DISCIPLINAS DE FORMAÇÃO MATEMÁTICA EM PROJETOS POLÍTICOS PEDAGÓGICOS DE CURSOS DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA Jhenifer dos Santos Silva Acadêmica de Matemática da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Unidade Campo Grande [email protected] João Ricardo Viola dos Santos Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Unidade Campo Grande [email protected] Resumo Expandido A formação matemática do professor de matemática em cursos de licenciatura é uma área pouco pesquisada na Educação Matemática (WILSON, et al., 2001; MOREIRA, 2004; LINARDI, 2006; LINS, 2006, OLIVEIRA, 2011). Um dos motivos para o pequeno número de pesquisas seria o de que para discutir a formação matemática seria preciso entrar em terrenos áridos no que tange à discussão com matemáticos. Outro motivo é que há uma tradição muito enraizada nos cursos de Licenciatura em relação a sua estruturação. Será que a matemática discutida nesses cursos é adequada para as demandas que a prática exige? Qual matemática deve ser trabalhada nos cursos de formação inicial de professores de matemática? Como deve ser trabalhada? Quais são as disciplinas de formação matemática que compõem as grades curriculares? Quais são suas cargas horárias? Há diferenças das disciplinas entre os cursos? Esses, entre outros questionamentos, se apresentam como constituintes dos trabalhos que estamos realizando a respeito de propostas de formação matemática em currículos prescritos de cursos de Licenciatura em Matemática. O objetivo desse trabalho é investigar as disciplinas de formação matemática nos projetos políticos pedagógicos de cursos de Licenciatura em Matemática. Focaremos nossas análises nas ementas dessas disciplinas, na carga horária, na bibliografia e na seriação dessas disciplinas ao longo do curso. Formação Matemática na Licenciatura Na atual literatura em Educação Matemática não há argumentos sistematizados, oriundos de pesquisas sobre o papel das disciplinas da matemática do matemático (LINS, 2006) na Licenciatura em Matemática. Muito dos poucos argumentos esboçados se constituem em relação às experiências vividas de matemáticos e educadores matemáticos ou a certas intuições sobre possibilidades de formação (VIOLA DOS SANTOS, 2012). Oliveira (2011) faz uma leitura de trabalhos publicados em algumas revistas de Educação Matemática sobre a formação matemática. Segundo essa pesquisadora, apesar dos trabalhos discutirem vários aspectos que vão além da matemática por ela mesma, em sua grande maioria, não discutem o conteúdo matemático. Há uma aceitação sem muitos questionamentos em relação às disciplinas de conteúdo matemático na Licenciatura. É preciso que o professor de matemática saiba matemática. É preciso que ele tenha em sua grade curricular as disciplinas de formação matemática... Por quê? Sob quais argumentos? Em que sentido? Estas são perguntas sem sentido de serem formuladas e menos ainda com necessidade de serem respondidas, por muitas pessoas. Santos et al. (2005) apresentam uma discussão e cinco recomendações que devem nortear a formação matemática de futuros professores de qualquer nível de ensino. São elas • • • • A formação matemática deverá providenciar uma compreensão profunda da própria natureza da matemática; A formação matemática deverá contemplar o estudo do ponto de vista da matemática superior e o estabelecimento claro das suas relações com a matemática que ele vai ensinar; A formação matemática deverá desenvolver nos futuros professores a capacidade deles fazerem matemática; A formação matemática deverá propiciar experiências matemáticas que correspondem a boas práticas de ensino (p.21) Esses autores ainda afirmam que os professores precisam ter uma profunda compreensão do que eles vão ensinar para “/.../ desenvolver um espírito matemático rigoroso e flexível, capaz de integrar e relacionar conhecimentos, e experimentados na resolução de áreas variadas (p. 21)”. O que é conhecer profundamente a natureza da matemática? Será que deve ser estudar teoria dos conjuntos, que hoje oferece uma fundamentação? É estudar o formalismo da matemática? É estudar como os alunos compreendem e o que é para eles a matemática que nós discutimos? Os encaminhamentos são muitos, porém necessitam