identificação e de subjetivação. E não é a quantidade e a diversidade que fundam esses processos, tampouco diz respeito aos procedimentos físicos de um indivíduo, mas à entrada do sujeito na linguagem cuja forma resulta traçada pelo/no seu dizer. Dizer marcado pela opacidade, a despeito de o texto ser produzido no computador e estar arquivado na internet: continua sendo necessário sair da superfície da materialidade textual, desconstruir mares – que seja – para apreendermos sentidos que aí navegam em ondas desiguais, dispersas e contraditórias. Assim, podemos depreender relações que vão sendo feitas com o que está espalhado no universo virtual ou fora dele. Ou seja, por mais que o jornalismo remeta a seu próprio arquivo, certo é que o virtual não se encerra no virtual: a forma como o sujeito “linca” o que está oferecido na página da internet com os sentidos que já fazem sentido para/no sujeito extrapola a rede, por mais que ela signifique “o tudo para todos”. Pois o sujeito não vai como tábula rasa, não vai começar a se constituir na rede (tampouco esse processo prescinde da memória). 44 Na contrapartida, vale lembrar: um só parágrafo, materializado na impressão de uma página de papel, não certifica os sentidos que se farão evidentes para o sujeito e com que outros sentidos ele fará suas articulações viscerais. Dessa forma, podemos refletir sobre a possibilidade de entrada em n-links oferecidos e a filiação aos sentidos (su)postos na página. Esse é nosso interesse: o filiar-se a dados sentidos e não a outros no intenso fluxo da internet. Não nos parece que por ter volume de materialidade textual o sujeito tenha outra forma de relacionar-se com os sentidos. Como frisa Orlandi (2001), A subjetivação é uma questão de qualidade, de natureza: não se é mais ou menos sujeito, não se é pouco ou muito subjetivado. Não se quantifica o assujeitamento. Com isto estou dizendo que quando se afirma que o sujeito é assujeitado, não se está dizendo totalmente, parcialmente, muito, pouco ou mais ou menos. O assujeitamento não é quantificável. Ele diz respeito à natureza da subjetividade, à qualificação do sujeito pela sua relação constitutiva com o simbólico: se é sujeito pelo assujeitamento à língua, na história. Não se pode dizer senão afetado pelo simbólico, pelo sistema significante. Não há nem sentido nem sujeito se não houver assujeitamento à língua. Em outras palavras, para dizer, o sujeito submete-se à língua. Sem isto, não tem como subjetivar-se. (ORLANDI, 2001a, p. 100. Grifos nossos.) Nesse sentido, considerando que “para dizer, o sujeito submete-se à língua”, ponderamos que a filiação ideológica não é uma questão de quantidade e/ou de velocidade, nem se vincula ao fato de se ter ou não acesso ao virtual. Desse modo, o sujeito continua só podendo estar em um só lugar a cada tempo: a formação discursiva que o constitui, de onde para o sujeito os sentidos são naturais, evidentes. Esse lugar é jamais vazio/neutro, posto que sempre qualquer dizer é ideológico, não importando se para isso são utilizados as cordas vocais, a pena e o tinteiro, as teclas de qualquer aparelho tecnológico contemporâneo. Com isso, não estamos afirmando que o sujeito não se mova ideologicamente. Ao contrário, para a Análise do Discurso, a identificação e a subjetivação são processos. Porém, não é a quantidade e a velocidade virtuais que impeliriam o sujeito nesse processo. Além de tudo isso, a grande quantidade de links e o que neles está não brota da mera instrumentação e da parafernália técnica, mas de trabalho de construção de arquivo. Na rede eletrônica não está senão uma textualidade já vasculhada e previamente escolhida: não há sítio sem essa montagem, sem essa tarefa de compilação, de recolha-escolha dos textos que o constituem. Interessa-nos, da perspectiva da Análise do Discurso, discutir o processo apagado nesse constituir-se. Ou seja, interessa-nos 45 discutir o processo que constitui isso que se apresenta como o conjunto “dos tudos” para a “livre escolha” do internauta. Como nos diz Romão (2006a): vale ressaltar que esse mito da acessibilidade infinita no ciberespaço merece des-construção, pois o que se mostra na internet é uma soma de arquivos eletrônicos que foram recortados, selecionados e manipulados anteriormente a sua exposição, que instalam, no espaço do dizível, sentidos de universalidade. É como se tudo e todos estivessem lá, ainda que vindos de lugar nenhum; é como se houvesse uma equivalência natural e/ou direta entre esse ciberespaço construído e os atos de linguagem que o constituem; enfim, é como se a injunção ideológica do dizer e do lincar não existisse e, por fim, é como se os sentidos na/da textualidade eletrônica não fossem “encontráveis em outro lugar”. (ROMÃO, 2006a, p. 11) Há ainda que se destacar, quanto ao arquivo, o frenesi da inserção de dados cada vez mais atuais. Esse funcionamento pela atualização constante garante e fortalece sentidos que valorizam positivamente o instante presente, como se o passado e sua memória pudessem ser descartados em favor do sempre novo; como se o novo pudesse ser sem o que já existiu. Por outro lado, esse descartar é explicitado quando dados vão sendo retirados. Essa é outra forma de percebermos que, mesmo o que virtualmente tornou-se, não tem garantias de que permanecerá lá arquivado. Pois o arquivo virtual está também a um clique de esvair-se. Assim, do complexo modo de funcionamento do virtual, resgatamos a língua não para discuti-la em seus aspectos de semelhança ou de distanciamento da língua materializada sob outras formas. Interessa-nos naquilo que, em sendo língua, todos os esforços não podem nela apagar nem contornar: a “língua inatingível” de Pêcheux (2004). Dessa forma, no virtual, independentemente de quantas imagens saltem como texto, no texto e ao seu redor (do quanto inglês se digite e se traduza, ou do quanto se leia/escreva n-línguas) – posto que há língua, impera não o técnico, mas o simbólico. É oportuno recorrer a Milner (1987) quando nos diz que “falar de língua e de partição é colocar que tudo não se pode dizer” (MILNER, 1987, p. 19). Assim, se tudo não se diz, tomado em relação ao virtual, podemos dizer que, contra a incompletude do dizer e do sujeito, a internet nada pode. Como mundo de linguagem, resta falha e nãotoda. 46 A LEI 1. Terras do Brasil & Terras Indígenas A Notícia O New York Times não deu uma linha A BBC de Londres, nenhuma palavra Mas ontem no Xingu um índio se afogou E um guarda-marinha Se atirou nas águas Pra salvar a sua vida. Na mesma hora um favelado da Rocinha Que tinha sete filhos arrumou mais um: Era menino loiro de olho azul Que tinha sido abandonado nu Numa avenida. Gente má, Gente linda Dia vem, noite finda Em todo lugar. (de Vicente Barreto e Celso Viáfora. Cd: Nilson Chaves) Se a disputa entre brasileiros e índios pelas terras do Brasil parece ser algo fora dos interesses de leitura diária da maioria urbana dos habitantes do país, a demarcação/homologação da terra Raposa Serra do Sol, em Roraima, explicitou o quanto esse pleito ainda é intenso em lugares em que a disputa pela terra, por sua exploração ou posse, ainda se faz presente. E é nessas situações que o índio vira notícia, vira texto a ser lido nos jornais. Para a maioria dos brasileiros, a disputa pela terra entre brasileiros e índios parece continuar sendo mera ‘passagem histórica’ dos anos mil e quinhentos, como nos fez concluir a formação escolar tradicional, que ainda não é passado remoto. Ao lado disso, enquanto é da esfera do pontual que a disputa entre índios e brasileiros pela terra torne-se fato noticiável no amplo cenário nacional, estudos elucidam que para os povos indígenas do Brasil essa disputa tem sido uma luta ininterrupta (RIBEIRO, 1992; CARNEIRO DA CUNHA, 1987; dentre outros). E disso se pode ter notícia fora da agenda daquilo que é tido como francamente noticiável, inclusive em sítios organizados pelos povos indígenas. 47 Nesse sentido, o funcionamento do jornalismo eletrônico exige algumas primeiras notas. Para isso, como exemplo, tomemos um único dia, o 19 de abril de 2005, logo após ser publicado o decreto de homologação da Raposa Serra do Sol. Sobressai que não há exatamente uma edição, com uma manchete que se descarta a cada dia, mas manchetes que se acumulam vertiginosamente, numa relação entre quantidade e tempo jamais experimentada nesse setor. No sítio do jornal Folha de Boa Vista (RR)11, as notícias foram-se multiplicando e, ao final do dia, contavam mais de duas dezenas de manchetes sobre a homologação da Raposa Serra do Sol que acabara de ser assinada. Assim, intensa e momentaneamente, informava-se ao mundo sobre uma homologação no extremo norte do Brasil, em um estado cujo nome da capital e mesmo sua localização geográfica são esquecidos/desconhecidos por grande parte dos brasileiros. Desse modo, a relação tempo-espaço da notícia virtual deixa-se ver marcada pela grande quantidade em curta fração de tempo e pelo alargamento do espaço físico em que ela pode chegar. Ainda tomando o exemplo de Boa Vista, se há poucos anos os jornais do sudeste do Brasil lá só chegavam muitas horas depois, hoje uma parcela dos que vivem em Roraima – incluindo também parte dos índios – podem “acessar” grande volume de notícias não só de Roraima e do Brasil, mas do mundo, no instantâneo do virtual. Por outro lado, o jornal boa-vistense que só chegava a algumas cidades do interior de Roraima, expõe suas matérias para o mundo. Com isso, pode-se dizer que os jornais online não são exatamente jornais ‘locais’, pois, além da possibilidade de poderem circular num espaço que aponta para o ilimitado, também há o fato de a manchete ser, literalmente, repetida de fontes que têm como referência geográfica de origem uma outra região, ou mesmo um outro país. Ou seja, não mais se separam de forma marcada as fronteiras físicas de onde vem a notícia, nem por onde ela segue. Como efeito, edifica-se para a notícia um caráter de ‘notícia de lugar qualquer e de um tempo do agora instantâneo’. Ou seja, circulam sentidos que trabalham a atenuação dos efeitos do lugar e do tempo. Diante dessa visada, vale repetir que “o lugar é sempre fonte de pré-concepções que de alguma maneira contribuem para a elaboração do nosso dizer, pois nele se situa o sistema de referências deste dizer”, conforme afirma Jobim (2006, p. 95). Com isso, consideramos que, mesmo em se tratando do jornalismo virtual, marcado por outras 11 Disponível em: www.folhabv.com.br. Acesso em 19 abr. 2005. 48 relações, o tempo e o espaço não parecem poder ser diminuídos na constituição dos sentidos. Não os tomaremos, pois, como indistintos, como se fosse possível apagar as diferenças entre os lugares e os tempos, como se neles não se imbricassem o trabalho do social, do histórico-ideológico singularizando-os, tramando con-junturas específicas. Tal imbricação, de nossa perspectiva, mostra-se materializada na língua, do que trataremos no decorrer das análises. Visto dessa forma, escolhemos como entrada para este trabalho o sítio do jornal Folha de Boa Vista, de Roraima, lugar onde física e sócio-historicamente situa-se a terra Raposa Serra do Sol, objeto de disputa entre os índios dessa região e os brasileiros que lá se encontram. Antes, porém, traremos, brevemente, alguns aspectos relevantes para situar a polêmica discussão sobre a demarcação e homologação dessa terra. O processo de demarcação da Raposa Serra do Sol vem de longa data (LEAL, 2006). Segundo levantamentos antropológicos, data de 1917 a primeira tentativa de demarcação dessa área (cf. SANTILLI, 2001). Nos últimos trinta anos, não tem havido muita trégua entre uma batalha e outra em torno do que estamos considerando como uma disputa – entre índios e brasileiros – pela posse das terras brasileiras. Podemos tomar como marcos desse procedimento a demarcação técnica realizada em 1992, tornada oficial seis anos depois, com a publicação de uma portaria, no final de 1998. No entanto, conforme os trâmites legais, para que a terra fosse considerada dos índios, a extensão definida pela demarcação deveria ser homologada pelas assinaturas do Presidente da República e do Ministro da Justiça. Vale ressaltar que, pelo acirrado da disputa, mais seis anos se passaram para que o decreto de homologação fosse assinado. Assim, às vésperas do Dia do Índio do ano de 2005 foi homologada a terra Raposa Serra do Sol, nos termos que abaixo reproduzimos: Fica homologada a demarcação administrativa (...) da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, destinada à posse permanente dos Grupos Indígenas Ingarikó, Makuxi, Patamona, Taurepang e Wapixana (...) tem a superfície total de um milhão, setecentos e quarenta e sete mil, quatrocentos e sessenta e quatro hectares, setenta e oito ares e trinta e dois centiares (...). (BRASIL. Decreto nº 73, de 18/04/2005. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 15 de abril de 2005) Considerando o texto do decreto, interessa-nos observar como a mídia eletrônica roraimense divulgou suas primeiras notícias sobre a homologação da terra Raposa Serra 49 do Sol como posse indígena; como produz/reproduz dizeres sobre posse da terra e, assim, põe em circulação sentidos para o que se apresenta como resultado de uma intensa disputa pela terra, cuja posse é, no fim, assegurada aos índios. Para iniciarmos, recorremos a Pêcheux (1999) ao dizer que ‘memória discursiva' pode ser entendida como: aquilo que, face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem estabelecer os “implícitos” (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível. (PÊCHEUX, 1999, p. 52. Grifos nossos.) Visto dessa forma, consideramos que é como “texto que surge como acontecimento a ler” que os sítios jornalísticos anunciam a homologação da terra Raposa Serra do Sol, compreendendo que um acontecimento, do ponto de vista discursivo, é o que se produz “no ponto de encontro entre uma atualidade e uma memória” (PÊCHEUX, 1997a, p. 17). Mesmo que a homologação tenha sido aventada como iminência, por diversas vezes, desde que a demarcação foi oficializada em 1998, é tendo acontecido como homologação que lhe serão tramados sentidos na tentativa de fazê-los aderir e permanecerem significando. Ainda a partir de Pêcheux (1993), podemos dizer que é frente ao decreto de homologação, esse algo que se apresenta novo irrompendo como atualidade, que os sentidos são reclamados e construídos no movimento do encontro com uma memória. Com isso, podemos indagar: em que rede de sentidos o discurso eletrônico roraimense encontra o seu dizível sobre uma decisão que concede a posse da terra aos índios em detrimento dos outros, os não índios que lá se encontravam? Ou seja, a decisão presidencial lida (materializada nas manchetes) não se inaugura enquanto sentidos, para isso já recorreu de alguma forma a “implícitos, pré-construídos” (a memória discursiva) para que tal construção/leitura pudesse ser feita na forma de manchete, e para que, uma vez oferecida como manchete (a leitura do sítio), ela possa ser legível para os internautas. Enfatizamos que divulgar a homologação da terra indígena não é meramente reproduzir o texto do decreto presidencial, pois na formulação das manchetes uma leitura/interpretação vai sendo delineada. Para isso, está sendo considerado que não há nem o fato com sentidos prontos, nem cálculo preciso sobre como isso se dará. É pela repetição, pelas paráfrases de certos aspectos e pela ausência de outros específicos que 50 os sentidos ganham contornos, na relação com os outros sentidos. E, desse modo, uns se fixam; outros, não. O que é formulado sob os termos “Terra Indígena Raposa Serra do Sol, destinada à posse permanente dos Grupos Indígenas Ingarikó, Makuxi, Patamona, Taurepang e Wapixana” (ou seja, a posse indígena da terra) vai promover o surgimento de dizeres diversos em torno de si. Nesse sentido, pode-se dizer de um “domínio de atualidade”, mecanismo pelo qual sequências discursivas coexistentes “se citam, se respondem ou se refutam” (COURTINE, 2009 [1981], p. 111). Ou seja, as manchetes proliferam “tateando” sentidos, porém, isso não se dá às escuras: há formulações e sentidos pré-existentes acolhendo o que acabara de ocorrer, o ‘novo’ que já fora, em grade parte, dito. É nesse “domínio de memória” (id., ibid., p. 111) que o fato ‘homologação’ ganha corpo semântico, e é a partir do que vai podendo ser-lhe delineada certa direção de sentidos. Dessa forma, ainda durante o acontecimento e a construção de uma direção de sentidos, pode-se vislumbrar que tal direção não se desfaz na atualidade, mas, ao contrário, projeta-se como fundamento de futuras formulações e seus ‘novos’ sentidos. Veremos mais adiante como esse mecanismo de entrelaçamento dos sentidos funciona nos discursos sob análise. Com isso, voltemos ao decreto presidencial. No que diz respeito a esse texto enquanto materialidade da decisão tomada de lugares expoentes – o lugar político da presidência da República em conjunto com o lugar jurídico do Ministério da Justiça, vale uma observação inicial. Dada a representação atual desses lugares, investida de poder e relevância social, o decreto teria em sua enunciação foro privilegiado para fixação de sentidos, avaliando o modo de funcionamento atual da formação social, hierarquizada e fortemente marcada pelo jurídico. Para discutirmos esse ponto, nos apoiamos na afirmação de Pêcheux (1993) quando afirma que: Todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para um outro, (...) uma série (léxico-sintaticamente determinada) de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar a interpretação. (PÊCHEUX, 1993, p. 53) Considerando a possibilidade constitutiva do deslocamento dos sentidos, faz jus observar que ao propor o discurso em relação a suas condições de produção, em que pesa de onde se diz, não se está com isso sugerindo um automatismo sobre- 51 determinador advindo das diferentes representações dos lugares sociais e suas implicações na construção, circulação e direcionamento dos sentidos. No entanto destaca-se que não há garantias prévias inabaláveis que especifiquem alguma via segura e sempre, posto que se trata do fazer discursivo (linguístico-histórico) em sua imprevisibilidade constitutiva. Como nos lembra Courtine (2009 [1981]), não se pode esquecer que o discurso é um ‘sempre-já-ainda’. Nesse sentido é que, mesmo tendo sua representação positivamente valorada, os lugares político e jurídico não exercem poder absoluto sobre a direção de sentidos apontada no decreto de homologação da terra Raposa Serra do Sol. Com isso, vejamos sob que materialidade foram construídas as primeiras manchetes que anunciaram, no sítio da Folha de Boa Vista, de Roraima, a homologação recém assinada:12,13 SD1: RAPOSA/SERRA DO SOL: Governo [do Estado] decreta luto oficial por 7 dias. (Folha BV, 19/04/2005) SD2: Homologação da reserva divide opiniões. (Folha BV, 19/04/2005) SD3: Estado assumirá postura da legalidade para se defender. (Folha BV, 19/04/2005) SD4: Ottomar entra com ação popular contra homologação da reserva. (Folha BV, 19/04/2005) SD5: Efeitos da reserva são péssimos para agricultura, diz secretário. (Folha BV, 19/04/2005) SD6: Reservas ocupam 90% do território roraimense. (Folha BV, 19/04/2005) SD7: DIA DO ÍNDIO: Data comemorada com protesto e festa. (Folha BV, 19/04/2005) SD8: Lula homologa reserva de forma contínua. (Folha BV, 19/04/2005) SD9: Senador e deputada entram com medidas contra decreto. (Folha BV, 19/04/2005) SD10: Prefeita do Uiramutã entrará na Justiça contra homologação. (Folha BV, 19/04/2005) SD11: PT quer buscar meios para ajudar desenvolvimento de RR e de índios. (Folha BV, 19/04/2005) SD12: Jurista diz que portaria não poderia embasar julgamento. (Folha BV, 19/04/2005) SD13: O que diz a nova portaria. (Folha BV, 19/04/2005) 12 Disponível na versão online do jornal Folha de Boa Vista, Boa Vista - RR: <www.folhabv.com.br>. Acesso: 19 abr. 2005. 13 As manchetes são reproduzidas conforme foram publicadas nos sítios. Os grifos (itálico e sublinhado) são nossos em todas as manchetes, exceto as aspas. 52 SD14: Governo [do Estado] vai recorrer contra homologação de área indígena. (Folha BV, 19/04/2005) SD15: Governador reclama de quebra de pacto federativo. (Folha BV, 19/04/2005) SD16: Estado e Incra não se entendem e indefinição fundiária continua. (Folha BV, 19/04/2005) SD17: Incra trouxe pacote pronto e evitou discutir transferência, diz Aurelina. (Folha BV, 19/04/2005) SD18: OPERAÇÃO UPATAKON: PF já está nas áreas indígenas. (Folha BV, 19/04/2005) Destacamos, inicialmente, um aspecto que não se deixa apreender pela leitura de uma só notícia, uma vez que é pela dispersão e pela repetição que se vão delineando e acomodando sentidos em destaque, sempre em detrimento de outros. Tomadas em conjunto, nessas manchetes há algumas palavras e expressões que apontam um campo de significância que acolhe-e-fornece os “primeiros” sentidos para a recente homologação. Percorramos esses fragmentos que, em seu conjunto, são construídos em torno de verbos, substantivos, locuções: decreta luto oficial, postura de legalidade [para se defender], ação popular contra, medidas contra, entrará na Justiça contra, vai recorrer contra, reclama de quebra do pacto federativo, entram com medida contra. De modo geral, para anunciar a homologação da Raposa Serra do Sol as manchetes do sítio do jornal Folha de Boa Vista proporcionam uma rede de fragmentos textuais que remetem à esfera da lei. Por esses termos, a homologação da terra indígena – ao ser inserida no universo do jurídico – vai tendo construída uma direção de sentidos que a emolduram como ilegal. É oportuno notar que as manchetes anunciam o cumprimento de uma etapa previamente determinada: as assinaturas do Presidente da República e do Ministro da Justiça como instrumento último da legalização da terra indígena. No entanto é em relação a – e contra – esse passo que um conjunto de medidas jurídicas serão tomadas: postura de legalidade, ação popular contra, medidas contra, entrará na Justiça contra, vai recorrer contra, entram com medida contra. Os sentidos que dessa forma são mobilizados apresentam-se em defesa da manutenção da lei.14 Desse modo, a disputa pela terra é restrita (ou permanece restrita) ao campo do jurídico. 14 Seria o caso de refletirmos sobre as ‘ilegalidades da lei’? 53 Ou seja, a questão política da disputa pelas terras do Brasil resta deslocada para a esfera legal. Nesse funcionamento, interessa-nos o que retorna como efeito de sentido para os que vivem no Brasil e que, separando-os, aponta uma direção em que vão sendo designados quais deles são legítimos donos da terra. Observaremos, na estrutura frasal, aqueles que são apresentados como agentes, acionando a lei em virtude do evento da homologação (e, assim, circunscrevendo a homologação como um procedimento ilegal). Vejamos: Governo [do Estado], o Estado, Ottomar [governador do estado], secretário [de Estado], Senador e deputada, prefeita, jurista, governador, Aurelina [deputada], governador. Como se pode notar é por força de iniciativa feita em nome do Estado e em torno de seus governantes, aí representados por diversas hierarquias, que são determinados os “defensores da lei”. Nesse mecanismo linguístico de nomeação de agentes pode-se destacar uma dupla restrição: a um campo do saber e aos que podem (bem) dizer a posse da terra. Em poucas palavras, é remetendo ao campo do jurídico que a homologação é interpretada – de certa forma – por poucos. Com isso, autorizam-se alguns e desautorizam-se os outros – lugares, seus representantes e seus dizeres. Faz-se ver o modo de funcionamento da formação social, em sua heterogeneidade desigual de forças, como nos diz Pêcheux (1990). De nossa perspectiva, é considerando esse modo de encaminhar e restringir os dizeres sobre a posse indígena da terra que certos efeitos de sentido são produzidos, e circulam instituindo-lhes uma direção. Cumpre, pois, indagar sobre as ausências, notadamente, de certos campos do saber, cujos dizeres são historicamente autorizados a se pronunciarem sobre essa temática: o que dizem os antropólogos, os cientistas sociais, os historiadores sobre a homologação da Raposa Serra do Sol? E, tendo em vista que essa questão é divulgada como afetando a todos de Roraima, onde está a voz da população? O que dizem as donas de casa, os professores, os comerciantes, os pequenos produtores rurais? Do conjunto das ausências, uma sobressai. O que dizem os índios e as suas lideranças sobre o ato que assegura a terra para si? Como compreender essa ausência dos dizeres dos índios quando se trata de uma questão que os atinge diretamente? Considerando que ao se dizer também se deixa de dizer, podemos interrogar: o que poderia figurar nas manchetes em lugar da repetição que restringe a homologação à 54 ilegalidade? Certamente há enunciados distintos que poderiam ser estampados nas manchetes para dizerem sobre dois grandes esquecimentos: uma vitória e a legalidade do processo. Afinal, o que culminou na homologação da terra indígena foi um longo processo de disputa entre índios e não índios. E, se se vai um pouco além, seria possível ter manchetes discutindo os aspectos legais dos procedimentos concernentes à posse indígena da terra. Assim, há o outro silenciado. E, com isso, o narrar sobre a legitimidade e o triunfo da posse indígena é impedido. Certo é que não é porque dos outros lugares que constituem nossa formação social não haja o que dizer. Podemos pensar, por exemplo, esse silenciamento dizendo respeito à atual configuração da sociedade, na qual se outorga grande autoridade ao dizer jurídico em relação aos dizeres de outros lugares sociais. Autoridade que, desse modo, vai sendo reconstruída e reafirmada: o saber jurídico como se só ele pudesse manifestar-se, como se desse lugar naturalmente se tivesse o “acertado do dizer” sobre tudo, inclusive sobre a posse da terra. Como diz Foucault (1979): Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como sancionam uns e outros; as técnicas e procedimentos que são valorizados para obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 1979, p. 12) Assim, pelo modo de divulgar a homologação da Raposa Serra do Sol constróise certo sentido como único, ao passo que sentidos outros vão sendo postos nas margens, silenciados, em benefício do que se apresenta (e é aceito) como verdade. Sublinhamos que esse funcionamento em que são recortadas porções dos sentidos não se dá sem trazer em si a “escolha” de parcelas da população: separam-se os indivíduos que, da representação de seus lugares sociais, podem interpretar; elegem-se os sentidos que podem ser fixados como memória. Em se tratando da terra, distinguemse uns como donos, em detrimento de outros. No entanto, como já frisamos anteriormente, no estável há transitoriedade, se se trata da história e do discurso. Retomando: o discurso midiático online roraimense para divulgar a homologação da Raposa Serra do Sol convoca a lei. No entanto sobressai que isso é feito para dizê-la ilegal: a homologação da Raposa Serra do Sol em área contínua é 55 imersa em uma trama que aponta para a des-ordem, para a arbitrariedade, para o erro, enfim, para aquilo que necessita ser devidamente refeito, conforme os meios legais. E isso trabalha como fundamento para o posicionamento contrário como sendo o único possível: “Estado assumirá postura da legalidade para se defender”; “Ottomar entra com ação popular contra homologação da reserva”; “Jurista diz que portaria não poderia embasar julgamento”. Além disso, ao mesmo tempo em que a ilegalidade é apontada, a homologação é classificada como merecedora de luto oficial por parte de todo o Estado durante uma semana. Não é demais mencionar que isso é previsível, mas não faz parte do corriqueiro dos rituais do Estado, havendo para isso que serem cumpridas certas regras protocolares. Urge repassar: em que situações um estado decreta luto por uma semana a fio? Assegurar a terra como posse dos índios se soma a que outros fatos merecedores de tamanha consternação? Se o luto oficial de um estado da federação é decretado em razão do falecimento de uma personalidade de alta relevância social, que perecimento é ocasionado com a/pela posse indígena da terra? Assim significada, a posse indígena da terra é filiada a que sentidos? Há ainda que se notar que a posse indígena da terra é apontada por trazer efeitos péssimos para a agricultura, pela continuidade da indefinição fundiária, pela redução da extensão territorial do Estado (Reservas ocupam 90% do território roraimense). Enfim, pela mídia eletrônica roraimense, a homologação não traz senão malefícios ao Estado de Roraima. Nessa trama, faz-se marcar – pela ausência – os benefícios diversos que a posse da terra Raposa Serra do Sol traz para os povos indígenas. Por exemplo, em vez de apontar efeitos péssimos para a agricultura, manchetes poderiam apresentar, discutir novos projetos dos índios para a região; ou, indo mais além, os internautas poderiam ler acerca das expectativas dos índios sobre o futuro depois que a posse da terra lhes foi assegurada. Certo é que não há palavra para dizer de uma vitória dos índios com a terra sendo-lhes reconhecida – depois de trinta anos de luta – como “posse permanente”. Ponderamos que, assim como não se pode fazer uso das palavras à solta, não são quaisquer palavras que podem faltar, que se permite não comparecer, e restarem não ditas. Esse fino jogo da linguagem não se dá fora de uma conjuntura específica: trata-se do resultado de uma disputa pela terra entre índios e brasileiros, resultado que é possível ser narrado como só tendo grandes perdedores – os brasileiros. Assim, há palavras que se obrigam a dizer, ao passo que outras podem necessariamente faltar. Em nossa atual 56 formação social, o espaço da ‘palavra-sentido que falta’ – preenchido nas manchetes pelos índios/pela vitória indígena – não pode ser alternado com (ou substituído por) brasileiros. Essa falta sequer percebida pelo leitor no seu afã de informação, se ocupada por brasileiros perderia sua naturalidade enquanto falta, desmontaria a harmonia do ritual esperado e possível nessas manchetes. Há, pois, palavras sobre as quais trabalha uma injunção a dizer; noutras, uma imposição ao silêncio. Esse mecanismo diz respeito ao que pode e deve aí ser dito (PÊCHEUX, 1993), fazendo parecer que certas palavras são/estão para serem alardeadas; outras, silenciadas. E isso não é articulado à língua enquanto estrutura, mas a uma amarração com dado sentido, em um ponto históricoideológico, sob o trabalho do inconsciente. É a palavra e o sentido que ora ela está portando ao constituir o sujeito. Com esse funcionamento apontado nas manchetes, vai-se construindo como efeito um sentido universalizante (de negatividade) para a decisão que reconhece para os índios uma extensão de terras em maiores proporções, mesmo não se aproximando das extensões em que viveram seus antepassados. Sobressai que a posse da terra outorgada aos índios não pode ser dita senão restrita à ilegalidade, imersa num campo de negatividades em geral. Conforme já sublinhamos, desse modo qualificando a homologação da Raposa Serra do Sol justifica-se a necessidade de defesa legal por parte do Estado e de seus representantes. Assim, são erigidos sentidos como “natural obviedade” tanto para a homologação quanto para as decisões do governo. No discurso midiático online roraimense há uma direção de produção de sentidos. Sabendo que essa direção não é a única possível de ser construída para significar a posse indígena da terra, o que foi necessariamente esquecido? Certamente, muitas questões. Mas, considerando-se o Estado moderno e suas relações constitutivas com o jurídico, e o poder que o jurídico ora detém, avulta um esquecimento: os termos em que a Constituição de 1988 concebe os direitos indígenas, em seu artigo 231, conforme lemos a seguir. São reconhecidos aos Índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. (...) § 2º As terras tradicionalmente ocupadas pelos Índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. 57 § 5º É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo ad referendum do Congresso Nacional (...) § 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo (...). (BRASIL, 1988. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05/10/1988. Grifos nossos.) Esquecer os termos pelos quais a Lei máxima do país determina direitos e deveres não é algo de pouca monta na atualidade. Nesta situação, o conjunto das manchetes conforma a homologação da Raposa Serra do Sol ao domínio da ilegalidade, deixando esquecido o que se especifica como direito indígena à posse da terra: são reconhecidos aos Índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam (...). São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo. No que tange ao funcionamento do Estado, o âmbito social e aí incluindo, sobretudo, o próprio jurídico, são os termos constitucionais que são tomados não só como balizadores, mas como deliberativos. É sob a organização textualmente proposta como Constituição que são pautadas as decisões no Estado brasileiro. No entanto para/pelo discurso midiático online, isso não constitui uma contradição nem se apresenta como alvo de ponderações ao divulgar a posse indígena da terra como ilegal. Não há manchete que faça algum cotejo entre as medidas tomadas em nome do Estado e os termos constitucionais que rezam sobre a posse indígena da terra. Também não deixa de ser um esquecimento legal, os desdobramentos do que se torna manchete sob a construção: “RAPOSA/SERRA DO SOL: Governo [do Estado] decreta luto oficial por 7 dias”. O luto oficial de sete dias, decretado pelo governador, para todo o estado de Roraima, em virtude da homologação da Raposa Serra do Sol, foi objeto de questionamento pelo Ministério Público Federal15, posto que o hasteamento da Bandeira Nacional a meio mastro descumpria regras protocolares decretadas para tal, conforme a Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971.16 É relevante atentar para esse aspecto, pois, como vimos acima, a direção dos sentidos que circularam sobre a 15 Disponível em: http://www.nosexistimos.org/a_verdade_sobre_a_homologacao.html. Acesso em: 11/11/2010. 16 Esse decreto de luto oficial também foi causa de Moção de Repúdio na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, da Câmara Federal, em Brasília. Disponível em: ww2.camara.gov.br/.../provmocVIIIEncParlDirHum.html. Acesso em: 11/11/2010. 58 homologação da Raposa Serra do Sol qualificaram-na como ilegal e, ao mesmo tempo, isso fundamentou diversas atitudes político-jurídicas. Diante disso, podemos entrever o movimento dos sentidos, expondo seu caráter heterogêneo e contraditório, sem margem precisa de separação: sentidos que não se deixam apreender pela simples disjunção opositiva pela qual se está dentro ou fora da lei.17 Tais sentidos encerram, pois, espessura, opacidade; constituem-se como imbricamento, em movimento, na multiplicidade. Da perspectiva teórica aqui adotada, a Análise do Discurso, cumpre indagarmos sobre os efeitos de sentido que isso provoca no que é lembrado pelo discurso da mídia eletrônica roraimense, posto que os sentidos são construídos por relações, em suas diversas formas. A homologação, que deveria ser o instrumento legal para a posse indígena da terra, é desautorizada ao ser desclassificada como ilegal. Com isso, no que se refere à terra, pode-se assinalar que são reforçados os sentidos do pertencimento legal da terra ao não índio e, assim, “concede-lhe” a manutenção da propriedade. Assim, em relação aos índios, que no texto da Constituição adentraram com direitos à posse da terra, não parece ser de modo análogo quando se trata do funcionamento social das disputas de sentido e poder. Considerando essa direção primeira de sentidos construída para a ‘posse indígena da terra’ no sítio do jornal de Roraima, passamos a analisar alguns pontos que se foram tornando relevantes no conjunto das manchetes. Tomaremos, pois, a ‘posse indígena da terra’ fortemente circunscrita ao âmbito jurídico e apontada como ilegítima para observarmos como tais efeitos de sentido vão sendo administrados nos sítios jornalísticos cujas manchetes analisaremos. 2. Direitos à terra: índios, brasileiros Nas manchetes abaixo, produzidas e colocadas em circulação entre 2006 e 2010, observaremos como é enfocada uma questão relevante para nossa pesquisa: o direito à terra. Vejamos: 17 Pela segunda vez: devemos refletir sobre “as ilegalidades da lei”? 59 SD19: Direito a terra ainda é tido como prioridade indigenista no Brasil. (Folha BV, 13/04/2006) SD20: Índios usam internet para defender seus direitos. (Folha Online, 19/04/2006) SD21: Desembargador afirma que direito à propriedade tem que ser respeitado. (Folha BV, 26/04/2006) SD22: Advogado diz que direitos individuais foram violados. (Folha BV, 27/04/2006) SD23: Rizicultores vão processar União por invasão [de propriedade] e danos. (Folha BV, 27/04/2006) SD24: PF é acusada de invadir propriedades em Roraima. (Folha Online, 28/04/2006) SD25: Decisão viola direitos dos índios, diz Conselho Indígena. (Folha BV, 09-042008) SD26: Para Jobim, 'Terra demarcada não é propriedade de índio'. (Folha Online, 20/04/2008) SD27: Relator da ONU afirma que direitos dos índios foram violados. (Folha BV, 2608-2008) SD28: Ministro [Ayres Brito] reconheceu os direitos dos povos indígenas, diz CIR. (Folha BV, 27-08-2008) SD29: Antropólogo vê direito dos índios da reserva Raposa/Serra do Sol. (Folha Online, 30/08/2008) SD30: Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios. (Folha Online, 19/04/2010) SD31: Lula diz que Roraima deve crescer sem desrespeitar direito dos índios. (G1, 19/04/2010) SD32: Lula defende crescimento de Roraima sem tirar direito dos índios. (Folha BV, 24/04/2010) Nessas manchetes, destacamos o ponto em que o direito à terra é cindido pela determinação relativa à posse ou à propriedade das terras do Brasil. Nosso interesse nesse aspecto é analisar o atual modo de funcionamento dessas noções em relação à disputa pela terra entre índios e brasileiros, considerando a constituição e circulação dos sentidos. Para isso, uma retomada faz-se necessária. Não é de todos amplamente sabido como os índios têm sido referidos nas leis brasileiras. No entanto pode-se dizer que, sob diversas materialidades, os índios sempre foram e são – sobretudo, legalmente – constituídos. Sobre isso, por enquanto, basta lembrarmos que as palavras e expressões, além de terem seus sentidos produzidos em certas condições sócio-históricas, são sempre sentidos em relação aos muitos outros 60 sentidos construídos e postos em circulação nessa formação social (PÊCHEUX, 1990). Com isso, podemos assinalar que, desde que se fez necessário dizer sobre a posse das terras do Brasil, sentidos distintos e portadores de poderes desiguais têm-se entrechocado e para o texto da lei não tem sido diferente. Seja nos decretos régios, seja nos alvarás ou nas diversas leis e complementos aqui no Brasil, não se pode requerer sentido único e homogêneo para o que se concebe sobre o pertencimento das terras em relação aos que invadiram e aos que foram dominados nas terras que vieram a ser o Brasil. Não sendo nosso objetivo analisar o conjunto das leis brasileiras sobre a posse e a propriedade da terra, traremos a seguir, sobretudo, alguns aspectos que consideramos relevantes para as questões e as hipóteses que norteiam esta pesquisa. Nesse sentido, faremos breves observações sobre a noção de ‘indigenato’. O jurista João Mendes Júnior, no início do século passado, discute o Alvará Régio (de 1680) e a Lei de Terras (de 1850), à luz da reflexão grega como base do sistema jurídico ocidental, e, a partir da interpretação de diversos itens, sistematiza o conceito de ‘indigenato’ relativo aos índios e às terras no Brasil. A partir dessa sua leitura, Mendes Júnior torna-se referência como defensor desse princípio, pois, para ele, a ocupação, como título de aquisição, só pode ter por objeto as coisas que nunca tiveram dono, ou que foram abandonadas por seu antigo dono. A ocupação é uma apprehensio rei nullis ou rei derelictoe....; ora, as terras de índios, congenitamente apropriadas, não podem ser consideradas nem como res nullis nem como res derelictoe; por outra, não se concebe que os índios tivessem adquirido, por simples ocupação, aquilo que lhes é congênito e primário de sorte que, relativamente aos índios estabelecidos, não há uma simples posse, há um título imediato de domínio; não há portanto, posse a legitimar, há domínio a reconhecer e direito originário e preliminarmente reservado ... o indigenato não é um fato dependente de legitimação, ao passo que a ocupação, como fato posterior, depende de requisitos que a legitimem. (MENDES JÚNIOR, J., 1988 [1912], p. 59) De tal modo contemplada, a noção de indigenato sustém a trilha de sentidos pela qual não procede propor que a terra, enquanto posse permanente dos índios, só deva ser considerada a partir da publicação da Constituição Federal de 1988, visto que a condição do direito congênito precede qualquer lei. Desse modo, sobressai que a lei reconhece, antes de tudo, o ‘direito’ originário que fundamenta a posse indígena da terra. Além disso, há outro aspecto implicado no reconhecimento desse direito: a nulidade de quaisquer títulos sobre as terras, posto que o direito indígena pauta-se na anterioridade. E isso não encerra poucas consequências. 61 O que em poucas palavras ousamos resumir, diz respeito a uma interpretação bastante polêmica, e ainda em curso, nas diversas instâncias políticas interessadas na distribuição das terras do Brasil. De nossa perspectiva, consideramos que essa interpretação estrutura a matriz que garante sentidos ao ideário sobre posse indígena da terra. Em outros termos, em torno do princípio do indigenato organiza-se a região de sentidos em que se pode vislumbrar o que já nomeamos como o ‘tempo do antes’, uma temporalidade que possibilita distinguir a existência dos povos indígenas independente da presença dos europeus na América. Isso diz respeito à constituição de uma Formação Discursiva, como veremos no decorrer das análises. Para iniciarmos uma reflexão sobre o que dessa noção interessa a nossa pesquisa, lembramos/trazemos o que propõe Pêcheux (1999) sobre memória: a memória não poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização (...) um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contradiscursos (PÊCHEUX, 1999, p. 56) Com essa proposição, queremos sublinhar a impossibilidade de um evento oferecer seus sentidos em separado dos diferentes dizeres decorrentes da relação de forças da formação social em que ele foi engendrado e na qual ele tem sido praticado. Dessa forma, há que se fazer uma referência obrigatória relativa ao que se impõe como fato histórico: a situação de sociedades dominadas (as indígenas) por outra (a portuguesa), conforme os padrões de conduta vigentes entre as nações europeias. Assim, estando as sociedades indígenas, em 1680, sob o domínio português há quase dois séculos, que efeitos de sentido puderam ser consagrados ao que depois foi denominado indigenato? A despeito de ser impossível voltar o tempo aos anos 1500, ou fazer regressar os que aqui aportaram, os fatos contemporâneos ao reconhecimento do indigenato mostravam o domínio português em pleno avanço. Afinal, à concessão de terras aos índios também se emparelham outros decretos-leis, em relação tensa e de contradição explícita com esse direito. E isso retorna como efeito de sentido possível para o indigenato que foi atravessando os séculos. Diante disso, e não sendo nosso objetivo percorrer a linearidade das mudanças textuais acerca do direito indígena à terra, faremos algumas observações. 62 Conforme o exposto acima, podemos destacar que não é senão pela redução do alcance de ‘congênito’ que funcionam os sentidos do direito indígena à terra como elementar. O caráter de congênito, enquanto aquilo que nasce com o indivíduo, se deveria recobrir o passado dos índios, sequer pôde ser em relação ao presente, dadas as disparidades que marcavam a coexistência de índios e brasileiros de então. De nossa perspectiva, para compreender esse funcionamento não é de grande valia recorrer aos propósitos gregos para assegurar os sentidos de indigenato, como o fez Mendes Júnior (1912). Pois ressaltamos que não há sentido externo e pronto, fechado para uso como objeto “transcendental histórico”. E, sem esquecer que os sentidos futuros não brotam à revelia do passado e do presente de uma formação social, podemos tecer algumas notas sobre o funcionamento dos sentidos da noção de indigenato na atualidade. Retomando: estamos assumindo que a memória não é uma “esfera plena” tecida com sentidos homogêneos a-históricos, mas “um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos” (PÊCHEUX, 1999). Assim, propomos pensar o processo de reconhecimento e manutenção do instituto do indigenato nas leis brasileiras enquanto fio de sentido incontornável, que não pôde e não pode ser banido da composição dos sentidos da posse da terra brasileira. Incontornável porque há, na memória plana institucionalizada oficialmente, memórias das quais não podemos escapar, nem apagar. Assim entendendo, queremos discutir como atualmente se lida com isso: de que forma esse fio de sentido sustenta-se em relação aos sentidos que com ele se entrelaçam mais intensamente ou que sobre ele predominam? E, sobretudo, refletir sobre em que implica isso que retorna expondo a história dos índios antes da (nessa) história do Brasil, apesar das múltiplas tentativas – eficazes – de apagamento desses povos fora de uma visada que não fosse a europeia. Devemos enfatizar que o “isso que retorna” implica resignificar a história do Brasil que nos foi contada. É re-significar uma memória. Assim sendo, como poderia ser sem obstáculos, sem polêmicas, réplicas e sem conflitos em busca de uma regularização? (id., ibid.) A despeito de ter sido reconhecido – há mais de trezentos anos e sem ter sido revogado desde então – certo é que, de nossa perspectiva, o indigenato advém já restrito, já cerceado em quaisquer aplicações, se não se esquece o que teima em ficar fora do “mundo semanticamente normal”, como diz Pêcheux (1997a, p. 34). No caso brasileiro, isso remete a permitir-se ver a historicidade diversa dos povos dominados e do dominador que, no Brasil, se encontravam. E se desencontravam. 