A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
ESTE INFORME TEVE
O APOIO FINANCEIRO DE:
União Europeia
Altstoff Recycling Austria
SUPPORTED
BY
Ministério Federal de Agricultura, Silvicultura,
Ambiente e Gestão de Água da Áustria
Agência Austríaca de Desenvolvimento
Prefeitura de Viena
CRÉDITOS:
EDITORA: GLOBAL 2000 Verlagsges.m.b.H, Neustiftgasse 36, 1070 Wien, Áustria. – PROPRIEDADE E CONTEÚDO: Umweltschutzorganisation GLOBAL 2000,
ZVR (Número do Cadastro Central de Associações na Áustria): 593514598, Neustiftgasse 36, 1070 Wien, Áustria, e Sustainable Europe Research Institute (SERI),
ZVR: 215027957, Garnisongasse7/17, 1090 Wien, Áustria – TEXTO: Stephan Lutter, Christine Polzin, Stephan Giljium, Tamás Pálfy, Thomas Patz, Monika Dittrich,
Lisa Kernegger, Ariadna Rodrigo – ESTUDOS DE CASO: Bruna Engel (Brasil), Didrot Nguepjouo (Camarões), Patricia Soto, Ana Maria Lemus (Chile) e Mensah
Todzro (Togo) – GRÁFICOS: Gerda Palmetshofer, Tamás Pálfy – AGRADECIMENTOS: Agradecemos a Becky Slater de Amigos da Terra (Inglaterra, Gales e Irlanda
do Norte), pelo apoio ao conteúdo deste relatório; aos parceiros dos projetos locais de Amigos da Terra nos seguintes países: Brasil, Camarões, Chile e Togo, pelos
estudos de caso; também, aos tradutores deste relatório. – EDIÇÃO: Carin Unterkircher e Stella Haller – LAYOUT: Hannes Hofbauer – EDIÇÃO FOTOGRÁFICA:
Steve Wyckoff – FOTOS: Paul Lauer (p19), Leonardo Melgarejo/Xingu Vivo Para Sempre (p26), iStockphoto (p3, p11, p13/14, p25), shutterstock (p22, p28),
GLOBAL 2000 (p10, p13/14, p20, p31, p32), Tapa: Haroldo Horta, Capa: Haroldo Horta – IMPRESSÃO: Janetschek, 3860 Heidenreichstein, Áustria, www.janetschek.at
– IMPRESSO COM TINTA VEGETAL EM PAPEL RECICLADO, 100% RECICLÁVEL. © GLOBAL 2000, SERI, Friends of the Earth Europe, novembro de 2011
O conteúdo desta publicação é de inteira responsabilidade da GLOBAL 2000 e do SERI, não expressando a posição da União Europeia.
2 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
RESUMO
Este relatório trata do consumo dos recursos naturais
e, precisamente, da água e explora as interligações
existentes entre estes recursos. Cada vez mais pesquisas
analisam os níveis de extração, comércio e consumo de
matérias-primas e produtos. As ligações existentes entre
os diferentes recursos, incluindo a água, tendem, portanto,
a ser ainda menos conhecidas. Este segundo relatório da
série relativa ao consumo dos recursos naturais (após o
relatório de 2009, “Overconsumption? Our use of the world’s
natural resources”) tem por objetivo contribuir para uma
melhor compreensão destas interligações e para promover
o debate sobre o consumo de nossos recursos por meio de
vários exemplos ilustrativos do uso da água.
A água é indispensável em praticamente todas as
fases do fluxo de materiais. Em torno da metade de
toda a água renovável e acessível no planeta é utilizada
para o cultivo de alimentos, o abastecimento de água potável, a geração de energia e a produção de outros bens e
serviços. Na Europa, quase a metade da água se destina a
processos de refrigeração no setor de energia. O restante
é consumido pela agricultura, pelo abastecimento público e
pela indústria.
Há grandes disparidades regionais no consumo de
recursos e água. Por exemplo, um habitante da América
do Norte consome, em média, a maior quantidade de água e
matérias no mundo (7.700 litros e 100 quilogramas, respectivamente). Já um habitante da África consome, em média, a
menor quantidade no mundo: 3.400 litros de água e 11 quilogramas de matérias por dia.
