ESTUDO ESTATÍSTICO DO MANEJO DE RESÍDUOS SÓLIDOS NO RIO GRANDE DO SUL E O REFLEXO NA SOCIEDADE Sergio Murilo Pereira Gil Professor da Universidade Luterana do Brasil - ULBRA Br 116, 5724 Telefone: (051) 491-2706 CEP 92500-000 – Guaíba - RS - Brasil e-mail: [email protected] RESUMO Segundo a Organização Mundial de Saúde, saneamento consiste no controle de todos os fatores do meio físico onde o homem habita, que exercem ou podem exercer efeitos prejudiciais ao seu bem-estar físico, mental ou social. Neste contexto, a preocupação com o tratamento e o destino final de resíduos sólidos urbanos é crescente, em uma sociedade em que a população aumenta diariamente. Todos esses fatores, agregados à falta de disponibilidade de áreas próximas aos centros urbanos para implantação de aterros sanitários, colocam o lixo como um dos principais problemas ambientais da sociedade do século XXI. O presente estudo objetiva realizar um estudo estatístico da disposição de resíduos sólidos no Rio Grande do Sul e o reflexo na sociedade, a partir da análise dos resultados obtidos na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico – PNSB / 2000 (IBGE) e no Censo Demográfico de 2000. ABSTRACT According to the World Organization of Health, sanitation consists of the factors control the physical environment where the man inhabits, which can provide harmful effects to the physical, mental or social characteristics of the human being. In this context, the concern with the treatment and final destination of urban solid residues is increasing, in a society in which the population grows daily. All those factors, added to the lack of available areas close of the urban centers for sanitary embankments implantation, put the organic solid waste as one of the main environmental problems of the society of the XXI century. The present study aims to accomplish a statistical study of the disposition of the solid residues generated in Rio Grande do Sul, and, the reflex in the society is presented, based on the results obtained by the Pesquisa Nacional de Saneamento Básico - PNSB / 2000 (IBGE) and by the Censo Demográfico of 2000. 1. Entidades prestadoras dos serviços de limpeza urbana e/ou coleta de lixo. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico – PNSB (IBGE, 2002), a prestação dos serviços de limpeza urbana e/ou coleta de lixo no Estado do Rio Grande do Sul não ocorre na totalidade dos seus municípios. Verifica-se que em 8 dos 467 municípios esse serviço não é oferecido (Tabela 1). Os municípios que não apresentam serviço são: Arroio Grande, Centenário, Cerrito, Herval, Monte Alegre dos Campos, Muitos Capões, Novo Cabrais e Ponte Preta. Pode-se observar que na Região Sul, além desses, só mais dois municípios de Santa Catarina não oferecem tais serviços. No Brasil esse número constitui-se em 32 municípios, representando 0,58% do total. T abela 1 - M unicípios, total e com serviços de lim peza urbana e/ou coleta de lixo, por situação das entidades prestadoras dos serviços, segundo as G randes Regiões, Unidades da Federação, Regiões M etropolitanas e M unicípios das Capitais - 2000 G randes Regiões, Unidades da Federação, Regiões M etropolitanas e M unicípios das Capitais M unicípios com serv iços de lim peza urbana e/ou coleta de lixo S ituação das entidades prestadoras dos serv iços Total de m unicípios Brasil Sul Paraná 5 475 4 822 73 580 1 149 881 4 264 399 399 358 - 41 1 1 - - 1 293 291 232 1 58 1 1 - 1 - 467 459 291 3 165 P orto A legre Região M etropolitana de P orto Alegre A P refeitura e outra (s) entidades são prestadoras do (s) serv iço (s) 1 159 Florianópolis Rio G rande do Sul O utra (s) entidade (s) é (são) responsáv el (eis) totalm ente pelo (s) serv iço (s) 5 507 Curitiba Santa Catarina A P refeitura é a única ex ecutora dos serv iços Total 1 1 - - 1 28 28 6 - 22 Fonte: IBG E , Diretoria de P esquisas, Departam ento de População e Indicadores Sociais, Pesquisa Nacional de Saneam ento B ásico 2000. Dos 459 municípios gaúchos com o serviço de limpeza urbana e/ou coleta de