PROVA 114/11 Págs.
EXAME NACIONAL DO ENSINO SECUNDÁRIO
12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de Agosto)
PROVA MODELO
Duração da prova: 120 minutos
2001
1.ª CHAMADA
PROVA ESCRITA DE FILOSOFIA
Leia atentamente as instruções:
• Esta prova é constituída por 2 (dois) grupos de questões:
– GRUPO I – 3 (três) questões.
– GRUPO II – 1 (uma) questão.
• A indicação do número de linhas/palavras tem um carácter
meramente orientador do grau de desenvolvimento da
resposta.
• A inadequação das suas respostas às questões formuladas
implicará uma pontuação de 0 (zero) pontos.
114/1
v.s.f.f.
GRUPO I
– Seleccione apenas um dos textos transcritos e responda às três questões que lhe são
colocadas acerca desse texto e da obra a que pertence.
– Na resposta às questões 1. e 2. deverá utilizar, em cada uma, aproximadamente 10 linhas
(cerca de 80 palavras).
– Na resposta à questão 3. deverá utilizar, aproximadamente, 40 linhas (cerca de 320 palavras).
– A mera transcrição de frases do texto implicará uma pontuação de 0 (zero) pontos.
– A não manifestação do conhecimento da obra implicará uma pontuação de 0 (zero) pontos.
DA NATUREZA, Parménides
TEXTO
De um só caminho nos resta
falar: do que é. Neste há indícios em grande quantidade
de que o que é é ingénito e indestrutível,
pois é completo, inabalável e sem fim.
Nunca foi nem será, pois agora é como um todo,
um só, contínuo. Pois que origem poderás encontrar-lhe?
Por onde e de onde poderia acrescentar-se? Nem o que não é
eu te concedo que o afirmes ou penses; pois é indizível e impensável
o que não é. Que necessidade o incitaria a surgir,
mais cedo ou mais tarde, se viesse do não-ser?
Portanto é forçoso ou que seja inteiramente, ou nada.
Jamais a força da persuasão pode consentir que do que não é
surja algo junto do que é. Por isso a justiça não solta
as algemas de deixar nascer ou perecer,
antes as segura. Acerca disto a decisão reside neste facto:
é ou não é.
Frag. 8, vv. 1-16, in M. Helena da Rocha Pereira,
Hélade, Coimbra, FLUC, 1971, p. 131
QUESTÕES
1. Identifique a tese central do excerto, explicitando os passos que a ela conduzem.
2. Explicite, com base no texto, os atributos do ser.
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
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GÓRGIAS, Platão
TEXTO
Sócrates – Voltemos agora, meu caro, ao ponto fundamental da nossa discussão: tu
sustentavas que Arquelau era feliz por cometer os maiores crimes sem ser castigado. Eu
defendia precisamente o contrário: primeiro, que Arquelau, ou outro homem qualquer,
praticando a injustiça sem ser castigado, é inevitavelmente o mais infeliz dos homens;
depois, que o autor da injustiça é sempre mais infeliz do que a sua vítima, e, finalmente,
que é mais infeliz o culpado que fica impune do que aquele que expia a sua culpa. Não
foi isto que eu disse?
Polo – Foi.
Sócrates – Fica, pois, demonstrado que eu tinha razão.
Polo – Assim parece.
Sócrates – Ainda bem. Mas, se isto é verdade, Polo, qual é então a grande utilidade
da retórica? De acordo com os princípios que estabelecemos, o que importa afinal é que
cada um se abstenha da prática da injustiça, como um mal em si mesmo. Não será
assim?
Polo – Absolutamente.
Sócrates – E se algum de nós, ou alguém por quem nos interessamos, comete uma
injustiça, deverá demandar voluntariamente e depressa o lugar onde obterá a mais
rápida punição, ou seja, deverá procurar o juiz como quem procura o médico, não vá a
doença da injustiça radicar-se na alma e tornar-se incurável. Que outra coisa podemos
nós dizer, Polo, se os princípios em que assentámos permanecem? Não é esta a única
linguagem que está de acordo com os princípios, porque não há outra?
Polo – Que poderíamos nós dizer senão isso, Sócrates?
Sócrates – Consequentemente, num caso de injustiça, para nos defendermos a nós
ou defendermos os nossos pais, filhos ou a própria pátria, se esta for culpada, de nada
nos serve, Polo, a retórica, a não ser para o fim oposto ao usual, para nos acusarmos a
nós próprios ou a qualquer dos nossos parentes ou amigos, que seja porventura culpado,
sem nada ocultar, pondo antes bem a claro a falta, para que o seu autor sofra o castigo
e se cure.
479 d-480 c, Lisboa, Edições 70, 1992, pp. 113-114
QUESTÕES
1. Clarifique a tese central presente no excerto transcrito.
2. Esclareça, com base no texto, a utilidade da retórica «para o fim oposto ao usual».
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
114/3
v.s.f.f.
FÉDON, Platão
TEXTO
Sócrates – (...) decerto não aceitarás, nem dito por ti mesmo, que, sendo a harmonia
algo de compósito, possa algum dia ter existido antes desses mesmos elementos que a
deverão constituir... Ou será que aceitas?
– Claro que não, Sócrates – disse.
