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TABELA 1TABELA 2TABELA 3TABELA 4TABELA 5
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5.2
203
CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO SETOR MOVELEIRO DO BRASIL
O móvel assume um papel relevante na sociedade, influenciando e sendo influenciado pelo seu
modo de vida. Segundo Baudrillard, “a configuração do mobiliário é uma imagem fiel das estruturas
familiais e sociais de uma época” (1993, p. 21).
No Brasil, o móvel ocupa atualmente o terceiro lugar, em grau de importância para a sociedade
em geral, que prioriza, em primeiro lugar, a habitação (casa/apartamento) e, em segundo lugar, o
automóvel176. Há, atualmente, mais de oito mil modelos de móveis no mercado, onde se tem lançado
mais de mil modelos por ano177.
O desenvolvimento do design de móveis no Brasil encontra-se intimamente vinculado ao
processo de desenvolvimento político, econômico, social e cultural do país, e tem se configurado a
partir da pluralidade de forças, complexas e dinâmicas, que tecem as relações simbólicas e as
atividades da sociedade.
É, pois, imprescindível considerar-se, nos estudos sobre a questão da diversidade cultural na
prática do design industrial - na perspectiva do setor industrial moveleiro - os fatores que influenciaram
e impulsionaram o desenvolvimento do móvel no país, dentre os quais se destacam, segundo Maria
Cecília Loschiavo dos Santos (1995a): 1) a herança cultural, advinda dos portugueses, do uso da
madeira nos móveis e na arquitetura; 2) as importações de móveis, inicialmente de Portugal, e,
posteriormente, da Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha e Áustria; 3) a interrupção das
importações, no decorrer das duas Guerras Mundiais; 4) o processo de modernização cultural e
econômica que se fez sentir, significativamente, na arquitetura; 5) e as relações do design brasileiro
com o Concretismo; dentre outros fatores.178
O processo de desenvolvimento do mobiliário brasileiro pode ser classificado, de um modo
geral, em três grandes períodos, de acordo com Lúcio Costa.
... o primeiro abrange os séculos XVI e XVII e prolonga-se mesmo até o começo do setecentos; o segundo
período, barroco por excelência, estende-se praticamente por todo o século XVIII; e o terceiro e último, isto é, o da
reação acadêmica, liberal e puritana, iniciada em fins deste século, corresponde para nós, principalmente, à
primeira metade do século XIX (COSTA, 1939, p. 139).
176 PROVAR
177
/ USP, 2000 apud REVISTA CAMINHOS DO III MILÊNIO, 2001, p. 08.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA, UNIDADE DE COMPETITIVIDADE INDUSTRIAL, 1999, p. 18.
178 Este assunto não é objeto específico desta tese, e não se encontra nela aprofundado. Para maiores esclarecimentos, ver:
SANTOS, 1995a.
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Verifica-se, na história do mobiliário brasileiro, que, desde o início da colonização, a cultura
material dos brancos foi se impondo, em relação à cultura indígena nativa e dos escravos negros. Vale
ressaltar, no entanto, as influências e o processo de hibridismo que se desenvolveram entre essas
culturas.
No Brasil pré-colonial, a rede já se encontrava presente no cotidiano de tribos indígenas, cuja
maioria conhecia técnicas de tecelagem (em algodão e fibra). Além da rede, usada como cama, havia
também leitos (feitos com paus fincados no chão, cordas, folhas de palmeira buriti e peles), mesas e
bancos. Estes últimos “se apresentavam de vários tipos, dos simples toros de madeira utilizados como
assento, aos bancos trabalhados em uma peça só de madeira, com decoração geométrica
monocrômica em vermelho ou preto, alguns em forma animal” (CANTI, 1999, p. 59).
Os bancos indígenas, com configurações representativas de elementos da fauna, traziam
algumas composições mais figurativas e detalhistas, e outras mais estilizadas (ver Figura 102).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 102 - BANCOS INDÍGENAS (AUTORES E DATAS DESCONHECIDOS)
___________________________________________________________________________________________
Até meados do século XVII, a rede de manufatura indígena, de fácil e barata aquisição para
serem utilizadas como cama, esteve bastante presente no cotidiano de grande parte da população,
sobretudo no Nordeste do Brasil (CANTI, 1999).
Também a esteira, o jirau179 e certos hábitos alimentares foram heranças indígenas, que
influenciaram os hábitos e a cultura material dos colonizadores e da sociedade brasileira.
179 O “jirau” consiste em uma “armação horizontal de paus suspensa acima do chão. O jirau servia principalmente para o
moquém – nele eram assados, ou secos ao sol, o peixe e a caça, para não falar na carne humana” (LEMOS, 1978, p. 40).
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205
A adoção do cardápio indígena introduziu nas cozinhas e zonas de serviço das moradas brasileiras equipamentos
desconhecidos no Reino. Instalou nos alpendres roceiros a prensa de espremer mandioca ralada para farinha [,
por exemplo, que] não exigia somente a prensa – pedia, também, raladores, cochos de lavagem e forno ou fogão.
(LEMOS, 1978, p. 43)
Destacam-se, assim, as influências entre culturas distintas, bem como a dinâmica do processo
de hibridismo e da própria cultura em si, conforme ilustra também o jirau, que foi incorporado a
moradias brasileiras e que sofreu transformações, assumindo novas funções ao longo do tempo e em
contextos diversos.
O seu nome, conservado no linguajar do povo, não só determina as armações, digamos ortodoxas, como outros
tipos de engradados horizontais, como as prateleiras profundas, por exemplo. No quintal, o jirau servia para secar
alimentos resguardados dos animais domésticos, para enxugar o trem de cozinha lavado, para secar a rede de
pesca e a roupa lavada e para suportar plantas trepadeiras. [...] O jirau invadiu o interior da cozinha e transformouse em fumeiro definitivo. Ao ar livre, o jirau indígena era armado sobre a fogueira - [enquanto que] dentro da casa
brasileira, alojou-se em cima do fogão, dando ao fumeiro português a forma nativa. No jirau da cozinha roceira,
como veremos mais tarde, toda sorte de mercadorias é conservada ou defumada. Outras vezes, o jirau da cozinha
é baixo, é revestido de barro, como se fora uma taipa de sebe horizontal, e transforma-se em fogão – fogão de
mocambo nordestino, fogão de forquilha, [...] fogão paulista dito ‘de estandaque’... (LEMOS, 1978, p. 43).
Cabe lembrar também a contribuição dos negros na formação do mobiliário brasileiro. Em
contingente populacional quantitativamente superior, em relação aos brancos, os negros influenciaram
significativamente a formação, os hábitos dos colonizadores e da sociedade brasileira, que se refletiram
no desenvolvimento da cultura material, onde se inclui o mobiliário.
O móvel começou a aparecer mais significativamente somente ao final do século XVI, em
regiões mais ricas, nas casas-grandes e capelas dos engenhos de açúcar, nas casas das pessoas
mais abastadas, do Nordeste do Brasil colonial.
Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, os móveis encontrados no Brasil eram importados ou
“cópia dos raros móveis vindos de Portugal, executados inicialmente em cedro e canela e, mais tarde,
em vinhático, jacarandá e outras madeiras de lei aqui encontradas e conhecidas por sua beleza e
qualidade” (LEMOS, 1978, p. 63), com poucas modificações.
O mobiliário português, por sua vez, sofreu influências dos árabes, que dominaram a Península
Ibérica durante vários séculos, e também das Índias e da China, em função do intercâmbio mercantil,
intensificado com as descobertas.180 Sofreu, ainda, influências de culturas ocidentais, através do
intenso comércio de móveis entre Portugal e Florença, Gênova, Veneza, Flandres e Espanha, bem
como do intercâmbio entre marceneiros europeus, segundo relata Canti (1999). Com uma configuração
180 “Móveis com incrustações ou embutidos na técnica de alfarje são executados ainda em Portugal até princípios do século
XVII; são arcas, pequenas peças moçárabes, tronos e cadeiras de braços. [...] Do intercâmbio entre Portugal e as Índias, surge, no
panorama do mobiliário quinhentista europeu, o estilo indo-português” (CANTI, 1999, p. 22).
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mais rebuscada, estes móveis compunham-se de peças em madeira torneadas e entalhes decorativos
(ver Figuras 103 e 104).
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FIGURA 103 - CAMA DE BILROS (ESTILO: INDO-PORTUGUÊS – SÉC. XVII – ORIGEM: PORTUGAL)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 104 - MESA MANUELINA OU DE “BOLACHA” (ESTILO: MANUELINO - SÉC. XVII – ORIGEM:
PORTUGAL) E MESA DE ABA E CANCELA (ESTILO: RENASCENTISTA – SÉC. XVIII –
ORIGEM: PORTUGAL)
NOTA:
Mesa Manuelina com influência oriental nas gavetas, laterais e parte traseira; Mesa de Aba e
Cancela, tipo introduzido pelos flamengos, na Inglaterra, na segunda metade do séc. XVII
___________________________________________________________________________________________
A herança lusitana do uso da madeira nos móveis encontrou no Brasil um "berço esplêndido"
para se aninhar, na ocasião de sua colonização, pois havia nele vastas florestas, com abundantes e
variadas espécies de árvores nativas, uma das quais, o Pau Brasil, do qual originou o nome que o país
mantém até hoje.
Os primeiros colonizadores e donatários que vieram ao Brasil, no século XVI, trouxeram de
Portugal mestres de carpintaria, marcenaria e entalhe, dentre outros ofícios, que se dedicaram, em
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parte, à execução de móveis. E, durante os séculos XVII e XVIII, continuaram vindo vários oficiais
marceneiros, torneiros, ensambladores e correeiros portugueses ao Brasil (CANTI, 1999, p. 68).