63 Para nossa discussão, interessa destacar que o indigenato é, na forma da lei, fulcral para o deslizamento dos sentidos do ‘descobrimento’ e, portanto, de toda a história que tem sido contada sobre o Brasil e os povos que nele habitam. História que, atualmente, está sendo recontada e, nesse sentido, estão sendo arquitetados diversos instrumentos que buscam fazer valer o que está registrado na Constituição de 1988 sob o rótulo de ‘direito à diferença’ assegurado aos índios. ‘Direito à diferença’, no sentido de poder permanecer diferente, em lugar do que foi construído como necessidade de assimilar outros modos de viver: a língua, a religião, práticas cotidianas, a relação com a terra. Enfim, os índios são vislumbrados como aqueles que podem ser desiguais, em vez de serem obrigados a fazer ‘um’ com a sociedade brasileira concebida a partir dos padrões ocidentais. E a posse indígena da terra, já materializada no decreto de 1680 e nos textos constitucionais desde 1934, é a primeira das implicações desse reconhecimento que, apesar de secular, insiste em não ser sentido óbvio para os outros daqui, os brasileiros. A matriz de sentidos estruturada pelo reconhecimento do indigenato é de onde se produz um deslocamento nos ‘discursos do descobrimento’ (pelos quais se certifica um território sem existência anterior e sem proprietário algum) para os sentidos de uma ‘invasão’, seguida da tentativa de dominação dos povos que viviam nessas terras. Ou seja, pelo indigenato reconhece-se não só uma existência indígena em curso, mas também diferenciada, na qual a posse da terra é legitimada por instrumentos diversos dos da civilização europeia. No entanto, como já apontamos, o indigenato coexistia com práticas sociais de manutenção dos sentidos do descobrimento. Nesse sentido, podem ser lembrados os métodos de colonização aplicados com o objetivo de “elevar” povos indígenas, em quase tudo distintos, à condição de civilizados: pela substituição da crença religiosa, da estrutura das relações pessoais, das vestimentas, da moradia, do regime de trabalho, etc. É sem esquecer esse percurso que nos propomos a refletir sobre os efeitos de sentido para a posse indígena da terra neste início de século XXI. Conforme apontamos anteriormente, o direito à terra no Brasil é estruturalmente disjunto em termos de posse e propriedade. Diversamente do que garante o indigenato, a propriedade apresenta como caráter central a aquisição, seja pelo transcurso do tempo de ocupação da terra, seja por meio de titulação legalmente expedida. Ou seja, há condições a serem cumpridas para que a propriedade se efetive. Em outros termos, os não índios – os brasileiros – podem ter a posse da terra enquanto propriedade particular ao passo que aos povos indígenas aplica-se uma restrição: os índios podem 64 permanentemente ocupar as terras em que coletivamente vivem, enquanto bens de propriedade da União. Com isso, frente à proposição segundo a qual há os índios e os outros (os brasileiros), avulta que o direito à propriedade tem sido outorgado aos outros, aos não índios aportados no Brasil. Desse modo, portanto, impõe-se na base do direito à propriedade um esquecimento sobre a temporalidade que antecede a chegada dos portugueses aqui, em 1500. Como afirma Courtine (2009 [1981], p. 238): “o interdiscurso é produtor para o sujeito falante do apelo e da lembrança das formulações, mas também de seu esquecimento.” Assim, no fio de sentido que sob esse esquecimento se constrói – e que fortemente vai atravessando o texto da lei e se consolidando nas seculares práticas sociais – não se concebe a existência indígena e as implicações daí decorrentes, sobretudo, os direitos indígenas sobre sua terra. Em vez disso, põe-se em funcionamento uma narrativa e seus procedimentos cujos sentidos apoiam-se em decisões ultramarinas sobre as terras recém ou ainda nem mesmo encontradas, mas já repartidas e concebidas em termos de propriedade das potências da época (a princípio, Portugal e Espanha), sob os firmes desígnios da aliança com a Igreja Católica, representada pelo Papa.18 Isso pode ser exemplificado pelos textos que consolidavam o retalhar virtual das terras desconhecidas, publicados sob a forma de diversas Bulas e Tratados, do fim do século XV à segunda metade do século XVIII (Bula Inter Coetera (1493), Bula Dum Diversas (1452), Bula Romanus Pontifex (1455), Tratado de Tordesilhas (1494), Tratado de Utrecht (1713-1715), Tratado de Madrid (1750), e outros até que se assine o Tratado de Santo Idelfonso (1777)). Convém destacar que subsiste nesse campo de sentidos que há terras “a ganharem existência” quando a civilização europeia nelas chegasse e, com isso, certificariam sua propriedade. Assim, por esses acordos e desacordos sucessivos, os povos que habitavam as terras desconhecidas pelos europeus foram despossuídos de suas terras antes mesmo de serem conhecidos. E, uma vez conhecidos os povos, não foi sendo difícil à Igreja justificar e autorizar a escravidão e todo tipo de barbárie que os invasores julgassem necessária. Embora não nos detenhamos nesses textos, vale observar que, a despeito de todas as convenções e reajustes selados, a propriedade 18 Vale registrar que a Igreja Católica tem parte relevante nesse processo de divisão da Terra entre alguns poucos. Nos primórdios da união de forças entre o poder religioso e o poder político, com a autoridade concedida ao papa enquanto representante de Deus, consta, já nos anos 300, a concessão da soberania sobre todas as ilhas [terras] que fossem descobertas na terra a um imperador. Nesse sentido, inicia-se a repartição do Novo Mundo, sob o intermédio incisivo do papa. 65 efetiva da terra mantinha-se instável, motor da necessidade mesma de refazer as linhas divisórias. Os limites da terra como propriedade de uma ou outra nação moviam-se entre o que havia sido textualmente proposto e onde cada uma das nações conseguia chegar e se estabelecer, de fato. Isso posto em relação ao que estamos discutindo neste trabalho, podemos divisar que não é fato encerrado no século XVIII a relação desarmônica e contraditória entre o texto da lei e a ocupação consolidada das terras brasileiras. Voltamos a esse aspecto mais adiante. Mas, registremos antes uma inquietação: pela natureza diversa das noções de posse e propriedade da terra, uma questão se impõe: em que a propriedade da terra restrita aos brasileiros constitui-se como falta para os índios? Do acima exposto, é relevante enfatizar que o direito às terras do Brasil, que tem-se materializado no texto constitucional pela divisão entre ‘posse’ e ‘propriedade’, determina a separação entre os índios e os outros todos, os brasileiros. Disso resulta manifesto que a natureza da relação com a terra supõe diferenças, e é regrada no que tange ao acesso. Tal natureza é regulada quanto ao ‘poder ter’, ao ‘como ter’ a terra. E nesse aspecto ser ‘índio’ ou ser ‘brasileiro’ está no cerne da forma de acesso à terra. É porque há modos de possuir a terra brasilis que a disputa entre índios e brasileiros existe e persiste. Voltemos a atenção para o modo pelo qual a posse e a propriedade da terra comparecem na estrutura frasal e sua relação com os sentidos mobilizados nas manchetes, conforme a análise precedente. Retomemos as manchetes anteriormente elencadas, iniciando com as que remetem à propriedade e depois as que abordam a posse da terra: SD21: Desembargador afirma que direito à propriedade tem que ser respeitado. (Folha BV, 26/04/2006) SD22: Advogado diz que direitos individuais foram violados. (Folha BV, 27/04/2006) SD24: PF é acusada de invadir propriedades em Roraima. (Folha Online, 28/04/2006) SD23: Rizicultores vão processar União por invasão [de propriedade] e danos. (Folha BV, 27/04/2006) SD26: Para Jobim, 'Terra demarcada não é propriedade de índio'. (Folha Online, 20/04/2008) SD19: Direito a terra ainda é tido como prioridade indigenista no Brasil. (Folha BV, 13/04/2006) 66 SD20: Índios usam internet para defender seus direitos. (Folha Online, 19/04/2006) SD25: Decisão viola direitos dos índios, diz Conselho Indígena. (Folha BV, 09/04/2008) SD27: Relator da ONU afirma que direitos dos índios foram violados. (Folha BV, 26/08/2008) SD28: Ministro [Ayres Brito] reconheceu os direitos dos povos indígenas, diz CIR. (Folha BV, 27/08/2008) SD29: Antropólogo vê direito dos índios da reserva Raposa/Serra do Sol. (Folha Online, 30/08/2008) SD30: Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios. (Folha Online, 19/04/2010) SD31: Lula diz que Roraima deve crescer sem desrespeitar direito dos índios. (G1, 19/04/2010) SD32: Lula defende crescimento de Roraima sem tirar direito dos índios. (Folha BV, 24/04/2010) Quando se trata de propriedade, notemos que a posição de sujeito gramatical é preenchida e, além disso, aquele que ocupa essa posição é enfaticamente dado como um agente defensor do direito à propriedade, pelo emprego da forma verbal no tempos presente e futuro do indicativo: ‘desembargador afirma’, ‘advogado diz’, ‘rizicultores vão processar’. Quando se trata de manchetes que remetem à posse da terra, a posição de sujeito gramatical é ocupada por representantes de entidades e especialistas vinculados às questões indígenas: ‘Relator da ONU’, ‘CIR’ [Conselho Indígena de Roraima], ‘Ministro’ [do STF, Ayres Brito], ‘Antropólogo’, ‘Lula’. E, em única manchete, os índios ocupam a posição de agente quando se refere a direitos: SD20: Índios usam internet para defender seus direitos. E, quanto às formas verbais, vale notar que a modalização “Direito a terra ainda é tido” e o particípio; ou, o emprego do substantivo – em vez de um sujeito agente expresso na frase: “Decisão viola direitos dos índios”. Diante dessa distribuição desigual dos elementos na estrutura frasal, destacamos alguns aspectos. Quando se refere à propriedade da terra, o agente é posto na abertura do enunciado, apresentando-se de imediato uma autoria para o processo: ‘desembargador’, ‘advogado’, ‘Jobim’ [Ministro da Defesa], ‘rizicultores’. Ao abordar a posse da terra, faz-se uso de substantivo em lugar de especificar quem praticou dada ação indeterminada, ou o agente aparece como último item da frase. Interessa-nos 67 compreender no que essa forma de distribuição dos elementos na frase constitui sentidos para a posse e propriedade da terra. Que efeitos de sentido podem-se apontar com essa exata distribuição do sujeito e dos verbos na estrutura frasal para dizer sobre a propriedade da terra e não o inverso, por exemplo? Pode-se assinalar que, pela indeterminação do sujeito da ação verbal, além de não imputar a alguém a responsabilidade do ato, são mobilizados sentidos que requerem uma naturalidade para esse procedimento. Assim, em “Decisão viola direitos dos índios, diz Conselho Indígena” ao não se informar quem tomou a decisão, constrói-se uma “blindagem” em que a ação se apresenta como natural, independente da autoria, como se isso fosse irrelevante ou como se contra/sobre tal decisão ninguém pudesse fazer nada, nem pudesse ser de outra forma. No entanto explicita-se, em primeiro plano, que a “PF [Polícia Federal] é acusada de invadir propriedades em Roraima”. Interessa-nos salientar que esse mecanismo de distribuição diferenciada na frase para anunciar a disputa da terra, visto em relação ao que já pontuamos, torna-se mais um elemento que contribui para a manutenção de certa direção de sentidos, a saber, a propriedade em detrimento da posse da terra. Os índios, enquanto aqueles que agem em defesa própria, como detentores de direitos são, pois, uma formulação ímpar no conjunto das manchetes: “Índios usam internet para defender seus direitos”. Enfatizamos que essa excepcionalidade não é sem efeito para os sentidos da disputa pela terra e, mais que isso, há que se destacar que a presença dos índios, como agentes, dá-se em um enunciado cujo assunto debatido situase fora da disputa pela terra. A íntegra do texto versa sobre índios utilizando a internet. Ou melhor, é uma introdução que, em oito linhas, remete para outro sítio, em que a matéria está completa e em que são apresentadas vantagens que os índios podem ter interagindo em chats com outros índios. Urge ressaltar que, conforme anuncia a manchete, sobre os direitos que os índios defendem pela internet, não há palavra para enumerá-los. Assim, é que, no/pelo discurso jornalístico, os índios vão sendo significados numa direção que aponta para aqueles que não possuem direito à terra. E essa desqualificação não se dá em separado dos sentidos de outros apagamentos que já apontamos. Veremos em seguida como a iminência efetiva da posse da terra, pela desocupação da terra indígena através da intervenção da força policial federal, é noticiada nos sítios sob análise. 68 Brasileiros e(m) suas terras Em 2006, um ano após a homologação, pelas/nas manchetes do episódio da iminência da retirada de fazendeiros da Raposa Serra do Sol constrói-se um tripé em que estão “agressores-vítimas-defensores”. Interessa-nos observar como, nesse processo narrativo, cada um dos elementos desse tríplice alicerce e os efeitos para os sentidos da disputa pela terra vão sendo configurados tendo em vista os sentidos construídos sobre essa temática pelo viés do conjunto das manchetes analisadas. Sobre a iminência da retirada de não índios da Raposa Serra do Sol, cumpre esclarecer que findava o prazo legal estipulado no ato da homologação para que todos os não índios saíssem da terra indígena. Em torno disso, propaga-se a possibilidade de conflito na região: há protesto a favor dos arrozeiros e a BR é fechada; divulga-se amplamente a presença da Polícia Federal em Roraima, com um efetivo de trezentos homens, para dar início ao processo de retirada dos não índios da área; a polícia chega a entrar em fazenda que deveria ser desocupada. E, em meio a isso, diversos instrumentos jurídicos e políticos são acionados para impedir o início do processo de desocupação da terra indígena. Vejamos as manchetes. SD33: Prefeito diz que Pacaraima foi “sitiada” por forças federais. (Folha BV, 24/04/2006) SD34: Federal envia cerca de 300 agentes armados para Raposa Serra do Sol. (Folha BV, 24/04/2006) SD35: Senador denuncia excesso da federal. (Folha BV, 25/04/2006) SD36: RAPOSA SERRA DO SOL – PF começa a entrar nos arrozais. (Folha BV, 25/04/2006) SD37: Campello [juiz] diz que uso da força não é bem visto pelo Judiciário. (Folha BV, 26/04/2006) SD38: PF quebra cadeado e entra em fazenda. (Folha BV, 26/04/2006) SD39: Rizicultores vão processar União por invasão e danos. (Folha BV, 27/04/2006) 69 Por um lado, cumpre ressaltar que a Polícia Federal, que foi enviada pelo Governo Federal para auxiliar na retirada dos não índios da Raposa Serra do Sol, é qualificada como agente agressor, o organismo que promove a violação de direitos. À Polícia Federal, descrita como “cerca de 300 agentes armados”, são imputadas ações revestidas de negatividade, mas, sobretudo, apontando para a violência e, consequentemente, para o desrespeito à lei: sitia a cidade de Pacaraima, “quebra cadeado e entra em fazenda”. A esses atos atribuídos à Polícia Federal, senador “denuncia excesso”, juiz avalia como “uso da força” e ressalta que tal modo “não é bem visto pelo Judiciário”. Vale notar que a direção de sentidos para as ações da Polícia é construída remetendo-as ao campo semântico alusivo ao combate, à guerra: destaca-se que eles são “agentes armados” e que “sitiam” uma cidade, “quebram cadeado e entram”. Em suma, a presença da Polícia Federal e as intervenções por ela praticadas são dadas antes como danosas que portadoras de quaisquer benefícios aos que vivem em Roraima. Antes de destacarmos alguns aspectos para análise, observemos que, por outro lado, há diversas manchetes que anunciam reações a esse entendimento da presença e do trabalho a ser feito pela Polícia Federal. Vejamos: SD40: RAPOSA SERRA DO SOL – Ações jurídicas e políticas tentam adiar a desintrusão. (Folha BV, 06/04/2006) SD41: RAPOSA SERRA DO SOL – Senadores pedem suspensão da Portaria de demarcação de reserva. (Folha BV, 07/04/2006) SD42: Senador defende a permanência de não-índios na área demarcada. (Folha BV, 12/04/2006) SD43: Senado fiscalizará processo de desocupação na área da Raposa. (Folha BV, 04/04/2006) SD44: Senador afirma que instituições não podem expulsar famílias da reserva. (Folha BV, 17/04/2006) Como vimos anteriormente, a presença e as ações da Polícia Federal são dadas como negativas, sem que nelas se destaque algum aspecto positivo. A partir dessa leitura, são possíveis reações e atitudes de vigilância e de defesa. Como se lê, é ao lugar da representação política – senadores – que é repetidamente atribuída a defesa dos não índios contra as ações do Governo Federal e dos que o representam naquele momento, a Polícia Federal. É desse lugar que se denunciam os excessos da Polícia Federal, entra-se 70 com agravo no STF, com processos contra a desintrusão. Há outros defensores, tais como ‘desembargador’, juiz [Campello] e ‘advogado’, mas eles não alcançam a veemência com que os políticos ocupam nas manchetes o lugar daqueles que saem em amparo aos que devem sair da terra indígena. Vale ressaltar que, considerando todas as manchetes que constituem nosso arquivo, ao longo do período analisado, não há única manchete em que se possa desassociar o grupo político de Roraima dos não índios que são fazendeiros na terra Raposa Serra do Sol. Ou seja, não há manchete que aponte uma direção de sentido oposta a essa aliança com os que representam a propriedade e em detrimento da posse indígena da terra. Observando os dois conjuntos de manchetes acima, sobressai uma desigualdade quantitativa. Praticamente só há notícias sobre os que são assinalados como vítimas e, para isso, não se poupam pormenores do que é imputado como agressão aos fazendeiros ou sua defesa. Interessa-nos investigar os efeitos de sentido dessa avalanche de notícias que assim divulga as ações que visam ao coroamento da posse indígena da terra Raposa Serra do Sol. Que direção de sentidos é apontada nesse modo de anunciar que não menciona os índios e apresenta os não índios como agredidos e prejudicados? O que se constrói como memória pelo excesso de assim dizer sobre os índios e não índios em relação à terra? E, concomitantemente, o que com isso fica apagado da memória? Sabendo que esse não é o único modo de noticiar o fato, podemos cogitar outras possíveis formas: ao invés de uma trama envolvendo ‘defensores’, ‘vítimas’ e ‘agressores’, poderia transparecer na totalidade das manchetes a finalidade por que o efetivo da Polícia Federal foi deslocado para o estado de Roraima; em vez de os fazendeiros avultarem na condição de vítimas das ações da Polícia Federal, poderiam figurar nas manchetes os índios e os seus direitos à terra; questionamentos poderiam ser aventados sobre o cumprimento de tais direitos constitucionais. Urge indagar: o que torna possível materializar nas manchetes um inverso particular segundo o qual a Polícia Federal invade e viola direitos [dos fazendeiros] ao invés de anunciar que sua intervenção deve-se à tentativa de fazer valerem os direitos dos índios à terra e fazer cumprir a lei que os concebe como donos da terra? Que direção de sentidos vai sendo construída por esse modo de dizer? Algumas observações podem ser levantadas. Com/por esse modo de anunciar, instituindo “agressores-vítimas-defensores” no processo de retirada de não índios da terra indígena, em primeiro plano edificam-se sentidos para os que deverão sair da terra. Descrever os não índios em condição de vítima e sem nada anunciar-lhes como 71 vantagem ao deixarem a terra indígena é, em contrapartida, constituí-los e reafirmá-los donos dessas terras. É a partir da instituição de legítimos proprietários que é possível que se instalem fortes efeitos de perda, de lesão para os fazendeiros. É por serem dados como donos da terra que a saída pode imperar significando como anormalidade dos fatos, como a inversão da ordem estabelecida, enfim, como interferência arbitrária na vida dos que estão resguardados pela lei. Ou seja, aponta-se para um sentido já-dado que prevalece como efeito: a legítima propriedade da terra é dos não índios. Vale ressaltar que, pela construção/direção de sentidos centrada em “agressoresvítimas-defensores”, os índios não são os que violam os direitos, nem são os que provocam tensão e a iminência de conflito, tampouco são os que necessitam de defesa e não são responsabilizados pelos acontecimentos dados como negativos para os não índios. Enfim, os índios, não são lembrados nas manchetes; estão fora, ou talvez melhor seja dizer: os índios não têm existência [significada] no que se vai construindo pelas/nas manchetes dos sítios analisados. No entanto, como uma ruptura no evento pautado nos “agressores-vítimasdefensores”, trazemos as manchetes abaixo: SD45: DIA DO ÍNDIO – Índios protestam bloqueando rodovia. (Folha BV, 20/04/2006) SD46: Polícia Rodoviária convence índios a retirar o bloqueio da BR-174. (Folha BV, 20/04/2006) SD47: Índios fecham rodovia federal em Roraima. (Folha Online, 19/04/2006) Indistintos como ‘índios’ nas manchetes, um primeiro efeito de sentido é o de que, sob a construção discursiva dessa referência, estão todos os índios da Raposa Serra do Sol. Todavia a referência discursiva construída para o termo ‘índios’ nessas manchetes, longe de abarcar todos os indígenas de Roraima, diz respeito exclusivamente ao grupo de índios que, enquanto aliados, protestam contra a saída dos rizicultores da terra indígena Raposa Serra do Sol. Porém, pelo plural generalizante é construída uma pretensa totalidade em que são “colados” sentidos para os índios ao lado de todos os outros, os brasileiros. É relevante observar que, por essa tentativa de homogeneização, os índios são revestidos de sentidos que ressaltam sua contrariedade em relação à posse indígena da terra em detrimento dos brasileiros. Por enquanto, como entrada para tentarmos apreender os efeitos de sentido dessa proposta de corporação “índios & brasileiros”, deixamos uma 72 indagação: que sentidos são possíveis de serem mobilizados com essa pretensa junção de índios e brasileiros no que diz respeito à luta pela terra? Em que ponto da memória tais sentidos podem ser acolhidos? Voltaremos a esse ponto mais adiante. Uma complexa e contraditória trama de sentidos para os índios deixa-se exposta: ora os índios não são referidos na trama principal da disputa pela terra, não sendo implicados (como cidadãos, com direitos e deveres) na retirada dos fazendeiros da terra indígena Raposa Serra do Sol; ora são indistintos e generalizados como contrários à posse indígena da terra. Nisso ressaltamos: em não se dizendo uniformemente sobre os índios, eles não são eliminados das controvérsias históricas (passadas, atuais ou futuras) envolvendo a terra: não se deixa de ter, nos sentidos movimentados para os índios, uma predominância orquestrada. Esse também é um procedimento de construção de sentidos e por ele se institui um modo singular de descrever os índios, podendo qualificá-los sem que sequer sejam aludidos ou mencionando-os de certo modo em vez de outro. Vale advertir que, em se tratando de disputa pela terra, esses modos de significar trazem implicações. Deve-se acentuar que nesse processo constrói-se um apagamento dos índios em suas diferenças na relação com os brasileiros, relação essa marcada por uma forte separação, conforme indicam outros aspectos já analisados. Por esse funcionamento, em que os índios vão sendo depostos do corpo social e apagados da história, são trabalhados sentidos que cultivam e fazem prevalecer nuances de uma imagem de índio já estabilizada em nosso imaginário: o índio ainda dócil, ingênuo, manipulável por terceiros sempre mal intencionados; o índio preguiçoso, vivendo exclusivamente da caça e da pesca. Com isso, apesar da polêmica discussão sobre a terra, o índio é relegado a um plano do passado, como aquele que – em remotas eras – contribuiu para a formação do povo brasileiro, como ensinavam os manuais escolares brasileiros que formaram a geração adulta de nossos dias. Interessante notar que, de diversas formas, essa imagem dos índios firma sua separação dos brasileiros. Por exemplo: nesse imaginário, enquanto os índios podem (e devem) permanecer no passado, não parece ser factível qualificar o brasileiro buscando elementos só em um passado longínquo: o brasileiro foi, mas, sobretudo, o brasileiro é. Ou ainda, diversamente do índio, o brasileiro não contribuiu para a formação de nenhum povo, ao contrário, resultou brasileiro. Diante disso, interessa-nos observar que essa separação dos índios em relação aos brasileiros e esse estatuto de passado imputados aos índios não deixa de significar na disputa pela terra com os brasileiros. 73 Em uma pergunta: a esse índio aprisionado no passado cabe ser dono de terra em detrimento do brasileiro? Vimos que, desse modo, instaura-se um jogo desigual de produção de sentidos nas/pelas manchetes entre aqueles que devem ser defendidos e aqueles que sequer são mencionados. Numa relação de concomitância, os sentidos mobilizados nas manchetes trazem a imagem do não índio/brasileiro vitimado por ser considerado o dono da terra da qual deve sair, e, in absentia, é mobilizada (e se trabalha para manter o índio preso a) uma imagem que há muito foi construída. Isso posto em relação à posse da terra, uma direção se delineia fortemente: é requerida e fortalecida a legitimidade da propriedade da terra àquele que é apresentado como lesado ao sair de sua terra, o não índio, o brasileiro. Cabe observarmos, na análise de outros aspectos, como esse fechamento dos sentidos da posse da terra ora dado persiste ou não. Ou seja, devemos observar de que modo essa organização dos acontecimentos será re-configurada, mantendo seus elementos ainda significando como o acima exposto. 3. Upatakon, Nossa terra X ‘Roraima’ Desde abril de 2005, quando a terra Raposa Serra do Sol foi homologada, a Polícia Federal e a Força Nacional de Segurança passaram a ser mobilizadas pelo Governo Federal e enviadas a Roraima sob a justificativa de manutenção da paz entre índios e não índios, ou, mais explicitamente, para assessorar na retirada de não índios da terra indígena. O momento mais crítico das investidas dessas forças policiais foi em 2008. O mês de abril, bastante conturbado, foi marcado por uma intensificação da pressão para que os fazendeiros desocupassem as terras indígenas, mas os contrários à forma como a homologação foi feita – em área contínua – tentam, de diversas formas, revogar essa decisão. Houve manifestações de arrozeiros e índios aliados em Boa Vista pela não retirada dos não índios da Raposa Serra do Sol; também interditaram estradas e queimaram pontes para impedir a entrada da PF na área indígena. Sobressai um enfrentamento explícito no âmbito da lei entre os governos de Roraima e o Governo Federal: o governador de Roraima, apoiado pelos políticos locais, 74 entrou com uma ação judicial solicitando que o STF suspendesse a operação preparada pela Polícia Federal e pela Força Nacional de Segurança. Por fim, o STF suspendeu a operação de retirada dos fazendeiros. O Governo Federal, representado pela AGU (Assessoria Geral da União) e pelo Ministro da Justiça entraram com pedido de anulação dessa medida o que, por sua vez, foi indeferido pelo STF. Vale mencionar que, no final do mês de abril, registrou-se um evento de grande violência: dez índios foram feridos na terra Raposa Serra do Sol – oito deles foram baleados – e, como acusados, foram presos o então prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero (conhecido como líder dos arrozeiros), seu filho, além de dez de seus funcionários. Interessa-nos investigar como essas demandas são noticiadas: que sentidos são mobilizados na apresentação desses fatos? O que é silenciado nessa intensa disputa política – de sentidos, de terra e de poder? Que sentidos se juntam aos já fixados sobre posse das terras brasileiras disputadas entre índios e brasileiros? Vejamos como esse processo se apresenta materializado nas manchetes. Inicialmente, destacamos que a operação a ser realizada pela Polícia Federal e pela Força Nacional de Segurança foi designada por uma palavra da língua macuxi, ‘Upatakon’, cuja tradução para a língua portuguesa equivale a ‘nossa terra’. O que se mobiliza nas/das diferentes filiações de sentidos por essa escolha da língua indígena para denominar uma intervenção cuja finalidade é retirar os não índios da terra indígena? Ou seja, o processo de construção de sentidos seria idêntico se o nome dado tivesse sido em língua portuguesa, “Nossa terra”? Para refletir sobre essa questão, cumpre antes ressaltar que, sobre o Brasil e a língua que nele se fala, funciona o imaginário de unidade linguística, mecanismo comum à construção das identidades nacionais modernas. No caso brasileiro, ecoa forte o que nos diz que o Brasil é um país monolíngue e essa única língua falada é a língua portuguesa. Ou seja, há um pré-construído (PÊCHEUX, 1997 [1975]) que assevera que no Brasil só se fala uma língua, a Língua Portuguesa. No entanto, conforme Guimarães (2000, p. 177-179), com a Constituição de 1988, ocorrem dois deslocamentos significativos no que tange à questão da língua do/no Brasil. A Língua Portuguesa passa a ser em relação ao Estado – língua oficial do Estado brasileiro, não mais à nação segundo se verificava nas constituições anteriores. O autor ressalta que a Constituição de 1988, ao formular o reconhecimento das línguas indígenas, tem-se que a Língua Portuguesa é oficial, mas não é única. Vale ressaltar que, com esse gesto, autoriza-se constitucionalmente saber que no Brasil são praticadas em torno de 200 línguas. O 75 Brasil é, pois, um país multilíngue. (GUIMARÃES, 2003, 2005; MARIANI, 2008, dentre outros.) Considerando o imaginário de unidade linguística no Brasil e a disjunção apontada entre brasileiros e índios neste trabalho, discutiremos sentidos mobilizados ao denominar em língua indígena em vez de em língua portuguesa. Para isso, nos valeremos da noção de “espaço de enunciação” tal como proposta por Guimarães (2002, 2005, dentre outros). Para Guimarães (2005), o “espaço de enunciação é o modo de distribuir, segundo as definições acima [língua materna, língua franca, língua nacional, língua oficial], as línguas em relação. E esse modo de distribuição é elemento decisivo do funcionamento de todas as línguas relacionadas. Esta distribuição das línguas para seus falantes é sempre desigual. O espaço de enunciação é, assim, político” (GUIMARÃES, 2005). Isso posto em relação ao advento da Constituição de 1988, interessa-nos focar as mudanças carreadas no que se refere ao reconhecimento dos índios enquanto indivíduos (aquele individualmente que pode “ingressar em juízo”) e em suas diversas etnias e diferentes línguas. Esse reconhecimento altera o “espaço de enunciação” no Brasil; no entanto essa reconfiguração “estabelece diferenças ao acesso à palavra segundo a língua em que se fala” (GUIMARÃES, 2000, p. 178. Grifos nossos.) Ou seja, as línguas indígenas são reconhecidas como línguas dos índios sem que isso altere a representação da língua do/para o Estado, a Língua Portuguesa. Assim, o autor põe em tela o fato de a língua portuguesa ser a língua da nação, a língua oficial do Estado, ou seja, a língua em que deve se expressar o cidadão brasileiro. Com isso, o Estado reserva às línguas indígenas poderem ser “elementos de caracterização dos índios” e, sobretudo, não poderem ser faladas “enquanto elemento de política de Estado.” Por fim, Guimarães (id., ibid.) conclui que, em nossa sociedade, os índios ou quaisquer outros que falem uma língua que não a portuguesa, “não existem no Brasil enquanto seres falantes.” A partir da reflexão elaborada por Guimarães (2000), faremos algumas observações sobre a denominação Operação Upatakon. Por um lado, pode-se aventar que com ‘Upatakon’ fala-se tão somente para os índios particularizados entre si, falantes de macuxi e, no máximo, representando/apagando os outros povos (e suas línguas) que vivem na Raposa Serra do Sol. Pode-se ventilar que, por ‘Upatakon’, deixa de ser inteligível para os cidadãos brasileiros, falantes oficiais do português, o enfático caráter de exclusividade carreado pela construção discursiva da referência de ‘nossa’. ‘Upatakon’ faz saber a quem a “boa nova” da posse da terra? Pode ressoar como 76 memória para quem que a posse é exclusividade indígena? Se os índios, já sabedores que a terra lhes pertence, essa fala faz sentido para quem interessa fazer? Ou seja, ‘Upatakon’ faz sentido para aqueles a quem ela é endereçada, os não índios que ocupam e devem sair da terra? Com isso, estamos concordando com Guimarães (2000) quando diz que o próprio modo de reconhecer os índios, seus costumes, suas línguas – em capítulos sempre à parte no texto da Constituição – afirma a diferença dos índios relativamente aos brasileiros. Ou ainda quando ele destaca que o Estado reconhece as línguas indígenas lá, entre os índios, mas não os escuta senão em língua portuguesa, inclusive para entrar em juízo e requerer o cumprimento da lei. Desse modo, com a Constituição de 1988, o autor considera que se redivide o espaço de enunciação brasileiro, mas com essas implicações para os índios e suas línguas. Ressaltamos, diante disso, que, em virtude da relação do Estado com as línguas, as línguas indígenas restam ainda em falta, ainda sem Lei (cf. MARIANI, 2004) e, os índios, com uma cidadania surda, incompleta e, talvez, mesmo impossibilitada. No entanto, tendo em vista o que temos discutido e analisado nessa pesquisa, nossa concordância não é sem ressalvas. Vejamos. No processo pelo qual se nomeia a operação como ‘Upatakon’, realiza-se a tradução de ‘nossa terra’ por ‘Upatakon’. E é essa a direção em que se dá a tradução, não o contrário: traduz-se da língua portuguesa para a língua macuxi. Frisamos que esse mecanismo é de grande relevância, sobretudo, porque a língua portuguesa é a língua oficial do Estado. Com a/pela nomeação em língua indígena, o Estado desfaz o gesto que fizera outrora, com seus diversos atos de política linguística, que culmina com a imposição do uso exclusivo da língua portuguesa, em 1757, pelo Édito dos Índios, do Marquês de Pombal. Como diz Mariani (2003), em sua reflexão sobre o processo de “colonização linguística”: No caso da colonização lingüística brasileira, a política lingüística estabelecida pelo Diretório dos Índios e a ação de Pombal constituem elementos cruciais no processo de apagamento das línguas indígenas e da língua geral. Estas línguas foram ficando cada vez mais ausentes da construção discursiva que oficializa uma história da colonização e, também, da história da própria língua portuguesa no Brasil. (MARIANI, 2003, p. 8. Grifos nossos.) Em ‘Upatakon’, nomeação compreendida como gesto político-linguístico de Estado, é desenhado pelo trajeto que sai da língua oficial para uma língua indígena, 77 contrariamente ao que se foi instituindo pelo “processo de apagamento das línguas indígenas”, forjadas de modo que restavam “cada vez mais ausentes da construção discursiva que oficializa uma história da colonização e, também, da história da própria língua portuguesa no Brasil”, como diz Mariani (2003). Assim, o movimento de nomeação em língua indígena funciona em relação a esse processo histórico. Ou seja, é em relação ao apagamento das línguas indígenas em nossa história que ‘Upatakon’ rende existência ao que se registra, em língua portuguesa, no texto constitucional. Ou seja, o Estado institui – como prática – a lei, diferentemente do que tem se verificado desde o reconhecimento do ‘indigenato’, nos idos de 1680, pelo que a posse indígena da terra é garantida, conforme discutimos na parte anterior deste trabalho. Ou seja, há muito se formula a garantia da posse indígena da terra brasilis, mas esses dizeres não têm circulado com tanto vigor, nem têm se traduzido em fato inequívoco no funcionamento social, como mostra a continuidade dos embates pela terra entre índios e brasileiros: permanece a instabilidade, a disputa dos sentidos do texto da lei. Queremos ainda acentuar que na formulação ‘Upatakon’ são os índios que dizem ‘nossa terra’. Pois, como nos foi dado saber, desde a homologação em 2005, aqueles que podem dizer ‘nossa terra’ em relação à Raposa Serra do Sol, são os índios das cinco etnias que lá vivem. Pela referência discursiva assim construída, pode-se notar que pelo uso de ‘Upatakon’, em língua indígena, dá-se voz exclusiva aos índios, restrição que não se imporia em ‘nossa terra’, com o uso da língua portuguesa. Com isso, pelo uso da língua indígena reforça-se a direção de sentidos pela qual se afirma a posse indígena da terra. Pela língua indígena, ‘Upatakon’ su-porta o gesto de expulsão dos brasileiros que teimavam em permanecer na Raposa Serra do Sol. Por fim, com ‘Upatakon’, se o Estado toma a voz é para os índios dizerem, ou, melhor, no que o Estado diz ‘Upatakon’ não é mero discurso sobre, como tem costumado ser quando se trata dos índios no Brasil (ORLANDI, 1990). Pelos aspectos que levantamos, sobretudo pelo gesto inverso do Estado em relação às línguas indígenas, propomos que há uma re-divisão diferente da que propõe Guimarães (2000) no espaço de enunciação brasileiro. Há um movimento que, embora possa parecer singelo e de pouca monta, pode apontar um deslizamento de sentidos: o que se efetua pelo gesto reverso empreendido pelo Estado, rompendo – de fato – a proibição do uso de quaisquer línguas indígenas no Brasil. Contrariamente ao que diz Guimarães (2000, p. 178), a língua indígena pôde, sim “ser falada enquanto elemento de política de Estado.” Ao invés de fazer calar, o Estado faz falar macuxi. Sobressai que o 78 imaginário linguístico é outro. E isso faz com que em ‘Upatakon’ reste algo impossível de ser dominado/domesticado pela mera tradução aprisionada ‘entre parênteses’ como mostram as páginas dos sítios jornalísticos: “Upatakon (‘nossa terra’)”. Com isso passemos, às manchetes que noticiam a chegada da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança e, em seguida, trazemos manchetes que anunciam o pedido de suspensão do trabalho desse grupo de policiais. SD48: Mais de 350 policiais federais chegam a Roraima esta semana. (Folha BV, 02/04/2008) SD49: OPERAÇÃO UPATAKON 3 – Policiais da Força Nacional chegam a Roraima. (Folha BV, 05/04/2008) SD50: Força Nacional se une à PF para desocupar reserva indígena. (G1, 08/04/2008) SD51: PF diz que está pronta para a ‘guerra’ para retirar não-índios de reserva em Roraima. (Folha Online, 09/04/2008) Pode-se observar que, enquanto os sítios dos jornais de outros estados anunciaram a ida dos policiais a Roraima trazendo uma explicação, diferentemente, no sítio do jornal de Roraima anuncia-se uma chegada: “Mais de 350 policiais federais chegam a Roraima esta semana”, “OPERAÇÃO UPATAKON 3 – Policiais da Força Nacional chegam a Roraima”. Desse modo, deixa-se de atribuir qualquer elucidação ou justificativa para a presença dos policiais, tampouco se menciona alguma necessidade da Polícia Federal em Roraima. Que efeitos de sentido essa forma de anunciar ocasiona para a questão da terra disputada? O que implica como sentidos a presença de mais de quinhentos homens em um local sem que se diga da necessidade dessa intervenção? A discussão é deslocada, pelo que não explicitado nas manchetes, e coloca-se no lugar outras possibilidades de significar. Ou seja, no espaço ‘em branco’ das manchetes são mobilizados outros sentidos: faz-se recair sobre a própria presença física dos policiais e não sobre ‘o que lá eles foram realizar’. Em vez disso, poderia estar sendo apontada como necessidade o uso da força para que venha a ser respeitada a decisão que assegurou a posse indígena da terra, três anos antes. Assim, deixar de dizer que a Polícia Federal foi a Roraima, por exemplo, “para desocupar reserva indígena”, que foi preparada para “a ‘guerra’ para retirar não-índios de reserva em Roraima” faz trabalhar sentidos que relegam a um plano menos visível a discussão sobre a execução da lei dos direitos indígenas à terra. Não dispensar esclarecimentos para a tal chegada, configura a 79 presença e a participação dos policiais como uma intervenção arbitrária do Governo Federal, um episódio sem porquê. E, desse modo, vão sendo trabalhados uma direção de sentidos favoráveis à continuidade dos fazendeiros onde estão, ou seja, partidários a desconsiderar a posse indígena da terra, a manter a ilegalidade. De nossa perspectiva é relevante observar que, a esse modo de anunciar a vinda da Polícia Federal, seguem-se diversas solicitações para a saída desses policiais. Passemos às manchetes que noticiaram o pedido de suspensão dos trabalhos da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança. SD52: “Roraima pede a Lula que PF saia de reserva”. (Folha Online, 04/04/2008) SD53: “Governo pede no STF suspensão da Operação Upatakon 3”. (Folha BV, 07/04/2008) SD54: “Roraima entra com ação para paralisar operação da PF em reserva indígena” (G1, 09/04/2008) SD55: “Governador de Roraima pede liminar no STF para suspender operação em reserva” (Folha Online, 08/04/2008) Discutiremos, a princípio, o que se apresenta como objetividade na/pela designação daquele que solicita a suspensão da Operação da Upatakon 3. Vale sublinhar que o que está em jogo nessa solicitação é que aquele que ambiciona suspender a Operação Upatakon, antes de tudo, almeja interromper a ação de saída dos não índios da Raposa Serra do Sol. Para depreendermos quem se apresenta na autoria desse pedido, inicialmente, consideraremos o que se vai construindo discursivamente como referência. Assim, observa-se o processo de repetição, de sinonímia, de paráfrase e como esse processo é determinado por uma matriz que lhe provê de sentidos, na/pela relação com outros sentidos. Ou seja, não são palavras quaisquer que se juntam, ou se substituem; não há uma referência prêt-à-porter, de clara objetividade que possibilite seu uso no campo aberto dos sentidos. Visto desse modo, que efeitos de sentidos vão sendo produzidos pela equivalência posta por/nessas manchetes entre o representante político do estado e a totalidade do estado? Que implicações trazem para os sentidos do pertencimento da terra o ‘governo’, o ‘governador de Roraima’ e ‘Roraima’ se substituírem diante de uma mesma solicitação? 80 Por um lado, instaura-se uma unidade harmônica entre todos os que vivem em Roraima e o representante do estado; por outro, instaura-se uma concordância quanto à solicitação para que a operação da Polícia Federal seja paralisada. Antes de tudo, faz-se entender que a permanência de produtores de arroz na terra indígena é uma solicitação relativa a todos os que vivem em Roraima. Urge questionar isso que se apresenta como homogeneidade unânime do querer. No que se refere a quem solicita a suspensão da operação de retirada dos arrozeiros da Raposa Serra do Sol, em vez de tomarmos ‘Roraima’ como um termo que só pode significar ‘um dos estados do Brasil’, observaremos o processo discursivo do qual ele faz parte, que termos são permitidos e quais outros aí estão impossibilitados de comparecer. Enfim, como é estabelecida a rede de sentidos em que se prende esse vocábulo em sua espessura e opacidade. Nessa perspectiva, se considerarmos a defesa da permanência dos produtores de arroz na terra indígena, ‘Roraima’ passa a estabelecer uma relação de substituição com a totalidade dos políticos que representam o estado, com os fazendeiros da produção de arroz que ainda estão na terra indígena, com os trabalhadores dessa plantação (dentre eles, índios), com os índios representados pela Sodiur (Sociedade dos Índios Unidos de Roraima), com os representantes do Exército em Roraima, com parte da população roraimense. Assim, delineia-se o conjunto dos que podem são referência para ‘Roraima’ nessas manchetes. Diante disso, faz-se necessário indagar: onde restam os milhares de índios que têm lutado pela demarcação/homologação da Raposa Serra do Sol por mais de três décadas? Enfim, onde restam os não índios que também compartilham o princípio de que a terra pertence, por direito, aos índios? Como significam em relação a ‘Roraima’ os que exigem a retirada de qualquer um que não seja índio da terra Raposa Serra do Sol? Visto desse modo, não são todos os que vivem em Roraima que estão abrigados nos sentidos apontados nessas manchetes. Uns fazem sentido em ‘Roraima’, ou seja, encontram sentidos nessa referência, ao passo que outros são repelidos desse abrigo. E, no que tange à terra, podemos remeter mesmo ao lugar físico-político: que lugar para os índios, então, sendo assim postos fora do Estado? O que a atualidade vem a nos dizer sobre ser excluído do Estado? Desse modo, a direção de sentidos apontada nessas manchetes apaga quaisquer outros, sobretudo, os índios que têm reivindicado a posse da terra. Nesse sentido é que 81 podemos dizer de muitos que, estando no estado de Roraima, permanecem fora de ‘Roraima’, fora do que a direção de sentidos predominante suporta. Os índios estão – fisicamente – no Estado, mas fora das fronteiras discursivas do Estado, apagados como cidadãos. Podemos dizer que, nessa tentativa de cerzimento de sentidos em uma única região, dá-se a ver a Formação Discursiva. No entanto é no que essa rede parafrástica estabelece e pelos sentidos que essa relação tece que outros dizeres estão latentes. Outra formação discursiva aí se mostra, em relação de oposição. Mostra que, fosse outra a sinonímia arquitetada, outros poderiam ser os sentidos direcionados. Desmontada a evidência de totalidade requerida para os sentidos de Roraima, resulta que Roraima não suporta todos os que nela vivem. Mas, recorrer ao termo ‘Roraima’ significando a certeza de abarcar os todos que lá vivem, mantém uma direção de sentidos para a posse da terra. São fortalecidos os sentidos do direito à propriedade em detrimento do direito à posse indígena da terra. Prazo para sair: permanência na terra indígena O caráter decisivo e final representado pela votação favorável do Supremo Tribunal Federal acerca da manutenção da homologação da Raposa Serra do Sol, em área contínua, conforme realizada em 2005, é nosso foco de interesse nessa parte. Tomamos como partida um evento sucedido em 2009, e que foi divulgado em meio a notícias relacionadas à violência e/ou a ilegalidades nas terras indígenas, sobretudo, desmandos relacionados à exploração de madeira e à exportação de pedras preciosas nessas terras. Discutiremos algo que foi manchete em todos os sítios analisados: o prazo estipulado no final de março, pelo Superior Tribunal Federal, para que a saída de todos os não índios da Raposa Serra do Sol se efetivasse até o dia 30 de abril de 2009. Vejamos as manchetes. SD56: Deputados pedem maior prazo para desintrusão. (Folha BV, 28/04/2009) SD57: Deputados pedem regras para saída de reserva em RR. (G1, 28/04/2009) SD58: Deputados pedem regras para saída de reserva em RR; (Folha BV, 28/04/2009) SD59: Comissão da Câmara deve pedir ao STF prazo maior para a saída de não índios. (Folha BV, 27/04/2009) 82 SD60: Arrozeiro pede mais prazo para deixar reserva em Roraima. (Folha Online, 26/04/2009) Considerando a estrutura frasal, podemos observar que os solicitantes de prazo estão sempre expressos: ‘Deputados’, ‘Comissão da Câmara’, ‘Arrozeiro’. E a forma verbal ‘pedir’ é repetida em todas as manchetes. No entanto aqueles que devem sair e de onde devem sair puderam ter seu lugar nem sempre preenchidos na construção da frase. Nesse procedimento, nos interessa ressaltar que, pelo que poderia ser entendido como mero detalhe do anunciar, faz movimentar mais intensamente alguns sentidos e, ao mesmo tempo, aquietam outros fora das manchetes. Resta sem anunciar que se trata de ‘não índios’ que devem sair de terras pertencentes aos índios. Isso diz respeito a não focalizar sentidos que apontem os brasileiros que situados na ilegalidade e, assim, também não se põe em circulação sentidos sobre a legitimidade da posse indígena da terra. Com isso, vão sendo construídos e mantidos sentidos para o direito indígena à terra como se não se tratasse de direitos desrespeitados, como algo sem lugar no que é tomado como francamente noticiável. É relevante frisar que, pelo que se lê, pode-se entender que fazendeiros e políticos roraimenses não questionam a saída dos fazendeiros/não índios. Em vez disso, a repetição do verbo ‘pedir’ funciona estipulando o espaço da reverência e da solicitação como acolhimento para o que se colocará como complemento verbal: ‘prazo’, ‘regras’. Isso diz respeito à construção da imagem dos que fazem a solicitação e, ao mesmo tempo, daquilo que é solicitado. Recebem, assim, um campo favorável para nele serem significados. Vale ressaltar que, desse modo significando, significa-se também os opositores na disputa, os índios, qualificando-os fora desse bendizer. Diante disso, são necessárias algumas observações. A polêmica é, pois, deslocada não só para a ‘saída’, mas para a inviabilidade da saída dos fazendeiros da Raposa Serra do Sol. Pois faltam ‘prazo’ e ‘regras’. Vejamos: pedem maior prazo pedem regras deve pedir ao STF prazo maior pede mais prazo 83 Através de solicitações por dilatação do prazo – sem que nenhuma justificativa seja apresentada, sem fazer menção às decisões legais anteriores, enfim, apagando todo o processo da disputa pela terra – vai-se qualificando o prazo máximo estipulado pelo STF/Governo Federal como apressado, não razoável, enfim, um prazo inexequível para a saída dos fazendeiros da terra indígena. Com isso, o que se põe em evidência não é uma possível intransigência, má vontade nem a ilegalidade em que podem encontrar-se os fazendeiros, mas a falta de planejamento do Governo Federal, resultando como necessidade que se interceda no processo. Ou seja, institui-se um “domínio de atualidade” (COURTINE, 2009 [1981]) que funciona como mecanismo de autorização para as ações imediatas. É por remeter à desorganização, à falta de normas que estabelecem uma anormalidade que se fundamentam e se consentem as atitudes diante do prazo legal estipulado. Por outro lado, há ausências que se fazem notar. Em se tratando de prazo legal, não há manchete para fazer relembrar que a Raposa Serra do Sol fora homologada há quatro anos e que a todos os não indígenas foi dado o prazo de até um ano para saírem da região. Considerando o funcionamento da memória do/no jornalismo, sempre tornando a si mesma, como pôde escapar das manchetes o fato de que a Raposa Serra do Sol foi homologada como posse definitiva dos índios em 2005 e que há um prazo sendo distendido desde abril de 2006? Ou seja, em vez de destacar o pedido de ‘prazo maior’ isento de justificações, as manchetes poderiam questionar por que – mesmo três anos depois de vencido o primeiro prazo – ainda é necessário pedir “prazo maior”? Poderiam estimular saber qual seria O prazo necessário e suficiente para os rizicultores desocuparem as terras indígenas. E, frente à solicitação de ‘regras’ para tal saída, as manchetes poderiam remeter à Constituição Brasileira como regra quando estipula os direitos indígenas à terra. Enfim, certo é que, em não se trazendo esses aspectos como notícia, os sentidos do direito à ‘propriedade [dos brasileiros] da terra’ são fortalecidos em detrimento de sentidos dos direitos indígenas à posse da terra, conforme já discutimos. Mesmo que se marque que há um diferencial quando se diz “Arrozeiro pede mais prazo para deixar reserva em Roraima”, isso não traduz todos os prazos que já foram dados e extrapolados, sobretudo a partir de 2005, prazos que se marcam por uma ausência absoluta nas manchetes. 