– Ora vês – prosseguiu –, que é exactamente o teu caso quando, por um lado,
defendes que a alma existia já antes de entrar numa forma e num corpo humanos e, por
outro, afirmas que é composto... de coisas que ainda nem sequer existiam? Na realidade,
a harmonia a que tu comparas a alma nada tem a ver com esta, pois primeiro vem a lira,
as cordas, os sons ainda não harmonizados, e só por último é que ela se constitui a partir
de todos eles, para ser a primeira a desaparecer. Ora parece-te que uma tal concepção
esteja em consonância com a anterior?
– De modo nenhum – respondeu Símias.
– E, no entanto, se há assunto que exija consonância é bem este da harmonia...
– É um facto – admitiu.
– Consonância que no teu caso se não verifica... Mas vê lá, antes de mais, por qual
das ideias te decides: a de que a aprendizagem é uma reminiscência, ou a de que a alma
é uma harmonia?
– De longe pela primeira, Sócrates! Quanto à última, nada tenho na realidade a
aboná-la: baseei-me tão-só numa verosimilhança, numa plausibilidade formal, que é
com certeza a origem desta convicção na maior parte dos homens. Mas eu próprio sei
por experiência quão falazes são estas demonstrações fabricadas a partir de meras
verosimilhanças, e a que erros nos induzem, seja na geometria seja em qualquer outro
domínio, quando mal nos precatamos contra elas! Pelo contrário, esse argumento da
aprendizagem e da reminiscência assenta num pressuposto que merece ser tido em
conta, uma vez que equaciona a existência da alma, anteriormente ao nosso nascimento,
com a desse tipo de realidades que a ela pertencem e que genericamente intitulamos de
“realidade em si”.
92 a-d, Coimbra, Livraria Minerva, 1988, pp. 95-96
QUESTÕES
1. Explique, com base no texto, a refutação socrática da teoria proposta por Símias.
2. Justifique, com base no texto, a afirmação «a aprendizagem é uma reminiscência».
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
114/4
CATEGORIAS, Aristóteles
TEXTO
O carácter das substâncias segundas e bem assim da diferença tem de peculiar e
comum que, sempre que as predicamos, as predicamos em acepção sinónima, porque
todas as predicações têm sempre, por sujeito, ou indivíduos, ou espécies. A substância
primeira nunca se predica de coisa alguma, e nem mesmo é predicável de um sujeito
qualquer, mas, nas substâncias secundárias, a espécie predica-se de todos os exemplos
individuais, e o género predica-se de todos esses e ainda das espécies. O mesmo ocorre
com as diferenças, que tanto se predicam das espécies como dos indivíduos. Além
disso, a definição das espécies e dos géneros aplica-se às substâncias primeiras, e a do
género à espécie, pois tudo quanto afirmamos do predicado é também afirmável do
sujeito. De modo análogo, a definição das diferenças aplica-se aos indivíduos e às
espécies, mas, como anotámos atrás, são sinónimas as coisas cujo nome é comum e cuja
noção é idêntica, de onde se segue que, em todas as proposições que têm por predicado
uma substância ou uma diferença, o predicado é sinónimo.
Toda a substância nos aparece como uma forma. No que se refere às substâncias
primeiras, é incontestável que elas significam um determinado, porque o expresso é
uma forma e um uno indivisível. No caso das substâncias secundárias, em virtude da
própria forma, de nomeação, também podemos admitir que elas significam uma forma
determinada, como ao dizermos, por exemplo, homem, animal. Contudo não é assim,
pois tais palavras significam antes uma qualidade, porque o sujeito não é, como no caso
da substância primeira, uno e singular. Na verdade, homem é atribuível a uma
multiplicidade, e o mesmo se diz de animal. A espécie e o género não indicam uma
qualidade de modo absoluto, como indica, por exemplo, branco, porque branco
significa apenas uma qualidade, mas a espécie e o género indicam uma qualidade em
relação à substância, dizem-nos do modo de ser de uma substância. No caso do género,
contudo, esta qualificação é mais ampla do que no caso da espécie, pois o termo animal
abarca muito maior número de seres do que o termo homem.
In Organon, 3a-3b, Lisboa, Guimarães Editores, pp. 54-55
(adaptado)
QUESTÕES
1. No primeiro parágrafo do texto estão referidos três conceitos lógicos, essenciais na definição.
Relacione-os entre si.
2. Esclareça, com base no texto, a diferença entre substâncias primeiras e substâncias segundas.
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
114/5
v.s.f.f.
PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA, R. Descartes
TEXTO
53 – Que cada substância tem um atributo principal; e que o da alma é o
pensamento, assim como a extensão o é do corpo
Embora cada atributo seja suficiente para fazer conhecer a substância há, no
entanto, um em cada uma que constitui a sua natureza e a sua essência e de que todos
os outros dependem. Assim, a extensão em comprimento, largura e altura constitui a
natureza da substância corporal, e o pensamento constitui a natureza da substância que
pensa. Com efeito, tudo quanto pode atribuir-se ao corpo pressupõe a extensão e não
passa de dependência do que é extenso. Igualmente, todas as propriedades que
encontramos na coisa pensante se limitam a serem diferentes maneiras de pensar.
