Clínica de Repouso Três Rios Autoria: Daniele do Carmo Baldner, Tania Regina Frota Vasconcellos Dias, Teresa Cristina Janes Carneiro Resumo Esse caso de ensino tem o objetivo de discutir a estratégia adotada pela Clínica de Repouso Três Rios (CRTR), hospital psiquiátrico localizado na cidade de Três Rios – RJ, para perpetuar-se no mercado após a Reforma Psiquiátrica Brasileira, decorrente da Declaração de Caracas e legitimada pela lei nº 10.708/03. Conhecida como “Lei do Programa de Volta para a Casa”, esta lei estabelece um novo patamar na história do processo de reforma psiquiátrica brasileira, impulsionando a desinstitucionalização de pacientes com longo tempo de permanência em hospital psiquiátrico, pela concessão de auxílio-reabilitação psicossocial e inclusão em programas extra-hospitalares de atenção em saúde mental. Tal sanção impacta profundamente o modelo de negócios da CRTR que precisa adotar uma nova estratégia de gestão capaz de superar a crise. O caso de ensino possibilita discussão de temas tanto em disciplinas da graduação (Administração de Empresas) quanto da pósgraduação (Gestão Pública). Esse caso de ensino pode ser utilizado em disciplinas que tratem de estratégia de empresas para discutir a respeito do conceito de modelo de negócios; dos fatores externos que podem afetar um modelo de negócios já estabelecido; sobre a necessidade de modificação de modelos de negócios em resposta a alterações no ambiente externo da organização. Em gestão pública possibilita discutir como as políticas públicas podem afetar a sociedade e mais especificamente o pequeno empresário. Introdução Em 31 de julho de 2003 é promulgada a Lei n°10.708, do programa “De Volta Para Casa” que impulsiona a desinstitucionalização de pacientes com longo tempo de permanência em hospital psiquiátrico, pela concessão de auxílio reabilitação psicossocial e inclusão em programas extrahospitalares de atenção em saúde mental. Adriano, gerente e sócio da Clinica de Repouso Três Rios, um hospital especializado no tratamento de doentes psiquiátricos, enfrenta agora o dilema de repensar o futuro da clínica. Como se posicionar estrategicamente diante da realidade que enfrenta, de possível perda dos pacientes em função dos estímulos da nova lei? Segundo o governo, o objetivo do programa “De Volta Para Casa” é levar os pacientes para perto da família, aumentando sua qualidade de vida e contribuindo para o resgate da sua cidadania. Porém, Adriano sabe que para conviver com esses pacientes é necessário toda uma estrutura técnica que possibilite a reintegração desses ao contexto social. Segundo Adriano, é preciso que o governo ampare essas famílias não apenas com a bolsa-auxílio, mas acompanhando de fato os programas estabelecidos, pois já teve casos da clínica descobrir que o paciente que havia fugido estava enclausurado em sua própria casa, sem tratamento. 1. A História da Clínica A partir de 2002 a Clínica de Repouso Três Rios foi considerada pelo Ministério da Saúde como Hospital Psiquiátrico de nível IV, o que a enquadra no nível mais elevado de classificação do governo. Seu diferencial é considerar o doente a pessoa mais importante do seu processo, merecendo atenção e respeito. Em novembro de 1999, Adriano, diretor de recursos humanos e um dos sócios da clínica, não hesitou em dizer sim ao SEBRAE. Durante a realização de diversos cursos foram diagnosticados os problemas e sugeridas propostas por todos os funcionários e direção. 1 Adriano pode observar na prática as mudanças e percebeu também uma importante evolução na qualidade do ambiente e da equipe, o que refletiu em todos os pacientes. Devido a esta parceria de sucesso a empresa pôde desenvolver a sua missão, bem como, melhorar seus processos operacionais. Os frutos colhidos pelo trabalho do SEBRAE foram a melhoria na comunicação entre os clientes internos; a responsabilidade; o comprometimento; e a organização do pessoal. Os setores passaram a interagir uns com os outros com maior sinergia, pois o processo de tratamento do paciente é uma seqüência em que um setor é dependente do outro. A partir de então, foram realizadas pesquisas de satisfação do cliente e, mensalmente, é feito o levantamento de qualidade de cada setor, com a análise da produtividade e a eliminação dos desperdícios. Para os funcionários dos setores que apresentarem o melhor desempenho, é concedido um acréscimo de 4% do seu salário como incentivo. Todo esse trabalho desenvolvido pelo SEBRAE, trouxe para a empresa uma melhor qualificação dos funcionários, valorizando-os e preparando-os ainda mais para trabalhar junto aos pacientes, sem preconceitos, pois a sociedade em geral tem a idéia de que o hospital psiquiátrico convencional é um depósito de pessoas abandonadas. Dessa forma, foram oferecidos à clínica meios que facilitassem o desenvolvimento de uma assistência integral, contínua, humana e individualizada, visando a qualidade total para promover a saúde e o bem-estar do cliente, buscando recursos para garantir a igualdade na diversidade. Em 31 de julho de 2003 o Governo Federal, aprovou a lei 10.708 estabelecendo o Programa “De Volta Para Casa”, coordenado pelo Ministério da Saúde. A lei visa minimizar a distância familiar e reduzir os custos envolvidos na internação em hospitais psiquiátricos especializados como a Clínica de Repouso Três Rios, que representa para o Sistema Único de Saúde (SUS), um gasto de R$ 28,00 por dia para cada paciente. Será beneficiada com uma bolsa-auxílio no valor de R$ 240,00 mensais, a família de pacientes crônicos, egressos de internação psiquiátrica prolongada (cuja duração tenha sido, comprovadamente, por um período igual ou superior a dois anos), que mantiverem o paciente em tratamento em sua própria casa. A concessão de auxílio reabilitação psicossocial terá