84 Com isso, é importante observar que, dois dias após esse pedido generalizado por prazo/regras, e chegado o último dia para a saída dos não indígenas da Raposa Serra do Sol, todos os sítios anunciam: SD61: Arrozeiros fazem manifestação contra saída de reserva indígena em Roraima. (G1, 30/04/2009) SD62: Produtores de arroz protestam contra retirada de não índios de reserva em Roraima. (Folha Online, 30/04/2009) SD63: Produtores fazem manifestação. (Folha BV, 30/04/2009) Inicialmente, observa-se que com os termos ‘arrozeiros’, ‘produtores de arroz’ e ‘produtores’ preenche-se, na estrutura frasal, a posição de agente. Não é demais lembrar que esses itens lexicais têm como referência um só grupo, os rizicultores. Esses rizicultores, por sua vez, integram a referência do grupo que fez solicitação por prazo maior para a saída da terra indígena. Quanto aos outros elementos da frase, reunimos abaixo os dois blocos de manchetes a fim de destacarmos, inicialmente, as formas verbais e de que modo se complementam. SD64: Deputados pedem maior prazo para desintrusão. (Folha BV, 28/04/2009) SD65: Deputados pedem regras para saída de reserva em RR. (G1, 28/04/2009) SD66: Deputados pedem regras para saída de reserva em RR. (Folha BV, 28/04/2009) SD67: Comissão da Câmara deve pedir ao STF prazo maior para a saída de não índios. (Folha BV, 27/04/2009) SD68: Arrozeiro pede mais prazo para deixar reserva em Roraima. (Folha Online, 26/04/2009) SD69: Arrozeiros fazem manifestação contra saída de reserva indígena em Roraima. (G1, 30/04/2009) SD70: Produtores de arroz protestam contra retirada de não índios de reserva em Roraima. (Folha Online, 30/04/2009) SD71: Produtores fazem manifestação. (Folha BV, 30/04/2009) As formas verbais pedem, deve pedir e as expressões fazem manifestação contra, protestam contra podem permitir supor uma oposição: de um lado, pedir prazo e regras para que se efetive a saída dos fazendeiros da terra indígena, conforme vimos acima; de outro, fazer manifestação contra, protestar contra a saída dos fazendeiros, apontando 85 para a permanência na terra, a estabilidade. Poderíamos, pois, ter tais atitudes constituídas em regiões de sentidos diferenciadas: o pedido, estipulando um ambiente de acatamento; e manifestação/protesto, remetendo à discordância, à revolta. No entanto, considerando que os sentidos não são fixos, e podendo observar o funcionamento dessas palavras, pode-se chegar ao traçado de outra rota de junção. Seja com a solicitação efetivada por ‘pedem prazo/regras’, seja pelo que se materializa em ‘fazem manifestação contra/protestam contra’, constitui-se um mesmo processo discursivo em que os sentidos configuram-se com efeito equivalente. Para explicitarmos esse funcionamento, recorremos a Pêcheux (1993, p. 96) quando diz: chamaremos efeito metafórico o fenômeno semântico produzido por uma substituição contextual para lembrar que esse deslizamento de sentido entre x e y é constitutivo do ‘sentido’ designado por x e y; esse efeito é característico dos sistemas lingüísticos naturais, por oposição aos códigos artificiais, em que o sentido é fixado de antemão. (PÊCHEUX, 1993, p. 96) Assim, pelo mecanismo possibilitado pela língua, a troca de uma palavra por outra aparentemente distanciada, ‘pedir/protestar contra/fazer manifestação contra’ resulta na obtenção de sentidos que apontam uma mesma direção quanto à ‘saída de fazendeiros da terra indígena’. Pelo funcionamento desses elementos linguísticos, nas condições em que foram produzidos, é que ‘pedir prazo para sair’ desliza e pode equivaler a ‘protestam contra saída’. A saída é, pois, algo dado como sendo do âmbito da des-ordem, do que exige revolta publicamente mostrada. São sentidos que, fazendo permanecer um fio comum em suas diferenças, filiam-se a uma mesma memória sobre o direito à terra: o direito dos brasileiros à propriedade. Vale ressaltar que, no sítio do jornal de Roraima, o Folha de Boa Vista, as manchetes que demandam mais prazo para a saída dos fazendeiros da terra indígena e as que professam diretamente a atitude contra essa saída vêm entremeadas com notícias como as que seguem. SD72: Agenda da semana entrevista deputado federal Aldo Rebelo. (Folha BV, 04/04/2009) SD73: ALE [Assembleia Legislativa do Estado de Roraima] homenageia Gursen de Miranda e Joaquim Correa. (Folha BV, 08/04/2009) SD74: Pioneiro da produção de arroz é velado na Câmara Municipal. (Folha BV, 16/04/2009) 86 Interessa-nos observar que, por esse modo de funcionamento tão comum no jornalismo – a mistura de notícias variadas –, não é facilmente apreensível para o leitor a relação estabelecida entre as partes do conjunto daquilo que é noticiado. Isso não é diferente no jornalismo online e, nesse sítio, especificamente, vale notar que sequer há links permeando o texto, oferecendo uma rota pronta ao internauta. No entanto é também pelo que se vai orquestrando no agrupamento noticiado que os sentidos se estabelecem e têm nesse mecanismo um aspecto ‘naturalmente’ fortalecedor. Conforme propõe a Análise do Discurso, os sentidos funcionam pela/na dispersão, o que não impede que se aglutinem e que lhes sejam delineados certos limites, separando-os dos demais. Essas zonas de sentidos diferenciadas das outras tornam-se “visíveis” pelo processo de análise, apesar de suas margens maleáveis interpenetrarem-se de diversos modos. Esse é o modo de funcionamento das formações discursivas (PÊCHEUX, 1997 [1975]). Com isso, vejamos algumas observações acerca daqueles que foram mencionados nas manchetes. Sobre o entrevistado da semana, deputado Aldo Rebelo (PC do B), vale assinalar que, enquanto deputado federal pelo estado de São Paulo, ele é nacionalmente reconhecido como um esclarecedor e divulgador da demarcação de terras indígenas como ameaça à soberania nacional e à integridade das fronteiras brasileiras; nesse sentido, publicou diversos artigos contrários à homologação da Raposa Serra do Sol em área contínua. Reportemo-nos aos homenageados pela Assembleia Legislativa do Estado de Roraima: o juiz Gursen de Miranda, que recebe o título de “Cidadão Benemérito de Roraima”, com argumentos legais, também é reconhecido aliado dos políticos e fazendeiros de Roraima no que tange o direito à terra. (Vale mencionar que ele propôs e tem divulgado a noção de “Direito Amazônico” como fundamento legal para a propriedade não indígena da terra na Amazônia). Por sua vez, Joaquim Correa de Melo, pecuarista de 86 anos, e devotado ao turismo no lago Caracaranã (na Raposa Serra do Sol), foi homenageado com o título de “Cidadão Orgulho de Roraima” como exemplo de luta, de resistência, sobretudo pela sua permanência na terra Raposa Serra do Sol. Por fim, é um “pioneiro na produção de arroz”, que os roraimenses velam e de quem podem se despedir na Câmara Municipal. A notícia refere-se ao empresário Luiz Afonso Faccio, deputado estadual na década de noventa, proprietário da marca Arroz Faccio, cuja plantação de seis mil hectares, localizada na terra Raposa Serra do Sol, foi a primeira irrigada em Roraima. 87 Sabe-se que por meio de concessão de títulos honoríficos, de homenagens condecorativas e de honrarias políticas em funeral, uma formação social aponta quem são os indivíduos concretos que nela são memoráveis. Melhor dizendo, com as distinções materializadas linguisticamente nas manchetes acima, torna-se conhecido e reconhecido o “qualquer um” que pode – como cidadão roraimense – fazer parte de sua história, ficar em sua memória. De nossa perspectiva teórica, língua-e-história não se constituem em separado, mas em sua imbricação. Assim, os que podem ser (ou foram tornados) visíveis para o poder político dominante em Roraima na atualidade não o são naturalmente, em uma pretensa essência, mas vêm a ser memoráveis conforme a força dos lugares sociais em que se constituem como sujeitos do/no discurso. Melhor dizendo, pode-se ser memoriável pela relação, em dada época, das representações dos lugares de uma formação social das quais os sujeitos podem ensimesmar-se, dando sentidos a si, ou alardear sentidos sobre o mundo exterior. É questionando [ou simplesmente deslocando] a referência discursiva construída para completar ‘aquele que ... é memorável’ que se vislumbra a relação entre a regularidade dos sentidos construídos na maioria das manchetes e os sentidos das manchetes aparentemente ‘soltas’, no que tange à posse da terra. Nesse sentido, pela relação de forças das representações desses lugares sociais, podem surgir as manchetes que anunciam um entrevistado específico (fruto de uma escolha entre os mais de quinhentos deputados federais do Brasil), dois roraimenses dignos de medalhas (resultado de seleção entre todos os roraimenses), aquele que pode adentrar para ser velado no espaço físico da Câmara Municipal de Boa Vista (também escolhido dentre os muitos roraimenses que nesse dia faleceram). No entanto o que se apresenta como naturalmente divulgando os acontecimentos, porta elementos que instituem uma trama cuja ancoragem dá-se no mesmo esteio que acolhe os sentidos do pertencimento da terra. Por tal esteio, são postos em movimento sentidos que tentam fixar a terra fora da posse indígena e como propriedade dos não indígenas [os brasileiros]. Ou seja, após a observação do que vai sendo mobilizado como sentido, essas manchetes “isoladas” mostram-se intimamente articuladas em paráfrases sobre esse modo de conceber o pertencimento da terra. 88 Ainda como manchete isolada, vale ressaltar que, nesse abril de 2009, ao lado da predominância dos termos ‘reserva’, ‘reserva indígena’ para referir-se à Raposa Serra do Sol como posse indígena,19 estampa-se como manchete: SD75: Fazenda de Quartiero será desocupada em condição de terra arrasada. (Folha BV, 30/04/2009) Frente a esse enunciado, em perfeitas condições de gramaticalidade e de aceitabilidade semântica, está assegurado que seja dito, lido e compreendido sem nenhum estranhamento pelos falantes da língua portuguesa no Brasil. O que nos intriga, portanto, é de outra ordem: a do discurso, cuja propriedade diz respeito ao funcionamento da língua na história, nas relações com outros textos, com outros sentidos. Assim, é atendo-se às implicações desse imbricamento, não fixados a priori, que os aspectos léxico-sintático-semânticos tornam-se alvo de investigação. Assim, na naturalidade da formulação “fazenda é de Quartiero” está necessariamente esquecido que a referida fazenda situa-se na Raposa Serra do Sol, terra declarada indígena em todas as instâncias legais cabíveis, inclusive pelo STF, um mês antes da publicação dessa manchete. Da perspectiva do que não foi lembrado, seria possível dizer, por exemplo, “A terra dos índios volta maltratada a seus legítimos donos”. Mas, essa provável construção, também em perfeitas condições de gramaticalidade e de aceitabilidade semântica, é impedida de vir a ser manchete, porta sentidos “fora do lugar”, por assim dizer. Pode-se apreender o estabilizado dos sentidos nesse fluir do dizer, em que se pode formular ‘fazenda de Quartiero’ sem nenhuma ênfase quanto à posse indígena da terra conquistada mediante disputa acirrada entre os índios e os fazendeiros. Da perspectiva que vem se traçando nesta pesquisa, em “Fazenda de Quartiero” explicita-se o mecanismo que pretendemos que esteja operando na direção de sentidos predominante sobre o pertencimento das terras brasileiras. Mecanismo que carreia as condições necessárias para que os dizeres da ampla maioria das manchetes “encontrem” sentidos naturalizados quanto ao direito à terra, impondo-se, assim, como um fundamento. A partir desse fundamento é que “tudo” poderia ser dito acerca do 19 Antes de tudo, cumpre fazermos uma ressalva: aquilo que se nomeia como ‘reserva’ ou ‘reserva indígena’ é dado em vez de ‘terra indígena’. Há que ser lembrado que esses vocábulos não mais têm os efeitos que tinham antes da Constituição de 1988. Assim, pode-se dizer que recaem como efeito sobre essa “escolha” sentidos que não reconhecem a posse indígena da terra. 89 pertencimento da terra, dessa matriz de sentidos predominante. Ou seja, algo transparece como inquestionável sobre a terra para que muitas manchetes se apresentem com afirmações que dispensam quaisquer esclarecimentos, que se pretendam informando pela transparência das palavras. Palavras e expressões em que trabalham sentidos exigindo um óbvio estabilizado do dizer que não precisa ser dito, mas que sustém sentidos. É o já-dito fundamental sobre o pertencimento das terras brasileiras. Para que seja possível afirmar, sem ferir a naturalidade do dizer, que na terra indígena Raposa Serra do Sol ainda há a “Fazenda de Quartiero”, é necessário que haja sustentação para uma espécie de pertencimento originário das terras outorgado aos ‘brasileiros’. Supomos que sem esse esteio fundante faltaria sentido, ou ao menos alguma inquietação seria provocada no leitor dessa manchete. É devido a esse alicerce seguro que a contradição não se estabelece ao se afirmar que ‘a terra dos índios é dos brasileiros’. Desse modo entendendo, o Brasil é dos brasileiros delineia-se como o já-dito que atravessa os dizeres sobre a posse das terras do Brasil, sustentando-lhes sentidos. Esse enunciado condensa aquilo que se oferece como “a condição do legível em relação ao próprio legível” (PÊCHEUX, 1999, p. 52) no que tange ao pertencimento das terras brasileiras disputadas entre índios e brasileiros. É enquanto “memória como estruturação de materialidade discursiva complexa” que esse enunciado – in absentia – fornece e faz trabalhar certos sentidos relativos à possessão da terra, entremeados, dispersos pelos vários aspectos analisados. Uma Formação Discursa deixa-se divisar em torno de o Brasil é dos brasileiros, na qual a maioria das manchetes “busca” sentidos. É a FD predominante (FD1). Não é demais retomar aqui que, em todos os aspectos analisados neste trabalho, também se esquematiza a separação entre índios e brasileiros. Com isso, em o Brasil é dos brasileiros não circulam sentidos que abranjam os todos que no solo brasileiro se encontram. Portanto, na formulação ‘fazenda de Quartiero’ laboram, como dados inequívocos e necessários para a construção dos sentidos, tanto o Brasil é dos brasileiros quanto os índios não são brasileiros. É o [sempre-já] saber que as terras do Brasil são dos brasileiros que impede a formulação de quaisquer indagações por parte do leitor diante da “fazenda de Quartiero”, mesmo depois de essa terra ser legalmente terra dos índios. Em outros termos, o que é, pode e deve ser dito nessa formação discursiva é a propriedade das terras do Brasil pelos brasileiros. 90 Assim, é pela presença de certas manchetes, mas também pela ausência de outras, conforme propusemos acima, que os sentidos ganham consistência; que passam a ser formulados e oferecidos-e-recebidos já habitando um “natural” do dizer. O que se apresenta estampado como mera solicitação de prazo ou anúncio de incidentes naturais é dito no lugar de outros modos de significar que fazendeiros devem – por lei – sair da terra indígena. Ao mesmo tempo, isso que não é dito é desqualificado como algo caótico e impossível. Como se lê em uma manchete: “Retirada de pessoas não tem como dar certo, diz prefeito”. Ou seja, ainda parece faltar esteio “natural” para dar sentidos à saída de brasileiros de terras indígenas. Conforme discutimos acima, é o oposto que se engendra no funcionanmento dos sentidos nas manchetes. Com isso, voltamo-nos a observar como, na problemática da disputa pela terra, adentra a questão da nacionalidade tendo em vista o horizonte dos sentidos da disjunção apresentada para brasileiros e índios. Para isso, consideraremos o funcionamento do termo ‘indígena’ qualificando o termo anterior em duas expressões. 91 A NAÇÃO Se Deus quiser Um dia eu quero ser índio Viver pelado Pintado de verde Num eterno domingo Ser um bicho preguiça Espantar turista E tomar banho de sol Banho de sol Rita Lee (Baila comigo, Som Livre, 1980) Ao nos determos nos empregos do vocábulo ‘indígena’ no arquivo que construímos para este trabalho, encontramos expressões que nos permitiram organizar um trajeto em que nos deslocamos por campos semânticos que vão do espaço da cozinha ao do domínio da nação. Assim é que antes de nos voltarmos ao amplo requerido pela nacionalidade, passaremos pela cozinha: teceremos algumas observações sobre o movimento dos sentidos proporcionado pelo termo ‘indígena’ qualificando ‘cozinha’. 1. O típico e o estranho nacional Distinguindo-se das diversas manchetes de nosso arquivo que, em 2009, anunciavam problemas de violência e infrações cometidas em terras indígenas, estampase – como convite – uma manchete fora da tensão e da disputa pela terra. 92 SD76: No Dia do Índio, aprenda a fazer pratos típicos da cozinha indígena. (G1, 19/04/2009) Inicialmente, podemos lembrar que, em nossos dias, é recorrente falar-se em ‘cozinha’, em termos de conjunto de diferentes formas de preparo de alimentos, relacionando-a a uma nacionalidade, a uma região ou a um estado, como em: cozinha francesa, italiana, brasileira; cozinha baiana, mineira, nordestina, etc. No entanto, isso posto em relação aos índios e aos modos de preparo de sua alimentação ou aos ingredientes por eles utilizados, comum é nos depararmos com dizeres já consolidados que apregoam as influências indígenas na cozinha brasileira. Com isso, poderíamos sublinhar nessa manchete, senão uma possibilidade sutil de deslocamento de sentidos. No entanto tem-se apontado que as práticas alimentares carregam em si sentidos historicamente atribuídos, conforme o modo de existência específico de determinada sociedade, em dada época. Como afirma Carneiro (2005): A comensalidade ajuda a organizar as regras da identidade e da hierarquia social. (...) Ao longo das épocas e regiões, as diferentes culturas humanas sempre encararam a alimentação como um ato revestido de conteúdos simbólicos, cujo sentido buscamos atualmente identificar e classificar como “políticos” ou “religiosos”. O significado desses conteúdos não é interpretado pelas culturas que o praticam, mas sim cumprido como um preceito inquestionável, para o qual não são necessárias explicações. (CARNEIRO, 2005, p. 72) Se concebermos “a alimentação como um ato revestido de conteúdos simbólicos”, o que se mobiliza como sentidos em “No Dia do Índio, aprenda a fazer pratos típicos da cozinha indígena”? Como restam articuladas a cozinha brasileira e a cozinha indígena? Vejamos alguns aspectos dessa questão. Ao se fazer referência a uma cozinha qualificando-a como indígena, com pratos peculiares, pode-se atribuir não só destaque, mas existência a hábitos alimentares diferenciados e autônomos. O emprego do artigo definido provoca um efeito de préconstruído, ou seja, algo já dito e sabido em outro lugar: a cozinha indígena. Tal processo de definição imputada ao substantivo pelo emprego do artigo gera a suposição de uma homogeneidade e de uma unidade identificadoras desta cozinha, a indígena. Por outro lado, esse modo de construir sentidos singularizando ‘a cozinha indígena’ insere-a em um campo de sentidos que uniformiza “O índio” e, com isso, deixa-se de explicitar que no Brasil vivem diversos povos indígenas. Assim, com a manchete “No Dia do Índio, aprenda a fazer pratos típicos da cozinha indígena” podemos interrogar: remete- 93 se ao reconhecimento dos índios e sua existência para além do mero papel coadjuvante que lhes tem sido atribuído pelos dizeres que partem do brasileiro como centro (na história oficial)? Pode-se supor que perpassa a expressão “a cozinha indígena” um jádado que assevera a existência dos índios, sobretudo como portadores de costumes possíveis de serem difundidos, com conhecimentos a transmitir e não mais a serem substituídos? Diante dessas questões, destacaremos alguns pontos. Naquilo que aponta para um deslizamento dos sentidos referentes aos índios, urge sublinhar o isolamento em que comparece essa manchete. Assim, os sentidos que remeteriam ao reconhecimento dos índios e de suas histórias, restam em meio a manchetes que, por inúmeras repetições e paráfrases, direcionam sentidos para outra direção. A “cozinha indígena” torna-se algo da ordem do extraordinário, pontual. Afinal, ainda permanece como ‘comida de um dia’, fora da alimentação brasileira cotidiana, como se lê na manchete: “No Dia do Índio, aprenda a fazer pratos típicos da cozinha indígena”. Visto desse modo, se por essa manchete poderia ser aventada uma direção de sentido de reconhecimento dos índios em suas diferenças, pode-se também pôr em movimento sentidos que reforçam o exotismo dos índios. E, bem se sabe, não é toda ocorrência de uma expressão solta que provoca, necessariamente, uma mudança no curso desses sentidos. Da perspectiva discursiva, considera-se que ao colocar a língua em uso sempre se faz pela divisão, pelo político que constitui a língua, ou seja, sempre ao dizer também se deixa de dizer. Esse dizer “escolhido” entre os outros que não foram ditos, dá-se a partir da inserção do sujeito em redes de formações imaginárias, em que está implicado o complexo constituído pelas projeções imaginárias dos lugares sociais, tanto projeção do lugar de onde se fala, como também em relação ao lugar daquele a quem se dirige e daquilo de que se fala. Tais projeções no discurso dão-se conformidade com o jogo de forças que ora constitui a formação social. Nos termos de Mariani e Medeiros (2007), entendendo o político, na perspectiva discursiva, como uma disputa pela estabilização ou pela desestabilização linguageira, disputa que inscreve uma divisão no processo de produção de sentidos, tem-se, dessa forma, a não separação entre sujeito, sentido e o político. Ou seja, o simples fato de tomar a palavra já é em si uma prática política com todas as suas implicações. (MARIANI e MEDEIROS, 2007, p. 128-129) Com isso, podemos questionar: quais as implicações do convite expresso na manchete: “No Dia do Índio, aprenda a fazer pratos típicos da cozinha indígena”? Ao 94 assim dizer sobre os índios, que processo de estabilização linguageira está sendo mobilizado? O que se deixa de dizer, no Dia do Índio, ao se trazer os índios relacionados à culinária? Pode-se cogitar, como exemplos, a abordagem das atuais demandas indígenas, as injustiças que sofrem, os descasos com que convivem, enfim, as lutas que travam e, também, as conquistas que alcançam. E, se fosse para restringir-se ao âmbito da culinária, em lugar de ensinar [aos brasileiros] “prato típico da cozinha indígena” poderiam ser discutidas as mudanças ou não nos hábitos alimentares dos índios (e os motivos para tal), inclusive, a falta de comida, as decorrências desse estado de miséria. Ou seja, há muito mais sentidos funcionando que aqueles que são recortados pelas manchetes e oferecidos como únicos acerca dos índios. Como fizemos acima, é verificando as redes parafrásticas acerca dos índios no Dia do Índio que se pode vislumbrar que os sentidos mobilizados poderiam ser outros. E esse seria um bom dia para colocar o índio como centro de suas próprias questões que em muito excedem a culinária.20 Visto desse modo, pelos diferentes sentidos mobilizados não parecem ser proeminentes os que apontam para uma direção de reconhecimento dos índios. Em vez disso, ecoam velhos outros modos de significação pelos quais os índios não têm autoria. Ou seja, trabalham aí sentidos tão fortemente radicados na memória – os índios como incapazes, preguiçosos, não confiáveis, sem ter o que ensinar – que quaisquer outros modos de significá-los são obrigados a atravessar, de alguma forma, o que está já estabilizado. Tudo isso, vale lembrar, diz respeito à construção histórica dos sentidos, efeitos do processo histórico. E essa dinâmica não oferece êxito previamente garantido, como nesse caso: pelo convite à culinária indígena não prevalece uma direção de 20 Apesar de estarmos analisando as manchetes, trazemos uma nota a partir do resumo da íntegra dessa matéria em que se apresenta: uma receita de prato indígena, fornecida pela FUNAI e duas outras receitas que foram passadas por restaurantes, um de Belo Horizonte (Oca dos Tapuias) e outro de Brasília (Oca da Tribo). Enquanto os donos e os chefs dos dois restaurantes têm seus comentários reproduzidos na reportagem, os índios têm voz e sobre isso nada se diz. A receita dada como indígena, em comparação às outras, não traz as explicações costumeiras sobre o modo de preparo, o que aponta para uma receita já prevista para não ser feita, uma receita que não se quer, de fato, ensinar (ou que não se sabe ensinar). Além disso, nas duas receitas dos chefs pode-se reconhecer um prato da ‘cozinha brasileira’, tanto pelo conjunto dos ingredientes quanto pelo modo de preparo. Ou seja, recai-se na mera influência indígena na cozinha brasileira (ou, mais distante ainda, na inspiração). Nos termos do sítio: “a culinária indígena é grande influenciadora da cozinha brasileira. (...) dão um tom diferente aos pratos que hoje inspiram restaurantes por todo o país.” A matéria e as receitas encontravam-se disponíveis em http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1087991-5598,00NO+DIA+DO+INDIO+APRENDA+A+FAZER+PRATOS+TIPICOS+DA+COZINHA+INDIGENA.ht ml. Último acesso: 19/11/2010. 95 sentidos ‘nova’ para os índios. E, conforme “lemos” a matéria, a cozinha indígena permanece um discurso sobre: os índios não são os que dão a receita, não explicam o que ela significa para aquele povo. É re-significada na cozinha brasileira, é apagada enquanto aspecto que remete a outra historicidade. Nesse sentido, os sentidos mobilizados na manchete remetem aos dos relatos dos viajantes do século XVI, descritos/significados a partir dos hábitos alimentares europeus. Conforme afirma Hue (2008): “ao descreverem as frutas brasileiras, colonos, cronistas e viajantes sempre observam que os índios as usavam para fabricarem ‘seus vinhos’. Os europeus chamavam de ‘vinho’ tudo o que fosse bebida fermentada ou alcoólica” (HUE, 2008, p. 196). Tomando como partida as ponderações feitas sobre a determinação em ‘cozinha indígena’, trazemos a seguir algumas reflexões sobre o emprego do termo ‘indígena’ em outra expressão. A expressão ‘brasileiros indígenas’ nos chamou a atenção no texto de um representante indígena dirigido ao Presidente da República, em 14 de setembro de 2009, em uma breve cerimônia no aeroporto de Boa Vista, Roraima. Vejamos um primeiro recorte que corresponde às palavras iniciais do texto. SD77: Nós Wapichana, Macuxi, Yanomami, Ingaricó, Patamona, Taurepang, Sapará, Wai-Wai, Waimiri-Atroari e Yekuana somos aproximadamente 70.000 brasileiros residentes na capital e no interior de Roraima num total de 448 aldeias. Como Vossa Excelência sabe, a terra é nossa mãe e é sob seu manto que vivemos, por isso desejamos que nossos territórios nunca mais sejam invadidos. (Discurso feito para o Presidente da República por um índio, representante de dez povos indígenas de Roraima, 2009. Grifos nossos.)21 Se o pronome ‘nós’ exige sempre uma construção de referência para tornar-se inteligível, neste caso vale sublinhar que, para além da trama dessa referência linearizada, interessa-nos observar, como os sentidos nela se instauram. Para isso, há que se destacar que se trata de uma fala cuja direção tem importância: é uma fala dos índios endereçada aos brasileiros. E, da perspectiva discursiva, conforme já mencionamos, para discutirmos os elementos envolvidos no processo de produção de sentidos remete-se às formações imaginárias, constituídas pelas representações no 21 Discurso feito para o Presidente da República pelo representante de vários povos indígenas, o coordenador do CIR (Conselho Indígena de Roraima), Dionito José de Souza, em 14/09/2009, no aeroporto Internacional de Boa Vista. Disponível em: http://www.cir.org.br/noticias.php?id=634. Acesso: 16/09/2009. 96 discurso dos lugares sociais em questão. Ou seja, nesse caso, trata-se, sobretudo, da representação de ‘índios’ e de ‘brasileiros’, como veremos. Além da referência construída para o pronome ‘nós’, observaremos é relevante que todas as etnias são denominadas para, em seguida, serem retomadas pelo termo ‘brasileiros’. Nossa análise consistirá, em grande parte, na discussão acerca do que se constrói como direção de sentidos nessa estrutura marcada pela co-referência que se oferece como um conjunto. Como nos diz Pêcheux (1997 [1975]), “a co-referência designa o efeito de conjunto pelo qual a identidade estável dos ‘referentes’ – daquilo que está em questão – se encontra garantida no fio do discurso” (PÊCHEUX, 1997 [1975], p. 183). Ou seja, o que a formulação intradiscursiva lineariza são os elementos já-dados pelo interdiscurso, autorizados como substituíveis em condições específicas que, como já mencionamos, são denominações pelas quais os índios referem-se a si mesmos. Vejamos o conjunto dos vocábulos pelos quais a co-referência vai sendo realizada e como se estabelecem as relações parafrásticas que perpassam o texto: Nós indígenas do estado de Roraima, todos os indígenas do Estado, nossos povos, wapichana, macuxi, ingaricó, patamona, taurepang, sapará, wai-wai, waimiriatroari, yekuana, brasileiros (...) residentes em 448 aldeias, nossos povos indígenas, brasileiros indígenas, como todo o brasileiro nos dias de hoje, cidadãos brasileiros como todos os demais. Certo é que, considerando que o texto tem pouco mais de quinhentas palavras, a diversidade de termos e expressões de auto-apresentação exige atenção. Essa autodenominação no texto indígena esboça um trajeto no qual podemos apreender uma ordem que tem na margem inicial a indistinção dos índios entre si (‘indígenas’) e na outra, a indistinção dos índios com os ‘brasileiros’ (‘cidadãos brasileiros como todos os demais’). Entre essas bordas situam-se as outras formas de autodenominação. Nesse conjunto, tomaremos para nossa reflexão a expressão ‘brasileiros indígenas’ que, além de condensar os diversos termos que identificam as etnias indígenas, mas a elas não se restringir, também é exemplar para a reflexão que fomos empreendendo sobre ‘índios’ em relação a ‘brasileiros’, imersos no horizonte da disputa pelas terras do Brasil. Considerando que “para dizer, o sujeito submete-se a língua” (ORLANDI, 2002, p. 66), pontuamos que ‘brasileiros indígenas’ é uma das atuais formas da língua portuguesa a que os povos indígenas, no Brasil, podem submeter-se para denominarem 97 e qualificarem a si. Sublinhamos que estamos aqui tomando a forma linguística não como estrutura, mas enquanto ‘forma material’, conforme propõe Orlandi (2001). Ou seja, a língua à qual o sujeito se submete para se constituir não é a língua mero sistema formal, mas a língua enquanto instância simbólica, para o que se considera o “jogo da língua na história, na produção de sentidos” (ORLANDI, 2001, p. 102). Para refletirmos sobre a expressão ‘brasileiros indígenas’ assim encarnada em nossa história (ORLANDI, 2001), é imprescindível ressaltar nas linhas a luta secular que os povos indígenas têm travado, aqui no Brasil, para permanecerem nas terras em que seus ancestrais viveram. Assim sendo, neste início de século XXI, em Roraima, os povos indígenas dizerem de si ao Presidente da República como “brasileiros indígenas” não pode ser pensado sem remeter a uma memória construída de tal forma que foi instalando e re-afirmando os índios fora da brasilidade. Assim, muito do que discutiremos passa por lembrar o que interroga Orlandi (1997): Como o Índio foi excluído da língua e da identidade nacional brasileira? Com efeito, o Índio não fala na história (nos textos que são tomados como documentos) do Brasil. Ele não fala mas é falado pelos missionários, pelos cientistas, pelos políticos. (ORLANDI, 1997, p. 59) Dessa forma, faz-se necessário que aquilo que os índios dizem seja tomado num batimento com o que dos índios tem sido falado na história do Brasil. E já é por essa perspectiva que pôde tornar-se visível na cadeia parafrástica acima o modo de determinação da auto-apresentação. E uma primeira questão que a Análise do Discurso nos permite colocar para sair do mero quantitativo é: por que tamanha necessidade de sinônimos e de adjetivações em torno de ‘brasileiros’? O que esse imperativo à determinação põe em funcionamento? O estranhamento provocado é, antes de tudo, porque não faz parte do habitual que a nacionalidade exija determinação. E é esse o ponto que destacamos em causa no discurso indígena dirigido ao Presidente da Nação. Diante dessa inusitada exigência de precisar a/de nacionalidade, compete lembrar que, em nossos tempos modernos estabilizados em que as nações constituíramse e assentaram-se sob certas regularidades, quem nasce num país sequer pode escapar ao adjetivo pátrio referente ao Estado Nação. Portanto, atualmente não se constitui como escolha o esquivar-se de ter uma nacionalidade específica. Ao contrário, o cidadão moderno deve e há de ter uma nacionalidade, como coloca Anderson (1981). 98 Aliás, talvez não seja demais avivarmos o corriqueiro dos fatos: o cidadão não só tem uma nacionalidade “natural” como também pode, segundo certas condições legais, adquirir outra(s) nacionalidade(s). Para além do que o cotidiano apresenta como certeza, e ‘sempre-já-assim’, vale lembrar que, longe de ser mero registro técnico, o que resulta nação/nacionalidade foi construção histórica ao longo de séculos e, portanto, diferenciada conforme as sociedades e épocas. Duas vertentes tornaram-se proeminentes no século XIX, forjadas sob perspectivas divergentes quanto ao modo de conceber o entrelaçamento entre os elementos ‘língua, raça e território’ nos agrupamentos humanos: como cidadania, o nacionalismo é concebido atrelado à vontade, fruto de decisão política de união; como herança, o nacionalismo constitui-se pelo que o indivíduo recebe como legado da complexidade social em que nasce (JOBIM, 2002, p. 22-23). Isso posto em relação à constituição da nacionalidade brasileira, possibilita-nos destacar um aspecto relevante para nossa discussão. É imperativo aqui lembrar como, sobretudo no século XIX, os brasileiros mostraram-se fortemente imbuídos pelo espírito de construção da nacionalidade brasileira. Nesse sentido, travou-se uma polêmica, no Brasil pós-independência, em torno da questão da língua. De um lado, estavam os defensores da pureza da língua portuguesa como marca relevante para a nacionalidade, sobretudo por ter em seu bojo os efeitos positivos concernentes a uma língua de cultura e de civilização. Do outro, estavam os que defendiam a língua aqui praticada, marcada por especificidades que a distanciavam da língua portuguesa falada em Portugal. Nesse sentido, a literatura teve papel relevante. São exemplares os argumentos do escritor José de Alencar, defensor do nacionalismo brasileiro em oposição a filólogos e gramáticos que tentavam fixar a língua aqui empregada em conformidade com o padrão clássico ditado por Portugal (MARIANI e JOBIM, 2007; JOBIM, 2002). Nos termos de Mariani e Jobim (2007): “língua de cultura está geralmente associada a uma língua depositária de uma tradição literária, cuja legitimação histórica pareça indiscutível. E língua de civilização é aquela que cumpre a função de garantir o acesso e a circulação das informações científicas e culturais.” Vale registrar que Guimarães (2003) considera essas noções no âmbito brasileiro, conforme apreendidas no pensamento linguístico de meados do século XX. Entram em pauta as diversas línguas faladas no Brasil e aí se estabelece uma relação hierarquizada, marcada pelo valor da civilização: a língua portuguesa é “língua de civilização” falada pelos brasileiros, ao passo que as línguas indígenas são primitivas, 99 dos aborígenes – são “línguas de cultura” e figuram entre os modos e costumes que caracterizam os índios (GUIMARÃES, 2003). Dessa discussão, interessa-nos pinçar que a nacionalidade impôs-se como discussão por um viés estreitamente relacionado à língua, expondo inegáveis diferenças em relação ao que se ditava, como modelo, de Portugal. A grande questão pode ser resumida ao como abordar essas diferenças, que estatuto dar a tais desigualdades linguísticas. Nesse bojo, é que os índios surgem como elemento a ser considerado nesse processo. Assim, nessa discussão vai-se estipulando um papel, um espaço de significação para os índios na nacionalidade brasileira que ora se construía. Para os defensores da nacionalidade caracterizada como uma disjunção mais austera, os índios – sendo os exclusivamente daqui – são tomados como figuras emblemáticas, contrariamente aos que tomam o elemento europeu como central e a ser mantido no processo de constituição da nacionalidade brasileira.22 Faz-se forçoso observar que, transcorridos mais de cem anos, os índios – como pilares simbólicos da nacionalidade brasileira, conforme vimos acima – estão pondo em evidência essa nacionalidade, requisitando-a para si. Se, no início da década de oitenta, Orlandi (1990) questionava “como o Índio foi excluído da língua e da identidade nacional brasileira?”, podemos ainda constatar o quanto essa exclusão tem sido eficaz, visto que só tão tardiamente os índios estão podendo exigir lugar na cena da nacionalidade brasileira, com maior visibilidade. Curioso que isso se dê logo agora – ou só agora –, tempos em que, para muitos, a nacionalidade está em vias de desaparecimento, para quem estamos vivenciando a substituição do nacionalismo pela globalização. Nesse sentido é que, no término da primeira década do século XXI, os índios dizerem de si ao Presidente da República como ‘brasileiros indígenas’, não é sem que essa expressão seja depositária do trajeto histórico do Brasil e do que aos índios tem sido reservado nessa/por essa história. Isso posto, voltemos aos ‘brasileiros indígenas’. Interessa-nos ressaltar que, com os índios dizendo de si como “brasileiros indígenas”, agita-se e torna-se turva a obviedade dos sentidos da nacionalidade conferida a todos os que nascem em um Estado Nação. Com outras palavras, aos índios de nossos dias impõe-se a necessidade de requerer a nacionalidade brasileira. Dizerem-se brasileiros é preciso e, para além 22 Jobim (2002) discute detalhadamente essa questão. 100 disso, serem só brasileiros não basta: faz-se imperativo qualificar o adjetivo pátrio. Com isso, instaura-se e reforça-se uma separação entre ‘os brasileiros’ e ‘os índios’, separação essa mais nítida do que pode suportar a vã transparência dos sentidos da nacionalidade homogênea e una que se supõe acolhendo todos os que aqui nascem. Podemos aqui lembrar que sentidos que circulam apresentados como únicos, fazem ignorar sua condição de efeito dos movimentos ininterruptos do histórico-social em sua complexidade. Desse modo, a materialidade do discurso indígena dirigido ao Presidente explicita marcas de um percurso que vai da denominação singular e inconfundível de cada etnia para a denominação de uma nacionalidade que se mostra incompleta. Uma nacionalidade que não dá conta do anseio dos índios ao dizerem de si e, assim sendo, deixa ver o furo e a tentativa de torná-la inteira. Passa-se, então, para a dupla denominação: de ‘macuxi’ a ‘brasileiros indígenas’; de ‘ingaricó’ a ‘brasileiros indígenas’, etc. A título de fechamento, sobressai que, de um lado, estão os “Wapichana, Macuxi, Yanomami, Ingaricó, Patamona, Taurepang, Sapará, Wai-Wai, WaimiriAtroari e Yekuana”, enfim, os índios, os brasileiros indígenas. Do outro lado, pode-se dizer que estão os outros, os brasileiros da transparência e da completude da língua; os brasileiros legítimos que não são falhos de nacionalidade; que não necessitam requerêla, muito menos atribuir-lhe uma qualificação extra. Em outros termos, pode-se ponderar que aquilo em relação ao que os índios se constituem e que não se nomeia diretamente – os brasileiros in-adjetivados – sustenta-se e se impõe pela obviedade dos sentidos que circulam em nossa sociedade e que constituem o imaginário que diz o que é ser ‘brasileiro’ e ser ‘índio’. E, conforme esse imaginário, isso não diz de uma mesma coisa. É em relação a esse claro saber que se instaura a necessidade de determinar. Ao contrário, impõe-se uma separação entre os ‘índios’ e os ‘brasileiros’, ou talvez seja melhor dizer: impõe-se uma separação entre os “brasileiros indígenas” e os outros, os “brasileiros brasileiros”. Por fim, os índios dizerem de si como “brasileiros indígenas” é o que ora lhes é apresentado como o ordinário dos sentidos pelos embates na história. Assim, dá-se a ver o deslizar da cadeia significante a que os índios têm sido colados: não se tem os índios dizendo de si como ‘sem alma’, como ‘selvagens’, como ‘silvícolas’, como ‘preguiçosos’, como ‘exóticos’, etc., conforme consta nos discursos sobre os índios ao longo de nossa história (ORLANDI, 1990). E, no atual momento do processo em que a terra ainda teima em ser retirada das mãos indígenas, os índios dirigirem-se ao 101 Presidente do Brasil podendo dizer de si como ‘brasileiros indígenas’, o que firma uma direção de sentidos em que se retraça um passado, se expõe uma memória que está fora da história sonoramente contada sobre o Brasil. Como propõe Mariani (2004), um dos aspectos relevantes no processo de colonização linguística do Brasil foi o conjunto dos dizeres (dos colonizadores e dos administradores) sobre as línguas indígenas, instituindo-lhes um lugar, conforme certos saber e imaginário lá-estabelecidos. Segundo a pesquisadora, Talvez aqui se encontre um dos aspectos de maior exclusão presente na colonização lingüística, pois frente à construção desses dizeres não há “direito lingüístico de resposta”: os índios não podem nem contestar a interpretação portuguesa, uma vez que não sabem o que está sendo dito sobre eles, nem têm como deixar na memória sua interpretação sobre esse desconhecido português, já que sua língua não tem escrita. (MARIANI, 2004, p. 29) Essas afirmações de Mariani (2004) ajudam-nos a pensar o dizer indígena em nossos dias. Vejamos de que forma. Pelo dizer de si – para o Papa, para a ONU, para os príncipes, para o Supremo Tribunal Federal, para o Presidente da República, in loco; e, à distância, nos diversos sítios indígenas na internet – a voz indígena brasileira livre de intermediários atinge amplitudes inusitadas, no Brasil e no mundo. Estamos nos referindo à ida, em 2008, de dois representantes indígenas da Raposa Serra do Sol à Europa a fim de expor sua perspectiva e buscar apoio na luta pela posse da terra. Nessa viagem por seis países, os índios foram recebidos por diversas autoridades políticas e religiosas, como o papa Bento XVI. Frente a esse novo estágio, colocamos uma indagação: qual a natureza desse alcance singular do dizer indígena de si, sobretudo, considerando-se os “discursos sobre”? Estamos aqui tomando “discursos sobre”, tal como propõe Orlandi (1990) ao analisar, sobretudo, os relatos dos capuchinhos franceses sobre o Brasil enquanto “discurso das descobertas”. Nos termos da autora: “os ‘discursos sobre’ são uma das formas cruciais da institucionalização dos sentidos.” Pelo trabalho do ‘discurso sobre’, os diversos discursos que circulam acerca de determinada temática são arregimentados e organizados sob uma perspectiva. No caso do discurso “sobre o Brasil (no domínio da história) (...) ele organiza, disciplina a memória e a reduz” (ORLANDI, id., p. 37). A autora destaca ainda que “o princípio mais forte de constituição do discurso colonial, que é o produto mais eficaz do discurso das 102 descobertas, é reconhecer apenas o cultural e des-conhecer (apagar) o histórico, o político” (ORLANDI,1990, p. 15). Visto dessa perspectiva, os índios tendo sido sistematicamente apagados pelos ‘discursos sobre’ que, em seu funcionamento, tem sido predominado ao longo dos séculos. Assim sendo, o que podemos apreender, no dizer indígena sobre si, neste momento em que os índios estão conquistando e experimentando o “direito lingüístico de resposta” de modo mais proeminente, tendo em vista os embates dos últimos quinhentos anos? Em duas palavras: interessa-nos nessa ocasião o próprio dizer, o acontecimento mesmo da enunciação indígena. Inicialmente pontuamos que, com essas enunciações dos índios, agita-se o ‘espaço de enunciação’ brasileiro (GUIMARÃES, 2002). Nos termos do autor, o espaço de enunciação é o modo de distribuir, segundo as definições acima [língua materna, língua franca, língua nacional, língua oficial], as línguas em relação. Esta distribuição das línguas para seus falantes é sempre desigual. E este modo de distribuição é elemento decisivo do funcionamento de todas as línguas relacionadas. Se temos, por exemplo, num certo espaço de enunciação, diversas línguas maternas e uma língua nacional, elas tomam seus falantes cada uma a seu modo. O espaço de enunciação é assim político. (GUIMARÃES, 2003, p. 48) Nesse processo, interessa-nos ressaltar a complexidade que se apresenta em se tratando dos índios e do Brasil. Para nossa discussão, trazemos um aspecto dessa complexa trama: queremos considerar só a língua portuguesa – língua nacional, oficial e materna dos brasileiros – não em relação às outras línguas no Brasil, mas como ponto de tensão, enquanto objeto de distribuição entre os que vivem no Estado brasileiro. Assim, se os índios (que não eram falantes da língua portuguesa) foram relegados ao silêncio pelo/no discurso sobre os índios em língua portuguesa, atualmente podemos entrever um movimento nessa configuração. Os índios, enquanto falantes da língua portuguesa, disputam outro lugar (fora do silêncio que lhes foi imputado pelo/no discurso sobre) no espaço de enunciação da/em língua portuguesa. Com isso, os índios adentram, ao enunciar em língua portuguesa, no espaço que essa língua politicamente reservava aos outros, os brasileiros. Diante disso, sendo a “distribuição das línguas para seus falantes (...) sempre desigual”, propomos refletir sobre a distribuição desigual dos falantes de uma só língua no espaço de enunciação dessa língua. No caso brasileiro, estamos falando da 103 distribuição dos falantes – brasileiros e índios – da língua portuguesa. Mas isso não é tudo: esta distribuição constitui-se em relação ao discurso sobre, conforme explicitados anteriormente. Não se trata, pois, da distribuição hierarquizada que se registra com a língua portuguesa em suas diferenças de registro, de regiões, pela escrita, conforme proposta pormenoriza de Guimarães (2003). Há que se ressalvar que, ainda conforme o autor, uma língua, ao funcionar, se divide em virtude de sua relação com seus falantes. No espaço de enunciação os falantes não são tomados enquanto indivíduos psicologicamente. Os falantes são caracterizados históricosocialmente pelo modo como são tomados pelas línguas (e pelas divisões que a constituem) e assim se distinguem lingüisticamente. (GUIMARÃES, 2003, p. 48) Nesse sentido, arquiteta-se uma voz, uma outra posição no espaço de enunciação da língua portuguesa, funcionando ao modo de um “assalto ao turno” do discurso sobre pelo dizer de si (em que o falante se sobrepõe à voz de seu interlocutor na tentativa de fazer-se “a voz da vez” e falar, para empregarmos os termos das teorias da conversação). Tudo isso aponta o deslocamento da posição do dizer indígena e seu reposicionamento no espaço de enunciação da língua portuguesa, com poder de força inaugural na história do Brasil. Em outras palavras, os índios exercem seu “direito lingüístico de resposta” (MARIANI, 2004). Visto desse modo, sobressai uma configuração singular se considerarmos que na linearidade do intradiscurso deixa-se entrever a verticalidade do interdiscurso, por uma relação de constituição. Para melhor explicitarmos esse ponto, recorramos a Orlandi (2000), quando retoma a diferença entre a constituição dos sentidos e sua formulação, estabelecida por Courtine (2009 [1981]). Nos termos da autora: a constituição – que estamos chamando de interdiscurso – representada como um eixo vertical onde estão todos os dizeres já ditos – e esquecidos – em uma estratificação de enunciados que, em seu conjunto, representa o dizível. E teríamos o eixo horizontal – o intradiscurso – que seria o eixo da formulação, isto é, aquilo que estamos dizendo naquele momento dado, em condições dadas. (ORLANDI, 2000, p. 33) A partir dessas considerações, podemos afirmar que, na formulação do dizer indígena comparece o interdiscurso fortemente constituído pelos diversos discursos 104 sobre os índios, tendo em vista que os índios não falavam na história, mas eram falados pelos missionários, pelos cientistas, pelos políticos (ORLANDI, 1997, p. 59). A partir dessa reflexão, propomos que pode-se vislumbrar um gesto de intervenção do dizer de si no discurso sobre. Pois é fato que não há mais só os discursos sobre os índios, como durante muito tempo tivemos. Tampouco estamos conjecturando que os discursos sobre sejam prontamente suplantados. A constituição – aquilo que torna possível o dizer e que determina a formulação indígena – é contraditoriamente imbricada com os discursos sobre ao longo dos séculos. Assim, queremos, sobretudo, destacar a desigualdade com que os dizeres indígenas têm sido formulados, como circulavam/circulam, e de que modo isso ressoa como memória no dizer indígena neste início de século XXI. Desiguais, mas menos desiguais no espaço de enunciação brasileiro. Mas, há que se registrar que, no conjunto de manchetes que constituem nosso arquivo, em uma única manchete encontram-se gravadas as palavras proferidas por um índio. Significativamente para nossa discussão, não se trata de manchete que divulgue algo relacionado à disputa pela terra, mas, em vez disso, trata-se de um dos “índios que se destacaram”: “Índio de gravata sofre preconceito”, diz advogado indígena (G1, 19/04/2008). Ao longo dessas reflexões, pudemos perceber algumas raras aparições. Melhor dizendo, tornou-se visível pelo/durante nosso percurso de análise que a expressão ‘brasileiros indígenas’ não é utilizada em nenhuma manchete do nosso arquivo de pesquisa. É fora do jornalismo dito de referência: restringe-se aos sítios de entidades não governamentais, da UNICEF, blogs e sítios, inclusive sítios indígenas, como também em um relatório da Advocacia Geral da União, ao explicar que todos os brasileiros estão sob os desígnios do poder público, “porque é o Poder Público que – em tese – encarna, pondera e gerencia o interesse geral de todos os brasileiros, incluindo os brasileiros indígenas.”23 Merece ressaltar nessa justificativa que é na tentativa mesma de inclusão que para nós se materializa na língua a exclusão da referência discursiva construída. É por ter de citar os índios que se pode flagrar sua exclusão do que quer que signifique ‘brasileiros’. De nossa perspectiva, é significativa a raridade dessa expressão. E também sua instabilidade: em alguns dos textos em que consta a expressão ‘brasileiros indígenas’, 23 Disponível em www.senado.gov.br/sf/senado/advocacia/doc/ADI3573.doc. Acesso em 03/05/2010. 