Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 1 POESIA FEMININA AFROBRASILEIRA: OUTRAS FORMAS DE ESCRITA DO CORPO NEGRO1. Cristian Souza de Sales2 1. SENTIDOS AGUÇADOS NA ESCRITA DA MULHER. Estranho Indagar O que procuro? [...] O que oculto? - não sei As labaredas esquentam-me, fazendo ferver o meu corpo [...] O que eu procuro? o delírio? o sonho? a imagem? [...] O que procuro? - todas as respostas? perguntas? - todas as afirmações do não? - todas as negações do sim? (ALVES, 1985, p.25) Acompanhada por um espelho, no qual a figura feminina projetada reflete também a “imagem da própria autora”, suas histórias e outras que ela abriga por meio de uma escuta sempre atenta, a escrita da mulher é movida por perguntas – que interroga e se interroga – carregada de subjetividades, uma vez que esta dá origem a fantasias, “delírios”, imagens, desejos e representações da personagem feminina a partir de uma visão privilegiada e particular. (BRANDÃO, 1989, p. 17). 1 As reflexões apresentadas neste artigo foram desenvolvidas durante a elaboração da dissertação de mestrado intitulada Composições e Recomposições: o corpo feminino negro na poesia de Miriam Alves. (SALES, 2011). 2 Mestre pelo Programa em Estudo de Linguagens- PPGEL, da Universidade do Estado da Bahia- UNEB. Professora da Universidade Aberta do Brasil (UAB). E-mail: [email protected]. Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 2 Conforme Ruth Silviano Brandão (1989, p-17), em A Mulher Escrita, o texto feminino ou texto feito pela mulher, como produção ancorada pela linguagem, tornase o lugar onde os “objetos, os desejos e sonhos se corporificam na materialidade dos significantes”. É o espaço cujas palavras em sua “musicalidade poética” ressoam e ecoam preenchendo “toda a falta”, as ausências e todos os esquecimentos. Na escrita da mulher, rasuram-se perfis, desenhos e figurações estereotipadas construídas historicamente pelo “registro do masculino”, tendo em vista que a personagem feminina “construída e produzida”, sob a ótica masculina, “não coincide com a mulher”. É um “produto do sonho alheio” que aí ela circula, neste “espaço privilegiado que a ficção torna possível”. (BRANDÃO, 1989, p.17). Apresentando outra vertente de reflexão sobre a escrita da mulher, em Crítica Literária e Estratégias de Gênero, Vera Queiroz (1997, p.120) aponta que uma das questões centrais para a “crítica feminista” é a discussão em torno do “sujeito que lê e do sujeito que escreve”. Para a crítica feminista, a questão da autoria e da construção da subjetividade feminina em termos de representação literária, só pode ser enfrentada se colocada em perspectiva, ou seja, a partir de uma relação dialógica, em que um “olhar interessado” reconhece nos possíveis “elementos da trama”, “as condições ideológicas e sociais contemporâneas que configuram as vidas de mulheres transformadas pelo feminismo”. (QUEIROZ, 1997, p.131, grifos da autora). Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 3 Assim, conforme explica Queiroz, influenciada pela crítica feminista, a escrita da mulher, de um modo geral, está conectada com a promessa de reconstrução social. Trata-se de um discurso emancipatório que define as suas práticas sociais, as suas formas de representação e autorrepresentação nas diversas formas de expressão cultural. De posse desse tipo de escrita, as mulheres recusam determinados rótulos que foram impostos e se colocam não mais como “o Outro do masculino”, uma posição considerada “hierarquicamente inferior aos atributos e atribuições que lhe foram socialmente conferidos”. (QUEIROZ, 1997, p. 104). Penso que a escrita literária produzida pelas escritoras negras contemporâneas segue essa direção e assume esse posicionamento político descrito por Brandão e por Queiroz, no que concerne, principalmente, à desconstrução das imagens literárias depreciativas elaboradas pela ótica masculina para as mulheres afrodescendentes. São autoras de muitos poemas e narrativas que refletem sobre temas e questões ligadas ao cotidiano, à vivência e à história da população afrodescendente no Brasil, marcada sempre por uma perspectiva interna e visão privilegiada. Dos lugares de enunciação, racial