XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 A DIDÁTICA NA DIDÁTICA: UMA EXPERIÊNCIA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA UFRRJ Fabrícia Vellasquez Paiva – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Ingrid Ribeiro de Araújo – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Resumo O presente trabalho parte de uma inquietação vivenciada nos Cursos de licenciatura da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ. Por se tratar de uma área em expansão na Universidade, diversas têm sido as formas de se pensar o aluno para uma formação plena. Além disso, o perfil dos alunos ingressantes nas disciplinas da Educação tem sido modificado de forma considerável. Cada vez mais ecléticas, as turmas puderam trocar experiências entre áreas epistemológicas diferentes, exigindo, do professor, um aporte mais próximo daquela nova realidade, a fim de entendê-la e de trabalhá-la da melhor maneira possível. Assim, da matemática às ciências sociais, tornase mais do que preciso contemplar a continuidade da vontade responsável de ser professor. Entendendo ser essa uma preocupação de várias universidades, a intenção deste artigo é justamente a de socializar uma experiência bem-sucedida no uso de estratégias metodológicas reflexivas ao longo da formação inicial de futuros professores no campo da Didática. Trata-se, pois, de uma análise longitudinal, cujos dados foram coletados de dois questionários e/ou diários interativos, ao longo da disciplina em questão, como ferramenta possível de representar as mudanças discentes que puderam ser consideradas em um semestre letivo. Ademais, o instrumento avaliativo sobre o curso também pôde nos revelar dados importantes, partindo da voz dos discentes, sobre o planejamento da disciplina didática, sobre a atuação do docente na mesma e, claro, sobre a própria autoavaliação deles. Como resultados incipientes, pudemos verificar que grande parte dos alunos considera que a diversidade metodológica na Didática, especialmente aquela que é contextualizada ou mais “concreta” – tais como filmes e situações-problema reais, é essencial para a efetiva compreensão da didática, não apenas como uma concepção, mas como uma prática reflexiva. Palavras-chave: didática, formação, metodologia Introdução: a didática na didática O presente trabalho é fruto de observações das turmas de Didática, em conjunto com a atividade de acompanhamento da monitoria da mesma disciplina. Possui, pois, um caráter de pesquisa participante que tem como objetivo apresentar uma experiência no processo de formação de professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trata-se da socialização de uma organização disciplinar, a partir do próprio plano de ensino, cujas metodologias seguem a perspectiva reflexiva e, portanto, contextualizada ao universo desses alunos. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006470 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 A pesquisa procurou trabalhar com o próprio cotidiano da sala de aula de uma universidade pública, utilizando-se, como objetos-sujeitos, os próprios licenciandos matriculados em uma turma da disciplina Didática no segundo semestre de 2011. Consideramos, pois, que o Laboratório de docência, por assim se conceber, foi o tempo todo representado pela realidade de uma turma de professores em formação – fato que justifica a articulação desta proposta com o eixo Políticas de Formação Inicial e Continuada de professores, bem como com o subtema Programas de Formação de Professores: entre concepções, propostas e experiências. Procuramos identificar como a didática, entendida também como a preocupação com o método, poderia revelar a própria didática, utilizada naquela realidade, no sentido de reconfigurar os espaços de formação. Por se tratar de uma pesquisa participante, a equipe foi composta pela professora-pesquisadora e pela monitora da disciplina Didática, que tinha, dentre outras funções, as de acompanhamento e de orientação aos alunos matriculados – essenciais aos processos de análise dos instrumentos. Conhecendo o contexto: a didática na UFRRJ A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, de onde partem nossas inquietações, está situada no município de Seropédica/RJ, que é considerado como a “cidade dos estudantes” justamente pela instalação, em 1948, do