105 registra-se uma única ocorrência seguida, no mesmo texto, de diversas repetições de construções já assentadas e de largo uso, como “indígenas brasileiros”, “índios brasileiros”, “índios do Brasil”, “nossos índios”. Nesse sentido, visualizemos no quadro a seguir a produtividade e a distribuição dos termos dessa expressão em outros sintagmas. Culinária indígena Cultura indígena Artesanato indígena Povo indígena População indígena Liderança indígena Saúde indígena Dança indígena Ritual indígena Advogado indígena ..., ..., ..., ..., etc indígena Brasileiro indígena Brasileiro afro-descendente Indígena brasileiro Índio brasileiro Índio do Brasil Dessa trama de posições sintáticas em que podem ou não comparecer as palavras ‘indígena’ e ‘brasileiro’, interessa-nos os efeitos de sentido daí advindos; os sentidos que são construídos na relação entre arranjos prováveis e os impossíveis ou quase. Uma primeira observação: algo trabalha em silêncio para que duas estruturas aparentemente idênticas tenham produtividade ou usos tão díspares: ‘brasileiro indígena’, de manifestação rara, e ‘indígena brasileiro’ que circula cada vez mais amplamente; ou, antes, ‘brasileiro indígena’ em relação a ‘brasileiro afrodescendente’. Para refletirmos sobre esses aspectos, vejamos o trabalho de Mazière e Gallo (2007). Nesta pesquisa, as autoras empreenderam um estudo sobre o funcionamento dos 106 termos ‘índio’ e ‘indígena’, nas línguas portuguesa e francesa, analisados em relação a ‘brasileiro’, a partir do registro de diversos dicionários ao longo dos séculos. Das conclusões da análise feita sobre esses vocábulos no dicionário de Antônio de Moraes Silva, edição em 1946, as autoras destacam alguns aspectos, sobretudo, o de que se mantêm inalterados no atual Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (sem data). Segundo as autoras: (...) Brasileiro confirma que nascer no Brasil não é ser indígena do Brasil. Da mesma maneira que ser indígena do Brasil não é ser Brasileiro. Os indígenas do Brasil são os brasis e há três maneiras de ser brasileiro: ser nascido no Brasil; naturalizar-se brasileiro; ter vivido um certo tempo no Brasil. Em todos esses casos, em oposição a brasis, é estar em posição de exterioridade. (...) Não há lugar, nesse sentido, para o nativo indígena que está desde sempre estabelecido num país, natural desse país. (MAZIÈRE e GALLO, 2007, p. 48. Sublinhados nossos.) Ressaltemos a separação que Mazière e Gallo (2007) trazem à baila: em nenhuma das três maneiras de ser brasileiro está contemplado “o nativo indígena que está desde sempre estabelecido num país”, sendo essa condição de nativo expressa pelo termo ‘brasis’, numa relação de oposição àquelas formas que se apresentam em posição de exterioridade. A partir disso, para relacionarmos com nossa pesquisa, voltemos ao quadro. A despeito da estrutura, ‘brasileiro afrodescendente’ é largamente utilizada, ao passo que ‘brasileiro indígena’ tem emprego restrito. Avulta que seria difícil situar na morfossintaxe a indagação a respeito da raridade da segunda expressão e o amplo uso da primeira, posto que as posições nos dois sintagmas são semelhantes: são formadas a partir do mesmo nome, além de ambas as qualificações poderem ser situadas em um mesmo campo semântico, a saber, o que é tido como elementos integrantes do povo brasileiro, remetendo ao heterogêneo da constituição do brasileiro. Para questionarmos com os termos de Pêcheux (1997 [1975], p. 162): que “isto” aí fala “antes, alhures e independentemente” determinando sentidos? Ou seja, se o discurso advém de outro antes dito sustentando-lhe sentidos, o que é recortado (e o que deixa de ser) no conjunto dos dizeres para que ‘brasileiros indígenas’ quase seja impossibilitado em seus sentidos? Retomando a conclusão de Mazière e Gallo (2007), a exterioridade é o critério que, conforme consta nos dicionários, separa os que chegaram de outras terras – os 107 ‘brasileiros’ – dos ‘brasis/índios/indígenas’ – os que não vieram de exterior algum por terem sempre estado nessas terras, no ‘antes’ da invasão europeia. Com isso, podemos destacar na expressão “brasileiro indígena” a tentativa de junção do que secularmente tem se reafirmado significando em oposição. De tal forma oposto que, conforme as autoras, depois de cinco séculos, os indígenas do Brasil são ainda e exclusivamente os índios, o que inscreve o sujeito que se auto-denomina brasileiro em um sistema histórico ao mesmo tempo de dominação e de exterioridade. (MAZIÈRE e GALLO, id., p. 40) Não obstante o estabilizado dos sentidos e na impossibilidade de prever êxito ou fracasso da amarração ‘brasileiros indígenas’ podemos afirmar que, mesmo desigualmente, está posta na roda da disputa dos sentidos a tentativa de redimensionar os sentidos para os que vivem no Brasil. Como afirma Pêcheux (1997 [1975]): Não se trata de pretender aqui que todo discurso seria como um aerólito miraculoso, independente das redes de memória e dos trajetos sociais nos quais ele irrompe, mas de sublinhar que, só por sua existência, todo discurso marca a possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes e trajetos: todo discurso é índice potencial de uma agitação nas filiações sóciohistóricas de identificação, na medida em que ele constitui ao mesmo tempo um efeito dessas filiações e um trabalho (...) de deslocamento no seu espaço. (PÊCHEUX, 1997 [1975], p. 56) Visto desse modo, a expressão ‘brasileiros indígenas’ já conturba de alguma forma, imprime algum movimento no consolidado dos sentidos de ‘brasileiro’, de ‘índios’. Vale registrar, ainda, que, pelo viés do critério de exterioridade, põe-se em funcionamento um absurdo semântico: podemos nos referir tanto aos brasileiros que aqui chegaram quanto aos que aqui nasceram. Os índios restam imobilizados no passado, como se houvesse um índice de natalidade zero há séculos entre esses povos. Institui-se uma herança/descendência para os que aqui sempre estiveram de tal forma que os índios – diferentemente de quaisquer outros – que aqui nascem não são brasileiros. Quanto à expressão ‘brasileiros afrodescendentes’, e sem adentrar nas demandas da luta organizada dos negros no Brasil em atitude histórica de resistência24, interessa24 A esse respeito mencionamos a tese de doutorado em Letras de Claudia da Silva Leopoldino, intitulada Identidade(s) afro-mestiço-brasileira(s), concluída em 2004 na Universidade Federal Fluminense, sob a orientação da Profª Drª. Bethania Mariani. 108 nos somente destacar que o uso da expressão não parece pôr em questão a nacionalidade brasileira. Não se nega nem se requer a nacionalidade brasileira; tampouco se exige a nacionalidade africana. A sociedade brasileira, repetidamente assinalada por seu racismo velado, tem em seu imaginário os negros, os afrodescendentes como sendo tão inegavelmente brasileiros que sobre isso não discute, não se questiona. A expressão ‘brasileiros afrodescendentes’ aponta para o reconhecimento de seus antepassados e as profundas implicações daí decorrentes. Pensando esse processo em relação aos modos de ser brasileiro, conforme Mazière e Gallo (2007), podemos destacar que sobre ‘brasileiros afrodescendentes’ ainda incide o critério da exterioridade que está na fundação dos sentidos portados por ‘brasileiro’ e que está ausente em ‘brasis/índios/indígenas’, aspecto que mantém os afrodescendentes separados dos índios. Visto desse modo, podemos apontar que a produtividade diversa das duas expressões não é sem a historicidade pela qual cada uma delas é discurso, é língua-ehistória, tem uma memória. Podemos aqui recorrer ao que propõe Indursky (1997) ao distinguir ‘determinação linguística’ de ‘determinação discursiva’. Para a autora, enquanto na determinação linguística, “os determinantes lingüísticos saturam o nome, (...), o qualificam a ocupar uma posição lexicalmente identificada (...) e a exercer funções sintático-semânticas no enunciado”, na determinação discursiva o processo mobilizado é outro: “a determinação discursiva de um nome consiste em saturar-lhe o significado para qualificá-lo a integrar seqüências discursivas afetadas por determinadas FD” (INDURSKY, 1997, p. 177). Pela noção de ‘determinação discursiva’ pode-se efetuar um deslocamento para compreender os funcionamentos em que pesam “o efeito de sentido de onde intervêm conjuntamente fatores sintáticos, semânticos e ideológicos.” Assim, em “brasileiros (...) residentes em 448 aldeias”, “brasileiros indígenas”, “como todo o brasileiro nos dias de hoje”, “cidadãos brasileiros como todos os demais” apontam, na língua, a interpelação ideológica, a filiação do sujeito – pela sua necessidade de determinar – em uma Formação Discursiva específica. A despeito da boa formação dos sintagmas, da gramaticalidade morfossintática de ‘brasileiros indígenas’ e ‘brasileiros afrodescendentes’, nos sentidos que aí atualmente circulam estão, à revelia do falante, funcionando duas diferentes historicidades que se expõem nesses sintagmas, cerceando a circulação de um e do outro, não. Deixa-se entrever que na estrutura idêntica habita o não-idêntico. Ou seja, na 109 gramaticalidade morfossintática de ‘brasileiro indígena’, espraia-se uma “agramaticalidade discursiva” deixando-a quase fora de uso. É relevante observar o que se põe no lugar de ‘brasileiro indígena’ como “escolha” da língua: faz-se como se a simples inversão dos termos da expressão tivesse o mesmo efeito e se emprega repetidamente ‘indígena brasileiro’. Ou também ‘índios brasileiros’, ‘índios do Brasil’. De nossa perspectiva, ressaltamos que o fato de essa “escolha” recair sobre quaisquer outras dessas expressões, diz respeito aos sentidos mobilizados pela expressão ‘brasileiros indígenas’, a saber: são sentidos da seara dos anseios dos índios pela nacionalidade brasileira em cujo bojo eles têm figurado só como elemento simbólico de constituição, sem sustentação na história, na memória. Com/pela expressão ‘brasileiros indígenas’ os índios requerem o direito à nacionalidade. Esse é o efeito de sentido que a relega à raridade, à “agramaticalidade discursiva”. Não fosse isso, e a língua se reduzisse à estrutura e bem se ajustasse às necessidades de um mundo semanticamente normal, talvez tivéssemos uma expressão morfossintaticamente equivalente: ‘brasileiros afrodescendentes’, logo, ‘brasileiros índiodescendentes’. No entanto... não é disso que se trata nem é esse o caso. Como diz Orlandi, situar-se na perspectiva discursiva é situar-se numa compreensão de linguagem que “aceita o desconforto de não se ajeitar nas evidências e no lugar já-feito” (PÊCHEUX, 1997a, p.7). É preciso aceitar ver que numa estrutura idêntica habita o não-idêntico espraiando na gramaticalidade morfossintática uma ‘agramaticalidade discursiva’. Dessa discussão, sobressai o funcionamento de duas Formações Discursivas. Em torno de ‘brasileiros’ e suas determinações delineia-se uma FD1 em que estão os sentidos ‘brasileiros’, da completude, da transparência. A FD1 constitui-se em relação de oposição a outra Formação Discursiva, a FD2, onde se fundam os sentidos de ‘brasileiros indígenas’. 2. O ‘jovem-urbano-belo-escolarizado’ A fim de pensarmos o funcionamento e a relação das imagens de ‘brasileiro’ e ‘índio’ no espaço nacional, trazemos uma manchete que nos pareceu exemplar. Fora de toda a atmosfera instaurada no mês de abril de 2008, de embate violento e de indecisão 110 sobre a posse da terra Raposa Serra do Sol, destacamos no sítio G1 uma manchete, que se desdobra em quatro. Às vésperas do Dia do Índio, publica-se: SD78: G1 mostra história de índios que se destacaram. (G1, 18/04/2008) Essa manchete vem acompanhada de dois subtítulos: “Tem índio na internet, no fórum e no concurso Miss Brasil 2008” e “FUNAI programa manifestações e festas em vários estados do país.” O texto que desenvolve a manchete faz uma breve apresentação dos três índios e, sob a forma de links acrescenta manchetes de reportagens referentes a cada um deles. SD79: ‘Índio de gravata sofre preconceito’, diz advogado indígena. (G1, 19/04/2008) SD80: Índio diz que navegar na web é mais fácil do que andar em SP. (G1, 19/04/2008) SD81: Miss Mato Grosso do Sul comemora Dia do Índio com sua tribo. (G1, 19/04/2008) Inicialmente, sublinhamos em “G1 mostra história de índios que se destacaram” o termo ‘destacaram’. De que óbvio comum diz-se com esse verbo? Se para fazer sentido é necessário já fazer sentido, o que contemporaneamente se traz de sentidos para fazer significar que alguém se destacou? Que complemento verbal é esse que já não se faz necessário mesmo em uma manchete na internet, que pretende ser dita “para todos e em qualquer lugar”? Vejamos. Se ‘destacar’ remete a separar, a “fazer sobressair; dar vulto ou relevo a”, pelo que se registrou no dicionário Aurélio (HOLANDA, 1986), isso nada diz, porém, sobre os critérios que estão implicados para distinguir-se, como se esse processo não estivesse constituído como avaliação histórica, temporal. O que é, então, necessário portar para destacar-se dos demais? Ou, se quisermos mencionar a maioria, talvez seja melhor pensar sobre o que nos outros índios falta que os faz escapar do destaque. Avaliemos o que é oferecido como possível forma de complemento, ou seja, o que as outras manchetes “pingam” como uma espécie de ‘complemento verbal desnecessário’, uma vez que a primeira manchete dispensa tal complemento. Isso exemplarmente nos mostra o próprio sair da ordem da língua para a ordem do discurso, da língua mera estrutura para a língua “encarnada na história para produzir sentidos”, como bem diz Orlandi (2005, p. 19). 111 Os três índios que se destacaram são designados, individualmente: um homem, como advogado; outro, como internauta e, uma mulher, como miss. Apresenta-se elencada uma série de atributos valorizados positivamente no/pelo meio urbano contemporâneo: ter uma formação superior na área jurídica (cujo ingresso tem concorrência das mais altas); ser membro de um grupo cuja entrada dá-se pelo acesso ao virtual; possuir beleza física, nas exatas medidas, ainda de magreza, que regem os padrões mundo afora, independente da estrutura física diferenciada dos povos. Portar essas características é, por assim dizer, demonstrar como índice as marcas da modernidade, nas exigências de sucesso, seja na esfera profissional ou pessoal. São tomadas como verdadeiras provas circunstanciais necessárias para a inclusão na sociedade contemporânea. São indícios que dão o sentimento da própria cidadania ao cidadão moderno, sentimento de pertença ao universo atual e, ao mesmo tempo, fornecem-lhe o efeito de estar fora de qualquer natureza de atraso. Sem isso, parece que o cidadão de nossos dias estaria ameaçado de sucumbir. É fato que essas são marcas consideradas generalizadas de nossa contemporaneidade. No entanto não é demais repetir que essas qualificações são, em nossos dias, ‘naturalmente’ comuns a certa parcela da juventude brasileira, o jovem cidadão urbano de certa classe social. Ou de mais de uma classe, mas não de todas. Por outro lado, nesse recorte social, ser só advogado, internauta e miss não configura índice de destaque: é a normalidade. Assim, essas qualificações são representativas, mas não suficientes como proeminência para todos: talvez sirva como destaque para habitantes das ditas comunidades dos grandes centros urbanos brasileiros; talvez ainda para nordestinos que “deram certo” no eixo sul-sudeste, ... e para quaisquer índios. Avaliamos que, desse modo, explicita-se na língua que cada um se destaca no que já antes lhe fora reservado estar e significar, conforme o funcionamento atual da formação social. Se ter índio na internet, no fórum e no concurso Miss Brasil 2008 pôde tornar-se manchete e se nem tudo se noticia, cumpre questionar: o que aí é posto em funcionamento? Se esses são considerados espaços imprevistos para os índios ocuparem, quais os lugares que lhes são reservados no imaginário brasileiro? Que ambientes lhes são atribuídos como naturais, adequados e, portanto, ficam fora das manchetes? Ou seja, com/por essas manchetes, mobiliza-se uma imagem de índio. E, simultaneamente, outra imagem também dá-se a ver: a do jovem urbano 112 contemporâneo. Estamos aqui recorrendo ao jogo de imagens que, conforme as formações imaginárias, preside todo dizer, tal como proposto por Pêcheux (1990). É conforme as imagens – dos índios e dos jovens urbanos em relação à representação dos lugares sociais – que se consolidam as formas imaginárias de distribuição, de preenchimentos desses lugares. Ou seja, as imagens feitas de usuários da internet, de advogado e de miss são mobilizadas num jogo de distribuição desigual entre os índios e os brasileiros-jovens-urbanos, em relação de constituição com a formação social. Por esse jogo, essas imagens não coincidem entre si, mostram-se distintas. O que se apresenta como “estratégia jornalística” de construção da manchete (LAGE, 2002), só pode funcionar como isca de captura do leitor por poder colocar em jogo essas duas imagens. São, portanto, sentidos já sedimentados, e predominantes no conjunto dos sentidos, resultantes de uma relação dinâmica, desigual, contraditória. Em termos discursivos, conforme já citamos, mobiliza-se o conjunto das diversas formações discursivas em relação de desigualdade, com a predominância de uma região de sentidos sobre as demais (PÊCHEUX, 1997[1975]). É, sobretudo, porque essas duas imagens são não-coincidentes (e aí se encontram em aparente sobreposição) que funciona o sutil estranhamento que assalta os leitores. O que está sendo dito só é aceito como algo que carrega o impensado de alguma forma, o fora do lugar. Interessa-nos destacar que se o estranhamento é provocado pelo que é atribuído ao índio, isso não se constitui como um pesar. Por quê? Porque opera aí o padrão do desejável, dado como bom universal e inquestionável. Assim, deixa-se perceber o que é dominante entre os sentidos apresentado como único. É, pois, pautado na imagem do jovem-urbano-belo-escolarizado que se avalia se alguém se destaca ou não. Atrelado a isso, o que na língua se materializa pela possibilidade da ausência do complemento verbal, não é sem o discernimento do que dispensa ser mencionado, como um tipo de complemento sócio-historicamente situado. Assim, diante de “G1 mostra história de índios que se destacaram”, o suposto leitor tem, no conjunto das representações discursivas dos lugares de onde se fala, para quem e sobre o que se fala, uma cumplicidade com o texto apresentado. Desse processo faz parte o leitor transitar dentro de certos limites possíveis para o complemento verbal e, assim, não é exatamente previsível que ele interrogue: “se destacou em quê?” ou “por que um índio usando internet, sendo advogado e eleita miss indica que se destacaram?” 113 Para que esse funcionamento assim se dê, opera a ideologia. Nos termos cunhados por Pêcheux (1997 [1975]): É a ideologia que fornece as evidências pelas quais “todo mundo sabe” o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado “queiram dizer o que realmente dizem” e que mascaram, assim, sob a “transparência da linguagem”, aquilo que chamaremos o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados. (PÊCHEUX, 1997 [1975], p. 160) É em relação a ser índio que se pode dizer ‘se destacaram’. É em relação a “todo mundo sabe” o que é um índio que tais perguntas não são postas. No entanto, se é pautado na imagem do jovem-urbano-belo-escolarizado que se avalia o destacar-se ou não, o que implica pensar o índio – que todo mundo sabe como é – frente a tais critérios? Ou, antes, que índio é esse que se apreende em tal avaliação? Mais especificamente, cumpre explorar se ainda é do ordinário dos sentidos dizer da preguiça dos índios e, não, da capacidade de trabalho indígena, intelectual ou não; se ainda é comum exaltar o exotismo e não a beleza indígena, por exemplo. E, quanto aos meios de comunicação utilizados pelos índios, até onde se menciona algo além da velha fumaça; e, em se tratando do uso da língua portuguesa, é interessante atentar se ainda se relaciona os índios a construções frasais em um português cujos verbos desconhecem a flexão número-pessoal e de cuja construção frasal não consta preposição ou mesmo conjunção.25 Ou seja, urge examinar até que ponto houve ou não deslizamento na imagem predominante de índio, construída e mantida no transcurso de séculos. Ao longo de nossas análises, muito do que discutimos aponta para em que medida essa imagem de índio se mostra constituída ou ainda produtiva em nosso imaginário. De que forma dá-se a relação desse imaginário com os acontecimentos históricos atuais? Ou, todo mundo ainda sabe o que é ser índio? De algum modo, com isso aponta-se para a manutenção de uma memória segundo a qual os índios devem ser alçados aos modos e atitudes do homem civilizado, conforme consta desde os primeiros decretos e leis que, como ação política governamental, estabeleceram e regulamentaram as práticas político-sociais no Brasil sobre os índios (CARNEIRO DA CUNHA, 1998). 25 Como conciliar essa forma caricatural de utilização da língua portuguesa à imagem de impecável oratória exigida de um advogado? 114 No trajeto da política indigenista, interessa para este trabalho ressaltar que, no conjunto dos textos que estipularam propostas para o trato com os índios, encontra-se o que a Constituição de 1988 suprimiu de forma inaugural e que traz novas possibilidades de os índios serem re-significados. Para além das estratégias e técnicas as mais diversas para lidar com os índios, é a concepção de índio que encerra grande relevância: a partir de 1988, os índios livraram-se da condição de deverem ser incorporados à dita comunidade nacional. De nossa perspectiva, quaisquer discussões referentes aos índios necessitam ser ponderadas à luz deste lembrar: depois de transcorridos cinco séculos, legalmente, os índios podem ser índios fora da transitoriedade que lhes era imputada pela velha aspiração de fazê-los transpor o ‘ser índio’ e alcançar a categoria de todos os outros da sociedade nacional. Vale retomar os termos pelos quais esse “poder existir” foi fixado na lei. São reconhecidos aos Índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. (BRASIL, 1988. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05/10/1988. Grifos nossos.) De certo modo, ao discutirmos a disputa pela terra entre índios e brasileiros noticiada nos jornais nesta primeira década do século XXI, estamos trazendo à reflexão questões que agora podem ser discutidas enquanto acontecimento histórico fazendo sentido, ou melhor, em processo de construção de sentidos. “São reconhecidos aos Índios sua organização social, costumes, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras”, ou seja, é por serem legalmente índios – o que se marca na língua pelo pronome sua – que podem exigir assim serem em certos foros. Todavia, se a disputa ainda se trava materializada nas manchetes como vimos lendo e discutindo, isso bem diz do instável habitando a direção de sentidos apontada na Constituição quanto à posse indígena da terra e quanto ao poder ser índio. Longe de caber exclusivamente uma leitura negativa do avanço das práticas da lei referente aos índios, faz-se necessário lembrar as diversas formas de resistência que constitui esse processo. Resistência que carece ser examinada sem que se esqueça de notar que estão em jogo somente duas décadas do reconhecimento legal da existência indígena diante de mais de cinco séculos de outras formas de conceber os índios, formas pautadas pelo objetivo explícito segundo o qual o índio é aquele em quem advirá outro, 115 aquele que virá a ser não-mais índio. De que forma nossa análise pode fazer articulações com essa questão? Interessa-nos aqui ressaltar que os pilares sobre os quais se estabelecem os sentidos de civilização (enquanto processo fundamental da história, mas também resultado final desse processo) fazem permanecer uma divisão basilar: supõe-se um estado primeiro, fora e anterior à civilização; traz sempre em si o seu avesso, a não civilização (cf. GUIMARÃES, 2000, 2003, 2004). É nesse sentido que civilização apresenta-se como necessidade formulada pelos povos dominadores como aquilo que eles, sendo possuidores, poderiam e deveriam propiciar e fazer acontecer aos povos dominados. Conforme a abordagem de Guimarães (2000, 2003, 2004), para quem ‘civilização’ é umas dessas palavras que “são nomes e designam valores” e, assim, sendo atravessada e determinada ideologicamente, adentra os conceitos e as práticas científicas como se não o fizessem. O autor, ao analisar o funcionamento dos sentidos da palavra ‘civilização’ em textos de linguistas brasileiros de meados do século XX, verifica que: A civilização é o que identifica o Brasil e sua língua por serem determinados pela Europa, pela colonização. Contrariamente, o que se opõe à civilização antonimicamente, a ignorância, determina selva, (e selvagem) e caipira. Ou seja, a ignorância e o selvagem (primitivo) são uma questão do Brasil enquanto lugar de litígio entre civilização (educada) e a ignorância dos povos originários do Brasil. (GUIMARÃES, 2004, p. 137. Grifos nossos.) Por essa visada, podemos compreender o modo pelo qual a noção de civilização continuava operando e significando por volta dos anos cinquenta, funcionamento de que somos tributários. Isso nos possibilita vislumbrar o lastro sobre o qual estivemos e estamos assentados. Tal entendimento fornece elementos caros à compreensão do que hoje somos enquanto brasileiros, vistos sem que se tente apagar a colonização e a civilização, como marcas de nascença, por assim dizer, que nos constitui enquanto país/povo no processo histórico. Isso diz respeito aos sentidos que nos constituem – o Brasil, os brasileiros, os índios. Para discutirmos a direção de sentidos mobilizada nas manchetes, consideramos o funcionamento desses sentidos que, remetendo à ‘civilização’, permanecem separando – valorizando/desvalorizando – os que estão no Brasil com base nesse critério 116 “invisível” do além-mar. Importa-nos os efeitos que o “lugar de litígio” Brasil imprime na questão da posse da terra disputada entre índios e brasileiros. E, sobretudo, convém trazermos os termos em que o autor expressa sua conclusão: A palavra civilização (...) traz sempre o sentido de oposição em relação ao ‘primitivo’, ao ‘exótico’, à ‘ignorância’. Ou porque designa algo que tem uma relação antonímica com estas palavras ou porque designa algo que tem no seu pólo negativo estas palavras. Ou seja, mesmo que o plural de civilização faça parte de seu sentido, esta pluralidade é hierarquizada na direção do que progresso, educação, língua escrita, por exemplo, designam. (GUIMARÃES, 2004, p.144) Esse modo de significar ‘civilização’ que, segundo Guimarães, mostra como a Linguística (de meados do século XX) “ainda está ligada a questões próprias do debate sobre a língua nacional da segunda metade do século XIX”, e, assim, diz sobre o Brasil e a seus povos a partir de um modelo valorativo, não científico, cujo centro é a Europa. Importa-nos que, nessa visada da linguística marcada em seu fazer científico por certa noção de civilização, inscrevem-se imagens diferenciadas para todos os envolvidos no processo, em nosso passado recente. Ainda recorrendo a Guimarães (ibid., p. 144), “a palavra civilização opera de modo muito específico na reflexão das diferenças entre sociedades e modos históricos de existência”. No caso do Brasil e seus diferentes povos, por esse critério, há uma injunção a fazerem-se ver as diferentes historicidades e memórias, processo pelo qual brasileiros e índios não resultam iguais. Nesse lastro, pode-se dizer que os todos que no Brasil vivem são afetados pelos desígnios da ‘civilização’, mas não de qualquer modo.26 Diante do exposto, pode-se cogitar que os índios que se destacam são índios que deixaram, pelo menos em parte, suas raízes enquanto povo com diferentes modos de viver? Como pensar isso em relação ao recente reconhecimento dos direitos dos índios exatamente à diferença? Vale aqui lembrar que, conforme Orlandi (1990), o índio frente à necessidade de falar a língua portuguesa, na interação com o branco, o faz imerso no contraditório do 26 Da perspectiva da Psicanálise, Birman (2006) discute a questão da ‘barbárie’ e da ‘civilização’ destacando o constante movimento e mudança por que essas noções são constituídas e interligadas. Dada essa natureza, em vez de opostas e excludentes, pela visada do discurso freudiano, Birman (ibid., p. 101) aponta a barbárie no seio da civilização, fundando-a reiteradamente, em uma dimensão trágica. A crueldade, sempre presente nas “diversas perturbações do espírito, [n]a violência e [n]a destruição”, “seria então a marca de barbárie inscrita no fundamento da modernidade, que se caracteriza pela tragicidade.” 117 “estigma e reconhecimento” em relação à sua própria língua, pois “o branco recusa a legitimidade das línguas indígenas, mas, por outro lado, o índio é índio porque fala a língua indígena.” Ainda nos termos da autora: para conseguir afirmar-se como tal o índio tem de se negar como índio, na medida em que tem de se afirmar com as categorias do outro que o exclui. Isto é, há uma divisão de raiz no contato com o branco. (ORLANDI, 1990, p. 221. Grifos nossos.) Dessa visada, em que, por um lado, há que ser índio e, por outro, rejeita-se o que é índio, pode-se vislumbrar que em “índios que se destacaram” há sentidos que remetem aos índios significando de tal forma que, se não deixaram, pelo menos parcialmente, suas raízes enquanto povos com diferentes modos de viver, são índios que acolheram – ao menos parcialmente – “as categorias do outro” para se afirmar. Deixa-se perceber o movimento nos sentidos concernentes aos índios na tensa relação com os brasileiros. Assim, pode-se dizer que, tendo em vista o índio, ser um ‘índio que se destacou’ funciona às avessas: é pelo destaque que o índio é supostamente igualado, igualado ao brasileiro. Observemos que, além de apontar que a igualdade é somente suposta, produz-se um forte rumor em “Índio de gravata sofre preconceito’, diz advogado indígena”. Se o índio não se veste de tanga e cocar e tornou-se advogado, o que lhe escapa não é a escolaridade, nem a profissão ou uma vestimenta bem aceita. É advogado, mas é índio: ponto incontornável. Para assim funcionar, os sentidos parecem repousar no que precede (o que não pode ser alterado pela formação universitária e pela indumentária). Os sentidos aqui se prendem ao índio enquanto algo que não se perde, que não é da ordem do estar e do tornar-se, mas da constituição.27 Marca-se na constituição desse sujeito, simultânea e contraditoriamente, um excesso em relação a uma falta. Ou, em outros termos, excedelhe ser índio. Falta-lhe ser brasileiro. Resulta o índio como ser do excesso e da falta constitutivos. Tudo isso aponta para o funcionamento de duas imagens distintas no imaginário brasileiro: a do ‘jovem-urbano-belo-escolarizado’ e do ‘índio’. No entanto, longe de 27 Contraditoriamente, o senso comum apregoa que índio vestindo calça jeans, falando ao celular - e agora, enviando e-mail - não é mais índio. 118 propormos uma separação radical, nesse funcionamento, destacamos que, mesmo no que essas imagens podem-se sobrepor, há aspectos que restam incontornáveis e que desfazem o pretenso ‘um’ propagado para o brasileiro e para o índio. A complexidade do jogo de forças do lugar social dos índios em relação aos brasileiros, e que é representada nessas imagens construídas no discurso, explicita-se pelo fato mesmo de o índio SER advogado, de o índio SER internauta, de a índia SER miss. Todavia, essas qualificações que destacaram os índios não se constituem em passe de mágica: nem sendo destaque se diluem os resíduos que teimam em não funcionar como detalhes. Revela-se o contraditório no funcionamento desses sentidos: por um lado, não se reconhece nas práticas cotidianas a diferença dos índios; por outro lado, exige-se – contudo não se aceita – que os índios sejam iguais aos brasileiros. Há uma injunção aos índios para significarem no desconforto desse entremeio. Isso posto, há que se atentar para a ponte que se estabelece entre: a) os sentidos que estipulavam, dizendo ser para o bem dos índios, que eles deveriam submeter-se a outra forma de existência (outras: crença religiosa, relação com o tempo-espaço, vestimenta, alimentação, moradia, etc.), e b) os sentidos que atualmente aclamam o índio por ser advogado, por fazer uso da internet ou por se encaixar em dado padrão de beleza.28 Pelo trajeto de análise que estamos traçando, podemos destacar essa relação como dizendo respeito antes à alteração de padrões não-indígenas, padrões brasileiros aos quais os índios devem ainda ser alçados. Ora, os civilizados de outrora não seríamos os urbanos de hoje? O que eram avaliadas como boas amostras de civilização não equivalem atualmente a um padrão de condutas urbanas, modelo valorado positivamente? Assim entendendo, jogamos com um desdobramento parafrástico: não teríamos no termo ‘destacaram’ uma forma (politicamente correta?) para o ‘aculturamento’ outrora apregoado? Pelas possibilidades da língua enquanto estrutura pode-se dizer, sim; mas, pelo que se tem construído como história brasileira e indígena, os termos ‘civilizar’/‘aculturar’ estão fora do que hoje é possível ser dito sobre os índios no Brasil, por não mais ser aceitável enquanto política arquitetada para os índios, sobretudo no período pós-constituição de 1988. Assim sendo, algo se diz no seu lugar ou, mesmo não 28 Sobre padrão de beleza, vale mencionar uma crônica de Bessa Freire em que ele discute o que recentemente disse, em Manaus, o então Secretário de Estado de Educação: “Em geral, quem não conhece a Amazônia, tem uma idéia errada. Vocês chegaram aqui pensando que iam encontrar só índios? Isso é um equívoco. Aqui também tem gente bonita.” Disponível em: http://www.taquiprati.com.br/home/apresenta-cronica.php?cronica=cronica08-02-2009. Acesso em fev. de 2009. 119 sendo dito, sentidos funcionam nesse lugar de ‘civilizar’/aculturar’. E “índios que se destacaram” é uma das atuais possibilidades que a “língua encarnada na história”29 proporciona. Como os sentidos não se constituem em um “à parte ahistórico”, é também pelo desenrolar da nossa história que mudar o significante só não basta para que sejam alterados os sentidos, para que o índio saia de mal-classificado para bem-valorizado. A despeito do rótulo, pela nossa análise, os ‘índios que se destacaram’ são índios nos quais o processo de aculturamento/civilização foi eficaz e teve êxito quase pleno. Enfim, para pensarmos a partir do que afirmou Orlandi (1990, p. 221), o que nessa manchete põe-se em movimento e torna-se predominante ainda são as “categorias do outro”, pelas quais “o índio tem de se negar como índio”.30 Com isso, colocaremos em discussão os sentidos mobilizados pela recorrência e pela ausência de um termo ao longo de nosso arquivo. 29 Expressão cunhada por Orlandi (1996) em uma de suas muitas formas de referir-se ao discurso. Não trataremos no âmbito dessa pesquisa, mas assinalamos que atualmente ganham visibilidade os índios que vivenciam esse processo de negar a si fora de suas aldeias, os ‘índios destribalizados’, ou, para usar a designação corrente, os ‘índios urbanos’. Referindo-se aos índios de Roraima, mencionamos o livro "Projeto Kuwai Kîrî: a experiência amazônica dos índios urbanos de Boa Vista - Roraima", organizado por Reginaldo G. de Oliveira (OLIVEIRA, 2010). 30 120 A FAMÍLIA Família Três meninos e duas meninas, sendo uma ainda de colo. A cozinheira preta, a copeira mulata, o papagaio, o gato, o cachorro, as galinhas gordas no palmo de horta e a mulher que trata de tudo. A espreguiçadeira, a cama, a gangorra, o cigarro, o trabalho, a reza, a goiabada na sobremesa de domingo, o palito nos dentes contentes, o gramofone rouco toda a noite e a mulher que trata de tudo. O agiota, o leiteiro, o turco, o médico uma vez por mês, o bilhete todas as semanas branco! mas a esperança sempre verde. A mulher que trata de tudo e a felicidade. Carlos Drummond de Andrade Discutiremos, a seguir, o funcionamento de uma palavra simples, dessas tão habituais que não parece exigir esclarecimento algum. Dessas palavras de que se espera, além de absoluta transparência, que os leitores apreendam seu sentido de imediato e sem dessemelhanças. ‘Família’, eis a palavra. Não se desconfia da opacidade de ‘família’ e sobre ela o dizer jornalístico considera que nada precisa desambiguizar. Deixando de lado esse usual da língua, tomemos a palavra ‘família’ como discurso, desengessando-a da clareza homogênea do sentido uno. Por esse deslocamento, ‘família’ torna-se um texto, um acontecimento a ser lido em relação ao que já faz sentido, em um processo não linear, contraditório (PÊCHEUX, 1993). Isso implica expor o termo ‘família’ às múltiplas possibilidades de sentidos latentes em sua espessura opaca. Assim, faz-se saber que não há aí uma relação unívoca e fixada ad infinitum entre um significante e um significado, mas probabilidades de sempre outras 121 junções. Não um sentido, mas sentidos em movimento, quer consideremos ‘família’ em uma dada época, quer a acompanhemos ao longo dos tempos, seja em uma sociedade específica seja as relacionando entre si. Em tudo isso, está em pauta considerar língua e história como processos simultâneos. Como diz Orlandi, a evidência do sentido – a que faz com que uma palavra designe uma coisa – apaga o seu caráter material, isto é, faz ver como transparente aquilo que se constitui pela remissão a um conjunto de formações discursivas que funcionam com uma dominante. As palavras recebem seus sentidos de formações discursivas em suas relações. Este é o efeito da determinação do interdiscurso (da memória). (ORLANDI, 1999, p. 46) Por esse viés, podemos refletir sobre a família brasileira, sem esquecer seus fundamentos eurocêntricos, fortemente determinados pela visão católica. Assim, para refletir sobre os vínculos interpessoais básicos em solo brasileiro mostra-se relevante lembrarmos que o Brasil, colônia de Portugal, teve a vida em comum fundada e mantida sob os regimentos do direito eclesiástico, devidamente normatizados pelo Concílio de Trento, de 1546, aqui reiterados pelas representações da igreja católica, culminando com o que se registrou nas Constituições do Arcebispado da Bahia, em 1707, cujos fundamentos encontram-se nas disposições das Ordenações Filipinas, de 1603. Em grande parte, era por meio dessas diretrizes da igreja para a constituição da família que se implementava o processo de civilização na colônia e, com isso, eram forjados espaços diferenciados socialmente para os que aqui viviam. Ou seja, fundamentava-se, assim, a distribuição desigual dos espaços de poder. Tais diretrizes, revestidas de sentidos de cunho moralizante, foram sendo mantidas, de forma cada vez mais atenuadas, até a formulação e promulgação do Código Civil, já no século XX, em 1916. Esse instrumento legal contribuiu para que fosse se deslocando de modo mais acentuado o poderio da igreja como determinadora das formas de constituição da família. Vale registrar o forte embate político que, durante toda a segunda metade do século XIX e início do século XX, deu-se em torno do casamento, sobretudo no que respeitava o caráter da indissolubilidade de cunho sagrado, tal como propunha a igreja.31 No entanto o fato das determinações da constituição da família migrarem do campo do sagrado para o do “Direito da Família”, conforme registra o Código Civil, 31 Para uma discussão detalhada dessa questão, ver CIARALLO, Gilson. Advento do casamento civil e o processo de secularização do direito no Brasil. Disponível em: http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/brasilia/08_782.pdf 122 não é algo isolado e radical, nem é sem ter em sua constituição as marcas do funcionamento de uma formação social que, em muito, acolhia e continuou acolhendo os preceitos sagrados do catolicismo como fundamento ainda legítimo para a instituição dos laços do núcleo mínimo. O que essa visada do âmbito do religioso e do jurídico, como tentativa de contenção de sentidos, faz transparecer como família certamente não contempla as formas de existência da família no Brasil. No entanto há que se considerar como, nessa moldura herdada, a família foi sendo dita, o que foi sendo sedimentado pelos discursos autorizados a interpretarem o que é a família brasileira. Nesse sentido, cumpre citar a família brasileira concebida pela harmônica mistura das três raças, tal como propôs Gilberto Freyre (1933), que, embora sendo contradita pelos intensos movimentos de resistência, tanto por parte dos negros quanto pelos índios, fixou-se no imaginário como família brasileira. Assim, urge pensar nas implicações que a família, assim concebida, acarreta para os processos de significação dos índios. Ou, melhor dizendo: que lugar é reservado aos índios nessa família brasileira? Disso tudo, interessa destacar para nossa discussão que os sentidos de ‘família’, neste início de século XXI – não podendo escapar dessa trajetória como constituição, nem podendo significar por arquétipos de “substituíveis familiares” – dão mostras em seu funcionamento dessa historicidade de diversas formas. O termo ‘família’ tem, pois, esse esteio como memória, da qual não se excluem as lacunas, as desigualdades, as contradições que também são constitutivas dos sentidos atuais. A título de observação, se os sentidos mais fortes de família deslizaram do âmbito religioso para o jurídico, cumpre ressalvar as diversas textualidades que atualmente laboraram na sustentação de seus sentidos. A família, a despeito de suas mudanças, faz-se garantir como núcleo “natural” e fundamental da sociedade a ser protegido por instrumentos diversos, tais como: Convenção Americana de Direitos Humanos; a Declaração Universal dos Direito Humanos; o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos; o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; a Convenção sobre os Direitos da Criança. A partir dessas incursões, discutiremos como ‘família’ comparece nas manchetes que divulgam a questão da terra entre índios e brasileiros. 123 1. Sobre o pequeno coletivo inominável Da visada da Análise do Discurso permite-se “olhar” essas manchetes averiguando o que nelas se movimenta, do rol das muitas significações, para que ‘família’ transpareça de uma exata forma. Considerando que os sentidos são sempre múltiplos, o que se pode resguardar – e o que não se deixa abrigar – sob essa ‘família’? Em duas palavras: de que ‘família’ se diz quando se anuncia a terra sendo disputada entre índios e brasileiros? E, há que se lembrar que tal disputa tem os índios como vitoriosos: todas as manchetes sob análise são posteriores à homologação da Raposa Serra do Sol, pela qual a posse indígena da terra foi ratificada. Observemos o conjunto dessas manchetes. SD82: Cerca de 300 famílias terão que deixar a TI Raposa Serra do Sol. (Folha BV, 03/04/2006) SD83: RAPOSA – Incra já identificou áreas para reassentamento das famílias. (Folha BV, 10/04/2006) SD84: RAPOSA SERRA DO SOL – Famílias não sairão de imediato. (Folha BV, 14/04/2006) SD85: Senador afirma que instituições não podem expulsar famílias da reserva. (Folha BV, 17/04/2006) SD86: RAPOSA SERRA DO SOL – Atendimento às famílias começa hoje. (Folha BV, 17/04/2006) SD87: Nagib reafirma que não haverá expulsão de famílias da reserva. (Folha BV, 24/04/2006) SD88: RAPOSA SERRA DO SOL – Incra reassentará 30 famílias hoje. (Folha BV, 13/04/2007) SD89: Famílias da Raposa Serra do Sol são reassentadas em Alto Alegre. (Folha BV, 14/04/2007) SD90: Governo vai assentar famílias de não índios em Bonfim. (Folha BV, 24/04/2009) SD91: 42 famílias da Raposa Serra do Sol não terão onde morar, diz Gabeira. (G1, 28/04/2009) SD92: Raposa: Não-indios temem separação da família. (Folha BV, 18-08-2008) SD93: Quase 30 famílias ainda estão na Raposa, estima Funai. (Folha BV, 30/04/2009) 124 Tomando as manchetes em sua totalidade, e mapeando os que se encontram contemplados em ‘família’, teremos: os que “terão que deixar a TI Raposa Serra do Sol”, os que serão reassentados, os que necessitam de atendimento, os que temem ser separados dos demais membros do grupo, os que não podem ser expulsos. Ou seja, de nossa perspectiva, a transparência de sentidos convocada nessas manchetes para o termo ‘família’ apresenta uma unidade homogênea para seus membros: a referência discursiva construída abrange os não indígenas que deverão sair da terra indígena. Com essa trama em torno dos que podem ser substituíveis são mobilizados sentidos para ‘família’ de modo que só possa envolver os que se vinculam à propriedade da terra. Estando a posse da terra em disputa, quais as implicações de o jornalismo poder apontar sentidos de forma que os índios ficam fora da ‘família’? Segregar os índios da condição familiar faz ressoar que efeitos de sentido quanto à posse da terra? Movimentam-se, silenciosamente, sentidos que apontam a legitimidade, outorgandolhes senhores da terra: a família brasileira. Assim, famílias não ter onde morar aponta para algo fora da normalidade face ao imaginário de família. Pelo conjunto das manchetes, imprime-se um pesar (solene? indignado?) em relação à família fora da terra. Põe-se em primeiro plano como efeito de sentido a família e a perda de propriedade, o “não ter onde morar”. Diante disso, é digno de reflexão o que se apaga para que essa consternação seja delineada. Face à relação apontada entre propriedade da terra e a família brasileira, não se torna manchete, por exemplo, sobre famílias indígenas que viverão com tranqüilidade em suas terras. Ao invés disso, as famílias só são retiradas de suas terras. Afinal, o que se vem a dizer do ser humano situando-o na exterioridade do viver pautado na estrutura coletiva mínima? Para que não pareça por demais sem sentido tais interrogações, ressaltamos que, em se tratando de deter a posse e ficar na terra, não há única manchete que designe os índios como “família”. E isso não pode ser explicado como coincidência do dizer.32 Afinal, faz parte do mais corriqueiro saber que os índios não vivem no um-aum, que têm laços de parentesco e que não vivem em solidão física. De que se trata, então, em termos de constituição de sentidos, essa forma coesa de excluir os índios de ‘família’? A “escolha” do vocábulo ‘família’ restringindo-o aos não indígenas, e distinguindo-os dos índios, merece uma ressalva. Temos aí um exemplar do 32 Tomamos, aqui, livremente, parte do título de AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. Palavras incertas: as não-coincidências do dizer. Trad. de Pfeiffer, C. R. e outros. Campinas: UNICAMP, 1998. 125 funcionamento da literalidade da língua, em que o uso passa como “simples modo de dizer em português”. É isso que pode normalmente escapar ao leitor comum/internauta no seu rápido navegar, pode passar despercebido por nós, falantes diários. Não se percebe que a língua – naquilo que tão prontamente e sem resistência nos oferece – não pode tudo su-portar. Para refletirmos sobre tal naturalidade do dizer, urge retomar como os sentidos da propriedade da terra – e sua manutenção associada à família, à religião e a certos setores da política partidária conservadora – circularam aqui no Brasil. Estamos nos referindo à conjuntura brasileira da virada dos anos 50 para os anos 60, cujos marcos balizadores podem ser elencados com a renúncia de Jânio Quadros (em 25 de agosto de 1961), os eventos de março de 1964: o Comício das Reformas (em 13 de março, na Central do Brasil, Rio de Janeiro), o discurso de João Goulart no Automóvel Clube (em 30 de março, no Rio de Janeiro); e pelo golpe militar, em 31 de março de 1964. Interessa-nos destacar, nesse ínterim, uma sequência de atos públicos que se fizeram sobressair dando ênfase a preocupações de cunho moralista-cristão, rotulados de Marcha da Família com Deus pela Liberdade que, iniciado em São Paulo, foi propagado pelo interior e, logo depois do golpe militar foi sendo organizado em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Bahia, Rio Grande do Norte e em diversos outros estados brasileiros. Essa Marcha é geralmente apontada como uma resposta às chamadas reformas de base recém encampadas pelo então Presidente da República, João Goulart, propostas estas que estavam relacionadas, sobretudo, à reforma agrária e aos anseios de liberdade político-sindical.33 Resguardadas as nuances que foram sendo adquiridas em cada estado, a Marcha cultivou um desígnio comum: o evento era referido como uma ação em defesa da Pátria, da família e dos bons costumes cristãos, ameaçados pelos inimigos comunistas. Nessa pretensa missão cívica – em defesa da Pátria, da democracia e dos valores da família – encontravam-se setores conservadores da política, da classe média, da igreja católica, de industriais, e a participação de diversos grupos de mulheres (seja por serem representantes políticas, esposas de políticos, membros de associações ou frequentadoras da igreja católica). Dessa conjuntura, interessa-nos enfatizar que a ‘família’ aclamada na Marcha da Família com Deus pela Liberdade era a representativa de grupos detentores do poder e da propriedade da terra: uma família que, sentindo-se ameaçada, expressava 33 Sem tentar ilustrar a extensa bibliografia sobre esse evento, para uma consulta rápida e online, mencionamos o sítio http://cpdoc.fgv.br 126 seu interesse em manter o status quo, certos valores sociais e bens materiais sob seu controle. De nossa perspectiva, sublinhamos que a família, assim constituída, vigora em detrimento de outras famílias contra as quais a Marcha se insurgia ou, para usar os termos dos participantes, de quem se protegiam. Pois, conforme enfatizou o presidente João Goulart no Comício das Reformas, no estado da Guanabara: “reforma agrária feita com pagamento prévio do latifúndio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária”, mas, sim, “negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário.”34 Essa era uma das propostas de mudança contra a qual a Marcha se constituiu. Assim compreendida, a família explicita fortes traços da imagem que predominou como representativa da família brasileira, a dita ‘família patriarcal’ de nossas raízes: a grande família proprietária e rural, e detentora do poder. Essa família que, de certa forma, encontra-se descrita por Drummond, na epígrafe deste capítulo. A despeito da pluralidade do que poderia ao longo de nossa história ser referida como ‘família brasileira’, e das muitas e profundas mudanças por que passou, contraditoriamente, tal imagem também parece constituir a imagem da família da atualidade, caracterizada já por padrões urbanos, em que o processo de industrialização faz parte. Diante disso, vale ressaltar que a maioria das manchetes analisadas, em que discutimos os sentidos de família, é de um jornal da região norte, cuja sociedade está longe de poder ser classificada como industrializada, ou mesmo urbanizada. Nesse lastro, ‘família’ manteve assentados certos sentidos de que os sentidos predominantes de hoje são tributários: é a partir daqueles que se constitui um natural sedimentado do dizer. Se ‘família’ pode remeter diretamente a um grupo de pessoas unidas por consanguinidade, isso, no entanto, não é sem divisões: não são quaisquer pessoas que constituem a ‘família’ da transparência do dizer de nossos dias. Nesse sentido, destacamos um aspecto contraditório no funcionamento da imagem predominante da família atual: ela é considerada a partir dos padrões urbanos que, conforme mencionamos acima, não dizem respeito ao cotidiano de grande parcela da sociedade brasileira. Cumpre indagarmos como, em nosso processo histórico, os índios foram apagados de ‘família’. Certo é isso não poder ser imputado à total falta de informação sobre a constituição familiar dos povos indígenas e sobre o profundo respeito que eles devotam a seus antepassados. Trata-se do trabalho da ideologia ao longo da história que, 34 http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/AConjunturaRadicalizacao/Comicio_das_reformas. Acesso em 07 jul. 2010. 