lixo, em apenas 0,7% do total a prefeitura não é a entidade responsável. Em 291 municípios, o que corresponde a 63,4%, a prefeitura é a única a executá-lo. Nos demais 35,9% a prefeitura tem envolvimento juntamente com outras prestadoras. Tal fato se deve provavelmente à terceirização dos serviços de limpeza municipal, que é muito comum atualmente, pois a prefeitura continua com a responsabilidade pelos serviços, porém contrata empresas para execução da limpeza urbana e/ou coleta de lixo. A Tabela 2 apresenta os gastos com o serviço de limpeza e/ou coleta de lixo. Pode-se constatar que 91% dos municípios gaúchos destinam 5% do orçamento a esses serviços, o que não difere do Brasil e da Região Sul. Em Porto Alegre as despesas variam entre 5% e 10%, sendo que em toda Região Sul apenas dois municípios destinam mais de 20% de seu orçamento, sendo um deles localizado na Região Metropolitana de Porto Alegre e o outro município no Estado de Santa Catarina. T a b e la 2 - M u n ic íp io s c o m s e rv iç o s d e lim p e z a u rb a n a e /o u c o le ta d e lix o , p o r p e rc e n tu a l d o o rç a m e n to m u n ic ip a l d e s tin a d o a o s s e rv iç o s d e lim p e z a u rb a n a e /o u c o le ta d e lix o , s e g u n d o a s G ra n d e s R e g iõ e s , U n id a d e s d a F e d e ra ç ã o , R e g iõ e s M e tro p o lita n a s e M u n ic íp io s d a s C a p ita is - 2 0 0 0 G ra n d e s R e g iõ e s , U n id a d e s d a F e d e ra ç ã o , R e g iõ e s M e tro p o lita n a s e M u n ic íp io s d a s C a p ita is B ra s il Sul P a ra n á C u ritib a S a n ta C a ta rin a F lo ria n ó p o lis R io G ra n d e d o S u l P o rto A le g re R e g iã o M e tro p o lita n a d e P o rto A le g re M u n ic íp io s c o m s e rv iç o s d e lim p e z a u rb a n a e /o u c o le ta d e lix o P e rc e n tu a l d o o rç a m e n to m u n ic ip a l d e s tin a d o a o s s e rv iç o s d e lim p e z a u rb a n a e /o u c o le ta d e lix o (% ) T o ta l M a is d e 5 a 10 A té 5 M a is d e 10 a 15 M a is d e 15 a 20 M a is d e 20 S em d e c la ra ç ã o 5 475 4 338 872 123 33 31 78 1 149 1 013 97 11 7 2 19 399 342 47 6 3 - 1 1 - - - - - 1 291 253 23 2 1 1 11 1 - - 1 - - - 459 418 27 3 3 1 7 1 - 1 - - - - 28 20 4 1 1 1 1 F o n t e : IB G E , D ir e t o r ia d e P e s q u is a s , D e p a r t a m e n t o d e P o p u la ç ã o e In d ic a d o r e s S o c ia is , P e s q u is a N a c io n a l d e S a n e a m e n t o B á s ic o 2 0 0 0 . 2. Caracterização do lixo doméstico No que diz respeito à característica dos resíduos sólidos no Brasil pode-se ressaltar o grande potencial de reciclagem dos mesmos através do aproveitamento da matéria orgânica. Em Porto Alegre, o teor de matéria orgânica constitui-se em aproximadamente 52%. Percentual este passível de compostagem. Entretanto, observa-se a necessidade do aumento deste teor, através da diminuição do teor de materiais inertes junto com a matéria orgânica destinada a compostagem. O grande problema das chamadas “Usinas de Reciclagem de Lixo” é a triagem dos materiais na esteira ou local de separação dos resíduos recicláveis secos e rejeitos. Normalmente ocorre apenas a separação dos materiais recicláveis secos, (papel/papelão, vidro, plástico, metal e outros). Os rejeitos (plásticos não recicláveis, madeiras, isopor e outros) encaminhados ao pátio de compostagem, prejudicam a operação no pátio de compostagem e a qualidade final do composto produzido. A qualidade do composto orgânico produzido é obtida em função de três fatores básicos: a característica da matéria prima; o tipo de sistema; e a eficiência do controle operacional (DMLU, 1997). Os usos mais comuns do composto orgânico contemplam: hortas; hortos e viveiros; agricultura, em geral, e fruticultura; floricultura; programas de paisagismo, parques, jardins, play-grounds; programas de reflorestamentos; controle de erosão; recuperação de áreas degradadas; recuperação vegetal de solos exauridos; controle de doenças e pragas agrícolas; cobertura e vegetação de aterros e; produção de fertilizantes organominerais. A