A EDUCAÇÃO PELA DANÇA NO ENSINO BÁSICO DE GOIÁS
TAINÃ MOREIRA GOMES
Núcleo de Estudo e Pesquisa: História e Filosofia da Educação – Mestranda
Orientador: Prof. Dr. Bruno Pucci
INTRODUÇÃO
Antes de tudo, creio ser importante esclarecer os motivos pelos quais proponho a
pesquisa sobre dança no Mestrado em Educação desta Universidade e, ainda, de que maneira
a pesquisa e seu objeto de estudo vinculam-se aos meus interesses particulares.
Descobri a dança aos 10 anos de idade em minha escola primária. As aulas de jazz
propostas pela professora motivaram-me a escolher a dança como uma expressão que se
tornou singular em minha vida.
Já no 2º grau, em 1992, estudei na Escola Técnica Federal de Goiás (hoje Instituto
Federal de Goiás) e fui selecionada para o Grupo de Dança Contemporânea Filhos da Mãe,
coreografado por Henrique Rodovalho (coreógrafo da Quasar Cia de Dança). Esta experiência
confirmou a dança como expressão que me vinculava afetivamente ao mundo. Construí, a
partir de então, variadas experiências que contribuíram para minha compreensão deste
universo, experiências essas que me identificavam cada vez mais como bailarina, como
pessoa. Participei de variados grupos: Corpo de Baile do Município de Goiânia (1995), Espaço
Galpão Nucaic (1996 a 2000), Quasar Cia de Dança (1996), Grupo de Dança do Stúdio
Dançarte (1997), Lamounier Ballet Teatro (1998-2004), Grupo de Pesquisa do Espaço Quasar
(1999). Atuei como bailarina em dança contemporânea e ballet clássico. Motivada por todas
essas circunstâncias, ingressei no curso de Educação Física da Universidade Federal de
Goiás, onde participei do grupo de estudos em dança e projeto de extensão “Território da
Dança”. Desde o ano de 1999 sou professora de dança nas modalidades ballet clássico e
contemporâneo.
Na especialização em Educação Física Escolar, no ano de 2002, dediquei-me a estudar
este tema, pois misturava-se em mim a bailarina e a professora de Dança. O tema da
monografia “Dança: Corpo, Arte, Linguagem, Movimento e Aprendizagem” centrou-se na
questão em como ensinar a linguagem da dança para pessoas com capacidades diferenciadas
sem que isso se pautasse apenas em mera repetição e reprodução de gestos e formas
desvinculados de sentido. Nesse momento percebi que só dançar não era mais tão satisfatório
quanto antes, eu necessitava propor, também, a produção dessa linguagem que, até então,
apenas reproduzia. Minhas considerações realizadas no curso de especialização foram
geradoras de intensa necessidade em continuar meus estudos de forma mais aprofundada.
Nessa perspectiva, escolhi o Mestrado em Educação porque este campo de estudos contribui
para uma análise ampliada do objeto de pesquisa ora proposto. Isso se confirmou quando
participei como aluna ouvinte em algumas disciplinas da Faculdade de Educação da
Universidade Federal de Goiás. Compreendo que esta oportunidade é de extrema importância
para que meus estudos e minha condição intelectual possam avançar. Assim, a delimitação do
problema de pesquisa proposto neste projeto configura-se, como uma busca de aprimoramento
dos estudos realizados anteriormente.
DELIMITAÇÃO DO TEMA E DEFINIÇÃO DO PROBLEMA
Atualmente utilizamos Isabel Marques (1996; 1999) como uma referência para o trabalho
de dança na escola, porque consideramos que em sua proposta a visão de ensino aplicada à
dança, extrapola a reprodução e repetição de gestos e movimentos como fator principal. Esta
autora apresenta em sua proposta alguns elementos que compartilhamos como essenciais
para o desenvolvimento do ensino de dança na escola:
1. Aborda a dança como fenômeno educacional, contextualizando, vivenciando e
analisando seus elementos constituintes e suas diversas manifestações no âmbito da escola e
mais especificamente na Educação Física;
2. Sua didática de ensino possibilita aos alunos se aproximarem do conhecimento e da
vivência dos elementos constitutivos da dança, identificando os aspectos coreológicos: as
ações realizadas na dança, as partes do corpo mais solicitadas, os níveis, os planos, as
tensões espaciais, as progressões, projeções e formas que o corpo desenha no espaço, as
dinâmicas de movimento.