de mais justificativas e pesquisas para serem sistematizados. Algumas discussões Em meio a esse contexto, investigaremos dez currículos prescritos de cursos de matemática com notas cinco e quatro no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), abrangendo as cinco regiões do país e tomando como referência as disciplinas de formação matemática. Nosso foco será sobre as ementas, bibliografia, carga horária, seriação das disciplinas durante o curso. Pretendemos analisar possíveis semelhanças e diferenças entre disciplinas como Cálculo Diferencial Integral, Análise Real, Álgebra Linear entre outras nos PPPs. Como feita a divisão das cargas horárias dessas disciplinas nos PPPs? Qual o total da carga horária do curso é destinada a essas disciplinas? Como é feita a seriação dessas disciplinas ao longo do curso? Essas, entre outras perguntam configuram nosso projeto de pesquisa. Iniciamos nossas análises identificando as disciplinas de formação matemática nos PPPs tomando como referência as diretrizes para a Licenciatura e Bacharelado de 2002. Depois de identificadas, organizamos as disciplinas em uma tabela e passamos a comparar as ementas, carga horária e semestre em que cada uma das disciplinas é ofertada. Encontramos muitas divergências entre uma mesma disciplina em diferentes instituições. Por exemplo, em relação às disciplinas de Cálculo Diferencial e Integral e Análise Real, a diferença de carga horária é gritante. Encontramos cursos que a disciplina de Cálculo Diferencial e Integral tem 64 horas e outros tem 106 horas, sendo ambos semestrais. O mais interessante é que as bibliografias são muito semelhantes e as ementas também. Isso nos faz refletir sobre possibilidades que os conteúdos sejam dados com tamanha diferença de carga horária e que seja possível abordá-los todos os que estão propostos na ementa. A disciplina de Análise Real segue esta mesma linha. Alguns cursos são chamados de Análise Real, outros de Fundamentos de Análise, mas apresentam exatamente a mesma ementa. Também observamos que as bibliografias são quase as mesmas, diferindo apenas na ordem preferência dos livros adotados. Com relação à carga horária, a diferença é menor. Alguns possuem 54 horas e outros 68 horas de duração, sendo ambos semestrais. Nossa intenção é realizar uma tabulação de todas as disciplinas de formação matemática dos PPPs analisados. A partir disso, fazer um mapeamento dessas disciplinas nos cursos de Licenciatura em Matemática. Tomando com referência o trabalho de GATTI e NUNES (2008) pretendemos aprofundar e ampliar as discussões a respeito das disciplinas de formação matemática. Referências GATTI, B. NUNES, M. M. R. Formação de Professores para o Ensino Fundamental: Estudo de Currículos das Licenciaturas em Pedagogia, Língua Portuguesa, Matemática e Ciências Biológicas. São Paulo: Coleção Textos FCC, 2008. LINARDI, P. R. Rastros da formação Matemática na prática profissional do professor de matemática. 2006. Tese (Doutorado em Educação Matemática) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2006. LINS, R. C. Characterizing the mathematics of the mathematics teacher from the point of view of meaning production. In: 10th International Congress on Mathematical Education, Copenhagen, 2004. Copenhagen. Proceedings… Plenary and Regular Lectures, 2006, p. 1-16. MOREIRA, P. C. O conhecimento matemático do professor: formação na licenciatura e prática docente na escola básica. 2004. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2004. OLIVEIRA, V. A. Uma leitura sobre formação continuada de professores de matemática fundamentada em uma categoria da vida cotidiana. 2011. Tese (Doutorado em Educação Matemática) - Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro. 2011. VIOLA DOS SANTOS, J. R. Legitimidades possíveis para a Formação Matemática de Professores de Matemática. 2012. Tese (Doutorado em Educação Matemática) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2012. WILSON, S. M.; FLODEN, R. E.; FERRINI-MUNDY, J. Teacher preparation research: current knowledge, gaps and recommendations (document R- 01-3); Washington: Center for the Study of Teaching and Policy/University of Washington, 2001. Disponível em: <http://www.ctpweb.org>. Acesso em: 20 agosto 2006.