A pegada hídrica dos nossos hábitos de consumo é
consideravelmente maior que a do nosso consumo
direto de água. Grande parte das mercadorias consumidas
na Europa, incluindo alimentos e outros produtos agrícolas,
são cultivadas e produzidas fora da Europa. Paradoxalmente,
muitos países que dispõem de recursos limitados em água
doce usam boa parte da sua água para a produção de bens
de exportação para países com água em abundância.
O aumento na extração de matéria-prima e na captação de água está relacionado ao desenvolvimento do
co-mércio internacional nas últimas décadas. Devido ao
crescimento contínuo do comércio mundial, a quantidade de
água embutida, ou virtual, consumida também está em alta,
haja visto que muitos bens e serviços exigem água para
sua produção. Tanto os países industrializados quanto,
mais recentemente, os países emergentes elevaram sua
importação líquida de recursos, geralmente provenientes de
países em vias de desenvolvimento.
Os países mais eficientes no uso dos recursos são,
na sua maioria, também os maiores consumidores. As
melhoras em direção a um uso mais eficiente dos recursos
realizadas até hoje se mostraram, por si só, insuficientes para
obter reduções absolutas em nosso consumo de recursos.
A escassez de água vem se acentuando em muitas regiões
do mundo, portanto é imprescindível usarmos os recursos
hídricos de forma mais eficiente e econômica a todos os
níveis – na indústria e agricultura, no uso doméstico e no
abastecimento público.
Vivendo em um mundo onde os recursos estão
limitados, temos que abordar os elos entre o uso dos
nossos recursos, o crescimento econômico e a prosperidade das populações. Nosso modelo de crescimento se baseia em níveis elevados de consumo contínuo.
Mas este sistema é marcado pelas desigualdades cada
vez mais salientes entre as regiões do mundo e pelos
níveis alarmantes de utilização de recursos por parte de
uma pequena minoria da população mundial. Precisamos
adaptar urgente e fundamentalmente a gestão econômica
dos nossos recursos naturais e dos serviços que eles
fornecem. Faz-se, portanto, necessário que seja criado um
quadro político que penalize práticas não sustentáveis e
incentive comportamentos que favorecem o uso eficiente
dos recursos para que seja interessante para as empresas,
tanto politica quanto economicamente, diminuírem o seu
uso de recursos naturais.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 3
ÍNDICE
1. INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................................
5
2. EXTRAÇÃO ...........................................................................................................................................................
6
2.1 MATÉRIAS-PRIMAS ...........................................................................................................................................
6
2.2 ÁGUA ...............................................................................................................................................................
8
3. COMÉRCIO .......................................................................................................................................................... 14
3.1 COMÉRCIO DE MATÉRIAS-PRIMAS E PRODUTOS ............................................................................................ 14
3.2 COMÉRCIO DE ÁGUA ....................................................................................................................................... 17
4. CONSUMO ........................................................................................................................................................... 21
4.1 CONSUMO DE MATÉRIAS-PRIMAS ................................................................................................................... 21
4.2 CONSUMO DE ÁGUA ........................................................................................................................................ 23
5. EFICIÊNCIA ......................................................................................................................................................... 27
5.1 EFICIÊNCIA DE MATÉRIAS-PRIMAS .................................................................................................................. 27
5.2 EFICIÊNCIA HÍDRICA ...................................................................................................................................... 28
6. VENCER O DESAFIO .......................................................................................................................................... 31
ESTUDOS DE CASO
A EXTRAÇÃO DE LÍTIO NO NORTE DO CHILE ................................................................................................... 12
A IMPORTÂNCIA DO COMÉRCIO DE ALGODÃO EM CAMARÕES E NO TOGO .......................................... 20
USINA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE NO BRASIL ..................................................................................... 26
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1. INTRODUÇÃO
O uso de recursos renováveis e não renováveis é,
desde sempre, uma pedra angular da humanidade.
Este relatório analisa as tendências recentes no consumo
de recursos – incluindo a extração, o comércio e a eficiência.1 Durante boa parte da nossa história, nosso uso dos
recursos naturais do planeta não houve nenhum impacto
significativo sobre o meio ambiente. Nas últimas décadas,
no entanto, o uso de muitas matérias-primas, incluindo os
metais, minerais, combustíveis fósseis e a biomassa, atingiu
níveis alarmantes. Assim sendo, o funcionamento sustentável dos nossos ecossistemas e dos serviços que estes
fornecem está em perigo. É de suma urgência estabelecermos estratégias para tornar o uso dos recursos mais sustentável.