3. Reconhece que é a partir da realidade vivida pelos sujeitos e dos sentidos, que a
educação se afirma como aprendizagem de cultura.
Diante dessas considerações e perspectivas de como o conhecimento sobre dança vem
sendo tratado, levantaremos alguns questionamentos que consideramos pertinentes para
centrar as nossas discussões.
Questionamo-nos: O que o ensino de dança tem refletido? Em que princípios estão
fundamentados? Atendem a que propósitos? A dança que vai para a escola é arte? Que dança
é essa?
Essa trajetória histórica nos aponta o quanto o conhecimento sobre dança é recente em
nosso cotidiano escolar, e, ao nosso olhar, o quanto se torna urgente o seu desvelamento.
Nossa intenção, não é apresentar as justificativas afirmativas do ensino de dança ao longo do
tempo no cotidiano escolar e, nem tampouco, debater sobre as limitações postas por sua
realidade, até mesmo porque essas discussões estão presentes de forma bem sistematizada
em vários autores. A intenção é realizar um exercício de reflexão sobre o conhecimento dança
como conteúdo e componente curricular, compreendendo as suas relações. Pensamos que
tem acontecido algo com a teoria de dança, proposta pelos autores, quando estas caminham
rumo às escolas ou desde já em sua elaboração. Não sabemos onde estes conceitos têm
sofrido desvios e/ou têm sido alterados. Nossa preocupação está na utilização da dança como
mais um argumento escolar sem conflito, sem identidade, sem a preocupação de estabelecer
princípios que permitam a superação do mesmo, a contribuição para a emancipação.
Após a leitura dos autores e autoras sobre dança, é possível reconhecer em suas
propostas educacionais, o discurso centralizado na educação para a emancipação, para a
formação humana, e a relação do tema dança com a arte centraliza essa expectativa. Essa
relação proposta é construída no sentido de a dança ser tratada como arte; essa perspectiva
teria, segundo os autores apresentados, uma função de superar as condições reprodutoras que
se tornam expressas em muitas propostas pedagógicas do ensino de dança. A arte, no ensino
de dança, aparece como uma solução para romper com a instrumentalização, com a
coisificação; aparece com um poder mistificador de transformação da realidade. Propor o
ensino de dança enquanto arte faria avançar o papel social, cultural e político do corpo em
nossa sociedade e, dessa forma, nos induz a crer que superaríamos os conflitos existentes no
universo da dança, e, consequentemente, da cultura.
Partindo da exigência educativa apresentada por Adorno (1995) que Auschwitz não se
repita, precisaríamos reconhecer que todo conhecimento que se propõe como capaz de
emancipar o indivíduo através de técnicas ou práticas corporais poderia cair em contradição
ou, muito pior, contribuir para a manutenção da barbárie. O problema não seria considerar a
dança enquanto arte como solucionadora dos conflitos no universo do ensino de dança, mas
ela estar nesse patamar e bastar a si mesma, não gerando possibilidades de superar essa
situação ideológica. Não haveria uma relação entre o universal e o particular. E diante da
idealização proposta, perceberíamos que o enaltecimento do conhecimento de que trata a
dança refletiria em muito essa característica.
OBJETIVOS
Geral: analisar criticamente como se apresenta o ensino de dança nas escolas de Educação
Básica de Goiás e apresentar, como contraponto, uma experiência significativa e emancipatória
dessa atividade estético-educativa.
Específicos:
1. Apontar o ensino de dança como uma atividade formativa no contexto da LDB e dos
PCN’s;
2. Pontuar a dança como uma forma de expressão e de conhecimento eminentemente
formativa (aspectos teóricos);
3. Contextualizar a dança, como obra de arte, e sua dimensão crítica e emancipatória
(aspectos teóricos);
4. Identificar e analisar a proposta da dança nas escolas do Núcleo de Estudos e
Pesquisas Ciranda da Arte (elementos positivos e negativos dessa proposta) (análise
documental);
5. Enumerar as escolas de Goiás que contam com as aulas de dança em seu processo
formativo e estudo dessa atividade em 2 ou 3 escolas: formação ou semiformação?