Assim, não poderíamos conceber, por exemplo, uma figura, sem ser uma coisa extensa,
nem movimento sem um espaço que é extenso; assim, a imaginação, o sentimento e a
vontade dependem de tal maneira da coisa pensante que não os podemos conceber sem
ela. Podemos, pelo contrário, conceber a extensão sem figura ou sem movimento e a
coisa pensante sem imaginação ou sem sentimento, e assim por diante.
54 – Como podemos ter pensamentos distintos da substância que pensa, da que é
corporal, e de Deus
Podemos, portanto, ter duas noções ou ideias claras e distintas, uma de uma
substância criada que pensa, e outra de uma substância extensa, desde que separemos,
cuidadosamente, todos os atributos do pensamento dos atributos da extensão. Também
nos é possível possuir ideia clara e distinta de uma substância incriada que pensa e que
é independente, isto é, de um Deus, desde que não pensemos que tal ideia represente
tudo o que nele é, e que nisso não misturemos nenhuma ficção do nosso entendimento:
na condição de atendermos simplesmente ao que verdadeiramente está compreendido
na noção distinta que dele temos e sabemos pertencer à natureza de um Ser sumamente
perfeito. Na verdade, ninguém há que possa negar que tal ideia de Deus seja em nós,
pois não há razão para acreditar que o entendimento humano não possa ter nenhum
conhecimento da Divindade.
Lisboa, Guimarães Editores, 1989, pp. 93-95
QUESTÕES
1. Explique, com base no texto, o carácter dualista da ontologia cartesiana.
2. Esclareça, baseando-se no texto, a possibilidade e os limites do conhecimento humano de Deus.
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
114/6
CARTA SOBRE A TOLERÂNCIA, J. Locke
TEXTO
A rectidão dos costumes, que não constitui a menor parte da religião e da piedade
sincera, diz também respeito à vida civil e nela se fundam conjuntamente a salvação das
almas e a do Estado; pelo que as acções morais existem tanto in foro interno como in
foro externo; umas e outras estão sob a alçada da autoridade do governo civil e do
governo doméstico, isto é, da autoridade do magistrado e da consciência. Aqui, pois, é
de recear que uma viole o direito da outra, e que haja um conflito entre o guardião da
paz e o da alma. Mas, se se ponderar bem o que acima se disse dos limites de uma e
outra, a dificuldade será facilmente resolvida.
Todo o homem tem uma alma imortal, capaz de felicidade ou de infelicidade eterna,
e a sua salvação depende de ter feito o que devia e de ter acreditado no que estava
prescrito por Deus e é necessário para se conciliar com o poder divino. Daí se segue:
1.º) que o homem está, antes de mais nada, obrigado a observar estas prescrições e que
deve sobretudo pôr todo o cuidado, aplicação e diligência em investigá-las e cumpri-las,
já que a condição mortal nada tem que se possa de modo algum comparar com a vida
eterna; 2.º) que, em virtude de um homem em nada violar, pela prática de um culto
erróneo, o direito dos outros homens, em virtude de não prejudicar outrem por ter
opiniões falsas sobre as coisas divinas, nem de a sua própria perdição pôr em perigo a
prosperidade dos outros, o cuidado pela própria salvação apenas incumbe aos
particulares. Não quero dizer que seja necessário eliminar todas as admoestações da
caridade e o zelo em denunciar os erros, que são os principais deveres de um cristão. É
permitido a cada um consagrar todas as exortações e argumentos que quiser à salvação
de outrem; mas toda a violência e coacção devem ser evitadas; e a soberania não deve
aqui intervir. Ninguém está obrigado, nestas circunstâncias, a obedecer aos conselhos
ou à autoridade de outrem, para além do que lhe tiver parecido conveniente: cabe a cada
um julgar, em última análise, da sua própria salvação; porque se trata apenas de si
próprio, não pode assim causar dano a mais ninguém.
Lisboa, Edições 70, 1996, pp. 113-114
QUESTÕES
1. Identifique o núcleo temático/problemático presente no texto de Locke acima transcrito.
2. Enuncie os meios que, segundo o texto, são aceitáveis para propagar a verdade religiosa.
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
114/7
v.s.f.f.
DISCURSO DE METAFÍSICA, G. W. Leibniz
TEXTO
33 – Explicação da união da alma e do corpo, que passou por inexplicável ou
por miraculosa, e da origem das percepções confusas.