e de gênero, muitas são as escritoras afrobrasileiras que escrevem os seus poemas, inserindo as mulheres afrodescendentes em outros espaços e em novas configurações sociais, cujas imagens se diferenciam e se distanciam das convenções pejorativas e estereotipadas difundidas por uma tradição cultural no Brasil desde o século XIX. Destacam-se os Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 4 trabalhos produzidos por Celinha (Célia Pereira), Cristiane Sobral, Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro, Geni Mariano Guimarães, Miriam Alves, Mel Adún, Ruth Souza Salame, Sônia Fátima da Conceição, entre outras3. Na escrita literária feminina negra, nos versos produzidos por estas mulheres, é possível identificar que as autoras se referem à postura subalterna e ao processo de invisibilização a que foram submetidos os afrodescendentes, homens e mulheres, na Diáspora Negra. São escritoras que tornam as suas poesias, espaço concreto de comunicação com o mundo e de desenvolvimento de uma consciência crítica no que concerne a expressar e ressaltar o seu lugar étnico e de gênero. São vozes e olhares femininos que constroem uma nova forma de luta contra o racismo e o sexismo na sociedade brasileira. Criam um modelo de reivindicação, no qual a palavra escrita é o principal instrumento para “soltar o grito” contido pelo tempo em que foram silenciadas. Elas utilizam palavras que desalojam de seu conforto palavras, figuras, imagens e conceitos preestabelecidos sobre as mulheres afrodescendentes. Esteticamente, invertem a ordem das frases, das orações, das perguntas e das afirmações, mas sem retirar delas seus sentidos e os objetivos traçados. Redesenhados nas falas da escrita feminina afrobrasileira, rostos e corpos femininos negros surgem desejosos de existência, ambicionando outras formas de 3 Neste artigo serão analisados os poemas de Miram Alves. Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 5 visibilidade social, segundo os interpreto, por exemplo, nas poesias de Miriam Alves. Ambos vão sendo (re)esculpidos e redefinidos por outros contornos formados por linhas poéticas que são preenchidas por vontades, sentidos próprios, expressões, performances e movimentos, não mais sob olhares e discursos discriminatórios (eurocêntricos, etnocêntricos, falocêntricos etc.), mas como forma de representação de uma atitude de afirmação e autoafirmação da identidade do sujeito mulher negra que se enuncia nos textos. 2. MIRIAM ALVES: REESCREVENDO O CORPO FEMININO NEGRO. Nascida em São Paulo, Miriam Alves é autora de um trabalho intelectual em pleno processo de produção até a primeira década do século XXI. Contista, militante do movimento negro, afrofeminista, ensaísta e professora, a escritora afrobrasileira iniciou a sua carreira nos finais dos anos setenta do século XX, sendo uma das primeiras mulheres a fazer parte do Grupo Quilombhoje Literatura (1982), responsável pela edição e publicação dos Cadernos Negros (1978) até 20124. 4 Os Cadernos Negros têm sido o principal veículo de divulgação de contos e poemas produzidos por autores e autoras afrodescendentes no Brasil até 2012. O último volume foi publicado em dezembro de 2011, contendo apenas contos. São produções ficcionais nas quais os sujeitos da escrita se enunciam como negras(os), constituindo-se como uma nova geração de escritores(as) que se forma a partir de 1970, composta por militantes do Movimento Negro Unificado (MNU), intelectuais, afrofeministas, professores(as), artistas e pesquisadoras(es). Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa são os atuais organizadores dos Cadernos. As mais recentes publicações da autora podem ser conferidas no volume 34, Cadernos Negros: contos afrobrasileiros, lançado em 17 de dezembro de 2011, com o conto intitulado O velório. Miriam Alves só esteve ausente de nove edições dos Cadernos. Optei por citar algumas obras e trabalhos publicados por Miriam Alves, pois a escritora afrobrasileira possui um amplo e variado repertório de publicações até 2012, inclusive com artigos, ensaios e obras literárias traduzidas para línguas estrangeiras: inglês, espanhol e alemão. Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 6 Em 1982, publicou seus primeiros trabalhos nos Cadernos Negros, lançando no mesmo período duas antologias poéticas: Momentos de Busca (1983) e Estrelas no dedo (1985), consideradas as suas primeiras obras individuais. Em edições mais recentes, publicou o livro Brasilafro autorrevelado: literatura brasileira contemporânea (2010), contendo artigos que, em sua maioria, refletem sobre a escrita da mulher negra, e a coletânea de contos Mulher Matri(z): Prosas de Miriam Alves, lançada em 2011. Nos trabalhos publicados por Miriam Alves, diferentemente das personagens e dos desenhos estereotipados construídos nos textos literários da tradição literária brasileira, quanto à postura submissa e posição subalterna das mulheres afrodescendentes, a escritora questiona as configurações negativas atribuídas ao corpo feminino negro. São poesias que estão interessadas em questionar as representações sociais negativas e desmitificar estereótipos raciais e sexuais que foram construídos e cristalizados desde o século XIX, por meio das vozes dos autores e das personagens criadas pela literatura nacional, conforme é possível analisar: Ser pessoa Nego as forjas as armaduras Lapidadas na aparência bruta da lama Nego as máscaras indiferentes forjando distância Nego o resguardo do silêncio (ALVES, 1985, p-42). Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 7 Retiradas de sua condição humana, respectivamente, pela dominação masculina branca e pelo racismo brasileiro, tratadas como um corpo sexual em excesso pronto para o consumo do desejo alheio, expostas nos textos literários nacionais como possuidoras de uma “natureza animalística e primitiva”, “corpos negros sem mente”, conforme acusa bell hooks (1995), em Intelectuais Negras (1996)5, concebidas como “criaturas ameaçadoras”, como “seres assexuados, desumanizados e inferiores”, questiona Cornel West (1994), em Questão de Raça, as vozes literárias femininas negras denunciam a exploração racial e de gênero sofrida pelas afrodescendentes, mas, em paralelo, constrói as suas reivindicações6. Na poesia Ser Pessoa, o eu-lírico reivindica a sua existência humana e reconhece que é preciso negar os discursos forjados, os quais foram responsáveis pelo silenciamento, pelos julgamentos, pela imposição da violência física e simbólica conferida aos corpos das mulheres negras. Logo, é preciso negar as “máscaras indiferentes” construídas por representações sociais com as quais as mulheres afrodescendentes não se identificam. Recusar as “armaduras” que forçaram a sua invisibilização social, impondo-lhes a clausura de rostos e corpos femininos negros. Negar a submissão feminina negra. Afirmar a sua voz, o seu olhar e o seu discurso 5 bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escritora afroamericana, que escolheu esse apelido para assinar suas obras como uma forma de homenagem aos sobrenomes da mãe e da avó. Grafo o seu nome em letras minúsculas, atendendo ao pedido da própria autora que afirma o seguinte: “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”. 6 Apropriei-me das discussões propostas por Cornel West (1995) que, pensando a vida na diáspora negra em outro espaço geográfico, mostrou-me como cada sociedade construiu seu o próprio repertório de identificação para o corpo da alteridade. Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 8 literário sobre si, como um canto de denúncia, de rebeldia e de renovação: investir em sua imagem social como pessoa a cada linha poética. De acordo com Arleen B. Dallery (1997, pp.64-65), no ensaio A Política da Escrita do Corpo: Écriture Féminine, “as práticas discursivas masculinas ou falocêntricas” têm, ao longo da história, “moldado e demarcado o corpo da mulher para ela mesma”, sem que esta se reconheça nessas representações ou construções, exatamente como aconteceram as mulheres negras brasileiras7. Consequentemente, falar do e sobre o corpo pressupõe um “corpo real” com suas construções anteriores que são desconstruídas pela mulher no processo de se “apropriar discursivamente de seu corpo”. Dessa forma, as mulheres projetam em sua escrita literária “significados” de um corpo “não mais para ser censurado”, mas, ao contrário, elas