FIGURA 1FIGURA 2FIGURA 3FIGURA 4FIGURA 5FIGURA 6FIGURA 7FIGURA 8FIGURA 9FIGURA 10FIGURA 11FIGURA 12FIGURA 13FIGURA 14FIGURA 15FIGURA 16FIGURA 17FIGURA 18FIGURA 19FIGURA 20FIGURA 21FIGURA 22FIGURA 23FIGURA 24FIGURA 25FIGURA 26FIGURA 27FIGURA 28FIGURA 29FIGURA 30FIGURA 31FIGURA 32FIGURA 33FIGURA 34FIGURA 35FIGURA 36FIGURA 37FIGURA 38FIGURA 39FIGURA 40FIGURA 41FIGURA 42FIGURA 43FIGURA 44FIGURA 45FIGURA 46FIGURA 47FIGURA 48FIGURA 49FIGURA 50FIGURA 51FIGURA 52FIGURA 53FIGURA 54FIGURA 55FIGURA 56FIGURA 57FIGURA 58FIGURA 59FIGURA 60FIGURA 61FIGURA 62FIGURA 63FIGURA 64FIGURA 65FIGURA 66FIGURA 67FIGURA 68FIGURA 69FIGURA 70FIGURA 71FIGURA 72FIGURA 73FIGURA 74FIGURA 75FIGURA 76FIGURA 77FIGURA 78FIGURA 79FIGURA 80FIGURA 81FIGURA 82FIGURA 83FIGURA 84FIGURA 85FIGURA 86FIGURA 87FIGURA 88FIGURA 89FIGURA 90FIGURA 91FIGURA 92FIGURA 93FIGURA 94FIGURA 95FIGURA 96 FIGURA 97FIGURA 98FIGURA 99FIGURA 100FIGURA 101 TABELA 1TABELA 2TABELA 3TABELA 4TABELA 5 Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 5.2 203 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO SETOR MOVELEIRO DO BRASIL O móvel assume um papel relevante na sociedade, influenciando e sendo influenciado pelo seu modo de vida. Segundo Baudrillard, “a configuração do mobiliário é uma imagem fiel das estruturas familiais e sociais de uma época” (1993, p. 21). No Brasil, o móvel ocupa atualmente o terceiro lugar, em grau de importância para a sociedade em geral, que prioriza, em primeiro lugar, a habitação (casa/apartamento) e, em segundo lugar, o automóvel176. Há, atualmente, mais de oito mil modelos de móveis no mercado, onde se tem lançado mais de mil modelos por ano177. O desenvolvimento do design de móveis no Brasil encontra-se intimamente vinculado ao processo de desenvolvimento político, econômico, social e cultural do país, e tem se configurado a partir da pluralidade de forças, complexas e dinâmicas, que tecem as relações simbólicas e as atividades da sociedade. É, pois, imprescindível considerar-se, nos estudos sobre a questão da diversidade cultural na prática do design industrial - na perspectiva do setor industrial moveleiro - os fatores que influenciaram e impulsionaram o desenvolvimento do móvel no país, dentre os quais se destacam, segundo Maria Cecília Loschiavo dos Santos (1995a): 1) a herança cultural, advinda dos portugueses, do uso da madeira nos móveis e na arquitetura; 2) as importações de móveis, inicialmente de Portugal, e, posteriormente, da Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha e Áustria; 3) a interrupção das importações, no decorrer das duas Guerras Mundiais; 4) o processo de modernização cultural e econômica que se fez sentir, significativamente, na arquitetura; 5) e as relações do design brasileiro com o Concretismo; dentre outros fatores.178 O processo de desenvolvimento do mobiliário brasileiro pode ser classificado, de um modo geral, em três grandes períodos, de acordo com Lúcio Costa. ... o primeiro abrange os séculos XVI e XVII e prolonga-se mesmo até o começo do setecentos; o segundo período, barroco por excelência, estende-se praticamente por todo o século XVIII; e o terceiro e último, isto é, o da reação acadêmica, liberal e puritana, iniciada em fins deste século, corresponde para nós, principalmente, à primeira metade do século XIX (COSTA, 1939, p. 139). 176 PROVAR 177 / USP, 2000 apud REVISTA CAMINHOS DO III MILÊNIO, 2001, p. 08. CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA, UNIDADE DE COMPETITIVIDADE INDUSTRIAL, 1999, p. 18. 178 Este assunto não é objeto específico desta tese, e não se encontra nela aprofundado. Para maiores esclarecimentos, ver: SANTOS, 1995a. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 204 Verifica-se, na história do mobiliário brasileiro, que, desde o início da colonização, a cultura material dos brancos foi se impondo, em relação à cultura indígena nativa e dos escravos negros. Vale ressaltar, no entanto, as influências e o processo de hibridismo que se desenvolveram entre essas culturas. No Brasil pré-colonial, a rede já se encontrava presente no cotidiano de tribos indígenas, cuja maioria conhecia técnicas de tecelagem (em algodão e fibra). Além da rede, usada como cama, havia também leitos (feitos com paus fincados no chão, cordas, folhas de palmeira buriti e peles), mesas e bancos. Estes últimos “se apresentavam de vários tipos, dos simples toros de madeira utilizados como assento, aos bancos trabalhados em uma peça só de madeira, com decoração geométrica monocrômica em vermelho ou preto, alguns em forma animal” (CANTI, 1999, p. 59). Os bancos indígenas, com configurações representativas de elementos da fauna, traziam algumas composições mais figurativas e detalhistas, e outras mais estilizadas (ver Figura 102). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 102 - BANCOS INDÍGENAS (AUTORES E DATAS DESCONHECIDOS) ___________________________________________________________________________________________ Até meados do século XVII, a rede de manufatura indígena, de fácil e barata aquisição para serem utilizadas como cama, esteve bastante presente no cotidiano de grande parte da população, sobretudo no Nordeste do Brasil (CANTI, 1999). Também a esteira, o jirau179 e certos hábitos alimentares foram heranças indígenas, que influenciaram os hábitos e a cultura material dos colonizadores e da sociedade brasileira. 179 O “jirau” consiste em uma “armação horizontal de paus suspensa acima do chão. O jirau servia principalmente para o moquém – nele eram assados, ou secos ao sol, o peixe e a caça, para não falar na carne humana” (LEMOS, 1978, p. 40). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 205 A adoção do cardápio indígena introduziu nas cozinhas e zonas de serviço das moradas brasileiras equipamentos desconhecidos no Reino. Instalou nos alpendres roceiros a prensa de espremer mandioca ralada para farinha [, por exemplo, que] não exigia somente a prensa – pedia, também, raladores, cochos de lavagem e forno ou fogão. (LEMOS, 1978, p. 43) Destacam-se, assim, as influências entre culturas distintas, bem como a dinâmica do processo de hibridismo e da própria cultura em si, conforme ilustra também o jirau, que foi incorporado a moradias brasileiras e que sofreu transformações, assumindo novas funções ao longo do tempo e em contextos diversos. O seu nome, conservado no linguajar do povo, não só determina as armações, digamos ortodoxas, como outros tipos de engradados horizontais, como as prateleiras profundas, por exemplo. No quintal, o jirau servia para secar alimentos resguardados dos animais domésticos, para enxugar o trem de cozinha lavado, para secar a rede de pesca e a roupa lavada e para suportar plantas trepadeiras. [...] O jirau invadiu o interior da cozinha e transformouse em fumeiro definitivo. Ao ar livre, o jirau indígena era armado sobre a fogueira - [enquanto que] dentro da casa brasileira, alojou-se em cima do fogão, dando ao fumeiro português a forma nativa. No jirau da cozinha roceira, como veremos mais tarde, toda sorte de mercadorias é conservada ou defumada. Outras vezes, o jirau da cozinha é baixo, é revestido de barro, como se fora uma taipa de sebe horizontal, e transforma-se em fogão – fogão de mocambo nordestino, fogão de forquilha, [...] fogão paulista dito ‘de estandaque’... (LEMOS, 1978, p. 43). Cabe lembrar também a contribuição dos negros na formação do mobiliário brasileiro. Em contingente populacional quantitativamente superior, em relação aos brancos, os negros influenciaram significativamente a formação, os hábitos dos colonizadores e da sociedade brasileira, que se refletiram no desenvolvimento da cultura material, onde se inclui o mobiliário. O móvel começou a aparecer mais significativamente somente ao final do século XVI, em regiões mais ricas, nas casas-grandes e capelas dos engenhos de açúcar, nas casas das pessoas mais abastadas, do Nordeste do Brasil colonial. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, os móveis encontrados no Brasil eram importados ou “cópia dos raros móveis vindos de Portugal, executados inicialmente em cedro e canela e, mais tarde, em vinhático, jacarandá e outras madeiras de lei aqui encontradas e conhecidas por sua beleza e qualidade” (LEMOS, 1978, p. 63), com poucas modificações. O mobiliário português, por sua vez, sofreu influências dos árabes, que dominaram a Península Ibérica durante vários séculos, e também das Índias e da China, em função do intercâmbio mercantil, intensificado com as descobertas.180 Sofreu, ainda, influências de culturas ocidentais, através do intenso comércio de móveis entre Portugal e Florença, Gênova, Veneza, Flandres e Espanha, bem como do intercâmbio entre marceneiros europeus, segundo relata Canti (1999). Com uma configuração 180 “Móveis com incrustações ou embutidos na técnica de alfarje são executados ainda em Portugal até princípios do século XVII; são arcas, pequenas peças moçárabes, tronos e cadeiras de braços. [...] Do intercâmbio entre Portugal e as Índias, surge, no panorama do mobiliário quinhentista europeu, o estilo indo-português” (CANTI, 1999, p. 22). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 206 mais rebuscada, estes móveis compunham-se de peças em madeira torneadas e entalhes decorativos (ver Figuras 103 e 104). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 103 - CAMA DE BILROS (ESTILO: INDO-PORTUGUÊS – SÉC. XVII – ORIGEM: PORTUGAL) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 104 - MESA MANUELINA OU DE “BOLACHA” (ESTILO: MANUELINO - SÉC. XVII – ORIGEM: PORTUGAL) E MESA DE ABA E CANCELA (ESTILO: RENASCENTISTA – SÉC. XVIII – ORIGEM: PORTUGAL) NOTA: Mesa Manuelina com influência oriental nas gavetas, laterais e parte traseira; Mesa de Aba e Cancela, tipo introduzido pelos flamengos, na Inglaterra, na segunda metade do séc. XVII ___________________________________________________________________________________________ A herança lusitana do uso da madeira nos móveis encontrou no Brasil um "berço esplêndido" para se aninhar, na ocasião de sua colonização, pois havia nele vastas florestas, com abundantes e variadas espécies de árvores nativas, uma das quais, o Pau Brasil, do qual originou o nome que o país mantém até hoje. Os primeiros colonizadores e donatários que vieram ao Brasil, no século XVI, trouxeram de Portugal mestres de carpintaria, marcenaria e entalhe, dentre outros ofícios, que se dedicaram, em Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 207 parte, à execução de móveis. E, durante os séculos XVII e XVIII, continuaram vindo vários oficiais marceneiros, torneiros, ensambladores e correeiros portugueses ao Brasil (CANTI, 1999, p. 68). Até o século XVII, predominaram nos móveis as linhas retas e os torneados, delimitados por uma configuração geral retangular e rígida. Na segunda metade do século XVII e no século XVIII, as casas brasileiras foram incorporando “móveis de descanso” (banco, arquibanco e arca-banco ou banco com caixa, cadeira e tamborete escabelo e tripeça, assentos dobradiços, dentre outros), “móveis de repouso” (leito, catre e cama), “móveis de guarda” (baú, arca, caixa, caixão, canastras contador, escritório e armário), “móveis de utilidade” (mesa e bufete), dentre outros artefatos (CANTI, 1999, p. 79133) (ver Figuras 105 a 108). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 105 - MESA DE ENCOSTAR (ESTILO: D. JOSÉ I – SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL) E CÔMODA DE JACARANDÁ (ESTILO: D. JOÃO V - SÉC. XVIII – ORIGEM: BA / BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 106 - CAMA D. JOSÉ I (ESTILO: D. JOSÉ I – SÉC. XVIII – ORIGEM: BA / BRASIL) E ARMÁRIO PORTUGUÊS DE CARVALHO (ESTILO: NACIONAL-PORTUGUÊS - SÉC. XVII – ORIGEM: PORTUGAL) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 208 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 107 - POLTRONA E CADEIRA DE COURO COM PREGARIA (ESTILO: NACIONAL-PORTUGUÊS – SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL) NOTAS: Poltrona em carvalho e couro lavrado; cadeira em jacarandá do litoral e couro lavrado ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 108 - CADEIRA DE CAMPANHA (ARTESANATO POPULAR – SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL ) E MESA DE REFEIÇÕES (ARTESANATO POPULAR – SÉC. XVII – ORIGEM: DESCONHECIDA) NOTA: Cadeira em jacarandá e couro lavrado ___________________________________________________________________________________________ Nos séculos XVII e XVIII, o tipo de mobiliário existente no Brasil situava-se, basicamente, conforme Augusto Cardoso Pinto, nos seguintes grupos: a) mobiliário trazido da Metrópole e que, portanto, é genuinamente português; b) mobiliário feito no Brasil por artistas vindos de Portugal ou já aqui nascidos, mas formados nas oficinas dos primeiros, segundo os modelos, ou pelos moldes tirados fielmente desses modelos, vindos da Metrópole; e isto é ainda mobiliário português; c) mobiliário em que, por falta de modelos, necessidade de variação, natureza das encomendas ou outras razões, se introduziram alterações nas formas e na decoração; e este é já mobiliário luso-brasileiro; d) mobiliário em que intervieram influências estranhas ou se introduziram modificações estruturais, umas e outras não verificadas em Portugal, inclusive as espécies que, embora no estilo português, não têm congêneres em Portugal; e este é já mobiliário brasileiro ou pelo menos luso-brasileiro; e) mobiliário de caráter semi-rústico, feito nas missões ou em locais afastados dos centros populacionais, por artífices improvisados ou de fraca aptidão, para suprir as necessidades de instalação, em que, por falta de modelos e da gramácia ornamental de que dispõem os profissionais, houve que resolver empiricamente os problemas de construção e criar motivos decorativos, tirando-os diretamente da fauna e da flora; este é mobiliário lidimamente brasileiro (PINTO, apud CANTI, 1999, p. 77-78). [sem grifo no original] (ver Figuras 105 a 108) Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 209 Como se pode observar na Figura 108, os móveis do artesanato popular, desta época, apresentavam uma simplificação formal e acabamentos mais rústicos, comparativamente aos importados. No século XVIII, difundiram-se as linhas curvas do estilo barroco, e, segundo Canti, “o estilo barroco português, mais simples e severo que o barroco corrente no resto da Europa, encontrou no Brasil, sobretudo no trabalho de entalhe, um campo vastíssimo, devido à qualidade e riqueza de nossas madeiras” (1999, p. 17). Utilizavam-se madeiras de cerejeira, canjerana, imbuia, jacarandá do litoral e da Bahia, cedro, pinho, dentre outras (ver Figura 109). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 109 - CÔMODA-PAPELEIRA COM ORATÓRIO D. JOAO V E ARCA-BANCO (ESTILO: BARROCO SÉC. XVIII – ORIGEM: BRASIL) NOTA: Cômoda em jacarandá-da-baía e estilo Barroco de transição (D. João V para D. José I); arcabanco em canjerana ___________________________________________________________________________________________ O estilo barroco incorporou o uso de cores, como ilustram vários móveis de Minas Gerais deste período (ver Figura 110). A partir da segunda metade do século XVIII, o móvel no Brasil passou a receber influências diversas, advindas de estilos diversos: rocalha ou rococó, neoclássico, e por aí afora, com configurações, uso de materiais e acabamentos variados (ver Figuras 111 a 114). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 210 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 110 - CÔMODA RÚSTICA PINTADA E ARCA OU CAIXA RÚSTICA POLICROMADA (ESTILO: BARROCO - SÉC. XVIII – ORIGEM: MG/BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 111- ARMÁRIO PINTADO* (ESTILO: NEOCLÁSSICO - SÉC. XVIII – ORIGEM: MG/BRASIL), ROUPEIRO E CÔMODA D. JOÃO VI (ESTILO: NEOCLÁSSICO – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL); GUARDA-ROUPA (ESTILO: ART-NOUVEAU – SÉC. XX – ORIGEM: SP/BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 112 - MESA DE REFEIÇOES (ESTILO: NEOCLÁSSICO – SÉC. XIX – ORIGEM: SP/BRASIL); MESA DE ENCOSTAR D. MARIA I (ESTILO: D. MARIA I – SÉC. XIX – ORIGEM: BA/BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 211 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 113 - CADEIRA RENASCENÇA (ESTILO: RENASCENTISTA – SÉC. XIX – ORIGEM: DESCONHECIDA), POLTRONA MEDALHÃO (ESTILO: NEOROCOCÓ – SÉC. XIX) E POLTRONA IMPÉRIO (ESTILO: NEOCLÁSSICO FRANCÊS – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 114 - CADEIRA WINDSOR (ESTILO: WINDSOR AMERICANA – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL); CADEIRA HÍBRIDA (ESTILO: NEOCLÁSSICO – SÉC. XIX – ORIGEM: SP/BRASIL); CADEIRA AMERICANA (ESTILO: ART NOUVEAU – SÉC. XIX TRANSIÇÃO PARA XX – ORIGEM: BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ Dentre as principais características do móvel colonial brasileiro, destaca-se o hibridismo de seus componentes, cuja composição era geralmente eclética (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a). Havia, neste período, desde móveis simples, com acabamento rústico, como o catre e o banco bandeirante, por exemplo, pertencentes ao artesanato popular, até aqueles mais refinados, com configurações e acabamentos mais rebuscados (ver Figura 115). “O catre ou catle, que influenciou o estilo de leitos na Península Ibérica, é originário da Índia e China. No Brasil. Este termo se aplicava à cama estreita de solteiro, de estrutura simples e construção rústica” (MUSEU DA CASA BRASILEIRA, 2002, p. 176). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 212 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 115 - CATRE (ARTESANATO POPULAR – SÉC. XIX – ORIGEM: SP/BRASIL); BANCO BANDEIRANTE (ARTESANATO POPULAR – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL); MESA DE REFEIÇÕES (ESTILO: ECLETISMO – SÉC. XX – ORIGEM: SP/BRASIL) E CADEIRA DE ESCRITÓRIO (ESTILO: ECLETISMO – SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ Certas características regionais foram sendo incorporadas aos móveis, estabelecendo variações de estilo, a exemplo do estilo Beranger ou Pernambucano, desenvolvido pelo marceneiro Francisco Beranger - que agregou ornamentos com motivos da flora e fauna brasileiras a elementos do Neo-rococó e a influências do estilo francês Império - e do Sheraton Brasileiro, originado a partir do estilo inglês Sheraton (ver Figura 116). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 116 - CANAPÉ BERANGER (ESTILO BERANGER – SÉC. XIX – ORIGEM: PE/BRASIL); CADEIRA SHERATON BRASILEIRO (ESTILO SHERATON –SÉC. XIX – ORIGEM: BRASIL) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 213 A importação de móveis de Portugal decresceu após a abertura dos portos do Brasil, em 1808, e, mais tarde, com a assinatura de vários tratados comerciais, os quais promoveram a entrada de móveis ingleses, franceses, norte-americanos, alemães e austríacos (ver Figuras 117 e 118). Paralelamente e sob a influência de móveis importados, como a cadeira austríaca Thonet181 (ver Figura 118), por exemplo, intensificou-se a produção local, através de artistas e artesãos brasileiros e imigrantes europeus (sobretudo da Itália, Espanha e Alemanha), sendo que a mesma foi também estimulada pela interrupção das importações, no período das duas guerras mundiais. ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 117 - PIANO INGLÊS TIPO ESPINETA (ESTILO: IMPÉRIO - SÉC. XIX – ORIGEM: INGLATERRA) E ESPELHO COM PÉ (ESTILO: IMPÉRIO - SÉC. XIX – ORIGEM: FRANÇA) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 118 - CADEIRA THONET (ESTILO: THONET - SÉC. XIX – ORIGEM: ÁUSTRIA) ___________________________________________________________________________________________ 181 Loschiavo dos Santos cita que "data desse período a introdução no Brasil das cadeiras austríacas Thonet, de madeira curvada a fogo, cujo sucesso entre nós foi grande, permanecendo, à semelhança de Viena, hábito característico, nos interiores de bares e restaurantes. Em 1890 foi aberta no Rio de Janeiro a Companhia de Móveis Curvados, com a finalidade de produzir em larga escala móveis que imitavam os de procedência austríaca..." (1995a, p. 15) Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 214 Em meados do século XIX, já havia uma produção artesanal significativa de móveis de vários estilos no Brasil, a qual, no entanto, sofreu uma redução gradativa, a partir do final do século XIX, quando se intensificou o processo de mecanização da produção de móveis. Esta, porém, não desvinculou o móvel da tradição construída ao longo de mais de 400 anos do uso da madeira no Brasil, que traz a experiência da combinação da habilidade dos artesãos à riqueza da flora, que se vê refletida na obra de vários designers - dentre os quais cabe ressaltar os pioneiros Joaquim Tenreiro (Portugal, 1906 – Itabira/SP, 1992), José Zanine Caldas (Belmonte/BA, 1919 – Vitória/ES, 2001) e Sérgio Rodrigues (Rio de Janeiro/RJ, 1927 - ), e, da geração mais recente, Carlos Motta (São Paulo/SP, 1952 - ), Cláudia Moreira Salles (Rio de Janeiro/RJ, 1955 - ) e Maurício Azeredo (Campos/RJ, 1948 - ), dentre outros - e na produção industrial182 do século XX e início do século XXI (ver Figuras 119 a 124). Conforme relata Loschiavo dos Santos, Joaquim Tenreiro, um artista e artesão português que se instalou no Brasil, foi um precursor na busca de um novo estilo de móvel a partir dos anos 40. Seu talento admirável e familiaridade com a madeira conduziram-no a seus maiores resultados artísticos: a Poltrona Leve, a Cadeira de Três Pés, a Cadeira de Balanço [...]