Até o século XVII, predominaram nos móveis as linhas retas e os torneados, delimitados por
uma configuração geral retangular e rígida. Na segunda metade do século XVII e no século XVIII, as
casas brasileiras foram incorporando “móveis de descanso” (banco, arquibanco e arca-banco ou banco
com caixa, cadeira e tamborete escabelo e tripeça, assentos dobradiços, dentre outros), “móveis de
repouso” (leito, catre e cama), “móveis de guarda” (baú, arca, caixa, caixão, canastras contador,
escritório e armário), “móveis de utilidade” (mesa e bufete), dentre outros artefatos (CANTI, 1999, p. 79133) (ver Figuras 105 a 108).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 105 - MESA DE ENCOSTAR (ESTILO: D. JOSÉ I – SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL) E CÔMODA DE
JACARANDÁ (ESTILO: D. JOÃO V - SÉC. XVIII – ORIGEM: BA / BRASIL)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 106 - CAMA D. JOSÉ I (ESTILO: D. JOSÉ I – SÉC. XVIII – ORIGEM: BA / BRASIL) E ARMÁRIO
PORTUGUÊS DE CARVALHO (ESTILO: NACIONAL-PORTUGUÊS - SÉC. XVII – ORIGEM:
PORTUGAL)
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FIGURA 107 - POLTRONA E CADEIRA DE COURO COM PREGARIA (ESTILO: NACIONAL-PORTUGUÊS –
SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL)
NOTAS:
Poltrona em carvalho e couro lavrado; cadeira em jacarandá do litoral e couro lavrado
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 108 - CADEIRA DE CAMPANHA (ARTESANATO POPULAR – SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL ) E
MESA DE REFEIÇÕES (ARTESANATO POPULAR – SÉC. XVII – ORIGEM: DESCONHECIDA)
NOTA:
Cadeira em jacarandá e couro lavrado
___________________________________________________________________________________________
Nos séculos XVII e XVIII, o tipo de mobiliário existente no Brasil situava-se, basicamente,
conforme Augusto Cardoso Pinto, nos seguintes grupos:
a) mobiliário trazido da Metrópole e que, portanto, é genuinamente português;
b) mobiliário feito no Brasil por artistas vindos de Portugal ou já aqui nascidos, mas formados nas oficinas dos
primeiros, segundo os modelos, ou pelos moldes tirados fielmente desses modelos, vindos da Metrópole; e isto é
ainda mobiliário português;
c) mobiliário em que, por falta de modelos, necessidade de variação, natureza das encomendas ou outras razões,
se introduziram alterações nas formas e na decoração; e este é já mobiliário luso-brasileiro;
d) mobiliário em que intervieram influências estranhas ou se introduziram modificações estruturais, umas e outras
não verificadas em Portugal, inclusive as espécies que, embora no estilo português, não têm congêneres em
Portugal; e este é já mobiliário brasileiro ou pelo menos luso-brasileiro;
e) mobiliário de caráter semi-rústico, feito nas missões ou em locais afastados dos centros populacionais, por
artífices improvisados ou de fraca aptidão, para suprir as necessidades de instalação, em que, por falta de
modelos e da gramácia ornamental de que dispõem os profissionais, houve que resolver empiricamente os
problemas de construção e criar motivos decorativos, tirando-os diretamente da fauna e da flora; este é mobiliário
lidimamente brasileiro (PINTO, apud CANTI, 1999, p. 77-78). [sem grifo no original] (ver Figuras 105 a 108)
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Como se pode observar na Figura 108, os móveis do artesanato popular, desta época,
apresentavam uma simplificação formal e acabamentos mais rústicos, comparativamente aos
importados.
No século XVIII, difundiram-se as linhas curvas do estilo barroco, e, segundo Canti, “o estilo
barroco português, mais simples e severo que o barroco corrente no resto da Europa, encontrou no
Brasil, sobretudo no trabalho de entalhe, um campo vastíssimo, devido à qualidade e riqueza de
nossas madeiras” (1999, p. 17). Utilizavam-se madeiras de cerejeira, canjerana, imbuia, jacarandá do
litoral e da Bahia, cedro, pinho, dentre outras (ver Figura 109).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 109 - CÔMODA-PAPELEIRA COM ORATÓRIO D. JOAO V E ARCA-BANCO (ESTILO: BARROCO SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL)
NOTA:
Cômoda em jacarandá-da-baía e estilo Barroco de transição (D. João V para D. José I); arcabanco em canjerana
___________________________________________________________________________________________
O estilo barroco incorporou o uso de cores, como ilustram vários móveis de Minas Gerais deste
período (ver Figura 110).
A partir da segunda metade do século XVIII, o móvel no Brasil passou a receber influências
diversas, advindas de estilos diversos: rocalha ou rococó, neoclássico, e por aí afora, com
configurações, uso de materiais e acabamentos variados (ver Figuras 111 a 114).
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FIGURA 110 - CÔMODA RÚSTICA PINTADA E ARCA OU CAIXA RÚSTICA POLICROMADA (ESTILO:
BARROCO - SÉC. XVIII – ORIGEM: MG/BRASIL)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 111- ARMÁRIO PINTADO* (ESTILO: NEOCLÁSSICO - SÉC. XVIII – ORIGEM: MG/BRASIL),
ROUPEIRO E CÔMODA D. JOÃO VI (ESTILO: NEOCLÁSSICO – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL);
GUARDA-ROUPA (ESTILO: ART-NOUVEAU – SÉC. XX – ORIGEM: SP/BRASIL)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 112 - MESA DE REFEIÇOES (ESTILO: NEOCLÁSSICO – SÉC. XIX – ORIGEM: SP/BRASIL); MESA
DE ENCOSTAR D. MARIA I (ESTILO: D. MARIA I – SÉC. XIX – ORIGEM: BA/BRASIL)
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FIGURA 113 - CADEIRA RENASCENÇA (ESTILO: RENASCENTISTA – SÉC. XIX – ORIGEM:
DESCONHECIDA), POLTRONA MEDALHÃO (ESTILO: NEOROCOCÓ – SÉC. XIX) E
POLTRONA IMPÉRIO (ESTILO: NEOCLÁSSICO FRANCÊS – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 114 - CADEIRA WINDSOR (ESTILO: WINDSOR AMERICANA – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL);
CADEIRA HÍBRIDA (ESTILO: NEOCLÁSSICO – SÉC. XIX – ORIGEM: SP/BRASIL); CADEIRA
AMERICANA (ESTILO: ART NOUVEAU – SÉC. XIX TRANSIÇÃO PARA XX – ORIGEM: BRASIL)
___________________________________________________________________________________________
Dentre as principais características do móvel colonial brasileiro, destaca-se o hibridismo de
seus componentes, cuja composição era geralmente eclética (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a).
Havia, neste período, desde móveis simples, com acabamento rústico, como o catre e o banco
bandeirante, por exemplo, pertencentes ao artesanato popular, até aqueles mais refinados, com
configurações e acabamentos mais rebuscados (ver Figura 115).
“O catre ou catle, que influenciou o estilo de leitos na Península Ibérica, é originário da Índia e
China. No Brasil. Este termo se aplicava à cama estreita de solteiro, de estrutura simples e construção
rústica” (MUSEU DA CASA BRASILEIRA, 2002, p. 176).
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FIGURA 115 - CATRE (ARTESANATO POPULAR – SÉC. XIX – ORIGEM: SP/BRASIL); BANCO BANDEIRANTE
(ARTESANATO POPULAR – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL); MESA DE REFEIÇÕES (ESTILO:
ECLETISMO – SÉC. XX – ORIGEM: SP/BRASIL) E CADEIRA DE ESCRITÓRIO (ESTILO:
ECLETISMO – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL)
___________________________________________________________________________________________
Certas características regionais foram sendo incorporadas aos móveis, estabelecendo
variações de estilo, a exemplo do estilo Beranger ou Pernambucano, desenvolvido pelo marceneiro
Francisco Beranger - que agregou ornamentos com motivos da flora e fauna brasileiras a elementos do
Neo-rococó e a influências do estilo francês Império - e do Sheraton Brasileiro, originado a partir do
estilo inglês Sheraton (ver Figura 116).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 116 - CANAPÉ BERANGER (ESTILO BERANGER – SÉC. XIX – ORIGEM: PE/BRASIL); CADEIRA
SHERATON BRASILEIRO (ESTILO SHERATON –SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL)
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A importação de móveis de Portugal decresceu após a abertura dos portos do Brasil, em 1808,
e, mais tarde, com a assinatura de vários tratados comerciais, os quais promoveram a entrada de
móveis ingleses, franceses, norte-americanos, alemães e austríacos (ver Figuras 117 e 118).
Paralelamente e sob a influência de móveis importados, como a cadeira austríaca Thonet181
(ver Figura 118), por exemplo, intensificou-se a produção local, através de artistas e artesãos
brasileiros e imigrantes europeus (sobretudo da Itália, Espanha e Alemanha), sendo que a mesma foi
também estimulada pela interrupção das importações, no período das duas guerras mundiais.
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 117 - PIANO INGLÊS TIPO ESPINETA (ESTILO: IMPÉRIO - SÉC. XIX – ORIGEM: INGLATERRA) E
ESPELHO COM PÉ (ESTILO: IMPÉRIO - SÉC. XIX – ORIGEM: FRANÇA)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 118 - CADEIRA THONET (ESTILO: THONET - SÉC. XIX – ORIGEM: ÁUSTRIA)
___________________________________________________________________________________________
181 Loschiavo dos Santos cita que "data desse período a introdução no Brasil das cadeiras austríacas Thonet, de madeira
curvada a fogo, cujo sucesso entre nós foi grande, permanecendo, à semelhança de Viena, hábito característico, nos interiores de bares e
restaurantes. Em 1890 foi aberta no Rio de Janeiro a Companhia de Móveis Curvados, com a finalidade de produzir em larga escala
móveis que imitavam os de procedência austríaca..." (1995a, p. 15)
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Em meados do século XIX, já havia uma produção artesanal significativa de móveis de vários
estilos no Brasil, a qual, no entanto, sofreu uma redução gradativa, a partir do final do século XIX,
quando se intensificou o processo de mecanização da produção de móveis. Esta, porém, não
desvinculou o móvel da tradição construída ao longo de mais de 400 anos do uso da madeira no Brasil,
que traz a experiência da combinação da habilidade dos artesãos à riqueza da flora, que se vê refletida
na obra de vários designers - dentre os quais cabe ressaltar os pioneiros Joaquim Tenreiro (Portugal,
1906 – Itabira/SP, 1992), José Zanine Caldas (Belmonte/BA, 1919 – Vitória/ES, 2001) e Sérgio
Rodrigues (Rio de Janeiro/RJ, 1927 - ), e, da geração mais recente, Carlos Motta (São Paulo/SP, 1952
- ), Cláudia Moreira Salles (Rio de Janeiro/RJ, 1955 - ) e Maurício Azeredo (Campos/RJ, 1948 - ),
dentre outros - e na produção industrial182 do século XX e início do século XXI (ver Figuras 119 a 124).
Conforme relata Loschiavo dos Santos,
Joaquim Tenreiro, um artista e artesão português que se instalou no Brasil, foi um precursor na busca de um
novo estilo de móvel a partir dos anos 40. Seu talento admirável e familiaridade com a madeira conduziram-no a
seus maiores resultados artísticos: a Poltrona Leve, a Cadeira de Três Pés, a Cadeira de Balanço [...].