constroem representações de um corpo para ser “vivido materialmente” por ela mesma. (DALLERY, 1997, pp.69-70). Ao escrever o corpo, ela considera-o como um processo de reelaboração de si – como um ato de “escrever um novo texto”, “não com a pena fálica”, mas com o olhar feminino, inserindo “novas inscrições” em seu corpo, separadas das “codificações falocráticas”, o que, simultaneamente, contradiz essas 7 Publicado no livro organizado por Alison Jaggar e Susan Bordo, Gênero, Corpo e Conhecimento. Écriture féminine trata-se de uma teoria desenvolvida no contexto do feminismo francês, enraizado em uma tradição da filosofia, da linguística e da psicanálise europeias, a qual situa o feminino como aquilo que é “reprimido, mal representado nos discursos da cultura e do pensamento ocidentais”. Com base na alteridade radical da diferença sexual da mulher, invoca-se uma nova e manifesta-se a escrita ou linguagem sobre o corpo feminino: écriture féminine, parler-femme. No referido ensaio, a autora explora a recente “reescritura” do corpo pelo feminismo francês e sua ênfase na potencialmente “radical alteridade” da sexualidade e do prazer das mulheres como fontes de novas metáforas não falocráticas. (DALLERY, 1997, p.62). Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 9 codificações que produziram o seu corpo a “censura, o apagamento e sua repressão”. (DALLERY, 1997, p.70). Observo que estas considerações feitas por Dallery ecoam no discurso poético de Miriam Alves, no que diz respeito, principalmente, a reapropriação da imagem e a reescritura do corpo feminino negro. Por meio de outras inscrições e simbologias, Miriam Alves projeta em sua produção artística significados de um corpo “não mais para ser censurado” pela ideologia patriarcal. A autora rechaça as “marcas” sociais negativas, produzindo outras formas de dizer este corpo que contestam o “discurso normatizador da objetificação e da fragmentação do desejo masculino”, conforme interpreto a poesia a seguir: Despudor Arregacei as vestes Deitei sem seu regaço Sonhei meu nego tolo Tolas coisas O seu calor esquentando O meu corpo Cantei um aí surdo!!! abafado Nos meus ouvidos Respiração entrecortada O encontro a confirmação Você em mim. Suas mãos possuidoras Calorosamente, despudoramente Confirmam afirmam AMOR [...] (ALVES, 1978, p.54, grifos meus). Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 10 O título do poema me remete às novas descobertas do corpo feminino negro feitas na escrita feminina de Miriam Alves. Sem timidez, sem medo e sem receio, desvestindo o seu corpo, o sujeito literário expõe questões internas como a sexualidade e a sensualidade da mulher negra, explicitando o seu ponto de vista sobre estes assuntos cercados de mitos e tabus. Mitos que representaram as mulheres afrodescendentes como “criaturas distorcidas”, “desumanizadas”, cujos corpos “diferenciados dos padrões brancos de beleza”, eram descritos como possuidores de uma “temida” atividade sexual, classificados pela dóxa masculina como “repulsiva, suja, obscena e apresentada como a menos aceitável” socialmente. (WEST, 1994, p.101). Atenta a estas reflexões, embora elas sejam enunciadas em outra realidade, desvencilhando-se dessas “codificações falocráticas”, de sua opressão, de sua censura, de sua repressão e do silêncio, o eu lírico busca desmitificar e desconstruir a sexualidade feminina negra pela “ótica do negativo, do desprezo e da aversão”, utilizando como recurso a imaginação poética. (WEST, 1994, p.103). Através de um sonho, o olhar feminino negro nos descreve um encontro amoroso que culmina no ato sexual entre um casal, investindo em outras formas de representação de sua intimidade. No texto, os movimentos iniciais dos corpos afloram desejos, fantasias, prazeres e sensações. A imaginação poética, o sonho, o desejo, o prazer sexual Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 11 aparecem em função das novas necessidades do corpo feminino negro. Ao arregaçar as vestes, a nudez feminina negra fica à mostra e pode ser observada por todos os versos, em seus contornos mais íntimos e delicados. Uma nudez feminina que reúne os “pensamentos soltos” e as “coisas