Vê-se também a explicação inesperada desse grande mistério da união da alma
e do corpo, isto é, como acontece que as paixões e as acções de um sejam
acompanhadas pelas acções e paixões, ou melhor, pelos fenómenos convenientes do
outro. Pois, não há meio de conceber que um influa sobre o outro, e não é razoável
recorrer simplesmente à operação extraordinária da causa universal, numa coisa
ordinária e particular. Eis, porém, a verdadeira razão: dissemos que tudo o que acontece
à alma e a cada substância é uma consequência da sua noção e, portanto, a própria ideia
ou essência da alma implica que todas as suas aparências ou percepções lhe devem
brotar (sponte) da sua própria natureza, e justamente de modo a que correspondam por
si mesmas ao que ocorre em todo o universo, mas, mais particular e mais perfeitamente,
ao que acontece no corpo que lhe é afecto, porque a alma exprime o estado do universo,
em certo sentido e durante algum tempo, segundo a relação dos demais corpos com o
seu. O que nos faz saber ainda como é que o nosso corpo nos pertence sem estar,
todavia, unido à nossa essência. E creio que as pessoas que sabem meditar julgarão
favoravelmente os nossos princípios, pelo próprio facto de que poderão ver facilmente
em que consiste a conexão que há entre a alma e o corpo, que parece inexplicável por
qualquer outra via. Vê-se, também, que as percepções dos nossos sentidos, mesmo
quando são claras, devem necessariamente conter algum sentimento confuso, pois,
como todos os corpos do universo simpatizam, o nosso recebe a impressão de todos os
outros e, embora os nossos sentidos se refiram a tudo, não é possível que a nossa alma
possa atender a tudo em particular; eis porque os nossos sentimentos confusos são o
resultado de uma variedade de percepções, que é absolutamente infinita. E é mais ou
menos como o murmúrio confuso que ouvem os que se aproximam da beira-mar, e que
vem da reunião das repercussões das vagas inumeráveis. Ora, se entre várias percepções
(que não se ajustam para resultar numa) não há uma que sobressaia das restantes, e se
produzem impressões mais ou menos igualmente fortes ou igualmente capazes de
determinar a atenção da alma, esta só pode aperceber-se delas de modo confuso.
Lisboa, Edições 70, 1995, pp. 79-81
QUESTÕES
1. Exponha a «verdadeira razão», apresentada no texto, para explicar a conexão entre a alma e o corpo.
2. Esclareça como se processa, segundo o texto, a percepção.
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
114/8
FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES, I. Kant
TEXTO
O conceito segundo o qual todo o ser racional deve considerar-se como legislador
universal por todas as máximas da sua vontade para, deste ponto de vista, se julgar a si
mesmo e às suas acções leva a um outro conceito muito fecundo que lhe anda aderente
e que é o de um Reino dos Fins.
Por esta palavra reino entendo eu a ligação sistemática de vários seres racionais por
meio de leis comuns. Ora como as leis determinam os fins segundo a sua validade
universal, se se fizer abstracção das diferenças pessoais entre os seres racionais e de
todo o conteúdo dos seus fins particulares, poder-se-á conceber um todo do conjunto
dos fins (tanto dos seres racionais, como fins em si, como também dos fins próprios que
cada qual pode propor a si mesmo) em ligação sistemática, quer dizer, um reino dos fins
que seja possível segundo os princípios acima expostos.
Seres racionais estão, pois, todos submetidos a esta lei que manda que cada um
deles jamais se trate a si mesmo ou aos outros simplesmente como meios, mas sempre
simultaneamente como fins em si. Daqui resulta porém uma ligação sistemática de seres
racionais, por meio de leis objectivas comuns, i. é, um reino que, exactamente porque
estas leis têm em vista a relação destes seres uns com os outros, como fins e meios, se
pode chamar um reino dos fins (que, na verdade, é apenas um ideal).
Mas um ser racional pertence ao reino dos fins, como seu membro, quando é nele
em verdade legislador universal, estando porém também submetido a estas leis.
Pertence-lhe como chefe quando, como legislador, não está submetido à vontade de um
outro.
O ser racional tem de considerar-se, sempre, como legislador num reino dos fins,
possível pela liberdade da vontade, quer seja como membro, quer seja como chefe. Mas
o lugar deste último não pode ele assegurá-lo somente pela máxima da sua vontade, mas
apenas quando seja um ser totalmente independente, sem necessidade nem limitação do
seu poder adequado à vontade.
BA 74-75, Edições 70, Lisboa, 1995, pp. 75-76
QUESTÕES
1. Esclareça o significado do conceito central do excerto apresentado.
2. Explique, com base no texto, o estatuto do ser racional no «Reino dos Fins».
3. Exponha a relevância do extracto no contexto geral da obra.
114/9
v.s.f.f.
GRUPO II
– Seleccione apenas uma das obras que lhe são propostas e desenvolva o tema anexo.
– A não identificação do tema e da obra implicará uma pontuação de 0 (zero) pontos.
– A opção por um par obra-tema diferente dos que são apresentados na prova implicará
uma pontuação de 0 (zero) pontos.
– Na sua resposta deverá utilizar aproximadamente 80 linhas (cerca de 640 palavras).
OBRAS
TEMAS
O MESTRE, S. Agostinho ...................................................... Ensino e conhecimento
PROSLOGION, Santo Anselmo............................................. Pensamento e realidade
O SER E A ESSÊNCIA, S. Tomás de Aquino ....................... Ser e dizer
REDUÇÃO DAS CIÊNCIAS
À TEOLOGIA, São Boaventura........................................ Conhecimento e verdade
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA FILOSOFIA,
G. W. F. Hegel ................................................................... Opinião e verdade
TENDÊNCIAS GERAIS DA FILOSOFIA NA SEGUNDA
METADE DO SÉCULO XIX, Antero de Quental ............... Crise do pensamento moderno
A ORIGEM DA TRAGÉDIA, F. Nietzsche .............................. Símbolo e conceito
DA CERTEZA, L. Wittgenstein............................................... O fundamento do conhecimento
ELOGIO DA FILOSOFIA, M. Merleau-Ponty ......................... O filósofo e o sentido da ambiguidade
OS PROBLEMAS DA FILOSOFIA, B. Russell ...................... Verdade e falsidade
A PROBLEMÁTICA DA SAUDADE, Joaquim de Carvalho ... Temporalidade da saudade
DA ESSÊNCIA DA VERDADE, M. Heidegger....................... Liberdade como realização da essência da verdade
TEORIA DA INTERPRETAÇÃO, P. Ricoeur .......................... Filosofia, hermenêutica e verdade
FIM
114/10
COTAÇÕES
GRUPO I
1. e 2. .......................................................... (2 × 25 pontos) ................................................. 50 pontos
3. ................................................................. (1 × 70 pontos) ................................................. 70 pontos
GRUPO II
..................................................................... (1 × 80 pontos) ................................................. 80 pontos
TOTAL ........................................................ 200 pontos
114/11
v.s.f.f.
