Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células PROCESSOS DE TROCA NAS CÉLULAS I – Introdução Antes de começarmos a estudar os processos de troca que ocorrem nas células, faz-se necessário lembrar sobre a composição da membrana plasmática e sua plena necessidade de fazer essas trocas. A palavra ‘célula’ vem do latim ‘cellula’, que significa ‘quarto pequeno ou cela’, escolhido pelo inglês Robert Hooke em um livro que ele publicou em 1665, no qual ele comparou células de cortiça com os pequenos quartos onde os monges viviam. Como o nome atribuído já sugere, as células encontramse individualizadas do meio externo através de envoltórios, sem os quais ela não poderia sobreviver. Durante sua evolução, as células precisaram resolver alguns problemas. Dentre estes, os primeiros e principais foram a proteção proteção de seus componentes vitais, seu material genético, isolando-os do meio exterior, e ao mesmo tempo algo que não impedisse, e que possibilitasse trocas de substâncias com o meio. Assim, através de mutações (lembrando que mutações genéticas ocorrem de modo aleatório e não para satisfazer certas necessidades! As mutações ocorrem, independentemente da seleção natural. As que forem vantajosas , conseqüentemente poderão persistir, gerando indivíduos mais resistentes ao meio, permitindo assim sua maior reprodução. Veremos isso mais adiante.) vantajosas surgiu nas células a membrana plasmática, composta principalmente por proteínas e fosfolipídios, atendendo assim as necessidades urgentes da célula, conferindo, ao mesmo tempo, proteção e possibilitando as trocas de nutrientes, gases e eliminação de resíduos de metabolismo. II. Bicamada lipídica A membrana plasmática, como já sabemos, é composta principalmente por fosfolipídios e proteínas, sendo assim de natureza lipoprotéica. O modelo aceito atualmente foi proposto em 1972 por Singer e Nicholson. Segundo eles, o modelo do mosaico fluido, assim denominado possui duas camadas de fosfolipídios, arranjados de forma que sua cabeça hidrofílica, composta por um grupo fosfato, fique em contato com o meio aquoso, enquanto a cauda hidrofóbica desta molécula, composta por glicerol e ácido graxo fiquem umas em contato com as outras naturalmente. Nessa disposição, formam uma bicamada, que confere fluidez à membrana, permitindo uma movimentação nesse plano da membrana. Fig. 1- Representação de um fosfolipídio Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 1 Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células Observe na Figura 2, representada abaixo a disposição dos fosfolipídios formando a bicamada representada na figura abaixo: da célula contra agentes externos, constituindo uma barreira contra agentes físicos e químicos, sendo essa proteção maior da parede celular; confere a capacidade de reconhecimento celular, celular como no exemplo do glicocálix, onde células diferentes têm glicocálix de composições diferentes. III. Processos de troca nas células Fig. 2 – Bicamada lipídica Esse revestimento fluido delimita seus componentes químicos, ‘separandoos’ do meio exterior, impedindo a passagem de moléculas grandes ou solúveis em água. Se ela fosse completamente composta por lipídios, seria impermeável à substâncias polares (ou solúveis em água) essenciais à sua sobrevivência, como carboidratos, proteínas e aminoácidos. Porém, não é isso que acontece, pois elas possuem proteínas de membrana que formam ‘passagens’ para estas substâncias, havendo, contudo, uma seleção do que pode ou não passar (a permeabilidade é seletiva). Essa característica foi tão seletiva vantajosa para as células, que ela está presente em todos os tipos de células. Só para lembrar: Existem alguns envoltórios externos à membrana plasmática também, que alguns seres vivos possuem, como por exemplo o glicocálix que está presente nas células animais e a parede celular, celular presente em alguns protistas, plantas, fungos e em bactérias e cianobactérias. As vantagens, no entanto, são quase sempre as mesmas; aumentar a proteção Como mencionado anteriormente, há um certo controle sobre as substâncias que entram e saem, sendo esta característica da membrana conhecida com semipermeabilidade ou permeabilidade seletiva. Essa membrana permite a passagem de água e pequenas moléculas, como o oxigênio, por exemplo e dificulta ou até impede a passagem de moléculas maiores. Esses processos de