duração de um ano, podendo ser renovado quando necessário aos propósitos da reintegração social do paciente. O objetivo dessa lei é proporcionar um tratamento mais humano a esses pacientes, o que, a princípio, facilitaria a ressocialização, pois estariam mais próximos de seus familiares, isso ajudaria no tratamento, uma vez que a realidade nos hospitais é bem diferente: 50% dos pacientes que ali se encontram estão totalmente abandonados pela família. Adriano sabe o quanto é necessário manter a credibilidade de seus tratamentos a estes clientes especiais dentro de um novo contexto. Entende, inclusive, que um novo desafio se apresenta, sendo importante o desenvolvimento de estratégias que possam manter a clínica no mercado. Segundo Adriano, Existe um gap entre o que era o ambiente psiquiátrico antes da reforma psiquiátrica e o que é hoje, em que há hospitais como a Clínica de Repouso Três Rios que se mostram humanistas e se preocupam em inserir o paciente em seu meio social. É preciso derrubar esse mito, mudar essa imagem, mostrando a sociedade o quanto a clínica é necessária. A sociedade precisa entender que cada paciente que retorna para casa retira um membro da família do mercado de trabalho, em virtude dos cuidados e atenção que devem ser dispensados a ele. Somente a bolsa auxílio não será suficiente para suprir as necessidades do paciente, uma vez que haverá gastos com transporte, alimentação e remédios, e a carência vai muito além da questão financeira. 2 Ao perceber todas as mudanças de conceito sobre a doença mental, a legislação e os incentivos oferecidos pelo governo para que as famílias acolham e tratem esses pacientes em casa, Adriano precisará encontrar meios de mostrar a qualidade da clínica, criando valor para os familiares, uma vez que os clientes do SUS representam 100% do atendimento e obviamente, tendem a diminuir. Que estratégias Adriano poderá usar para atrair outros clientes? Ele terá que repensar 36 anos de trabalho sério, qualificado, com uma força profissional ativa, comprometida, madura e envolvente. Como apresentar as famílias dos pacientes o valor que lhes é dado e o seu diferencial dos demais concorrentes? O que fazer agora? Esse estudo de caso coloca em discussão os fatos e dados necessários para que você ajude Adriano a encontrar um meio da Clínica de Repouso Três Rios sobreviver à situação hostil em que se encontra. 2. Contexto Nos Preâmbulos da Constituição da Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde tem sido definida como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doença ou enfermidade. E saúde mental seria um fenômeno complexo determinado por múltiplos fatores sociais, ambientais, biológicos e psicológico. Com os avanços nos estudos da saúde mental foi proposta uma visão holística do ser humano, a partir da qual o homem é visto como um todo (holos), já que o corpo se representa e se recria continuamente, não mais representando mente e corpo como parte de um todo, mas sim como o próprio todo. No cenário globalizado, o Brasil é sempre apontado como um país subdesenvolvido, miserável, violento, corrupto e em constante crise econômica, tanto pela submissão imposta dos países estrangeiros, quanto pela nossa própria sociedade, que se mostra sem iniciativa e desamparada pelos governantes. Esse estereótipo acaba condicionando nosso comportamento a tais formas de pensar e viver. O brasileiro, especialmente no início deste século, mostra-se como um indivíduo sempre em conflito, dividido entre a velocidade das novidades tecnológicas e o sentimento de estar em defasagem, angustiado sobre o futuro e desejoso em saber o que lhes trará o terceiro milênio, ciente da instabilidade nos relacionamentos afetivos, incerto sobre o emprego, sobre o planeta. Todo esse desequilíbrio político, econômico e social desencadeia um constante stress, o que pode refletir em atitudes não adequadas ao contexto, gerando uma série de recriminações internas e externas. Essas recriminações desencadeiam desajustes sociais e psicológicos, tais como dificuldades de se relacionar com a família, os amigos, o trabalho, o estudo, a religião, o lazer e consigo mesmo, gerando infelicidade, desconforto, doença física ou social, o que implica em uma vida mal vivida. Há indivíduos que não conseguem se reorganizar e se adaptar a essa nova realidade sofrendo inúmeras perdas durante toda a sua vida e passando por crises constantes. Dessa forma, estão submetidos a uma grande fragilidade pessoal e social de mudanças de paradigmas, de questionamentos de valores, fazendo com que este se perca no seu processo de relação com o mundo. E é neste momento de debilidade, em que o indivíduo mostra-se pouco resistente a realidade que o cerca, que a Clínica de Repouso Três Rios compromete-se a reestruturar e ressocializar esse paciente, gerando condições para que ele alcance seu potencial máximo e, em conseqüência, volte a ter uma qualidade de vida. 3 3. “A Realização de um Sonho” Respeito aos pacientes, dedicação e muito trabalho. Assim podemos relembrar o ideal que inspirou há 36 anos quatro jovens médicos que decidiram se lançar num desafio e oferecer aos doentes psiquiátricos um serviço especializado. O desejo de fundar uma clínica psiquiátrica na cidade de Três Rios (Rio de Janeiro) era de um médico recém-formado, que cursava pós-graduação no Instituto de Psiquiatria no Rio de Janeiro, Dr. Antônio de Almeida Filho. No ano de 1968, o médico dedicava-se ao atendimento de doentes psiquiátricos em ala isolada do Hospital das Clínicas Nossa Senhora da Conceição. O trabalho era desenvolvido em parceira com o também psiquiatra, Dr. Joaquim da Silva Franco. Com o objetivo de criar em Três Rios um serviço próprio de psiquiatria, que acima do profissionalismo, se preocupasse com o bem estar dos pacientes, Dr. Almeida