PROVA 114/C/10 Págs.
EXAME NACIONAL DO ENSINO SECUNDÁRIO
12.º Ano de Escolaridade (Decreto-Lei n.º 286/89, de 29 de Agosto)
PROVA MODELO
Duração da prova: 120 minutos
2001
1.ª CHAMADA
PROVA ESCRITA DE FILOSOFIA
COTAÇÕES E CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO
A INDICAÇÃO DO NÚMERO DE LINHAS/PALAVRAS VISA APENAS ORIENTAR O ALUNO RELATIVAMENTE
AO GRAU DE DESENVOLVIMENTO DA RESPOSTA, PELO QUE NÃO SE PROPÕE QUALQUER
PENALIZAÇÃO PARA O NÃO CUMPRIMENTO DESSA INDICAÇÃO.
GRUPO I
Questões 1. e 2.
CRITÉRIOS
PONTUAÇÃO
Rigor da análise do excerto apresentado ..............................................
Coerência lógica da resposta .................................................................
Utilização precisa da terminologia filosófica...........................................
Correcção da expressão escrita.............................................................
10 pontos
17 pontos
4 pontos
4 pontos
____________
TOTAL.....................................................................................................
25 pontos
TOTAL das Questões 1. e 2. ............................................... (2 × 25) = ....................... 50 pontos
• A inadequação da resposta à questão formulada implica uma pontuação de 0 (zero) pontos.
• A mera transcrição de frases do texto implica uma pontuação de 0 (zero) pontos.
Questão 3.
CRITÉRIOS
PONTUAÇÃO
Adequação dos conhecimentos mobilizados .........................................
Coerência lógica da resposta .................................................................
Utilização precisa da terminologia filosófica...........................................
Correcção da expressão escrita.............................................................
35
15
10
10
pontos
pontos
pontos
pontos
TOTAL da Questão 3. .......................................................... (1 × 70) = ....................... 70 pontos
TOTAL DO GRUPO I ................................................................................................. 120 pontos
• A inadequação da resposta à questão formulada implica uma pontuação de 0 (zero) pontos.
• Se a resposta não manifestar conhecimento da obra, a pontuação será de 0 (zero) pontos.
114/C/1
v.s.f.f.
Tópicos de conteúdo:
DA NATUREZA, Parménides
1. Tese central – identidade e necessidade do ser.
– É ou não é;
– impossibilidade de dizer e pensar o que não é;
– apenas nos resta falar do que é.
ou
– É ou não é;
– impossibilidade do devir;
– o ser é.
2. Inadmissão do vazio: o ser é completo, inabalável, sem princípio nem fim.
Irredutibilidade ao não ser: eterno presente.
3. Via da verdade e conhecimento do ser, ingénito e indestrutível.
Identidade entre ser e pensar.
Impossibilidade do não ser, impensável e indizível.
GÓRGIAS, Platão
1. Tese central – a injustiça provoca infelicidade; a justiça provoca felicidade.
É mais infeliz o que comete a injustiça e não é castigado do que aquele que a comete e é castigado;
aquele que sofre a injustiça é de todos o menos infeliz.
2. Retórica como exame de si mesmo, auto-acusação.
Acusação pública de si mesmo e dos seus próximos para punição das injustiças e consequente
purificação da alma.
3. Condenação das pretensões da retórica à universalidade do saber e à autonomia dos fins.
As artes e os seus simulacros.
Incapacidade de a retórica satisfazer as exigências de verdade e de método servidas pela dialéctica.
Relação entre retórica e política.
Possibilidade de reabilitação da retórica sob o controlo do filósofo.
FÉDON, Platão
1. As teorias da alma-harmonia e da preexistência excluem-se mutuamente.
A primeira entra em contradição com a ideia de reminiscência, que pressupõe a segunda.
A harmonia não pode preexistir aos elementos entre os quais se estabelece.
2. Existência da alma antes de entrar «numa forma e num corpo humanos».
Seu relacionamento com a «realidade em si».
Sua pertença a esse tipo de realidades.
3. Ponto de partida para a refutação de Símias e Cebes aos argumentos socráticos: a admissão da
preexistência da alma – teoria da reminiscência.
Teoria da alma-harmonia e suas contradições: a alma não é a harmonia do corpo, por ser anterior
à sua formação.
Imortalidade da alma deduzida da sua essência.
Tentativa de superação do plano da crença.
114/C/2
CATEGORIAS, Aristóteles
1. Género, espécie e diferença (específica) são conceitos universais que se predicam de indivíduos
concretos.
Género e espécie distinguem-se pela sua extensão: o género engloba a espécie.