José Zanine Caldas, um sábio no lidar com a madeira e quem se envolveu profundamente com as essências, as
fibras, a terra, as florestas e cujas mãos e arte arrancaram o espírito da madeira. Primeiramente, houve a sua
experiência com o móvel popular nos anos 50: com o corte de aglomerado em módulos. Mais tarde, nos anos 70,
no Sul da Bahia e com a ajuda de simples construtores de canoas, ele fez densas peças de mobiliário, tomando
partido das dimensões naturais da madeira.
Sérgio Rodrigues é um arquiteto do Rio de Janeiro que, em 1955, fundou a empresa OCA [...]. Ele não somente
desenvolveu uma linha de móveis modernos, como também se esforçou para dar expressão a elementos nativos,
através do uso de material e do design. Ele tentou fazer peças de mobiliário genuinamente brasileiras. Além disso,
no efervescente contexto dos anos 60, ele desenhou um tipo de móvel que contestou os padrões ecléticos, o
formalismo e as delgadas pernas "palito", que constituíam uma presença marcante nos interiores daquele período.
O principal exemplo é a Poltrona Mole. Impelido por esta força criativa e pelo conhecimento de alguém
familiarizado com os segredos dos materiais, Rodrigues revolucionou o mobiliário moderno do Brasil.
Na nova geração, os arquitetos Carlos Motta, Maurício Azeredo e a designer Claudia Salles, com uma grande
linha de produtos, principalmente cadeiras e mesas, revelam parte do espírito brasileiro relacionado à vida
doméstica. Eles têm também interpretado as sábias lições dos mestres artesãos e marceneiros, assim como de
designers clássicos como Joaquim Tenreiro e Sérgio Rodrigues.183
182 O IBGE (1985) classifica a indústria de móveis, a partir das matérias-primas predominantes, nas seguintes categorias
básicas: 1) móveis de madeira (incluindo vime e junco), que constituem o principal segmento com cerca de 91% dos estabelecimentos,
83% do pessoal ocupado e 72% do valor da produção; 2) móveis de metal, com cerca de 4% dos estabelecimentos, 9% do pessoal
ocupado e 12% do valor da produção; 3) móveis confeccionados em plástico, componentes de montagem e acabamento, e artefatos do
mobiliário (incluindo colchoaria e persianas), que abrangem o restante.
183 LOSCHIAVO; MORAES; ONO, 2002, p. 02-03. Para maiores esclarecimentos sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L.
dos, 1995a; ______, 1993.
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FIGURA 119 - CADEIRA DE EMBALO E CADEIRA DE TRÊS PÉS (AUTOR: JOAQUIM TENREIRO – ANO:
1947)
NOTAS:
Cadeira de Embalo com estrutura em pau-marfim maciço e revestimento em couro natural; Cadeira
de três pés em madeira de jacarandá e amendoim.
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 120 - CADEIRA (AUTOR: JOSÉ ZANINE CALDAS - DÉCADA DE 1950)
NOTA:
Cadeira com estrutura em compensado recortado e com assento e encosto revestidos de tecido
listrado.
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FIGURA 121 - POLTRONA MOLE E CROQUIS DE ESTUDOS (AUTOR: SÉRGIO RODRIGUES – ANO: 1957)
NOTAS:
Poltrona com estrutura em madeira maciça torneada e correias de couro natural, que, ajustadas
com botões de madeira torneada à estrutura de madeira, sustentam as almofadas do assento,
encosto e braços. As almofadas são revestidas com couro natural.
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FIGURA 122 - CADEIRA SÃO PAULO (AUTOR: CARLOS MOTTA – ANO: 1982)
NOTA:
Cadeira com estrutura torneada em madeira de mogno maciço; assento em madeira revestida com
laminado plástico e encosto em laminado de madeira moldado.
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 123 - MESA BABANLÁ (AUTOR: MAURÍCIO AZEREDO – ANO: 1987)
NOTA:
Mesa com mistura de madeiras de pau-ouro e muirapiranga, com detalhe central de granito rosa e
vinhático
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 124 - IRACEMA (AUTORA: CLAUDIA MOREIRA SALLES – ANO: 1993)
___________________________________________________________________________________________
Salientam-se as experiências pioneiras de racionalização do design e produção do móvel no
Brasil, iniciadas ao final do século XIX e primeiras décadas do século XX, das empresas: Riccó Móveis
para Escritório (Estado de São Paulo, 1875), Thonart (Estado do Rio Grande do Sul, 1908), Fábrica de
Móveis Carrera (Estado de São Paulo, 1909-1918), Móveis Teperman (Estado de São Paulo, 1912),
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217
Indústria Cama Patente Liscio S.A. (Estado de São Paulo, 1919-1968), Cia Industrial de Móveis Móveis CIMO S/A (Estado de Santa Catarina, 1921-1939), e Móveis Bergamo (Estado de São Paulo,
1927), dentre outras.
Desenvolvida ainda no período da primeira guerra mundial, a Cama Patente foi criada pelo
artesão Celso Martinez Carrera (Espanha, 1883 – Araraquara/SP, 1955), imigrante espanhol que
trabalhava com móveis de estilo, em 1915, para ser utilizada, a princípio, em hospitais. Foi produzida
inicialmente pela Fábrica de Móveis Carrera e posteriormente pela indústria Cama Patente L. Liscio
S.A. Explorando novos recursos da madeira torneada, este móvel caracterizava-se pela simplicidade,
funcionalidade e baixo custo, o que a tornou acessível ao mercado popular e fez dela um sucesso
comercial. Além disso, permitiu a substituição de camas de ferro similares, inglesas, cuja importação
estava dificultada naquela época, em virtude da guerra. Trata-se de um marco na história da indústria
moveleira brasileira, com destaque no âmbito da inovação tecnológica184 (ver Figura 125).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 125 - CAMA PATENTE E DETALHE (AUTOR: CELSO MARTINEZ CARRERA - DÉCADA DE 1920)
___________________________________________________________________________________________
Paradoxalmente, porém, na evolução da linha da Cama Patente, alguns modelos, que se
seguiram ao primeiro, afastaram-se dos princípios de simplicidade e racionalidade, incorporando
elementos decorativos de estilos diversos, refletindo a pluralidade de gostos da sociedade e a
multiplicidade de tendências do design no Brasil.
Modelos derivados da Cama Patente encontram-se no mercado até os dias de hoje. O
designer Fernando Jaeger (Santa Cruz do Sul/RS, 1956 - ) desenvolveu uma das releituras da Cama
Patente em 1986 (ver Figura 126).
___________________________________________________________________________________________
184 Segundo Loschiavo dos Santos, "foram desenvolvidos métodos próprios de fabricação e, sucessivamente, construídas
máquinas", permitindo a padronização dos componentes e facilitando a montagem das camas (1995a, p. 38).
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218
FIGURA 126 - RELEITURA DA CAMA PATENTE DE SOLTEIRO (AUTOR: FERNANDO JAEGER – ANO: 1986),
COMERCIALIZADA PELAS LOJAS TOK STOK
___________________________________________________________________________________________
A Cia Industrial de Móveis - Móveis CIMO S/A, fundada no Estado de Santa Catarina, em 1921,
inicialmente denominada de Hehrl & Cia, impulsionou o desenvolvimento da região de Rio Negrinho,
instalando-se posteriormente em Curitiba / PR. Esta empresa contribuiu significativamente para o
desenvolvimento da produção seriada em grande escala de móveis no Brasil. Como um dos marcos na
transição entre a produção artesanal e seriada no país, produziu uma gama diversificada de móveis,
voltada principalmente para locais públicos, instalações comerciais, instituições e serviços, destacandose pela gestão da produção, que abrangeu a constituição de reservas florestais, o beneficiamento de
matéria-prima, a capacitação de mão-de-obra nas bases produtivas, o desenvolvimento de tecnologia
apropriada à produção seriada em grande escala e ao sistema de distribuição e comercialização
(SANTI, 2000). Seus produtos caracterizaram-se pelo uso de madeira maciça (em particular, a imbuia)
e chapas de madeira compensada (ver Figura 127).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 127 - CADEIRAS CIMO (MÓVEIS CIMO – DÉCADAS DE 1920 E 1930)
NOTA:
Baseadas em modelos ingleses
___________________________________________________________________________________________
Grande impulsionadora do movimento de modernização cultural no Brasil foi a Semana de Arte
Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, que reuniu artistas de vanguarda de diversas áreas,
inclusive de design, promovendo a experimentação de diferentes técnicas e modos de expressão, e
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219
levando vários artistas a liberar-se de padrões acadêmicos cristalizados e a projetarem-se nacional e
internacionalmente.
Um dos principais representantes do Modernismo no Brasil, o escritor Mário de Andrade,
promoveu, como chefe do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo, o Primeiro Concurso de
Móvel Proletário do Brasil.
Tal conjunto de experimentações refletiu-se na composição de espaços e artefatos, lançando
sementes e desafios de uma nova linguagem estética, de cunho modernista, à arquitetura e ao design.
A assimilação dos princípios modernistas não se deu, no entanto, de forma imediata, total e
irrestrita na produção moveleira do Brasil. Ao contrário, houve limitações não somente de ordem
estética, mas também de uso, técnica, tecnológica e econômica, iniciando-se, lentamente, um processo
de renovação e adequação do móvel aos padrões da arquitetura moderna.185
Na realidade, "o modernismo foi um projeto de uma elite", como afirmou Mário de Andrade,
"tanto por seu refinamento, como por seu isolamento", e somente após 1930 é que se expandiu como
movimento no Brasil.186
O ano de 1930 constitui um marco que distingue nitidamente duas fases na história do móvel
moderno no Brasil, conforme assinala Loschiavo dos Santos.
Antes de 1930, seguindo a tradição colonial, o que imperou foi a cópia dos velhos estilos, a cartilha foi
eclética, misturavam-se aos luíses e marias o nosso colonial, o barroco, o inglês e, até mesmo, o árabe, que aqui
chegou de segunda mão, via Portugal.