convidou seu colega de trabalho, Dr. Joaquim e os médicos Antônio Marcato Filho e José Thomas Faria para formar uma equipe que não mediria esforços para o sucesso da Clínica de Repouso Três Rios. Com a equipe definida, era preciso um imóvel que se adequasse à instalação de uma clínica. Os médicos encontraram o lugar adequado no bairro Boa União, no loteamento de uma antiga fazenda. Depois de organizar a equipe administrativa, a clínica foi inaugurada no dia 06 de dezembro de 1968. No dia 24 de janeiro de 1969, a clínica recebeu a primeira comissão de classificação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), que definiu a capacidade de 22 leitos para a ala masculina. No mesmo mês, foi comprado o lote nove com uma casa onde seriam construídas três enfermarias anexas e um posto de enfermagem, o que possibilitava a transferência de nove pacientes da ala feminina do hospital. Em novembro de 1969, foi iniciada a construção de uma ala masculina, procurando atender a grande procura por internação. A clínica firmava-se e tornava-se conhecida pelo bom atendimento prestado, conquistando um espaço de destaque na região. Para conseguir atender a crescente procura os Drs. Almeida, Faria e Joaquim revezavam-se em plantões de 24 horas. Segundo o Dr. Almeida, no início o trabalho era árduo, mas a satisfação de ter concretizado o sonho de construção da clínica e a possibilidade de oferecer um serviço especializado aos pacientes compensava o esforço. Em 1976, iniciou-se a construção de uma nova ala feminina que permitiu o aumento dos leitos instalados para 100. O número de pacientes atendidos também aumentou para 90. Aos poucos a clínica crescia e conquistava credibilidade junto à população. Foram contratados novos profissionais: médicos psiquiatras, clínicos gerais, dentista, protético, enfermeiras, psicólogas, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, recreadores e nutricionista. As equipes multidisciplinares se reuniam constantemente para discussão, palestras e treinamentos, sempre com o intuito de oferecer melhores condições de tratamento aos pacientes. Conhecendo a história da assistência psiquiátrica essencialmente marcada pela exclusão social do “louco”, a Clínica de Repouso Três Rios desenvolveu vários projetos, dentre eles destacava-se o “Projeto Cliente Cidadão”, que objetivava o resgate dos valores morais dos pacientes psiquiátricos como pessoas e cidadãos. Através de visitas a instituições de lazer, culturais e esportivas, os doentes entrariam em contato com a realidade social e poderiam ser reinseridos no convívio com a sociedade. E é exatamente com atitudes como as de criar tal projeto que a Clínica de Repouso Três Rios define a sua missão: Promover a saúde e o bem-estar do cliente através de reestruturação 4 psico-sócio-cultural, trabalhando suas necessidade pela abordagem interdisciplinar, inserindo-os com brevidade em seu contexto social. Ainda há o chamado “Projeto Grupo de Quarto” formado por psicólogas, assistentes sociais e terapeuta ocupacional que visitam os pacientes que dividem o mesmo quarto, buscando ouvir suas sugestões quanto ao relacionamento, problemas e serviços da clínica. Todas as atividades propostas pela Clínica de Repouso Três Rios têm como objetivo principal a reintegração e ressocialização do paciente. Segundo o médico psiquiatra Dr. Dimitri M. Abramov, o objetivo em atenção à saúde da Clínica de Repouso Três Rios é a assistência às pessoas com transtornos mentais, em todas as esferas de tratamentos possíveis, como o farmacológico, psicológico, terapêutico ocupacional, e o de assistência social, uma vez que os portadores de doenças mentais ficam inabilitados temporária ou permanentemente à uma função na sociedade. O ser humano se integra ao meio ambiente integrado no meio em que ele vive, e é por isso que a clínica se preocupa em prestar um serviço humano e especializado, para que o paciente possa viver de uma forma mais harmônica na sociedade. Os familiares são orientados pelos assistentes sociais acerca do tratamento e são convidados, semanalmente, a participarem de palestras que orientam a respeito das maneiras mais adequadas de se lidar com os doentes. 4. O Personagem Principal Uma grande parte do mérito pela qualidade de atendimento aos clientes se deve a Adriano, que vem obtendo experiência nesta área desde sua graduação. Especialista em Gestão de Pessoal pela FGV, ele ainda se dedica aos estudos psicanalíticos, ao cargo de consultor no Hospital Geral de Juiz de Fora, e em 2005 dará início ao mestrado de “Gestão e Estratégia”. Diplomático e dono de uma empatia singular, Adriano entende que a necessidade de um relacionamento pessoal é importante nessa área. Saber ouvir traz proximidade com as pessoas e serve de parâmetro para medir a interação da equipe e a sinergia na clínica. Adriano entende que para cuidar de pacientes tão especiais necessita de uma equipe motivada, muito bem preparada e sem preconceitos, pois o segredo de um tratamento bem sucedido está na confiança que a equipe precisa adquirir junto aos pacientes e para isso é preciso que não haja distinção entre as pessoas. 5. Condições Sócio-Econômicas e Ambientais da Clínica Atualmente a clínica é administrada por quatro sócios, sendo três deles filhos do falecido Dr.º Almeida e outro filho do Dr.