A dimensão e os hábitos do nosso consumo de recursos naturais afetam substancialmente os recursos
hídricos do nosso planeta. No mundo inteiro, os problemas relacionados à água, como a escassez de água e a
poluição, se multiplicam. Este relatório traz, pela primeira
vez, um novo olhar sobre as ligações existentes entre os
diversos usos de matérias-primas e seus efeitos sobre os recursos hídricos do planeta. Diante dos desafios precisamos
compreender e enfrentar essas relações mútuas.
A água é indispensável em praticamente todas as
fases do fluxo de materiais, da extração de matérias-primas até seu tratamento, sua reciclagem ou
eliminação. Este relatório destaca o papel fundamental
que a água desempenha durante cada fase, utilizando,
aliás, vários estudos de caso e exemplos a título de
ilustração. O relatório também revela como a disponibilidade
da água determina o que e quanto podemos produzir e de
que forma a produção e o consumo influenciam a qualidade
e a quantidade dos nossos recursos hídricos.
No contexto da globalização e da complexidade cada
vez mais acentuada das cadeias de suprimentos, a
água é de suma importância também no comércio.
A água é geralmente necessária para a produção de mercadorias de exportação; por conseguinte, os problemas locais de degradação e poluição de água estão intimamente
ligados à economia local que, ela, está ligada ao mercado
mundial. Este relatório analisa os fluxos de água virtual que
permitem avaliar melhor a situação real nos diferentes países em relação à água.
O RELATÓRIO SE DIVIDE EM CAPÍTULOS TEMÁTICOS:
O capítulo 2 dá uma breve visão sobre a extração de matérias-primas em termos quantitativos a nível mundial (19802007) e sobre a extração de água. Um estudo de caso do
Chile explica a extração de lítio e seus impactos sobre os
recursos hídricos locais.
O capítulo 3 estuda a dimensão e os padrões do comércio
mundial de matérias-primas. Apresenta, em números, a exportação total de matérias-primas das diferentes regiões
do mundo e esclarece quais são os países exportadores
líquidos e quais, os importadores líquidos de recursos no
mundo. A segunda parte do capítulo foca nos fluxos de água
entre os países, sobretudo de água virtual. São identificados os principais exportadores de água virtual no mundo.
O estudo de caso nos permite acompanhar uma camiseta
na sua viagem pelo processo produtivo para assim melhor
compreender a estruturação do comércio de algodão e a
pegada hídrica causada durante o processo.
O capítulo 4 se propõe a comparar os diferentes níveis e
modos de consumo de recursos e seus impactos nas regiões do mundo e expõe o consumo de água na Europa por
setores. Mostra, aliás, a diferença considerável que pode haver entre a extração de recursos em um país ou uma região
e o seu consumo efetivo de recursos.
O capítulo 5 mostra tendências na eficiência de recursos
e no desacoplamento relativo entre o crescimento econômico e o consumo de recursos nas diferentes regiões do
mundo. Identifica alguns dos principais fatores que estimulam a eficiência de recursos e compara a eficiência na extração e no consumo de recursos pelo mundo. A eficiência
de recursos é também um aspecto importante em relação
ao uso da água; assim sendo, o capítulo 5 dá conta das tendências atuais no uso de água na agricultura e na indústria,
bem como no setor doméstico, entre outros, e identifica
áreas em que seria possível melhorar a eficiência e, assim,
economizar quantidades significativas de água.
O capítulo 6 aborda a questão de como vencer o desafio.
Sugere estabelecer um quadro político adequado para garantir a formulação de respostas viáveis e efetivas aos principais desafios aqui mencionados.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 5
2. EXTRAÇÃO
2.1 MATÉRIAS-PRIMAS
Viemos extraindo, pescando e colhendo cada vez mais recursos naturais para produzir bens e serviços.
Aumenta, portanto, também o número dos desafios ambientais e sociais que daí resultam, como a
destruição de terras férteis, a exploração excessiva dos recursos hídricos e o desrespeito aos direitos
trabalhistas e à legislação social. A maior parte da extração de recursos se concentra na Ásia (44%). As
taxas de extração per capita divergem consideravelmente entre os continentes.