127 da perspectiva da Análise do Discurso, produz evidências (e apagamentos) para o sujeito. Assim, ‘família’ ter os índios excluídos de sua referência não é exatamente do calculável dos jornalistas (espertos ou alienados). Desse modo, o que em uma manchete pode ocasionar – tanto em quem escreve quanto em quem lê – a sensação de simples informação, não é sem o funcionamento de sentidos que estão aquém, além e à revelia da escolha e preferência vocabular (do jornalista ou do leitor). Será sempre uma escolha em que palavra-e-história não podem se separar e, com isso, não podem estar despidas de ideologia, de disputa de poder. Ocorre que, em algumas palavras, por circunstâncias histórico-políticas, esse processo torna-se mais visível, ao passo que em outras, como ‘família’, parece não caber desconfiança alguma sobre a obviedade de seu sentido. Se parece que na família cabe todo mundo, a despeito disso, no discurso jornalístico online, os índios são constituídos fora de seus muros. Para este ponto, uma primeira observação: quanto aos índios, ao atentar para a forma empregada para fazer mencioná-los, depreende-se que eles são relegados, pela marca de plural, a uma massa indistinta à parte: são “indígenas”, “índios”. Isso posto em relação à ‘família’, enquanto núcleo social mínimo, fortemente requisitada e usada como elemento favorável à manutenção da propriedade da terra, que efeitos de sentido constrói-se para os índios? Mais que isso: nas manchetes analisadas, para dizer respeito ao universo indígena não há denominação equivalente a ‘família’, enquanto estrutura social básica. Desse modo, os índios ou são categorizados indistintos numa totalidade ou restam desclassificados em uma nebulosa atmosfera que, em vez de ‘família’, constitui o que chamamos de “pequeno coletivo inominável”. E esse já se faz aspecto para reflexão, afinal, em uma formação social cuja língua dominante não abre mão dos nomes, não ser denominado/rotulado/qualificado, em uma instância dessa magnitude, certamente significa. Retomemos ainda a Marcha da Família com Deus pela Liberdade para discutirmos um evento recente. Em agosto de 2008, o Supremo Tribunal Federal estava por decidir sobre a homologação da Raposa Serra do Sol – em área contínua – tal como fora assinada em 2005. Conforme já mencionamos, isso se deu em virtude dos numerosos processos movidos contra a homologação pelas diversas instâncias políticas de Roraima, bem como pelos próprios produtores de arroz instalados nessa área. Vale aqui mencionar os 128 números: foram em torno de cento e cinquenta processos contra a homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol. Os fazendeiros que relutavam em sair da Raposa Serra do Sol organizaram um movimento que contou com o apoio de grandes fazendeiros de outros estados, sobretudo de Mato Grosso. Marcha a Roraima foi a denominação dada ao evento. Em relação a essas duas marchas, vejamos alguns aspectos de junção/disjunção. Se a Marcha da Família com Deus pela Liberdade tratou-se de um percurso coletivo, feito a pé, na Marcha a Roraima não esteve um grupo de pessoas se movimentando em passos de caminhada, mas cerca de sessenta pessoas em vinte automóveis de grande potência que, durante seis dias, percorreram mais de três mil quilômetros, em estradas com longos trechos intrafegáveis para veículos comuns. Saíram de Cuiabá, capital de Mato Grosso, com destino à cidade de Pacaraima, em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela. Tal empreitada tinha como objetivo mobilizar a sociedade a favor da revogação da posse indígena da terra e, com isso, pressionar o STF para efetivar uma decisão nesse sentido. Dentre os argumentos alertando sobre os grandes perigos da homologação da Raposa Serra do Sol, destacavase que essa homologação se tornaria parâmetro para decisões futuras sobre posse indígena da terra. Vale registrar o slogan do episódio: “Acorda Brasil! A Amazônia é nossa. Marcha rumo a Roraima”.35 Como talvez se pudesse esperar, o evento não foi designado como carreata, nem caravana, ou comboio. Nesse sentido, podemos assinalar na “escolha” de ‘Marcha’ (a Roraima) a filiação a um esteio de sentidos construídos na/pela história, fortemente marcado pela defesa da manutenção da propriedade da terra restrita a alguns, que se consideram seus verdadeiros e legítimos donos. Interessa-nos ressaltar que, da perspectiva discursiva, designar pelo nome/atribuir um nome/denominar não há simples manuseio de um termo retirado de um repositório lá, à disposição do falante. Conforme já discutimos, não se toma palavras quaisquer, nem há seleção sem determinação histórica, esvaziada de uma memória. Nos termos de Mariani (1998), 35 Também nessa linha, vale destacar o lema escrito que acompanha os brasões do Governo do Estado de Roraima, da Assembleia Legislativa do Estado de Roraima, da Universidade Estadual de Roraima: “Amazônia: patrimônio dos brasileiros”. E, curiosamente, o lema da Prefeitura Municipal de Boa Vista é "Segurança, Desenvolvimento, Integração". O lema subscrito no brasão da ALE diz “A Força do Povo”. 129 o denominar não é apenas um aspecto do caráter de designação das línguas. Denominar é significar, ou melhor, representa uma vertente do processo social de produção de sentidos. O processo de denominação não está na ordem da língua ou das coisas, mas organiza-se na ordem do discurso, o qual, relembrando mais uma vez, consiste na relação entre o lingüístico e o histórico-social, ou entre linguagem e exterioridade. (...) As denominações vão, assim, organizando regiões discursivas de sentidos que podem se repetir ou se transformar a cada período histórico, em correspondência com as relações sociais de força em jogo. (MARIANI, 1988, p. 118. Grifos nossos.) Desse modo, há que se destacar que o “processo social de produção de sentidos” entranhado na denominação não é sem contradição e sem que aí opere um forte apagamento (pelo que não entra na denominação) empenhado na organização dos sentidos. Assim, ao denominar ‘marcha’ em relação à terra e aos que têm ou não direitos sobre ela, pode-se entrever o que esse mecanismo põe à mostra considerando os embates atuais nessa formação social, ou seja, “as disputas, as imposições, os silenciamentos etc., existentes entre a formação discursiva dominante e as demais” (id., ibid., p. 118). Nesse sentido, faremos referência, aqui, a alguns desses pontos que dizem respeito mais diretamente à temática de nossa pesquisa. A partir da criação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em 1985, o termo ‘marcha’, mais que utilizado, tem sido continuamente praticado em diversos estados do Brasil, por milhares de pessoas reivindicando o direito à terra. A título de exemplo, mencionamos a mais ampla das marchas desse movimento: a Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e Justiça, realizada em 1997, na qual milhares de trabalhadores rurais saíram de três diferentes estados (São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais) e dirigiram-se a Brasília, num passo-a-passo por mais de mil quilômetros, percorridos ao longo de dois meses. Esse ato político foi organizado para chegar a Brasília no dia em que completava um ano do ‘massacre de Carajás’, episódio em que policiais militares assassinaram dezoito trabalhadores sem terra em Eldorado dos Carajás (PA). Foi uma marcha para reivindicar do governo medidas políticas para os diversos excluídos da sociedade, com destaque para a reforma agrária, ainda marcada pela violência extrema e pela impunidade seja dos assassinos diretos, seja dos mandantes desses crimes.36 36 No dia 20 de abril, dois dias depois de estarem na capital federal, os sem terra protestaram por outro assassinato: Galdino Jesus dos Santos, índio Pataxó Hã-Hã-Hãe, foi queimado, por cinco jovens de classe média alta, enquanto dormia em um ponto de ônibus no Plano Piloto. Galdino havia ido a Brasília participar de manifestações em defesa das terras indígenas, por ocasião do Dia do Índio. 130 Desse modo, considerando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade (1964) e a Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e Justiça (1997), na multiplicidade de sentidos de ‘marcha’, podemos apontar como elemento de junção o fato de ambas recorrerem ao termo para reivindicar – como legítima – a posse da terra. No entanto, nesse ponto, instauram-se duas redes de sentidos opostas no que tange à terra, oposição que pode ser resumida em dois termos: manutenção e acesso à terra, respectivamente. Isso posto, articularemos essas observações a algumas das manchetes que analisamos. Inicialmente, leiamos as manchetes que anunciaram a Marcha a Roraima. SD94: Marcha a Roraima partindo de MT deve mobilizar mais de 50 carros. (Folha BV, 01/08/2008) SD95: Ruralistas de MT fazem marcha a Roraima em apoio a produtores da Raposa/Serra do Sol. (Folha Online, 07/08/2008) SD96: Participantes da Marcha a Roraima chegam a Rondônia. (Folha BV, 12/08/2008) SD97: Marcha a Roraima em apoio aos arrozeiros parte de MT. (Folha BV, 12/08/2008) SD98: Marcha contra demarcação entra no terceiro dia. (Folha BV, 13/08/2008) SD99: Marcha à Roraima: Setor afirma que Amazônia é brasileira. (Folha BV, 14/08/2008) SD100: Marcha ruralista sai de Manaus e está a caminho de Boa Vista. (Folha BV, 15/08/2008) SD101: Pró-Roraima e Acorda Brasil fazem ato público no Centro Cívico. (Folha BV, 15/08/2008) SD102: Movimento “Marcha a Roraima” encerra com uma carta de repúdio. (Folha BV, 18/08/2008) Para refletirmos sobre essas manchetes em relação ao exposto, e já sabendo que não se trata de qualquer ‘marcha’, nem de qualquer ‘família’, interessa-nos observar, considerando a memória da língua expressa nesses termos, a que sentidos a Marcha a Roraima se filia. Tomando a Marcha a Roraima em relação à Marcha da Família com Deus pela Liberdade podemos destacar certos sentidos em plena rota de manutenção, considerando os termos ‘marcha’ e ‘família’. Em se tratando da propriedade da terra, cristaliza-se para certa parcela da sociedade a forte relação estabelecida entre o que se 131 constrói como referência para ‘família’ (enquanto grupo proprietário da terra que requer a manutenção desse status, em 1964) e para ‘marcha’ (os que saem em marcha são os que estão representados em ‘família’, são os que têm “direito à terra”, direito à propriedade). Nesse funcionamento interessa-nos destacar que em Marcha a Roraima pode-se falar de uma ‘família’ que tem certos sentidos reavivados em detrimento de outros. Apaga-se que são exatamente os milhares excluídos de ‘família’, os sem terra que praticam marchas – nos últimos vinte e cinco anos – reivindicando mudança na posse da terra: demandando, não a manutenção, mas o acesso à terra. Apesar de constar frequentemente nas páginas dos jornais, online ou não, que os sem terra estão em marcha exigindo terra, nem o termo nem os sentidos de “direito à terra” se restringem a esse grupo social. Como vimos, os fazendeiros também marcham – mesmo que em caminhonetes com tração nas quatro rodas – para manter a terra sob sua propriedade. Desse modo, avulta que na Marcha a Roraima tem lugar a ‘marcha’ cuja referência remete aos que marcharam em 1964 e, simultaneamente, não acolhe os sem terra que marcharam em 1997. São, literalmente, os “com terra” que tradicionalmente se articulam e construíram forte representação política a nível nacional, a chamada “bancada ruralista” na Câmara Federal e no Senado. Visto desse modo, podemos articular essa ‘marcha’ trazendo em si a ‘família’ cuja referência outrora não comportou os que queriam a reforma agrária, e que hoje também não abriga os índios. É por esse fio que a memória, pelos diversos apagamentos, mantém-se e rememora. E um dos mais vivos efeitos de sentido dessa trama é fazer homogênea a história sobre os que têm direito à terra brasileira. Como se sabe, não há unidade nem linearidade temporal quando se trata de memória e filiação de sentidos, mas falhas, lacunas, contradições (PÊCHEUX, 1999). Visto desse modo, pretendemos discutir os sentidos que funcionam em trilhas que mais se assemelham a pontilhados dispersos. Isso, no entanto, não promove um caos: por um lado, na Marcha a Roraima não há nenhuma dúvida quanto à clareza e legitimidade das reivindicações e, para isso, há histórias a serem resgatadas, grandes exemplos a serem relembrados. A rede de sentidos que fundamenta assim dizer não impede que outra trama seja construída em direção diferente, com exemplos diversos na história que a sustentam fazendo sentido. Isso tudo não é sem que uns sentidos predominem e se apresentem como únicos. 132 Interessa ressaltar que a pretensa unidade de sentido de ‘família’ se estilhaça, e é por essa visada que se pode buscar compreender: os índios restam separados dos não indígenas, enquanto família. Nesse sentido, mencionamos as ilustrações de capa de uma coleção de livro didático (5ª a 8ª séries) da editora Siciliano, selecionado pelo MEC em 2001/2002.37 A coleção propôs-se a dar conta dos diversos grupos que compõem a sociedade brasileira: na primeira capa, um menino branco; na segunda, uma menina parda; na terceira, um menino negro; e na quarta, pasmem: uma menina asiática, conforme reconhecemos esses traços físicos no Brasil. Quanto aos índios, é importante salientar que, mesmo numa iniciativa de reconhecimento da diversidade, no século XXI, eles ainda podem ser banidos do conjunto dos diferentes segmentos da sociedade brasileira. Essa é uma forma de aos índios negar a ‘família’, a dita célula social mínima. É excluí-los não só de um passado histórico, mas do futuro da nação brasileira, literalmente representado nas capas por crianças. E isso não é sem fortes efeitos de sentidos numa estrutura social como a brasileira. Interessante notar que não é incomum, aqui no Brasil, indivíduos que, após cometerem delitos, para explicarem sua inocência recorrem ao termo ‘família’, seja como chefe (“sou um pai de família”) ou mesmo como membro (“eu tenho família”). Exige-se autoridade, demanda-se reverência em nome do pertencimento à ‘família’. Assim, a ‘família’ continua sendo construída como um domínio que resguarda seus membros, protegendo-os de diversas formas. Desse funcionamento nos interessa frisar que não ter ‘família’, não participar da ‘família’ é, portanto, uma forma de desvalorização social extremamente forte. Para além de depreciar o indivíduo, não ser em ‘família’ retira-o de uma das mais recorrentes formas de referir-se ao homem, de reconhecê-lo como corpo social. Assim, ser excluído da ‘família’ pode ser considerado um modo de desumanizar o homem. E, em se tratando dos índios, que já foram desclassificados como “sem alma”, hoje serem significados como sem família não pode ser considerado mero detalhe. Tudo isso, lembramos, diz respeito ao imaginário da família brasileira que foi sendo edificado a partir do modo de estrutura familiar europeu, considerado o modelo ideal de vida a ser seguido como padrão. Sem esquecer as diversas mudanças por que esse padrão familiar no Brasil tem passado, na nossa formação social ainda é evidenciado o papel nevrálgico da família quanto à proteção, afetividade e educação dos 37 Exemplo tomado a partir de uma comunicação apresentada por Luiz Carlos Martins, no II SEAD, em Porto Alegre, em 2005. 133 que vão nascendo, os novos membros. A família, ao longo dos tempos, ostenta ou rejeita funções de proteção e socialização dos seus membros, num batimento com o que é construído como necessidade social em dada época. Destaca-se que à família, como agregação social, tem sido creditada uma poderosa parcela da formação dos indivíduos, em parceria com a escola. Na engrenagem do Estado, sustentado pelo jurídico, a família é instância publicamente reconhecida na legislação nacional, sobre ela pesam deveres com a geração futura, deveres que, em não sendo cumpridos, se está sujeito a penalidades. A família, apesar de suas modificações, não deixou de ser “aparelho ideológico de estado” (ALTHUSSER, 1970). De todo o arquivo construído para este trabalho, e quando não se tratava da disputa pela terra entre índios e brasileiros, localizamos a seguinte manchete: SD103: Família de índio assassinado diz que 'não foi feita justiça'. (G1, 20/04/2007) Uma só nota: para além de ser exceção, sobressai que só índio morto – assassinado há uma década – tem família. Que efeitos de sentido pode-se depreender se consideramos essa manchete em relação ao conjunto das que foram discutidas anteriormente? Certamente, esse é um enunciado exemplar, que reitera a impossibilidade de os índios integrarem a construção discursiva da referência de ‘família’. O núcleo de organização social mínimo dos índios era, e parece ainda ser, qualificado como anormal, não constituindo, de fato, uma família. O diferente torna-se da ordem do intraduzível, um inominável. A falta daquilo que tanto representa em nossa sociedade, que desempenha tamanho papel, movimenta e faz recair sentidos negativizados para os índios. Talvez para os índios um dos mais fortes efeitos de sentido em relação à ‘família’ situe-se nesse espaço negativizado. Não é que não exista: apesar de não ser nomeado, existe intensamente, talvez na proporção em que são repetidamente colocados fora da ‘família’. Existe densamente desvalorizado, desclassificado. Com isso, uma equação se mantém no que tange à representação do lugar reservado para o índio em nossa sociedade atual: Índio na família brasileira, só se for pela mistura. Ou seja, o velho espaço de significação. 134 O DESENVOLVIMENTO Perdão se quando quero contar minha vida é terra o que conto. Esta é a terra: Cresce em teu sangue e cresce. Se se apaga em teu sangue te apagas. Pablo Neruda Ao empreendermos as primeiras leituras das diferentes textualidades que constituem nosso arquivo, a temática do desenvolvimento foi-se mostrando fortemente relacionada com a problemática da disputa entre índios e brasileiros pelas terras. Se falar em desenvolvimento parece imprescindível, diante de um processo envolvendo índios e brasileiros, essa relação suscita inquietações, exige ser questionada. A despeito de que os discursos são regrados, não se podendo dizer qualquer coisa de qualquer lugar (FOUCAULT, 1996), e que se faz necessário o trabalho social e histórico para a construção do lugar e seus dizeres (ORLANDI, 2002), os discursos sobre o desenvolvimento parecem encontrar firme lastro para circular e se estabelecer. A isso pode-se acrescentar que parece não se tratar só de um aceitável, mas de um necessário a ser re-dito, em consonância com as exigências atuais da sociedade brasileira, e, por que não, ocidental. Da perspectiva da Análise do Discurso, bem sabemos que os sentidos são múltiplos, heterogêneos e funcionam pela dispersão, e sempre ‘em relação a’. Nesse sentido, para tentarmos dar visibilidade à multiplicidade dos sentidos em funcionamento nos reportamos a outras materialidades, fora das manchetes do discurso jornalístico virtual. Observaremos, nesta parte do trabalho, como a temática do desenvolvimento comparece tanto no discurso jornalístico virtual quanto nos discursos político e indígena. Do discurso jornalístico, tomaremos manchetes publicadas entre 2005 e 2010. E, dos discursos político e indígena, nos reportaremos a diversas cartas 135 abertas. Analisaremos três cartas publicadas em nome do grupo político roraimense ou desse grupo e alguns aliados. São elas: a Carta de Roraima [I], de 2007, e duas cartas de 2008, outra Carta de Roraima [II] e a Carta de Pacaraima. Quanto aos textos produzidos pelos índios, analisaremos dez cartas de associações e organizações de povos indígenas de Roraima. Duas cartas são de assembleias do povo Yanomami, ocorridas em 2000 e em 2003; e oito cartas, de 2003 a 2010, são documentos publicados ao final de encontros anuais de diversos povos indígenas, a Assembleia dos Povos Indígenas do Estado de Roraima. Iniciemos pelo discurso jornalístico online. 1. Desenvolvimento: a naturalidade do discurso jornalístico Para discutirmos como o jornalístico virtual, ao anunciar a disputa pela terra entre índios e brasileiros, introduz e fixa sentidos para a temática do desenvolvimento, observaremos a direção de sentidos apontada na relação entre desenvolvimento e direitos indígenas e as implicações daí decorrentes para a posse indígena da terra. Em outros termos, observaremos que sentidos vão sendo pontilhados em uma repetição mais imediata e, sobretudo, o que se pode vislumbrar na não-linearidade, considerando que sempre há retomada de sentidos em dado momento, e um relançar desses sentidos para a posteridade. Isso, nos termos de Courtine (2009 [1981]), diz respeito à forma como se interpenetram os domínios de atualidade, de memória e de antecipação na constituição dos enunciados e seus sentidos. Que sentidos são mobilizados – repetidos, des-construídos – em torno de ‘desenvolvimento’ no jornalismo online ao anunciar a disputa pela terra? De que forma tais sentidos circulam relacionando desenvolvimento, índios, brasileiros e a posse da terra? Que sentidos são esquecidos nesse noticiar? Elencamos, abaixo, as manchetes publicadas entre 2005 a 2010 em que se enfatiza a temática do desenvolvimento. SD104: PT quer buscar meios para ajudar desenvolvimento de RR e de índios. (Folha BV, 19/04/2005) SD105: Raposa Serra do Sol e o desenvolvimento de Roraima. (Folha BV, 19/04/2006) SD106: Ayres Britto afirma que índio não atrapalha o desenvolvimento. (Folha BV, 27/08/2008) 136 SD107: Conferência vai debater criação [de municípios] e desenvolvimento de Roraima. (Folha BV, 28-08-2008) SD108: Lula diz que Roraima deve crescer sem desrespeitar direito dos índios. (G1, 19/04/2010) SD109: Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios. (Folha Online, 19/04/2010) SD110: Lula defende crescimento de Roraima sem tirar direito dos índios. (Folha BV, 24/04/2010) Como se lê, todos os sítios noticiam, sob a forma de assertiva, a defesa do crescimento ou uma preocupação com o tema. Nesse ponto comum, algo merece atenção: o ‘crescimento/desenvolvimento’ sem ser explicado ou questionado, é dado como um termo auto-explicativo que, por si só, remeteria diretamente à mesma significação para todos os leitores/internautas. Pensando os sentidos fora dessa concepção de língua a serviço de uma comunicação biunívoca e automática, vejamos o que pode aí estar sendo movimentado em termos de sentidos historicamente constituídos. Inicialmente, convém destacar não há manchete que suponha uma unidade quanto ao desenvolvimento de Roraima englobando os índios. Ao invés disso, impõe-se uma separação. De um lado, está “desenvolvimento de RR”, “Roraima deve crescer”, “o desenvolvimento”, “criação [de municípios] e desenvolvimento de Roraima”, “crescimento de Roraima” e, de outro, está “[desenvolvimento] de índios”, “Raposa Serra do Sol”, “direito dos índios”, “índio”. Posta essa disjunção, vale atentar para as formas que unem as proposições, ou seja, como é materializada textualmente a relação entre desenvolvimento e direitos indígenas. Para isso, iniciemos com as ponderações de Guimarães (1987, 2005). Guimarães (1987) que, ao discutir a argumentação, considera as noções de polifonia e orientação argumentativa, pelas quais se apresentam pontos de vista diferentes no enunciado. Esse mecanismo realiza-se através das conjunções, sobretudo o ‘mas’, que introduz uma mudança na direção argumentativa do encadeamento das ideias (encadeamentos argumentativos). Conforme o autor, orientar argumentativamente em relação a um enunciado X “é apresentar seu conteúdo A como devendo conduzir o interlocutor a concluir C. Ou seja, orientar argumentativamente é dar A como uma razão para se crer em C. Neste sentido, orientar argumentativamente é apresentar A como sendo o que se 137 considera como devendo fazer o interlocutor concluir C. O que leva à conclusão é o próprio A” (GUIMARÃES, 1987, p. 25). Essa orientação argumentativa é dada pela relação da primeira parte do enunciado face ao que vem depois, tornando possível verificar a própria orientação da argumentação pela conclusão. No que nos interessa aqui, destacamos que nos encadeamentos articulados em torno do mas, verifica-se que é o segundo segmento do encadeamento que permite identificar a orientação argumentativa do primeiro e vice-versa. Assim, a orientação argumentativa em “Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios” dá-se em torno de ‘sem tirar direito dos índios’, ou seja, é favorável à manutenção dos direitos dos índios. Diante disso, interessa-nos observar que, se em outras situações o sítio da Folha de Boa Vista repete – na íntegra – determinadas manchetes, porém, nesse caso a manchete se repete com a retirada do ‘mas’: SD109: Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios. (Folha Online, 19/04/2010) SD110: Lula defende crescimento de Roraima [?] sem tirar direito dos índios. (Folha BV, 24/04/2010) É relevante notar que, apesar de manter o teor de condição expresso pela construção ‘sem + infinitivo’ (“sem tirar”), a relevância da orientação argumentativa, conforme Guimarães, perde-se na transposição da manchete de um sítio jornalístico para o outro. Pois, é a conjunção ‘mas’ que desempenha o papel de orientação para o que se pretende que seja a conclusão em relação às duas partes que estão relacionadas na proposição. Diante disso pode-se dizer que a condição explícita – a manutenção de “direito dos índios” – para a defesa do desenvolvimento de Roraima, em vez de enfatizada, é amenizada pela supressão do ‘mas’. Ou seja, se não são sentidos diferentes que são movimentados, são sentidos alterados pela presença ou ausência da conjunção ‘mas’. É merecedor de ênfase que a alteração seja precisamente extrair a direção de sentidos para uma conclusão específica em favor da preservação dos direitos dos índios à posse da terra, ponderando o modo como a disputa vem tendo seus sentidos direcionados nas manchetes. Sobretudo, há que se lembrar que é no sítio do jornal de 138 Roraima que se verifica a supressão da conjunção ‘mas’ e, portanto, da orientação argumentativa em prol do “direito dos índios”. Como compreender teoricamente a “escolha” entre o que se pode repetir e o que se deve descartar? O que se processa enquanto sentidos nesse recortar – palavras-esentidos de uma manchete de um sítio de uma região do país – e estampar parcialmente como uma nova manchete, lá, em Roraima, onde a disputa se travava? O que está implicado naquilo que se re-utiliza face ao que é rejeitado (ou aquilo que pode ser escolhido e deve ser descartado)? Em reflexão posterior, Guimarães (2005 [1995]) torna sobre sua própria reflexão, reinterpretando-a, ao pôr em tela o interdiscurso (PÊCHEUX, 1997 [1975]) e as posições-sujeito, e também por fazer referência à questão do silêncio (ORLANDI, 1990). Conforme o autor: “A argumentação exige, pois, para ser interpretada, a presença do interdiscurso como memória no acontecimento. O que significa dizer que a argumentação está determinada pelo interdiscurso. A posição do sujeito, a posição de onde se fala é ‘argumento’ decisivo” (GUIMARÃES, 2005, p. 81-82). O autor também reflete sobre o lugar do silêncio nesse processo, a partir de Orlandi (1990) e propõe que “a argumentação é um efeito da política do silêncio. Argumentar é, mais que estabelecer uma conclusão, silenciar outros percursos da significação textual” (id., ibid., p. 81-82). A partir dessa reflexão, pela qual o autor sedia a interpretação da argumentação no âmbito da memória, podemos falar de dispersão do sujeito, diferentes posições sujeito, de filiação a dada memória quando observamos que esses enunciados foram formulados entre 2005 e 2010. Em “Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios” podemos depreender posições sujeito diferentes em cada segmento do enunciado. Há uma posição de identificação com o desenvolvimento de Roraima e outra posição de identificação com o direito dos índios. No entanto, em virtude da filiação do sujeito a uma Formação Discursiva específica, os dizeres oriundos de outras regiões de sentidos são re-organizados a partir do que pode e deve ser dito. Ou seja, o sujeito, ao ser afetado por diferentes relações de sentidos, “dá” sentidos e constrói uma interpretação segundo a Formação Discursiva com a qual se identifica. Os diferentes sentidos não convivem, pois, em igualdade: são domesticados conforme a FD na qual o sujeito e seu dizer se constituem. Como frisa Orlandi (1983, 1998), para situar o estatuto e o lugar da argumentação na Análise de Discurso, “implica em falar da argumentação, pensando-se 139 os sujeitos, o político, a história e a ideologia. Enfim, o discurso” (ORLANDI, 1998, p. 73). Assim, a argumentação, da perspectiva discursiva, nos possibilita – não a saída da língua –, mas “ver” na língua não somente uma estrutura desconectada dos sujeitos que a falam/significam como se o fizessem desenredados de suas construções históricas. A argumentação e a direção nela apontada dão-se em virtude das condições de produção do discurso em que trabalham as formações imaginárias que presidem o discurso (e constitutivas do discurso), da relação com o interdiscurso pelo viés da identificação do sujeito a uma FD específica, sob múltiplas e distintas relações com outras Formações Discursivas (ORLANDI, 1983 [1981]). Em outros termos, a argumentação, da perspectiva discursiva, é vista “a partir do processo histórico-discursivo em que as posições dos sujeitos são constituídas” (ORLANDI, 1998, p. 78), posições que são historicamente determinadas. O argumentar é, pois, tomado como elemento do/no funcionamento discursivo: “argumentar é prever, tomado pelo jogo de imagens” (id., ibid., p. 77). No entanto não se trata de condução estratégica de vontade individual, fora e à revelia do jogo de forças da formação social em que emerge o discurso. O que se sustenta como argumento é já-lá determinado, restando apagado para o sujeito enquanto mecanismo que o “fisga” e, em vez disso, o sujeito apresenta-se sendo a origem do argumento. Assim sendo, a argumentação não se situa no nível da formulação, mas integra um processo que diz respeito à constituição dos sentidos. Vejamos: “Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios” (SD109) e “Lula defende crescimento de Roraima [?] sem tirar direito dos índios” (SD110). É digno de nota que a repetição, não podendo ser plena, tampouco é fortuita. Antes, podemos aventar que na repetição “manca” dessa manchete deixa-se ver um “gesto” (PÊCHEUX, 1993; ORLANDI, 1993, dentre outros). E isso é, na materialidade que restou fora – a conjunção ‘mas’ –, uma pista de filiação de sentidos que, nesse caso, é filiação a uma memória que assevera a propriedade da terra aos brasileiros, na qual se deve esquecer os direitos indígenas à terra. Esse “gesto” de esquecimento se faz notar não só por esse enunciado, isoladamente, mas em relação a outros aspectos já analisados, como, por exemplo, a quantidade de manchetes produzidas e a direção de sentidos apontada, no sítio da Folha de Boa Vista, sobre a homologação da Raposa Serra do Sol, em 19 de abril de 2005; ou as diversas manchetes que esse sítio dedicou à Marcha a Roraima. Com isso, vejamos os outros vocábulos que estabelecem a relação entre ‘desenvolvimento de Roraima’ e ‘direito dos índios’. 140 Retomemos as manchetes: SD104: PT quer buscar meios para ajudar desenvolvimento de RR e de índios. (Folha BV, 19/04/2005) SD105: Raposa Serra do Sol e o desenvolvimento de Roraima. (Folha BV, 19/04/2006) SD106: Ayres Britto afirma que índio não atrapalha o desenvolvimento. (Folha BV, 27/08/2008) SD107: Conferência38 debate criação [de municípios] e desenvolvimento de Roraima nas visões política e sociológica. (Folha BV, 27-08-2008) SD108: Lula diz que Roraima deve crescer sem desrespeitar direito dos índios. (G1, 19/04/2010) SD109: Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios. (Folha Online, 19/04/2010) SD110: Lula defende crescimento de Roraima sem tirar direito dos índios. (Folha BV, 24/04/2010) Pelo emprego de marcas linguísticas indicadoras de negação e restrição ou condição – ‘não’ (SD106), ‘sem + infinitivo’ (SD108, 109 e 110) – expõe-se o que é afirmado em outro lugar. Por esse mecanismo da língua, é na tentativa mesma de desmontar o dito alhures que se anuncia esse outro; no que se trabalha controlando os sentidos desvenda-se a diferença. Assim, indica-se outra posição discursiva [em relação ao desenvolvimento], segundo a qual: o desenvolvimento retira direito dos índios à terra; os direitos indígenas à terra atrapalham o desenvolvimento de Roraima. Portanto, não é óbvio nem obrigatório que para se falar em ‘desenvolvimento de Roraima’ seria necessário elencar essas observações, mas isso que aí retorna como negação e condição são dizeres que circulam em outra FD que, por ser dominante, exige ser retomada. A isso se soma que, pela marca da adição em “desenvolvimento de RR e de índios” (SD104) e em “Raposa Serra do Sol e o desenvolvimento de Roraima” (SD105) dá-se, a saber, uma disjunção: o ‘desenvolvimento de Roraima’ é um e o ‘desenvolvimento de índios’ é outro. Na tentativa mesma de junção é que se configura no discurso a divisão e a diferença: há desenvolvimento de Roraima e há os índios; há o 38 Trata-se da primeira edição de um evento realizado em uma universidade, da rede privada de ensino, em Boa Vista - RR. A conferência propôs-se a “debater a criação e estabilização dos 15 municípios de Roraima, questão fundiária, desenvolvimento econômico, político e social, além da composição migratória.” Os conferencistas foram um sociólogo, o secretário municipal de Planejamento (economista) e um deputado estadual. Disponível em: http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=45884. Acesso: ago. 2008. 141 desenvolvimento e há os direitos indígenas. Pela proposta de conciliação, deixa-se ver os matizes de oposição vigentes nas duas posições sediadas em formações discursivas distintas. A conjunção ‘e’ explicita elementos distintos, no entanto isso se daria sob o efeito de junção, de acréscimo. Diferentemente, em “Conferência vai debater criação [de municípios] e desenvolvimento de Roraima” (SD107), a conjunção ‘e’ estabelece junção entre as partes que compõem o enunciado, posto que a criação de municípios assegura a posse da terra aos não índios, o que é dado como mecanismo possibilitador do desenvolvimento, conforme já discutimos. Em suma, tanto se exige para o ‘desenvolvimento’ um sentido uno e transparente, quanto há uma disjunção posta entre ‘desenvolvimento de Roraima’ e ‘índios’. No entanto há outra disjunção que atravessa os diversos tópicos analisados neste trabalho: a disjunção entre índios e brasileiros. Diante disso, há que se destacar que o ‘desenvolvimento’ – que não requer aclarações, pois se pretende apreensível por todos – faz funcionar uma memória do dizer que diz respeito aos brasileiros, não aos índios. Ou seja, o pré-construído mobilizado não remete aos índios, mas aos brasileiros. Destarte, sobressai como efeito O desenvolvimento que os índios, mesmo em separado dos brasileiros, devem alcançar. Se não se explicita, o desenvolvimento a que os índios devem aceder é já circunscrito ao que se supõe que todos sabem sobre o desenvolvimento. Por outro lado, a conjunção ‘e’ está sendo considerada no processo discursivo de que faz parte com os outros itens lexicais que estabelecem a relação entre ‘desenvolvimento de Roraima’ e ‘direito dos índios’, a saber: ‘mas’ (e sua supressão), ‘sem+infinitivo’, ‘e’ (SD104, 105), ‘não’. Nesse processo, a disjunção é estabelecida seja qual for o elo linguístico de conexão utilizado entre as partes dos enunciados. Pode-se, assim, distinguir uma posição discursiva que reitera a necessidade do desenvolvimento de Roraima considerando que, para isso, os direitos indígenas são um impedimento; e outra, em que se mantém resguardada a necessidade do desenvolvimento do estado, porém, apresenta os direitos indígenas à terra como ponto inegociável a ser considerado, ora com mais, ora com menos ênfase. Portanto são duas posições sujeito distintas, em relação de oposição, mas que no conjunto se apresentam sob o efeito de conciliação. Com isso, explica-se a supressão do ‘mas’, elemento que orienta uma conclusão em favor do direito dos índios. Por esse mecanismo aponta-se para um dizer cujo entendimento encontra-se já consolidado no interdiscurso que, por não mais poder ser ignorado, exige ser retomado. 142 Ou seja, faz-se visível uma incompatibilidade anterior e ainda vigente, segundo a qual direitos indígenas à terra atrapalha o desenvolvimento de Roraima. Em termos gerais, sobressai que ‘desenvolvimento’, não sendo merecedor de elucidações, faz funcionar na linearidade da formulação um rememorar do dizer, tomado do conjunto dos dizeres possíveis (o interdiscurso) sobre os índios e a posse da terra, já fazendo sentidos. Processo que, como afirma Courtine (2009 [1981]), garante “a referência dos nomes”, que autoriza “a predicação e a co-referencialidade.” Do estabelecido dessas posições e nesses sentidos em contraposição – ou se contempla os direitos indígenas ou o desenvolvimento de Roraima – resulta que para falar em direitos indígenas à terra não pode ser senão resguardando o crescimento/desenvolvimento como se materializa nas manchetes, em 2005: “PT quer buscar meios para ajudar desenvolvimento de RR e de índios” (SD104) e em 2010: “Lula defende crescimento de Roraima sem tirar direito dos índios” (SD110, ambas do sítio Folha BV). Dessa forma, não está em questão o ‘desenvolvimento’ nem os ‘direitos indígenas à terra’ isolados, mas o processo de construção de sentidos que tenta desfazer a relação de exclusão entre esses fatores. Vale sublinhar que, pela observação de algumas formas verbais, podemos depreender um trajeto quanto ao desenvolvimento. Vejamos: SD104: PT quer buscar meios para ajudar desenvolvimento de RR e de índios. (Folha BV, 19/04/2005) SD108: Lula diz que Roraima deve crescer sem desrespeitar direito dos índios. (G1, 19/04/2010) SD109: Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios. (Folha Online, 19/04/2010) SD110: Lula defende crescimento de Roraima sem tirar direito dos índios. (Folha BV, 24/04/2010) Esse trajeto aponta um deslizamento relacionado à “atitude” imputada ao Governo Federal em relação ao desenvolvimento de Roraima, de forma que se desloca de uma tênue pretensão – “quer buscar” – para uma intervenção acentuada – “deve crescer”, “defende” [crescimento]. Imputada, sobretudo, pela ausência de discurso direto. É válido notar que, apesar de os três sítios jornalísticos manterem uma estrutura frasal semelhante, em nenhum deles se reproduz o enunciado do Presidente. 143 Antes de tudo, vale salientar que o que se registra no movimento do “quer buscar” para “deve crescer”/ “defende o crescimento”, esse trajeto diz respeito à disputa – em curso – entre índios e brasileiros pelas terras da Raposa Serra do Sol. O que se cunha na língua sob essa mudança lexical diz de uma disputa que permanecia vigorosa, após uma etapa jurídica de relevância e de caráter finalizador do processo de demarcação de terras indígenas: a homologação assinada pelo Presidente da República. É isso que está em questão, de 2005 a 2010, e que possibilita o movimento não para qualquer direção, mas no sentido inequívoco que sai da possibilidade (“quer buscar”) para a necessidade expressa pelo “deve crescer”/“defende crescimento”. Pode-se dizer que esse processo erige-se sob a dominância da modalidade deôntica, estabelecendo como obrigatório e da ordem do imprescindível o desenvolvimento. Assim, no que as terras são ratificadas em nome dos índios, pelo Supremo Tribunal Federal, em 2009, só o são na medida em que se garante cada vez mais fortemente o desenvolvimento econômico de Roraima. Com isso, focalizemos a posição de sujeito gramatical nessas manchetes: “PT quer buscar meios para ajudar desenvolvimento de RR e de índios” (SD104, de 2005); “Lula diz que Roraima deve crescer sem desrespeitar direito dos índios” (SD108, de 2010); “Lula defende crescimento de Roraima mas sem tirar direito dos índios” (SD109, de 2010); “Lula defende crescimento de Roraima sem tirar direito dos índios” (SD110, de 2010). Há que se lembrar que, em 2005, datava de pouco tempo a ascensão inaugural de um partido político de esquerda, o Partido dos Trabalhadores, ao posto político mais elevado do Estado brasileiro, a Presidência da República. E, em 2010, sendo o último ano do segundo mandato de Lula, certamente algo já significa como esquerda no poder no Brasil, mas não adentraremos nessa questão. Disso, interessa-nos destacar que, ao trazer a sigla “PT”, são mobilizados sobremaneira sentidos construídos para a esquerda política no Brasil, sentidos cujo curso instaurou-se em torno da fundação do Partido Comunista Brasileiro, em 1922. É em relação a esses sentidos que o Partido dos Trabalhadores vai mais tarde ser significado enquanto partido político de esquerda. Nesse sentido, retomemos o que conclui Mariani (1998) em sua pesquisa sobre o Partido Comunista Brasileiro. Segundo a autora, no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, construiu-se uma memória sobre o PCB dando-lhe o lugar de inimigo. Com o pluripartidarismo, já em meados da década de oitenta, essa forma de designar e qualificar o PCB passou a recobrir todos os partidos políticos de esquerda. Dentre estes, foi-se destacando o 144 Partido dos Trabalhadores, de forma que esse deslizar culmina com “a expressão Inimigos da democracia (...) exclusivamente vinculada ao PT” (MARIANI, 1998, p. 218. Grifos nossos.). Assim, o “PT” que assume a Presidência do Brasil em 2005 não é sem vestígios dos sentidos de “inimigos da democracia”. São, pois, em relação a tais sentidos que se oferece a ler a manchete “PT quer buscar meios para ajudar desenvolvimento de RR e de índios” (SD104). Se, posteriormente, não mais o Partido, mas o Presidente passa a ser referido em seu lugar, certamente isso implica em efeitos de sentido diversos, dentre os quais o que pode apontar para um outro estatuto do partido político de esquerda no Brasil que, em sendo esvaziado, faz surgir reforçado o espaço do individual, nesse caso, circunscrito a um nome: Lula. Em suma, as manchetes do jornalismo online permitem vislumbrar a heterogeneidade dos sentidos em torno do ‘desenvolvimento’ ao anunciar a disputa pelas terras entre índios e brasileiros. Depreendemos o funcionamento de duas diferentes posições sujeito, constituídas em duas Formações Discursivas que estão relacionadas entre si por oposição. A FD1 em que se pode dizer que os direitos indígenas à terra atrapalham o desenvolvimento de Roraima, e a FD2 em que se nega essa afirmação. Assim, o que se apresenta como argumentação resulta da identificação à FD1 ou à FD2. Naquilo que é tomado do nível da constituição (o interdiscurso) para a formulação, deixa-se entrever a memória a que se filiam os sentidos predominantes nas manchetes, memória que remete não aos direitos dos índios à terra, mas à propriedade da terra pelos brasileiros. É tendo essa memória como esteio que há acolhimento para se poder “naturalmente” dizer que os direitos indígenas à terra atrapalham o desenvolvimento [de Roraima]. E em relação ao que se constrói a proposta de conciliação entre direitos dos índios e desenvolvimento. Com isso, passemos às cartas. 2. Cartas da terra brasilis Os textos que analisaremos a seguir foram divulgados sob o gênero ‘carta’. Não são cartas pessoais: trata-se de cartas divulgadas sempre em nome de uma coletividade, de um grupo. São cartas que, fora das esferas do privado, em vez de serem portadoras de secretas confissões ou confidências e circunscritas ao âmbito pessoal, por exemplo, 145 voltam-se para o público e cujos fins primeiros são solicitação, reivindicação, de divulgação, enfim, uma carta-documento de cunho nitidamente político. Todas foram divulgadas online, portanto, outros são o tempo e o espaço que gerem tais cartas e, assim sendo, os interlocutores podem ser inúmeros e estarem em diferentes lugares. Do discurso político, recortamos três cartas. A primeira, a Carta de Roraima foi elaborada e posta em circulação39 ao término do I Encontro dos Legislativos Roraimenses, em 2007, cujo tema foi Defender Roraima, tarefa de todos nós. Participaram do evento e assinaram a Carta, numa demonstração de forte aliança, os representantes políticos dos legislativos municipal, estadual e federal. Enfatizamos que não é mera retórica a união política em se tratando da disputa pela terra, podendo-se dizer que para este assunto institui-se uma “bancada geral da terra” bastante coesa: não há dissonâncias entre todos os eleitos para representar o estado de Roraima, independente das diversas filiações político-partidárias40 e ao longo de décadas.41 A Carta de Roraima foi amplamente distribuída e lida, na íntegra, no Senado, por um dos políticos que lá representam Roraima.42 A outra, também denominada Carta de Roraima43, foi elaborada ao final do I Seminário Nacional de Produtores Rurais e Desenvolvimento Sustentável em Áreas Fronteiriças, um dos vários eventos organizados em 2008, no auge das manifestações de apoio à permanência dos fazendeiros que exploravam, pela monocultura de arroz, a terra indígena Raposa Serra do Sol.44 O seminário foi promovido pelo governo do 39 Discutiremos mais adiante a não coincidência da repetição deste nomear Carta de Roraima tendo em vista a construção discursiva da referência para ‘Roraima’. 40 A título de ilustração, à época do evento, cada um dos três senadores estava filiado a um partido político diferente; quanto aos oito deputados federais, estavam distribuídos em sete partidos políticos, naquele momento. 41 Estamos considerando as conclusões de nossa pesquisa de mestrado, em que analisamos pronunciamentos de deputados estaduais em duas legislaturas (1999 e 2005) sobre demarcação/homologação da Raposa Serra do Sol. Disponível em: http://www.bdtd.ndc.uff.br/tde_arquivos/23/TDE-2007-03-30T094658Z-720/Publico/DissertMariaSocorroLeal.pdf 42 Pronunciamento do senador Mozarildo Cavalcanti (PTB – Partido Trabalhista Brasileiro / RR), em 21/08/2007, disponível em http://www.senado.gov.br/Pronunciamento/detTexto.asp?t=369700. Acesso em 29 de ago. de 2007. 43 Disponível em: http://www.canaldoprodutor.com.br/node/5717. Acesso: ago. 2010. 44 Vale mencionar que em maio de 2008, três meses antes dessa discussão sobre ‘desenvolvimento sustentável’, Paulo César Quartiero, considerado líder dos arrozeiros nessa área fronteiriça, foi multado pelo IBAMA em R$ 30,6 milhões por irregularidades ambientais nas terras que ocupava na Raposa Serra do Sol. As infrações apontadas no laudo técnico foram descritas como: “destruição de área de preservação permanente, impedir regeneração de área de cerrado amazônico e explorar reserva legal sem autorização”, além de “exercer atividades agropecuárias em desacordo com a licença de operação obtida pelo órgão ambiental competente”. (Disponível em: http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/05/09/ibama_multa_lider_dos_arrozeiros_de_roraima_em_30_6_ milhoes-427299264.asp. Último acesso: 25/11/2010. 146 estado de Roraima juntamente com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Roraima (FAERR) para deliberar sobre “uma posição quanto à propriedade da terra na Amazônia brasileira”. Ao término do evento a Carta foi divulgada sob as assinaturas do governador do Estado de Roraima e do Presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Também nos reportaremos à Carta de Pacaraima,45 um texto elaborado no encerramento de uma “carreata” que saiu de Mato Grosso até a cidade de Pacaraima, em Roraima. Agricultores de diversos estados manifestaram e conclamaram apoio aos produtores de arroz instalados na Raposa Serra do Sol, evento denominado Marcha a Roraima, conforme analisamos anteriormente. Em virtude de tanto os políticos quanto os índios denominarem adotarem do seus textos com ‘carta’, urge refletirmos, brevemente, sobre o que tem sido referido como um gênero. Interessa-nos, nesse trajeto, já indagar: o que se determina, o que se delimita sob o gênero ‘carta’? Quais implicações podem ser aventadas devido a esse enquadramento do texto como missiva ao se pôr em tela a disputa pela terra? Sem a pretensão de nos determos sobre a natureza específica do gênero carta, vale notar que a carta instaura um processo de reciprocidade em que tanto aquele que escreve quanto o destinatário integram um processo em que tornam o olhar para si e para o outro, vêem a si e dão-se a ver para o outro no movimento de escrita/leitura de uma missiva (FOUCAULT, 2006). Entendemos que o autor ressalta que não se lança mão de palavras quaisquer, mas, em conformidade com o modo pelo qual aquele que ocupa a posição de missivista percebe a si na trama social de que faz parte, e em que ponto dessa trama insere aquele a quem ele (o missivista) se dirige. Em estudo sobre cartas pessoais enviadas à organização Somos, Grupo de Afirmação Homossexual, Souza (1997) descreve-as como “relatos de experiências da gestão de um segredo em um certo setor individual e coletivo da vida” (SOUZA, 1997, p. 49). Segundo propõe o autor, recorre-se à escrita epistolar como uma forma de confidência, em que se aloja o jogo tensionado entre o privado e público, em “um lugar enunciativo para expor a si como sujeito da prática homossexual” (id., ibid., p. 77). Esse processo funciona sob a instauração do que ele denomina de “pacto confidencial”, processo “em que se explicitam a constituição e a forma do remetente em relação a um destinatário” (id., ibid., p. 81). Isso diz respeito a haver “relação de similaridade e 45 Disponível em: http://marchaaroraima.blogspot.com/. Acesso: abr. 2010. 