º Joaquim. Embora não sejam médicos, seguem dando continuidade ao sonho dos pais. Segundo Adriano, que chegou em 1998, a clínica não apresentava uma visão de mercado e, apesar de já ter conquistado credibilidade por seus tratamentos, precisava sempre melhorar seu posicionamento podendo, assim, competir firmemente no mercado aberto. A concorrência mais próxima está localizada nos municípios adjacentes a Três Rios como: Valença, Juíz de Fora, Petrópolis, Teresópolis e Vassouras porém, Adriano diz que a clínica recebe pacientes de todos esses municípios, inclusive pacientes de outros estados como Alagoas, indicados pela 5 Secretaria de Saúde, por não haver hospitais com a qualidade que a clínica apresenta. Há uma grande procura por leitos e, apesar da oferta de 160 vagas, é constante a falta deles, caracterizando uma demanda reprimida, isto é, uma alta procura por internações, dado que o número de leitos credenciados no SUS não pode ser aumentado. Preocupado com o futuro, Adriano ainda diz que seu principal objetivo é dar continuidade ao sonho de seu pai, sendo respeitado e reconhecido por todo empenho no trabalho realizado. Para ele a empresa tem pontos fortes como seu sistema de prestação de serviços, a baixa rotatividade, o espaço físico disponível para a ampliação da infra-estrutura da clínica e a pouca rivalidade no setor, pois há um alto custo de capital para novos entrantes no mercado. Além disso, sua localização em Três Rios mostra-se estratégica pela proximidade de outros municípios do estado do Rio de Janeiro. Apesar dessa nova legislação que substituirá os hospitais convencionais pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Adriano vê uma grande oportunidade em atender um nicho de mercado específico, pois o SUS está incentivando a abertura do mercado ao tratamento de dependentes químicos. Adriano diz que a clínica tem toda estrutura necessária para se tornar um CAPS ou hospital-dia, porém por decisão do governo, a administração dos CAPS será feita pelo gestor local do município, vedando assim outra saída estratégica que poderíamos ter. O município de Três Rios ainda não conta com nenhum tipo de serviço substitutivo, como o CAPS ou o hospital-dia, porém ele já chegou em outras cidades próximas como Paraíba do Sul e Comendador Levi Gasparian, indicando assim que a chegada à Três Rios de um serviço que substitua os hospitais convencionais está próximo, o que faz com que Adriano se apresse em encontrar uma saída. Sua realidade econômica atual esta vinculada ao SUS, onde a verba é prevista pelo governo no Plano Plurianual do Orçamento Público. Dessa forma, o teto financeiro que será destinado à saúde, é negociado pelo estado junto ao município, sendo repassado até este. Do total de recursos destinados a área de saúde do município de Três Rios a Clínica de Repouso recebe uma parcela maior que os demais hospitais municipais vinculados ao SUS, pois seus pacientes são doentes crônicos e precisam de um longo tempo de permanência para o tratamento. Portanto, existe uma alta taxa de ocupação hospitalar, cerca de 95 à 98 % do total de leitos em relação aos demais hospitais clínicos do município, cuja taxa de ocupação gira em torno de 45 à 60%. Porém, apesar dessa verba parecer de imediato, satisfatória, a realidade não se mostra assim, pois as despesas foram indexadas conforme a inflação, mas a receita se mantém a mesma desde 2000, em torno de R$ 100 mil. No entanto a evolução das despesas é crescente a partir da mesma data, chegando atualmente bem próxima das receitas. O gráfico 1 a seguir deixa nítido o peso da folha de pagamento no orçamento concedido à clínica para liquidar suas despesas, isso acontece, uma vez que os recursos humanos utilizados, são diversificados e especializados, o que encarece os custos, mas qualifica o serviço prestado, criando um diferencial, do serviço público comumente apresentado. 6 Gráfico 1 – Composição das despesas mensais C o m p o si ç ã o d a s D e sp e sa s T e le f o n e M e d ic a ç ã o D iv e r s o s In s u m o s A lim e n ta ç ã o En c a r g o s Im p o s to s F o lh a d e Pg to 0% 10% 20% 30% 40% Fonte: Clínica de Repouso Três Rios 6. Perfil do Cliente e a Situação de Abandono A clínica só atende a pacientes maiores de 18 anos e que não tenham cometido crimes, pois não há o caráter de manicômio judicial. A maioria dos pacientes se encontra na faixa etária de 30 e 40 anos, pois há pouca procura pelos mais jovens. Segundo o diretor clínico da psiquiatria, Dr. Carlos Luís de Barros, os pacientes chegam à clínica quando a família do doente detecta alterações mentais e no comportamento, alucinações visuais entre outros sintomas, que comprometem todo o sistema nervoso levando a um prejuízo global do organismo. Dentre as categorias de enfermidade com maior incidência na clínica estão: 1) Transtornos Mentais Primários: - Quadros psicóticos, retardo e deficiência mental (Ex.: esquizofrenia tipo paranóica, mania de perseguição, alucinações, delírios noturnos...) 2) Transtornos Mentais Secundários: - Quadros orgânicos (lesões cerebrais que levem ao transtorno mental ); - Dependentes químicos (viciados em álcool, maconha, cocaína, craque, que são internados para se desintoxicar, até que tenham uma remissão dos sintomas que os levaram a internação). O tratamento é prescrito e em torno de seis meses o paciente que tem um transtorno psiquiátrico já apresenta melhoras. Porém, é muito comum que esse paciente acredite que está bem, deixando de tomar os remédios regularmente como prescrito, o que acarretará uma descompensação, fazendo a doença voltar ainda mais forte e com mais crises e surtos. Segundo Dr. Carlos, a internação é tão importante quanto o acompanhamento médico diário. Em 2000, uma pesquisa da clínica apontou que cerca de 50% dos pacientes internados não recebem visitas e encontram-se em situação de abandono. Dos 50% restante, o contato com os familiares ocorre apenas uma vez por semana. São muitas as dificuldades enfrentadas pelas famílias dos pacientes psiquiátricos. No entanto, a falta de informação sobre como se relacionar com eles ou o fato de não seguirem o tratamento como o prescrito pelos médicos, também faz com que os mesmos tenham crises freqüentes, o que os 7 distancia ainda mais do convívio com suas famílias e proporciona o aumento significativo na reincidência de internações. A assistência social tem papel fundamental no tratamento, pois procura manter os elos familiares, o que é bastante saudável para o convívio do paciente com a vida real e, quando o paciente encontra-se em condições de receber alta, cabe ao serviço social prepará-lo para deixar o hospital e readaptá-lo a sociedade. 