A diferença caracteriza cada uma das espécies de um mesmo género.
2. Só as substâncias primeiras são individuais, significam «um determinado»; as substâncias
segundas são ditas de uma multiplicidade de sujeitos – são universais.
As substâncias primeiras, não sendo ditas de nenhum sujeito, não originam qualquer predicado
linguístico.
3. A relação ontológica de predicação implica sempre uma predicação linguística sinonímica; a
predicação linguística, implicada pela relação de inerência, nunca é sinonímica.
O modo de existência dos universais é distinto do das coisas particulares – os universais não
podem existir separadamente das coisas particulares enquanto estas são auto-subsistentes.
O primado ontológico das coisas particulares.
PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA, R. Descartes
1. Distinção, nas substâncias criadas, de dois modos de ser radicalmente distintos e irredutíveis.
A essência ou atributo principal da res cogitans é pensar.
A essência ou atributo principal da res extensa é a extensão.
Cada uma destas substâncias admite diferentes maneiras ou modos, atributos secundários, que
dependem do atributo principal.
2. Existência, em nós, da ideia clara e distinta de uma substância incriada – Deus.
Incapacidade do nosso entendimento para compreender todos os Seus atributos.
Atributos cognoscíveis: pensamento, independência, perfeição.
3. Noções de substância e atributo: sua distinção.
As diferentes substâncias e seus atributos.
Entendimento e sentidos como formas de conhecer.
O dualismo: res cogitans e res extensa. A substância divina.
CARTA SOBRE A TOLERÂNCIA, J. Locke
1. Reflexão sobre os limites ou fronteiras entre o poder civil e a liberdade da fé.
Cuidados do homem relativamente à sua alma.
Enquanto tais cuidados não interferirem com a vida civil não devem ser objecto da autoridade do
magistrado.
2. Meios exclusivamente espirituais:
admoestações, denúncia dos erros, exortações e argumentos.
3. Possibilidade de superação dos conflitos entre a Igreja, o Estado e a consciência.
Distinção entre os respectivos poderes e funções.
Não interferência do Estado no concernente à salvação das almas.
Ausência de coacção nas leis da Igreja / carácter coactivo da lei civil.
Fundamentos da tolerância.
114/C/3
v.s.f.f.
DISCURSO DE METAFÍSICA, G. W. Leibniz
1. O corpo corresponde à alma, e esta, por sua vez, exprime o estado do universo «em certo sentido
e durante algum tempo», em função de uma simpatia universal.
2. Incomunicabilidade directa das substâncias.
Substâncias entendidas como possuindo, em si, a representação de todas as outras substâncias – «o nosso [corpo] recebe a impressão de todos os outros».
Incapacidade de cada uma reunir todos os pontos de vista – «atender a tudo em particular».
3. Relação entre a alma (espírito) e o corpo (matéria).
Alma como mónada dominante.
Origem e natureza do conhecimento.
Deus e o mundo.
Unidade harmónica do universo.
FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES, Kant
1. Conceito central – «Reino dos Fins».
Ligação sistemática dos seres racionais por meio de leis objectivas comuns, que mandam que cada
um deles jamais se trate, a si ou aos outros, simplesmente como meios mas sempre e
simultaneamente como fins em si.
«Reino dos Fins» apenas como ideal.
2. Todo o ser racional, no «Reino dos Fins», é simultaneamente membro e chefe: submetido às leis
que o julgam a si e às suas acções é, simultaneamente, legislador universal, devido à
liberdade/autonomia da vontade.
3. A crença racional num «Reino dos Fins» – como comunidade de seres racionais autónomos da qual
estes só podem fazer parte se a sua acção for determinada apenas pelo dever e respeito pela lei –
produz no ser humano o mais vivo interesse pela lei moral.
A autonomia da vontade como fundamento da dignidade do ser humano – o homem como fim em
si mesmo.
Reconhecimento do valor incondicionado da liberdade e da dignidade humanas.
114/C/4
GRUPO II
CRITÉRIOS
PONTUAÇÃO
Plano prévio – estrutura e adequação ...................................................
Selecção correcta dos conhecimentos para desenvolver
o tema escolhido .................................................................................
Apropriação pessoal dos conhecimentos e apreciação do modo
como o tema foi tratado pelo autor, na obra .......................................
Coerência lógica da resposta .................................................................
Utilização precisa da terminologia filosófica .........................................
Correcção da expressão escrita.............................................................
8 pontos
20 pontos
10
20
10
12
pontos
pontos
pontos
pontos
TOTAL ................................................................................... (1 × 80) = ....................... 80 pontos
TOTAL DO GRUPO II .................................................................................................. 80 pontos
• Se o aluno não identificar a obra e não resultar óbvio do seu texto a que obra se está a referir, ou
se escolher um par obra-tema diferente dos indicados, a pontuação será de 0 (zero) pontos.
• A inadequação da resposta à questão implica uma pontuação de 0 (zero) pontos.
Dado o objectivo deste grupo serão de aceitar respostas diversificadas, desde que se reportem a um
dos pares obra-tema indicados na prova e revelem uma selecção adequada dos conhecimentos da
obra e um posicionamento crítico.
114/C/5
v.s.f.f.
Tópicos de conteúdo:
O MESTRE, Santo Agostinho
TEMA: Ensino e conhecimento
O Mestre exterior usa as palavras para ensinar.