campus universitário. Desde então, ações conjuntas entre o município e a universidade vêm sendo realizadas e estão previstas, inclusive, no Plano Diretor Participativo de Seropédica (03/09/2006), no qual se afirma a “necessidade de estabelecer parcerias entre as universidades e instituições de ensino, de forma a propiciar a troca de conhecimento e experiências para o aprimoramento profissional e a melhoria da qualidade do Ensino” (Art. 102, VII). Ademais, em seu art. 100, entre as ações previstas para atingir o desenvolvimento educacional do município, afirma-se a implementação da “construção de uma cultura de formação continuada de profissionais da educação”. Este é um dado importante, já que, em um município que conta com uma universidade federal, a preocupação com a formação de professores, também em estágio inicial, não deve ficar distante dos anseios daqueles que refletem criticamente a educação. Tal perspectiva também pôde ser Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006471 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 contemplada nas propostas da Comissão Coordenadora dos Projetos Pedagógicos dos Cursos de Licenciatura da UFRRJ, a saber: Entendemos que a profissão docente precisa ser valorizada e trabalhada desde os momentos iniciais da formação do licenciando. Nosso objetivo maior ao propor uma Política de Formação Inicial de Professores nos moldes aqui apresentados é, respeitando a discussão já acumulada na UFRRJ, criar novos espaços/tempo para a formação de um professor que seja preparado para compreender a escola em toda a sua complexidade, de buscar continuadamente o conhecimento, contextualizá-lo no nexo da realidade global-local e preparado para propor novas soluções para os problemas de ensino-aprendizagem, observando as especificidades da área do saber e que desenvolva uma atitude colaborativa e solidária (UFRRJ, 2008, p. 2). Observando, assim, que a atenção à formação de professores é um processo que vem sendo discutido no âmbito na Universidade, vale apresentar como a matriz curricular caminhou junto a esse histórico, especialmente no que diz respeito à Didática, intitulada oficialmente como Didática Geral para todas as licenciaturas. Nesse sentido, muitas medidas foram tomadas – desde deliberações até a formação de alguns grupos de trabalho. Sobre a aprovação de documentos norteadores, uma das primeiras decisões fora a aprovação da Deliberação 138 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE), de 11 de dezembro de 2008, que tinha, como um dos objetivos, “aprovar o Programa Institucional de Formação de Professores para a Educação Básica da UFRRJ”, considerando que se constituía como “referência para a elaboração dos Projetos Pedagógicos dos Cursos de Licenciatura da UFRRJ” (UFRRJ, 2008, p. 1). Para acompanhar e coordenar o Programa, a deliberação também precisou validar a Comissão Permanente de Formação de Professores – CPFP, de forma a materializar um “conjunto de ações, políticas institucionais e propostas pedagógicas para consolidar a formação de professores com elevada qualificação específica, pedagógica, humana” (UFRRJ, 2008, p. 3). Dessa forma, dentre as responsabilidade da CPFP, destacamos um item que particularmente nos interessa no presente estudo: “Articular e dinamizar o entrosamento entre os diversos cursos de Licenciatura, bem como entre estes e as Unidades Acadêmicas que oferecem disciplinas ou atividades acadêmicas aos cursos de formação de professores”, cujo destaque se justifica pela preocupação com uma formação básica aos licenciandos, respeitando-se, no entanto, a especificidade de cada área. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006472 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 Outros grupos de trabalho foram sendo aperfeiçoados para atender a essa demanda do Programa de expansão/reestruturação universitária do governo federal – REUNI (Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007), especialmente no que dizia respeito às licenciaturas. Dentre eles, um de grande destaque e importância é o Fórum de Licenciaturas, de caráter permanente, cuja articulação institucional ocorreu, sobre a formação para a educação básica, de forma integrada à Comissão Coordenadora de Elaboração e Reestruturação dos Cursos de Graduação da UFRRJ. Vemos, assim, que tanto a CPFP, através