Aumento na extração mundial de recursos. Em função
do crescimento contínuo da população e da economia no
mundo, exploramos nossos ecossistemas e recursos subterrâneos como nunca antes, a um ritmo cada vez mais rápido. Em 2007, o peso total de todos os recursos extraídos e
colhidos no mundo montou a aproximadamente 60 bilhões
de toneladas2; o correspondente a cerca de 25 quilogramas
por pessoa que vive no nosso planeta, por dia.
O termo extração abrange as atividades mineiras, a pesca, a
colheita e o desmatamento. A totalidade dos recursos extraídos inclui, assim, tanto os recursos renováveis (por exemplo,
os produtos agrícolas, o peixe e a madeira) como também
os não renováveis (os combustíveis fósseis, minérios, minerais industriais e de construção, entre outros).
Para ter acesso a qualquer matéria-prima específica, através
da extração ou da colheita, geralmente se faz necessário extrair ou remover também outras matérias do solo que não são
utilizadas diretamente no processo produtivo, como na exploração mineira, por exemplo. Mais de 40 bilhões de toneladas dessas matérias acessórias são extraídas a cada ano,
levando o total de matérias extraídas anualmente a 100 bilhões
de toneladas; aproximadamente 40 quilogramas por pessoa,
por dia.
Bilhões de toneladas
Gráfico 1: Extração mundial de recursos naturais, entre 1980 e 2007 (i)
60
50
Metais
40
20
Minerais
industriais & de
construção
Combustíveis
fósseis
10
Biomassa
30
0
1980
1985
1990
1995
2000
6 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
2005
2007
Gráfico 2: Extração de matérias-primas por pessoa, por dia, em 2004 (ii)
Extraçãodematérias-primas
34
92
15
EUROPA
ÁSIA
AMÉRICA
DONORTE
15
41
ÁFRICA
AMÉRICA
LATINA
153
OCEANIA
1mochilacheia=20kgdematérias-primasextraídasporpessoa,pordia
O aumento contínuo na produção de bens e serviços causa uma procura cada vez mais forte por recursos naturais.
Nas últimas três décadas, a extração mundial aumentou em
aproximadamente 60%, subindo de menos de 40 bilhões de
toneladas, em 1980, para mais de 60 bilhões de toneladas,
em 2007 (Gráfico 1). Este aumento atingiu todos os tipos de
extração: a biomassa, os combustíveis fósseis, os minérios
e os minerais industriais e de construção. Enquanto a extração de gás, areia e cascalho dobrou, já a de minério de níquel triplicou. Há também uma demanda cada vez maior por
recursos bióticos, com o resultado de ver a biodiversidade
reduzida pela pesca excessiva, o desflorestamento e outros
impactos ambientais.
A dupla exploração das matérias-primas: os custos
sociais e ambientais. A extração e o tratamento de recursos naturais exigem muitas vezes o uso de outros recursos,
tais como energia, água e solo. Estes podem ser diretamente
integrados dentro do próprio processo de produção ou então
ser indiretamente afetados, através da destruição de terra
fértil, da falta de água ou da poluição tóxica, por exemplo.
A extração a baixo custo, em algumas regiões, se torna
possível apenas ao custo do desrespeito a normas sociais
e direitos humanos, por meio de condições de trabalho e
remuneração precárias.
A distribuição desigual dos recursos extraídos no
mundo. A quantidade de matérias-primas extraídas em
cada continente depende principalmente da superfície, da
disponibilidade de recursos, da população e do nível de desenvolvimento econômico. Em 2007, a maior parte da extração de recursos no mundo se concentrou na Ásia (44%),
seguido pela América do Norte (18%), a América Latina (15%),
a Europa (12%), a África (8%) e a Oceania (3%). A taxa da
extração de recursos por pessoa também varia de um continente para outro. A Oceania tem a extração mais baixa
do mundo, mas sua taxa de extração por pessoa é a mais
alta. Em 2004, a Oceania extraiu 59 toneladas por pessoa,
por ano, seguido pela América do Norte (33 t), a América
Latina (15 t), a Europa (13 t), a África (6 t) e a Ásia (6 t).
O gráfico 2 ilustra os mesmos dados por pessoa, por dia.
