ESSE É O MEU CORPO: CORPO, VIOLÊNCIA, EDUCAÇÃO À LUZ DO PENSAMENTO DE PAULO FREIRE MESQUIDA, Peri - PUCPR Resumo Paulo Freire, ao fazer a crítica sobre a educação bancária, lembrou que essa prática pedagógica é alienante, autoritária e inibidora da expressão autônoma do homem e da mulher. No entanto, para chegar a essa conclusão, ele precisou pesquisar o processo histórico do Brasil e dos países de capitalismo periférico, procurando entender a sua origem. Encontrou-a no processo de colonização marcado pela negação do morador autóctene, homens e mulheres. Percebeu, ainda, que essa negação se estendeu ao longo dos séculos, pela escravização do negro originário da África, visto como um não-ser e, ao mesmo tempo, pela violência impetrada contra os mais fracos, marginalizando-os quando eles não eram úteis. O sentimento de posse do outro para aumentar as posses dos senhores se traduzia em violência contra o corpo da alteridade negada. Neste sentido, a educação refletia a sociedade produzindo seres domesticados, destituídos de consciência crítica, ao mesmo tempo em qualquer expressão era interditada. Resgatar, portanto, o pensamento de Paulo Freire sobre corpo, violência e educação, foi o objetivo desta pesquisa de cunho basicamente bibliográfico, analisando, em particular as obras Pedagogia do oprimido, Pedagogia da esperança, Pedagogia da autonomia, Pedagogia da indignação, Educação e atualidade brasileira. Introdução É atribuída a Parmênides de Eléa (530 – 460 AC) a expressão “o ser é, e o nãoser não é”. Portanto, todo aquele que não se enquadra na categoria ontica de “ser”, é percebido como a negação do ser. A presença no Brasil dos portugueses, a partir de 1500 e, depois, de outras nacionalidades européias neste e nos séculos subseqüentes, foi marcada pelo não reconhecimento daqueles que aqui viviam, pois os mesmos não eram reconhecidos como iguais aos invasores, mas como “outros” e, portanto, não-seres. O Frei Bartololeu de Las Casas (1474 – 1556) na sua “Brevíssima relación de la destruyción de las Indias”, de 1552, endereçada ao “poderoso señor el príncipe de las Españas, don Felipe, nuestro señor”, apresenta sua indignação com o que tem sido chamado de “conquistas”, que se fazem contra as “indianas gentes”, as quais (as conquistas), na realidade, são “inicuas, tiranicas, y por toda ley natural, divina y humana condenadas, detestadas y malditas”, e são acometidas pelos “cristianos” contra “los cuerpos de los naturales moradores y poseedores”, matando, “injusta y tiranicamente”, em 42 anos, perto de 150.000 “cuerpos de hombres y mujeres y niños”. A exposição de 3317 Las Casas sobre a violência cometida contra os corpos das pessoas nas Américas espanhola e portuguesa, dá uma idéia da maneira como eram vistos os moradores da terra, “verdaderos poseedores”, pelos “conquistadores”: não-seres. No Brasil, os atos de violência contra o autóctone levaram, em 500 anos, ao quase extermínio daqueles que aqui viviam. Eram corpos que não tinham razão de ser na medida em que não serviam aos “conquistadores”. A violência impetrada contra o corpo da mulher, coisificado, explorado e, então, aniquilado, se estendia ao corpo do homem, eliminando-o quando não podia ser útil, Olhos astutos e inquiridores podem ver a história social e política do Brasil como uma história de violência contra o índio, contra a mulher, contra os negros, trazidos à força do seu habitat natural, contra os pobres, contra os destituídos de posses que não eram donos dos próprios corpos, pois não pertenciam à categoria de “homens bons”, já que não eram ricos, proprietários de terras. Estes eram “domus”, dominadores de gentes, coisas e bichos por atribuição dos deuses, como na Grécia de Heráclito. Para este filósofo, a partir da “fysis uns se adiantam como deuses e outros como homens, uns livres e outros escravos” (DUSSEL, 1977, p. 56), naturalmente. Dessa maneira, é o próprio Deus quem quer assim, portanto, não há culpa na dominação, na violação do corpo do outro, este visto como exterioridade, um não-ser. I. Da violência contra a alteridade como corpo: A alteridade é o diferente, a negação da ordem estabelecida pelo sistema, a própria desordem desordenada (BALANDIER, 1997), pois se coloca como contestação do estabelecido. Isso porque o “outro” com seu corpo, representa alguém que está aquém do ser e, como “o ser é, e o não-ser não é, o tal não é. Dizer não-ser é o falso. Antes que o outro continue sua tarefa de falsificação, de desmoralização do sistema, o herói se lança contra o inimigo, o outro, e o aniquila, o mata, o assassina” (DUSSEL, 1977, p. 57). E, a