troca podem ser: Passivos: Ocorrem naturalmente, sem utilizar energia para o processo. Podem ocorrer por: Difusão, difusão facilitada e osmose. Ativos: Ocorrem com gasto de energia, sendo principalmente realizados por enzimas ATPases como a importante Bomba de Sódio e Potássio. Existem ainda dois processos em que, não somente moléculas específicas são utilizadas, mas até mesmo a própria membrana entra nesse processo para transportar a substância para dentro ou fora da célula, que são os processos de Endocitose e Exocitose. III.1 – Difusão Processo passivo, portanto sem gasto de energia, onde as moléculas Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 2 Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células atravessam livremente por difusão a bicamada, pois possuem afinidade com ela. É a movimentação de moléculas do ponto onde elas estão mais concentradas para o local de menor concentração, no sentido de igualar a concentração. i i ATP – Nucleotídeo (3 radicais fosfato+pentose (açúcar)+base nitrogenada, no caso Adenina) Adenina Trifosfato ou Adenosina Trifosfato, que ao ser hidrolisado libera grande quantidade de energia para ser utilizada para processos ativos dentro da célula. III.2 – Difusão Facilitada Acontece com algumas substâncias impedidas de atravessarem por difusão simples, por alguns motivos como por exemplo serem um pouco maiores ou não possuírem afinidade com os fosfolipídios na bicamada. Sendo assim, essas moléculas têm seu transporte ‘facilitado’ por proteínas específicas presentes na membrana, as chamadas permeases, permeases também chamadas proteínas de transporte. Quando esse transporte acontece no sentido de igualar a concentração com o meio, ou seja, quando a movimentação dessas moléculas se faz do meio hipertônico (maior concentração de soluto) para o meio hipotônico (menor concentração), essa difusão é realizada sem a necessidade de utilizar energia, pois está acontecendo a favor de seu gradiente de concentração. Quando essas proteínas de transporte, as permeases, carregam o soluto do meio hipotônico para o meio hipertônico, ou seja, contra o gradiente de concentração, torna-se necessário utilizar a energia que a célula ‘estocou’ como molécula de ATPi. Assim falamos de um processo ativo mais conhecido como Bomba de Sódio e Potássio, que falaremos mais adiante. Fig. 3 Exemplo de permease da difusão facilitada Repare na figura 3, um exemplo de permease na difusão facilitada, na qual ela transporta o soluto da região mais concentrada para a menos concentrada, portanto não utiliza energia para o transporte. III. 3 – Osmose Através da bicamada lipídica só passam pequenas moléculas e moléculas que possuem certa afinidade com lipídios. Porém a água é uma molécula polar, não possuindo afinidade com lipídios, como então ela consegue passar? Acredita-se que isto aconteça por elas serem suficientemente pequenas e que sua energia cinética seja grande o bastante para que elas possam atravessar de modo tão rápido que a parte hidrofóbica da membrana não consiga impedí-las. O fenômeno da osmose ocorre porque a membrana semipermeável permite a passagem livre de moléculas pequenas como a água, outros solventes e alguns sais minerais de tamanho reduzido. Por esse motivo, quando as células são submetidas a um meio hipotônico (menor concentração de soluto) ou de menor pressão osmótica, elas incham, pois tendem a dissolver o soluto que está em grande quantidade; ou quando em solução hipertônica (de Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 3 Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células maior pressão osmótica), elas murcham, pois perdem água para o meio. Sendo assim, o solvente está em constante movimento no sentido de igualar as concentrações. Observe bem que na osmose quem se move é o solvente do meio ‘mais concentrado de solvente’ (portanto o meio hipotônico em termos de soluto) para o meio ‘menos concentrado de solvente” (ou meio hipertônico). concentração para 0,6%, ficando esse meio hipotônico então. Isso provocou o aumento no volume dessa célula devido a quantidade de água que nela entrou. Ainda assim, se houver uma maior redução, ou seja se diminuir ainda mais a concentração, como por exemplo à 0,4%, ocorre a conhecida lise celular; a célula se rompe devido a entrada excessiva de água devido a um meio muito hipotônico. Observe o que acontece com a hemácia