tolas”, preenchendo-se por um conjunto de emoções gradativas e sutis que, no ritmo da aproximação dos corpos, vai tomando a proporções de curvas mais ousadas: “[...] você em mim, suas mãos possuidoras, calorosamente, despudoramente”. Uma nudez feminina que ressurge no discurso literário de Miriam Alves intrinsecamente ligada à sexualidade, ao prazer sexual e ao desejo do sujeito da escrita que está interessado em valorizar outras formas de escrita do corpo feminino negro, entoando a sua contra-voz8: Sou naturalidade vento e esfriamento dos tempos Esquecer meu rosto gosto não posso! [...] Esquecer? Não posso! Sou a luz Aura da incandescência, rubra, negra [...] Sou azul no infinito [...] Sóis me guiam [...] Ergui a voz, cabeça, espada A palavra basta ressoou estourou as paredes divisórias. (ALVES, CN 31, 2008, pp.101-102). 8 O poema intitulado Entoa foi publicado por Miriam Alves nos Cadernos Negros, volume 31, 1998. Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 12 O rosto e o corpo feminino negro são enaltecidos na voz de Miriam Alves: “[...] esquecer meu gosto rosto não posso”. Na linha poética em destaque, o verbo gostar, antecedido pelo pronome possessivo “meu”, expressa a ideia de tomada de posse, de poder e querer ser, revestida por autoestima e por dissonâncias. As dissonâncias estão relacionadas aos rótulos negativos que marcam profundamente o nosso destino: a baixa autoestima e autorrejeição aos nossos traços étnicos. Ao contrário, rosto e corpo são admirados e representados como “ícones da expressividade, da beleza e da identidade negra”. (GOMES, 2002, p.261). Rosto e corpo feminino negro passam a ser mencionados como referências e contrapontos importantes na elaboração e celebração de autoimagens positivas que se espalham por todos os versos. Remodelados, produzem uma rede de significados outros e um novo campo semântico que desestabiliza conotações cristalizadas no imaginário coletivo sobre o termo negro, conforme é possível identificar: “[...] sou a luz aura da incandescência, rubra, negra”. O emprego da expressão “sou a luz” nada tem a ver com o desejo de querer ser branca ou de embranquecer a pele negra. Na verdade, o sujeito literário remete-nos às representações do corpo negro disseminadas pela tradição ocidental do século XIX. Para os cronistas, os iluministas, os cientistas e os intelectuais, além dos “sinais diacríticos”, os traços étnicos diferentes dos padrões brancos ocidentais – cor, cabelo, nariz, boca, contornos do corpo, os negros não tinham alma, luz e razão. Eram incapazes de pensar por si Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. ISSN: 2175-4128 13 mesmos (as). A cor negra representava a escuridão, o escuro, o obscuro, o sombrio, a tristeza e a feiura. Por esse motivo, o eu poético regido pela força inquieta dos ventos de Oyá, seguirá revertendo esses significados negativos por imagens e representações que buscam a autovalorização: colorindo-se em tons de vermelho e de azul, nos caminhos abertos pela espada, ferramenta do orixá feminino Iansã e do orixá masculino Ogum, restituirá ao seu rosto e ao seu corpo feminino negro, vida, movimento e beleza. Uma beleza que de fato não é hegemônica, pois apresenta um estilo particular de penteados, de traçados e de texturas dos cabelos, considerando a matriz africana como sua referência estética. Refletindo sobre a literatura feminina negra, Miriam Alves diz que as escritoras afrodescendentes apresentam especificidades em suas produções textuais que envolvem muitos aspectos de “nossa vivência e condição social” em relação aos homens. Convivendo com o silenciamanento, o vazio e a ausência de imagens positivas de si, elas propõem uma reavaliação na “máxima ideológica” de que a arte, e, principalmente, a literatura, “não tem cor, gênero e religião”, pois como objetos e sujeitos em análise, elas partem de olhares internos e imprimem em seus poemas e contos “um rosto, um corpo negro e um sentir feminino com características próprias”. (ALVES, 2010, p-67). REFERÊNCIAS Anais Eletrônicos do IV Seminário Nacional Literatura e Cultura São Cristóvão/SE: GELIC/UFS, V. 4, 3 e 4 de maio de 2012. 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