Estas proporções de extração por pessoa não sofreram nenhuma mudança significativa desde 1980. Já então, a Oceania
tinha a maior extração por pessoa no mundo, com crescimento contínuo até hoje, devido à expansão acentuada da
exploração mineira na Austrália, como do carvão, do ferro
e da bauxita. A extração por pessoa da América Latina era
inferior à da Europa; mas cresceu devido à forte ambição
do continente de exportar, assim como à demanda mundial
cada vez mais importante por minérios, madeira e produtos
agrícolas, inclusive a soja.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 7
2. EXTRAÇÃO
2.2 ÁGUA
Cerca da metade da água doce renovável e acessível no planeta é utilizada para o consumo de água
potável, o cultivo de alimentos, a geração de energia e a produção de outros bens e serviços. Na Europa,
quase a metade de toda a água captada destinase à refrigeração no setor da energia. O resto é captado
para o uso de agricultura, abastecimento público de água e indústria. A nível mundial, é a irrigação no
setor agrícola que mais consome água.
O ser humano se apropriou, hoje, de mais da metade da
água doce renovável e acessível no planeta. Alguns poucos
exploram a água em excesso, enquanto os demais bilhões de
pessoas ainda carecem os serviços de água mais básicos.3
O crescimento demográfico, como também econômico contribuem para aumentar a pressão exercida sobre nossos
recursos hídricos. Se a tendência atual continuar, muitas
regiões no mundo deverão enfrentar uma escassez de água
progressiva durante as próximas décadas.
Na União Europeia (UE), 13% de todos os recursos em
água doce renováveis e acessíveis são explorados
anualmente. Enquanto este número parece sugerir que
na Europa seria mais fácil administrar as secas e a falta de
Gráfico 3: Extração de água, em litros por pessoa, por dia, em diferentes regiões do mundo, em 2000 (iii)
Extração de água
AMÉRICA
DO NORTE
4.350
1.500
EUROPA
ÁSIA
1.600
650
ÁFRICA
1.300
AMÉRICA
LATINA
2.350
OCEANIA
1 gota completa de água = 1.000 litros de água extraída por pessoa, por dia
8 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
Gráfico 4: WEI em países europeus, para 1990 (iv) e depois de 2005 (v)
70%
60%
50%
40%
WEI->2005
WEI-1990
30%
20%
10%
0%
Finlândia
Áustria
Rep. Tcheca
França
água, a distribuição desigual dos recursos hídricos e da população pelo continente europeu provoca extrema seca em
algumas regiões, principalmente no Sul. Muitos países mediterrâneos enfrentam grande estresse hídrico. Até dentro do
mesmo país, a situação pode se apresentar extremamente
heterogênea: Na Espanha, por exemplo, é frequente faltar
água no sul do país (Andaluzia), enquanto algumas regiões
no norte dispõem de água em abundância (p.ex. Galiza).
Para monitorar e avaliar a pressão tendencial sobre os recursos em água doce na Europa, a Agência Europeia do
Ambiente aplica o Índice de Exploração de Água (WEI, do
inglês Water Exploitation Index). Este é o quociente entre a
quantidade total de água doce usada por ano e a disponibilidade de recursos em água renováveis para uma região.
Um WEI superior a 10% denota iminente escassez de água
na reserva hídrica; já um WEI superior a 20% é sinal de grave
escassez de água e indica que o uso dos recursos hídricos
em questão é claramente insustentável.
Em 2005, o Chipre, a Bélgica e a Espanha tiveram o WEI mais
alto da Europa (64%, 32% e 30%, respectivamente). Durante
as duas últimas décadas, o WEI diminuiu em 24 países da UE,
pois a captação total de água caiu 15% (principalmente devido ao declínio econômico nos Estados-membros do Leste
da UE). São apenas cinco países, em que o total de água
captada aumentou durante o período de 1990 a 2007.4 O
gráfico 4 mostra seis países europeus com seus índices correspondentes.