(levantamento empírico e análise)
6. Propor a análise de uma experiência de dança eminentemente formativa (momento
propositivo e comparativo).
METODOLOGIA
Esse trabalho visa construir uma pesquisa empírica e de estudos de casos, além de
análise teórica- filosófica, com a finalidade de compreender as possibilidades formativas,
críticas e verdadeiramente significativas no ensino de dança.
Estamos aplicando um questionário semiestruturado para poder contribuir com as
nossas reflexões e obter os dados quantitativos/ qualitativos que fundamentarão a nossa
análise. Pesquisamos o Centro de Ensino e Pesquisa Ciranda da Arte, órgão da Secretaria de
Educação do Estado de Goiás, criado pela Lei nº 15.255/05, com a finalidade de proporcionar
formação continuada aos professores de Arte da Rede Estadual de Ensino e acompanhar os
projetos nas unidades escolares. Entrevistamos professores e alunos/as envolvidos nessas
atividades. Utilizaremos documentos, vídeos e recursos educacionais variados para estruturar
nossas pesquisas. Selecionamos aleatoriamente as escolas estaduais que oferecem aulas de
dança, que são nosso objeto de análise.
CAPÍTULO 1: O ensino da dança na legislação educacional brasileira
1.1.
a)
b)
c)
d)
Legislação Brasileira
LDB
PCN’s
Ciranda da Arte (apresentação da proposta: elementos positivos e negativos)
A dança na educação brasileira
CAPÍTULO 2: A dança como forma de expressão e de experiência formativa
2.1. O que significa dançar na escola?
2.2. A dança como expressão e sua dimensão formativa
2.3. A dança como obra de arte e sua dimensão crítica e emancipatória
2.4. Perspectivas de semiformação da dança no contexto da Indústria Cultural e da
sociedade de massa
CAPÍTULO 3: As aulas de dança nas escolas de Educação Básica de Goiás
3.1. Apresentação de dois casos de dança nas escolas
3.2. Análise dos casos a partir dos conceitos de formação/semiformação, de experiência
estética e de indústria cultural
CAPÍTULO 4: Apresentação e análise de uma experiência formativa de dança.
4.1. Pina Bausch – A Dança-Teatro
4.2. A Sagração da Primavera: Ensaio Interpretação da Obra de Arte Segundo Theodor
W. Adorno
4.3. A dança como obra de arte e sua dimensão crítica e formativa
CONCLUSÕES
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Tradução de A. Morão. Lisboa: Edições 70, 1982.
_____. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
DUARTE JR., J. F. Fundamentos estéticos da educação. Campinas: Papirus, 1988.
EKSTEINS, Modris. A sagração da primavera: a grande guerra e o renascimento da era
moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
FREITAS, Verlaine. Adorno & a arte contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
JIMENEZ, M. Para ler Adorno. Trad. De Roberto Ventura, Rio de Janeiro: Livraria Francisco
Alves Editora, 1977.
LÜDKE, Menga. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. 2.ed. Rio de Janeiro:
E.P.U., 2013.
PINA. Direção: Win Wenders. Fotografia Hélène Louvart e Jörg Wiomer: Imovision, 2011. 1
DVD (106min), capítulo 1 (02:50 a 14:57). 16:9 Widescreen (Anamórfico).
MARQUES, Isabel. Ensino de dança hoje – textos e contextos, São Paulo: Ed. Cortez, 1999.
_____. A dança no contexto: uma proposta para a educação contemporânea. Tese de
doutorado. Universidade de São Paulo, 1996.
PUCCI, B.; RAMOS-de-OLIVEIRA, N.; ZUIN, A.A.S. “Teoria Estética – Com(tra)posição arte e
filosofia” e “A regressão/reeducação dos sentidos”. In: Adorno: o poder educativo do
pensamento crítico. Petrópolis: VOZES, 1999, p. 94-108 e 140-150.
ROSIN, Nilva. Arte e racionalidade: estudo sobre a superação da racionalidade instrumental
em Adorno e Horkheimer. Passo Fundo: Instituto Superior de Filosofia Berthier, 2007.
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A educação pela dança no Ensino Básico de Goiás