violência contra o “outro”, mais fraco, despossuído de tudo, se faz pelo “domus”, aquele que domina, pois é possuidor. A dominação, portanto, encontra sua origem no domínio, isto é, na posse. Da posse do espaço geográfico, o domínio se estende à posse das coisas, dos bichos e das gentes. E o sentido de posse se perpetua de geração para geração, constituindo uma elite possuidora, dominadora, a exercer uma violência explícita ou simbólica sobre o corpo do outro, formando corpos dóceis ou, na 3318 impossibilidade de os docilizar para possuir, os nega e os aniquila. Dessa maneira, a importância dada à propriedade, ao “ter”, transforma-se em um projeto de vida, por vezes, na única razão de viver que anima os sujeitos em sociedade, podendo institucionalizar-se em sistema. Ao tornar-se “sistema”, passa a se impor a todos, constituindo uma totalidade que aliena o outro, destituindo-o de história, de cultura, incorporando o seu corpo como instrumento ou o relegando à margem da sociedade, ou mesmo aniquilando-o enquanto corpo vivente. Nas sociedades periféricas, dominadas desde sempre do exterior, o “ego conquiro” de Fernão Cortez foi mais forte do que o “ego liberto”, impedindo o desenvolvimento de corpos autônomos, refletindo e mantendo o sentido da negação do outro como corpo-sujeito e fortalecendo a afirmação do corpo do outro como sujeitado. Enrique Dussel (1977) na obra citada, diz que “o ethos é o conjunto estruturado de atitudes que predeterminam a ação, e assim, o ethos do dominador, seja imperial individual, ou nacional dependente, gira em torno da mistificação, como costumes ou virtudes imperantes, daquilo que foram vícios nos tempos de sua opressão” (DUSSEL, 1977, p. 61). Assim, o dominador, antes reprimido, é o ressentido de hoje, apresentando como virtudes o “ethos do opressor” de ontem por ele incorporado. Reproduz-se, dessa maneira, a violência contra o corpo do outro, mais fraco, debilitado e objeto da ação repressiva em forma de violência. Ao corpo do outro é negada qualquer forma de expressão autônoma, de vontade própria, pois o seu corpo não é visto como um corpo que pensa e sente, negando o fato de que o corpo é tecido por sensações, percepções, sentimentos, apreensões da realidade, raciocínio inteligente. Neste sentido, o “sistema” opressor, ou os opressores do corpo do outro, coletivizados ou individualizados, exercem a violência coercitiva ou persuasiva, impondo a sua ordem e a sua disciplina sobre o corpo do outro na medida em que o percebem como uma matéria passível de controle racional, ideológico, ético, físico. Assim, “o corpo e seus signos, seus gestos, sua representação, a gramática e a gestualidade de seus movimentos perdem sua liberdade, na mesma medida em que sofrem as transformações” (MARQUEZFERNANDES, 2008, p 65) impostas pelo sistema repressivo, pelos possuidores deste mesmo sistema, tanto individual quanto coletivamente. Portanto, o “outro”, na medida em que é negado, deixa de ser, não se realiza como corpo que sente, apreende e se expressa e, por isso mesmo, é possuído, 3319 coisificado, instrumentalizado, dominado. Esta é a lógica de um sistema que tem a posse como centro e força motriz. A posse de bens materiais, culturais, intelectuais. É precisamente do interior desse sistema que Paulo Freire analise criticamente a opressão, isto é, a violência contra corpos proibidos de serem aos quais ele chama de corpos interditados. II. Uma epistemologia freireana do corpo negado: A reflexão filosófica e histórica em torno da negação do corpo do outro em formações sociais de origem colonizada, mostrou que nestas sociedades a negação se apresenta na forma de violência sobre o corpo, na acepção grega de corpo como “soma”, isto é, como o “ser” do homem e da mulher. Vimos que a negação do corpo começa pela ocupação dominadora e predatória dos espaços geográficos e se estende na direção da proibição de ser do homem índio e o seu aniquilamento; na ocupação do corpo da mulher índia e sua coisificação, para alcançar a violência possessiva contra os negros e as negras feitos escravos e escravas e contra todos aqueles e aquelas que, por um motivo ou outro, não colaboravam para que o usufruto da propriedade fosse total. Neste contexto, Paulo Freire fala da “autodemissão” do corpo consciente, uma forma de violência simbólica perpetrada pelo “poder da domesticação alienante” (FREIRE, 1997, p. 128) sobre os corpos de homens e mulheres. Trata-se da “dominação”, da imposição sutil, persuasiva, de um poder que se apresenta como inquestionável e que conduz à acomodação, ao conformismo. Isto é, um poder