. José Zanine Caldas, um sábio no lidar com a madeira e quem se envolveu profundamente com as essências, as fibras, a terra, as florestas e cujas mãos e arte arrancaram o espírito da madeira. Primeiramente, houve a sua experiência com o móvel popular nos anos 50: com o corte de aglomerado em módulos. Mais tarde, nos anos 70, no Sul da Bahia e com a ajuda de simples construtores de canoas, ele fez densas peças de mobiliário, tomando partido das dimensões naturais da madeira. Sérgio Rodrigues é um arquiteto do Rio de Janeiro que, em 1955, fundou a empresa OCA [...]. Ele não somente desenvolveu uma linha de móveis modernos, como também se esforçou para dar expressão a elementos nativos, através do uso de material e do design. Ele tentou fazer peças de mobiliário genuinamente brasileiras. Além disso, no efervescente contexto dos anos 60, ele desenhou um tipo de móvel que contestou os padrões ecléticos, o formalismo e as delgadas pernas "palito", que constituíam uma presença marcante nos interiores daquele período. O principal exemplo é a Poltrona Mole. Impelido por esta força criativa e pelo conhecimento de alguém familiarizado com os segredos dos materiais, Rodrigues revolucionou o mobiliário moderno do Brasil. Na nova geração, os arquitetos Carlos Motta, Maurício Azeredo e a designer Claudia Salles, com uma grande linha de produtos, principalmente cadeiras e mesas, revelam parte do espírito brasileiro relacionado à vida doméstica. Eles têm também interpretado as sábias lições dos mestres artesãos e marceneiros, assim como de designers clássicos como Joaquim Tenreiro e Sérgio Rodrigues.183 182 O IBGE (1985) classifica a indústria de móveis, a partir das matérias-primas predominantes, nas seguintes categorias básicas: 1) móveis de madeira (incluindo vime e junco), que constituem o principal segmento com cerca de 91% dos estabelecimentos, 83% do pessoal ocupado e 72% do valor da produção; 2) móveis de metal, com cerca de 4% dos estabelecimentos, 9% do pessoal ocupado e 12% do valor da produção; 3) móveis confeccionados em plástico, componentes de montagem e acabamento, e artefatos do mobiliário (incluindo colchoaria e persianas), que abrangem o restante. 183 LOSCHIAVO; MORAES; ONO, 2002, p. 02-03. Para maiores esclarecimentos sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a; ______, 1993. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 215 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 119 - CADEIRA DE EMBALO E CADEIRA DE TRÊS PÉS (AUTOR: JOAQUIM TENREIRO – ANO: 1947) NOTAS: Cadeira de Embalo com estrutura em pau-marfim maciço e revestimento em couro natural; Cadeira de três pés em madeira de jacarandá e amendoim. ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 120 - CADEIRA (AUTOR: JOSÉ ZANINE CALDAS - DÉCADA DE 1950) NOTA: Cadeira com estrutura em compensado recortado e com assento e encosto revestidos de tecido listrado. ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 121 - POLTRONA MOLE E CROQUIS DE ESTUDOS (AUTOR: SÉRGIO RODRIGUES – ANO: 1957) NOTAS: Poltrona com estrutura em madeira maciça torneada e correias de couro natural, que, ajustadas com botões de madeira torneada à estrutura de madeira, sustentam as almofadas do assento, encosto e braços. As almofadas são revestidas com couro natural. ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 216 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 122 - CADEIRA SÃO PAULO (AUTOR: CARLOS MOTTA – ANO: 1982) NOTA: Cadeira com estrutura torneada em madeira de mogno maciço; assento em madeira revestida com laminado plástico e encosto em laminado de madeira moldado. ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 123 - MESA BABANLÁ (AUTOR: MAURÍCIO AZEREDO – ANO: 1987) NOTA: Mesa com mistura de madeiras de pau-ouro e muirapiranga, com detalhe central de granito rosa e vinhático ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 124 - IRACEMA (AUTORA: CLAUDIA MOREIRA SALLES – ANO: 1993) ___________________________________________________________________________________________ Salientam-se as experiências pioneiras de racionalização do design e produção do móvel no Brasil, iniciadas ao final do século XIX e primeiras décadas do século XX, das empresas: Riccó Móveis para Escritório (Estado de São Paulo, 1875), Thonart (Estado do Rio Grande do Sul, 1908), Fábrica de Móveis Carrera (Estado de São Paulo, 1909-1918), Móveis Teperman (Estado de São Paulo, 1912), Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 217 Indústria Cama Patente Liscio S.A. (Estado de São Paulo, 1919-1968), Cia Industrial de Móveis Móveis CIMO S/A (Estado de Santa Catarina, 1921-1939), e Móveis Bergamo (Estado de São Paulo, 1927), dentre outras. Desenvolvida ainda no período da primeira guerra mundial, a Cama Patente foi criada pelo artesão Celso Martinez Carrera (Espanha, 1883 – Araraquara/SP, 1955), imigrante espanhol que trabalhava com móveis de estilo, em 1915, para ser utilizada, a princípio, em hospitais. Foi produzida inicialmente pela Fábrica de Móveis Carrera e posteriormente pela indústria Cama Patente L. Liscio S.A. Explorando novos recursos da madeira torneada, este móvel caracterizava-se pela simplicidade, funcionalidade e baixo custo, o que a tornou acessível ao mercado popular e fez dela um sucesso comercial. Além disso, permitiu a substituição de camas de ferro similares, inglesas, cuja importação estava dificultada naquela época, em virtude da guerra. Trata-se de um marco na história da indústria moveleira brasileira, com destaque no âmbito da inovação tecnológica184 (ver Figura 125). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 125 - CAMA PATENTE E DETALHE (AUTOR: CELSO MARTINEZ CARRERA - DÉCADA DE 1920) ___________________________________________________________________________________________ Paradoxalmente, porém, na evolução da linha da Cama Patente, alguns modelos, que se seguiram ao primeiro, afastaram-se dos princípios de simplicidade e racionalidade, incorporando elementos decorativos de estilos diversos, refletindo a pluralidade de gostos da sociedade e a multiplicidade de tendências do design no Brasil. Modelos derivados da Cama Patente encontram-se no mercado até os dias de hoje. O designer Fernando Jaeger (Santa Cruz do Sul/RS, 1956 - ) desenvolveu uma das releituras da Cama Patente em 1986 (ver Figura 126). ___________________________________________________________________________________________ 184 Segundo Loschiavo dos Santos, "foram desenvolvidos métodos próprios de fabricação e, sucessivamente, construídas máquinas", permitindo a padronização dos componentes e facilitando a montagem das camas (1995a, p. 38). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 218 FIGURA 126 - RELEITURA DA CAMA PATENTE DE SOLTEIRO (AUTOR: FERNANDO JAEGER – ANO: 1986), COMERCIALIZADA PELAS LOJAS TOK STOK ___________________________________________________________________________________________ A Cia Industrial de Móveis - Móveis CIMO S/A, fundada no Estado de Santa Catarina, em 1921, inicialmente denominada de Hehrl & Cia, impulsionou o desenvolvimento da região de Rio Negrinho, instalando-se posteriormente em Curitiba / PR. Esta empresa contribuiu significativamente para o desenvolvimento da produção seriada em grande escala de móveis no Brasil. Como um dos marcos na transição entre a produção artesanal e seriada no país, produziu uma gama diversificada de móveis, voltada principalmente para locais públicos, instalações comerciais, instituições e serviços, destacandose pela gestão da produção, que abrangeu a constituição de reservas florestais, o beneficiamento de matéria-prima, a capacitação de mão-de-obra nas bases produtivas, o desenvolvimento de tecnologia apropriada à produção seriada em grande escala e ao sistema de distribuição e comercialização (SANTI, 2000). Seus produtos caracterizaram-se pelo uso de madeira maciça (em particular, a imbuia) e chapas de madeira compensada (ver Figura 127). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 127 - CADEIRAS CIMO (MÓVEIS CIMO – DÉCADAS DE 1920 E 1930) NOTA: Baseadas em modelos ingleses ___________________________________________________________________________________________ Grande impulsionadora do movimento de modernização cultural no Brasil foi a Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, que reuniu artistas de vanguarda de diversas áreas, inclusive de design, promovendo a experimentação de diferentes técnicas e modos de expressão, e Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 219 levando vários artistas a liberar-se de padrões acadêmicos cristalizados e a projetarem-se nacional e internacionalmente. Um dos principais representantes do Modernismo no Brasil, o escritor Mário de Andrade, promoveu, como chefe do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo, o Primeiro Concurso de Móvel Proletário do Brasil. Tal conjunto de experimentações refletiu-se na composição de espaços e artefatos, lançando sementes e desafios de uma nova linguagem estética, de cunho modernista, à arquitetura e ao design. A assimilação dos princípios modernistas não se deu, no entanto, de forma imediata, total e irrestrita na produção moveleira do Brasil. Ao contrário, houve limitações não somente de ordem estética, mas também de uso, técnica, tecnológica e econômica, iniciando-se, lentamente, um processo de renovação e adequação do móvel aos padrões da arquitetura moderna.185 Na realidade, "o modernismo foi um projeto de uma elite", como afirmou Mário de Andrade, "tanto por seu refinamento, como por seu isolamento", e somente após 1930 é que se expandiu como movimento no Brasil.186 O ano de 1930 constitui um marco que distingue nitidamente duas fases na história do móvel moderno no Brasil, conforme assinala Loschiavo dos Santos. Antes de 1930, seguindo a tradição colonial, o que imperou foi a cópia dos velhos estilos, a cartilha foi eclética, misturavam-se aos luíses e marias o nosso colonial, o barroco, o inglês e, até mesmo, o árabe, que aqui chegou de segunda mão, via Portugal. A partir dos anos 30, com a emergência da arquitetura moderna, com a ressonância e o assentamento das principais idéias e polêmicas levantadas pelo Modernismo no âmbito da literatura e das artes plásticas, do decênio anterior, enfim, com o desejo de modernização geral do país, configurou-se um conjunto de fatores que desempenhou importante papel no processo de modernização da mobília brasileira (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 21). [sem grifo no original] Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, vários artistas, artesãos e arquitetos estrangeiros vieram ao Brasil, contribuindo para o fortalecimento do movimento de modernização do móvel no país. Dentre esses, figuram como pioneiros: John Graz (Suíça, 1891 - São Paulo/SP, 1980), Gregori Warchavchik (Rússia, 1896 – São Paulo/SP, 1972) e Lasar Segall (Lituânia, 1891 - São Paulo/SP, 1957) (ver Figura 128). 