quando submetida a diferentes concentrações: A osmose também ocorre em células vegetais do mesmo jeito, sendo uma diferença crucial a de que essa célula não se rompe devido a sua parede celular rígida, resistindo a pressão da água. Quando submetida a um meio hipertônico a célula vegetal perde água, ficando murcha. Se a concentração do meio externo continuar maior que o meio interno, ela continuará a perder água, o que pode provocar a separação da membrana plasmática da parede celular, dizemos que ocorreu plasmólise, plasmólise ou a célula está plasmolisada. Esse processo é reversível, o que quer dizer que se colocarmos a célula plasmolisada em um meio de pequena concentração ou isotônico, ela volta a ficar normal ou túrgida. O processo inverso é conhecido como deplasmólise. deplasmólise Fig. 4 Hemácia concentrações. submetida a diferentes No primeiro instante da figura 4, acima, a hemácia foi submetida a um meio isotônico, ou seja, de concentrações iguais (o meio celular interno tinha a mesma concentração que o meio externo ao qual a célula foi submetida). Assim, a mesma quantidade de água que entra é a mesma quantidade que sai da hemácia e ela continua seu formato normal. No segundo instante houve um aumento da concentração no meio externo (o meio externo ficou hipertônico), o que provocou a perda de água pela célula que murchou, fenômeno chamado de crenação. crenação Já no último instante da mesma figura, houve uma diminuição do meio externo, por exemplo, se no meio isotônico (concentrações iguais) a concentração de cloreto de sódio (NaCl) na água era de 0,9%, diminuiu-se essa Fig. 5 – Imagem plasmolisadas. de células vegetais Observe a figura 5, que mostra células vegetais plasmolisadas, ou seja, teve sua membrana separada da parede Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 4 Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células celular devido a quantidade de água que perdeu para o meio. III. 4 – Transporte ativo: Bomba de sódio e potássio Como podemos observar, a entrada excessiva de água por osmose pode levar algumas células à morte. Nas espécies que vivem no mar, as concentrações do meio externo costumam ser semelhantes às do meio interno, não havendo muita diferença, portanto não têm muitos problemas osmóticos. Já os organismos de água doce, a concentração do meio interno é maior que a do meio externo. Nesse caso, a água entra na célula por osmose no sentido de igualar essas concentrações. Se a célula não obtiver de algum meio, alguma forma de remover esse excesso a sua conseqüência é o rompimento da membrana que a leva à morte celular. Entretanto isso não ocorre, pois eles apresentam um mecanismo de ‘bombeamento’ dessa água para fora da célula. As estruturas que realizam esse ‘bombeamento’ são os vacúolos contráteis ou pulsáteis. Esses vacúolos são como bolsas, que recolhem do interior da célula a água que entrou em excesso, e ficando cheios, contraemse expulsando a água para o meio externo através de orifícios. Processo de bombeamento este que requer energia, pois também se realiza contra seu gradiente de concentração (Bombeia água para onde já há bastante água). Exemplos de organismos que possuem esse vacúolo contrátil são o Paramecium, um protozoário ciliado muito comum em água doce. Graças a energia proveniente do metabolismo celular, os processos ativos podem ocorrer. Como já foi mencionado anteriormente, os processos ativos requerem energia para que aconteçam, pois a movimentação de soluto vai contra seu gradiente de concentração, ou seja, da solução menos concentrada para a de maior concentração. Vale ressaltar que o vacúolo de uma célula vegetal é bastante diferente do vacúolo pulsátil de um protozoário. Na célula vegetal a água entra e sai por osmose, e no protozoário elas apenas entram por osmose mas saem por um processo ativo. A semelhança está na função de reter a água que entra. Como um exemplo muito usado de bomba de sódio e potássio temos as presentes nas células nervosas. Ao medirmos as concentrações de dois íons nos neurônios, verificamos uma maior concentração de sódio (Na+) no meio exterior, quando comparado com o meio intracelular, e o inverso para o íon potássio (K+). Fig. 6 – Esquema da bomba de Na+ e K+ Conforme o esquema representado acima, os íons sódio entram na célula por difusão facilitada e os íons potássio saem também por difusão facilitada, processo