capaz de modelar a vontade fazendo com que o outro assuma a forma de ser domesticado, docilizado, um corpo disciplinado, como escreveu M. Foucault (FOUCAULT, 1987). No mesmo sentido caminha Hannah Arendt quando diz que "poder, vigor, força, autoridade e violência são palavras para indicar os meios em função dos quais o homem domina o homem" (ARENDT, 2001, p 36). Essas seriam verdadeiras instrumentalizações da vontade do outro pela vontade daquele que exerce o poder. Para Freire, a “demissão do corpo consciente” reflete a “estranheza” do outro diante da identidade do sujeito que exerce o domínio sobre o corpo e conduz a uma sensação de determinismo conformado, pois parece estar diante do fato consumado, contra o qual não há nada que possa ser feito. Neste sentido, Paulo Freire acentua sua negação ao determinismo, à fatalidade, em particular quando se trata da situação em que vivem os “esfarrapados” da terra. Por isso, ele declara: 3320 “A posição de quem encara os fatos como algo consumado, como algo que se deu porque tinha que se dar da forma como se deu, é a posição, por isso mesmo, de quem entende e vive a História como determinismo e não como possibilidade. É a posição de quem se assume como fragilidade total diante do todo-poderosismo dos fatos que não apenas se deram porque tinham que dar, mas que não podem ser ‘reorientados’ ou alterados” (FREIRE, 1987, p. 128-129). Na sua concepção da História, a violência é um ato de desumanidade, pois o praticante deste ato nega o outro como alteridade, como ser humano. Portanto, a autodemissão do corpo requer uma ação contrária: a admissão do corpo na sua totalidade e nas suas expressões para o mundo. Trata-se de uma atitude de reconhecimento de si mesmo e do outro como ser – humano – corpo. Em um diálogo com Sergio Micelli, cujo relato foi publicado na revista Teoria em Debate, no primeiro trimestre de 1992, Paulo Freire lança mão da expressão “interdição do corpo” para dizer que, historicamente, no Brasil, o corpo, em especial o corpo dos mais frágeis, for proibido de ser, não foi sujeito, mas sujeitado. Para ele, somos “vocacionados para a humanização e, temos na desumanização, fato concreto na história, a distorção da vocação” (FREIRE, 1994, p. 99). E essa sujeição desumanizante que a tudo interditava, tem origem na escola por meio da educação. III. Paulo Freire e a interdição do corpo como violência: Para Paulo Freire, todo ser humano existe para ser sujeito da história, pois, para ele, a vida é existência na “proporção que o corpo humano vira corpo consciente”, isto é na medida em que o ser humano tenha consciência do existir e do existente. Para explicar a opressão e o estado de “autodemissão do corpo consciente”, Paulo Freire analisa criticamente o processo histórico do Brasil, em “Educação e Atualidade Brasileira” (FREIRE, 2001), mostrando que “a consciência dominada não se distancia suficientemente da realidade para objetivá-la, a fim de conhece-la de maneira crítica. A esse tipo de consciência, chamamos de “consciência semiintrasitiva” (FREIRE, 1980, p. 67). A consciência semi-intrasitiva é um estágio de consciência que não permite ao dominado se ver como dominado; não permite que o dominado veja a violência de que é vítima como violência para a dominação. É uma violência que “fere a ontológica e histórica vocação dos homens – a do ser mais” (FREIRE, 2003, p. 45). Por isso, ao 3321 olhar para a história de países nos quais a dominação se faz pela negação do sujeito enquanto corpo consciente, Paulo Freire pode ver a presença constante da violência. A violência que gera autoritarismo, que se encontra presente nas relações sociais, nas relações econômicas, nas relações políticas, em todas as relações, em particular na forma de relações de exploração, pois se trata de ações entre dominantes e dominados, opressores e oprimidos, possuidores e despossuidos, relações, portanto, verticais. Dessa forma, o corpo de quem é alvo destes tipos de violência, não sendo um corpo consciente, não é também, um “corpo apreendedor” nem um “corpo transformador” (FREIRE, 1997, p. 57), pois não é capaz de “decidir”, de “escolher”, de “intervir no mundo”, por isso, diz ele, “insisto na conscientização como um esforço de conhecimento crítico dos obstáculos”, e contra “toda força do discurso fatalista neoliberal , pragmático e reacionário, insisto hoje na necessidade da conscientização” (FREIRE, 1997, p. 60), para que este ser humano violentado pelo autoritarismo dos dominadores, deixe de ser objeto da história para vir a ser sujeito, capaz de decidir, de escolher, de intervir no