147 intercambiabilidade de posições entre enunciadores” (id., ibid., p. 81). Ou seja, o remetente e o destinatário encontrando-se em relação equidistante e similar, podem trocar, pois, suas posições de fala e escuta. Diante disso, vejamos alguns aspectos referentes às cartas que analisamos. No caso das cartas em questão, como já observamos na introdução desta parte, não se trata de cartas pessoais. Nelas, portanto, não há possibilidade de instauração do ‘pacto de confidência’ conforme proposto por Souza (1997). Tampouco, nas cartas abertas, há um indivíduo que expõe sua dor e suas lamentações, como, por exemplo, nas cartas endereçadas a psicanalistas que “atendem” em colunas de jornais. Estamos nos referindo à pesquisa realizada por Mariani (2006), em que discutiu a questão da subjetividade exposta ao público a partir da análise comparativa de colunas de consultório psicanalítico publicadas na imprensa carioca, aí tomando as cartas enviadas pelos leitores e as respostas dadas pelos especialistas. Em tais cartas, conforme Mariani (2006) questionou, se daria “a irrupção de uma subjetividade, de uma pessoalidade”, a partir do que se daria a escuta psicanalítica de “um problema pessoal, um sofrimento particular e singularizado”? (MARIANI, 2006, p. 35). O que se expõe, então, nas cartas abertas, em sua vontade de largo alcance? Sobre o que se voltam, estipulando não só aquilo que não pode mais calar, mas aquilo que deve ser “gritado” e ampliado? Se há confissão e queixa, certamente será de natureza outra, pois o que se tem cunhado como ‘carta aberta’ já é formulação sob o objetivo de fazer-se saber ao mais amplo público questões de insatisfação coletiva. Em vez de confidências e confissões (cf. SOUZA, 2007), ou de queixas e sofrimentos pessoais (cf. MARIANI, 2006), talvez se deva ponderar que nas cartas abertas há denúncias e/ou reivindicações. Ou seja, em lugar da possibilidade de exigir a guarda de segredos, objetiva-se fazer alarde, fazer conhecer o que se considera não poder mais ficar oculto, ou de conhecimento restrito a alguns. No caso desta nossa pesquisa, as cartas formuladas no âmbito político e na esfera indígena não se pressupondo individuais, talvez se possa dizer que exponham desconfortos sociais, por assim dizer, que afligem dada coletividade que, enquanto corpo social, pode apresentar-se como ‘um’, homogeneizado: o grupo de políticos, ou o grupo de políticos juntamente com fazendeiros produtores de arroz, sejam só de Roraima, sejam de Roraima e de outras regiões; e, no que se refere aos textos do âmbito 148 indígena, a coletividade diz respeito a um povo ou a diversos povos reunidos sob a forma de ‘associação indígena’. No entanto é carta, posto que “um texto não se define como epistolar a menos que nele haja a marca do remetente e do destinatário”, como afirma Souza (1997, p. 81). Coletividade que seja, mas pretende-se unidade homogênea remetente e se separa em relação aos outros, os diferentes de si. Quanto ao destinatário, no que as cartas abertas almejam alcançar o grande público, isso não se processa sem que haja destinatários específicos. Com isso, atingem-se os elementos básicos que caracterizam uma carta: aponta-se quem remete e a quem se remete. Diante disso, cumpre sublinharmos o deslocamento efetuado pela visada da Análise do Discurso sobre alguns aspectos que serão discutidos nas missivas. Trataremos do “pólo de interlocução discursiva”, expressão cunhada por Indursky (1997) ao discutir a enunciação da perspectiva discursiva, em que dirá: a interlocução discursiva não implica a presença do interlocutor, nem sua representação clara e objetiva. Nem por isso, no entanto, esse pólo de interlocução desaparece ou deixa de ser determinado para o sujeito do discurso. (INDURSKY, 1997, p. 132) Trata-se, pois, da instância da concepção teórica de sujeito, não do alcance da observação empírica e do individualmente localizável; trata-se da construção teórica do objeto discurso, não dos limites dados pelo texto das cartas. Com isso estamos frisando que tanto nas cartas escritas e divulgadas em nome de políticos quanto nas cartas produzidas e divulgadas em nome dos índios não recorreremos à identificação de indivíduos físicos como remetentes e/ou como destinatários, no entanto, não as tratamos desvinculadas das relações com o social e o histórico para depreendermos as direções de sentidos nelas apontadas. Da visada discursiva consideramos que o sujeito não ocupa uma só, mas diversas posições dispersas no texto, orquestradas pela filiação do sujeito a dada Formação Discursiva. Como nos dirá Orlandi (2000), “no corpo a corpo com a linguagem o sujeito (se) diz. E o faz ficando apenas nas evidências produzidas pela ideologia” (ORLANDI, 2000, p. 54), esquecendo que a linguagem, sujeito e sentidos se constituem em processos em que a língua, a história e a ideologia afluem conjuntamente. Tal processo constitui-se em relação às formações imaginárias, ao jogo de imagens que presidem todo dizer, tal como propõe Pêcheux (1993). Desse modo, nas cartas analisadas neste 149 trabalho não está em questão a identificação dos indivíduos empíricos que as redigiram, buscando investigar, por exemplo, sob que números são identificados para o Estado, se eles são brasileiros ou índios. Em vez disso, lembramos que se torna relevante aquilo que é formulado e integra uma rede de memória que lhe possibilita circular já fazendo certo sentido em uma sociedade em dada época, e em relação ao que se atribui uma autoria. Tal autoria, no entanto, está circunscrita a uma função do sujeito, a que se imputa uma origem do dizer e pela qual se exige coerência, finitude do texto, não contradição, responsabilidade. Nos termos de Orlandi (1988): Não basta falar para ser autor. A assunção à autoria implica uma inserção do sujeito na cultura, uma posição dele no contexto histórico-social. Aprender a se representar como autor é assumir, diante das instâncias institucionais, esse papel social na sua relação com a linguagem: constituir-se e mostrar-se autor. (ORLANDI, 1988, p 28) No tocante à nossa pesquisa, sendo o pólo de interlocução discursiva traçado a partir da relação entre índios e brasileiros, o “constituir-se e mostrar-se autor” há que ser discutido face a essa disjunção apontada nas análises. Isso posto, chamaremos de ‘cartas políticas’ as cartas cuja autoria é imputada aos políticos e/ou aos políticos e aliados; e de ‘cartas indígenas’ as cartas formuladas após assembleias indígenas e que circulam sob autoria atribuída aos índios. Chamamos a atenção para o fato de que as assim denominadas cartas indígenas também são cartas políticas, conforme já sublinhamos. Com isso, voltamos nossa atenção, nas cartas políticas e indígenas, para o modo como os remetentes se representam e se despedem. Ou seja, como os índios se apresentam ao se dirigirem aos brasileiros? Que sentidos “fazem” convergir para si ao se endereçarem às autoridades brasileiras? E, quanto aos políticos, no que esse processo constitui-se diferenciado (ou não)? Como os políticos e seus aliados na luta pela propriedade da terra se divisam dos índios em suas missivas abertas a todos os brasileiros? Como essas cartas se filiam aos dizeres sobre índios e brasileiros? A partir dessas considerações e questões, nos voltaremos inicialmente sobre a textualização da abertura e do fechamento das cartas políticas. 150 2.1 De ‘brasileiros’ para ‘brasileiros’ Conforme já dito, estamos denominando ‘cartas políticas’ as cartas elaboradas por representantes políticos eleitos, com ou sem a participação de outros grupos aliados. Como, ao se manifestar publicamente acerca da problemática da posse da terra, esse grupo se apresenta? Como “escolhe” referir-se a si mesmo? Observemos os recortes: SD111: Nosso Estado, criado em 1988, pela transformação do Território Federal de Roraima, e instalado em 1990, com a posse do Governador eleito e dos Deputados Estaduais vem, desde então, buscando, pelos meios legais e políticos, solução para se desenvolver, a fim de proporcionar a harmonia, a paz social e o bem-estar de seu povo.// No entanto, a cada ano, defronta-se com obstáculos de ordem legal, administrativa e política, óbices esses originários do Governo Federal, seja por iniciativa, seja por atos.// Dessa forma, temos vivenciado situações contrárias às nossas necessidades, nos mais diferentes níveis, o que nos leva a elevar nossas vozes como um grito único em sua defesa, por entender que é responsabilidade de todos nós. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) SD112: O I Seminário Nacional de Produtores Rurais e Desenvolvimento Sustentável em Áreas Fronteiriças reuniu em Boa Vista, Roraima, neste dia 4 de agosto de 2008, o Governo do Estado, a Confederação da Agricultura Pecuária do Brasil e representações das sociedades civil e militar para uma posição quanto à propriedade da terra na Amazônia brasileira.// Este documento retrata o sentimento dos seus signatários quanto à necessidade, premente, de que o Governo brasileiro defina uma política de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, sob pena de ver ameaçados os interesses nacionais sobre esta imensa região, de importância singular para a humanidade. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) SD113: Nós, participantes da Marcha a Roraima, representando o sentimento nacional dos brasileiros e no pleno exercício da cidadania, nos reunimos em Pacaraima, vindos de várias regiões do Brasil, para defender a SOBERANIA NACIONAL.// É de conhecimento público que o atual confronto, envolvendo a demarcação em área contínua da reserva Raposa Serra do Sol, é um caso emblemático das conseqüências da ingerência externa indevida em assuntos soberanos do Brasil. (Carta de Pacaraima, 16/08/2008. Grifos nossos.) Conforme os destaques acima, o emprego da primeira pessoa do plural, marcada pelo pronome ‘nós’ e pelas terminações verbais, é a forma preponderante para fazer referência a si em duas das três cartas (SD111 e SD113). Pode-se ler: “nosso Estado”, “nossas necessidades”, “todos nós”. Ao determinar o Estado como ‘nosso’, indistinguese todos os que vivem no Estado, produz-se semanticamente o Estado de Roraima sob o pertencimento dos que nele habitam. Se a inclusão de todos pode ser uma primeira compreensão, observemos o funcionamento do ‘nós’, o que se pode depreender como construção discursiva de uma referência específica nesse dizer. 151 De acordo com o que discutimos em nossa pesquisa de mestrado (LEAL, 2006), a partir das reflexões de Indursky (1997), o ‘nós’ político, recurso amplamente utilizado no discurso político, apresenta-se como “não-pessoa discursiva” designando “conjuntos lexicalmente não-nomeados” (INDURSKY, 1997), processo que permite a instauração da ambiguidade do dizer. É necessário, pois, observarmos como, ao se pôr em tela a disputa da terra entre índios e brasileiros, como funciona o ‘nós’ nas cartas políticas. Se o ‘nós’ remete à imagem ampla em que se encontra o “eu mais um”, compete-nos observar como nessas cartas vai-se especificando um alcance para sua referência: o ‘nós’ circunscreve-se em torno dos que buscam “solução para se desenvolver”, os que se deparam com “obstáculos de ordem legal, administrativa e política (...) do Governo Federal” [por demarcar terras indígenas] e, assim, experimentam “situações contrárias” às suas “necessidades”. Desse modo, faz-se necessário bradar em “um grito único” em defesa de Roraima” e, mais que isso, “para defender a SOBERANIA NACIONAL”. Diante do que se apresenta como agrupando todos os de Roraima, há que se lembrar que há uma disputa pela terra entre índios e brasileiros, conforme vimos discutindo ao longo de nossas análises. Dada essa referência construída para ‘nós’, como restam os índios que historicamente têm lutado pela demarcação das terras Raposa Serra do Sol? Por esse questionamento, pode-se vislumbrar que naquilo que se pretende como unanimidade, depreende-se o caráter partitivo: o ‘nós’ aí é circunscrito em torno dos que concebem Roraima enquanto terra sob o domínio da propriedade dos brasileiros, fora da posse indígena. Nessa referência que se propõe totalizante – “nosso Estado”, “nossas necessidades”, “todos nós” - não se podem abrigar, pois, os índios que têm lutado para manterem-se em suas terras. No entanto os efeitos de sentido dessa homogeneidade carreada pela marca de primeira pessoa do plural, nesse caso, apontam para o fortalecimento dos sentidos da propriedade da terra. Ou seja, dá-se a ver o modo pelo qual o sujeito relaciona-se com a formação discursiva que o afeta constitutivamente. Vale notar que na SD112, em que não se emprega o ‘nós’, explicita-se quem são os remetentes, a saber: “o Governo do Estado, a Confederação da Agricultura Pecuária do Brasil e representações das sociedades civil e militar”, os quais avaliam como “ameaçados os interesses nacionais sobre esta imensa região [a Amazônia]”. Desse modo, a representação máxima do Estado – “o Governo do Estado” – apresenta-se ladeada por instâncias sociais diversas representativas dos civis e militares, para 152 expressar sua preocupação com a questão das terras na/da Amazônia. Sob essa união, para as decisões do grupo constrói-se como direção de sentidos não o isolamento de uma postura restrita, mas um “sentimento” que reflete e resguarda os que são representados pelo governo do Estado de Roraima, os que utilizam a terra para produção (a Confederação da Agricultura Pecuária do Brasil) e, além disso, “representações das sociedades civil e militar”. Delineia-se uma direção de sentidos que aponta para uma totalidade homogênea quanto aos que vivem em Roraima, ou, melhor, na Amazônia. Urge ressaltar como se vai delineando o objeto de atenção e preocupação no que tange a “uma posição quanto à propriedade da terra na Amazônia brasileira”. Põe-se em funcionamento o recurso da gradação como forma de circunscrever a magnitude da situação. Assim, uma questão que tem contornos geográficos precisamente delimitados – trata-se das terras da Amazônia – é dilatada ao ser atrelada aos “interesses nacionais” e, mais ainda, ao ser-lhe atribuída uma “importância singular para a humanidade.” Para os sentidos mobilizados por essa formulação há camadas sedimentadas no imaginário brasileiro sobre propriedade da terra na Amazônia, que são aí mobilizadas: assim dizer faz sentido porque já fazia sentido antes. E nesse fazer sentido mantém-se como esquecimento constitutivo os índios e a posse da terra. Apagados ao se elencar cada representante, ao se fazer menção ao uso da terra, ao se remeter aos interesses nacionais, à importância da Amazônia para a humanidade, enfim. Ao não se mencionar os índios e ao se erigir algo dessa magnitude é construir sentidos para os índios em oposição a tudo isso. Assim, por essa união arquitetada e os fins por que ela se dá, apontam como alvo a ser combatido a posse indígena da terra. Vimos, acima, como na abertura das cartas políticas é construída discursivamente a referência para aquele que se apresenta sob o pronome ‘nós’. E quanto ao encerramento dessas cartas, sob que forma aquilo que se apresentou como ‘nós’ sai da cena da missiva? As cartas políticas, vale sublinhar, não são cartas anônimas: ao contrário, são todas divulgadas sob a especificação daqueles que se colocam em sua autoria. Há mesmo certa relevância quanto às assinaturas. É o que se ilustra abaixo, pelo evento em que, ao ler a Carta de Roraima [I] no Senado, entre as palavras finais da carta e a especificação dos que a assinaram, o senador destacou: SD114: E seguem-se, Sr. Presidente, as assinaturas dos Senadores; (...) endosso plenamente a carta que foi assinada pelo (...) Vice-Governador; pelos oito Deputados 153 Federais; pelo Prefeito da Capital; pelo Presidente da Câmara de Boa Vista; pelos Deputados Estaduais; e por todos os Vereadores. Portanto, é uma carta que representa o pensamento de todos de Roraima. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) Quanto às outras cartas, temos que a Carta de Roraima [II] é assinada por duas representações, uma política e outra, de um grupo ligado à produção agropecuária. Às palavras finais da Carta de Pacaraima, segue-se uma longa lista de associações. E, além dessas associações, conforme se divulgou no sítio em que foi postada, a Carta de Pacaraima “foi assinada por mais de 300 pessoas”. Vejamos: SD115: JOSÉ DE ANCHIETA JÚNIOR – Governador do Estado de Roraima.//FÁBIO DE SALLES MEIRELLES – Presidente da CNA [Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil]. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008) SD116: • Associação dos Proprietários Rurais Pesquisa-Rio Preto (APRUR), Aderval Bento.//• Associação de Produtores Rurais de Rondônia (APRRO)//• Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (FAMATO) e sindicatos rurais associados.//• Federação da Agricultura e Pecuária de Rondônia (FAPERON) e sindicatos rurais associados.//• Sindicato Rural de Luiz Eduardo Magalhães, Bahia.//• Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa). (Carta de Pacaraima, 16/08/2008) Como se pode ler, as cartas políticas além de explicitarem nominalmente seus signatários, os situam institucionalmente como representação de uma coletividade. Institui-se, assim, uma autoria civil e jurídica. Interessa-nos destacar o que e como nesse processo a assinatura contribui para o funcionamento dos sentidos sobre a posse da terra. A assinatura merece, pois, algumas ressalvas. A assinatura não é equivalente (nem recobre) à mera indicação do nome próprio: ela, ao requerer lugar próprio na estrutura textual, delimitando-a assinala sua função singular. O texto assinado carrega algo do campo do legislar, como lei para si e para aquele que o lê (cf. DERRIDA, 1991). O nome, funcionando como assinatura, faculta, sobretudo, sua remissão ao jurídico, posto que é pela assinatura que se pode responsabilizar o autor. Interessa notar que, pela relação entre a assinatura e a instituição, faz-se sobressair já uma direção de sentidos, pelo vínculo a dada memória sobre a propriedade da terra. Inscreve-se no discurso a representação de um lugar (histórico-social), não apagável na injunção à interpretação da carta, que comparece cingindo-lhe sentidos, 154 excluindo outros. Ou seja, faz-se perceber o jogo instaurado pela imbricação de “quem e de onde se pode aquilo dizer” como aspecto constitutivo dos sentidos do que se diz, assegurando-lhe veracidade, concedendo-lhe seu “peso e força” em relação a outros dizeres. Os sentidos que são convocados como transparentes sobre a propriedade da terra dão-se também por aí estar em jogo a representação desses lugares em relação a outros como, por exemplo, certas organizações indígenas. Assim, a direção de sentidos apontada nas cartas políticas mantém e, simultaneamente, fortalece os sentidos da propriedade das terras para os brasileiros. Quanto aos destinatários, apesar de as cartas abertas parecerem querer dar-se ao mais amplo conhecer, tais cartas, no entanto, não tomam todo e qualquer um como destinatário igual. Os destinatários geralmente são nomeados e institucionalmente localizados. No caso das cartas políticas que põem em questão a disputa pela terra, o destinatário é, sobretudo, o “Governo Federal”, o “Governo brasileiro”, aquele que ocupa o lugar da Presidência da República. Essas cartas podem indicar, também como destinatários, diversas instituições autorizadas jurídica e socialmente a dizer/decidir sobre a questão indígena, e/ou ligadas à problemática da terra. Ou seja, faz parte do funcionamento das cartas políticas darem-se a saber a muitos, uma coletividade indeterminada, mas antes dirigem-se a alguns especificamente – posto que os leitores estão desigualmente “distribuídos” na formação social. Esse processo importa-nos enquanto modo de circulação dos textos, pois isso também é constitutivo dos sentidos, conforme discute Orlandi (2001). As cartas, mesmo abertas, não circulam fora dessa cisão social. É digno de nota que ao endereçamento específico soma-se o que justifica o caráter ‘aberto’ das cartas: a convocação a “todos os brasileiros”, “conclamamos os brasileiros”. Assim, além de dar a saber um estado de coisas, como verdadeiro, convoca-se os brasileiros para o engajamento na questão. É interessante também notar que mesmo em relação à convocação, não há palavra que possibilite referi-la aos índios. Tendo em vista a discussão empreendida acima, avulta que os índios não estão entre os remetentes nem entre os destinatários das cartas políticas. Ou seja, pela construção discursiva da referência de ‘nós’, as cartas são escritas em nome dos brasileiros, e esse processo não é “cego” à disjunção que funciona entre índios e brasileiros. Antes, opera sobre ela, e a reforça. Os índios, não sendo diretamente mencionados em tais cartas, nelas comparecem pelo apagamento, como assunto 155 “atravessado” sobre o qual se alerta ao conjunto dos brasileiros. São, pois, cartas de brasileiros para brasileiros. Feitas essas considerações acerca da abertura e do fechamento das cartas, nos reportaremos a alguns recortes das três cartas políticas, feitos tomando a temática do desenvolvimento como fio condutor. 156 2.1.1 Cartas do desenvolvimento Como já mencionamos, o desenvolvimento tem feito parte dos ecos atuais ao se discutir questões relativas à posse da terra. Interessa-nos observar, portanto, como o ‘desenvolvimento’ vai sendo significado nas cartas políticas ao tematizar a disputa pela terra. Vejamos algumas sequências: SD117: surgem demarcações de áreas consideradas indígenas que, de fato, impossibilitam o nosso crescimento.// hoje estamos em uma área geográfica praticamente indefinida, pois ocupamos área de fronteira; roraimenses são afastados de suas propriedades tituladas pela própria União há anos, sendo considerados intrusos. (...) enquanto nós estamos vendo e observando todos esses acontecimentos, praticamente sem poder nos posicionar e definhando em nossa capacidade de progredir. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) SD118: O discurso, só, já não resolve. A soberania sobre a Amazônia brasileira deve ser exercida de forma efetiva, materializada num projeto de desenvolvimento sustentável que atenda aos interesses do Brasil e dos 25 milhões de brasileiros que habitam a região e a justificam como território pátrio, apesar da evidente ausência de Poder e do vazio demográfico. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD119: O desenvolvimento sustentável pressupõe o equilíbrio entre a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social e a preservação do meioambiente.46 E é condição elementar para a Amazônia, uma região de florestas densas, rios caudalosos, riquezas minerais, homens, mulheres e crianças com direito de acesso aos meios de produção e a uma vida digna. (...) A existência do homem sobre as terras da Amazônia não é para ser ignorada ou tratada como questão secundária. (...) Assim, deve-se enxergar a Amazônia não apenas como uma floresta, um santuário a ser preservado. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD120: Na região de Raposa/Serra do Sol, o problema é ainda mais grave. Um ato do Governo Federal, uma simples Portaria, recomendada pela Funai, com poder de lei, como se o Executivo Legislativo fosse, decidiu a vida de centenas de brasileiros que justificaram para o Brasil a posse daquelas terras, diante da ameaça estrangeira vizinha. São brasileiros – homens, mulheres e crianças – cuja presença familiar na região data de mais de cem anos e que estão sendo considerados “intrusos” na própria terra onde nasceram ou que escolheram para produzir riquezas. Cidadãos e cidadãs nacionais ameaçados em seu próprio território, ocupado de boa-fé, quando a presença indígena era algo ainda muito distante. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD121: Os brasileiros ratificam a crença na iniciativa privada, na força da parceria entre Governo e classes produtivas e trabalhadoras como alavancas poderosas da 46 Importante destacar como o ‘meio ambiente’ figura na ordem dos itens dessa sequência. Aliás, importa não só o meio ambiente comparecer em último lugar, mas também quais os itens que podem precedê-lo. 157 melhoria da qualidade de vida da população. (...) Não se pede nada mais que o justo! (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD122: (...) conclamamos os brasileiros a formar um grande movimento nacional – Amazônia é Brasil e de todos os brasileiros -, que assuma a tarefa de liderar a reação contra as graves ameaças que a influência externa inaceitável representa para a SOBERANIA, a defesa comum e o futuro do País. (Carta de Pacaraima, 16/08/2008. Grifos nossos.) SD123: a proteção ambiental não pode ser considerada um fim em si mesma, mas estar inserida em um projeto nacional de desenvolvimento, pelo qual o Brasil possa fazer o pleno e bom uso de seus enormes recursos humanos e naturais, para percorrer o século XXI como uma GRANDE NAÇÃO adulta e soberana, capaz de garantir o desenvolvimento e a liberdade para a presente e as futuras gerações.// Defendemos a execução de um grande programa estratégico de construção de infra-estrutura física, principalmente de transportes, energia e comunicações. (Carta de Pacaraima, 16/08/2008. Grifos nossos.) SD124: Exigimos de nossos parlamentares, que são nossos representantes eleitos por nosso voto, que toda e qualquer legislação, especialmente a ambiental, indígena e fundiária, seja orientada a partir do legítimo interesse nacional. (Carta de Pacaraima, 16/08/2008. Grifos nossos.) Dessa série de sequências discursivas não parece escapar a um leitor qualquer que é em prol do desenvolvimento do estado de Roraima que o grupo de representantes políticos roraimense diz trabalhar: “Nosso Estado (...) vem, desde então, buscando, pelos meios legais e políticos, solução para se desenvolver”. Nessa empreitada, entretanto, não tem obtido êxito devido a certas ações do Governo Federal (“as ações empreendidas pelo Governo Federal têm, cada vez mais, impedido nosso Estado de se desenvolver”). Para observarmos detalhadamente como esse processo de construção de sentidos vai-se instaurando, observaremos o processo discursivo que se instaura em torno do ‘problema’ e da ‘solução’ apontadas e como eles vão tendo suas referências discursivas construídas. Interessa-nos levantar algumas questões em torno do funcionamento que possibilita esse dizer se formular deste modo. Ou seja, é antes com familiaridade e sem nenhum estranhamento que se diz de um problema (não-desenvolvimento) e da busca de sua solução (desenvolvimento) como o tudo que se pudesse dizer, sob a exigência de um funcionamento da linguagem sem falhas. De nossa perspectiva teórica, essa é uma forma de perceber o modo de funcionamento da ideologia: o trabalho de produção de evidências reportando-se à situação como se ela não fosse interpretada, mas tão somente apreendida pela transparência das palavras, traduzindo fatos inequívocos; e como se os 158 sujeitos, sendo totalmente livres, escapassem da determinação histórico-ideológica e do trabalho do inconsciente, e falassem a partir de si mesmos (PÊCHEUX, 1993, 1997 [1975]). No que tange às ações imputadas ao Governo Federal que provocam o problema – o não-desenvolvimento – elas são descritas como: “obstáculos de ordem legal, administrativa e política”, “óbices esses originários do Governo Federal, seja por iniciativa, seja por atos”, “entraves no âmbito do Governo Federal”, “situações contrárias às nossas necessidades, nos mais diferentes níveis”, “ausência de clareza com o que se quer.” Retomemos uma sequência: SD111: Nosso Estado, criado em 1988, (...) vem, desde então, buscando, pelos meios legais e políticos, solução para se desenvolver, a fim de proporcionar a harmonia, a paz social e o bem-estar de seu povo.// No entanto, a cada ano, defronta-se com obstáculos de ordem legal, administrativa e política, óbices esses originários do Governo Federal, seja por iniciativa, seja por atos.// Dessa forma, temos vivenciado situações contrárias às nossas necessidades, nos mais diferentes níveis, o que nos leva a elevar nossas vozes como um grito único em sua defesa, por entender que é responsabilidade de todos nós. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) Faz-se necessário observarmos o que portam e/ou ocasionam tais atitudes do Governo para poderem encontrar-se reunidas sob essas qualificações. Ou seja, esse modo de dizer já focaliza os atos do Governo Federal apresentando-os não como processos naturalmente ocorridos, mas como interferências que dificultam o transcurso dado como normal, posto que se trata de ‘obstáculos’. Diante disso, pode-se levantar uma questão: sabendo-se que está em causa a disputa pela terra entre índios e brasileiros, tais ações do Governo Federal caracterizam-se como ‘entraves’ para quem? De que ‘necessidades’ e para quem elas se fazem necessidades? Para discutirmos esse aspecto, voltemo-nos antes, para as ações acima qualificadas como danosas ao Estado. SD117: surgem demarcações de áreas consideradas indígenas que, de fato, impossibilitam o nosso crescimento. (...) roraimenses são afastados de suas propriedades tituladas pela própria União há anos, sendo considerados intrusos. (...) enquanto nós estamos vendo e observando todos esses acontecimentos, praticamente sem poder nos posicionar e definhando em nossa capacidade de progredir. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) E ainda: 159 SD125: As ações empreendidas pelo Governo Federal têm, cada vez mais, impedido nosso Estado de se desenvolver, mesmo reconhecendo que algumas delas são executadas de acordo com a Lei, mas, pela ausência de clareza com o que se quer, deixa-nos à mercê de um verdadeiro vazio, ausência de poder, onde não podemos crescer. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) Assim determinadas como ações que impossibilitam o crescimento, fazendo definhar a capacidade de progredir, impedindo o desenvolvimento, tais ações são desqualificadas. Tudo isso engloba o conjunto das políticas do Governo Federal referentes à gestão, distribuição e titulação de terras em Roraima. Tais medidas são, desse modo, apontadas como causadoras das diversas dificuldades que o Estado tem de enfrentar. Dentre essas ações, sobressai a demarcação de terras indígenas. É por surgirem terras consideradas indígenas que o Estado tem seu crescimento impossibilitado. É, pois, em relação à terra e aos usos que dela se pretende fazer que se credita ao Governo Federal uma má atuação. Ou seja, é especificamente às terras definidas como posse indígena que se deve a desqualificação das ações federais. Pois, mesmo quando se referem à “não transferência do patrimônio do então Território de Roraima para o Estado”, isso diz respeito ao Estado de Roraima deter a propriedade das terras e, assim, o Governo Federal não poder utilizá-las para fins de demarcação de terras indígenas. Assim, a posse indígena da terra é o que se constrói como referência discursiva para os “obstáculos”, “entraves”, “óbices” e se consolida como a situação contrariadora de necessidades. É a posse indígena da terra, consumada pelos atos de demarcação e homologação produzidos pelo Governo Federal, que se interpõe como obstáculo, impedimento ao desenvolvimento de Roraima. Dito de outro modo, qualifica-se como problema “de nascença” do/para o Estado a terra que não seja propriedade dos brasileiros, pois, sem isso, há restrições quanto a seu uso, ao que, sobretudo, o grupo de político e de fazendeiros se opõem: “Demarcação e pretensão de áreas indígenas em áreas produtivas e sobre províncias minerais, de forma que o estado não possa explorálas” (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.). O que se aponta como solução para os problemas ocasionados pelo Governo Federal ao Estado de Roraima diz respeito, antes de tudo, a exigências centradas na “definição fundiária” (SD126) e, consequentemente, aos desdobramentos que essa definição acarreta quanto aos usos que se faria da terra (SD127): 160 SD126: [interesses de Roraima:] A definição fundiária urgente do Estado, determinando a quem pertencem as terras herdadas pelo ex-Território Federal, bem como as áreas ambientais, militares, indígenas, etc. (...) O compromisso por parte do Governo Federal de que, em um breve espaço de tempo, somente por lei, demarque, registre e homologue todas as áreas indígenas existentes no Estado; (...) definição da questão agrária, transferindo as áreas remanescentes para o Estado, em cumprimento à Constituição Federa”. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) SD127: 1– Legislação ambiental, que praticamente impede a extração de madeira e de recursos naturais de forma racional e legal, ações do Ibama e demais órgãos ambientais;/ 2– Demarcação e pretensão de áreas indígenas em áreas produtivas e sobre províncias minerais, de forma que o estado não possa explorá-las. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) Faz jus destacar, nesses recortes, que os mecanismos de solução para os malefícios provocados pelos “obstáculos” do Governo Federal (as demarcações de terras indígenas) estão imbricados em uma questão a se definir: “a quem pertence Roraima?” E é relevante notar como a posse indígena da terra comparece entre as terras que necessitam de definição. É preciso determinar “a quem pertencem as terras herdadas pelo ex-Território Federal, bem como as áreas ambientais, militares, indígenas, etc.” Se ‘indígena’ pode funcionar como adjetivo quanto como substantivo (cf. MAZIÈRE e GALLO, 2007), nesse caso – pelo modo como integra essa cadeia – ‘indígenas’ pode ser classificado, certamente, como adjetivo. Interessa-nos observar, pelo funcionamento do sintagma ‘áreas indígenas’, que direção de sentidos é apontada ao se inserir ‘indígenas’ numa série de adjetivos, em que todos determinam o mesmo substantivo (‘áreas’)? Que efeitos de sentido essa inserção promove em relação à disputa pela terra? É necessário colocar minimamente em suspeição os direitos indígenas à terra para que se torne possível formular a indefinição, o “ainda-a-saber”: “a quem pertencem as áreas (...) indígenas”? Por outro lado, se se desconhece o pertencimento das ‘áreas indígenas’, o que se sabe ao certo sobre o pertencer das terras? Em outros termos, com essas questões põem-se em tela a hierarquia, o estatuto dado ao direito indígena à terra ao elencar ‘indígenas’ entremeado numa sequência de natureza tão diversa. O funcionamento da construção dos sentidos desse sintagma possibilita que se observe que ser intercambiável com ‘ambientais’, ‘militares’ e diversos outros dessa mesma natureza – afinal a cadeia segue aberta com o ‘etc.’ – é retirar de ‘indígenas’ quaisquer referências ao indigenato, ao direito indígena à terra, conforme discutimos na 161 parte I. Pois homogeneízam-se, pelo conjunto, as indefinições da terra fora do campo semântico da posse da terra. Desloca-se a questão – os direitos indígenas à terra – para discuti-la de outro lugar, que não lhe é próprio, desvirtuando seu caráter político. O que é um direito ganha matizes de pequenos detalhes, de exceções que devem ser agrupadas visando serem sanadas em blocos. Com isso, não se reconhece o direito indígena à terra. Destituem-se os índios de seus direitos à terra. Nega-se aos índios a posse da terra. (Não se discutindo os direitos indígenas à terra como uma questão política, não se atinge o seu cerne, pois. Quando muito, ela pode ser tangenciada. E desvirtuada.) Os direitos indígenas são, pois, diluídos ao constarem como ‘áreas indígenas’ computadas em um conjunto cujos elementos não remetem à posse da terra. E, ao contrário, com ‘áreas indígenas’ deveria constituir-se um “conjunto unitário” (para nos mantermos empregando os termos do campo da matemática). Em tal conjunto é impossibilitada a entrada de quaisquer que sejam os elementos, pois o direito que rege a posse indígena da terra singulariza os índios em relação a todos os outros que vivem no Brasil. Talvez se possa dizer que, assim como a noção de ‘exterioridade’ separa quem é brasileiro de quem é nativo/índio, aqui, a noção de ‘anterioridade’ (temporal) separa os direitos dos índios de outro direito à terra. Com isso, se estabelece a impossibilidade de outros – inclusive os brasileiros – se agregarem aos índios sob esse direito. Os efeitos de sentido predominantes nessa trama quanto à terra são os que enfatizam a propriedade da terra assegurada a não índios, seja o estado, sejam outros quaisquer das ‘comunidades’, posto que assim, extingue-se o alvo dado como impedimento ao desenvolvimento do estado: a posse indígena da terra. A fim de que se consolide a alteração da posse para a propriedade da terra – como “solução para se desenvolver” – propõe-se mudar os métodos de demarcação de terra indígena, “pondo fim ao atual procedimento” e de forma que “somente por lei, demarque, registre e homologue todas as áreas indígenas existentes no Estado” (SD126). Diante disso, urge questionar: que sentidos sobre a posse da terra estão em jogo nesse entendimento? Há que se notar que os atuais procedimentos do processo de demarcação de terra indígena dão-se em conformidade com o que está consumado no texto da Constituição de 1988 e no Decreto n. 1.775, de 08.01.1996. Tais procedimentos são pautados no princípio do indigenato, pelo que se reconhecem os índios, conforme discutimos, fora da visada eurocêntrica, e, assim, assegura-lhes o direito à terra, à diferença, a serem índios, enfim. Vale retomar que a proposta de “solução para se desenvolver” diz 162 respeito, mais especificamente, a traçar um percurso legal para o processo demarcatório: pois é o próprio percurso que é dado como ilegal. Outras instâncias devem ser mobilizadas para a tarefa de legalização da distribuição de terra entre índios e brasileiros. Com isso, a disputa pela terra é alocada no âmbito jurídico, reduzida às alíneas da lei e, assim, é descaracterizada politicamente. Transcorre como se a posse da terra se restringisse a um mero ajuste legal, fora da disputa secular e violenta pela terra entre índios e brasileiros. Apagar essa disputa não seria alinhar os atuais sentidos a uma tradição sobre a história do Brasil, história cuja memória desconhece os índios em suas diferenças? De nossa perspectiva, interessa ressaltar que na proposta de ‘solução para se desenvolver’ investe-se para garantir quem são aqueles que podem dizer sobre os índios no Brasil, movimentando o que está historicamente autorizado. Ou seja, é diretamente sob o domínio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) que o trabalho de demarcação de terra indígena é realizado. Trabalho especificamente antropológico que recobre desde os estudos iniciais até a coordenação de todo o processo das comissões técnicas para identificação e medição de terras indígenas e elaboração de relatórios finais. Com isso, a decisão final deve ainda ser homologada pelas assinaturas do Presidente da República e do Ministro da Justiça (OLIVEIRA, 1987; OLIVEIRA & IGLESIAS, 2002)47. A partir da noção, já mencionada, de “espaço de enunciação” proposta por Guimarães (2003), pode-se dizer que o movimento proposto como ‘solução para se desenvolver’ é, simultaneamente, proposta de alteração no espaço de enunciação sobre os índios. Para vislumbrar essa alteração no espaço de enunciação brasileiro, há que se considerar a distribuição desigual dos falantes da língua portuguesa e, nesse quadro, considerar o espaço específico dos discursos sobre os índios. Assim, pode-se lançar luz sobre a particularização do espaço de enunciação em que alguns têm sido autorizados, científica e legalmente, a dizer sobre os índios no Brasil. Tornando às cartas políticas, há que se sublinhar que nelas não é a tutela que se coloca em questão, tampouco os índios são confrontados. Tais cartas são atravessadas por uma disputa voltada para aqueles que podem – pretendem-se autorizados a – preencher o lugar estatal da tutela no atual estágio de nossa formação social. Assim, a 47 Para uma exposição sucinta das etapas do processo demarcatório, ver, por exemplo, os sítios: http://www.funai.gov.br/indios/terras/conteudo.htm#como, e http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJ5DA42EC9ITEMID699D91511200452BA2B4BE64360765ABPTB RNN.htm. 163 questão indígena é o cerne da atenção, mas só no que tange a quem poderá enunciar decisão sobre os índios.48 A seguir, para dar continuidade a essa discussão, nos deteremos no processo de construção discursiva da referência de ‘desenvolvimento’. Uma vez apontada como solução, a propriedade da terra carreia desdobramentos fulcrais em relação às finalidades e usos da terra. Para observarmos tais desdobramentos, enfocaremos alguns detalhes que dizem respeito ao modo como nessas cartas, o ‘desenvolvimento’ vai sendo discursivamente construído. As cartas clamam por um “processo de desenvolvimento do Estado, definindo projetos próprios em parceria com outros órgãos públicos e privados, especialmente agroindústria, turismo, pecuária e de projetos auto-sustentáveis” (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.). Esse projeto de desenvolvimento sustentável “pressupõe o equilíbrio entre a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social e a preservação do meio-ambiente.” (SD119). E, no que tange à proteção ambiental, ela “não pode ser considerada um fim em si mesma, mas estar inserida em um projeto nacional de desenvolvimento, pelo qual o Brasil possa fazer o pleno e bom uso de seus enormes recursos humanos e naturais, para percorrer o século XXI como uma GRANDE NAÇÃO adulta e soberana, capaz de garantir o desenvolvimento e a liberdade para a presente e as futuras gerações. Defendemos a execução de um grande programa estratégico de construção de infra-estrutura física, principalmente de transportes, energia e comunicações.” (SD123. Grifos nossos.) 48 Nesse sentido, vale mencionar a edição 2163 - ano 43 - nº 18 da revista Veja, de maio de 2010, em cuja capa estampa-se “RESERVAS: Por que pode sobrar pouco (ou quase nada) para o Brasil que produz”. E, no índice, a reportagem é anunciada com destaque: ao lado de uma fotografia facilmente atribuída a uma família brasileira pobre, não indígena, diz-se: “Demarcação de terras: processos repletos de trambiques antropológicos”. Por fim, como título de uma matéria de oito páginas, diversas fotografias e mapas do Brasil, tem-se: “A farra da antropologia oportunista”. É digno de nota que essa matéria da revista tenha sido tomada como base fidedigna para argumentação sobre terras indígenas, por um senador de Roraima, em pronunciamento no Senado. (Disponível em: http://www.senado.gov.br/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=384304. Acesso: mai. 2010) Aqui, não nos debruçaremos sobre esse texto da revista Veja, mas, por sua repercussão e, sobretudo, pelo que diz respeito ao nosso ponto de discussão, vale sublinhar que nessa reportagem se coloca explicitamente sob suspeição a autoridade antropológica em relação à demarcação de terras indígenas. E, para ilustrar o quão acirrada tem sido/está a disputa pelo espaço de enunciação sobre os índios no Brasil, a matéria veiculada na revista Veja gerou uma grande torrente de respostas em sítios na internet e, de nossa perspectiva, pode ter provocado também uma edição ‘Especial’, toda voltada para a questão das terras indígenas, de outra revista, a Caros Amigos, ano XIV, número 51, de outubro de 2010. Na capa dessa edição, estão quatro manchetes e, sobre a fotografia do busto de um índio com o rosto todo pintado de negro, a manchete de destaque diz: “Genocídio e resistência dos índios do Brasil”. Na capa, também são elencados os nomes de alguns índios e, entre esses nomes, estão entremeados os nomes de reconhecidos pesquisadores, considerados defensores da questão indígena. 164 A partir dessas “elucidações” dadas acerca do desenvolvimento, pode-se afirmar que a política de desenvolvimento sustentável proposta para a Amazônia ao tempo em que resguarda o “equilíbrio entre a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social e a preservação do meio-ambiente”, vai-se constituindo em relação de oposição com dizeres oriundos de outra região de sentidos. Ou seja, é pela negação aí apresentada que se tem conhecimento do que é dito em outra Formação Discursiva. Na FD aludida seriam constituídos os sentidos que sustêm a proteção ambiental como “um fim em si mesma”, pelo que “o Brasil” (e, acrescentamos, os brasileiros) não pode fazer “o pleno e bom uso de seus enormes recursos humanos e naturais”. Ou seja, por essa menção, dá-se a saber sobre uma FD onde estão temporariamente alojados os sentidos que certificam a diferença para os índios – sobretudo pela demarcação de terras indígenas – e a preservação da natureza – pelo impedimento da exploração [predatória] dos recursos naturais. Estamos nos referindo à Formação Discursiva 2. Assim, o desenvolvimento sustentável, como projeto nacional arquitetado no discurso político roraimense, é aquele em que há “equilíbrio” e liberdade de exploração [não cerceamento da liberdade exploratória] do homem e da natureza. Nessa proposta, importa observar como o ‘meio ambiente’ figura na ordem dos itens da sequência: “o desenvolvimento sustentável pressupõe o equilíbrio entre a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social e a preservação do meio-ambiente.” Aliás, importa não só devido ao ‘meio ambiente’ comparecer em último lugar, mas, sobretudo, pelos elementos que podem precedê-lo. Há que se grifar que ter como pressuposto equilibrar “a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social” com “a preservação do meio-ambiente” não condiz com os anseios de toda a sociedade nem recobre todas as práticas sociais de relação com a natureza e com as formas de realização de afazeres considerados como ‘trabalho’. O equilíbrio proposto aponta, antes, para a industrialização pesada que está afeita a ter por fim aumentar a margem de lucros. Com essa caracterização, a preservação do meio-ambiente pode até figurar, mas no final de uma extensa lista de metas e prioridades de crescimento econômico. Vale lembrar que o seminário é denominado como “I Seminário Nacional de Produtores Rurais e Desenvolvimento Sustentável em Áreas Fronteiriças”. Nessa linha, remete-se à “Amazônia não apenas como uma floresta, um santuário a ser preservado”, mas como “uma região de florestas densas, rios caudalosos, riquezas minerais, homens, mulheres e crianças com direito de acesso aos meios de 165 produção e a uma vida digna.” (SD119) São esses homens “que estão sendo considerados “intrusos” na própria terra onde nasceram ou que escolheram para produzir riquezas. Cidadãos e cidadãs nacionais ameaçados em seu próprio território, ocupado de boa-fé, quando a presença indígena era algo ainda muito distante.” (SD120) Em torno do “desenvolvimento sustentável para a Amazônia” vai sendo construída uma cadeia parafrástica cuja direção de sentidos aponta para toda a região amazônica e para toda a nação: pretende-se como projeto que atende “o legítimo interesse nacional”, os “interesses do Brasil e dos 25 milhões de brasileiros que habitam a região e a justificam como território pátrio, (...) – homens, mulheres e crianças – cuja presença familiar na região data de mais de cem anos” (SD118). São os brasileiros que “ratificam a crença na iniciativa privada, na força da parceria entre Governo e classes produtivas e trabalhadoras como alavancas poderosas da melhoria da qualidade de vida da população.” (SD12) Com essa direção de sentidos delineada para ‘desenvolvimento sustentável’ e ‘preservação do meio-ambiente’, avulta uma questão: como restam os índios nesse projeto que se pretende recobrindo os interesses nacionais e que se planeja implementar na/para a região que mais concentra etnias indígenas? ‘Índio’ é vocábulo que não consta do léxico das três cartas políticas analisadas. Além disso, há somente uma utilização de ‘indígenas’ como substantivo. Portanto, é pelo adjetivo ‘indígenas’ que os índios figuram nessas missivas. É extremamente relevante, em relação às análises que empreendemos até aqui, a escassez terminológica que remeta ao campo semântico relativo aos índios. Trazemos a seguir todas as sequências discursivas em que ocorreram o termo ‘indígenas’. SD128: Não bastasse a não transferência do patrimônio do então Território de Roraima para o Estado, criado nos termos do § 2º do art. 14 do ADCT da Constituição Federal da República, surgem demarcações de áreas consideradas indígenas que, de fato, impossibilitam o nosso crescimento. No momento, até tributariamente somos penalizados. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) SD129: Demarcação e pretensão de áreas indígenas em áreas produtivas e sobre províncias minerais, de forma que o estado não possa explorá-las. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) SD130: A definição fundiária urgente do Estado, determinando a quem pertencem as terras herdadas pelo ex-Território Federal, bem como as áreas ambientais, militares, indígenas, etc. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) 166 SD131: O compromisso por parte do Governo Federal de que, em um breve espaço de tempo, somente por lei, demarque, registre e homologue todas as áreas indígenas existentes no Estado, trazendo tranqüilidade e segurança jurídica para todos em relação às demais áreas, pondo fim ao atual procedimento. (Carta de Roraima [I], 17/08/2007. Grifos nossos.) SD132: O precedente da demarcação em território contínuo de Raposa/Serra do Sol, hoje contestada pelo Governo de Roraima no Supremo Tribunal Federal, criou uma situação no mínimo inusitada e que demonstra o perigo de se fazer concessões absurdas. O comandante local do Exército foi impedido por indígenas de entrar naquela região, onde inclusive existe um Pelotão sob sua responsabilidade. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD133: Não é recomendável a demarcação de imensas reservas indígenas na faixa de fronteira, nos moldes atualmente propostos pelo Governo Federal. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD134: Cidadãos e cidadãs nacionais ameaçados em seu próprio território, ocupado de boa-fé, quando a presença indígena era algo ainda muito distante. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD135: A solução para Raposa/Serra do Sol é a demarcação que não segregue os povos indígenas, não crie dificuldades à presença do Estado brasileiro e assegure ao estado de Roraima, com 92,66 por cento de suas terras controladas pelo Governo Federal, através do Incra, do Ibama e da Funai, condições para promover o seu próprio desenvolvimento e autonomia. (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.) SD136: Exigimos de nossos parlamentares, que são nossos representantes eleitos por nosso voto, que toda e qualquer legislação, especialmente a ambiental, indígena e fundiária, seja orientada a partir do legítimo interesse nacional. (Carta de Pacaraima, 16/08/2008. Grifos nossos.) O que funciona nessa ausência dos índios na Carta de Roraima [I], na Carta de Roraima [II] e na Carta de Pacaraima? Como compreender o irrestrito apagamento dos índios em cartas nas quais representantes políticos da região amazônica, após longas discussões, condensam reivindicações e veiculam propostas de solução para o futuro dessa região? Sobretudo, como compreender esse apagamento dos índios no discurso político considerando a acirrada disputa pela posse da terra entre índios e brasileiros? Antes de tudo, podemos sublinhar que é nesse mecanismo que se deixa depreender o quão intensa continua a disputa pela terra e os modos de fazer predominarem certas direções de sentidos em detrimento de outras. Pontuamos que se deixa à mostra o resultado do trabalho travado com a língua para não deixar escapar para o texto das cartas o vocábulo ‘índios’. Pensamos esse procedimento constitui-se como trabalho – uma tentativa mesma de domínio da língua – porque, tendo em vista a discussão empreendida, configura-se uma circunstância de utilização da língua profundamente 167 enredada pela palavra ‘índios’. Assim, não mencioná-la – mesmo que para a ela se opor – requer um esforço. Da perspectiva discursiva, situamos esse investimento no que Pêcheux (1993) denominou como “esquecimento nº 2”, processo pelo qual o sujeito, ao enunciar, tem a “ilusão necessária” de controlar o que diz, pelo qual o sujeito tem a impressão “de realidade do pensamento” (PÊCHEUX, 1993, p. 176; 1997 [1975], p. 173). Se nas cartas políticas há um silenciamento sobre os índios, merece atenção a forma pela qual os índios são indiretamente – pelo adjetivo ‘indígenas’ – mencionados. Temos que: - “surgem demarcações de áreas consideradas indígenas”. (SD128) - “Demarcação e pretensão de áreas indígenas em áreas produtivas”. (SD129) - “a quem pertencem (...) As áreas ambientais, militares, indígenas, etc. (SD130) - “que, em um breve espaço de tempo, somente por lei, demarque, registre e homologue todas as áreas indígenas existentes no Estado”. (SD131) - “Não é recomendável a demarcação de imensas reservas indígenas na faixa de fronteira”. (SD133) - “Cidadãos e cidadãs nacionais ameaçados em seu próprio território, ocupado de boa-fé, quando a presença indígena era algo ainda muito distante.” (SD134) - “A solução para Raposa/Serra do Sol é a demarcação que não segregue os povos indígenas, não crie dificuldades à presença do Estado brasileiro.” (SD135) - “Exigimos (...) que toda e qualquer legislação, especialmente a ambiental, indígena e fundiária, seja orientada a partir do legítimo interesse nacional.” (SD136) Por esse modo de aludir aos índios, pela função de qualificação tradicionalmente imputada ao adjetivo, vai-se tecendo uma trama em que sobressai que ‘indígenas’ determina vocábulos do mesmo campo semântico: ‘áreas’, na maioria das vezes, ou ‘reservas’. Somente em duas construções a alusão remete mais diretamente aos índios enquanto seres humanos, sujeitos: “presença indígena’ e ‘povos indígenas’ (‘índios’?). Interessa-nos destacar nesses empregos que, por um lado, ao determinar ‘áreas’, os índios são significados em relação à terra, mas enquanto natureza. Não se coloca, pois, a posse da terra em destaque. Ao contrário, vale lembrar que não se diz ‘áreas brasileiras’ para indicar a propriedade da terra em oposição à posse indígena da terra. É para o 168 campo de sentidos da propriedade da terra que se guarda, com certa exclusividade, o vocábulo ‘terra’. Nessa mesma direção, urge mencionar que, pela Constituição de 1988, ao assegurar aos índios “os direitos originários sobre as terras”, aboliu-se o que antes era concebido como ‘reservas indígenas’. Assim, no que pode se apresentar como “escolha” vã de palavras – ‘áreas’, ‘reservas’ – está marcado também o não reconhecimento dos direitos indígenas. Em outros termos, em uma palavra pela outra, mostra-se materializada na língua a ideologia: por que não ‘índios’? Por que sempre outra palavra ao invés de ‘índios’? Por outro lado, põe-se em funcionamento um mecanismo realizado em diversos níveis linguísticos: pelo deslocamento da classe gramatical (“povos indígenas” em vez de ‘os indígenas’, ou ‘os índios’), pelo deslocamento de função sintática (de sujeito para agente da passiva: “O comandante local do Exército foi impedido por indígenas”), pela inserção em oração adjetiva (“demarcação que não segregue os povos indígenas”). Tal mecanismo configura uma política de sentidos: reforça o apagamento dos índios. Há que ressaltar também, nessa construção discursiva de referência de terra indígena, o emprego de termos e de construções que, dispersos, põem em funcionamento certos sentidos: “surgem demarcações de áreas consideradas indígenas” (SD128); “pretensão de áreas indígenas” (SD129); “a quem pertencem as terras (...) indígenas” (SD130); “quando a presença indígena era algo ainda muito distante” (SD134). É em uma atmosfera de imprecisão, de incertezas e de nebulosidade que se menciona ‘indígena’. Fosse esse procedimento isolado, talvez não contribuísse tão fortemente para a direção de sentidos que predomina nas cartas. No entanto, como estamos vendo, este é mais um dos recursos de construção discursiva da referência para os índios e suas terras. Os índios – sem que sejam confrontados diretamente – vão tendo construídos para si certos sentidos. Podemos repetir o que dissemos após a análise das manchetes, no início desta parte: são sentidos construídos in absentia. Ou seja, os índios não comparecem a não ser como ausência, como um “silêncio ensurdecedor”, como categoricamente considera Dufour (2005, p. 52), ao comentar Le Clézio (1988): “o silêncio do mundo indígena sem dúvida nenhuma é um dos maiores dramas da humanidade.”49 49 LE CLÉZIO, J. M. G. Le rêve mexicain ou la pensée interrompue. Paris, França: Gallimard, 1988. 169 Considerando a disjunção entre ‘índios’ e ‘brasileiros’, conforme apontada em todas as análises feitas neste trabalho, é bastante significativa que a apresentação de um projeto para a região de maior densidade demográfica indígena dê-se em nome dos “interesses do Brasil e dos 25 milhões de brasileiros que habitam a região e a justificam como território pátrio” (Carta de Roraima [II], 08/08/2008. Grifos nossos.). A restrição apresentada para ‘brasileiros’ delineia uma separação em relação aos índios já ao dar visibilidade, pela alta cifra numérica, que não são somente os índios que vivem na Amazônia, modo de considerar imputado aos que defendem a demarcação de terras para os índios. Há restrição, sobretudo, quando se associa ‘brasileiros’ somente àqueles que “justificam [a Amazônia] como território pátrio”. Esse modo de dizer sobre os brasileiros faz ressoar dizeres sobre os índios que os excluem por essa especificação. Ou seja, dentre as diversas inabilidades atribuídas aos índios, estão os sentidos que os concebem como incapazes de serem guardiões das fronteiras do Brasil, apesar de estudos certificarem a participação dos índios em eventos desse tipo (SANTILLI, 2001; FARAGE, 1991; dentre outros). Com isso, a existência dos índios na região é tornada invisível, des-considerada pelos critérios/fins que se colocam como relevantes. Nesse sentido, pode-se relacionar a desqualificação dos índios com a posse indígena da terra apontada como ‘obstáculo’, ‘entrave’, conforme discutimos anteriormente. Ainda a partir do que propõem Mazière e Gallo (2007), conforme discutimos no item ‘O típico e o estranho nacional’, interessa-nos lembrar que os ‘brasileiros’ são os que têm alguma relação com a ‘exterioridade’ territorial, com aqueles que vieram de outro lugar, aspecto que permanece separando os brasileiros dos nativos que aqui sempre estiveram, os índios. Nesse sentido, surge como necessidade afirmar que os brasileiros são “homens, mulheres e crianças – cuja presença familiar na região data de mais de cem anos e que estão sendo considerados “intrusos” na própria terra onde nasceram ou que escolheram para produzir riquezas.” Vejamos melhor como, nesse funcionamento, operam algumas restrições pelas quais os sentidos de ‘brasileiros’ excluem os ‘índios’. Primeiro, pelo transcurso do tempo: “São brasileiros – homens, mulheres e crianças – cuja presença familiar na região data de mais de cem anos”. Mesmo que já seja secular, trata-se de uma presença da qual não se pode dizer que data de tempos imemoriais: eles, os brasileiros, não estiveram sempre naquela terra. A exterioridade é, pois, um aspecto que não se aplica aos índios, ao mesmo tempo em que os des-identifica 170 com os brasileiros. Assim, os índios, estando aqui desde antes da chegada dos portugueses, não lhes confere ser uma presença que justifique o território brasileiro como pátria. É mesmo por essa imemorialidade temporal referente aos índios nas terras que vieram a ser o Brasil que não lhes é conferida a brasilidade, o poderem ser brasileiros. Essa restrição é reforçada quando se afirma que: “são brasileiros – homens, mulheres e crianças – (...) que estão sendo considerados “intrusos” na própria terra onde nasceram ou que escolheram para produzir riquezas.” Com os verbos ‘nasceram’ e ‘escolheram’ retoma-se explicitamente a questão da temporalidade/exterioridade, conforme discutimos acima: aspecto que classifica os índios como os que sempre foram daqui, diferentemente dos brasileiros, os que vieram a ser daqui, pelo que os índios são excluídos do ser brasileiro. Recobrindo essa direção de sentidos, ressoam sentidos sobre a posse das terras brasileiras, conforme já discutimos em outra parte: os brasileiros são os donos das terras do Brasil. É a partir dessa constatação que se pode dizer que há os que estão sendo dados como “(...) “intrusos” na própria terra”, seja por nela terem nascido, seja por a terem escolhido. A isso se acrescenta um aspecto relevante na disputa pela terra: os usos e finalidades da terra. Escolher uma terra “para produzir riquezas” resulta em uma forma eficiente de excluir os índios, não só por esse modo de relação com a terra não fazer parte das tradicionais práticas indígenas, mas também porque, do imaginário sobre os índios não consta esse trato exploratório da terra. Antes, diz respeito à aspiração ao desenvolvimento industrial e tecnológico, e suas implicações, o que atualmente caracteriza de modo predominante o funcionamento da sociedade ocidental. Ou seja, nesse caso, escolher uma terra “para produzir riquezas” diz respeito aos brasileiros, fortemente disjuntos dos índios. Retomando: a posse indígena da terra é dada, no discurso político roraimense, como um ‘problema’ a ser solucionado pelo ‘desenvolvimento/desenvolvimento sustentável’, de cuja estrutura ou execução os índios não fazem parte enquanto índios. No apontamento dessa solução, os índios não existem/não devem existir. No que se diz de uma ‘solução para desenvolver’, a referência discursiva de todo o processo de desenvolvimento é construída, conforme vimos, repetidamente remetendo à industrialização e a seus efeitos, sem que se ofereça possibilidade ou garantias para outra forma de conceber o futuro da região e dos ‘brasileiros’ que almejam parcerias com a “iniciativa privada”. A esse projeto político não interessa que haja outro senão os 171 brasileiros: fora os ‘brasileiros’, há ações que funcionam como ‘entraves’, como impedimento ao desenvolvimento. Desse modo circunscrita uma direção de sentidos para os brasileiros – e para os índios –, pode-se vislumbrar o quanto a resistência indígena frente aos brasileiros tem sido de grande monta. Também não parece ser de pouca magnitude o que os aguarda, haja vista o apagamento dos índios, conforme aponta nossa análise do discurso jornalístico e do discurso político. Em outros termos, isso diz respeito ao ‘domínio de antecipação’ (COURTINE, 2009 [1981]), pelo qual o que na atualidade se formula já também conforma probabilidades de futuras formulações. Certo é que desenvolvimento pode ser posto como já-dado, no âmbito do inquestionável: não estar no desenvolvimento é um impasse que precisa ser resolvido: “Nosso Estado, criado em 1988(...) vem, desde então, buscando, pelos meios legais e políticos, solução para se desenvolver, a fim de proporcionar a harmonia, a paz social e o bem-estar de seu povo.” Nessa sequência, em que tão linear e homogeneamente as terras indígenas significam obstáculo ao desenvolvimento do Estado, interessa-nos destacar que, para assim serem “naturalmente” consideradas, tal concepção implica sentidos estabilizados sobre a propriedade da terra concedida aos não índios, aos que estão relacionados ao desenvolvimento. Há o trabalho da memória ancorando, fundeando sentidos para que desse modo possa se formular e fazer significar as Cartas. Memória na qual se pode apontar como esquecimento constitutivo a historicidade dos diversos povos indígenas antes e depois do chamado descobrimento do Brasil. Retomando: há sentidos predominantes formulados e em circulação para ‘desenvolvimento’. Tais sentidos são efeitos do trabalho da ideologia, pelo que se produz a transparência da língua. Da perspectiva teórica da Análise do Discurso, sabendo que os sentidos são múltiplos, resolvemos seguir este trabalho tomando uma questão como fio norteador: “terra para que senão para o desenvolvimento?” Questão esta que foi se apresentando à medida que se fechava a direção de sentidos construída para ‘desenvolvimento’, propriedade da terra/‘brasileiros’ e posse da terra/‘índios’. Com isso, leiamos recortes das cartas divulgadas ao final das Assembleias indígenas ocorridas entre 2000 e 2010. 172 2.2 De ‘índios’ para ‘brasileiros’ Vimos, nas partes anteriores deste trabalho, o discurso jornalístico online e o discurso político em torno da questão da posse da terra. Considerando a disjunção entre índios e brasileiros apontada pela nossa análise, esses discursos são, portanto, discursos de brasileiros sobre os índios. Observaremos, a partir deste ponto, não mais discursos sobre, mas o que estamos considerando como discurso indígena. Trata-se de cartas indígenas. Traremos recortes de duas cartas do povo Yanomami formuladas como resultado de discussões feitas em assembleias. Nesse processo principiado a partir de 1986, os Yanomami reivindicavam, sobretudo, suas terras, cuja homologação realizouse em 1991. Também traremos recortes de oito cartas divulgadas ao final de cada Assembleia dos Povos Indígenas de Roraima, de 2003 a 2010. Essas assembleias gerais, que se prolongam por quatro dias ou mais, contam com a participação de setecentos índios, em média, mas há registro de reunião com mais de mil participantes. Cumpre sublinhar que data da década de setenta a organização indígena em forma de assembleias, prática que vem desde então sendo repetida e, mais que isso, ampliada para muitas regiões em que vivem povos indígenas. Aos recortes dessas cartas, acrescentamos recortes de um discurso feito pelo representante de dez povos indígenas para o Presidente Lula, em Boa Vista. A princípio, nos deteremos em recortes representativos das aberturas das cartas indígenas para discutirmos o modo pelo qual os índios se representam no seu dizer endereçado aos brasileiros. Ao mesmo tempo, observaremos de que forma os índios vão construindo sentidos para os destinatários de suas cartas. Com essas questões iniciais, passemos aos recortes. SD137: Nós, Yanomami, reunidos nesta Assembléia queremos todos defender a nossa terra./ Nós, Yanomami, não queremos que outras pessoas a destruam, sejam eles garimpeiros, fazendeiros, colonos, militares, pescadores, madereiros ou empresas mineradoras. Não queremos que eles invadam nossa terra e destruam nossa floresta. (Carta da 2ª Assembléia Yanomami, 2000. Grifos nossos.)50 SD138: Orientados pelo tema “Povos Indígenas e o Respeito ao Meio Ambiente”, nós, lideranças indígenas do Estado de Roraima, reunidos na 32ª Assembléia Geral dos Tuxauas, realizada na aldeia Pium, região do Taiano, município de Alto Alegre, nos dias 5 a 8 de fevereiro de 2003, com a presença de 744 lideranças indígenas, dos povos 50 Disponível em: http://www.proyanomami.org.br/v0904/index.asp?pag=noticia&id=103. Acesso: fev. 2009. 173 Ingaricó, Macuxi, Taurepang, Sapará, Sanumá, Wapichana, Wai Wai, Yekuna e Yanomami, com a solidariedade dos povos nossos parentes da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), amigos e convidados de instituições públicas e não governamentais, considerando a situação dos povos indígenas no Estado de Roraima, nos posicionamos, propomos e reivindicamos. (Carta da 32ª Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima, 2003. Grifos nossos.)51 SD139: Nós povos indígenas de Roraima, reunidos no dia 6 a 9 de fevereiro de 2007, na comunidade indígena Barro, região Surumu, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Estado de Roraima, com a presença de 702 lideranças indígenas, pertencentes aos povos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang, Wai Wai, Sapará, Yekuana, Yanomami, Xirixiana, Pemón e Patamona, após discutimos sobre o tema desta Assembléia – “Desenvolvimento sim, mas com respeito e não de qualquer jeito” – vimos apresentar nossas demandas, propostas, sugestões e reivindicações amparados pela Constituição Brasileira. (Carta da 36ª Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima, 2007. Grifos nossos.)52 SD140: Prezado Sr. Presidente/ Nós Wapichana, Macuxi, Yanomami, Ingaricó, Patamona, Taurepang, Sapará, Wai-Wai, Waimiri-Atroari e Yekuana somos aproximadamente 70.000 brasileiros residentes na capital e no interior de Roraima num total de 448 aldeias. Como Vossa Excelência sabe, a terra é nossa mãe e é sob seu manto que vivemos, por isso desejamos que nossos territórios nunca mais sejam invadidos. (Discurso feito para o Presidente da República por um índio, representante de dez povos indígenas de Roraima. Boa Vista, 2009. Grifos nossos.)53 SD141: A 39ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, com a participação de 750 líderes dos povos Macuxi, Ingaricó, Taurepang, Sapará, Sanumá, Patamona, Wai Wai, Wapichana, Yanomami, Yekuana, das Comunidades Indígenas (...) reunidos nos dias 06 a 10 março de 2010, na Comunidade Indígena ARAÇÁ, região do Amajari, Terra Indígena Araçá, amparados pelos dispositivos constitucionais do artigo 176, 231 e 232 da Constituição Federal, na Convenção 169 da OIT e na Declaração da ONU sobre Direitos dos Povos Indígenas, após amplo debate e avaliação sob o tema "Garantir a Produção Sustentável Preservando o Meio Ambiente", assim declaramos. (Carta da 39ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, 2010. Grifos nossos.)54 Tendo em vista que as cartas indígenas não são cartas pessoais, mas que representam uma coletividade – um ou mais de um povo indígena –, tomaremos sob observação o ‘nós’, pronome com que geralmente é iniciado o texto. Retomando algumas partes dos recortes, temos: - “Nós, Yanomami”. (SD137) 51 Disponível em http://www.cir.org.br/portal/?q=node/55. Acesso: mai. 2010. Disponível em: http://www.direitos.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=2583&Itemid=2. Acesso: jun. 2010. 53 Disponível em: http://www.cir.org.br/noticias.php?id=634. Acesso em set. 2009. 54 Disponível em: http://www.cir.org.br/noticias.php?id=701. Acesso em abr. 2010. 52 174 - “nós, lideranças indígenas do Estado de Roraima, (...) dos povos dos povos Ingaricó, Macuxi, Taurepang, Sapará, Sanumá, Wapichana, Wai Wai, Yekuna e Yanomami”. (SD138) - “Nós povos indígenas de Roraima, reunidos (...) com a presença de 702 lideranças indígenas, pertencentes aos povos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang, Wai Wai, Sapará, Yekuana, Yanomami, Xirixiana, Pemón e Patamona” (SD139) - “Nós Wapichana, Macuxi, Yanomami, Ingaricó, Patamona, Taurepang, Sapará, Wai-Wai, Waimiri-Atroari e Yekuana somos aproximadamente 70.000 brasileiros residentes na capital e no interior de Roraima num total de 448 aldeias. (SD140) - “A 39ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, com a participação de 750 líderes dos povos Macuxi, Ingaricó, Taurepang, Sapará, Sanumá, Patamona, Wai Wai, Wapichana, Yanomami, Yekuana, das Comunidades Indígenas (...) reunidos nos dias 06 a 10 março de 2010, (...) assim declaramos. (SD141) É possível extrair uma espécie de modelo de apresentação que se mantém nas cartas analisadas (à exceção de uma): inicia-se o texto pelo pronome ‘nós’ imediatamente seguido da explicitação dos povos indígenas a que ele se refere. E, sem reserva, em todas as cartas são nomeados os povos que estão representando suas comunidades. Não se trata, pois, de um ‘nós’ em que a referência discursiva é nãonomeada. Diante disso, como compreender essa apresentação dos índios para os brasileiros ao pautarem a questão da posse da terra? Pela nomeação que sobrevém ao ‘nós’, aponta-se um coletivo cujos limites são necessariamente circunscritos em relação à etnia. Delineia-se, assim, uma restrição que exclui da construção discursiva da referência de ‘nós’ quaisquer indivíduos que não sejam ‘índios’, que não se faça reconhecer como pertencendo a um povo, a uma etnia. O ‘nós’, nas cartas indígenas, em vez de pretender a todos abranger, afirma a exigência da singularidade de cada povo. Ressalvamos que esse mecanismo discrepa do uso do plural nos vocábulos ‘índios’ ou ‘indígenas’, pois nomear a etnia difere de homogeneizá-las pela marca indicativa de “mais de um povo indígena”. Ou seja, nas cartas indígenas, os índios não se apresentam como “o índio roraimense”, “o índio brasileiro” tampouco aí funcionaria atribuir pluralidade aos sintagmas: “os índios roraimenses”, “os índios brasileiros”. O plural, apesar de comumente indicar ‘mais de um’, não parece comportar a ideia da diferença que os diversos povos – cada um – 175 concebem para si em relação aos outros. O plural não faz sobressair a singularidade dos elementos que reúne. É digno de nota que quando se trata de um só povo, como nas assembleias do povo Yanomami, em suas cartas são nomeadas, uma a uma, as comunidades em que vivem os representantes presentes. Em vez disso, não se diz “índios” Yanomami, por exemplo. Vejamos um exemplo, em que são especificadas as regiões em que vivem os participantes da Assembleia: SD142: Nós lideranças yanomami de várias regiões (Surucucu, Demini, Papiu, Maloca Papiu, Missão Catrimani, Toototopi, Alto Catrimani, Xitei, Ericó, Uraricoera, Saúba, Alto Mucajaí, Haxiú, Baixo Mucajaí e Hakoma) participamos da Assembléia. (Carta da Assembléia Yanomami, 2004.) Nesse sentido, vale observar também como são elencadas as comunidades que participaram da Assembleia, em 2010: SD143: A 39ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, com a participação de 750 líderes dos povos Macuxi, Ingaricó, Taurepang, Sapará, Sanumá, Patamona, Wai Wai, Wapichana, Yanomami, Yekuana, das Comunidades Indígenas: Mutamba, Três Corações, Ponta da Serra, Araçá, Urucuri, Maturuca, Serra do Truaru, Aningal, Cantagalo, São Francisco, Ouro, Maracanã II, Arapuá, Raimundão, Sucuba, Serra da Moça, Mangueira, Limão, Novo Paraíso, Julia, Cachoeirinha, Raposa, Ilainã, Pedra Preta, Morro, Leão de Ouro, Uiramutã, Jawarí, Sawí, Mutum, Santa Rosa, Cajueiro, Morcego, Canauani, Maloquinha, Imbaúba, Lameiro, Matiri, Pedra do Sol, Pedreira, Wixi, Barro, Morro, Que-quem, Santa Tereza, Lage, Barreirinha, Pium, São Gabriel, Cumarú, Wilimom, Juraci, Popó, Bananal, Waromadá, Enseada, Tamanduá, Lago da Praia, Cobra, Samaúma, Jatapuzinho, Kumapai, Triunfo, Mudubim, Nova Felicidade, Rego Fundo, Cedro, Ananás, Urucuri, Sapo, Garagem, Santa Inês, Canavial, São Jorge, São Mateus, Tucumã, Central, Barata, Macaco, Jabuti, Prainha, Jacarezinho, Macuxi, Maravilha, Linha Seca, Beija Flor, Nova Santa Cecília, Sorocaima, Urubu, Jibóia, Cararual, Malacacheta, Socó e Tabalascada, com ausências de outras comunidades por falta de transporte e com a participação dos irmãos macuxi da Guiana Inglesa, reunidos nos dias 06 a 10 março de 2010, (...) assim declaramos. (Carta da 39ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, 2010. Grifos nossos.) De nossa perspectiva, esse cuidadoso inventário de todas as comunidades, a nomeação de cada uma – independente de isso quase alcançar uma centena de nomes – é bastante relevante quanto à constituição dos sentidos para as/nas cartas indígenas, conforme pontuaremos a seguir. Diante da forma predominante de auto-apresentação dos índios (“nós + nomes das etnias”), convém lembrar que, seja ‘índio’, ‘índios’ ou ‘indígenas’, essas formas são 176 marcas de estabilização do discurso sobre os índios, cuja instauração deu-se pelo processo de “colonização linguística” (MARIANI, 2004). Assim, se atualmente, em língua portuguesa dizer ‘índios’ recobre-se de ares de naturalidade, sob a injunção a assim dizer, há modos diversos de apropriação do que é dado como normalidade na língua. E aí não está em questão ser ou não politicamente correto, mas o que se faz significar (e em detrimento do que exatamente) ao se empregar uma e não outra forma como apresentação. Com forma de apresentação, estamos também nos referindo à língua enquanto “forma-material”, marcando a inseparabilidade entre língua-e-história na constituição dos sentidos (ORLANDI, 2004). Pode-se, pelo modo de apropriação de um mesmo vocábulo, vislumbrar a passagem da ordem da língua para a ordem do discurso. Deixa de ser um aspecto referente à organização, à combinação lexical, para dar lugar a esse mecanismo em que a língua e história estão sempre imbricadas. Ou seja, materializa-se na forma da língua uma historicidade outra, que não é a mobilizada nos dizeres sobre os índios. Dessa perspectiva, com/por esse modo de os índios se apresentarem aos brasileiros, pode-se apontar o funcionamento da resistência. Os índios ao “escolherem” fazer extenso arrolamento de cada uma das etnias, não estão “escolhendo” o plural ‘índios’ ou ‘indígenas’. Ele dizem/reconhecem sua diversidade de outro modo: “nós, lideranças indígenas do Estado de Roraima, reunidos (...) com a presença de 744 lideranças indígenas,55 dos povos Ingaricó, Macuxi, Taurepang, Sapará, Sanumá, Wapichana, Wai Wai, Yekuna e Yanomami.” (SD138). Assim, pode-se divisar a resistência dos índios pelo modo de se apropriarem do léxico da língua, deixando entrever que, fora da perspectiva do colonizador que disse “são índios”, eles podem/devem dizer de sua existência na diferença, dando relevância ao antes de serem assim denominados e igualados. Nesse funcionamento, pode-se destacar que mesmo nas poucas vezes em que são empregados os vocábulos ‘índios’ ou indígenas’, isso não se dá sem que antes a identificação nominal das etnias tenha sido feita. O processo discursivo já instaurado impossibilita, pois, que o ‘nós’ se deixe simplesmente intercambiar com o plural ‘índios’ ou ‘indígenas’, o que pode ser corrente em outra Formação Discursiva. 55 Orlandi, em um trabalho apresentado em 1984, observou o uso, pelos índios, das expressões ‘liderança indígena’ e ‘representante indígena’ podendo referir qualquer índio que fizesse uso da palavra para se dirigir ao branco, ao não índio. Ou seja, pode-se dizer que enquanto há repetição sonora, isso não é sem a inserção da palavra em outra historicidade. Há, portanto, re-significação. (ORLANDI, 1990) 177 É digno de observação que, nas cartas, os índios se dirigem diretamente às ‘autoridades brasileiras’. É a essas autoridades que os índios endereçam suas reclamações, reivindicações, exigências. As cartas indígenas são textos que, em grande medida, surgem em virtude de um choque com o poder, como discute Foucault (2003), em A vida dos homens infames. Afinal, não é um dos traços fundamentais de nossa sociedade o fato de que nela o destino tome a força da relação com o poder, da luta com ou contra ele? O ponto mais intenso das vidas, aquele em que se concentra sua energia, é bem ali onde elas se chocam com o poder, se debatem com ele, tentam utilizar suas forças ou escapar de suas armadilhas. As falas breves e estridentes que vão e vêm entre o poder e as existências as mais essenciais, sem dúvida, são para estas o único monumento que jamais lhes foi concedido; é o que lhes dá, para atravessar o tempo, o pouco de ruído, o breve clarão que as traz até nós. (FOUCAULT, 2003, p. 207) E, no caso dos índios, não se pode esquecer o estado de tutela sob que vivem, em que o Estado (as ‘autoridades’) está no lugar de exercê-la. Conforme o que se tem apontado em nossas análises, não parece ser demasiado “lermos” as cartas indígenas como materialidades em que se expressam os que “se chocam com o poder, se debatem com ele, tentam utilizar suas forças ou escapar de suas armadilhas”, “discursos que, na desgraça ou na raiva, eles trocam com o poder.” (Talvez possamos acrescentar que são “discursos que, na desgraça [E] ou na raiva, eles trocam com o poder.”). Nessa “troca” proposta nas cartas, deixa-se vislumbrar um modo diverso de utilização das forças ou de como escapar das armadilhas do poder. Dois aspectos dignos de nota: os ‘brasileiros’, ‘todos os brasileiros’ não se encontram assim projetados nas cartas, não são possíveis interlocutores/destinatários. Tampouco funciona a generalização em torno dos implicados nas reivindicações postas: “Nós, Yanomami, não queremos que outras pessoas a destruam, sejam eles garimpeiros, fazendeiros, colonos, militares, pescadores, madereiros ou empresas mineradoras. Não queremos que eles invadam nossa terra e destruam nossa floresta.” (SD137). Ou ainda em: SD144: Nós lideranças yanomami de várias regiões (Surucucu, Demini, Papiu, Maloca Papiu, Missão Catrimani, Toototopi, Alto Catrimani, Xitei, Ericó, Uraricoera, Saúba, Alto Mucajaí, Haxiú, Baixo Mucajaí e Hakoma) participamos da Assembléia e assim decidimos: os garimpeiros, os madeireiros, os colonos e fazendeiros do Repartimento (Ajarani), os pescadores, nenhuma dessas pessoas queremos em nossa terra, porque 178 essas pessoas trazem epidemias e destroem. (Carta da Assembléia Yanomami, 2004. Grifos nossos.) Assim, parece não caber no discurso indígena os sentidos carreados pelo “etc.”, como vimos funcionando nas séries em que os índios são inseridos, nas cartas políticas. Nas cartas indígenas, no que se aponta para alguma generalização, não é relativa a todos os brasileiros, mas aos grupos que efetivamente invadem as terras indígenas. Por esse modo de construção discursiva tanto de si quanto dos destinatários e dos outros não índios de que se fala nas cartas indígenas, depreende-se uma diferença inscrita em outra visada que não a eurocêntrica, uma visada que opera com a prática das diferenças. Estamos, com isso, considerando que o discurso indígena não homogeneíza o outro com que se depara. Antes, separam os brasileiros de si, mas também os separa entre eles, não concebendo os ‘brasileiros’ como coincidentes entre si. Nesse sentido, podem-se ler as extensas listas de nomes das autoridades a quem se dirigem: SD145: Excelentíssimos Senhores: LUIS INACIO LULA DA SILVA – Presidente da República; CARLOS MINC – Ministro do Meio Ambiente; TARSO GENRO – Ministro da Justiça; FERNANDO HADDAD – Ministro da Educação; JOSÉ GOMES TEMPORÃO – Ministro da Saúde; ROBERTO MONTEIRO GURGEL SANTOS – Procurador Geral da República; DEBORAH DUPRATT DE BRITO MACEDO – Coordenadora da Sexta Câmara; MARCIO AUGUSTO FREITAS DE MEIRA – Presidente da Fundação Nacional do Índio; FRANCISCO DANILO BASTOS FORTE – Presidente da Fundação Nacional de Saúde; BASILEU ALVES MARGARIDO NETO - Presidente do IBAMA; PAULO VANUCCI – Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos; LUIZ FERNANDO CORREA – Diretor da Policia Federal; ILMA XAUD – Secretaria Estadual de Educação-RR. E demais autoridades. (Carta da 39ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, 2010.)56 Talvez com isso também se possa vislumbrar aí funcionando uma perspectiva arquitetada fora da noção de nação, de Estado e seu modo de funcionamento. Estado com seus limites físicos precisos (e amplos, no caso brasileiro), suas exigências de direitos e deveres sobredeterminando o sentimento de proteção e de defesa em relação ao espaço físico de onde o cidadão é, ou onde vive. Nesse sentido, textualiza-se a disjunção com que os índios se colocam em relação aos brasileiros, o todo nacional. É nessa direção que nos voltamos para pensar as cartas indígenas não com o intuito de nelas ler o que de “branco” as atravessa, mas enfocando, sobretudo, o que nelas resiste, o que nelas resta incontornável, impossibilitando-as de serem atribuídas ao 56 Esta não é a lista de nomeação mais extensa. Há cartas em que esse arrolamento chega a dezenove nomes. 179 discurso sobre os índios. Dizer de si desiguala-se, não equivale ao dizer sobre. Pensamos que a forma de apresentação dos índios em suas missivas endereçadas aos brasileiros manifesta essa disjunção incontornável. Mas desse funcionamento não estamos descartando as contradições que no discurso indígena avultam. Não é disso que se trata, ao contrário, na perspectiva discursiva acolhe-se a contradição como constitutiva dos sentidos. Antes, destacamos que, ao se constituírem como sujeitos distintos dos brasileiros, isso não é sem que os índios também se auto-denominem “brasileiros indígenas”, conforme vimos. Isso posto, voltemo-nos aos recortes feitos nessas cartas em torno da temática do ‘desenvolvimento’. 180 2.2.1 Cartas da terra A terra-floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripë, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los para nos proteger. A terra-floresta se tornará seca e vazia. Os xamãs não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim, todos morrerão. (Davi Copenaua Yanomami, em http://www.cir.org.br/portal/yanomami) Como já dissemos, nossos recortes das cartas passam pelo que na materialidade do texto vai-se tramando em relação aos usos da terra, ou, mais amplamente, a relação do homem com a terra. Em outros termos, trilhamos a textualidade a partir da indagação: terra para o quê senão para o desenvolvimento? Retomamos uma sequência discursiva (SD137) e acrescentamos outras. SD137: Nós, Yanomami, reunidos nesta Assembléia queremos todos defender a nossa terra./ Nós, Yanomami, não queremos que outras pessoas a destruam, sejam eles garimpeiros, fazendeiros, colonos, militares, pescadores, madereiros ou empresas mineradoras. Não queremos que eles invadam nossa terra e destruam nossa floresta. (Carta da 2ª Assembléia Yanomami, 2000. Grifos nossos.) SD146: A vida é um direito universal e fundamental para todos os povos. Para viver é preciso ter condições essenciais que assegurem a dignidade humana. Nossa assembléia vem demonstrar a preocupação com a realidade ambiental em nossos territórios. É histórica a contribuição e importância dos povos indígenas no cenário da qualidade ambiental. Somos filhos da terra. Da natureza vem nossos valores espirituais, crenças e tradições. As matas, os rios, as montanhas têm vida. Representam o equilíbrio do planeta. É preciso que a sociedade não indígena respeite os nossos valores. A cada exploração predatória, como desmatamento, queimada e contaminação dos rios, a natureza morre e o homem também morre. (Carta da 32ª Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima, 2003. Grifos nossos.) SD147: os garimpeiros, os madeireiros, os colonos e fazendeiros do Repartimento (Ajarani), os pescadores, nenhuma dessas pessoas queremos em nossa terra, porque essas pessoas trazem epidemias e destroem. E o que elas destroem? Destroem os rios e 181 a floresta, fazendo desaparecer os peixes e a caça. O fogo já queimou nossa floresta duas vezes. (Carta da Assembléia Yanomami, 2004. Grifos nossos.) SD148: A terra representa nossa própria vida. É ela que nos dá a esperança de que as futuras gerações venham ter a garantia da sobrevivência física e cultural de nossos povos. Por isso, é de extrema importância que sejam livres de todas as formas de invasão, ilegalidade e desrespeito. Somos filhos da terra. Desta vem nossos valores espirituais, crenças e tradições. As matas, os rios, as serras têm vida e representam o equilíbrio e a sobrevivência humana. Da terra vêm nossa identidade, nossas raízes que nos orientam à vida. A terra é nossa mãe! A demarcação e proteção das terras indígenas têm sido fundamentais para a garantia da reprodução física e cultural dos povos indígenas. (Carta da 33ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas do Estado de Roraima, 2004. Grifos nossos.) Como já dissemos, tomamos como fio condutor para a leitura dessas cartas a temática do desenvolvimento, já analisada no jornalismo online e nas cartas políticas. A direção de sentidos apontada nessas análises nos levou à seguinte questão: terra para que senão para o desenvolvimento? Com isso, pudemos focalizar como os usos e finalidades da terra são discursivamente construídos. Dessa perspectiva, sobressai nas cartas indígenas que tais usos e finalidades são concebidos por uma específica relação do homem com a terra. Essa relação produz-se, antes de tudo, pela perspectiva de um conjunto em que estão fortemente relacionados entre si todos os elementos do que hoje se denomina como natureza. No entanto uma diferença já se apresenta em relação a essa concepção ocidental de natureza, separada do social, pois nessas Cartas o homem é dado como parte integrante desse universo natural. Mais que isso, talvez seja melhor dizer que o homem aí é considerado como um todo indissociável, em seus aspectos físicoespirituais e em conjunção visceral com a natureza, o que exemplarmente pode ser nestes termos resumido: “Somos filhos da terra. Da natureza vem nossos valores espirituais, crenças e tradições. As matas, os rios, as montanhas têm vida. Representam o equilíbrio do planeta. (...) A cada exploração predatória, como desmatamento, queimada e contaminação dos rios, a natureza morre e o homem também morre.” (SD145); “A terra é nossa mãe!” (SD147). “Somos filhos da terra”. Dizer-se filho da terra não pode passar sem mais vagar. Não parece ser, nem em primeira instância, um enunciado que se ofereça à livre repetição (caso houvesse essa possibilidade.). Pois, certamente, não está entre os enunciados triviais, ao contrário, pode mesmo causar estranhamento aos nossos ouvidos brasileiros. Interessa-nos observar alguns aspectos do funcionamento desse enunciado. 182 “Somos filhos da terra.” Certamente não é qualquer um que pode repetir esse enunciado. Que impedimentos porta, pois, esse enunciado para assim restringir sua repetição? Urge lembrarmos que os enunciados são regrados. Conforme Foucault (1995): “descrever uma formulação enquanto enunciado não consiste em analisar as relações entre o autor e o que ele disse (ou quis dizer, ou disse sem querer); mas em determinar qual é a posição que pode e deve ocupar todo indivíduo para ser seu sujeito.” (FOUCAULT, 1995, p. 109). Ou seja, não é o indivíduo empiricamente localizável e suas intenções ao dizer que se põem em foco, mas a relação constitutiva entre sujeito e o que ele diz, relação historicamente determinada. A plausibilidade de reações de estranhamento face a esse enunciado dá-se em virtude do que aí ressoa remetendo a diferentes posições sujeito no que tange à relação do homem com a terra. Em outros termos, esse enunciado, em torno do qual convergem diversos outros, constitui-se como base de uma matriz de sentidos pautada em uma concepção específica de interligação homem/natureza. Trabalhar discursivamente essa questão é indagar-se para quem “Somos filhos da terra” é legível e para quem deixa de ser. Nesse sentido, há que se lembrar que se trata de cartas produzidas pelos índios e endereçadas às autoridades brasileiras. Assim, afirmar e explicar o tipo de ligação que mantêm com a terra não se justificaria não fossem os brasileiros os destinatários de tais cartas. É como desconhecedores dessa relação que os brasileiros são projetados no discurso indígena. Pois os índios, sabedores do que a terra representa para si, repetem para os que não possuem tal conhecimento, para os que não pararam para escutar, para os que não tentaram entender, como dizem os compositores da letra da música O sonho de xamã.57 Advertimos que a perspectiva inscrita no/pelo discurso indígena, que opera com a prática da diferença, conforme vimos no item anterior, mantém-se no que tange à questão da terra: a construção discursiva da referência de brasileiros no discurso indígena faz separar os sentidos de brasileiros em relação aos índios. É considerando a apreensão dos sentidos de brasileiros como diferentes que se coloca – como necessidade – dizer: “Somos filhos da terra”, “A terra é nossa mãe!”, ou “a cada exploração 57 Estamos nos referindo à letra da música feita em parceria pelo paraense Nilson Chaves e pelo roraimense Eliakin Rufino, música que faz parte do disco Gaia, de Nilson Chaves (Gaia. Outros Brasis, 2000). Dizem: “Um xamã yanomami sonhou/que a fumaça da civilização/abriria um buraco no céu/ e o céu cairia no chão./O xamã resolveu avisar/o que o sonho queria dizer/mas ninguém parou pra escutar/pouca gente tentou entender./Muito tempo depois deste sonho/a ciência pode então descobrir/que o buraco na camada de ozônio/é por onde o céu pode cair./O meu sonho é que nada aconteça/que a vida não tenha final/que o xamã não desapareça/que o sonho não seja real.” (CD Gaia. Outros Brasis, 2000). 183 predatória, como desmatamento, queimada e contaminação dos rios, a natureza morre e o homem também morre.” (SD145). É preciso não tomar o outro como espelho de si para que a ele se atribua as práticas de morte da natureza e do homem. Como propõe Foucault (id.): Ora, por mais que o enunciado não seja oculto, nem por isso é visível; ele não se oferece à percepção como portador manifesto de seus limites e caracteres. É necessária uma certa conversão do olhar e da atitude para poder reconhecê-lo e considerá-lo em si mesmo. Talvez ele seja tão conhecido que se esconde sem cessar; talvez seja como essas transparências familiares que, apesar de nada esconderem em sua espessura, não são apresentadas com clareza total. (FOUCAULT, 1995, p.128. Grifos nossos.) Diante da não transparência portada pelo enunciado – familiar para uma posição sujeito ‘índios’ e opaca para outra posição sujeito ‘brasileiros’ – de nada serve repeti-lo, com mais ou menos ênfase, pois a envergadura que a interpretação exige é dada pela posição sujeito em que os brasileiros, destinatários das cartas, estão constituídos. O estranhamento possível está inscrito em outra posição sujeito. Com isso, vejamos como vão-se constituindo os sentidos de ‘desenvolvimento’ no discurso indígena. Urge sublinhar que o que ora se apresenta como sempre já-lá pela denominação ‘desenvolvimento’ não é atemporal, mas construção histórica resultante de encontros e desencontros sociais, é datado sócio-historicamente. Nesse sentido, nas quatro primeiras cartas indígenas analisadas, todas anteriores ao ano de 2005, sequer consta o termo desenvolvimento/crescimento. No entanto sabemos que isso não implica em “um nada absoluto dos sentidos” ou uma falta constitutiva dos índios e seus dizeres. Em vez disso, essa ausência do vocábulo pode apontar para algo instituído fora do que essa denominação rotula e oferece como compreensão. Compete indagar: que sentidos estavam já-lá funcionando, exterior e à revelia desse rótulo classificador? A partir de 2005, quando o termo ‘desenvolvimento’ passa a comparecer nas cartas das Assembleias indígenas, há que ser feita uma ressalva. Diferentemente dos recortes das manchetes jornalísticas analisadas neste trabalho, em que ‘desenvolvimento’ consta como se fosse pleno exercício de transparência da língua, em que todos apreendem unanimemente os sentidos pretendidos, nas cartas indígenas o termo ‘desenvolvimento’ não se pretende só podendo significar o que todos já sabem: é um ‘desenvolvimento’ que se concebe sempre exigindo determinações, explicações, negações. Vejamos abaixo. 184 SD149: O esforço, a energia e o tempo que as nossas comunidades, povos e organizações empenham para garantir a demarcação e desintrusão das terras indígenas têm dificultado uma luta maior para avançar em relação às demandas que estão colocadas em termos do desenvolvimento sustentável. Buscamos o desenvolvimento das nossas comunidades, com iniciativas que sejam por nós implementadas, no sentido de diminuir a dependência de produtos que hoje são comprados no mercado e que sejam sustentáveis em termos sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais. A comunidade indígena, de acordo com suas realidades tem desenvolvido diversas iniciativas que precisam ser apoiadas para garantir a sua auto-sustentação e geração de renda. (Carta da 34ª Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima, 2005. Grifos nossos.) SD150: Os povos indígenas vêm conquistando espaços nas diversas instâncias governamentais e buscando implementar seus projetos de etno-desenvolvimento. Neste sentido, é necessário promover uma educação de qualidade e compromissada com a causa indígena. (...) Aguardamos o cumprimento do Decreto Homologatório de 15 de abril de 2005, o qual determina o prazo de 01 (um) ano para retirada dos invasores de nossa terra. Essa é a nossa prioridade. (Carta da 35ª Assembléia dos Povos Indígenas de Roraima, 2006. Grifos nossos.) SD151: Salientamos que Vossa Excelência deu enorme contribuição para a melhoria da auto-estima e da esperança dos brasileiros indígenas, cidadãos brasileiros como todos os demais, apenas orgulhosos de não precisarmos viver de migalhas e de não mais sermos enganados.// Só queremos paz e respeito, e que os projetos que vierem a ser desenvolvidos em nossas terras não sejam meramente políticos, destinados a divisão de nossos povos, mas de benefício, melhoria e preservação de nossa cultura, de nossa fauna e nossa flora. Acreditamos que desenvolvimento e cidadania conquistaremos com uma agricultura sustentável e orgânica, diferente das plantações que envenenaram nosso solo e nossa água, acabaram com os animais e com a plantas em tantas localidades de nosso território. (Discurso feito para o Presidente da República por um índio, representante de dez povos indígenas de Roraima. Boa Vista, 2009. Grifos nossos.) SD152: Manifestamos também nossa veemente repulsa à excessiva burocracia para o acesso aos recursos federais indispensáveis ao desenvolvimento sustentável de nossas comunidades indígenas. (...) Desenvolvimento sustentável não deve ser assistencialista, mas baseado no etnodesenvolvimento e na educação; manifestamos nosso apoio à Coordenação de Apoio ao Etnodesenvolvimento da FUNAI, que tem realizado um bom trabalho mas necessita de recursos para a implantação de novos projetos. (...) Os órgãos responsáveis devem apoiar com recursos financeiros às atividades do Centro de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol, tendo em vista a sua contribuição para o desenvolvimento das comunidades indígenas nas áreas de educação, agropecuária e manejo ambiental. (Carta da 39ª Assembléia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, 2010. Grifos nossos.) Assim, em lugar da pressuposição de um já-sabido, aponta-se para seu oposto: é preciso dar a saber, fazer conhecer o ‘desenvolvimento’. Os esclarecimentos que em outra Formação Discursiva se faziam desnecessários, aqui se tornam imprescindíveis: são imperativos para discernir e cerzir a diferença, a oposição. Inicialmente, vale 185 ressaltar que a razão de discutir sobre o ‘desenvolvimento’ surge em virtude de demandas externas e em relação às quais se constrói um distanciamento. Assim, o desenvolvimento tramado lá, fora das comunidades indígenas é deslocado e contraposto: “buscamos o desenvolvimento das nossas comunidades, com iniciativas que sejam por nós implementadas, no sentido de diminuir a dependência de produtos que hoje são comprados no mercado e que sejam sustentáveis em termos sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais” (SD149); o “desenvolvimento sustentável não deve ser assistencialista, mas baseado no etnodesenvolvimento e na educação” (SD152). “Acreditamos que desenvolvimento e cidadania conquistaremos com uma agricultura sustentável e orgânica, diferente das plantações que envenenaram nosso solo e nossa água, acabaram com os animais e com as plantas em tantas localidades de nosso território” (SD151). Sobretudo, em vez de o desenvolvimento ser acatado como prioridade, os índios reafirmam outra posição: a “retirada dos invasores de nossa terra. Essa é a nossa prioridade” (SD150). Assim, outros sentidos vão sendo circundados e outra concepção de desenvolvimento ganha forma, definindo-se em relação ao ‘desenvolvimento’ dado como evidente, mas também em relação aos sentidos que funcionavam antes, já-lá e independente dos sentidos predominantes de ‘desenvolvimento’. Todavia trata-se de desenvolvimento. Determinado que seja, já não é sem desenvolvimento. Com isso, retomemos alguns aspectos. À medida que fomos construindo e com as primeiras leituras de nosso arquivo, fomos percebendo uma estrutura-suporte para os dizeres sobre a posse indígena da terra que apontam para um ‘impossível-semdesenvolvimento’. Ou seja, de modo geral, o desenvolvimento vai sendo mobilizado pelo discurso jornalístico e pelo discurso político roraimense como um centro catalisador, sinalizando o estabelecimento de uma injunção ao desenvolver-se. Ao mesmo tempo são banidas da ampla circulação dos sentidos quaisquer palavras para dizer outro modo de existência que não o centrado no desenvolvimento: não há o ‘forado-desenvolvimento’. Certo é que se houve ou se há qualquer outra forma, nem o discurso jornalístico nem o discurso político lhe reserva algum espaço de atenção. Assim, o que é denominado como ‘desenvolvimento sustentável’ passa a integrar todos os discursos analisados. Mesmo sob uma forma de apropriação diversa, o discurso indígena não deixa de mencioná-lo, ou mais que isso, não pode ignorá-lo, deixar de posicionar-se em relação: há demandas. 