espontâneo, sendo assim passivo, sem gasto de energia. Se somente houvesse o processo passivo nessa célula, as concentrações tenderiam sempre a se igualar, mas não é isso o que se observa nas células nervosas. O que permite a diferença na concentração dos dois íons é a existência de uma proteína presente na membrana plasmática que bombeia íons contra seus Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 5 Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células respectivos gradientes de concentração, mecanismo chamado bomba de sódio e potássio (ou Na+/K+ATPase). Nessa proteína existe um canal interno, onde existem diferentes sítios de ligação específicos para os íons sódio e outros para o potássio. Assim, a ligação de 3 íons de Na+ no sítio da proteína, e o fornecimento de energia, muda a conformação da proteína, fazendo-a lançar os três íons sódio para fora da célula. A ligação dos 2 íons K+ do meio exterior induz o retorno da proteína à sua conformação inicial, lançando assim o potássio para o meio intracelular. Portanto para cada 3 Na que saem, são 2 K que entram, isso permite que essas membranas, quando em repouso, apresentem carga negativa na parte interna e positiva na parte externa dela. Os íons potássio são necessários em maiores concentrações no meio intracelular, pois são utilizados na síntese de proteínas e em algumas etapas da respiração celular. Porém a alta concentrações de íons dentro da célula pode acarretar problemas osmóticos, tornando-se uma célula hipertônica. Entretanto o bombeamento de Na+ para fora serve para compensar a necessidade de uma maior concentração de K+ no meio interno, solucionando dessa forma, um problema osmótico. exterior as substâncias de dentro da vesícula, tornando-se esta última parte da membrana novamente. Estes processos de transporte requerem o uso de energia. A endocitose pode ocorrer de 2 formas: 1) Fagocitose: processo de ingestão de partículas grandes. A célula emite um prolongamento da membrana (o qual chamamos de ‘pseudópodes’= falsos pés) englobando o material a ser ingerido. Uma vez dentro da célula, envolvido numa vesícula, passa a ser chamado fagossomo. fagossomo 2) Pinocitose: diferentemente da fagocitose que é realizada apenas por algumas células especializadas, a pinocitose ocorre em quase todos os tipos de células e envolve partículas de menor tamanho, micromoléculas dissolvidas em água. Ocorre a invaginação da membrana, que engloba o material a ser ingerido. Uma vez no interior da célula, envolvido pela membrana a vesícula passa a ser chamada pinossomo. Existem ainda mais dois processos de transporte de substâncias nas células: a Endocitose e a Exocitose. III.5 – Endocitose Existem partículas que por serem maiores não conseguem atravessar a membrana, mas podem ser incorporadas à elas através de um fenômeno chamado endocitose, sendo levadas dentro de vesículas formadas pela própria membrana para o meio interior. Ou, o contrário, chamado Exocitose, processo no qual são eliminadas para o meio Fig. 7 – Fonte: Sônia Lopes; BIO. Esquema mostra as diferenças entre fagocitose (esq.) e pinocitose (dir.) III.6 – Exocitose A exocitose é a eliminação de materiais de dentro para fora das células. Tais materiais a serem eliminados ficam no interior de vesículas cuja membrana que envolve o material é formado pela Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 6 Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células própria membrana. Sendo assim, essas vesículas fundem-se com a membrana plasmática da célula eliminando seu conteúdo para o meio extracelular. Este é um processo hiper importante em células de função secretora, como as células do pâncreas, que secretam os hormônios insulina e glucagon e outras células do corpo. Pelo mesmo processo de exocitose, são também eliminados resíduos do material ingerido por endocitose (fagocitose e/ou pinocitose). Esse tipo de exocitose ganha um nome particular: clasmocitose. clasmocitose Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 7 Aliança Pré-vestibular - Módulo I - Citologia Processos de troca nas células BIBLIOGRAFIA E IMAGENS: BRUCE, Alberts et al. Biologia molecular da célula. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. LOPES, Sônia. Bio. 5. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 1999. Juliana A. Villa-Verde, graduanda em Ciências Biológicas pela UERJ. Página 8