7. O Dilema de Adriano Adriano enfrenta agora o dilema de repensar o futuro da empresa. Como se posicionar estrategicamente diante dessa realidade? A maior dificuldade que ele vê é a falta de valorização do trabalho pela sociedade, uma vez que existe um grande preconceito para com o doente psiquiátrico, pois a noção que se tem deles é de uma pessoa desorientada, extremamente agressiva e até mesmo perigosa. Segundo o governo, o objetivo do programa “De Volta Para Casa” é levar os pacientes para perto da família, aumentando sua qualidade de vida e contribuindo para o resgate da sua cidadania. Porém, Adriano sabe que para conviver com esses pacientes é necessário toda uma estrutura técnica que possibilite a reintegração desses ao contexto social. Segundo Adriano, é preciso que o governo ampare essas famílias não apenas com a bolsa-auxílio, mas acompanhando de fato os programas estabelecidos, pois já teve casos da clínica descobrir que o paciente que havia fugido estava enclausurado em sua própria casa, sem tratamento. Será mesmo que as famílias vão gerar bemestar suficiente para o doente? Ela terá estrutura social, financeira e psicológica para oferecer o suporte que é dado pela clínica? Adriano analisou a situação e encontrou algumas alternativas para a clínica: 1. Mudar o foco de tratamento psiquiátrico convencional e especializar-se no tratamento químico, aproveitando o incentivo do SUS. Porém, essa posição contraria os padrões éticos da clínica, uma vez que há responsabilidade social entre a clínica e os seus pacientes, de modo que o município de Três Rios ainda não tem estrutura para absorver e tratar os pacientes da desospitalização e não oferece nenhum tipo de serviço substitutivo; 2. Abrir a clínica para convênios e tratamentos particulares, aproveitando a alta demanda. A barreira será imposta pelas cláusulas dos convênios no momento de credenciar um paciente crônico para o tratamento, uma vez que ele representa alto custo devido ao longo período necessário para o tratamento. O outro problema será a concorrência oferecida nos municípios adjacentes a Três Rios, como Petrópolis que possui clínicas particulares e credenciadas a convênios, tradicionais e muito bem estruturadas; 3. A clínica tornar-se um CAPS, aproveitando toda a infra-estrutura e mão-de-obra disponível e especializada. O problema é que o governo não quer que a iniciativa privada, apesar de prestadora de serviços para o SUS, assuma a direção dos CAPS. Adriano precisava considerar estas questões durante os próximos meses e formular uma nova estratégia. 8 Questões para Discussão 1) Analisando todos os prós e contras das alternativas propostas por Adriano, qual delas você indicaria a ele? Por quê? 2) Que estratégias devem ser definidas levando em consideração todos os pontos fortes e fracos da clínica, bem como as oportunidades e ameaças do ambientes externo? E quais ações você implementaria para atingi-las se estivesse no lugar de Adriano? 3) Sabendo-se que 100% do número de internações fazem-se através de convênio com o SUS e que, com esta nova lei, a tendência é de que gradativamente sua oferta diminua, qual seria a saída para Adriano continuar mantendo o seu número de internações? 4) Se o hospital psiquiátrico convencional não cumpre o seu papel e, ao invés de espaço terapêutico, tem se revelado como espaço reforçador e deteriorador da saúde mental, que alternativas podem ser pensadas para a assistência ao doente mental, de maneira que não apenas reduza o custo da administração pública, mas também não prejudique o bom tratamento já oferecido? ANEXOS 1) A Reforma Psiquiátrica Brasileira Em novembro de 1990 reuniam-se em Caracas – Venezuela, para a Conferência Regional para a Reestruturação da Assistência Psiquiátrica do Continente, organizações, associações, autoridades de saúde, profissionais de saúde mental, legisladores e juristas. Todos se comprometiam solidariamente a advogar e desenvolver em seus países, programas que promovessem a reestruturação da assistência psiquiátrica, a vigilância e a defesa dos direitos humanos dos doentes mentais, de acordo com as legislações nacionais e respectivos compromissos internacionais. Seus pontos principais são os seguintes: 1. A atenção psiquiátrica hospitalar convencional não atende aos seus objetivos por isolar o paciente do meio social e, portanto, promover a segregação; afrontar os direitos civis e humanos; consumir recursos financeiros; Não promover aprendizagem. 2. A atenção deve salvaguardar a dignidade e os direitos dos pacientes; basear-se em critérios tecnicamente adequados; promover a manutenção do paciente no seu meio. 3. As legislações devem assegurar respeito aos direitos humanos e civis; organização de serviços comunitários. 