185 Loschiavo dos Santos afirma que, "como a consolidação da arquitetura moderna residencial no Brasil coincidiu com o advento de nossa indústria, foi possível a produção em série tanto de elementos construtivos quanto de decoração, por exemplo o móvel para uso doméstico. Mas foram principalmente os móveis modernos para escritório os mais facilmente absorvidos, tendo se beneficiado dessa modernização, de forma mais imediata, inclusive porque a grande arquitetura brasileira, especialmente a dos arquitetos cariocas, estava mais voltada para os prédios públicos" (1995a, p. 25). 186 ANDRADE, apud LOSCHIAVO; MORAES; ONO, 2002, p. 05. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 220 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 128 - CADEIRA EM MADEIRA (AUTOR: LASAR SEGALL – ANO: 1932), POLTRONA (AUTOR: JOHN GRAZ – ANO: 1940) E CADEIRA (AUTOR: GREGORY WARCHAVCHIK – ANO: 1948) ___________________________________________________________________________________________ As influências do racionalismo, provenientes de teorias variadas, dentre as quais se destacam as de Adolf Loos, de Louis Sullivan, dos construtivistas russos, do Stijl, da Bauhaus e da Ulm Hochschule für Gestaltung, apesar de terem repercutido no Brasil a partir da década de 1930, somente se consolidaram nos anos de 1950, e com intensidade e modos não uniformes, nos vários contextos sociais, culturais, ambientais e econômicos, dentre outros (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a). As origens do móvel moderno no Brasil encontram-se estreitamente vinculadas a um vocabulário internacional, estando, até o período de pós-Segunda Guerra Mundial, "isento de nacionalismo" e sendo um reprodutor de padrões europeus de modernidade, conforme sustenta Loschiavo dos Santos (1995a). ... da produção corrente desse período [-início dos anos de 1940], não emergiu nenhum tipo de originalidade e, em geral, os modelos não passaram de imitações de obras então em voga na Europa. Foi um notável mostruário de móveis pé-palito, que seguiram os vários estilos ecléticos [...] [...] Foi uma produção elaborada para disseminar o espírito da modernidade. Mas, na verdade, tratava-se de um desenho padronizado. Os modelos eram repetidos e abusados em nome dos novos princípios... (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 81 e 39). [sem grifo no original] Conforme observa a mesma, "a importância maior dessa fase residiu em seu caráter revolucionário, cuja principal conseqüência foi o despertar da inércia acadêmica". Houve uma revisão de conceitos, inclusive o de estética, que "foi dessacralizado e passou a penetrar na esfera do cotidiano e dos anônimos objetos do uso" (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 39). Destaca-se a importância de tal "dessacralização" da noção de estética e da maior ênfase atribuída à dinâmica de "uso" dos objetos, na medida em que isto ajudou a promover, de certa forma, o desenvolvimento do móvel anônimo, popular, como uma alternativa ao móvel artesanal exclusivo e de Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 221 autor, pouco acessível às camadas sociais economicamente menos privilegiadas, que ainda hoje compõem a maioria da sociedade brasileira. Buscou-se, após a Segunda Guerra Mundial, desenvolver móveis com características mais específicas para o Brasil, a partir de pesquisas sobre matérias-primas brasileiras - tais como madeiras, fibras, tecidos, dentre outras - que contribuíram significativamente para a construção de um vocabulário mais próximo ao universo social e cultural, mais adequado às particularidades dos materiais, assim como às condições ambientais do país. A segunda metade da década 1950 e os anos de 1960 caracterizaram-se como um dos períodos mais expressivos da história do design de móveis do Brasil, refletindo as transformações no cenário cultural, social, econômico e político de então. Desenvolveu-se um gradativo processo de aculturação, paralelamente à tendência à absorção de padrões internacionais187 no design de móveis, com a incorporação de elementos que passaram a expressar mais as características e necessidades locais. Houve, nesta época, segundo Loschiavo dos Santos, uma “maior ênfase no uso dos materiais brasileiros, maior preocupação com as formas do móvel vernacular do país e, no limite, a própria produção em série visava atender a um consumidor mais popular; enfim, o móvel se orientou por um certo 'estilo nacional'” (1995a, p. 124). Destaca-se, sob este prisma, a obra de Sérgio Rodrigues, cujas propostas contribuíram significativamente para o desenvolvimento do móvel moderno no Brasil e para sua projeção no cenário internacional. A Poltrona Mole188 destaca-se como uma de suas principais obras e expressa a busca de uma identidade local. As cintas de couro desta poltrona, por exemplo, lembram os arreios usados em animais e também a "rede", elemento significativo na cultura do Brasil (ver Figura 121). Vale ressaltar a importante contribuição de Joaquim Tenreiro, Lina Bo Bardi, Giancarlo Palanti e Bernard Rudofsky, dentre outros, que buscaram utilizar materiais nacionais nos móveis, conferindolhes uma composição mais orgânica e "uma nova concepção de conforto, permitindo melhor ajustamento ao corpo, trazendo uma multiplicidade de formas, recurvas e adelgaçadas", tal como descreve Loschiavo dos Santos (1995a). Os móveis de Joaquim Tenreiro, por exemplo - artesão português, que veio ao Brasil em 1928 abrigam o "moderno" de uma forma delicada, expressando uma linguagem entremeada pelo clássico e o moderno (ver Figura 119). 187 Tendências internacionais foram incorporadas no desenvolvimento do móvel, no Brasil, como se pode observar, por exemplo, no uso do aço tubular cromado, presente nas obras de John Graz (década de 1930), de Paulo Mendes da Rocha (década de 1950) e, mais recentemente, de Sérgio Rodrigues, dentre outros. 188 Sob o nome de Sheriff, a Poltrona Mole recebeu o primeiro prêmio na bienal Concorso Internazionale del Mobile, em 1961, na Itália, sendo que um dos critérios de avaliação foi a "expressão da regionalidade" (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 127-128). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 222 O emprego da palhinha no móvel reflete também os laços culturais luso-brasileiros. Trata-se de uma matéria-prima adequada às condições climáticas de regiões quentes do Brasil, principalmente por sua estrutura delgada e flexível que permite o entrelaçamento de suas fibras e a ventilação através dos vãos. O uso deste material foi muito bem explorado, por exemplo, em móveis desenvolvidos por Sérgio Rodrigues, Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro/RJ, 1907 - ) e Joaquim Tenreiro, dentre outros (ver Figuras 129 e 130). O advento da industrialização no Brasil foi um passo fundamental para o gradativo processo de reconhecimento, pelas empresas, da importância do design no desenvolvimento de produtos, para o atendimento dos requisitos do mercado em contínua transformação e como estratégia competitiva. Este período coincidiu com a consolidação do modernismo na arquitetura residencial, cabendo salientar a expressiva contribuição dos arquitetos no processo de modernização do móvel e na introdução do design industrial no Brasil, na medida em que vários deles desenvolveram o móvel como parte integrante de seus projetos arquitetônicos. Dentre esses arquitetos, figuram Lúcio Costa e Oscar Niemeyer189, cuja atuação foi bastante significativa para a consolidação do móvel moderno no Brasil. São Paulo e Rio de Janeiro, dois grandes centros urbanos do país, concentraram, entre as décadas de 1930 e 1960, a maior parte das iniciativas de modernização da arquitetura e do móvel no Brasil, influenciando e orientando a produção do móvel de muitas outras cidades do país. A atuação dos arquitetos destas duas cidades foi relevante, não somente na promoção da modernização do móvel, mas também na introdução do ensino e prática profissional do design industrial no país. 189 Oscar Niemeyer desenvolveu cadeiras, poltronas, mesas cadeiras de balanço, espreguiçadeiras e marquesas, utilizando como materiais, além da madeira, o couro e a palhinha. Esses produtos foram fabricados, inicialmente, pela Tendo Brasileira, e, posteriormente, a partir da década de 1980, pela Móveis Teperman. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 223 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 129 - CADEIRA OSCAR NIEMEYER LIGHT (AUTOR: SERGIO RODRIGUES – ANO: 1956) E CADEIRA DE BALANÇO (AUTOR: JOAQUIM TENREIRO; ANO: 1959) NOTAS: Cadeira Oscar Niemeyer Light com estrutura de madeira maciça e assento e encosto de palhinha; Cadeira de balanço com estrutura de madeira de jacarandá e assento e encosto de palhinha ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 130 - ESPREGUIÇADEIRA DE BALANÇO (AUTOR: OSCAR NIEMEYER – COLABORADORA: ANNA MARIA NIEMEYER - ANO: 1977) NOTAS: Espreguiçadeira de balanço com estrutura de madeira, almofada em rolo revestida em couro, e assento e encosto de palhinha ___________________________________________________________________________________________ Um marco, em termos de iniciativa na sistematização do design no país, foi estabelecido pelo Instituto de Arte Contemporânea (IAC) do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MASP), que, como afirma Lucy Niemeyer, "foi a semente do ensino do design, de nível superior, no Brasil" (1998, p. 64). São Paulo também abrigou, em 1961, a primeira iniciativa de ensino de design no Brasil, com o estabelecimento das disciplinas de "comunicação visual" e "desenho industrial" no curso da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP). E, no Rio de Janeiro, criou-se oficialmente, em 1962, a primeira escola de design do país, a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) do Rio de Janeiro, que, como afirma Silvia Fernández Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 224 (2002), surgiu "por vontade política, em apoio a programas nacionais de industrialização e de vanguardas artísticas e arquitetônicas locais, com aportes explícitos de docentes de Ulm". Cabe destacar a atuação em design do grupo de arquitetos cariocas, liderados por Lucio Costa (Toulon, França, 1902 – Rio de Janeiro, 1998) - dentre os quais figuram Affonso Reidy, Alcides da Rocha Miranda, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos, Jorge Moreira, Oscar Niemeyer, Aida Boal e Artur Lício Pontual. Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro, 1907 - ), apesar de ter seu trabalho mais reconhecido na área de arquitetura, através de obras notáveis como as de Brasília, acabou desenvolvendo também alguns móveis, com a colaboração de Anna Maria Niemeyer (1935 - ), estimulando significativamente a produção de designers brasileiros. Destaca-se, também, a contribuição de arquitetos paulistas, tais como Oswaldo Arthur Bratke, João Batista Vilanova Artigas, Rino Levi, Henrique Ephim Mindlin, Paulo Mendes da Rocha, Júlio Katinsky, Abrahão Sanovicz, Eduardo Corona, José Gabriel Borba Filho, Enzo Grinover, dentre outros.190 Bratke, por exemplo, "foi pioneiro no projeto e utilização de cozinhas e copas industrializadas, compostas por peças pré-fabricadas, que eram montadas na própria obra e embutidas na parede", e buscou a otimização no uso de materiais, obtendo resultados interessantes, por exemplo, em móveis de compensado recortado (ver Figura 131). Sanovicz contribuiu significativamente no desenvolvimento de móveis para escritório da Escriba Indústria e Comércio de Móveis S.A., durante o período de 1962 a 1973, "implementando de forma representativa uma mentalidade de projeto na área do mobiliário institucional", conforme assinala Loschiavo dos Santos (1995a, p. 66) (ver Figura 132). E João Batista Vilanova Artigas teve uma atuação fundamental na promoção da reforma e implantação do ensino de design na FAU - USP. 190 Alguns destes profissionais, tais como João Batista Villanova Artigas e Júlio Katinsky, pertencem a um grupo de arquitetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que foi pioneira na implantação do ensino do design industrial no Brasil e que tem desempenhado um papel relevante no desenvolvimento da pesquisa e prática profissional desta área no país. Para maiores esclarecimentos sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 225 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 131 - CADEIRA (AUTOR: OSWALDO ARTHUR BRATKE; ANO: 1948) NOTA: Cadeira em chapas de compensado recortado, presas por um único parafuso ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 132 - SISTEMA DE MÓVEIS PARA ESCRITÓRIO (AUTOR: ABRAHÃO SANOVICZ; ANO: 1962 – PRODUÇÃO: ESCRIBA) ___________________________________________________________________________________________ O período de 1956 a 1961 - correspondente ao governo de Juscelino Kubitschek - foi marcado pelo espírito desenvolvimentista e pela expansão econômica do Brasil. Houve um aumento da participação direta e indireta do governo em investimentos industriais, e, paralelamente, deu-se a entrada de capital estrangeiro privado e oficial para financiar uma parcela substancial dos investimentos, aumentando, assim, a dependência do Brasil aos países centrais e gerando vários desequilíbrios econômicos, políticos e sociais. Conforme assinala Loschiavo dos Santos, "a rápida industrialização vivida pelo Brasil e a intensificação dos meios de comunicação de massa foram fatores que, conjugados, contribuíram para difundir o móvel moderno, o uso dos novos materiais, a aceitação de novas formas, padrões e tendências na decoração dos interiores" (1995a, p. 103). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 226 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial Destacaram-se, neste período, sobretudo em termos de soluções desenvolvidas no processo de produção em série do móvel moderno no Brasil, as empresas: Mobília Contemporânea; Móveis Artesanal; Oca; Móveis Hobjeto; Fábrica de Móveis Z, Zanine, Pontes & Cia. Ltda; Ambiente Indústria e Comércio de Móveis S.A.; Móveis Branco & Preto; L'Atelier Móveis e Unilabor Indústria de Artefatos de Ferro e Madeira Ltda, dentre outras. Essas empresas ajudaram a legitimar e difundir o design moderno, através da produção seriada e da comercialização de seus produtos por meio de canais de venda mais acessíveis à população de classe média (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 103). A Unilabor, que atuou no Brasil entre 1954 e 1967, incorporou princípios do movimento moderno no design de seus produtos, cujo público consumidor principal pertencia à classe média alta. Esta experiência foi conduzida pelo padre dominicano Frei João Batista Pereira dos Santos e teve como designer o artista plástico concretista Geraldo de Barros (Xavantes/SP, 1923 – São Paulo/SP, 1998).191 Tinha-se como objetivo básico fabricar produtos em série, a preços acessíveis, com qualidade de design e de produção. Com base nestes princípios, os móveis da empresa apresentam estruturas mínimas e esbeltas, e sua composição explora a modularidade (ver Figura 133). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 133 - ESTANTE E CADEIRA DA UNILABOR (AUTOR: GERALDO DE BARROS - DÉCADA DE 1950) NOTA: Estante em ferro, madeira e fórmica; cadeira em ferro, madeira e palhinha (encosto e assento); as fotos não se encontram em escala proporcional entre si ___________________________________________________________________________________________ 191 SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 115. Para maiores informações sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 115-122; CLARO, 1998. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 227 Em 1955, Sergio Rodrigues fundou a Oca, empresa focada na produção e comercialização de móveis modernos, embora implementada em um período no qual o mercado brasileiro ainda estivesse lentamente incorporando o mobiliário moderno. Com fábrica em Jacareí, estado de São Paulo, a Oca comercializou produtos em suas lojas, sediadas em Curitiba e Belo Horizonte, e também em San Francisco e Carmel, na Califórnia, Estados Unidos. “De todos as experiências da indústria moveleira, a loja Oca foi provavelmente a mais profundamente comprometida com valores e materiais nativos do Brasil, tendo manifestado formas e padrões da cultura brasileira, como uma conseqüência direta da postura inabalável de seu criador”, afirma Loschiavo dos Santos.192 Em 1965, Geraldo de Barros fundou a Hobjeto, uma das primeiras empresas brasileiras a comercializar móveis industrializados. Países como a Itália e a Alemanha passaram a exercer uma grande influência sobre o design de móveis do Brasil. Isto se deveu, em parte, ao fato dos mesmos possuírem, em geral, uma indústria moveleira com uma base tecnológica avançada e desenvolverem fortes estratégias organizacionais e comerciais, e, por outra parte, à repercussão que suas correntes de design tiveram e ao fato do design já estar, nesses países, mais consolidado e integrado ao processo de desenvolvimento de produtos. Os produtos desenvolvidos pela empresa L'Atelier, por exemplo, refletiram, desde o início, as principais tendências do design europeu, com um uso acentuado de materiais cromados e sintéticos injetados em uma diversificada gama de modelos, que incluíam desde kits porta-objetos para banheiro até mobiliário institucional.193 A Móveis Artesanal, fundada, em 1949, por Carlo e Ernesto Hauner, desenvolveu móveis "muito próximos das tendências européias", segundo Loschiavo dos Santos (1995a, p. 145). No período que compreende as décadas de 1950 e 1960, vale também ressaltar a contribuição dos designers Karl Heinz Bergmiller, Ricardo Arrastia, Sandro Magnelli e dos industriais José Serber e Leo Seincman. 192 Texto traduzido pela autora desta pesquisa, a partir do original em inglês (SANTOS, M. C. L. dos. Prefácio do livro “Sergio Rodrigues”. In: CALS (org.), 2000, p.27). 193 A L'Atelier iniciou suas atividades em 1955, com a associação de três marceneiros e Jorge Zalszupin, arquiteto polonês radicado no Brasil em 1950. Para maiores informações sobre este assunto, ver: SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 118-122. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 228 Leo Seincman fundou, em 1951, a empresa Ambiente Indústria e Comércio de Móveis S.A., a primeira empresa do setor moveleiro do Brasil "a pagar royalties aos designers", o que demonstra o reconhecimento e a promoção do trabalho destes profissionais. E, em 1964, Seincman fundou outra empresa, a Probjeto Indústria e Comércio de Móveis Ltda, que, desde o início, comercializou móveis europeus, principalmente escandinavos e italianos, promovendo, deste modo, a introdução de tendências internacionais no Brasil. (ver Figura 134) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 134 - CADEIRA DINAMARQUESA (DESIGNER: ARNE JACOBSEN – DINAMARCA, 1951), COMERCIALIZADA PELA PROBJETO NOTAS: Cadeira com assento de madeira compensada e estrutura tubular de aço. ___________________________________________________________________________________________ José Serber foi um dos sócios da Play Arte Decorações, marcenaria de pequeno porte que, em 1963, passou a constituir a Escriba Indústria e Comércio de Móveis Ltda. A Escriba, empresa de capital 100% nacional, é atualmente uma das maiores indústrias de móveis para escritório do Brasil. A partir da década de 1970, estabeleceu parceria com a empresa alemã Wilkhann, que perdura até os dias de hoje, e passou a implantar inovações tecnológicas no setor moveleiro. Tem representado um papel relevante no desenvolvimento do design de móveis para escritório no Brasil, com destaque em termos de reconhecimento da importância do design no processo de desenvolvimento de produtos e como estratégia competitiva para a indústria. Expressão da valorização do design pela empresa está também no fato de seu atual vice-presidente, José Roberto Calejo (que atua na empresa desde 1979), ser um designer. Karl Bergmiller (designer alemão, formado na Escola de Ulm) contribuiu significativamente na prática e no ensino de design, e vem desenvolvendo design de móveis de escritório para a Escriba (ver Figura 135), desde 1967, e atuado como professor na ESDI (foi um de seus fundadores). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 229 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 135 - ESTANTE COMPONÍVEL (AUTOR: HANZ BERGMILLER – ANO: 1967); ASSENTO DE TRABALHO DO “PROGRAMA C2” (AUTORES: JOSÉ ROBERTO CALEJO E KARL HEINZ BERGMILLER - ANO: 1979 – PRODUÇÃO: ESCRIBA); POLTRONA PAR (AUTOR: KARL HEINZ BERGMILLER – ANO: 1983 – PRODUÇÃO: ESCRIBA); PROGRAMA DE ESCRITORIO EA3 (AUTORES: HANZ BERGMILLER E PAULO GERMANI - ANO: 1989 – PRODUÇÃO: ESCRIBA) ___________________________________________________________________________________________ Ricardo Arrastia e Sandro Magnelli, por sua vez, desenvolveram, respectivamente, design de móveis para a Arrendamento e para a Securit. Nas décadas de 1970 e 1980, o móvel moderno atingiu uma produção de grande escala, caracterizando-se pelo ecletismo e variedade qualitativa e quantitativa. E, conforme assinala Loschiavo dos Santos, a produção moveleira apresenta atualmente várias vertentes: Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 230 o móvel de autor, assinado, com canais de venda e faixa de clientela próprios; o móvel de massa, que inundou o mercado para consumo popular, sem preocupações com o design [...]; o móvel reciclado, um certo revival da mobília do passado, em que cópias e obras verdadeiras coexistem em antiquários e lojas de móveis usados, em geral [...; e] os móveis institucionais, destinados principalmente a escritórios, lugares públicos, auditórios, museus e hospitais (SANTOS, M. C. L. dos, 1995a, p. 155). São exemplos de móveis desenvolvidos na década de 1970: Poltrona da linha Peg-Lev (autor: Michel Arnoult - ano: 1972) (ver Figura 136); Cadeira Kilin (autor: Sérgio Rodrigues - ano: 1973 – produção: Lin Brasil, PR) (ver Figura 137); Espreguiçadeira de Balanço (autor: Oscar Niemeyer, com a colaboração de Ana Maria Niemeyer - ano: 1977 - produção: Móveis Teperman, SP) (ver Figura 130); Cadeiras Escolares (autor: Karl Heinz Bergmiller - ano: 1977 – produção: Cequipel, PR) (ver Figura 138); dentre outros. Merece destaque, sobretudo pela busca de uma maior racionalização da produção de móveis no Brasil - através de sistemas desmontáveis, modulares e flexíveis, permitindo diferentes combinações entre elementos – o trabalho em design de móveis de Michel Arnoult (Paris, 1922 - ), francês que se instalou no Brasil em 1951. Um de seus principais trabalhos é a Poltrona da Linha PegLev, desenvolvida a partir do conceito "leve e monte você mesmo" (ver Figura 136). Esta poltrona, no entanto, não obteve sucesso comercial no Brasil, principalmente porque não houve, de um modo geral, uma cultura que absorvesse um móvel com este tipo de conceito do "monte você mesmo". ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 136 - POLTRONA DA LINHA PEG-LEV (AUTOR: MICHEL ARNOULT - ANO: 1972); EMBALAGENS E LOGOTIPO DA POLTRONA PEG-LEV (AUTOR: HUGO KOVADLOFF) NOTAS: Desmontável, em madeira de "pau-ferro", com assento e encosto em couro natural. (Ibid., p. 141) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 231 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 137 - CADEIRA KILIN (AUTOR: SERGIO RODRIGUES; ANO: 1973 – PRODUÇÃO: LIN BRASIL, PR) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 138 - CADEIRAS ESCOLARES (AUTOR: KARL HEINZ BERGMILLER - ANO: 1977 – PRODUÇÃO: CEQUIPEL, PR) ___________________________________________________________________________________________ Empresas como a Mobília Contemporânea e a Hobjeto, dentre outras, merecem destaque, no que tange à produção de móveis modulares, flexíveis, multifuncionais e seriados, e à sua contribuição para a melhoria de técnicas e processos produtivos. Tendências e modismos internacionais foram introduzidos no Brasil e prontamente absorvidos pela classe média, apesar de se tratarem, muitas vezes, de alternativas adotadas em determinados mercados, diante de problemas específicos e muitas vezes distintos, em relação à realidade do Brasil. O laqueado, por exemplo - lançado no Brasil pela Hobjeto – foi "uma solução de acabamento para aglomerado de madeira; [...] uma solução tipicamente alemã, para resolver problemas de escassez de madeira, mas, no Brasil, transformou-se numa moda transitória", segundo Loschiavo dos Santos (1995a, p. 145) (ver Figura 139). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 232 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 139 - SALA DE REFEIÇÕES MOBILIADA COM MÓVEIS DA HOBJETO (AUTOR: GERALDO DE BARROS – DÉCADA DE 1970) NOTAS: Móveis em compensado recortado, com acabamento laqueado. ___________________________________________________________________________________________ Exemplos como este demonstram a valorização muitas vezes exagerada de soluções externas e a permeabilidade da indústria e do mercado brasileiro às influências e tendências internacionais de design de móveis. Na década de 1980, destacam-se exemplos de design de móveis tais como: Cadeira C3, da autoria de Karl Heinz Bergmiller; Cadeira São Paulo, de Carlos Motta; Cadeira Frei Egídio, de Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki; Ressaquinha, de Maurício Azeredo; Cadeira de Balanço Gaivotta, de Reno Bonzon (França, 1954 - ); Delta, de Freddy van Camp (Bélgica, 1946 - ); Cadeira Raio 23, de Fúlvio Nanni Jr (São Paulo/SP, 1952 - 1995); dentre outros (ver Figuras 140 a 143). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 140 - ASSENTO DO PROGRAMA C3 (AUTOR: KARL HEINZ BERGMILLER - ANO: 1980 – PRODUÇÃO: ESCRIBA, SP) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 233 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 141 - CADEIRA FREI EGÍDIO (AUTORES: LINA BO BARDI, MARCELO FERRAZ E MARCELO SUZUKI – ANO: 1987 – PRODUÇÃO: MARCENARIA BANAÚNA, SP) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 142 - RESSAQUINHA (AUTOR: MAURÍCIO AZEREDO – ANO: 1988 – PRODUÇÃO: OFICINA MAURÍCIO AZEREDO) NOTA: Bancos nas madeiras de marupá/pau-ouro e muirapiranga/pau-ouro ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 143 - CADEIRA DE BALANÇO GAIVOTTA (AUTOR: RENO BONZON (FRANÇA, 1954 - ) – ANO: 1988 – PRODUÇÃO: BONZON DESIGN, SP) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 234 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial Nos anos de 1990 e início do século XXI, figuram vários exemplos de experimentações, com uso de materiais diversos, e design de móveis produzidos em série. Dentre estes: Cadeira Spaguetti, de Fernando Jaeger; Poltrona de Auditório Clipper, de Oswaldo Mellone; Cadeira Vermelha, de Humberto e Fernando Campana; Banco Iracema, de Cláudia Moreira Salles; Cadeira Taboa, de Maurício Azeredo; Poltrona Cadê, de Luciana Martins (São Paulo/SP, 1967 - ) e Gerson Oliveira (Volta Redonda/RJ, 1970 - ); Poltrona Ballet, de Guinter Parschalk (Campinas/SP, 1954 - ); Linha Holis e Poltrona Muli, de Bernadete Brandão (Curitiba/PR, 1960 - ); Banqueta Prosinha, de Valter Bahcivanji (São Caetano do Sul/SP, 1957 - ); Cadeira Iracema, de Luciano Deviá (Itália, 1943 - ); Cadeira Linha Imigrante, de Ana Luísa LoPumo (Porto Alegre/RS, 1950 - ) e Maria Cristina Moura (Porto Alegre/RS, 1950 - ); Poltrona Água, de Manuel Bandeira (Salvador/BA, 1973 - ); Cadeira 20R e Linha Flexus, de Pedro Useche (Venezuela, 1956 - ); Banqueta Um, de Ivan Rezende (Rio de Janeiro/RJ, 1956 - ); Poltrona Pororoca, de Flávia Alves de Souza (Niterói/RJ, 1969 - ); Poltrona Zen, de Alex Neumeister (Alemanha, 1942 - ) e Ângela Carvalho (Rio de Janeiro/RJ); Poltrona Quadro, Mesas Componíveis e de Jantar, de Jacqueline Terpins (Campina Grande/PB, 1950 - ); Cadeira Giro, de Lars Dierichsen (México, 1966 - ); Móveis para Escritório Linha Physio, de Paulo Germani; Poltrona Joker, de Celso Teodorico dos Santos (Garanhuns/PE, 1957 - ) e Heitor Eckeli (Paranavaí/PR, 1977 - ); Móveis para Escritório Mancebo, de Ronaldo Duschenes e Dari Beck; além de outros (ver Figuras 144 a 158). ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 144 - CADEIRA SPAGUETTI (AUTOR: FERNANDO JAEGER – ANO: 1991 - PRODUÇÃO: OFÍCIO) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 235 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 145 - POLTRONA DE AUDITÓRIO CLIPPER (AUTOR: OSWALDO MELLONE – ANO: 1992 PRODUÇÃO: PROBJETO, SP) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 146 - CADEIRA VERMELHA (AUTORES: HUMBERTO E FERNANDO CAMPANA – ANO: 1993 PRODUÇÃO: EDRA, ITÁLIA) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 147 - POLTRONA MULI (AUTORA: BERNADETE BRANDÃO – PRODUÇÃO: RONCONI, PR) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 236 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 148 - CADEIRA TABOA (AUTOR: MAURÍCIO AZEREDO – ANO: 1996 - PRODUÇÃO: MAURÍCIO AZEREDO, GO) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 149 - POLTRONA CADÊ (AUTORES: LUCIANA MARTINS E GERSON OLIVEIRA – ANO: 1996 PRODUÇÃO: PROBJETO, SP) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 150 - BANQUETA PROSINHA (AUTOR: VALTER BAHCIVANJI – ANO: 1997 – PRODUÇÃO: VALTER BAHCIVANJI) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 237 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 151 - CADEIRA IRACEMA (AUTOR: LUCIANO DEVIÁ – ANO: 1999 - PRODUÇÃO: RUDNICK, SC) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 152 - CADEIRA LINHA IMIGRANTE (AUTORA: ANA LUÍSA LOPUMO E MARIA CRISTINA MOURA – ANO: 2000 - PRODUÇÃO: SCHUSTER, RS) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 153 - CADEIRA 20R E ASSENTO DA LINHA FLEXUS (AUTOR: PEDRO USECHE – ANO: 2000 E 2001 – PRODUÇÃO: USECHE MÓVEIS) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 238 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 154 - CHAISE LONGUE POROROCA (AUTORA: FLÁVIA ALVES DE SOUZA – ANO: 2001 PRODUÇÃO: EDRA, ITÁLIA) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 155 - MESAS COMPONÍVEIS (AUTORA: JACQUELINE TERPINS) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 156 - POLTRONA JOKER (AUTORES: CELSO TEODORICO DOS SANTOS E HEITOR ECKELI - ANO: 2002 - PRODUÇÃO: FRESO, PR) ___________________________________________________________________________________________ Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 239 ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 157 - MÓVEIS PARA ESCRITÓRIO LINHA PHYSIO (AUTOR: PAULO GERMANI - ANO: 2001PRODUÇÃO: VOKO) ___________________________________________________________________________________________ FIGURA 158 - MÓVEIS PARA ESCRITÓRIO MANCEBO (AUTORES: RONALDO DUSCHENES E DARI BECK – PRODUÇÃO: FLEXIV MÓVEIS, PR) ___________________________________________________________________________________________ Cabe ressaltar a grande importância de propostas de design de móveis fundamentados em abordagens de desenvolvimento sustentável, tais como: a Cadeira 20R194 (ver Figura 153)- de Pedro Useche - e a Cadeira e Poltrona Scopo195 - de Maria Bernadete Brandão. Além dos designers acima mencionados, há muitos outros que vêm atuando em áreas de design de empresas e são anônimos, porém não menos importantes, que têm contribuído para a promoção do design no Brasil, através das múltiplas e plurais manifestações de seu trabalho, que têm participado da composição de espaços e mediado o desenvolvimento de várias atividades domésticas, de trabalho e lazer na sociedade. Certos profissionais têm desenvolvido móveis de cunho experimental, como é o caso dos irmãos Fernando e Humberto Campana, cujo trabalho, se, por um lado, não têm contribuído mais significativamente para o desenvolvimento do mobiliário industrial popular, sendo comercializados a 194 A cadeira 20R recebeu o 1º prêmio de Manejo Sustentável do Concurso Brasil Faz Design 2000, do Programa Brasileiro de Design. 