A partir dos anos 30, com a emergência da arquitetura moderna, com a ressonância e o assentamento das
principais idéias e polêmicas levantadas pelo Modernismo no âmbito da literatura e das artes plásticas, do decênio
anterior, enfim, com o desejo de modernização geral do país, configurou-se um conjunto de fatores que
desempenhou importante papel no processo de modernização da mobília brasileira (SANTOS, M. C. L. dos,
1995a, p. 21). [sem grifo no original]
Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, vários artistas, artesãos e arquitetos
estrangeiros vieram ao Brasil, contribuindo para o fortalecimento do movimento de modernização do
móvel no país. Dentre esses, figuram como pioneiros: John Graz (Suíça, 1891 - São Paulo/SP, 1980),
Gregori Warchavchik (Rússia, 1896 – São Paulo/SP, 1972) e Lasar Segall (Lituânia, 1891 - São
Paulo/SP, 1957) (ver Figura 128).
185 Loschiavo dos Santos afirma que, "como a consolidação da arquitetura moderna residencial no Brasil coincidiu com o
advento de nossa indústria, foi possível a produção em série tanto de elementos construtivos quanto de decoração, por exemplo o móvel
para uso doméstico. Mas foram principalmente os móveis modernos para escritório os mais facilmente absorvidos, tendo se beneficiado
dessa modernização, de forma mais imediata, inclusive porque a grande arquitetura brasileira, especialmente a dos arquitetos cariocas,
estava mais voltada para os prédios públicos" (1995a, p. 25).
186
ANDRADE, apud LOSCHIAVO; MORAES; ONO, 2002, p. 05.
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FIGURA 128 - CADEIRA EM MADEIRA (AUTOR: LASAR SEGALL – ANO: 1932), POLTRONA (AUTOR: JOHN
GRAZ – ANO: 1940) E CADEIRA (AUTOR: GREGORY WARCHAVCHIK – ANO: 1948)
___________________________________________________________________________________________
As influências do racionalismo, provenientes de teorias variadas, dentre as quais se destacam
as de Adolf Loos, de Louis Sullivan, dos construtivistas russos, do Stijl, da Bauhaus e da Ulm
Hochschule für Gestaltung, apesar de terem repercutido no Brasil a partir da década de 1930, somente
se consolidaram nos anos de 1950, e com intensidade e modos não uniformes, nos vários contextos
sociais, culturais, ambientais e econômicos, dentre outros (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a).
As origens do móvel moderno no Brasil encontram-se estreitamente vinculadas a um
vocabulário internacional, estando, até o período de pós-Segunda Guerra Mundial, "isento de
nacionalismo" e sendo um reprodutor de padrões europeus de modernidade, conforme sustenta
Loschiavo dos Santos (1995a).
... da produção corrente desse período [-início dos anos de 1940], não emergiu nenhum tipo de originalidade e, em
geral, os modelos não passaram de imitações de obras então em voga na Europa. Foi um notável mostruário
de móveis pé-palito, que seguiram os vários estilos ecléticos [...]
[...] Foi uma produção elaborada para disseminar o espírito da modernidade. Mas, na verdade, tratava-se de um
desenho padronizado. Os modelos eram repetidos e abusados em nome dos novos princípios... (SANTOS, M. C.
L. dos, 1995a, p. 81 e 39). [sem grifo no original]
Conforme observa a mesma, "a importância maior dessa fase residiu em seu caráter
revolucionário, cuja principal conseqüência foi o despertar da inércia acadêmica". Houve uma revisão
de conceitos, inclusive o de estética, que "foi dessacralizado e passou a penetrar na esfera do
cotidiano e dos anônimos objetos do uso" (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 39).
Destaca-se a importância de tal "dessacralização" da noção de estética e da maior ênfase
atribuída à dinâmica de "uso" dos objetos, na medida em que isto ajudou a promover, de certa forma, o
desenvolvimento do móvel anônimo, popular, como uma alternativa ao móvel artesanal exclusivo e de
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221
autor, pouco acessível às camadas sociais economicamente menos privilegiadas, que ainda hoje
compõem a maioria da sociedade brasileira.
Buscou-se, após a Segunda Guerra Mundial, desenvolver móveis com características mais
específicas para o Brasil, a partir de pesquisas sobre matérias-primas brasileiras - tais como madeiras,
fibras, tecidos, dentre outras - que contribuíram significativamente para a construção de um vocabulário
mais próximo ao universo social e cultural, mais adequado às particularidades dos materiais, assim
como às condições ambientais do país.
A segunda metade da década 1950 e os anos de 1960 caracterizaram-se como um dos
períodos mais expressivos da história do design de móveis do Brasil, refletindo as transformações no
cenário cultural, social, econômico e político de então. Desenvolveu-se um gradativo processo de
aculturação, paralelamente à tendência à absorção de padrões internacionais187 no design de móveis,
com a incorporação de elementos que passaram a expressar mais as características e necessidades
locais. Houve, nesta época, segundo Loschiavo dos Santos, uma “maior ênfase no uso dos materiais
brasileiros, maior preocupação com as formas do móvel vernacular do país e, no limite, a própria
produção em série visava atender a um consumidor mais popular; enfim, o móvel se orientou por um
certo 'estilo nacional'” (1995a, p. 124).
Destaca-se, sob este prisma, a obra de Sérgio Rodrigues, cujas propostas contribuíram
significativamente para o desenvolvimento do móvel moderno no Brasil e para sua projeção no cenário
internacional. A Poltrona Mole188 destaca-se como uma de suas principais obras e expressa a busca
de uma identidade local. As cintas de couro desta poltrona, por exemplo, lembram os arreios usados
em animais e também a "rede", elemento significativo na cultura do Brasil (ver Figura 121).
Vale ressaltar a importante contribuição de Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi, Giancarlo Palanti
e Bernard Rudofsky, dentre outros, que buscaram utilizar materiais nacionais nos móveis, conferindolhes uma composição mais orgânica e "uma nova concepção de conforto, permitindo melhor
ajustamento ao corpo, trazendo uma multiplicidade de formas, recurvas e adelgaçadas", tal como
descreve Loschiavo dos Santos (1995a).
Os móveis de Joaquim Tenreiro, por exemplo - artesão português, que veio ao Brasil em 1928 abrigam o "moderno" de uma forma delicada, expressando uma linguagem entremeada pelo clássico e
o moderno (ver Figura 119).
187 Tendências internacionais foram incorporadas no desenvolvimento do móvel, no Brasil, como se pode observar, por
exemplo, no uso do aço tubular cromado, presente nas obras de John Graz (década de 1930), de Paulo Mendes da Rocha (década de
1950) e, mais recentemente, de Sérgio Rodrigues, dentre outros.
188 Sob o nome de Sheriff, a Poltrona Mole recebeu o primeiro prêmio na bienal Concorso Internazionale del Mobile, em 1961,
na Itália, sendo que um dos critérios de avaliação foi a "expressão da regionalidade" (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 127-128).
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O emprego da palhinha no móvel reflete também os laços culturais luso-brasileiros. Trata-se de
uma matéria-prima adequada às condições climáticas de regiões quentes do Brasil, principalmente por
sua estrutura delgada e flexível que permite o entrelaçamento de suas fibras e a ventilação através dos
vãos. O uso deste material foi muito bem explorado, por exemplo, em móveis desenvolvidos por Sérgio
Rodrigues, Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro/RJ, 1907 - ) e Joaquim Tenreiro, dentre outros (ver Figuras
129 e 130).
O advento da industrialização no Brasil foi um passo fundamental para o gradativo processo de
reconhecimento, pelas empresas, da importância do design no desenvolvimento de produtos, para o
atendimento dos requisitos do mercado em contínua transformação e como estratégia competitiva.
Este período coincidiu com a consolidação do modernismo na arquitetura residencial, cabendo
salientar a expressiva contribuição dos arquitetos no processo de modernização do móvel e na
introdução do design industrial no Brasil, na medida em que vários deles desenvolveram o móvel como
parte integrante de seus projetos arquitetônicos. Dentre esses arquitetos, figuram Lúcio Costa e Oscar
Niemeyer189, cuja atuação foi bastante significativa para a consolidação do móvel moderno no Brasil.
São Paulo e Rio de Janeiro, dois grandes centros urbanos do país, concentraram, entre as
décadas de 1930 e 1960, a maior parte das iniciativas de modernização da arquitetura e do móvel no
Brasil, influenciando e orientando a produção do móvel de muitas outras cidades do país.
A atuação dos arquitetos destas duas cidades foi relevante, não somente na promoção da
modernização do móvel, mas também na introdução do ensino e prática profissional do design
industrial no país.
189
Oscar Niemeyer desenvolveu cadeiras, poltronas, mesas cadeiras de balanço, espreguiçadeiras e marquesas, utilizando
como materiais, além da madeira, o couro e a palhinha. Esses produtos foram fabricados, inicialmente, pela Tendo Brasileira, e,
posteriormente, a partir da década de 1980, pela Móveis Teperman.
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___________________________________________________________________________________________
FIGURA 129 - CADEIRA OSCAR NIEMEYER LIGHT (AUTOR: SERGIO RODRIGUES – ANO: 1956) E CADEIRA
DE BALANÇO (AUTOR: JOAQUIM TENREIRO; ANO: 1959)
NOTAS:
Cadeira Oscar Niemeyer Light com estrutura de madeira maciça e assento e encosto de palhinha;
Cadeira de balanço com estrutura de madeira de jacarandá e assento e encosto de palhinha
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 130 - ESPREGUIÇADEIRA DE BALANÇO (AUTOR: OSCAR NIEMEYER – COLABORADORA: ANNA
MARIA NIEMEYER - ANO: 1977)
NOTAS:
Espreguiçadeira de balanço com estrutura de madeira, almofada em rolo revestida em couro, e
assento e encosto de palhinha
___________________________________________________________________________________________
Um marco, em termos de iniciativa na sistematização do design no país, foi estabelecido pelo
Instituto de Arte Contemporânea (IAC) do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MASP), que,
como afirma Lucy Niemeyer, "foi a semente do ensino do design, de nível superior, no Brasil" (1998, p.
64).
São Paulo também abrigou, em 1961, a primeira iniciativa de ensino de design no Brasil, com o
estabelecimento das disciplinas de "comunicação visual" e "desenho industrial" no curso da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP).
E, no Rio de Janeiro, criou-se oficialmente, em 1962, a primeira escola de design do país, a
Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) do Rio de Janeiro, que, como afirma Silvia Fernández
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(2002), surgiu "por vontade política, em apoio a programas nacionais de industrialização e de
vanguardas artísticas e arquitetônicas locais, com aportes explícitos de docentes de Ulm".
Cabe destacar a atuação em design do grupo de arquitetos cariocas, liderados por Lucio Costa
(Toulon, França, 1902 – Rio de Janeiro, 1998) - dentre os quais figuram Affonso Reidy, Alcides da
Rocha Miranda, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos, Jorge Moreira, Oscar Niemeyer, Aida Boal e Artur
Lício Pontual.
Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro, 1907 - ), apesar de ter seu trabalho mais reconhecido na área
de arquitetura, através de obras notáveis como as de Brasília, acabou desenvolvendo também alguns
móveis, com a colaboração de Anna Maria Niemeyer (1935 - ), estimulando significativamente a
produção de designers brasileiros.
Destaca-se, também, a contribuição de arquitetos paulistas, tais como Oswaldo Arthur Bratke,
João Batista Vilanova Artigas, Rino Levi, Henrique Ephim Mindlin, Paulo Mendes da Rocha, Júlio
Katinsky, Abrahão Sanovicz, Eduardo Corona, José Gabriel Borba Filho, Enzo Grinover, dentre
outros.190
Bratke, por exemplo, "foi pioneiro no projeto e utilização de cozinhas e copas industrializadas,
compostas por peças pré-fabricadas, que eram montadas na própria obra e embutidas na parede", e
buscou a otimização no uso de materiais, obtendo resultados interessantes, por exemplo, em móveis
de compensado recortado (ver Figura 131). Sanovicz contribuiu significativamente no desenvolvimento
de móveis para escritório da Escriba Indústria e Comércio de Móveis S.A., durante o período de 1962 a
1973, "implementando de forma representativa uma mentalidade de projeto na área do mobiliário
institucional", conforme assinala Loschiavo dos Santos (1995a, p. 66) (ver Figura 132). E João Batista
Vilanova Artigas teve uma atuação fundamental na promoção da reforma e implantação do ensino de
design na FAU - USP.
190 Alguns destes profissionais, tais como João Batista Villanova Artigas e Júlio Katinsky, pertencem a um grupo de arquitetos
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que foi pioneira na implantação do ensino do design industrial
no Brasil e que tem desempenhado um papel relevante no desenvolvimento da pesquisa e prática profissional desta área no país.
Para maiores esclarecimentos sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a.
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___________________________________________________________________________________________
FIGURA 131 - CADEIRA (AUTOR: OSWALDO ARTHUR BRATKE; ANO: 1948)
NOTA:
Cadeira em chapas de compensado recortado, presas por um único parafuso
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 132 - SISTEMA DE MÓVEIS PARA ESCRITÓRIO (AUTOR: ABRAHÃO SANOVICZ; ANO: 1962 –
PRODUÇÃO: ESCRIBA)
___________________________________________________________________________________________
O período de 1956 a 1961 - correspondente ao governo de Juscelino Kubitschek - foi marcado
pelo espírito desenvolvimentista e pela expansão econômica do Brasil. Houve um aumento da
participação direta e indireta do governo em investimentos industriais, e, paralelamente, deu-se a
entrada de capital estrangeiro privado e oficial para financiar uma parcela substancial dos
investimentos, aumentando, assim, a dependência do Brasil aos países centrais e gerando vários
desequilíbrios econômicos, políticos e sociais.
Conforme assinala Loschiavo dos Santos, "a rápida industrialização vivida pelo Brasil e a
intensificação dos meios de comunicação de massa foram fatores que, conjugados, contribuíram para
difundir o móvel moderno, o uso dos novos materiais, a aceitação de novas formas, padrões e
tendências na decoração dos interiores" (1995a, p. 103).
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Destacaram-se, neste período, sobretudo em termos de soluções desenvolvidas no processo
de produção em série do móvel moderno no Brasil, as empresas: Mobília Contemporânea; Móveis
Artesanal; Oca; Móveis Hobjeto; Fábrica de Móveis Z, Zanine, Pontes & Cia. Ltda; Ambiente Indústria e
Comércio de Móveis S.A.; Móveis Branco & Preto; L'Atelier Móveis e Unilabor Indústria de Artefatos de
Ferro e Madeira Ltda, dentre outras. Essas empresas ajudaram a legitimar e difundir o design moderno,
através da produção seriada e da comercialização de seus produtos por meio de canais de venda mais
acessíveis à população de classe média (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 103).
A Unilabor, que atuou no Brasil entre 1954 e 1967, incorporou princípios do movimento
moderno no design de seus produtos, cujo público consumidor principal pertencia à classe média alta.
Esta experiência foi conduzida pelo padre dominicano Frei João Batista Pereira dos Santos e teve
como designer o artista plástico concretista Geraldo de Barros (Xavantes/SP, 1923 – São Paulo/SP,
1998).191 Tinha-se como objetivo básico fabricar produtos em série, a preços acessíveis, com qualidade
de design e de produção. Com base nestes princípios, os móveis da empresa apresentam estruturas
mínimas e esbeltas, e sua composição explora a modularidade (ver Figura 133).
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 133 - ESTANTE E CADEIRA DA UNILABOR (AUTOR: GERALDO DE BARROS - DÉCADA DE 1950)
NOTA:
Estante em ferro, madeira e fórmica; cadeira em ferro, madeira e palhinha (encosto e assento); as
fotos não se encontram em escala proporcional entre si
___________________________________________________________________________________________
191 SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 115. Para maiores informações sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p.
115-122; CLARO, 1998.
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Em 1955, Sergio Rodrigues fundou a Oca, empresa focada na produção e comercialização de
móveis modernos, embora implementada em um período no qual o mercado brasileiro ainda estivesse
lentamente incorporando o mobiliário moderno.
Com fábrica em Jacareí, estado de São Paulo, a Oca comercializou produtos em suas lojas,
sediadas em Curitiba e Belo Horizonte, e também em San Francisco e Carmel, na Califórnia, Estados
Unidos.
“De todos as experiências da indústria moveleira, a loja Oca foi provavelmente a mais
profundamente comprometida com valores e materiais nativos do Brasil, tendo manifestado formas e
padrões da cultura brasileira, como uma conseqüência direta da postura inabalável de seu criador”,
afirma Loschiavo dos Santos.192
Em 1965, Geraldo de Barros fundou a Hobjeto, uma das primeiras empresas brasileiras a
comercializar móveis industrializados.
Países como a Itália e a Alemanha passaram a exercer uma grande influência sobre o design
de móveis do Brasil. Isto se deveu, em parte, ao fato dos mesmos possuírem, em geral, uma indústria
moveleira com uma base tecnológica avançada e desenvolverem fortes estratégias organizacionais e
comerciais, e, por outra parte, à repercussão que suas correntes de design tiveram e ao fato do design
já estar, nesses países, mais consolidado e integrado ao processo de desenvolvimento de produtos.
Os produtos desenvolvidos pela empresa L'Atelier, por exemplo, refletiram, desde o início, as
principais tendências do design europeu, com um uso acentuado de materiais cromados e sintéticos
injetados em uma diversificada gama de modelos, que incluíam desde kits porta-objetos para banheiro
até mobiliário institucional.193
A Móveis Artesanal, fundada, em 1949, por Carlo e Ernesto Hauner, desenvolveu móveis
"muito próximos das tendências européias", segundo Loschiavo dos Santos (1995a, p. 145).
No período que compreende as décadas de 1950 e 1960, vale também ressaltar a contribuição
dos designers Karl Heinz Bergmiller, Ricardo Arrastia, Sandro Magnelli e dos industriais José Serber e
Leo Seincman.
192 Texto traduzido pela autora desta pesquisa, a partir do original em inglês (SANTOS, M. C. L. dos. Prefácio do livro “Sergio
Rodrigues”. In: CALS (org.), 2000, p.27).
193 A L'Atelier iniciou suas atividades em 1955, com a associação de três marceneiros e Jorge Zalszupin, arquiteto polonês
radicado no Brasil em 1950. Para maiores informações sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 118-122.
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Leo Seincman fundou, em 1951, a empresa Ambiente Indústria e Comércio de Móveis S.A., a
primeira empresa do setor moveleiro do Brasil "a pagar royalties aos designers", o que demonstra o
reconhecimento e a promoção do trabalho destes profissionais. E, em 1964, Seincman fundou outra
empresa, a Probjeto Indústria e Comércio de Móveis Ltda, que, desde o início, comercializou móveis
europeus, principalmente escandinavos e italianos, promovendo, deste modo, a introdução de
tendências internacionais no Brasil. (ver Figura 134)
___________________________________________________________________________________________
FIGURA 134 - CADEIRA DINAMARQUESA (DESIGNER: ARNE JACOBSEN – DINAMARCA, 1951),
COMERCIALIZADA PELA PROBJETO
NOTAS:
Cadeira com assento de madeira compensada e estrutura tubular de aço.
___________________________________________________________________________________________
José Serber foi um dos sócios da Play Arte Decorações, marcenaria de pequeno porte que, em
1963, passou a constituir a Escriba Indústria e Comércio de Móveis Ltda.
A Escriba, empresa de capital 100% nacional, é atualmente uma das maiores indústrias de
móveis para escritório do Brasil. A partir da década de 1970, estabeleceu parceria com a empresa
alemã Wilkhann, que perdura até os dias de hoje, e passou a implantar inovações tecnológicas no setor
moveleiro. Tem representado um papel relevante no desenvolvimento do design de móveis para
escritório no Brasil, com destaque em termos de reconhecimento da importância do design no processo
de desenvolvimento de produtos e como estratégia competitiva para a indústria. Expressão da
valorização do design pela empresa está também no fato de seu atual vice-presidente, José Roberto
Calejo (que atua na empresa desde 1979), ser um designer.
Karl Bergmiller (designer alemão, formado na Escola de Ulm) contribuiu significativamente na
prática e no ensino de design, e vem desenvolvendo design de móveis de escritório para a Escriba (ver
Figura 135), desde 1967, e atuado como professor na ESDI (foi um de seus fundadores).
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FIGURA 135 - ESTANTE COMPONÍVEL (AUTOR: HANZ BERGMILLER – ANO: 1967); ASSENTO DE
TRABALHO DO “PROGRAMA C2” (AUTORES: JOSÉ ROBERTO CALEJO E KARL HEINZ
BERGMILLER - ANO: 1979 – PRODUÇÃO: ESCRIBA); POLTRONA PAR (AUTOR: KARL HEINZ
BERGMILLER – ANO: 1983 – PRODUÇÃO: ESCRIBA); PROGRAMA DE ESCRITORIO EA3
(AUTORES: HANZ BERGMILLER E PAULO GERMANI - ANO: 1989 – PRODUÇÃO: ESCRIBA)
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Ricardo Arrastia e Sandro Magnelli, por sua vez, desenvolveram, respectivamente, design de
móveis para a Arrendamento e para a Securit.