mundo, sem qualquer proibição. A interdição do corpo tem, portanto, sua origem na história social, política, econômica e cultural. E, a educação tem muito a ver com isso, pois no processo de escolarização a educação foi utilizada para dominar, submeter, inibir, de forma autoritária, com a finalidade maior de manter a consciência ingênua, a acriticidade (FREIRE, 2003) e, assim, a negação do outro. A verticalidade da ação pedagógica, fundada na posse do conhecimento, refletia a verticalização autoritária que imperava na sociedade. Em última instância, refletia a negação do outro na sua fragilidade e na sua exposição como não-ser, pois despossuído. A educação bancária faz “tabola rasa” do conhecimento do outro, como se ele fosse uma folha de papel em branco sobre a qual deve ser impresso o conhecimento. Daí, a histórica relação autoritária entre professor e aluno imperante na escola brasileira. Uma relação autoritária que se manifesta não poucas vezes como de violência contra o corpo do outro na forma de “castigos”, de punição: “Falei longamente com Piaget sobre a representação do castigo na criança, defendendo uma relação dialógica amorosa, entre pais, mães, filhos, filhas, professores, professoras, alunos e alunas, que fosse substituindo o uso dos castigos violentos” (FREIRE, 1994, p. 105). Isso porque a “teoria dialógica da ação educativa nega o autoritarismo” (FREIRE, 2003, p. 210). E, o autoritarismo refletido na violência contra o corpo do 3322 outro como ser físico, pensante, atuante, se manifesta em ações que o reproduzem nas relações sociais, já que o oprimido carrega em si a consciência do opressor (FREIRE, 2003, p. 46) que se exprime nas relações entre oprimido/oprimido e oprimido/opressor. Portanto, a violência que começa com a violência da negação do outro enquanto corpo consciente, se estende na direção da violência contra a mulher, o afrodescendente, o diferente, o despossuido, é, muitas vezes, gestada na escola tendo origem nas relações que se estabelecem entre os que sabem e aqueles que os que sabem julgam ser destituídos de conhecimento, pois essas relações partem de uma concepção falsa dos homens “reduzidos a meras coisas...não se pode esperar que provoquem o desenvolvimento do que Eric Fromm chama de biofilia, mas o desenvolvimento de seu contrário, a necrofilia” (FREIRE, 2003, p. 67). A violência, o autoritarismo, geram a desconfiança e, principalmente, o medo que tem um impacto substantivo sobre a vida social, cultural, econômica e política de um país: “reduz a disposição das pessoas para ações coletivas, aumentando a desconfiança entre elas, inibindo o exercício de capital social, porque reduz o diálogo e, portanto, a identificação de que problemas são compartilhados, afetando ainda o exercício da solidariedade” (CÁRDIA, 2008, p. 37). Ainda mais: o medo da violência tende a enclausurar as pessoas amplificando o sentimento de solidão, e “os habitantes mais pobres da cidade, por exemplo, são evitados e objetificados por meio de uma ótica perversa, construída pela cultura do medo, como ‘marginais’, delinqüentes. O sentido da violência torna-se, desse modo, endêmico, banalizando a vida e tornando o ato de viver um instrumento de segurança pessoal e privada” (KOURY, 2008, p. 39). Dessa forma, a visão de Hobbes do homem que entrava na modernidade, em especial das ações da burguesia do seu tempo (século XVII), ainda tem muito a dizer, pois, hoje, a violência nos faz desconfiar dos outros, e, como dizia o filósofo inglês, agir contra ele antes que ele se volte contra mim, pois “homo homini lupus”, em uma verdadeira “bellum omnium contra omnes”, isto é, uma guerra de todos contra todos (HOBBES, (1997, p. 148). 3323 A rigor, uma cultura opressora gerada no Estado, na escola e na família, produz e, ao mesmo tempo, reproduz a mesma lógica desumanizadora da vida em sociedade, diz ZITKOSKI (2008, P. 64). Acreditamos, no entanto, com Paulo Freire, que a violência na escola, muitas vezes manifestada na forma de sadismo, “aparece como uma das características da consciência opressora, na sua visão necrófila do mundo. Por isso é que o seu amor é um amor às avessas – um amor à morte e não à vida, isso porque na ânsia e na medida em que, para dominar, se esforçam para deter a ânsia de busca, a inquietação, o poder de criar, que caracterizam a vida, os opressores matam a vida” (FREIRE, 2003, p.49). Mas, o assassinato da vida perpetrado pelos opressores se volta contra eles, na medida em que o oprimido se liberta da necrofilia e declara seu amor à vida. Mas, também, libertando-se da morte, o oprimido liberta o opressor (FREIRE, 2003). E, o caminho da libertação pode começar pela educação desde que a educação bancária, opressora, violenta e autoritária, seja substituída pela educação dialógica, amorosa, libertadora porque “a conquista implícita no diálogo é a do mundo pelos seus sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro. Conquista do mundo pela libertação dos homens. Não há diálogo, porém, se não há profundo amor ao mundo e aos homens” (FREIRE, 2003, p. 81). CONCLUSÃO O ser é, e o não-ser não é tem marcado a história de países colonizados, em todos os Continentes, afetando inicialmente os autóctones e se estendendo aos fragilizados, como excluídos, negados. O “ego conquiro” porque posso e sou mais forte, violentou os povos periféricos e marcou a sua história, uma história escrita sob a égide da violência possuidora. As relações verticais de classe, de gênero, de etnia, familiares, pedagógicas, se caracterizaram pelo autoritarismo e pela ausência de diálogo. Assim, a violência e a negação do outro como corpo consciente se propagaram pela sociedade banalizando a vida. A educação que poderia contribuir para a construção de uma sociedade biófila, recebeu uma como herança o autoritarismo nas relações intraescolares e na prática pedagógica. A imposição do conhecimento por aqueles que se consideram os donos do saber, sem mesmo terem produzido o conhecimento que impõem com autoritarismo em uma relação vertical, se reflete ns relações professor/aluno, pais/filhos, 3324 homem/mulher e se propaga pela sociedade. Se a escola reflete as relações sociais das formações sócio-políticas, ela também produz culturas relacionais que se propagam pela sociedade. A violência na escola tanto pode ser produzida na própria escola como reflexo das relações pedagógicas quanto pode espelhar a violência que é impetrada à sociedade civil pelas instituições políticas na medida em que negam a confiança nelas depositada; pelas instituições judiciais quando decidem à revelia da lei ou ao fazerem o direito estar sempre ao lado do mais forte, do possuidor. Paulo Freire defendia a admissão do corpo consciente contra a inércia, a reprodução do status quo, o determinismo, a passividade, o conformismo. Defendia, também, o diálogo e a amorosidade como antídotos contra a violência e a negação como alteridade. Por isso, reproduzo aqui um parágrafo de Balduíno Andreola, escrito em texto publicado nos Cadernos de Educação, da Faculdade de Educação da Universidade de Pelotas, logo após a morte de Paulo Freire (1997): “Paulo, na nova dimensão para a qual migraste, na tua insaciável vocação de ser-mais, acho impossível te seja negada a sombra de uma mangueira de onde estejas nos vendo e ouvindo. Imagino até que a mangueira tenha sido a árvore da vida, no paraíso primordial. Nós que aqui ficamos, ‘à sombra desta mangueira’, na terra das muitas exclusões, olharemos todos os dias para o horizonte da esperança, de onde nos acenas. Teu olhar continuará nos desafiando, para dizer-nos que a luta não acabou, até que o sonho coletivo ceda lugar à realidade nova de uma terra sem exclusões, de onde não se tenha vergonha de proferir a palavra amor”. Sim, até que a utopia do amor concreto se faça revolução e a violência contra os corpos inconscientes se transforme em paixão pelo outro. REFERÊNCIAS ALDREOLA, Balduíno. Contribuição de Ernani Maria Fiori para uma pedagogia política de libertação. Cadernos de Educação, FAE. Pelotas: UFP, ano 6, nº 9, 1997. ARENDT, H. Violência e poder. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001. CÁRDIA. N. Medos Urbanos. Revista E. São Paulo: SESC, 07/08. DUSSEL, E. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis: Vozes, 2000. DUSSEL, E. Filosofia da libertação. São Paulo: Edições Loyola, 1977. 3325 FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987. FREIRE, P. Educação e atualidade brasileira. São Paulo: Cortez, 2001. _________. Conscientização. São Paulo: Moraes, 1980. _________. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. _________. Pedagogia da esperança. São Paulo: Paz e Terra, 1994. _________. Pedagogia da indignação. São Paulo: Unesp, 2000a _________. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2003. HOBBES, Th. Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, 1997. KOURY, M.G.P. Cultura do medo e juventude:uma análise do Brasil atual. Revista E. São Paulo: julho/2008. LAS CASAS. B. Brevíssima relación de la destrucción de las Indias. Edición digital a cargo de José Luiz Gomez-Martinez. WWW.google. Acesso: 17/08/08. ZITKOSKI, J.J. Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.