de seu Programa Institucional, quanto o Fórum de Licenciaturas tinham, como preocupação imediata, a perspectiva de uma formação que contemplasse as necessidades da formação docente, sem, com isso, desrespeitar a carga horária e as disciplinas de formação específica. Isso, vale dizer, se concretiza na própria deliberação, em seu Art. 3º: Art. 3º. O projeto Político Pedagógico dos Cursos de Licenciatura terá um núcleo de disciplinas de formação pedagógica comum a todas as Licenciaturas (300 h ou 330 h); de um núcleo Pesquisa e Prática Pedagógica que objetiva articular teoria-prática e promover a formação para a pesquisa e a extensão, constituído de no mínimo, uma disciplina de prática pedagógica específica de 60 horas, Núcleos de Ensino, Pesquisa e Extensão (120 h), Monografia (120 h), Estágio Supervisionado (400 h) e por Atividades Acadêmicas Complementares (200 h), conforme delineado na Tabela 1 e ajustado pelo Colegiado do Curso (UFRRJ, 2008, p. 4). E é justamente essa atenção dada aos núcleos acima descritos que nos fez repensar a disciplina Didática, principalmente quanto ao desenvolvimento elaborado para cada turma. Isso porque, tendo em vista que a UFRRJ pretende que sejam trabalhados vários núcleos pedagógicos durante a formação docente, há de se considerar uma didática também especial, na disciplina que intitula o fundamento, para que se consiga atingir, com efeito, todos os novos cursos que foram criados em pouco tempo. Do aporte conceitual: a didática nas teorias Diante do que fora exposto, o perfil dos alunos que ingressavam na Didática foi sendo modificado de forma considerável. Cada vez mais ecléticas, as turmas puderam trocar experiências entre áreas epistemológicas diferentes, o que gerava uma grande riqueza de transdisciplinaridade, mas, em contrapartida, exigia também do professor um aporte mais próximo daquela nova realidade, a fim de entendê-la e de trabalhá-la da melhor Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006473 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 maneira possível. Assim, da matemática às ciências sociais, era preciso contemplar, naquele grupo, a continuidade da vontade responsável de ser professor. A deliberação 138 trouxe, também, uma organização curricular dos Fundamentos da Educação, situando, em ordem epistemológica, as disciplinas que seriam ministradas para todos os cursos de Licenciatura. A Didática Geral, de um total de quatro fundamentos, fora posicionada após as áreas mais teóricas de Filosofia da Educação, Sociologia da Educação e Política e Organização do Ensino, nesta ordem. Em termos de periodização, ficou prevista para o 5º ou 6º período de todos os cursos – tendo-se, novamente, a preocupação de que as disciplinas pedagógicas não ficassem em momento posterior e distinto da formação específica. Afinal, como nos lembra Libâneo: A organização dos conteúdos da formação do professor em aspectos teóricos e práticos de modo algum significa considerá-los isoladamente. São aspectos que devem ser articulados. As disciplinas teórico-científicas são necessariamente referidas à prática escolar, de modo que os estudos específicos realizados no âmbito da formação acadêmica sejam relacionados com os de formação pedagógica que tratam das finalidades da educação e dos condicionantes históricos, sociais e políticos da escola (LIBÂNEO, 1994, p. 27). Partindo, pois, da premissa de formação articulada e do princípio de respeito à matriz elaborada pela deliberação, a ementa da Didática fora composta trazendo os seguintes pontos distribuídos em uma carga de 60 horas: fundamentos didáticos e sua aplicação à realidade da Educação Básica; elementos da ação pedagógica; planejamento, elaboração e avaliação do processo de ensino-aprendizagem; relacionamento professor-aluno; posicionamento crítico e contextualizado da prática educativa e do papel do educador na sociedade brasileira. E, de forma contextualizada a esses fundamentos, era preciso articular um plano de ensino para as turmas de Didática que não deixasse de considerar todas as mudanças pelas quais a UFRRJ vinha passando, especialmente com a expansão, bem como sem desconsiderar os objetivos previstos pela disciplina e pelo Prodocência – um projeto do Ministério da Educação de apoio à organização curricular na universidade para integração dos vários cursos