Nas décadas de 1970 e 1980, o móvel moderno atingiu uma produção de grande escala,
caracterizando-se pelo ecletismo e variedade qualitativa e quantitativa. E, conforme assinala Loschiavo
dos Santos, a produção moveleira apresenta atualmente várias vertentes:
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o móvel de autor, assinado, com canais de venda e faixa de clientela próprios; o móvel de massa, que inundou o
mercado para consumo popular, sem preocupações com o design [...]; o móvel reciclado, um certo revival da
mobília do passado, em que cópias e obras verdadeiras coexistem em antiquários e lojas de móveis usados, em
geral [...; e] os móveis institucionais, destinados principalmente a escritórios, lugares públicos, auditórios,
museus e hospitais (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 155).
São exemplos de móveis desenvolvidos na década de 1970: Poltrona da linha Peg-Lev (autor:
Michel Arnoult - ano: 1972) (ver Figura 136); Cadeira Kilin (autor: Sérgio Rodrigues - ano: 1973 –
produção: Lin Brasil, PR) (ver Figura 137); Espreguiçadeira de Balanço (autor: Oscar Niemeyer, com a
colaboração de Ana Maria Niemeyer - ano: 1977 - produção: Móveis Teperman, SP) (ver Figura 130);
Cadeiras Escolares (autor: Karl Heinz Bergmiller - ano: 1977 – produção: Cequipel, PR) (ver Figura
138); dentre outros.
Merece destaque, sobretudo pela busca de uma maior racionalização da produção de móveis
no Brasil - através de sistemas desmontáveis, modulares e flexíveis, permitindo diferentes
combinações entre elementos – o trabalho em design de móveis de Michel Arnoult (Paris, 1922 - ),
francês que se instalou no Brasil em 1951. Um de seus principais trabalhos é a Poltrona da Linha PegLev, desenvolvida a partir do conceito "leve e monte você mesmo" (ver Figura 136). Esta poltrona, no
entanto, não obteve sucesso comercial no Brasil, principalmente porque não houve, de um modo geral,
uma cultura que absorvesse um móvel com este tipo de conceito do "monte você mesmo".
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FIGURA 136 - POLTRONA DA LINHA PEG-LEV (AUTOR: MICHEL ARNOULT - ANO: 1972); EMBALAGENS E
LOGOTIPO DA POLTRONA PEG-LEV (AUTOR: HUGO KOVADLOFF)
NOTAS:
Desmontável, em madeira de "pau-ferro", com assento e encosto em couro natural. (Ibid., p. 141)
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FIGURA 137 - CADEIRA KILIN (AUTOR: SERGIO RODRIGUES; ANO: 1973 – PRODUÇÃO: LIN BRASIL, PR)
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FIGURA 138 - CADEIRAS ESCOLARES (AUTOR: KARL HEINZ BERGMILLER - ANO: 1977 – PRODUÇÃO:
CEQUIPEL, PR)
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Empresas como a Mobília Contemporânea e a Hobjeto, dentre outras, merecem destaque, no
que tange à produção de móveis modulares, flexíveis, multifuncionais e seriados, e à sua contribuição
para a melhoria de técnicas e processos produtivos.
Tendências e modismos internacionais foram introduzidos no Brasil e prontamente absorvidos
pela classe média, apesar de se tratarem, muitas vezes, de alternativas adotadas em determinados
mercados, diante de problemas específicos e muitas vezes distintos, em relação à realidade do Brasil.
O laqueado, por exemplo - lançado no Brasil pela Hobjeto – foi "uma solução de acabamento para
aglomerado de madeira; [...] uma solução tipicamente alemã, para resolver problemas de escassez de
madeira, mas, no Brasil, transformou-se numa moda transitória", segundo Loschiavo dos Santos
(1995a, p. 145) (ver Figura 139).
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FIGURA 139 - SALA DE REFEIÇÕES MOBILIADA COM MÓVEIS DA HOBJETO (AUTOR: GERALDO DE
BARROS – DÉCADA DE 1970)
NOTAS:
Móveis em compensado recortado, com acabamento laqueado.
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Exemplos como este demonstram a valorização muitas vezes exagerada de soluções externas
e a permeabilidade da indústria e do mercado brasileiro às influências e tendências internacionais de
design de móveis.
Na década de 1980, destacam-se exemplos de design de móveis tais como: Cadeira C3, da
autoria de Karl Heinz Bergmiller; Cadeira São Paulo, de Carlos Motta; Cadeira Frei Egídio, de Lina Bo
Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki; Ressaquinha, de Maurício Azeredo; Cadeira de Balanço
Gaivotta, de Reno Bonzon (França, 1954 - ); Delta, de Freddy van Camp (Bélgica, 1946 - ); Cadeira
Raio 23, de Fúlvio Nanni Jr (São Paulo/SP, 1952 - 1995); dentre outros (ver Figuras 140 a 143).
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FIGURA 140 - ASSENTO DO PROGRAMA C3 (AUTOR: KARL HEINZ BERGMILLER - ANO: 1980 –
PRODUÇÃO: ESCRIBA, SP)
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FIGURA 141 - CADEIRA FREI EGÍDIO (AUTORES: LINA BO BARDI, MARCELO FERRAZ E MARCELO SUZUKI
– ANO: 1987 – PRODUÇÃO: MARCENARIA BANAÚNA, SP)
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FIGURA 142 - RESSAQUINHA (AUTOR: MAURÍCIO AZEREDO – ANO: 1988 – PRODUÇÃO: OFICINA
MAURÍCIO AZEREDO)
NOTA:
Bancos nas madeiras de marupá/pau-ouro e muirapiranga/pau-ouro
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FIGURA 143 - CADEIRA DE BALANÇO GAIVOTTA (AUTOR: RENO BONZON (FRANÇA, 1954 - ) – ANO: 1988
– PRODUÇÃO: BONZON DESIGN, SP)
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Nos anos de 1990 e início do século XXI, figuram vários exemplos de experimentações, com
uso de materiais diversos, e design de móveis produzidos em série. Dentre estes: Cadeira Spaguetti,
de Fernando Jaeger; Poltrona de Auditório Clipper, de Oswaldo Mellone; Cadeira Vermelha, de
Humberto e Fernando Campana; Banco Iracema, de Cláudia Moreira Salles; Cadeira Taboa, de
Maurício Azeredo; Poltrona Cadê, de Luciana Martins (São Paulo/SP, 1967 - ) e Gerson Oliveira (Volta
Redonda/RJ, 1970 - ); Poltrona Ballet, de Guinter Parschalk (Campinas/SP, 1954 - ); Linha Holis e
Poltrona Muli, de Bernadete Brandão (Curitiba/PR, 1960 - ); Banqueta Prosinha, de Valter Bahcivanji
(São Caetano do Sul/SP, 1957 - ); Cadeira Iracema, de Luciano Deviá (Itália, 1943 - ); Cadeira Linha
Imigrante, de Ana Luísa LoPumo (Porto Alegre/RS, 1950 - ) e Maria Cristina Moura (Porto Alegre/RS,
1950 - ); Poltrona Água, de Manuel Bandeira (Salvador/BA, 1973 - ); Cadeira 20R e Linha Flexus, de
Pedro Useche (Venezuela, 1956 - ); Banqueta Um, de Ivan Rezende (Rio de Janeiro/RJ, 1956 - );
Poltrona Pororoca, de Flávia Alves de Souza (Niterói/RJ, 1969 - ); Poltrona Zen, de Alex Neumeister
(Alemanha, 1942 - ) e Ângela Carvalho (Rio de Janeiro/RJ); Poltrona Quadro, Mesas Componíveis e de
Jantar, de Jacqueline Terpins (Campina Grande/PB, 1950 - ); Cadeira Giro, de Lars Dierichsen
(México, 1966 - ); Móveis para Escritório Linha Physio, de Paulo Germani; Poltrona Joker, de Celso
Teodorico dos Santos (Garanhuns/PE, 1957 - ) e Heitor Eckeli (Paranavaí/PR, 1977 - ); Móveis para
Escritório Mancebo, de Ronaldo Duschenes e Dari Beck; além de outros (ver Figuras 144 a 158).
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FIGURA 144 - CADEIRA SPAGUETTI (AUTOR: FERNANDO JAEGER – ANO: 1991 - PRODUÇÃO: OFÍCIO)
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FIGURA 145 - POLTRONA DE AUDITÓRIO CLIPPER (AUTOR: OSWALDO MELLONE – ANO: 1992 PRODUÇÃO: PROBJETO, SP)
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FIGURA 146 - CADEIRA VERMELHA (AUTORES: HUMBERTO E FERNANDO CAMPANA – ANO: 1993 PRODUÇÃO: EDRA, ITÁLIA)
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FIGURA 147 - POLTRONA MULI (AUTORA: BERNADETE BRANDÃO – PRODUÇÃO: RONCONI, PR)
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FIGURA 148 - CADEIRA TABOA (AUTOR: MAURÍCIO AZEREDO – ANO: 1996 - PRODUÇÃO: MAURÍCIO
AZEREDO, GO)
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FIGURA 149 - POLTRONA CADÊ (AUTORES: LUCIANA MARTINS E GERSON OLIVEIRA – ANO: 1996 PRODUÇÃO: PROBJETO, SP)
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FIGURA 150 - BANQUETA PROSINHA (AUTOR: VALTER BAHCIVANJI – ANO: 1997 – PRODUÇÃO: VALTER
BAHCIVANJI)
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FIGURA 151 - CADEIRA IRACEMA (AUTOR: LUCIANO DEVIÁ – ANO: 1999 - PRODUÇÃO: RUDNICK, SC)
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FIGURA 152 - CADEIRA LINHA IMIGRANTE (AUTORA: ANA LUÍSA LOPUMO E MARIA CRISTINA MOURA –
ANO: 2000 - PRODUÇÃO: SCHUSTER, RS)
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FIGURA 153 - CADEIRA 20R E ASSENTO DA LINHA FLEXUS (AUTOR: PEDRO USECHE – ANO: 2000 E 2001
– PRODUÇÃO: USECHE MÓVEIS)
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FIGURA 154 - CHAISE LONGUE POROROCA (AUTORA: FLÁVIA ALVES DE SOUZA – ANO: 2001 PRODUÇÃO: EDRA, ITÁLIA)
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FIGURA 155 - MESAS COMPONÍVEIS (AUTORA: JACQUELINE TERPINS)
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FIGURA 156 - POLTRONA JOKER (AUTORES: CELSO TEODORICO DOS SANTOS E HEITOR ECKELI - ANO:
2002 - PRODUÇÃO: FRESO, PR)
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FIGURA 157 - MÓVEIS PARA ESCRITÓRIO LINHA PHYSIO (AUTOR: PAULO GERMANI - ANO: 2001PRODUÇÃO: VOKO)
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FIGURA 158 - MÓVEIS PARA ESCRITÓRIO MANCEBO (AUTORES: RONALDO DUSCHENES E DARI BECK –
PRODUÇÃO: FLEXIV MÓVEIS, PR)
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Cabe ressaltar a grande importância de propostas de design de móveis fundamentados em
abordagens de desenvolvimento sustentável, tais como: a Cadeira 20R194 (ver Figura 153)- de Pedro
Useche - e a Cadeira e Poltrona Scopo195 - de Maria Bernadete Brandão.