As palavras não são causas eficientes do conhecimento das coisas; as palavras apenas são o veículo
que adverte para as coisas – o ensino do Mestre exterior não é eficaz.
O Mestre interior faz-se ouvir e ilumina interiormente – iluminação e audição racionais, inteligíveis – e
ensina sem palavras, dando a conhecer ostensivamente aquelas coisas que só a razão pode conhecer
– a acção do Mestre interior constitui a forma de ensino ostensivo adequada ao conhecimento
inteligível.
O Mestre interior é a fonte (interior) do conhecimento.
O ensino verbal não é totalmente desvalorizado, deve cooperar com o ensino do Mestre interior.
PROSLOGION, Santo Anselmo
TEMA: Pensamento e realidade
Existência de realidades pensadas que estão subordinadas ao pensamento: este pode pensá-las como
existentes, ou como não existentes.
Uma única realidade pensada não está subordinada ao pensamento: não pode ser pensada como não
existente; pensar a existência de Deus exige necessariamente a sua existência como uma realidade
que existe fora do pensamento.
Apenas no caso de Deus o pensamento leva necessariamente à existência de uma realidade extramental – o ser que é Deus.
O SER E A ESSÊNCIA, São Tomás de Aquino
TEMA: Ser e dizer
O ser pode ser afirmado de dois modos: segundo o modo real e segundo o modo lógico.
No modo real, o ser divide-se pelas dez categorias lógicas; significa a realidade subsistente de uma
coisa.
No modo lógico, significa a verdade das proposições; neste sentido, pode ser afirmado como ser tudo
aquilo de que se possa formar uma proposição assertiva (ainda que não suponha nada de real).
O dizer está do lado do abstracto, dos conceitos: não se podem designar directamente os indivíduos,
apenas de um modo mediato, através dos conceitos.
O ser – no modo real – tem a primazia sobre o dizer.
REDUÇÃO DAS CIÊNCIAS À TEOLOGIA, São Boaventura
TEMA: Conhecimento e verdade
Distinção de quatro tipos de conhecimento (iluminações): conhecimento exterior (mecânica),
conhecimento interior (sensitivo), conhecimento interior (filosófico) e conhecimento superior (graça ou
Sagrada Escritura).
Todos os conhecimentos possuem oculta, em si, a «multiforme sabedoria de Deus», verdades
fundamentais que aparecem claramente na Sagrada Escritura – todas as ciências estão subordinadas
à teologia.
O conhecimento só é possível graças «à iluminação que vem do alto».
114/C/6
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA FILOSOFIA, G. W. F. Hegel
TEMA: Opinião e verdade
Oposição entre opinião e verdade.
Opinião é a convicção que repousa sobre a particularidade do sujeito, sobre fundamentos subjectivos,
sentimentos, intuições.
A verdade não é conhecida pelo percepcionar imediato, na intuição, mas apenas pelo pensar; a filosofia
tem por meta apreender a verdade (por meio do pensamento).
O verdadeiro é a Ideia, que se desenvolve como um sistema orgânico, uma totalidade que contém, em
si, uma grande riqueza de estádios e desenvolvimentos.
TENDÊNCIAS GERAIS DA FILOSOFIA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX,
Antero de Quental
TEMA: Crise do pensamento moderno
Desde o seu aparecimento, o espírito moderno tem repetido, a seu modo, os ciclos anteriores: idealista,
espiritualista, panteísta, materialista, céptico.
Pressão do espírito prático sobre a filosofia, exigindo resultados e não disputas.
Enfraquecimento do espírito de sistema e do fanatismo dogmático: abertura dos espíritos inteligentes
a quaisquer influências, desde que racionais – o criticismo substituindo o dogmatismo.
Importância do criticismo kantiano.
Descrédito das grandes construções a priori.
O poder criador do espírito moderno, na esfera das grandes construções sistemáticas, parece
esgotado.
A ORIGEM DA TRAGÉDIA, F. Nietzsche
TEMA: Símbolo e conceito
Para o verdadeiro poeta, a metáfora é uma imagem substitutiva que lhe entra no espírito, em vez do
conceito.
Os conceitos são generalizações, abstracções.
Sócrates escreve música: não quererá isto dizer que a arte (símbolo) é a única capaz de penetrar numa
região da sabedoria de onde a lógica (conceito) está excluída?
A essência da natureza só pode exprimir-se por meio de símbolos (simbólica de todo o corpo humano
e forças simbólicas da música).
A música simboliza uma esfera superior e anterior a toda a aparência: a música dionisíaca espelha a
Vontade do mundo, e o acontecimento que apreendemos intuitivamente chega a dar-nos a verdade
eterna. O drama musical faz-nos intuir as relações entre as coisas, de maneira sensível e não
abstracta.
DA CERTEZA, L. Wittgenstein
TEMA: O fundamento do conhecimento
As crenças e convicções implícitas em qualquer proposição empírica, que exprima quer uma hipótese
quer um saber, assentam num fundo de referências adquiridas.
A organização biológica do ser humano e a sua educação contribuem para a existência de proposições
– da ordem da imagem do mundo – que não são derivadas de outras proposições anteriores nem
dependem da experiência para a sua validade, proposições anteriores e experiência que constituem a
base das suas certezas.