de licenciatura em busca de um perfil de professor-pesquisador. Dessa forma, no último período letivo – 2011.2 – recorte temporal também necessário a este estudo, a organização da disciplina foi composta de maneira processual, de forma Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006474 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 que os alunos conseguissem se identificar com a proposta. Além disso, era também difícil, já em um primeiro contato, observar como os licenciandos se mostravam resistentes às perspectivas trazidas pela didática reflexiva, cujos conceitos fundamentavam desde a ementa até a própria concepção teórica escolhida pelos docentes da UFRRJ. Como nos acrescenta Perrenoud: Uma postura e uma prática reflexivas fazem com que essa aprendizagem seja experienciada de forma positiva, ativamente organizada, abnegando da simples sobrevivência. Portanto, aplica-se à formação inicial esse ditado chinês: “É melhor ensinar a pescar que dar o peixe” (PERRENOUD, 2002, p. 50). A ideia da prática reflexiva no ofício do professor, como se intitula a obra de Perrenoud, parte de uma premissa que “uma parte dos professores ocupa sua função sem ter nenhuma formação didática” (2002: 49). E essa didática, vale dizer, estaria justamente para além de um simples acesso e/ou conhecimento de métodos e de técnicas de ensino, embora não devamos prescindir deles. Ademais, a resistência observada nos licenciandos dizia respeito tanto à incapacidade e/ou descrença da perspectiva reflexiva de dar conta de um universo eclético de alunos da educação básica, partindo de suas próprias vivências e bagagens como fonte de aprendizagem, quanto de uma necessidade dos próprios licenciandos, talvez pela insegurança de um ofício tão amplo, de querer propostas prontas, de buscar respostas imediatas diante daquilo que poderiam encontrar. De querer, por fim, as receitas do “como fazer docência”. Diante de todas essas inquietudes, a disciplina foi estrutura em processos históricodidáticos, de forma que eles pudessem vivenciar a proposta. Foram selecionadas, portanto, como metodologias possíveis, desde reflexões teóricas até a experiência de situações-problemas por meio de filmes e de fatos reais noticiados em revistas da área educativa ou de jornais locais. E isso, dentro de uma perspectiva reflexiva, ia compondo a própria avaliação, compreendida como processual, daqueles futuros professores, como nos destaca Cordeiro: Educação e avaliação, portanto, não se separam. Caminhar no sentido da consolidação de uma escola democrática, para todos, que se comprometa com a aprendizagem e não com a produção de hierarquias implica, entre outras coisas, afastar-se cada vez mais dos procedimentos avaliativos de caráter normativo, classificatório, comparativo e seletivo e aproximar-se de uma modalidade de avaliação mais formativa e individualizada (CORDEIRO, 2007, p. 153). Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006475 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 Assim, buscando uma interação entre os recursos didáticos possíveis e os objetivos da disciplina, escolhemos, para os momentos iniciais, uma sequência de filmes especialmente escolhidos para debater os grandes temas da didática reflexiva. Com a exibição dos audiovisuais, procuramos “analisar a contribuição da Didática na formação do professor da Educação Básica, em nossa realidade educacional, de diferentes experiências de ensino, no contexto de uma pedagogia para a transformação”, tal como se objetiva na ementa – era, sim, um momento inicial de contato com a prática docente e as possibilidades de experiência. Após os debates, cada filme tinha uma proposta específica de resenha: desde a escrita livre, para que as ideias dos licenciandos pudessem ganhar autonomia, até aquelas em que era preciso, ao longo do texto, apresentar uma sugestão para a situação-problema exibida na obra. Esse segundo momento do recurso didático nos permitiu chegar mais próximos de outro objetivo da disciplina, a saber: “compreender a especificidade da função do professor como orientador do processo de ensino-aprendizagem e seu papel na formação integral do educando”. Outro importante instrumento foi a visita institucional, que consistia em uma visita escolar dos licenciandos a uma escola de educação básica, de livre escolha – pública