Além dos designers acima mencionados, há muitos outros que vêm atuando em áreas de
design de empresas e são anônimos, porém não menos importantes, que têm contribuído para a
promoção do design no Brasil, através das múltiplas e plurais manifestações de seu trabalho, que têm
participado da composição de espaços e mediado o desenvolvimento de várias atividades domésticas,
de trabalho e lazer na sociedade.
Certos profissionais têm desenvolvido móveis de cunho experimental, como é o caso dos
irmãos Fernando e Humberto Campana, cujo trabalho, se, por um lado, não têm contribuído mais
significativamente para o desenvolvimento do mobiliário industrial popular, sendo comercializados a
194 A cadeira 20R recebeu o 1º prêmio de Manejo Sustentável do Concurso Brasil Faz Design 2000, do Programa Brasileiro de Design.
195 A cadeira e poltrona Scopo recebeu o Prêmio Ecodesign 2002.
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preços muito elevados para a grande maioria da população brasileira, por outro, têm ajudado a
promover a imagem do design de móveis no cenário nacional e internacional, contando inclusive com o
apoio da mídia, que tem contribuído para a promoção e, em certa medida também, para a
"glamourização" do design “de autor”.
Ao olhar-se o processo de racionalização da arte, da arquitetura e do design, onde se inclui a
produção de móveis, é necessário ter-se uma perspectiva não-reducionista sobre as correntes
estéticas e realidades onde os mesmos se inserem.
Da mesma forma, devem-se considerar as inter-relações existentes entre as origens do design
industrial no Brasil com movimentos como o Concretismo (ainda que não haja um consenso em relação
a questões desta ordem). Faz-se mister compreender, por exemplo, que o racionalismo, enquanto
instrumento deste movimento, "serviu para mascarar e até mesmo diluir certos conflitos oriundos não
só da natureza híbrida do desenho industrial, como também de sua manifestação em nosso país",
conforme observa Loschiavo dos Santos (1995a, p. 26-27).
Tal constatação evidencia a importância de uma melhor compreensão sobre a natureza e a
inserção do modernismo no processo histórico do móvel no Brasil, onde se verifica uma constante
dialética entre a noção que se tem de design e artesanato, e cujo cenário abarca uma expressiva
diversidade social, cultural, econômica e ambiental, que exige uma abordagem dinâmica e plural no
desenvolvimento de produtos, e não estática e universal.
Cabe lembrar que esta pesquisa focaliza a questão da diversidade cultural no design do móvel
industrializado, e não o de autor, exclusivo e artesanal. Entretanto, o estudo sobre o desenvolvimento
histórico do design de móveis no Brasil, bem como acerca da implantação da indústria moveleira no
país, é importante para um melhor entendimento sobre como tem se desenvolvido a prática do design
industrial de móveis, diante da questão da diversidade cultural.
No início do século XX, acompanhando a onda de imigração que adentrou no Brasil, surgiram
pequenas marcenarias familiares de artesãos italianos, em São Paulo, Santo André, São Caetano e
São Bernardo do Campo. Este pólo moveleiro consolidou-se na década de 1950 (COUTINHO et al,
2001).
A maior parte da produção, neste estágio embrionário na indústria moveleira, esteve voltada ao
mercado interno.
Outros pólos moveleiros instalaram-se nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
O do Rio Grande do Sul concentrou-se em Bento Gonçalves. Surgiu ao final do século XIX, com
manufaturas (em geral de imigrantes italianos) de móveis de madeira e metal, e se consolidou na
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década de 1960. Já o pólo moveleiro de Santa Catarina concentrou-se na região dos municípios de
São Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre. Iniciou suas atividades na década de 1950, através
de imigrantes alemães, que produziram inicialmente móveis coloniais de alto padrão, com apoio
governamental. Este pólo consolidou-se na década de 1970, quando se destacou com a produção de
móveis escolares e cadeiras para cinema. Atualmente, São Bento do Sul constitui o maior pólo
moveleiro exportador do Brasil (COUTINHO et al, 2001).
Mais recentemente, surgiram outros pólos moveleiros no país, tais como os de Mirassol
(Estado de São Paulo), Votuporanga (Estado de São Paulo), Ubá (Estado de Minas Gerais) e
Arapongas (Estado do Paraná), a partir de iniciativas de empresários locais, conjugadas aos estímulos
e linhas de financiamento governamentais. Esses pólos consolidaram-se na década de 1980
(COUTINHO et al, 2001).
Verifica-se, portanto, uma formação desigual no setor industrial moveleiro do Brasil, cujos
pólos, apesar de apresentarem alguns pontos em comum, como a predominância da produção de
móveis residenciais, por exemplo, possuem particularidades significativas, em termos de estruturas
produtivas e linhas de produtos (ver Quadro 1).
Na indústria brasileira de móveis, "ainda predominam cópias modificadas dos modelos
oferecidos no mercado internacional [, e] poucas empresas possuem um departamento de design
formalmente constituído", apesar de, em termos de produtividade ter-se avançado significativamente,
aproximando-se de níveis internacionais (o que lhe possibilitou um expressivo salto exportador em
meados do século XX), como sustenta Gorini (2000, p. 55).
Fontes significativas de influência externa no design industrial têm sido os meios de
comunicação e as redes de informação, tais como a Internet, as feiras e revistas internacionais, dentre
outros fatores, cujo acesso tem sido relativamente fácil para aqueles que detêm o controle dos meios
produtivos.
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QUADRO 1 - PRINCIPAIS PÓLOS
CARACTERÍSTICAS
MOVELEIROS
DO
BRASIL:
ORIGENS,
CONSOLIDAÇÃO
PÓLO MOVELEIRO
ORIGEM
CONSOLIDAÇÃO
Grande São Paulo (SP)
Início do século XX (c/ marcenarias
familiares de imigrantes italianos).
Década de 1950.
E
Maior e mais diversificado pólo
moveleiro do país.
Maior produtor de móveis para
escritório (cerca de 80% do setor).
Principal mercado: interno
Principais segmentos: móveis para
escritório e móveis residenciais
(Obs.: quase a totalidade deste
último segmento é representada por
pequenas e médias empresas, que
produzem móveis sob encomenda).
Dentre as principais empresas ,
destacam-se:
Giroflex, Italma, Forma Móveis,
Escriba, Fiel, Securit, Global
Mobilínea, L'Atelier e Teperman
(móveis para escritório).
Bérgamo e Pastore (móveis
residenciais retilíneos seriados)
Bento Gonçalves (RS)
Final do século XIX (geralmente
com manufaturas de imigrantes
italianos, com a fabricação,
inicialmente, de instrumentos
musicais e telas metálicas,
posteriormente, de móveis de
madeira e metal.
Década de 1960
Segundo maior pólo moveleiro do
país.
Segundo pólo exportador do país
(cerca de 25%).
Principal mercado: interno
Principais segmentos: móveis
retilíneos seriados de madeira, de
pinus e metálicos.
Dentre as principais empresas,
destacam-se: Todeschini, Bertolini,
Carraro, Florense, Madem,
Madesa, Marelli, Pomzan, Delano,
SCA e Telasul.
São Bento do Sul (SC)
Década de 1950 (imigrantes
alemães, com a fabricação,
inicialmente, de móveis coloniais.
Na década de 1970, destacou-se
na fabricação de móveis escolares
e cadeiras de cinema.
Década de 1970
Principal pólo exportador do país
(mais de 50%).
Principal mercado: externo
(atualmente, 80% da produção
destina-se à exportação).
Principal segmento: móveis
residenciais de madeira de pínus.
Dentre as principais empresas,
destacam-se: Rudnick, Artefama,
Neumann, Leopoldo, Zipperer,
Weiherman, Serraltense e Três
Irmãos.
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(Cont.)
PÓLO MOVELEIRO
ORIGEM
CONSOLIDAÇÃO
Arapongas (PR)
Década de 1960, a partir da
iniciativa de empresários locais e
com apoio governamental
(sobretudo do município)
Década de 1980
Principal mercado: interno.
Principal segmento: móveis
residenciais populares, com
destaque para os estofados.
Dentre as principais empresas,
destaca-se a Simbal, maior
produtora de estofados do país.
Ubá (MG)
Década de 1960, com empresas
atraídas pela instalação da Móveis
Itatiaia.
Década de 1980
Principal mercado: interno.
Principal segmento: móveis
residenciais de madeira.
Dentre as principais empresas,
destaca-se a Itatiaia Móveis
(atualmente, concentra a sua
produção em armários de aço para
cozinha).
Noroeste Paulista
(Mirassol e Votuporanga /
SP)
Década de 1960, a partir da
iniciativa de empresários locais
Década de 1970
Principal mercado: interno.
Principal segmento: móveis
residenciais de madeira. As
grandes e médias empresas
concentram-se em móveis retilíneos
seriados, e as pequenas em móveis
torneados de madeira maciça. (Em
Mirassol, mais de 1/3 são pequenas
empresas produtoras de móveis
sob encomenda).
Dentre as principais empresas,
destacam-se: Fafá, 3D e Casa
Verde (Pólo de Mirassol); Davanço
(Votuporanga).
O mercado atendido pelas empresas brasileiras tem sido predominantemente o nacional. Tanto
a produção de móveis, quanto a sua demanda, têm se caracterizado pela segmentação. As empresas,
em geral, têm se especializado em um ou dois tipos de móveis e adotado estratégias de segmentação
de mercado. No Brasil, por exemplo, encontram-se empresas especializadas em móveis para
dormitório e cozinha, escritório, sala, dentre outros, e que direcionam suas linhas de produtos a
determinados segmentos de mercado, em função de fatores principalmente técnicos, sociais e
econômicos. A produção de móveis residenciais representa cerca de 60% do total do setor; a de
móveis para escritório 40%; e a de móveis institucionais 4% (ABIMÓVEL, 1996 apud GORINI, 2000, p.