4. As internações psiquiátricas devem ser feitas em hospitais gerais. Assim, por aclamação foi aprovada a “Declaração de Caracas”, que permitiria a promoção de modelos alternativos de tratamentos psiquiátricos, centrados na comunidade e dentro dos Sistemas Locais de Saúde (SILOS) onde foram propostos os CAPS. A partir de então, toda a assistência psiquiátrica convencional seria afetada, uma vez que foi alegado que tais hospitais são lugares de 9 exclusão, silêncio e martírio. Não permitem alcançar os objetivos compatíveis com um atendimento comunitário, integral, contínuo e ético, pois isolam o paciente do seu meio, gerando assim maior incapacidade social. Afirmam também que os hospitais convencionais proporcionam condições desfavoráveis que põem em perigo os direitos humanos e sociais do enfermo, que esses hospitais requerem a maior parte dos recursos financeiros destinados pelos países aos serviços de saúde mental, e fornecem ensino insuficientemente vinculado, visto que hoje os hospitais convencionais devem adaptar-se aos princípios e orientações que fundamentam a nova estratégia proposta pelos programas de Saúde Mental e Psiquiatria. Considerando todas as alegações citadas, a Conferência estabeleceu que o atendimento primário de saúde deveria ser realizado por SILOS, pois oferecem melhores condições para desenvolver programas baseados nas necessidades da população de forma descentralizada, participativa e preventiva. Tendo como objetivo humanizar o tratamento oferecido pelo modelo seguido por hospitais psiquiátricos convencionais, que mostram um serviço centralizador para as pessoas portadoras de transtornos mentais, facilitando assim o alcance da meta de Saúde Para Todos. Sendo o Brasil, desde 1990, signatário da Declaração de Caracas, foram criados os Serviços Residenciais Terapêuticos em Saúde Mental no âmbito do SUS, pela portaria GM n° 106, de 11 de fevereiro de 2000, para o atendimento ao portador de transtornos mentais. Estes serviços propõem uma modalidade de assistência substitutiva da internação convencional, de maneira que, a cada transferência de paciente para a rede social - CAPS, deve-se reduzir ou descredenciar do SUS, o igual número de leitos naquele hospital, realocando os tetos orçamentários correspondentes para o estado ou município que se responsabilizará pela assistência a esse paciente. Os CAPS oferecem atendimento em nível ambulatorial, são formados por um conjunto diversificado de atividades que podem ser desenvolvidas pelas unidades assistências de saúde locais, por centros de saúde e/ou ambulatórios especializados, ligados ou não a policlínicas, unidades mistas ou hospitais. Porém, caracterizam-se comumente como hospital-dia, inserido na comunidade, cabendo ao gestor local de saúde do SUS, a responsabilidade de oferecer uma assistência integral aos usuários. Cada CAPS conta com uma equipe técnica mínima para um conjunto de 30 leitos, no período diurno, composta de um médico psiquiatra ou um médico clínico e um psicólogo; um enfermeiro; dois profissionais de nível superior (psicólogo, assistente social e/ou terapeuta ocupacional); profissionais de níveis médio e elementar necessários ao desenvolvimento das atividades. Desde 1989 o Deputado Paulo Delgado traz essa discussão para o Parlamento, lançando um Projeto de Lei (Projeto de Lei n.º 3657) que contempla os principais pontos da reforma psiquiátrica. Esse projeto tramita desde então pelas duas casas do Congresso, tendo recebido inúmeras emendas, mas tendo sido finalmente aprovado no ano de 1999. A sanção presidencial ocorre em 31 de julho de 2003 quando é promulgada a Lei n°10.708, do programa “De Volta Para Casa”. Essa lei estabelece um novo patamar na história do processo de reforma psiquiátrica brasileira, impulsionando a desinstitucionalização de pacientes com longo tempo de permanência em hospital psiquiátrico, pela concessão de auxílio reabilitação psicossocial e inclusão em programas extra-hospitalares de atenção em saúde mental. 10 NOTAS DE ENSINO 1. Introdução Esse caso de ensino tem o objetivo de discutir a estratégia adotada pela Clínica de Repouso Três Rios (CRTR), hospital psiquiátrico localizado na cidade de Três Rios – RJ, para perpetuar-se no mercado após a Reforma Psiquiátrica Brasileira, decorrente da Declaração de Caracas e legitimada pela lei nº 10.708/03. Conhecida como “Lei do Programa de Volta para a Casa”, esta lei estabelece um novo patamar na história do processo de reforma psiquiátrica brasileira, impulsionando a desinstitucionalização de pacientes com longo tempo de permanência em hospital psiquiátrico, pela concessão de auxílio-reabilitação psicossocial e inclusão em programas extra-hospitalares de atenção em saúde mental. Tal sanção impacta profundamente o modelo de negócios da CRTR que precisa adotar uma nova estratégia de gestão capaz de superar a crise. 2. Objetivos de Ensino Esse caso de ensino pode ser utilizado em cursos de graduação em disciplinas que tratem de estratégia de empresas. Pode ser utilizado para discutir: • O conceito de modelo de negócios; • Como fatores externos podem afetar um modelo de negócios já estabelecido; • Como modificar o modelo de negócios em resposta a alterações no ambiente externo da organização Este caso pode ser usado também em cursos de pós-graduação em gestão pública nas disciplinas de políticas públicas, para discutir como as políticas públicas podem afetar o pequeno empresário. 4. Fontes dos Dados Para elaborar esse caso de ensino foram entrevistados diretores, médicos, funcionários e técnicos em enfermagem da Clínica de Repouso Três Rios. Adicionalmente foram consultados dados históricos da clínica publicados em documentos internos, jornais e revistas de circulação interna e do próprio município onde a clínica está instalada. Os dados sobre a reforma psiquiátrica brasileira foram obtidos de documentos publicados na internet. 5. Utilização Recomendada Nos cursos de graduação o caso poderá ser utilizado para discutir como uma lei pode afetar um modelo de negócio estabelecido e em fase de consolidação. Discutir entre as alternativas de modificação do modelo de negócio, quais seriam os prós e contras de cada alternativa. O aluno a partir dessa discussão será capaz de perceber a realidade do pequeno empresário que apesar de se empenhar para que seu negócio dê certo, não tem controle sobre todos os fatores que afetam o ambiente em que sua empresa está inserida. Na pós-graduação, o caso poderá ser utilizado para discutir os impactos na sociedade das políticas públicas, mais especificamente na área da saúde. Podem-se analisar os impactos para vários 11 stakeholders, incluindo os cidadãos e o setor privado atingidos pela nova proposta legislativa. Discutir como as políticas públicas podem afetar positiva ou negativamente a sociedade para qual ela foi criada. 