195 A cadeira e poltrona Scopo recebeu o Prêmio Ecodesign 2002. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 240 preços muito elevados para a grande maioria da população brasileira, por outro, têm ajudado a promover a imagem do design de móveis no cenário nacional e internacional, contando inclusive com o apoio da mídia, que tem contribuído para a promoção e, em certa medida também, para a "glamourização" do design “de autor”. Ao olhar-se o processo de racionalização da arte, da arquitetura e do design, onde se inclui a produção de móveis, é necessário ter-se uma perspectiva não-reducionista sobre as correntes estéticas e realidades onde os mesmos se inserem. Da mesma forma, devem-se considerar as inter-relações existentes entre as origens do design industrial no Brasil com movimentos como o Concretismo (ainda que não haja um consenso em relação a questões desta ordem). Faz-se mister compreender, por exemplo, que o racionalismo, enquanto instrumento deste movimento, "serviu para mascarar e até mesmo diluir certos conflitos oriundos não só da natureza híbrida do desenho industrial, como também de sua manifestação em nosso país", conforme observa Loschiavo dos Santos (1995a, p. 26-27). Tal constatação evidencia a importância de uma melhor compreensão sobre a natureza e a inserção do modernismo no processo histórico do móvel no Brasil, onde se verifica uma constante dialética entre a noção que se tem de design e artesanato, e cujo cenário abarca uma expressiva diversidade social, cultural, econômica e ambiental, que exige uma abordagem dinâmica e plural no desenvolvimento de produtos, e não estática e universal. Cabe lembrar que esta pesquisa focaliza a questão da diversidade cultural no design do móvel industrializado, e não o de autor, exclusivo e artesanal. Entretanto, o estudo sobre o desenvolvimento histórico do design de móveis no Brasil, bem como acerca da implantação da indústria moveleira no país, é importante para um melhor entendimento sobre como tem se desenvolvido a prática do design industrial de móveis, diante da questão da diversidade cultural. No início do século XX, acompanhando a onda de imigração que adentrou no Brasil, surgiram pequenas marcenarias familiares de artesãos italianos, em São Paulo, Santo André, São Caetano e São Bernardo do Campo. Este pólo moveleiro consolidou-se na década de 1950 (COUTINHO et al, 2001). A maior parte da produção, neste estágio embrionário na indústria moveleira, esteve voltada ao mercado interno. Outros pólos moveleiros instalaram-se nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. O do Rio Grande do Sul concentrou-se em Bento Gonçalves. Surgiu ao final do século XIX, com manufaturas (em geral de imigrantes italianos) de móveis de madeira e metal, e se consolidou na Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 241 década de 1960. Já o pólo moveleiro de Santa Catarina concentrou-se na região dos municípios de São Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre. Iniciou suas atividades na década de 1950, através de imigrantes alemães, que produziram inicialmente móveis coloniais de alto padrão, com apoio governamental. Este pólo consolidou-se na década de 1970, quando se destacou com a produção de móveis escolares e cadeiras para cinema. Atualmente, São Bento do Sul constitui o maior pólo moveleiro exportador do Brasil (COUTINHO et al, 2001). Mais recentemente, surgiram outros pólos moveleiros no país, tais como os de Mirassol (Estado de São Paulo), Votuporanga (Estado de São Paulo), Ubá (Estado de Minas Gerais) e Arapongas (Estado do Paraná), a partir de iniciativas de empresários locais, conjugadas aos estímulos e linhas de financiamento governamentais. Esses pólos consolidaram-se na década de 1980 (COUTINHO et al, 2001). Verifica-se, portanto, uma formação desigual no setor industrial moveleiro do Brasil, cujos pólos, apesar de apresentarem alguns pontos em comum, como a predominância da produção de móveis residenciais, por exemplo, possuem particularidades significativas, em termos de estruturas produtivas e linhas de produtos (ver Quadro 1). Na indústria brasileira de móveis, "ainda predominam cópias modificadas dos modelos oferecidos no mercado internacional [, e] poucas empresas possuem um departamento de design formalmente constituído", apesar de, em termos de produtividade ter-se avançado significativamente, aproximando-se de níveis internacionais (o que lhe possibilitou um expressivo salto exportador em meados do século XX), como sustenta Gorini (2000, p. 55). Fontes significativas de influência externa no design industrial têm sido os meios de comunicação e as redes de informação, tais como a Internet, as feiras e revistas internacionais, dentre outros fatores, cujo acesso tem sido relativamente fácil para aqueles que detêm o controle dos meios produtivos. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 242 QUADRO 1 - PRINCIPAIS PÓLOS CARACTERÍSTICAS MOVELEIROS DO BRASIL: ORIGENS, CONSOLIDAÇÃO PÓLO MOVELEIRO ORIGEM CONSOLIDAÇÃO Grande São Paulo (SP) Início do século XX (c/ marcenarias familiares de imigrantes italianos). Década de 1950. E Maior e mais diversificado pólo moveleiro do país. Maior produtor de móveis para escritório (cerca de 80% do setor). Principal mercado: interno Principais segmentos: móveis para escritório e móveis residenciais (Obs.: quase a totalidade deste último segmento é representada por pequenas e médias empresas, que produzem móveis sob encomenda). Dentre as principais empresas , destacam-se: Giroflex, Italma, Forma Móveis, Escriba, Fiel, Securit, Global Mobilínea, L'Atelier e Teperman (móveis para escritório). Bérgamo e Pastore (móveis residenciais retilíneos seriados) Bento Gonçalves (RS) Final do século XIX (geralmente com manufaturas de imigrantes italianos, com a fabricação, inicialmente, de instrumentos musicais e telas metálicas, posteriormente, de móveis de madeira e metal. Década de 1960 Segundo maior pólo moveleiro do país. Segundo pólo exportador do país (cerca de 25%). Principal mercado: interno Principais segmentos: móveis retilíneos seriados de madeira, de pinus e metálicos. Dentre as principais empresas, destacam-se: Todeschini, Bertolini, Carraro, Florense, Madem, Madesa, Marelli, Pomzan, Delano, SCA e Telasul. São Bento do Sul (SC) Década de 1950 (imigrantes alemães, com a fabricação, inicialmente, de móveis coloniais. Na década de 1970, destacou-se na fabricação de móveis escolares e cadeiras de cinema. Década de 1970 Principal pólo exportador do país (mais de 50%). Principal mercado: externo (atualmente, 80% da produção destina-se à exportação). Principal segmento: móveis residenciais de madeira de pínus. Dentre as principais empresas, destacam-se: Rudnick, Artefama, Neumann, Leopoldo, Zipperer, Weiherman, Serraltense e Três Irmãos. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 243 (Cont.) PÓLO MOVELEIRO ORIGEM CONSOLIDAÇÃO Arapongas (PR) Década de 1960, a partir da iniciativa de empresários locais e com apoio governamental (sobretudo do município) Década de 1980 Principal mercado: interno. Principal segmento: móveis residenciais populares, com destaque para os estofados. Dentre as principais empresas, destaca-se a Simbal, maior produtora de estofados do país. Ubá (MG) Década de 1960, com empresas atraídas pela instalação da Móveis Itatiaia. Década de 1980 Principal mercado: interno. Principal segmento: móveis residenciais de madeira. Dentre as principais empresas, destaca-se a Itatiaia Móveis (atualmente, concentra a sua produção em armários de aço para cozinha). Noroeste Paulista (Mirassol e Votuporanga / SP) Década de 1960, a partir da iniciativa de empresários locais Década de 1970 Principal mercado: interno. Principal segmento: móveis residenciais de madeira. As grandes e médias empresas concentram-se em móveis retilíneos seriados, e as pequenas em móveis torneados de madeira maciça. (Em Mirassol, mais de 1/3 são pequenas empresas produtoras de móveis sob encomenda). Dentre as principais empresas, destacam-se: Fafá, 3D e Casa Verde (Pólo de Mirassol); Davanço (Votuporanga). O mercado atendido pelas empresas brasileiras tem sido predominantemente o nacional. Tanto a produção de móveis, quanto a sua demanda, têm se caracterizado pela segmentação. As empresas, em geral, têm se especializado em um ou dois tipos de móveis e adotado estratégias de segmentação de mercado. No Brasil, por exemplo, encontram-se empresas especializadas em móveis para dormitório e cozinha, escritório, sala, dentre outros, e que direcionam suas linhas de produtos a determinados segmentos de mercado, em função de fatores principalmente técnicos, sociais e econômicos. A produção de móveis residenciais representa cerca de 60% do total do setor; a de móveis para escritório 40%; e a de móveis institucionais 4% (ABIMÓVEL, 1996 apud GORINI, 2000, p. 37). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 244 De acordo com o estudo da competitividade da indústria de móveis de madeira do Brasil, realizado pelo BNDES (1993), os móveis residenciais torneados e retilíneos seriados têm sido desenvolvidos, respectivamente: 1) por médias e grandes empresas, empregando alta tecnologia e predominantemente madeira de reflorestamento (principalmente serrado de Pinus), e direcionando sua produção principalmente para a exportação; e 2) por médias e grandes empresas, empregando alta tecnologia e predominantemente aglomerado, e concentrando sua produção principalmente para o mercado nacional, em especial para as classes média e baixa. No caso dos móveis retilíneos seriados, comparativamente aos torneados, "o processo produtivo é bem mais simplificado, envolvendo produção em grande escala e poucas etapas: corte dos painéis, usinagem e embalagem. As etapas de acabamento e montagem final foram eliminadas, pois os painéis de madeira aglomerada, muitas vezes, já são adquiridos com acabamento, e a montagem final do móvel é feita pelo varejista", conforme descreve Gorini (2000, p. 40). Dentre as empresas que atuam neste segmento, destacam-se: a Carraro (com capacidade produtiva de 300 mil móveis/mês) e a Todeschini (com capacidade produtiva de 5 a 6 mil móveis/dia), ambas de grande porte e pertencentes ao pólo moveleiro de Bento Gonçalves (RS), e direcionadas predominantemente ao mercado interno. Dentre os fatores que influenciam a demanda por móveis, destacam-se, segundo Gorini (2000): as variações conjunturais da economia, as transformações no estilo de vida da sociedade, os aspectos culturais, o ciclo de reposição dos produtos, dentre outros. Grande parte das empresas moveleiras atuantes no mundo tem se dedicado à produção de linhas específicas de produtos commodities, ou seja, produtos padronizados, cuja concorrência se estabelece através de competição de preços. E, no Brasil, o principal segmento exportador se aproxima deste modelo, produzindo móveis padronizados de pinus de reflorestamento (GORINI, 2000). Outra tendência que se verifica, sobretudo entre os consumidores de classe média, é a da demanda de móveis modulares pré-montados - a exemplo dos armários modulares para cozinhas e dormitórios - fator que tem estimulado o uso de plataformas básicas e componentes modulares padronizados. O processo de globalização, que se acentuou na década de 1990, e a abertura econômica brasileira têm promovido o desenvolvimento de alianças entre empresas do setor moveleiro, tais como licenciamento de produtos estrangeiros, joint ventures, dentre outras. No Brasil, muitas empresas têm recorrido ao licenciamento de produtos estrangeiros e há, na maioria das empresas do setor moveleiro, "baixos investimentos em design e pesquisa de mercado", Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 245 segundo Gorini (2000, p. 11). Tais aspectos trazem implicações diretas ao design de produtos, no que tange à questão da diversidade cultural. A Giroflex, por exemplo, maior empresa do segmento de móveis para escritório da América Latina e do Brasil (onde atua desde 1951), possui um consórcio mundial para desenvolvimento de seus produtos, a Giroflex Entwicklungs A.G., da qual fazem parte as empresas, pertencentes ao grupo multinacional, dos seguintes países: África do Sul, Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, Grécia, Holanda, Indonésia, Inglaterra, Israel, Japão, Singapura e Suíça. Os avanços tecnológicos e dos modelos de gestão organizacional têm promovido o aumento da produtividade e a flexibilização da produção, permitindo uma maior diversificação das linhas de produtos fabricados em larga escala. Cabe observar, no entanto, que, apesar de alguns segmentos do setor industrial moveleiro do Brasil terem se aproximado, nos últimos anos, de níveis internacionais de produtividade, e atingido um significativo aumento das exportações a partir de meados da década de 1990, a indústria moveleira encontra-se, em geral, defasada, em relação aos países mais desenvolvidos. Dentre as características do setor moveleiro do Brasil, identificam-se, de acordo com Gorini (2000, p. 11): a "elevada informalidade", a "incipiente normatização técnica" e a "carência de fornecedores especializados em partes e componentes de móveis", que acabam afetando o desenvolvimento da produção industrial no país. A Itália, a Alemanha e os Estados Unidos têm liderado a produção e as exportações de móveis no mundo (concentram mais de 50% da produção mundial e cerca de 40% das exportações mundiais). E o consumo de móveis tem se concentrado também em poucos países. Os Estados Unidos, a Alemanha, a França, a Itália, a Inglaterra, o Japão e a Espanha têm concentrado mais de 80% do consumo mundial (GORINI, 2000, p. 29). Isto reflete o problema das desigualdades econômicas e de acesso aos bens de consumo entre as sociedades. A partir da década de 1970, acentuou-se a homogeneização de padrões no design de móveis no Brasil, com a adoção dos painéis de madeira reconstituída (exemplos: aglomerado, compensado, MDF, dentre outras), juntamente com as estratégias de racionalização voltadas à produção em larga escala. Ao final do século XX e início do século XXI, no entanto, verifica-se uma maior demanda por produtos diferenciados e de qualidade. Isto tem exigido uma maior flexibilização e a redução de lotes de produção, de modo a se propiciar uma maior diversificação dos produtos oferecidos, além de um maior valor agregado (SENAI, 2002). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 246 Há, no Brasil, uma demanda significativa por móveis economicamente mais acessíveis e de melhor qualidade à população de baixa renda, e de alternativas de produtos mais adequados às necessidades de segmentos de mercado nada ou pouco explorados, como é o caso do grupo de pessoas de terceira idade e de solteiros com moradia própria, por exemplo, cuja população e consumo têm crescido196 significativamente no país. Tais aspectos ressaltam a importância do papel do design no desenvolvimento de móveis, para a melhoria da qualidade dos mesmos e como estratégia competitiva para as empresas. O design de móveis do Brasil tem sofrido diversas influências e impactos endógenos e exógenos ao longo de seu processo histórico, e é a partir dessa ótica e do entendimento da complexidade e pluralidade das várias realidades locais que deve ser analisada a sua prática nas empresas que atuam no país, em relação à questão da diversidade cultural. Esta pesquisa focaliza o setor moveleiro dos três maiores pólos moveleiros do Brasil, que são: o da Grande São Paulo, o de Bento Gonçalves e o de São Bento do Sul. A Grande São Paulo tem se posicionado como o maior197 e mais diversificado pólo moveleiro do Brasil, com especial destaque para o segmento de móveis para escritório, onde as empresas deste pólo detêm cerca de 80% do mercado brasileiro. E, de acordo com COUTINHO et al, "devido à maior complexidade produtiva, este segmento é caracterizado por grandes empresas, apresentando assim uma estrutura mais concentrada, a mais marcante da indústria moveleira do Brasil. Além disso, a quase totalidade dos grandes fabricantes de móveis de escritório está vinculada, de alguma forma, aos líderes mundiais deste segmento" (COUTINHO et al, 2001, p. 23). No Brasil, destacam-se, neste ramo moveleiro, as empresas Giroflex, Forma Móveis, Fiel, Escriba, Securit e Italma, dentre outras.198 Neste pólo moveleiro, desenvolveu-se, nesta pesquisa, um estudo de caso na Escriba Indústria e Comércio de Móveis Ltda (1962 - ), empresa nacional, atuante no Brasil, no segmento de móveis para escritório. Esta empresa desenvolve produtos com design próprio e produz também alguns produtos licenciados da Wilkhahn, empresa multinacional alemã. A importância do papel do design conquistou um grande reconhecimento nesta empresa, cujo atual vice-presidente é designer. O pólo moveleiro de Bento Gonçalves / RS é o segundo maior pólo produtor e exportador de móveis do Brasil, com destaque na produção de dormitórios e móveis de cozinha. Sua produção concentra-se em móveis retilíneos de madeira, seguidos dos móveis de Pinus e dos móveis metálicos 196 PROVAR / USP, 2000 apud REVISTA CAMINHOS DO III MILÊNIO, 2001, p. 09. 197 O pólo moveleiro da Grande São Paulo reúne cerca de 3,8 mil empresas e 5,8 mil trabalhadores (COUTINHO et al, 2001, p. 198 COUTINHO et al, 2001, p. 20; GAZETA MERCANTIL, jul. 2001. 20). Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004 design industrial e diversidade cultural: sintonia essencial 247 (tubulares). Dentre as empresas produtoras de móveis retilíneos seriados, destacam-se: Carraro, Todeschini, Florense, Delano, SCA, Pozza, Madem, Madesa, Marelli, Bertolini e Telasul, dentre outras (COUTINHO et al, 2001, p. 17). Neste pólo moveleiro, foram desenvolvidos, nesta pesquisa, estudos de casos nas empresas brasileiras Metalúrgica Bertolini Ltda S.A. (1969 - ) e Móveis Carraro S.A. (1961 - ), que atuam no segmento de móveis residenciais retilíneos seriados, nos mercados externo e principalmente interno. A Móveis Carraro S.A. possui uma área de design interna e contrata também serviços de designers externos para determinados projetos. E a Metalúrgica Bertolini Ltda, por sua vez, possui um designer, que presta assessoria à equipe de desenvolvimento de produtos da empresa, além de contratar serviços de designers externos para determinados projetos. De Santa Catarina, o município de São Bento do Sul consiste no maior pólo exportador de móveis do Brasil e terceiro maior produtor de móveis do país, com destaque na produção de armários, dormitórios e mesas. Dentre as principais empresas deste pólo, destacam-se: Rudnick, Artefama, Neumann, Leopoldo, Zipperer, Weiherman, Serraltense e Três Irmãos, dentre outras (COUTINHO et al, 2001, p. 18). Neste pólo moveleiro, desenvolveu-se, nesta pesquisa, um estudo de caso na Móveis Rudnick S.A., empresa brasileira (1938 - ) que atua no segmento de móveis residenciais retilíneos seriados, nos mercados externo e principalmente interno. Esta empresa possui uma área de design interna e contrata também serviços de designers externos para determinados projetos. Com o objetivo de melhor fundamentar a discussão sobre a prática do design industrial, diante da questão da diversidade cultural, apresenta-se, no Capítulo 6, um breve histórico sobre as empresas estudadas no setor moveleiro, em cujas unidades de design foram realizados estudos de casos, e a situação da atividade de design nas mesmas. Contextualização histórica dos setores automobilístico, moveleiro e de eletrodomésticos do Brasil Todos os direitos reservados - Copyright © Maristela Mitsuko Ono 2004