37).
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De acordo com o estudo da competitividade da indústria de móveis de madeira do Brasil,
realizado pelo BNDES (1993), os móveis residenciais torneados e retilíneos seriados têm sido
desenvolvidos, respectivamente: 1) por médias e grandes empresas, empregando alta tecnologia e
predominantemente madeira de reflorestamento (principalmente serrado de Pinus), e direcionando sua
produção principalmente para a exportação; e 2) por médias e grandes empresas, empregando alta
tecnologia e predominantemente aglomerado, e concentrando sua produção principalmente para o
mercado nacional, em especial para as classes média e baixa.
No caso dos móveis retilíneos seriados, comparativamente aos torneados, "o processo
produtivo é bem mais simplificado, envolvendo produção em grande escala e poucas etapas: corte dos
painéis, usinagem e embalagem. As etapas de acabamento e montagem final foram eliminadas, pois
os painéis de madeira aglomerada, muitas vezes, já são adquiridos com acabamento, e a montagem
final do móvel é feita pelo varejista", conforme descreve Gorini (2000, p. 40). Dentre as empresas que
atuam neste segmento, destacam-se: a Carraro (com capacidade produtiva de 300 mil móveis/mês) e a
Todeschini (com capacidade produtiva de 5 a 6 mil móveis/dia), ambas de grande porte e pertencentes
ao pólo moveleiro de Bento Gonçalves (RS), e direcionadas predominantemente ao mercado interno.
Dentre os fatores que influenciam a demanda por móveis, destacam-se, segundo Gorini (2000):
as variações conjunturais da economia, as transformações no estilo de vida da sociedade, os aspectos
culturais, o ciclo de reposição dos produtos, dentre outros.
Grande parte das empresas moveleiras atuantes no mundo tem se dedicado à produção de
linhas específicas de produtos commodities, ou seja, produtos padronizados, cuja concorrência se
estabelece através de competição de preços. E, no Brasil, o principal segmento exportador se aproxima
deste modelo, produzindo móveis padronizados de pinus de reflorestamento (GORINI, 2000).
Outra tendência que se verifica, sobretudo entre os consumidores de classe média, é a da
demanda de móveis modulares pré-montados - a exemplo dos armários modulares para cozinhas e
dormitórios - fator que tem estimulado o uso de plataformas básicas e componentes modulares
padronizados.
O processo de globalização, que se acentuou na década de 1990, e a abertura econômica
brasileira têm promovido o desenvolvimento de alianças entre empresas do setor moveleiro, tais como
licenciamento de produtos estrangeiros, joint ventures, dentre outras.
No Brasil, muitas empresas têm recorrido ao licenciamento de produtos estrangeiros e há, na
maioria das empresas do setor moveleiro, "baixos investimentos em design e pesquisa de mercado",
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design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial
245
segundo Gorini (2000, p. 11). Tais aspectos trazem implicações diretas ao design de produtos, no que
tange à questão da diversidade cultural.
A Giroflex, por exemplo, maior empresa do segmento de móveis para escritório da América
Latina e do Brasil (onde atua desde 1951), possui um consórcio mundial para desenvolvimento de seus
produtos, a Giroflex Entwicklungs A.G., da qual fazem parte as empresas, pertencentes ao grupo
multinacional, dos seguintes países: África do Sul, Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Espanha,
Estados Unidos, Finlândia, Grécia, Holanda, Indonésia, Inglaterra, Israel, Japão, Singapura e Suíça.
Os avanços tecnológicos e dos modelos de gestão organizacional têm promovido o aumento
da produtividade e a flexibilização da produção, permitindo uma maior diversificação das linhas de
produtos fabricados em larga escala.
Cabe observar, no entanto, que, apesar de alguns segmentos do setor industrial moveleiro do
Brasil terem se aproximado, nos últimos anos, de níveis internacionais de produtividade, e atingido um
significativo aumento das exportações a partir de meados da década de 1990, a indústria moveleira
encontra-se, em geral, defasada, em relação aos países mais desenvolvidos.
Dentre as características do setor moveleiro do Brasil, identificam-se, de acordo com Gorini
(2000, p. 11): a "elevada informalidade", a "incipiente normatização técnica" e a "carência de
fornecedores especializados em partes e componentes de móveis", que acabam afetando o
desenvolvimento da produção industrial no país.
A Itália, a Alemanha e os Estados Unidos têm liderado a produção e as exportações de móveis
no mundo (concentram mais de 50% da produção mundial e cerca de 40% das exportações mundiais).
E o consumo de móveis tem se concentrado também em poucos países. Os Estados Unidos, a
Alemanha, a França, a Itália, a Inglaterra, o Japão e a Espanha têm concentrado mais de 80% do
consumo mundial (GORINI, 2000, p. 29). Isto reflete o problema das desigualdades econômicas e de
acesso aos bens de consumo entre as sociedades.
A partir da década de 1970, acentuou-se a homogeneização de padrões no design de móveis
no Brasil, com a adoção dos painéis de madeira reconstituída (exemplos: aglomerado, compensado,
MDF, dentre outras), juntamente com as estratégias de racionalização voltadas à produção em larga
escala.
Ao final do século XX e início do século XXI, no entanto, verifica-se uma maior demanda por
produtos diferenciados e de qualidade. Isto tem exigido uma maior flexibilização e a redução de lotes
de produção, de modo a se propiciar uma maior diversificação dos produtos oferecidos, além de um
maior valor agregado (SENAI, 2002).
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Há, no Brasil, uma demanda significativa por móveis economicamente mais acessíveis e de
melhor qualidade à população de baixa renda, e de alternativas de produtos mais adequados às
necessidades de segmentos de mercado nada ou pouco explorados, como é o caso do grupo de
pessoas de terceira idade e de solteiros com moradia própria, por exemplo, cuja população e consumo
têm crescido196 significativamente no país.
Tais aspectos ressaltam a importância do papel do design no desenvolvimento de móveis, para
a melhoria da qualidade dos mesmos e como estratégia competitiva para as empresas.
O design de móveis do Brasil tem sofrido diversas influências e impactos endógenos e
exógenos ao longo de seu processo histórico, e é a partir dessa ótica e do entendimento da
complexidade e pluralidade das várias realidades locais que deve ser analisada a sua prática nas
empresas que atuam no país, em relação à questão da diversidade cultural.
Esta pesquisa focaliza o setor moveleiro dos três maiores pólos moveleiros do Brasil, que são:
o da Grande São Paulo, o de Bento Gonçalves e o de São Bento do Sul.
A Grande São Paulo tem se posicionado como o maior197 e mais diversificado pólo moveleiro
do Brasil, com especial destaque para o segmento de móveis para escritório, onde as empresas deste
pólo detêm cerca de 80% do mercado brasileiro. E, de acordo com COUTINHO et al, "devido à maior
complexidade produtiva, este segmento é caracterizado por grandes empresas, apresentando assim
uma estrutura mais concentrada, a mais marcante da indústria moveleira do Brasil. Além disso, a quase
totalidade dos grandes fabricantes de móveis de escritório está vinculada, de alguma forma, aos líderes
mundiais deste segmento" (COUTINHO et al, 2001, p. 23). No Brasil, destacam-se, neste ramo
moveleiro, as empresas Giroflex, Forma Móveis, Fiel, Escriba, Securit e Italma, dentre outras.198
Neste pólo moveleiro, desenvolveu-se, nesta pesquisa, um estudo de caso na Escriba
Indústria e Comércio de Móveis Ltda (1962 - ), empresa nacional, atuante no Brasil, no segmento de
móveis para escritório. Esta empresa desenvolve produtos com design próprio e produz também alguns
produtos licenciados da Wilkhahn, empresa multinacional alemã. A importância do papel do design
conquistou um grande reconhecimento nesta empresa, cujo atual vice-presidente é designer.
O pólo moveleiro de Bento Gonçalves / RS é o segundo maior pólo produtor e exportador de
móveis do Brasil, com destaque na produção de dormitórios e móveis de cozinha. Sua produção
concentra-se em móveis retilíneos de madeira, seguidos dos móveis de Pinus e dos móveis metálicos
196
PROVAR / USP, 2000 apud REVISTA CAMINHOS DO III MILÊNIO, 2001, p. 09.
197
O pólo moveleiro da Grande São Paulo reúne cerca de 3,8 mil empresas e 5,8 mil trabalhadores (COUTINHO et al, 2001, p.
198
COUTINHO et al, 2001, p. 20; GAZETA MERCANTIL, jul. 2001.
20).
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(tubulares). Dentre as empresas produtoras de móveis retilíneos seriados, destacam-se: Carraro,
Todeschini, Florense, Delano, SCA, Pozza, Madem, Madesa, Marelli, Bertolini e Telasul, dentre outras
(COUTINHO et al, 2001, p. 17).
Neste pólo moveleiro, foram desenvolvidos, nesta pesquisa, estudos de casos nas empresas
brasileiras Metalúrgica Bertolini Ltda S.A. (1969 - ) e Móveis Carraro S.A. (1961 - ), que atuam no
segmento de móveis residenciais retilíneos seriados, nos mercados externo e principalmente interno. A
Móveis Carraro S.A. possui uma área de design interna e contrata também serviços de designers
externos para determinados projetos. E a Metalúrgica Bertolini Ltda, por sua vez, possui um designer,
que presta assessoria à equipe de desenvolvimento de produtos da empresa, além de contratar
serviços de designers externos para determinados projetos.
De Santa Catarina, o município de São Bento do Sul consiste no maior pólo exportador de
móveis do Brasil e terceiro maior produtor de móveis do país, com destaque na produção de armários,
dormitórios e mesas. Dentre as principais empresas deste pólo, destacam-se: Rudnick, Artefama,
Neumann, Leopoldo, Zipperer, Weiherman, Serraltense e Três Irmãos, dentre outras (COUTINHO et al,
2001, p. 18).
Neste pólo moveleiro, desenvolveu-se, nesta pesquisa, um estudo de caso na Móveis
Rudnick S.A., empresa brasileira (1938 - ) que atua no segmento de móveis residenciais retilíneos
seriados, nos mercados externo e principalmente interno. Esta empresa possui uma área de design
interna e contrata também serviços de designers externos para determinados projetos.
Com o objetivo de melhor fundamentar a discussão sobre a prática do design industrial, diante
da questão da diversidade cultural, apresenta-se, no Capítulo 6, um breve histórico sobre as empresas
estudadas no setor moveleiro, em cujas unidades de design foram realizados estudos de casos, e a
situação da atividade de design nas mesmas.
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