ou particular, com o intuito de conhecer o universo escolar e de realizar entrevistas com a equipe pedagógica e com o professor de sua área do conhecimento. Após a realização da visita, os alunos precisavam, ainda, trocar essas experiências, relatando, oralmente e em sala de aula, como as visitas aconteceram: seus impasses, suas descobertas, suas análises críticas, enfim – e, nesse sentido, quanto mais diversificadas fossem as escolas tanto melhor seria a memória dos relatos. Com essa proposta, procuramos alcançar o objetivo de, para além de vivenciar a realidade das escolas brasileiras, também o de “caracterizar as fases do planejamento de ensino analisando os elementos componentes de cada fase e reconhecendo sua importância no processo de ensino-aprendizagem”. Esse estreitamento com a educação básica – tão caro à formação docente – está previsto também na deliberação 138 por Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006476 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 meio de projetos institucionais, o que nos demonstra a necessidade de articulação também nas disciplinas teórico-práticas como a didática: Art. 2º. A Administração Superior da UFRRJ, assessorada pela Comissão Permanente de Formação de Professores da UFRRJ, incentivará os Institutos e Departamentos a desenvolverem Projetos de Cooperação Acadêmica com as escolas de educação básica da região de influência com vistas a contribuir para formação continuada dos professores e aprendizagem dos alunos da educação básica em articulação com a formação dos licenciandos da UFRRJ nas diferentes áreas do saber (UFRRJ, 2008, p. 4). Por fim, os licenciandos puderam, de acordo com o último objetivo da ementa, “vivenciar atividades de planejamento, execução e avaliação de atividades docentes, conciliando teoria e prática e desenvolvendo uma visão crítica e contextualizada da prática pedagógica”, através da atividade interativa/seminário de aula. A proposta era a de elaborar um plano de aula, com o auxílio da monitoria da disciplina, e apresentar para a turma, simulando a ideia de uma aula. Mas, como todos ministrariam aula para todos, a interação estava justamente no fato de os colegas, ao assistirem à aula, apresentarem novas situações e/ou recursos possíveis para aquele tema. Essa troca permitia à turma compor uma caixa de ferramentas sobre métodos e técnicas que, não raros, são muito úteis no cotidiano de sala de aula. Da análise proposta: a didática na sala de aula Nossa pesquisa partiu de um instrumento utilizado em sala de aula, como forma de identificar aquilo que os alunos já conheciam sobre a didática e, mais tarde, a diferença que o curso poderia ter propiciado para a formação docente deles. Trata-se, pois, de uma análise longitudinal, cujos dados foram coletados de dois questionários e/ou diários interativos, porque documentos de registro, intitulados também como “processo inicial de construção da relação professor/aluno” (diário 1) e “processo continuado de construção da relação professor/aluno” (diário 2), preenchidos no primeiro e no último dia de aula, respectivamente. Entendemos ser essa uma importante ferramenta de coleta, pois ela pôde revelar, sem limitações, porque estruturada de forma semi-aberta, o desenvolvimento formativo do aluno ao longo do processo de socialização da disciplina. Ademais, o questionário avaliativo sobre o curso também nos revela dados importantes, partindo da voz dos Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006477 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 discentes, sobre o planejamento da disciplina didática, sobre a atuação do docente na mesma e, claro, sobre a própria autoavaliação deles. De acordo com Haydt: A avaliação da aprendizagem do aluno está diretamente ligada à avaliação do próprio trabalho docente. Ao avaliar o que o aluno conseguiu aprender, o professor está avaliando o que ele próprio conseguiu ensinar. Assim, a avaliação dos avanços e dificuldades dos alunos na aprendizagem fornece ao professor indicações de como deve encaminhar e reorientar a sua prática pedagógica, visando aperfeiçoá-la. É por isso que se diz que a avaliação contribui para a melhoria a qualidade da aprendizagem e do ensino (HAYDT, 2006, p. 288). É importante esclarecer que a participação nesses dois momentos de registro do questionário