186 Algumas notas como início de reflexão sobre os efeitos de sentido dessa injunção ao desenvolvimento. De nossa perspectiva, podemos vislumbrar ‘desenvolvimento’ inserido em uma base de sentidos correlacionados, bastante dilatada, podendo até mesmo ser pensada como um grande “reservatório” de sentidos atualmente possíveis sobre o modo de existência ocidental. Nessa ampla região heterogênea, múltipla, contraditória, a concepção específica de desenvolvimento é o foco passível de nuances diferenciadas, pelo que se estabelece filiação a dada rede de sentidos, pelo que se institui uma Formação Discursiva em relação a outras. Com isso, e considerando os processos discursivos [diversos] que, pela nossa análise, foram-se dando a ver, propomos que há duas regiões de sentido opostas, duas Formações Discursivas, portanto. Uma é a Formação Discursiva (FD1) que fornece os sentidos do ‘desenvolvimento’ que se pretende transparente, e cuja literalidade é devida à predominância desses sentidos em relação aos demais. Nem aí, no entanto, o sentido é único, ou seja, não há o desenvolvimento, mas construções discursivas diferenciadas. Essa FD1, heterogênea e contraditória, apresenta uma gama diversa de sentidos que propomos poder ser pensada em um percurso em torno do ‘desenvolvimento’ que, em sua vertente mais forte, equivale ao ‘desenvolvimento econômico’, pelo qual objetiva-se a máxima obtenção de lucros, e, em sua vertente mais fraca, desemboca no ‘desenvolvimento sustentável’58, conforme podemos visualizar na linha ‘um’ a seguir: desenvolvimento econômico ←DESENVOLVIMENTO→ desenvolvimento sustentável Disso interessa-nos frisar que os sentidos em torno da temática do desenvolvimento não sendo estáticos, funcionam nessa dinâmica regida pela multiplicidade de práticas e dizeres heterogêneos em relação aos quais o discurso indígena está em relação. Conforme o Novo Dicionário Aurélio (1986), desenvolvimento é o “estágio econômico, social e político de uma comunidade, caracterizado por altos índices de rendimento dos fatores de produção, i. e., os recursos naturais, o capital e o trabalho.”59 Há que se sublinhar que nessa edição do Dicionário Aurélio sequer consta a expressão ‘desenvolvimento sustentável’. Segundo foi proposto pela Comissão Mundial sobre o 58 Com isso, pode-se pensar em diferentes modos de identificação do sujeito a essa região de sentidos. Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. São Paulo, SP: Nova Fronteira. 59 187 Meio Ambiente e Desenvolvimento, uma comissão das Nações Unidas instituída em 1983, desenvolvimento sustentável é aquele que “atende as necessidades do presente sem comprometer as possibilidades de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades.”60 Mas esses sentidos do tão propalado desenvolvimento sustentável, apesar de ser uma noção que circula há pouco mais de duas décadas, pretendem recobrir grande parte do que fora mero desenvolvimento. Esse parece ser um dos deslizamentos de grande monta que se (im)põem na contemporaneidade: o desenvolvimento nessa vertente de aquisição de lucros sem preocupações com determinados critérios – que foram sendo historicamente elaborados – parece diminuir seu poder, pelo que vai-se interpondo o desenvolvimento sustentável. Não sem resistência de várias ordens, certamente. A partir dos aspectos anteriormente discutidos quanto ao discurso indígena, pode-se dizer que, aquilo que é rotulado como ‘desenvolvimento sustentável’ não acolhe a múltipla dissensão que esse discurso indígena suscita. Desenvolvimento, cujo funcionamento se mostra complexo, ultrapassando a bipolarização ‘desenvolvimento’ versus ‘desenvolvimento sustentável’. Outra Formação Discursiva (FD2) explicita-se pelos sentidos que escapam do que é possível na linha dicotômica do ‘desenvolvimento econômico’ X ‘desenvolvimento sustentável’. Para esses sentidos que escapam, o campo do ‘desenvolvimento sustentável’ resulta estreito, pouco matizado. Para além disso, também podemos vislumbrar que não é uma questão de ser pouco ou muito sustentável: diz respeito à constituição mesma dos sentidos, em sua historicidade, como veremos adiante. Ao determinar ‘desenvolvimento’ o discurso indígena expõe a trama de sentidos que a linha dicotômica ‘desenvolvimento econômico X desenvolvimento sustentável’ não comporta. Nas cartas indígenas, constrói-se uma base de sentidos cujo princípio diferencial constitui-se pela interdependência homem-natureza. Ou seja, a palavra ‘terra’, objeto simbólico, dá lugar a uma rede de sentidos diversa. Nas cartas indígenas, a terra não é, a princípio, tomada enquanto materialidade física, superfície e subsolo, e, não sendo concebida desse modo, outro é o laço e o trato que com ela o homem mantém. Postulamos que ‘terra’ assim significada funda e espraia sentidos para os 60 Relatório Nosso Futuro Comum, publicado em 1987, pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Disponível em: www.fsma.edu.br/.../4ed_O_Desafio_Do_Desenvolvimento_Sustentavel_Gisele.pdf. Acesso em: 25/11/2010. 188 demais significantes dessa rede: homem, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, etnodesenvolvimento, educação, cidadania, qualidade de vida, geração de renda, etc. É, pois, a partir dos sentidos de terra ancorados em outro imaginário e em outra historicidade que pode haver sentido tão diverso. (Sustentar (e sustentar-se) essa concepção não-compartimentada do homem e do mundo não é de pouca consequência, se se considera o todo sedimentado do dizer científico na atualidade, separando o homem do resto que o rodeia e compartimentando mesmo em relação a si.) Voltemo-nos sobre a Formação Discursiva (FD2). Como já dissemos, a multiplicidade nesse complexo de sentidos é organizada sob as formas pelas quais vaise estabelecendo a relação homem-e-natureza. Propomos, por enquanto, uma linha ‘dois’ condutora desses sentidos. Dispomos verticalmente os termos e expressões que constituem o processo discursivo. 189 FORMAÇÃO DISCURSIVA 2 FORMAÇÃO DISCURSIVA 1 FORA-DO- ←ETNODESENVOLVIMENTO/ ← DESENVOLVIMENTO→ DESENVOLVIMENTO DESEVOLVIMENTO TERRA↔HOMEM SUSTENTÁVEL-1 SUSTENTÁVEL-2→ ↓ ↓ ↓ somos filhos da terra; da natureza vem nossos valores espirituais, crenças e tradições. Nossa Terra é nossa Mãe, não se tira os filhos de sua mãe a natureza morre e o homem também morre → ←auto-sustentação e geração de renda; desenvolvimento das nossas comunidades, com iniciativas que sejam por nós implementadas, no sentido de diminuir a dependência de produtos que hoje são comprados no mercado e que sejam sustentáveis em termos sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais → →benefício, melhoria e preservação de nossa cultura, de nossa fauna, de nossa flora → ←terra onde nasceram ou que escolheram para produzir riquezas A terra representa nossa própria vida. É ela que nos dá a esperança de que as futuras gerações venham ter a garantia da sobrevivência física e cultural de nossos povos. → → As matas, os rios, as montanhas têm vida. Representam o equilíbrio do planeta. → ←desenvolvimento e cidadania ... com uma agricultura sustentável e orgânica → ← desenvolvimento sustentável ... baseado no etnodesenvolvimento e educação → ←Não consentimos à construção da Usina Hidrelétrica no nosso rio Cotingo – um patrimônio natural das nossas comunidades –, por prejudicar nosso meio ambiente, nossos campos, a caça e a nossa vida tradicional. Não aceitamos a construção hidroelétrica na cachoeira do Tamanduá no Rio Cotingo e exploração de minérios na TI. RSS → ← em parceria com outros órgãos públicos e privados, especialmente agroindústria, turismo, pecuária e de projetos auto-sustentáveis; que atenda interesses do Brasil e dos 25 milhões de brasileiros que habitam a região e a justificam como território pátrio; o legítimo interesse nacional. ← pressupõe o equilíbrio entre a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social e a preservação do meioambiente ← um projeto nacional de desenvolvimento, pelo qual o Brasil possa fazer o pleno e bom uso de seus enormes recursos humanos e naturais ← capaz de garantir o desenvolvimento e a liberdade para a presente e as futuras gerações ←Defendemos a execução de um grande programa estratégico de construção de infra-estrutura física, principalmente de transportes, energia e comunicações Tabela: Formação Discursiva 2 Propomos dois momentos distintos para a compreensão da tabela Formação Discursiva 2. Num primeiro momento, ressaltamos que a relação entre ‘fora-dodesenvolvimento’ e ‘etnodesenvolvimento/desenvolvimento sustentável-2’ dá-se obrigatoriamente no encadeamento sequencial da esquerda para a direita – e não o inverso. Com essa direção, marca-se que aquilo que se constrói como efeito de sentido 190 para ‘etnodesenvolvimento/desenvolvimento sustentável-2 não é a partir de ‘desenvolvimento’, conforme pôde-se verificar na linha ‘um’. Necessariamente, esse ‘novo’ processo organiza-se a partir de uma “plenitude” de sentidos que estava já-lá, operando sob sua própria obviedade e evidência, e autônoma em relação ao ‘desenvolvimento e instaurada em outras práticas’. Os sentidos que queremos destacar são aqueles para os quais o discurso político não tem palavra para rotular, e que aqui estamos chamando de ‘fora-do-desenvolvimento’. Trata-se de sublinhar o funcionamento de outra historicidade, de uma memória outra pelas quais os povos indígenas, mesmo quando remetem a ‘desenvolvimento sustentável’, dizem outra coisa, e deixam à mostra no discurso que a sobreposição/repetição da expressão não desfaz a diferença, não homogeneíza os discursos sobre os índios e o discurso dos índios. Num segundo momento, há que se pensar o percurso da linha ‘dois’ já em mão dupla, posto que aquilo ora apresentado como ‘desenvolvimento sustentável-2’ não é sem os sentidos fundantes do ‘fora-do-desenvolvimento’. Não há o apagamento destes sentidos, há processo metafórico em que uma palavra é tomada pela outra (mantendo em si resquícios de sentido do que já fora), conforme entendemos em Análise do Discurso (PÊCHEUX, 1997 [1975]; ORLANDI, 2000). Há deslizamento de sentidos. (E há uma direção nesse deslizar. Ou seja, com isso estamos chamando a atenção para o fato de que “os sentidos não deslizam para qualquer sentido”.) Entretanto vale frisar que esse processo não aconteceria dessa forma – ou mesmo nem ocorreria – se não fossem os sentidos predominantes oriundos de outra Formação Discursiva, a FD1. Ou seja, é também em relação aos sentidos da linha ‘um’ (os sentidos do ‘desenvolvimento econômico/desenvolvimento/desenvolvimento sustentável-1’) que as cartas indígenas são formuladas. É isso que se materializa na injunção a determinar, a explicar, a negar o ‘desenvolvimento’ lá proposto, na FD1. Assim, a direção de sentidos apontada nas cartas indígenas não resta isolada dos outros dizeres, inclusive, aqueles com que ela mantém relação de oposição. Vale repetir que o ‘desenvolvimento’ do jornalismo online e das cartas políticas têm a FD1 como sua matriz de sentidos, conforme analisamos nas partes anteriores deste trabalho. Certo é que não há o ‘fora-do-desenvolvimento’, a não ser nas Cartas indígenas. Nos discursos jornalístico e político não se diz sobre outro modo de conceber o homem e suas formas de necessitar, e outra maneira de idealizar a satisfação de tais anseios. Isso resta como um “inominável modo de existir”. Assim, o ‘fora-do-desenvolvimento’ é plausível, não sem ressalvas. Por não ser predominante, torna-se um possível que não 191 é defensável, pois soa ingênuo, destituído mesmo de razão. Sem espaço para ser formulação, ter circulação e fazer sentido amplamente. Resta circunscrito ao discurso indígena. Para lembrarmos os termos de Pêcheux (1997a), é algo fora da “necessidade universal de um mundo semanticamente normal”. Assim, não é demais ressaltar que, em contraposição a esse efeito de anormalidade discursiva do estar ‘fora-dodesenvolvimento’, edifica-se a predominância dos sentidos da contemporaneidade ocidental em sua faceta econômica neoliberal, em que nos encontramos não só inseridos, mas constituídos. Conforme propomos anteriormente, é a partir da construção discursiva da referência de ‘terra’ que, na Formação Discursiva-2, os sentidos de toda a cadeia parafrástica vão sendo construídos. Ou, em outros termos, é a partir da adoção da terra como mãe, de se poder enunciar “somos filhos da terra”. No que ser filho da terra implica, então? Um dos aspectos mais visíveis dos efeitos dessa implicação está em que, em sendo filhos da terra, não pode sobre eles recair a afirmação: “terra onde nasceram ou que escolheram para produzir riquezas”. Pois esses são os pólos opostos que situam a relação homem/natureza. Em um, relação de laço constitutivo e indissolúvel, a reverência, a ancestralidade (a família); no outro, elo exploratório, interesses pátrios, nacionais. É digno de nota como o vocábulo ‘equilíbrio’ figura nos dois campos. No discurso indígena diz-se: “As matas, os rios, as montanhas têm vida. Representam o equilíbrio do planeta.” No discurso político, afirma-se que “o desenvolvimento sustentável pressupõe o equilíbrio entre a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social e a preservação do meio-ambiente.” São equilíbrios não só distantes, mas mesmo cegos entre si. Contudo, saindo dos extremos opostos, o que se trama na coluna central, pode-se depreender que o que se constrói como referência discursiva para ‘desenvolvimento sustentável’ tem por esteio fundante a indissociabilidade homem-natureza. Assim, o emprego do sintagma tem os contornos de seus sentidos dados a partir de “desenvolvimento das nossas comunidades, com iniciativas que sejam por nós implementadas, no sentido de diminuir a dependência de produtos que hoje são comprados no mercado e que sejam sustentáveis em termos sociais, ambientais, econômicos, políticos e culturais”; em “benefício, melhoria e preservação de nossa cultura, de nossa fauna, de nossa flora”; “desenvolvimento e cidadania ... com uma agricultura sustentável e orgânica”; baseado no etnodesenvolvimento e educação.” Com esse processo parafrástico explicita-se o traço que fortemente vincula o 192 desenvolvimento sustentável-2’ com o ‘fora-do-desenvolvimento’: a relação com a terra. Em outros termos, o homem não é tomado em desconexão com a natureza, nem a natureza é referida como mero objeto distanciado do homem. Não se trata, porém, de repetição do que depreendemos abalizando os sentidos de ‘fora-do-desenvolvimento’. Interessa-nos aí ressaltar o não-recobrimento entre ‘desenvolvimento sustentável-1’ e ‘desenvolvimento sustentável-2’, posto que os fins para os quais a terra pode ser convocada são desiguais. Desiguais, independente da forma como tanto o discurso indígena quanto os discursos político e jornalístico se apropriam dos discursos da ecologia, em que estão colados os sentidos predominantes do que denomina como desenvolvimento sustentável. Em duas palavras: é imbricado na própria constituição dos sentidos de “terra, mãe” que o sujeito do discurso indígena se constitui. No outro pólo, constitui-se o sujeito do discurso jornalístico e do discurso político, região em que são constituídos os sentidos de “terra, objeto de exploração econômica”. Como afirma Orlandi (1996, 2001, entre outros), sujeito e sentidos se constituem simultaneamente. Podemos, agora, assinalar que é em relação a essa direção de sentidos apontada para ‘desenvolvimento sustentável-1’ que são construídos os sentidos da harmonização, representados por formulações como “Roraima deve crescer sem desrespeitar direito dos índios”, “o desenvolvimento de Roraima E de índios”. Na análise das manchetes chegamos a essa direção de sentidos pela relação de oposição na formulação intradiscursiva (de cada enunciado); nas Cartas acima, tal processo vai sendo explicitado à medida que se pinça os itens lexicais, expressões e enunciados que pretendem especificar o desenvolvimento não só de Roraima, mas de que toda a Amazônia necessita. Ou seja, são percursos distintos que apontam uma mesma direção de sentidos: circunscrevem uma só direção de sentidos para ‘desenvolvimento’, na qual os índios são sempre apagados. Desenvolvimento que, dizendo-se sustentável restringese e sobrepõe-se ao desenvolvimento econômico: “O desenvolvimento sustentável pressupõe o equilíbrio entre a produção econômica, a geração de empregos, a expansão social e a preservação do meio-ambiente.” 193 CONCLUINDO Certamente muitas são as formas para ‘olhar’ a questão da demarcação de terras para índios no Brasil. Incluindo-se, aí, a possibilidade de mesmo nem olhar, não dar ouvidos, descartando-a como mais um burburinho que circula no mundo urbano. O trajeto que traçamos apresenta-se como um dos olhares que foi fisgado e as questões levantadas representam os pontos que se mostraram proeminentes na discussão acerca da disputa pelas terras do Brasil entre índios e brasileiros. Diante do trajeto efetivado e do que foi possível depreender sobre a direção de sentidos apontada com as análises, merece ser retomado o deslocamento feito no início deste trabalho, sob uma indagação que, como dissemos, não se formula: por que se demarca terra para os índios em vez de se demarcar terra para os outros, os não índios? Esperamos, em relação aos sentidos que foram mobilizados, conforme nossas análises, poder compreender por que se demarca terra para os índios, no Brasil deste início de século XXI. Principiamos nossa análise pelos gestos de interpretação constantes no discurso jornalístico textualizados nas primeiras manchetes que, no sítio do jornal de Roraima, anunciaram a homologação da Raposa Serra do Sol. E, conforme nossas discussões, a posse indígena da terra é deslocada e significada no âmbito jurídico. É irrestritamente como ilegal que a posse indígena da terra tem seus primeiros sentidos construídos. Com isso, avultam dois grandes esquecimentos: a vitória dos índios em um processo de mais de trinta anos, e a legalidade desse processo. Legalidade, diga-se, já tardia, se considerarmos que as terras indígenas deveriam ter sido homologadas até cinco anos após a promulgação da Constituição de 1988. Assim, há um silenciamento imposto aos índios, o direito à palavra, à voz lhes é negado: o que se pode noticiar sobre os índios não acolhe os dizeres sobre a legitimidade e o triunfo indígena quanto à posse da terra. Não há palavra no discurso jornalístico online para dizer da vitória dos índios pelo reconhecimento de suas terras: nada se torna manchete para apontar o que a terra representa para os índios ou que benefícios eles terão. Ao invés disso, diz-se da 194 ilegalidade e dos prejuízos, dos efeitos péssimos para a agricultura causados pela homologação. Refletir sobre as terras do Brasil considerando a cisão quanto ao seu pertencimento, pela propriedade e pela posse da terra, foi nossa segunda incursão de análise nas manchetes do jornalismo online. Para compreender esse funcionamento, buscamos explicitar o que concerne a cada uma dessas noções jurídicas: a propriedade é caracterizada, sobretudo, pela aquisição, ou alguns outros expedientes legais; ao passo que, pelo indigenato, os índios podem permanentemente ocupar as terras em que coletivamente vivem, enquanto bens de propriedade da União. Compreendemos que nesse entendimento resta juridicamente explanada a natureza diversa que rege as formas de ter acesso ao pertencimento da terra. Tal natureza é regulada quanto ao ‘poder ter’, ao ‘como ter’ a terra, para os brasileiros e para os índios, respectivamente. Isso posto, pudemos depreender que as manchetes virtuais não são cegas a essa cisão. O direito à propriedade da terra tem sentidos projetados com ênfase por diversos mecanismos da ordem da língua (na posição de sujeito gramatical, identificado por nomes reconhecidos, etc.) em detrimento dos direitos indígenas à posse da terra (relegados à indeterminação, às posições frasais periféricas.) Ainda nessa parte, examinamos o modo de anunciar a iminência da retirada de brasileiros das terras indígenas, por uma operação policial. Essa operação, iniciada logo após a assinatura de homologação da Raposa Serra do Sol, em 2005, teve três “edições”, sendo que a terceira teve duração de mais de um ano e meio (de março de 2008 até o final de outubro de 2009), contando com a participação de até quinhentos policiais da Polícia Federal e da Força Nacional de Segurança. A presença da força policial em Roraima foi tornada manchete apontando os brasileiros como vítimas, ao serem retirados de “suas terras”, ao passo que os índios sequer foram mencionados, a não ser quando são aliados dos brasileiros. Apaga-se qualquer menção aos direitos indígenas à terra, cuja remissão poderia desestruturar a polarização ‘agressores-vítimas’ e a necessidade de defensores. Nesse processo, avulta a construção desigual da construção discursiva da referência: os brasileiros, aqueles que devem ser defendidos e, os índios, aqueles que sequer são mencionados. Em relação à posse da terra, uma direção de sentidos é traçada: é requerida e fortalecida a legitimidade da propriedade da terra àquele que é apresentado como lesado ao ser retirado de sua terra, o não índio, o brasileiro. 195 No item seguinte, discutimos a nomeação, em língua macuxi, dada a essa operação encarregada de manter a tranquilidade no processo de saída dos fazendeiros das terras indígenas: ‘Upatakon’ que foi traduzida por ‘Nossa terra’. Observamos que, ao nomear em língua macuxi, o Estado (aí representado pela Polícia Federal) caracteriza um discurso sobre diferenciado, posto que estabelece uma relação de exclusividade relativa aos índios: ‘Upatakon’ su-porta o gesto de expulsão dos brasileiros das terras indígenas. Esse mecanismo reforça a direção de sentidos pela qual se afirma a posse indígena da terra: não é ‘nossa terra’, mas ‘Upatakon’. No entanto é discurso sobre. Nesse sentido, vale registrar que, em 2008, o tema da 37ª Assembleia Extraordinária dos Povos Indígenas de Roraima foi denominado pelos índios como “Anna pata anna yan” Nossa Terra Nossa Mãe. Esse modo diverso de determinar a terra, bem explicita a relação diferente dos brasileiros e dos índios com a terra, conforme discutimos. Para os brasileiros, a propriedade, o domínio; para os índios, reverência, elo visceral, de anterioridade, indissolúvel. Por outro lado, pela análise da construção discursiva da referência de ‘Roraima’, pela qual uma totalidade é convocada, os índios são excluídos. Nesse sentido, os índios estão – fisicamente – no Estado, mas excluídos das fronteiras discursivas do Estado, apagados como cidadãos pela questão da terra. Analisamos as manchetes que poderiam ser tomadas como notícias de fatos do cotidiano da cidade, desvinculadas da disputa pelas terras. Ou seja, trabalhamos os sentidos funcionando em dispersão: por condecorações e honrarias concedidas a alguns indivíduos, discutimos formas de manutenção de sentidos da propriedade da terra: dá-se a conhecer aqueles que podem – dentre os todos – fazer parte da história oficial, ficar em sua memória. Poder ser Cidadão orgulho de Roraima é restrito a alguns: é necessário ser pioneiro na produção de arroz, ser quem defende a totalidade dos roraimenses/amazônidas/brasileiros, ou as fronteiras da Nação. Destacamos nossa compreensão do que, em 2009, após a decisão da última instância jurídica sobre a manutenção da posse indígena da terra (o STF), pôde ser formulada como manchete ‘fazenda de Quartiero’ ao lado da predominância de ‘reserva’, ‘reserva indígena’ para referir-se à Raposa Serra do Sol como posse indígena. Isso que pode não provocar estranhamento, para nós aponta o funcionamento do discurso na língua, cuja propriedade diz respeito ao funcionamento da língua na história, nas relações com outros textos, com outros sentidos. 196 Compreendemos que a naturalidade por que se dão essas “escolhas” textuais explicitam o mecanismo que opera e aponta uma direção de sentidos predominante sobre o pertencimento das terras brasileiras. O fundamento que provê as condições necessárias para que os discursos jornalístico e político “encontrem” sentidos naturalizados quanto ao direito à terra. É o que depreendemos funcionando como já-dito fundamental sobre o pertencimento das terras brasileiras: o Brasil é dos brasileiros. Ou seja, compreendemos que esse enunciado – in absentia – garante certos sentidos relativos à possessão da terra, entremeados, dispersos. É em torno desses sentidos que se constitui a Formação Discursa predominante (FD1), na qual, por um funcionamento imbricado, pode dizer que o Brasil é dos brasileiros e, simultaneamente, os índios não são brasileiros. Na parte intitulada A Nação, analisamos o funcionamento do vocábulo ‘indígenas’ em duas expressões: “cozinha indígena” e “brasileiros indígenas”. No que tange à “cozinha indígena” observamos que, em relação a uma possível leitura de reconhecimento de a cozinha indígena, também se constrói uma homogeneização dos diversos povos indígenas e seus diferentes hábitos alimentares. Consideramos os sentidos mobilizados pela irrupção dessa manchete, diferenciando-a das demais, e, sobretudo, tomada em relação aos sentidos apontados nas outras análises. Tornar a cozinha indígena notícia, em um dia especial (o Dia do Índio), encontra esteio em uma memória em que o índio assenta significado de forma homogeneizada, como exótico, figurando no passado.61 Como se não pudesse fazer sentido “a não ser assim”. E, desse modo, o discurso jornalístico exime-se de abordar, por exemplo, a fome que acomete alguns povos indígenas, as causas dessa realidade. Ou seja, compreendemos que a irrupção dessa manchete, sob uma aparência de protagonizar os índios, os mantém significando no campo da cultura, fora da esfera política (ORLANDI, 1990). Quanto a “brasileiros indígenas”, ressaltamos alguns pontos da discussão que empreendemos. Inicialmente, pela longa cadeia parafrástica de que faz parte a expressão, pudemos observar o funcionamento da necessidade de precisar a/de nacionalidade. Diferentemente do que comumente ocorre em relação à nacionalidade, como quando se refere aos outros que vivem no Brasil, os brasileiros. Compreendemos 61 Vale lembrar que, conforme “lemos” a matéria, a receita passada pela FUNAI difere das outras quanto aos comandos do modo de fazê-la: se não era prato para ser preparado por índio, que já conhece os ingredientes e domina as etapas do procedimento, a receita mais se constrói como “para não ser feita” que para se dar a conhecer e a fazer, de fato. O destaque são as outras receitas – brasileiras – com possibilidades de alguma influência indígena. 197 que pela remissão a historicidades diversas, pela trama língua-história, ‘brasileiros indígenas’ exige determinação para se fazer entender (como mecanismo lingüístico), posto que o sintagma não faz parte das formulações cotidianas. Nesse sentido, o funcionamento da nacionalidade é distinto: há os ‘brasileiros’ que podem recorrer à transparência e completude da língua, dispensando explicar, determinar a nacionalidade. Brasileiros que não necessitam requerer nacionalidade. Há separação: a nacionalidade em relação aos índios expõe-se com espessura, exige ser desopacizada. Com isso pudemos discutir a expressão ‘brasileiros indígenas’, considerando-a em relação aos discursos sobre. Compreendemos que, pela tomada da palavra pelos índios, o que é representado por esse discurso dirigido ao Presidente da República, aponta-se um deslocamento no espaço de enunciação da língua portuguesa: há o dizer de si tomando posição, se (re)posicionando face aos discursos sobre os índios. Há um gesto de intervenção do dizer de si no discurso sobre. Os índios, conforme pontuamos, exercem seu “direito lingüístico de resposta” (MARIANI, 2004). Ou seja, há resistência dos índios ao discurso sobre; não há repetição, mas deslocamento do que lá é dito. Para que se tenha uma noção da intensidade dessa intervenção do dizer de si no discurso sobre, voltemo-nos para o arquivo deste trabalho. As manchetes do jornalismo online deste início de século XXI não concedem a palavra aos índios. À exceção de uma única manchete – e fora do campo da disputa pela terra – os índios não podem dizer. Ao considerarmos a expressão em relação a outras construções de idêntica distribuição sintática, observamos a produtividade de algumas face à raridade de “brasileiros indígenas”. Compreendemos, por essa abordagem, que a questão não pode ser discutida pelo viés morfossintático, visto que ‘brasileiros indígenas’ é um sintagma bem formado. Com isso, pudemos destacar que a boa formação das estruturas linguísticas não impede sua “agramaticalidade discursiva”, constituída pela imbricação entre língua e história. Essa relação constitutiva do discurso, também pôde ser discutida em ‘brasileiros indígenas’ pelo que aponta a discussão feita por Maziére e Gallo (2007) sobre o funcionamento dos vocábulos ‘índio’ e ‘brasileiro’ em dicionários de língua francesa e de língua portuguesa. Interessa-nos um aspecto que as autoras destacam ainda funcionando inalterado no Novo Dicionário da Língua Portuguesa. O critério da exterioridade opõe ‘brasileiro’ aos nativos, aos índios. Conforme afirmam as autoras, “os indígenas do Brasil são os brasis”, no que se distinguem, por oposição, de ‘brasileiro’ por este “ser nascido no Brasil; naturalizar-se brasileiro; ter vivido um certo tempo no Brasil” (MAZIÈRE e GALLO, 2007, p. 48). Mas não o nativo. 198 Por esse modo por que se dá a separação entre índios e brasileiros pode-se acentuar em ‘brasileiros indígenas’ o funcionamento de duas distintas historicidades, regendo sua formulação, restringindo sua circulação. Nessa separação, conforme nossa discussão, está imbricada a questão da nacionalidade que é retirada e que os índios requerem como direito. Esses são efeitos de sentido que relegam ‘brasileiros indígenas’ à raridade, à “agramaticalidade discursiva”. No último item dessa parte, nos voltamos sobre outra manchete que, sem integrar aquilo que é repetição no discurso jornalístico sobre os índios, apresenta-se interligada a três outras manchetes, instituindo um ‘domínio de atualidade’ (COURTINE, 2009 [1981]). Em relação a “G1 mostra história de índios que se destacaram” (SD78), discutimos o que se pretende legível, já fazendo sentidos, pondo em funcionamento não um complemento verbal, mas uma espécie de “complemento discursivo” para que a estrutura do enunciado possa ser assim formulada. Consideramos, sob a pretensão de se constituírem em uma só, que estão articuladas duas imagens: a de índios e a de brasileiros. Esse processo deixa-se entrever ao focarmos sobre a valoração positiva das “posições” sociais elencadas: advogado, internauta e miss; e ao observarmos por onde opera esse recorte nas divisões do social. Assim, nossa discussão aponta que é em relação a uma parcela (dada como padrão) da sociedade, que estamos denominando como ‘jovem-urbano-belo-escolarizado’, que os índios se destacam. Mas isso não se dá sem estranhamento, sem que algo reste funcionando como impensado, fora do lugar. Esses resíduos possibilitam pensar que, em relação à constituição dos sentidos de índio, funciona – simultânea e contraditoriamente – um excesso em relação a uma falta. Ou, em outros termos, excedelhe ser índio. Falta-lhe ser brasileiro. Por essa discussão, apontamos o funcionamento de um processo metafórico (PÊCHEUX, 1997 [1975]), em que uma palavra vai sucedendo a outra, mas não sem que algo dos sentidos delas permaneça. É o que consideramos que se estabelece entre vocábulos que ao longo de nossa história têm sido referidos aos índios: ‘civilizar/aculturar/destacar’. Ou seja, é nessa rede de memória que faz sentido dizer “índios que se destacaram”, relacionando tal estatuto ao fato de os índios poderem ser advogado, usar internet e ser miss. Isso posto em relação à disputa pela terra não mobiliza sentidos que remetam à posse indígena da terra, ao contrário, é à propriedade da terra pelos brasileiros que pode aí ser vislumbrada. Na parte intitulada A família, discutimos o funcionamento do vocábulo ‘família’ nas manchetes, pelo que foi possível observar como se articula uma direção de sentidos 199 relativa à disputa pela terra entre índios e brasileiros, tendo em vista a cisão posta pela propriedade e posse da terra. É digno de nota que não nos propusemos, de antemão, investigar esse item lexical em nosso arquivo. Isso se deveu à completa ausência de ‘família’ para referir-se aos índios, nas manchetes do jornalismo virtual. É o que apontamos como ausências significativas no discurso. Buscamos, então, discutir sob que evidências esse vocábulo funciona para que instaure essa separação. Para isso, refletimos brevemente sobre a família brasileira como construção a partir de uma visada eurocêntrica, fortemente concebida pela igreja católica e posterior participação do Estado. A isso, acrescemos que a família, atualmente dita assentada em padrões urbanos, não é sem que ela também esteja ainda marcada pela ‘família patriarcal’, constituída em torno da propriedade da terra. E, como apontam nossas discussões, não nos parece ser sustentável afirmar que a imagem de família mobilizada nas manchetes remeta a padrões urbano-industriais. Certo é que a imagem de família deixa de acolher diversas formas de existência familiar. Com isso, podemos lançar luz sobre certos movimentos político-sociais em que a ‘família’ é relacionada à terra: para manter a terra como propriedade (Marcha da Família com Deus pela Liberdade; Marcha a Roraima), ou para ter acesso à terra (Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e Justiça). Nisso se destaca que a imagem predominante de família é a que é vinculada à propriedade da terra, apagando as outras formas de existência familiar. Pontuamos que é essa imagem de família “naturalmente” detentora da terra que se impõe no funcionamento do discurso jornalístico virtual. Nessa linha, podemos compreender o processo de exclusão dos índios da imagem de família brasileira. Pela discussão que empreendemos, os índios, ao serem excluídos dos sentidos de ‘família’, são de-significados em sua forma de construção de um coletivo menos amplo, o que abarca as subdivisões dentro de uma etnia como núcleo mínimo. Não consideramos a possibilidade de isso remeter ao reconhecimento da diferença quanto a tal organização, posto que nessas manchetes não haja nada que aponte para outra forma de organização, para algo que lhe equivalha. Nesse processo é que consideramos instaurar-se o inominável, “o pequeno coletivo inominável” para quaisquer que sejam as formas dessa organização mínima dos índios. Com isso, face ao que a família representa em nossa formação social, um dos principais efeitos de sentidos para os índios é a negatividade que sobre eles faz pesar essa exclusão. Considerando esse banimento dos índios de família, trabalha-se fortemente para significar a destituição dos direitos indígenas à terra. 200 Na última parte, O desenvolvimento, analisamos as manchetes jornalísticas e o que denominamos como cartas políticas e cartas indígenas tomando como eixo a temática do desenvolvimento (desenvolvimento sustentável) em relação à disputa pela terra entre índios e brasileiros. Buscamos discutir o modo como cada um desses discursos coloca em relação propriedade, posse da terra e desenvolvimento, tendo em vista que, pelas leituras iniciais das manchetes, de diversas formas, a disputa pela terra ou a posse indígena da terra era atrelada ao desenvolvimento do Estado de Roraima. Também sobressaía que o termo ‘desenvolvimento’ era dado como portador de um sentido uno e transparente. Para compreendermos esse processo, observamos de que forma a relação entre desenvolvimento e direitos indígenas era construída no discurso jornalístico. Pela análise do funcionamento dos elementos lingüísticos que estabelecem a conexão entre as partes do enunciado – marcas indicadoras de negação e restrição ou condição (‘não’, ‘sem + infinitivo’) e a conjunção ‘e’ – pudemos depreender posições sujeito distintas em torno do desenvolvimento. Pudemos notar, pelas formas verbais empregadas de 2005 a 2010, um deslizamento de sentidos pelo que se institui uma injunção ao desenvolver-se. Pela nossa discussão pudemos depreender que o ‘desenvolvimento’, que se pretende apreensível por todos, ancora-se em e põe em movimento uma memória relativa aos brasileiros, não aos índios. Com isso, aponta-se como efeito que há O desenvolvimento que os índios, mesmo em separado dos brasileiros, devem alcançar. É o desenvolvimento limitado à suposição de que todos sabem o que é o desenvolvimento, que supõe a impossibilidade de ser de outra forma. Esses são os sentidos predominantes, sediados na Formação Discursiva 1 (FD1), em relação de oposição aos sentidos constituídos em outra Formação Discursiva, a FD2. Nas cartas políticas, examinamos a abertura e o fechamento, observando como o grupo político se apresenta ao pôr em tela a questão da terra. Pela análise do ‘nós’ depreendemos que, no que se remete a ‘mais de um’, delineia-se uma construção discursiva como referência que põe em jogo uma homogeneidade e uma totalidade. Remete-se a todos os que vivem no Estado de Roraima, aos interesses nacionais como argumento para assegurar a terra como propriedade dos brasileiros. Com isso, simultaneamente, apaga-se qualquer alusão nessa referência aos sentidos da posse da terra. Nessa direção, no fechamento das cartas estão sempre expressos os nomes de autoridades e o lugar institucional de onde se fala. Compreendemos que, se pelo mecanismo de requisição de autoria expresso pela assinatura, isso é fortalecido e aponta 201 uma direção de sentidos ao se enfatizar “de onde se fala”, a instituição aí representada: é sempre um lugar (histórico-social), não apagável na injunção à interpretação da carta, remetendo à propriedade das terras em relação aos brasileiros. Pelas análises desses itens nas cartas políticas, depreendemos que, mesmo quando se convoca todos, isso se restringe aos brasileiros – disjuntos dos índios. Ou seja, os índios não estão na referência discursiva construída para os remetentes, tampouco constam entre os destinatários. Mais que isso: os índios não são diretamente mencionados. Só comparecem como argumento “atravessado” sobre o qual se alerta ao conjunto dos brasileiros. No que se refere ao processo de construção de sentidos de desenvolvimento, depreendemos que é em relação à terra e aos usos que dela se pretende fazer que se delineia, pela construção discursiva de referência, a posse indígena da terra como “obstáculos”, “entraves”, “óbices” e se consolida como a situação contrariadora de necessidades. Ou seja, é dado como problema para o Estado a terra que não seja propriedade dos brasileiros, que imponha restrições quanto a seu uso, quanto à forma de exploração. Por essa concepção de ‘terras indígenas’, o funcionamento do vocábulo ‘indígenas’ deixa apagado quaisquer referências ao indigenato, à posse indígena da terra. Nessa linha, depreendemos que naquilo que se apresenta como “solução” apresenta-se também uma disputa voltada para aqueles que podem ser intercambiáveis na posição de tutela e que podem dizer sobre os índios no Brasil. Ou seja, propõe-se alterar o espaço de enunciação sobre os índios, restrito a alguns que têm sido autorizados, científica e legalmente, a dizer sobre os índios no Brasil. Os índios, desse modo, permanecem silenciados. Na total ausência de uso do vocábulo ‘índios’ nas cartas políticas, investigamos o funcionamento do adjetivo ‘indígena’. Por esse mecanismo indireto, os “índios” (indígenas) passam a determinar ‘áreas’, ‘reservas’, remetendo antes à natureza que a condição de sujeitos. Ou seja, em nada equivalendo a brasileiros. Desse modo, os sentidos predominantes nas cartas políticas deixam ver o efeito do trabalho da ideologia entranhado no que se supõe transparência da língua. Nas cartas indígenas, inicialmente, nos voltamos para a textualização de suas abertura e fechamento, observando como os índios, ao se dirigirem aos brasileiros, dizem de si. Ao considerarmos o pronome ‘nós’, depreendemos um modelo de autoapresentação nas cartas indígenas: ao emprego do pronome ‘nós’ segue-se a nomeação de cada etnia. Não há nenhuma forma de plural sem que – antes e sempre – se proceda à 202 especificação particularizando os povos a que se refere, ou, sendo um só povo, procedese à nomeação das localidades em que vivem. Compreendemos que há uma apropriação da língua e não uma repetição, apropriação que deixa ver a diferença, de diversas formas. O que a língua portuguesa oferece como mecanismo de ‘economia linguística’ mostra-se não atendendo o que dela os índios esperam, ou seja, os índios pretendem expressar uma coletividade, mas não uma coletividade que des-identifica e apaga as partes que a constituem. Nesse movimento, pode-se apreender o gesto de resistência dos índios, não só à língua, posto que não há língua sem o histórico-político-ideológico. Resistência ao modo por que foram homogeneizados pelos discursos e práticas que se iniciaram na colonização. Diante disso, se todos assinam ou não a carta, a ênfase já foi atribuída à identificação dos remetentes e, portanto, a autoria. Talvez possamos pensar em uma certa inversão do peso que a assinatura porta, conforme proposto por Derrida (1991). Para o autor, a assinatura, no fim do texto, imprime-lhe função singular, como lei para si e para aquele que o lê. Não teria a cuidadosa enumeração da carta indígena a função da assinatura? Não teria força de lei até mais intensa por essa forma singular de nomear? Quanto aos destinatários, mesmo quando empregam expressões como “e demais autoridades”, isso só comparece após serem elencadas nominalmente as autoridades a que se dirigem, em listas que parecem desprezar o critério da condensação, de economia linguística. Tampouco deixam de mencionar e explicitar os implicados em suas reivindicações: acusam os garimpeiros, fazendeiros, militares. A partir dessas análises, compreendemos que a generalização e/ou as qualificações in absentia não se deixam ver nas cartas indígenas, ao contrário, pode-se mesmo afirmar que há uma retórica da explicitação, da nomeação. Para discutirmos a construção dos sentidos de desenvolvimento nas cartas indígenas, tivemos de nos guiar por outra marca que não só o vocábulo ‘desenvolvimento’, como o fizemos nas manchetes jornalísticas e nas cartas políticas, pois nessas cartas não é esse termo que se faz sobressair. Seguimos o que se foi formulando sobre o que aponta para usos e finalidades da terra, e que foi-se efetivando em torno da relação do homem com a terra, ou com o que atualmente se concebe como natureza. Por tal relação o homem é constituído como um todo indissociável, em seus aspectos físico-espirituais e em conjunção visceral com a natureza: é filho da terra, na terra estão seus valores espirituais, crenças e tradições, de forma que a natureza morre e o homem também morre. Diante disso, discutimos as implicações de se poder dizer “a 203 natureza é nossa mãe!”, “somos filhos da terra”. Compreendemos que se impõe uma restrição à sua enunciação relacionada à posição sujeito constituída tendo em vista a relação do homem com a natureza. A partir de 2005, o vocábulo ‘desenvolvimento’ passou a integrar o léxico das cartas indígenas analisadas. Pelas nossas análises, não há pressuposição de um jásabido, ao contrário, no discurso indígena sobressai a necessidade de dar a saber no que concerne a ‘desenvolvimento’. Para isso, lança-se mão não do que a língua portuguesa pode proporcionar como recurso de condensação, mas da determinação, do acréscimo, das explicações diversas, das negações. Compreendemos que naquilo que se apresenta como desenvolvimento diferenciado, deve-se computar a própria estrutura sempredeterminada como modo de abordar o desenvolvimento. Face à injunção ao desenvolver-se, conforme apontada nos discursos jornalístico e político, o discurso indígena diferencia-se. Pode-se dizer que, em já não sendo sem desenvolvimento, isso não impera como prioridade. Com isso, de forma diversa, todos os discursos analisados – o jornalístico, o político e o indígena – referem-se ao ‘desenvolvimento sustentável’. Pelas análises, pudemos compreender, pela construção discursiva da referência, como a direção de sentidos apontada é diferenciada, mas também a rede de filiação de memória é cindida em relação à Formação Discursiva 1 e à Formação Discursiva 2. Enquanto na FD1, o ‘desenvolvimento sustentável’ advém dos sentidos já dados sobre o desenvolvimento econômico, na FD2 o‘desenvolvimento sustentável’ é intercambiável com ‘etnodesenvolvimento’ e, sobretudo, funda-se em relação ao que os outros discursos não mencionam e ao que estamos nos referindo como ‘fora-do-desenvolvimento’. Destacamos nossa compreensão acerca do que preside a oposição entre as duas Formações Discursivas: a concepção de terra, a relação do homem com a terra. É a partir desse entendimento que se pode dizer “somos filhos da terra” ou pelo que a terra pode ser referida como “terra onde nasceram ou que escolheram para produzir riquezas”. Diante da análise dos diversos aspectos ao longo desta pesquisa, não tentaremos sumarizar uma resposta única e homogênea para o deslocamento proposto como questão no início do trabalho: “por que se demarca terra para os índios em vez de se demarcar terra para os outros, os não índios?” Como vimos, o discurso jornalístico virtual e o discurso político silenciam e apagam – de múltiplas formas – várias respostas e fazem predominar outras em seu 204 lugar. Mas, se nos voltarmos para o discurso indígena, podemos responder que é, em larga escala, porque há resistência dos índios – às respostas prêt-à-porter – que para eles se demarca terras. Conforme a direção de sentidos apontada com as análises dos discursos jornalístico e político, podemos apontar que, se não fosse a resistência indígena, as terras que vieram a ser o Brasil poderiam estar restritas à propriedade: aplacada a posse. Desde o início desta pesquisa, com a cisão do pertencimento da terra, cunhada por dois vocábulos distintos – propriedade, para os brasileiros, e posse, para os índios –, pareceu-nos termos solucionado a questão que poderia ser colocada ao dizermos ‘terras brasileiras’ ou ‘terras do Brasil’. A questão seria: em se dizer ‘terras brasileiras’ não se estaria já excluindo a possibilidade de as terras serem dos índios? Mas isso é o que a língua portuguesa nos impõe dizer, mesmo que seja para des-dizermos. Faz parte de nossa relação com a língua o submeter-se à língua. Sem usarmos ‘terras brasileiras’ estaríamos fadados a produzir repetidas perífrases, e isso não é da ordem da língua, bem se sabe. Nessa diretriz, “esbarramos” em outra imposição: ‘índios’ não são ‘brasileiros’ na escrita deste trabalho. E nesse caso, a perífrase parece mais inatingível. Deixemos, necessariamente, para depois as tantas questões suscitadas. E, sobretudo, as impensadas. 205 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de estado. In: ZIZEK, S. Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro, RJ: Contraponto, 1996. p. 105-142. ______. Resposta a John Lewis. Rio de Janeiro, RJ: Edições Graal, 1978. p. 105-142. CARNEIRO DA CUNHA, M. (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: FAPESP/SMC/Companhia das Letras, 1992. CHARAUDEAU, Patrick. Discurso Político. São Paulo, SP: Contexto, 2006. CONEIN, B. Décrire um événement politique. In: TOLEDO, M. M. (coordinador). El discurso político. México: UNAM y Editorial Nueva Imagem, 1980. p. 55-64. CORTEN, André. Discurso e representação do político. In: INDURSKY, F. e FERREIRA, M. C. L. Os múltiplos territórios da Análise do Discurso. Porto Alegre, RS: Sagra Luzatto, 1999. p. 37-52. COURTINE, Jean-Jacques. Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Carlos, SP: EdUFSCar, 2009. ______. Os deslizamentos do espetáculo político. 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