caracterização dos resíduos sólidos domiciliares de Porto Alegre realizada em 1997 pelo Departamento Municipal de Limpeza Urbana - DMLU (Gráfico 1) demonstrou que é superior a 50% o teor de matéria orgânica nos resíduos sólidos domiciliares, os quais apresentam potencial para compostagem. Embora a coleta seletiva esteja implantada há mais de dez anos no município de Porto Alegre, há um percentual expressivo de materiais não orgânicos misturados à matéria-prima potencial. Este resultado pode ser explicado pelo fato da elevada produção e consumo de embalagens descartáveis nos últimos anos, principalmente das indústrias alimentícias, como vidros, plásticos, papéis e embalagens mistas, totalizando em torno de 30%. Existe ainda o problema da separação do lixo na fonte, pois não existe a cultura na população em fazê-lo, essa simples iniciativa irá facilitar as operações das usinas de triagem e compostagem. Gráfico 1 - Caracterização dos Resíduos Sólidos Domiciliares no Município de Porto Alegre - 1997 Matéria Orgânica Papel Rejeito Tipo de Resíduo Plático Filme Plástico Rígido Papelão Trapo / Couro / Louça / Madeira Metal Ferroso Vidro Tetrapak Madeira Alumínio Louça Outros Metais Borracha 0,00% Fonte: : Departamento Municipal de Limpeza Urbana - DMLU 10,00% 20,00% 30,00% Percentual 40,00% 50,00% 60,00% 3. Destinação do lixo doméstico Os resultados apresentados nesse estudo são informações referentes aos domicílios particulares permanentes apurados no Censo demográfico de 2000 no Estado do Rio Grande do Sul (IBGE, 2001). A Tabela 3 mostra que o destino do lixo depende significativamente da situação do domicílio, urbana ou rural. Constata-se que na zona urbana 97% do lixo é coletado, porém na zona rural apenas 21% é coletado. A parcela dos domicílios que queimam o lixo na própria propriedade é de 10% e quase 2% do lixo é jogado em terreno baldio ou logradouro. Embora a parcela dos domicílios que jogam lixo em rio, lago ou mar seja pequena, 0,1%, tal percentual corresponde a um número de 3.180 domicílios. Uma vez que a coleta domiciliar na zona rural é limitada, apenas 21% dos domicílios tem o lixo coletado, em conseqüência à destinação dada ao lixo, é extremamente diversificada, e nem sempre a mais adequada. Observa-se que, dos domicílios que queimam o lixo na própria propriedade, 87% estão na zona rural, do total dos moradores que enterram os resíduos na propriedade, 90% dos domicílios dos também estão localizados na zona rural, dos moradores dos domicílios que jogam o lixo em terreno baldio ou logradouro 83% deles são da zona rural e do total de domicílios que descartam em rio, lago ou mar 44% são rurais. O Rio Grande do Sul é um Estado bem urbanizado, 82% da população vive em áreas urbanas. Entretanto os 18% da população das áreas rurais, quase dois milhões pessoas é muito carente quanto o serviço público de coleta de lixo, pois este serviço é essencial para uma boa qualidade de vida. Um dos problemas mais graves é o lixo jogado de forma indiscriminada em rios, lagos ou mares. Proporcionalmente este volume é bem maior nos centros urbanos, 56% do total do lixo que tem esse destino. Geralmente essa destinação é dada pela população que vive a margem dos rios e lagos que tem nível deficiente de instrução e renda. Alternativa viável consiste em identificar onde estão localizadas essas moradias, a partir dos resultados do Censo 2000 por setor censitário, e procurar alternativas tais como: veicular informação sobre os problemas causados por esta destinação, colocação de caçambas, aumentar a freqüência de coleta de lixo nessas áreas, entre outras. Tabela 3 - Domicílios particulares permanentes e moradores em domicílios particulares permanentes, por situação do domicílio, segundo o destino do lixo - Rio Grande do Sul - 2000 Características do domicílio Domicílios particulares permanentes Total Total........................................................... 3 042 039 Destino do lixo Coletado............................................................ 