era considerada como uma das atividades avaliativas, de forma a garantir, minimamente, a adesão dos alunos – nem tanto por acreditarmos no interesse do cumprimento de uma proposta pela nota, mas, sim, pela desconfiança que fora percebida, em anos anteriores, do que seria feito com o conteúdo desse instrumento. No entanto, tanto pelo pouco valor atribuído, em detrimento de outras avaliações mais conceituais e mais complexas, quanto pelo momento em que os questionários eram aplicados – diário 1 no primeiro dia, sem grandes relações construídas; e diário 2 no último dia, após a divulgação do resultado das avaliações – os alunos realmente ficaram mais livres para expor suas impressões. O universo que constitui a amostra contou com uma turma que começou pequena e que se manteve, sem grandes evasões, até o final do período, que é também nosso recorte temporal – segundo semestre de 2011 – praticamente com a mesma quantidade de alunos. Optamos, assim, por esse grupo, por conseguirmos contemplar nosso estudo com toda a realidade ali presente, em função do tamanho. As análises, portanto, estão representas, respectivamente, por onze (11) “diários 1” e por oito (08) “diários 2”. Para a leitura dos dados, a análise do discurso foi escolhida justamente por considerar que o outro desempenha um papel fundamental na elaboração do significado. De acordo com Brandão: A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia (BRANDÃO, 2004, p. 11). Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006478 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 Partindo desse pressuposto de verificação analítica, consideramos duas das quatro perguntas que compunham o diário 1: O que você espera da disciplina de didática? e Quais os seus conhecimentos prévios sobre esta disciplina? A primeira idéia que se destaca é a de que a didática seria uma disciplina que ensina como se comportar em sala de aula; como ajudar a falar em público e como lidar com os alunos; também tem expectativas no que diz respeito à organização e ao preparo das aulas. Quatro dos onze questionários analisados possuem essa expectativa em suas respostas: “Espero que a didática me ajude a perder um pouco da timidez...” F. (3º período) “Que possa nos mostrar (...) postura e caminhos que o professor deve seguir para instigar o aluno ao aprendizado”. M. (6º período) “Espero aprender como organizar, direcionar e transmitir o que eu pretendo ensinar...” A. (4º período) Vemos que, a princípio, o aluno chega à disciplina ainda com a perspectiva de obter um receituário, desconhecendo, muitas vezes, a complexidade por trás de cada relação professor-aluno-escola que se apresenta. Ademais, uma segunda idéia, e que sustenta a primeira, é a de que a disciplina fornecerá uma bagagem prática no que se refere à sala de aula ainda no momento de sua realização. Dos questionários analisados, quatro citaram que esperam ter alguma experiência prática durante a disciplina: “...aprender a dinâmica da sala de aula e a forma de me pronunciar diante de uma turma.” S. (5º período) “Vivenciar situações problemas ...”I. (7º período) “Espero poder sair do curso com uma boa bagagem teórica e prática...” T. (3º período) Já as respostas dos alunos a respeito de seus conhecimentos prévios podem ser divididas em novos dois grupos. Dos onze alunos, apenas três disseram não possuir nenhum, ou muito pouco e confuso conhecimento sobre a disciplina de didática. Todos os demais disseram possuir algum conhecimento da disciplina ou do que seria didática, e também disseram ter tido contato com a disciplina em outro contexto – através de amigos ou cursos anteriores, como é possível verificar abaixo: “Quando eu ouvia falar em didática, a primeira coisa que vinha a minha cabeça era uma disciplina que ensinava a dar aulas, preparar provas e organizar o plano de ensino.” F. (4° período) “Imagino que esta disciplina, assim como as outras disciplinas de educação, me forneça ferramentas para desenvolver minha própria metodologia de ensino. Alguns amigos já me disseram que gostaram muito dessa disciplina.” I. (7° período) Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006479 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 11 Uma surpresa interessante foi vivenciar, no diário 2, justamente a evolução desse pensamento, demonstrando que os alunos, em