5. Questões para Discussão 1) Analisando todos os prós e contras das saídas propostas por Adriano, qual delas você indicaria a ele? Por quê? 2) Que estratégias devem ser definidas levando em consideração todos os pontos fortes e fracos da clínica, bem como as oportunidades e ameaças do ambientes externo? E quais ações você implementaria para atingi-las se estivesse no lugar de Adriano? 3) Sabendo-se que 100% do número de internações faz-se através de convênio com o SUS e que, com esta nova lei, a tendência é de que gradativamente sua oferta diminua, qual seria a saída para Adriano continuar mantendo o seu número de internações ? 4) Se o hospital psiquiátrico convencional não cumpre o seu papel e, ao invés de espaço terapêutico, tem se revelado como espaço reforçador e deteriorador da saúde mental, que alternativas podem ser pensadas para a assistência ao doente mental, de maneira que não apenas reduza o custo da administração pública, mas também não prejudique o bom tratamento já oferecido? 5) Como alterações nas políticas públicas podem forçar os empresários a reestruturarem todo seu negocio? 6. Análise do Caso 1) Analisando todos os prós e contras das saídas propostas por Adriano, qual delas você indicaria a ele? Por quê? Recomenda-se que o professor conduza o Estudo de Caso utilizando grupos de alunos para debaterem o tema. Deve-se ter como foco principal a idéia de estratégia organizacional, uma vez que o estudo foca a organização holística e suas interações com os stakeholders. A partir das saídas aparentemente possíveis propostas por Adriano, os alunos deverão cogitar as possibilidades de mudança no foco do negócio, levantando livremente os prós e contras das três alternativas propostas no final do caso. É interessante ainda que o professor-mediador abra um grande debate inter-grupos, posterior ao debate intra-grupo, de maneira que possibilite a apresentação de todos os pontos de vistas dos alunos participantes, utilizando-se da técnica de brainstorming, enriquecendo a dialética aplicada à questão. 2) Que estratégias devem ser definidas levando em consideração todos os pontos fortes e fracos da clínica, bem como as oportunidades e ameaças do ambientes externo? E quais ações você implementaria para atingi-las se estivesse no lugar de Adriano? 12 A partir da análise SWOT do caso apresentado, onde devem aparecer pontos fortes como o sistema de prestação de serviços da clínica, a baixa rotatividade, o espaço físico disponível para a ampliação da infra-estrutura da clínica e a pouca rivalidade no setor, pois há um alto custo de capital para novos entrantes no mercado. Pontos fracos como o atendimento à pacientes que são doentes crônicos e precisam de um longo tempo de permanência hospitalar para o tratamento, o que influencia num maior repasse orçamentário do estado para o município, porém as despesas foram indexadas conforme a inflação, mas a receita se mantém a mesma desde 2000. Como oportunidades pode-se destacar a localização da clínica em Três Rios mostrando-se estratégica pela proximidade de outros municípios do estado do Rio de Janeiro e a visão de Adriano quanto a grande oportunidade em atender um nicho de mercado específico, pois o SUS está incentivando a abertura do mercado ao tratamento de dependentes químicos. Já quanto à ameaça, pode-se destacar especialmente a promulgação da Lei n°10.708, do programa “De Volta Para Casa”. Essa lei estabelece um novo patamar na história do processo de reforma psiquiátrica brasileira, impulsionando a desinstitucionalização de pacientes com longo tempo de permanência em hospital psiquiátrico, pela concessão de auxílio reabilitação psicossocial e inclusão em programas extra-hospitalares de atenção em saúde mental, o que acarretará perda gradual de pacientes da usuários dos serviços oferecidos pela clínica. Quantos as ações implementadas, essas devem ter conexão com as ponderações feitas na questão 1, uma vez que não existe um modelo único e invariável para a estratégia adotada. 3) Sabendo-se que 100% do número de internações faz-se através de convênio com o SUS e que, com esta nova lei, a tendência é de que gradativamente sua oferta diminua, qual seria a saída para Adriano continuar mantendo o seu número de internações ? Deve-se considerar mais uma vez as questões trabalhadas anteriormente e as três possibilidades levantas por Adriano na conclusão, dando atenção aos alunos que defenderem um único posicionamento. A partir da análise das três possibilidades já discutidas, recomenda-se que os alunos sejam estimulados à discutir novas saídas, uma vez que podem surgir opiniões onde uma possibilidade não descarte a outra. É fundamental ressaltar a questão orçamentária e mercadológica, já que o mercado impõe mudanças estruturais e sociais e a clínica apresenta seu orçamento restrito ao repasse do SUS. 4) Se o hospital psiquiátrico convencional não cumpre o seu papel e, ao invés de espaço terapêutico, tem se revelado como espaço reforçador e deteriorador da saúde mental, que alternativas podem ser pensadas para a assistência ao doente mental, de maneira que não apenas reduza o custo da administração pública, mas também não prejudique o bom tratamento já oferecido? O problema não tem uma única solução, visto depender de uma série de fatores macrossociais que se destacam num país de gigantesca dimensão territorial (8,500 milhões km²) e diversidade geoeconômica, onde a população ultrapassa a casa de 160 milhões e mais