2 558 120 Por serviço de limpeza................................... 2 504 745 Em caçamba de serviço de limpeza............... 53 375 Queimado (na propriedade)............................... 322 374 Enterrado (na propriedade)................................ 84 734 Jogado em terreno baldio ou logradouro............ 49 001 Jogado em rio, lago ou mar............................... 3 180 Outro destino..................................................... 24 630 Situação do domicílio Urbana Rural 2 512 558 529 481 2 447 710 2 405 432 42 278 41 926 8 783 8 334 1 784 4 021 110 410 99 313 11 097 280 448 75 951 40 667 1 396 20 609 Moradores em domicílios particulares permanentes Situação do domicílio Total Urbana Rural 10 114 118 8 260 996 1 853 122 8 418 722 8 243 689 175 033 1 137 724 290 679 170 471 11 470 85 052 8 037 452 7 899 932 137 520 145 976 27 616 29 941 6 700 13 311 381 270 343 757 37 513 991 748 263 063 140 530 4 770 71 741 Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000. O Gráfico 2 apresenta uma visão geral da destinação do lixo doméstico no Rio Grande do Sul. Pode-se observar que o principal destino é a coleta por serviço de limpeza, porém uma parcela bem significativa da população ainda utiliza a queima ou enterra o seu lixo. Gráfico 2 - Domicílios particulares permanentes e moradores em domicílios particulares permanentes, por situação do domicílio, segundo o destino do lixo - Rio Grande do Sul - 2000 Destino do lixo Coletado por serviço de limpeza Queimado (na propriedade) Enterrado (na propriedade) Coletado em caçamba de serviço de limpeza Jogado em terreno baldio ou logradouro Outro destino Jogado em rio, lago ou mar - 500 000 1 000 000 1 500 000 2 000 000 2 500 000 3 000 000 Domicílios Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000 4. A disposição dos resíduos sólidos A destinação final do lixo coletado é um grande indicador social, principalmente no que se refere à saúde pública. Nesse contexto, constata-se que, no Brasil, 72% do lixo coletado nos 8.381 distritos é depositado em vazadouros a céu aberto, constituindo os lixões. Na Região Sul esse percentual chega a 49% dos distritos, o que representa uma parcela menor quando comparada com a nacional (Tabela 4). T ab ela 4 - D istrito s co m serviços d e lim p eza u rb an a e/o u co leta d e lixo , p or un id ad es de destin ação fin al d o lixo coletad o , segu n d o as G ran d es R egiõ es, U n id ades d a F ed eração, Reg iõ es M etro po litan as e M u nicípio s d as C ap itais - 2000 G randes Regiões, U nidades da F ederação, R egiões M etropolitanas e M unicípios das C apitais B rasil Su l Paraná C uritiba Santa C atarina F lorianópolis Rio G rande do S ul Porto Alegre R egião M etropolitana de P orto A legre G randes Regiões, U nidades da F ederação, R egiões M etropolitanas e M unicípios das C apitais B rasil Su l Paraná C uritiba Santa C atarina F lorianópolis Rio G rande do S ul Porto Alegre R egião M etropolitana de P orto A legre D istritos com serv iços de lim peza urbana e/ou coleta de lix o U nidades de destinação final do lixo coletado Vazadouro a céu aberto (lix ão) T otal 8 381 1 746 619 1 376 12 751 1 57 Vazadouro em áreas alagadas 5 993 848 402 199 247 6 Aterro controlado 63 11 4 2 5 - A terro sanitário 1 868 738 210 130 398 40 1 452 478 134 1 107 23 237 3 38 D istritos com serv iços de lim peza urbana e/ou coleta de lix o U nidades de destinação final do lixo coletado Aterro de resíduos especiais U sina de com postagem 810 219 142 1 26 51 1 12 260 117 12 19 86 6 U sina de reciclagem Incineração 596 351 43 52 7 256 1 30 325 101 4 1 29 68 10 Fonte: IBG E, D iretoria de P esquisas, D epartam ento de População e Indicadores Sociais, P esquisa Nacional de Saneam ento Básico 2000. Nota: Um m esm o m unicípio pode apresentar m ais de um a unidade de destinação final do lixo coletado. O Paraná, que abrange 619 distritos com serviços de limpeza urbana e/ou coleta de lixo, dispõe os resíduos de 402 distritos em lixões, o que representa 65%, já santa Catarina esse percentual cai para 53% e no Rio Grande