Espanha
Chipre
A escassez de água em países e ilhas mediterrâneos é muitas
vezes causada pela baixa frequência das chuvas, com grandes irregularidades ao longo de um ano ou de um ano para
o outro. No caso das ilhas, o isolamento geográfico e a impossibilidade de usar recursos de água mais distantes para
completar sua demanda podem acentuar mais ainda o estresse hídrico.5
Como a água é distribuída? No continente europeu, as
maiores quantidades de água são captadas para fins de refrigeração no setor da energia (45%), seguido pela agricultura
(22%), o abastecimento público de água (21%) e a indústria
(12%). Os dados regionais e nacionais podem, porém, apresentar divergências consideráveis em relação a essas médias. No Sul da Europa, a agricultura é responsável por mais
de 50% da captação de água (em alguns países mais de
80%), enquanto na Europa Ocidental mais de 50% da água
captada se destina à refrigeração no setor da energia. Da
mesma forma, a captação de água para o setor industrial
explica 20% da captação total na Europa Ocidental, contra
apenas cerca de 5% no Sul da Europa (Gráfico 5).6
Os dados relativos ao uso da água para a agricultura são
particularmente interessantes quando formos considerar a
quantidade da produção que é destinada ao consumo doméstico contra a quantidade destinada à exportação. Pois é
frequente, em muitos países que dispõem de pouca água, o
cultivo a regadio intenso de produtos agrícolas destinados
à exportação. Na Espanha, por exemplo, estas exportações
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 9
milhões m3/ano
Gráfico 5: Captação de água para diversos setores em três regiões europeias (milhões m³/ano) entre 1997 e 2007 (vi)
90
80
70
Abastecimento
público de água
Irrigação
60
50
40
Indústria
30
Energia
20
10
0
Europa Oriental
Europa Ocidental
representam apenas 3% do PIB e 5% do emprego nacional.7
Cerca de dois terços da água utilizada no setor agrícola
na Espanha (60%) são usados para a irrigação de culturas
que trazem uma contribuição apenas marginal para o valor
acrescentado bruto total da agricultura. Assim, a Espanha
produz principalmente culturas de baixo valor, mas de alto
consumo de água.
A extração de matéria-prima tem um forte impacto sobre os recursos hídricos. Além do impacto causado pela
captação de água em processos industriais (por exemplo
fluxos residuais abaixo do caudal ecológico mínimo), a extração de outras matérias-primas também afeta violentamente
nossos recursos hídricos. Assim sendo, os processos de
Sul da Europa
extração (como a eletrólise) de vários minérios, inclusive o
cobre e o alumínio, exigem grandes volumes de água e geram grandes quantidades de águas altamente contaminadas que deveriam ser armazenadas e cuidadosamente tratadas com muito esforço.
Com a aplicação de fertilizantes no setor agrícola, os poluentes nitrogênio e fósforo são liberados para águas receptoras, ou seja, para os rios, as águas subterrâneas e os
oceanos. Eles não apenas poluem as reservas de água potável, como também são responsáveis pela eutrofização (o
acúmulo excessivo de nutrientes provocando blooming, ou
“florescimento”) em trechos do rio a jusante ou em zonas
costeiras.
10 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
O gás de xisto e seus impactos sobre a água
A exploração do shale gas, ou gás de xisto, está nas capas dos jornais do mundo inteiro. Trata-se de um novo combustível fóssil que provoca grande polêmica. Considerado a maior fonte de energia para o futuro por alguns, o gás
de xisto é igualmente associado a uma longa lista de problemas ambientais, sobretudo a poluição das águas, o uso
excessivo de água e a alta emissão de metano durante o processo da extração.
O gás de xisto é um gás não convencional, encontrado em reservas de xisto. O xisto é uma rocha sedimentar formada à base de lamitos, argilitos e outras rochas de granulação fina; é menos permeável do que outras formações
rochosas que contêm gás. O gás de xisto pode ser usado como combustível para usinas elétricas, microusinas
elétricas (para o uso doméstico), carros e caminhões.
Novas técnicas de perfuração contribuíram para diminuir os custos e aumentar o volume de extração de gás de xisto.
Nos anos 1990, as companhias produtoras de gás desenvolveram uma técnica conhecida como fraturamento
hidráulico (ou fracking); neste processo, a água é injetada em alta pressão nas formações rochosas de xisto (uma
rocha sedimentar não porosa, encontrada principalmente em reservas subterrâneas profundas, abaixo do nível do
lençol freático) permitindo assim que o gás natural contido dentro das formações rochosas seja liberado e levado
à superfície.8 A extração do gás é também possível pela perfuração horizontal.
O uso do gás de xisto envolve grandes riscos, especialmente em relação ao processo do fraturamento hidráulico.