suas próprias palavras, saíam da disciplina com uma visão “diferente do que seja a didática”. Novamente, das quatro perguntas, as duas selecionadas, que se relacionavam com as do diário 1, foram: Suas expectativas foram contempladas na disciplina de didática? e Quais os seus conhecimentos adquiridos sobre esta disciplina? Todos os alunos respondentes afirmaram terem as expectativas alcançadas e, até, superadas. E, boa parte deles atribuiu tal alcance à sequência metodológica realizada: “Finalizamos a disciplina esclarecendo pontos primordiais e pondo em prática um pouco do que foi visto.”D. (6º período) “A realização da disciplina acrescentou muito na forma de compreensão do papel real do professor.” A. (4º período) “Muitas sugestões metodológicas vivenciadas que poderei utilizar em minha prática.” C. (4º período) “Extrapolaram minhas expectativas: os filmes, os textos e os debates permitiram que a disciplina fluísse muito bem.” I. (7º período) E, em relação à segunda proposição analisada, conseguimos verificar que boa parte do que a didática reflexiva vem apresentando, sequenciada na própria deliberação da UFRRJ de que tratamos, foi considerada livremente pelos alunos em suas respostas, confirmando, assim, o planejamento didático, para a disciplina didática, como satisfatório e contribuinte para uma nova perspectiva de formação de professores: “A importância da liberdade criativa atrelada à organização disciplinar para um desempenho satisfatório no trabalho docente.” I. (7º período) “A forma como a disciplina foi elaborada me fez entender os conceitos, a contextualizar os conteúdos e a realidade dos alunos, o processo de ensinoaprendizagem considerando ambas as partes (professor e aluno) e, claro, que o conceito de educação é bem mais amplo que só na escola.” C. (4º período) “Com a forma da disciplina, pude entender a quantidade de recursos que temos e as formas de abordagem para que a educação se valha para além dos conteúdos.” A. (4º período) Foi possível observar, assim, que os discursos trouxeram importantes contribuições sobre os anseios, as dúvidas e os esclarecimentos que os alunos puderam (des)construir ao longo da disciplina. Pensar, pois, a didática na atualidade exige de nós, professores e pesquisadores na área, constante revisão de sua própria prática, especialmente quanto à diversidade e à contextualização do ensino também na educação superior. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006480 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 12 Considerações finais: a didática na didática Ao refletirmos sobre a formação de professores, considerando as transformações sociais, políticas, culturais, tecnológicas e econômicas, bem como sobre as desigualdades e as exclusões que permanecem e se aprofundam no país, somos convidados, a todo instante, a repensar alguns dos fundamentos sobre os quais se organizam os currículos das Licenciaturas. Nesse sentido, procurar cumprir, como professores formadores, tudo aquilo que anunciamos de que é preciso para um professor da educação básica já é um bom começo. Logo, como pudemos vivenciar, a estratégia de adoção de recursos metodológicos diferentes, especialmente aqueles que fazem o aluno refletir a partir de uma situação mais concreta, como filmes e situações-problema relacionados ao cotidiano escolar, podem permitir um encontro efetivo do futuro educador com as causas primordiais que a escolha dessa profissão requer. Bibliografia BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. Campinas: Editora da Unicamp, 2004. CORDEIRO, Jaime. Didática. São Paulo: Contexto, 2007. HAIDT, Regina Célia Cazaux. Curso de Didática Geral. 7ª ed. São Paulo: Ática, 2003. LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Programa de expansão/reestruturação universitária do governo federal – REUNI. Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007. PERRENOUD, Philippe. A prática reflexiva no ofício de professor: profissionalização e razão pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2002. PREFEITURA DE SEROPÉDICA. PLANO DIRETOR DO MUNICÍPIO DE SEROPÉDICA – RJ. Disponível em www.portalseropedica.com/projeto_de_lei_do_plano_diretor_de_seropedica.swf. Acesso em fev. de 2012. UFRRJ. Deliberação CEPE, n.º 138, de 11 de dezembro de 2008. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.006481