do Sul reduz mais ainda ficando em 33%. O alto volume de lixo disposto em lixões, provavelmente, deve-se ao fato, de ser o meio menos dispendioso de disposição. Analisando a situação do Rio Grande do Sul pode-se constatar que, dos distritos brasileiros que depositam resíduos em aterros controlados, 21% são gaúchos, a participação nos aterros sanitários fica em 16%, em usinas de compostagem alcança 33% e, para usinas de reciclagem, 43%. O Rio Grande do Sul tem tradição nacional como produtor de grãos, sua agricultura tem grande importância para economia do Estado. Entretanto pode-se observar que quase 1/3 das usinas de compostagem estão instaladas no Estado, o que mostra a grande influencia para atividade primária. A destinação final dos resíduos nos distritos gaúchos pode ser melhor representada no Gráfico 3, onde a grande maioria dos resíduos são encaminhados para aterros controlados, sendo a segunda opção para usinas de reciclagem e em terceira opção a disposição em lixões. Gráfico 3 - Distritos com serviços de limpeza urbana e/ou coleta de lixo, por unidades de destinação final do lixo coletado,Rio Grande do Sul - 2000 Unidades de destinação Aterro controlado Usina de reciclagem Vazadouro a céu aberto (lixão) Aterro sanitário Usina de compostagem Incineração Aterro de resíduos especiais Vazadouro em áreas alagadas 0 50 100 150 200 Fonte: IBGE - Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 250 300 350 400 Distritos 5. A coleta seletiva e o reaproveitamento dos resíduos sólidos A coleta seletiva no Brasil ainda é pouco representativa, em virtude de ocorrer em apenas 8% dos municípios, com serviço de limpeza urbana e/ou coleta de lixo. Para a Região Sul o percentual quase triplica, alcançando aproximadamente 24%. Dos três Estados do Sul do Brasil, o Rio Grande do Sul é o que apresenta maior porcentagem de municípios com coleta seletiva, 30%. Uma das formas de reaproveitamento do lixo ocorre através do trabalho realizado pelos catadores. Na maioria das vezes essa consiste em sua única fonte de renda, consistindo em um problema social relevante a parcela da população que vive do lixo. A Tabela 5 mostra que em 28% dos municípios brasileiros existem catadores nas unidades de destino final do lixo. Na Região Sul esse percentual alcança mais de 35%, sendo o Paraná lidera com quase 50%. No Rio Grande do Sul em 25% dos municípios possuem catadores. Tabela 5 - Municípios com serviços de limpeza urbana e/ou coleta de lixo, por existência de catadores nas unidades de destino final do lixo, segundo as Grandes Regiões, Unidades da Federação, Regiões Metropolitanas e Municípios das Capitais - 2000 Grandes Regiões, Unidades da Federação, Regiões Metropolitanas e Municípios das Capitais Brasil Sul Paraná Curitiba Santa Catarina Florianópolis Rio Grande do Sul Porto Alegre Região Metropolitana de Porto Alegre Municípios com serv iços de limpeza urbana e/ou coleta de lixo Existência de catadores nas unidades de destino final do lixo Total Existem 5 475 1 149 399 1 291 1 459 1 28 Não existem 1 548 405 199 92 114 13 Sem declaração 3 900 737 200 1 197 1 340 1 15 27 7 2 5 - Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Departamento de População e Indicadores Sociais, Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000. As condições dos catadores de lixo que trabalham nas unidades de destino final do lixo nem sempre são as mais favoráveis. Quando os mesmos estão organizados em cooperativas ou associações, pode-se observar que a exposição ao lixo é um pouco menor, pois trabalham com luvas, botas e outros equipamentos de proteção, que tornam o trabalho um pouco menos insalubre. No que diz respeito aos jovens, o número de crianças com idade inferior a 14 anos atuando como catadores de lixo é ainda significativa, pois no Brasil é de 22% (Tabela 6). Na Região Sul os índices alcançam 20%, sendo que nos três Estados, Santa Catarina é o Estado em que mais foi constatada a presença de menores de 14 anos como catadores, não só em números absolutos como também percentualmente, chega