de ¼ da população não tem acesso aos serviços básicos de saúde. Com uma gritante má distribuição de renda, o Brasil apresenta profundas desigualdades socioeconômicas, inúmeros bolsões de pobreza, ausência de infrainstrutura de saneamento e recursos orçamentários insuficientes para o atendimento das necessidades de manutenção da saúde da população. Acrescendo-se à isso, políticas públicas 13 muitas vezes importadas e não adequadas à realidade brasileira. Sendo assim, disponibilizar e prestar assistência médico-hospitalar não é tarefa nada fácil. cuidar, É nesse cenário que deve-se ponderar o debate acerca de algumas possibilidades, como por exemplo: - O médico psiquiatra que já conhece o histórico do paciente na clínica pode fazer o acompanhamento deste em casa ou em associação aos CAPS, sendo restrito as famílias que tiverem condição comprovada de manutenção e cuidado desses pacientes; - Essa possibilidade seria restrita e os demais pacientes que não possuem uma família capacitada à assisti-los, dentro das suas limitações em casa e cujo tratamento não pode ser prejudicado, devem permanecer na clínica. - Concomitantemente à assistência familiar de tais pacientes na clínica, o repasse público da verba do “Programa de Volta Pra Casa” à família não seria integral, mas proporcional, uma vez que a família não assumiu o tratamento do paciente e para o estado estimular o não abandono dos pacientes, condicionaria a remuneração à visitação deles na clínica, evitando assim a possibilidade do hospital psiquiátrico tornar-se “depósito de gente”. Essa alternativa oferece uma redução no custo da administração pública e também não prejudica àqueles que não possuem assistência familiar adequada ao quadro. 5) Como alterações nas políticas públicas podem forçar os empresários a reestruturarem todo seu negócio? Propõe-se a discussão a partir da descrição e explicação das causas e conseqüências da atividade governamental, tanto aquelas esperadas, quanto as não esperadas, uma vez que suas atividades influenciam diretamente o comportamento da sociedade, seus sistemas políticos e a política pública instituída. Deve-se ressaltar a influência dos grupos de interesses particulares, a pressão midiática, a formação ideológica da sociedade, a concorrência e o grau de incerteza da nova perspectiva que será vislumbrada para uma futura tomada de decisão quanto ao novo modelo de negócios adotado. Portanto, o debate pode ser conduzido a partir da ótica do desenvolvimento econômico, dos direitos humanos, da distribuição de renda, da educação, da previdência social, da saúde, e dos gastos públicos, enfatizando-se as conseqüências da política, uma vez que os problemas sociais são complexos e difíceis de fazer previsões. 7. Inserção Teórica do Caso As teorias que apóiam a discussão do caso são, no caso da graduação, as teorias de estratégia (vantagem competitiva de Porter, teorias sobre modelos de negócios, etc.). No caso da pósgraduação, o professor ao aplicar o caso pode se apoiar nas teorias sobre definição de políticas publicas. Bibliografia Adicional Indicada ANSOFF, H. I. A nova estratégia empresarial. São Paulo: Atlas, 1990. 14 BATEMAN, Thomas S; SNELL,Scott A. Administração: construindo vantagem competitiva. 1ª ed. São Paulo: Atlas, 1998. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Programa “De Volta Para Casa”. Brasília, 2003. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/ManualdoProgramaDeVoltaParaCasa_dez2003.pdf Acesso em: 10/04/2009. CÂMARA dos Deputados (BR). Projeto de lei nº 3657-1989. Dispõe sobre a extinção progressiva dos manicômios e sua substituição por outros recursos assistenciais e regulamenta a internação psiquiátrica compulsória. Brasília: CD; 1991. CARNEIRO, C.B.L.; COSTA, B.L.D. Exclusão social e políticas públicas: algumas reflexões a partir das experiências descritas no programa gestão pública e cidadania. Cadernos Gestão Pública e Cidadania, vol.28. UFMG: Julho, 2003. CHURCHILL, Gilbert A; PETER, J.Paul. Marketing: criando valor para os clientes. São Paulo: Saraiva,2000. DRUCKER. P. Inovação e espírito empreendedor: prática e princípios. São Paulo: Pioneira. 2003. DUSSAULT, G. A gestão dos serviços de saúde: características e exigências. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 26, n. 2, p. 8-19, abr./jun. 1992. FUNDAÇÃO Getúlio Vargas. Saúde e previdência social: desafios para a gestão no próximo milênio. São Paulo: Makron Books, 2001. GONÇALVES, A.M., SENA, R.R. A reforma psiquiátrica no Brasil: contextualização e reflexos sobre o cuidado com o doente mental na família. Revista Latino-americana de Enfermagem, 2001 março; 9 (2): 48-55. GRACIOSO, Francisco. Marketing estratégico: planejamento estratégico orientado para o mMercado. São Paulo: Atlas, 2007. MINTZBERG, H; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Safári de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman Companhia Editora, 2000. MORGAN, Gareth. Imagens da organização. São Paulo: Atlas, 1996. ORNELLAS, C.P. O paciente excluído: história e críticas das práticas médicas de confinamento. Rio de Janeiro: Revan; 1997. PORTER, M. Estratégia competitiva. 7a ed. Rio de Janeiro: Campus, 1996. SENADO Federal (BR). Projeto de lei substitutivo ao projeto nº 3657-1989; Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos psíquicos e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Brasília: SF; 1999. 15 SILVA, José Roberto Gomes da. VERGARA, Sylvia Constant. Sentimentos, subjetividade e supostas resistências à mudança organizacional. Revista de Administração de Empresas. Vol 43 n.3 Ed. FGV jul/set-2003 pgs. 10-22 SPOSATI Aldaíza. Assistência social: desafios para uma política pública de seguridade social. Cadernos Abong – As ONGS e a Realidade Brasileira. São Paulo, nº 11 pg.19 a pg. 35 outubro/1995 16