A certeza é considerada como um modo de viver, como algo que está para além de ser justificado ou
injustificado.
114/C/7
v.s.f.f.
O começo (fundamento) tem de ser procurado na sociabilidade humana: o animal humano possui a
capacidade orgânica de comunicar e a de se integrar numa organização social – o conhecimento
assenta nas convicções fundacionais – imagem do mundo – e nas capacidades naturais ou adquiridas
em sociedade.
O sistema de crenças gerado pela prática social, e não a relação sujeito-objecto, é que fundamenta o
conhecimento.
ELOGIO DA FILOSOFIA, M. Merleau-Ponty
TEMA: O filósofo e o sentido da ambiguidade
O filósofo adopta o equívoco como tema e nele funda certezas.
Mesmo quando pretende construir uma filosofia absolutamente positiva, o filósofo recusa o direito de
se instalar no saber absoluto: assume-se sempre como aquele que nada sabe; renuncia a aceitar a
coincidência entre aquilo que exprime e o sentido daquilo que exprime.
Aquilo que caracteriza o filósofo é o movimento que o leva, incessantemente, da ignorância ao saber e
do saber à ignorância.
Ao querer estar em toda a parte, o filósofo arrisca-se a nunca estar em nenhuma.
OS PROBLEMAS DA FILOSOFIA, B. Russell
TEMA: Verdade e falsidade
O problema só se coloca em relação ao conhecimento derivado de verdades, não ao conhecimento
intuitivo das verdades.
Verdade e falsidade são propriedades, opostas, das nossas crenças.
Crítica da teoria da verdade como coerência.
A verdade, ou a falsidade, de uma crença deriva de algo que lhe é exterior – verdade como
correspondência entre crença e facto complexo; a crença deriva da nossa mente, mas a sua verdade,
não: o facto é o fundamento objectivo da verdade da crença.
O conhecimento do facto, por intimidade, dá origem a uma verdade evidente por si mesma.
Possibilidade, em princípio, da verdade absoluta; inexistência de garantia de a alcançar.
A PROBLEMÁTICA DA SAUDADE, Joaquim de Carvalho
TEMA: Temporalidade da saudade
A saudade integra-se na temporalidade: é o tempo que confere realidade à saudade.
Dos três momentos do tempo – passado, presente e futuro, – só o passado tem um papel determinante
na saudade.
É a carga afectiva do passado que, despertando a sua evocação na consciência, a remete para essa
situação emotiva e a torna consciência saudosa.
A relação actual entre a consciência e o mundo é anulada pela saudade, que obriga a consciência a
fixar-se no passado – emotivamente mais rico – desvalorizando o presente – emotivamente mais pobre.
Referência à «saudade do futuro».
114/C/8
DA ESSÊNCIA DA VERDADE, M. Heidegger
TEMA: Liberdade como realização da essência da verdade
A essência da verdade corresponde à desocultação do ente.
A verdade não reside originariamente na proposição, não caracteriza a proposição correcta.
Concordar, ou não concordar, com uma verdade exige liberdade.
Necessidade de ultrapassar os preconceitos que se opõem à posição da essência da verdade como
liberdade; reconhecimento da conexão essencial entre verdade, como correcção, e liberdade.
A liberdade é deixar-ser, entrega à desocultação do ente enquanto tal.
A essência da verdade, no sentido de correcção do enunciado, é liberdade.
TEORIA DA INTERPRETAÇÃO, P. Ricoeur
TEMA: Filosofia, hermenêutica e verdade
Filosofia como hermenêutica – caminho para a autocompreensão, que supõe a abertura e o encontro
com o mundo.
O processo hermenêutico é a apropriação do sentido de um texto; a imposição de sentido de um texto
gera uma nova compreensão, tanto do mundo como do eu.
O excesso de sentido permite a abertura ao múltiplo e ao diverso das interpretações: a «verdade»
apreende-se nessa diversidade de interpretações.
114/C/9
v.s.f.f.
Exames Nacionais do Ensino Secundário — 2001, PROVA MODELO
GRELHA DE CLASSIFICAÇÃO – FILOSOFIA (Cód. 114)
GRUPO I
Código
Número
Confidencial Convencional
da Escola
da Prova
Questão 1.
R.A.
(10)
C.L.
(7)
T.F.
(4)
R.A. – Rigor de análise
C.L. – Coerência lógica do discurso
T.F. – Utilização precisa da terminologia filosófica
Data ____/____/____
C.E.E.
(4)
T1
(25)
Questão 2.
R.A.
(10)
C.L.
(7)
T.F.
(4)
C.E.E.
(4)
GRUPO II
T2
(25)
Questão 3.
M.C.
(35)
C.L.
(15)
T.F.
(10)
C.E.E. – Correcção da expressão escrita
S.C. – Selecção correcta dos conhecimentos
C.E.E.
(10)
T3
(70)
Questão 1.
P.P.
(8)
S.C.
(20)
A.P.
(10)
C.L.
(20)
T.F.
(10)
C.E.E.
(12)
T1
(80)
TOTAL
da PROVA
(0-200)
P.P. – Plano prévio
A.P. – Apropriação pessoal dos conhecimentos e apreciação do
modo como o tema foi tratado pelo autor, na obra
O Professor Corrector _____________________________________________
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mesmo, no Canto