a 25%. Tabela 6 - Catadores de lixo nas unidades de destino final do lixo, por grupos de idade, segundo as Grandes Regiões, Unidades da Federação, Regiões Metropolitanas e Municípios das Capitais - 2000 Grandes Regiões, Unidades da Federação, Regiões Metropolitanas e Municípios das Capitais Brasil Sul Paraná Curitiba Santa Catarina Florianópolis Rio Grande do Sul Porto Alegre Região Metropolitana de Porto Alegre Catadores de lixo nas unidades de destino final do lixo Grupos de idade Total (1) Até 14 anos 24 340 4 221 1 957 897 1 367 477 Mais de 14 anos 5 393 845 404 223 218 33 18 843 3 374 1 551 674 1 149 444 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Departamento de População e Indicadores Sociais, Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000. (1) Inclusive os catadores cuja entidade não declarou o número de catadores por grupos de idade. No Estado do Rio Grande do Sul, embora apresente o menor percentual de crianças nesse trabalho (16%), torna-se fundamental oferecer alternativas de trabalho a essa parcela de crianças que atuam como catadores e programas sociais que oportunizassem, além do estudo, o aprendizado de uma profissão. 6. Conclusões O estudo realizado permitiu obter as seguintes conclusões: a) Constata-se que no Rio Grande do Sul nem todos os municípios possuem coleta de lixo (não há coleta em oito municípios), onde 91% dos municípios destinam até 5% do orçamento municipal ao serviço de limpeza urbana e/ou coleta de lixo. A maior dificuldade na prestação dos serviços está na área rural dos municípios, onde apenas 21% dos domicílios têm o lixo coletado. Tal fato deve-se provavelmente ao custo do serviço em função da baixa densidade populacional. b) A produção do lixo doméstico está diretamente relacionada ao crescimento populacional. O Rio Grande do Sul Apresenta uma das menores taxas geométricas de crescimento anual. Verifica-se que em 483.919 domicílios no Rio Grande do Sul não destinam adequadamente o lixo doméstico, o que corresponde a 15,9% dos domicílios gaúchos. Tal fato deve-se à deficiência da coleta nas áreas rurais dos municípios. c) A caracterização do lixo coletado em Porto Alegre (DMLU, 1997) mostrou que o mesmo tem grande potencial de reciclagem, pois aproximadamente 52% consiste em matéria orgânica, passível de compostagem, há outros resíduos como papel, papelão, plástico e vidro, que juntos são 29%, também passíveis de reaproveitamento. d) O Rio Grande do Sul apresenta coleta seletiva em 30% dos municípios, porém a quantidade coletada nas residências é pouco expressiva (0,7 kg/dia). As pesquisas revelaram que a coleta seletiva precisa ser mais bem trabalhada e a população mais conscientizada. A destinação do material recolhido com a coleta seletiva é, na maioria dos municípios, encaminhada para comercialização gerando receita. e) É comum a existência, nos vazadouros de lixo e até mesmo nas ruas, todo um contingente de pessoas que buscam na separação e comercialização de materiais recicláveis uma alternativa para o seu sustento e de sua família. É possível, entretanto, manter esta atividade econômica, mas em adequadas condições de trabalho. É o caso das unidades de beneficiamento de lixo e dos programas de coleta seletiva. Em 24,8% das unidades de destino final do lixo, no Rio Grande do Sul, existem catadores de lixo. Observa-se como fator preocupante a existência de crianças com menos de 14 anos trabalhando nessa atividade. No Rio Grande do Sul dos 1.367 catadores, 218 são crianças (15,9%). 7. Bibliografia DEPARTAMENTO MUNICIPAL DE LIMPEZA URBANA – DMLU. Segregação na Origem: Uma Solução para a qualificação do Composto Produzido em Unidade de Triagem e Compostagem de Resíduos Sólidos, Porto Alegre: DMLU, 1997. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA - IBGE. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2000. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA - IBGE. Censo Demográfico 2000: resultado do universo relativo às características da população e dos domicílios. Rio de Janeiro: IBGE, 2001.