Existem preocupações quanto à contaminação da água potável por substâncias químicas envolvidas no fracking
(por exemplo o benzeno ou o tolueno9), seja durante o processo da perfuração, seja quando as águas residuais são
despejadas ulteriormente. Um quarto da água injetada retorna à superfície depois do processo do fracking, sendo
que a água contém não apenas substâncias químicas, mas provavelmente também concentrações altas de sal,
metano e materiais radioativos naturais lixiviados. Estas substâncias químicas, assim como o próprio gás podem
contaminar os recursos hídricos destinados ao abastecimento local, se não forem tratados de forma adequada
em uma estação de tratamento de água residuária. Outros problemas relativos à alta concentração química na
água podem ocorrer ainda, caso aconteça um acidente na superfície ou se o furo não for devidamente isolado ou
tampado depois de fechar o poço de gás.
A mais, os grandes volumes de água que são necessários para a extração do gás de xisto podem acarretar uma forte
pressão sobre as reservas hídricas nos arredores do poço. A experiência do depósito de xisto de Barnett, nos EUA,
indica que os poços horizontais podem exigir até cinco vezes a quantidade de água usada em poços verticais.10
As emissões associadas aos processos adicionais necessários para a extração do gás de xisto são enormes. A
Cornell University compara, em suas pesquisas, a pegada de carbono do gás de xisto às do gás convencional, do
carvão e do óleo diesel. Constatou-se que as emissões de metano relativas ao gás de xisto são 1,3 a 2,1 vezes mais
altas do que as provocadas pelo gás convencional. As pesquisas mostram também que a pegada do gás de xisto
sempre foi maior do que as pegadas do gás ou do petróleo convencionais, e sobretudo nos últimos vinte anos.11
Nos EUA, a extração do gás de xisto já é responsável por um quarto do metano.12
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 11
A EXTRAÇÃO DE LÍTIO
NO NORTE DO CHILE13
Ocorrência e aplicações
O lítio é o metal mais leve no mundo. Sua relevância aumentou drasticamente com o desenvolvimento das baterias de
lítio, que são mais leves e têm uma vida útil maior do que
as baterias convencionais de níquel. São usadas em carros
elétricos, máquinas fotográficas, computadores portáteis,
celulares e vários outros aparelhos. Os principais depósitos
de lítio para baterias são encontrados em lagos salinos e
salmouras.
As reservas de lítio mais importantes estão localizadas
no chamado “Triângulo de Lítio”, composto por Bolívia,
Argentina e Chile. A extração de lítio no Chile se concentra
no extremo norte do país, no Salar de Atacama. O deserto
do Atacama está entre os lugares mais áridos no mundo,
com apenas 1 milímetro de chuva a cada 5 a 20 anos em
certas áreas onde a drenagem é, portanto, praticamente
inexistente.
O maior produtor de lítio no Chile é a SQM, uma empresa
controlada por um empresário chileno e pela canadense
Potash Corporation of Saskatchewan, que produz aproximadamente 21.000 toneladas de carbonato de lítio por
ano. A segunda companhia de lítio é a norte-americana
Sociedad Chilena del Litio (SCL). Juntos, são responsáveis
por 58% da produção mundial de lítio.
Para a produção de lítio, as salmouras (uma solução de
água do solo saturada com altas concentrações de sais)
são captadas e bombeadas para as lagoas de evaporação.
Por meio de várias etapas de evaporação é possível atingir
a concentração de lítio necessária para se obter o carbonato de lítio; este, a seguir, ainda percorre vários outros passos de tratamento. Além do lítio, o método aqui descrito
serve, também, para a extração de cloreto de potássio.
Dependendo do local de extração, o produto principal será
o lítio, e o potássio, o derivado; ou vice-versa.
Os impactos da mineração de lítio no norte do Chile
A mineração de lítio no Salar de Atacama afeta direta e
substancialmente as reservas hídricas. A extração das
salmouras causa uma queda no nível do lençol freático e
uma redução dos evaporitos. Primeiramente, faltam medidas para recuperar e reinserir a água no lençol freático,
depois da sua evaporação nas lagoas, que tem por objetivo
12 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
aumentar a concentração lítica. Em decorrência, as campinas e zonas úmidas correm o risco de secar, assim afetando diretamente os frágeis habitats de nidificação de
aves e terras tradicionalmente destinadas ao pasto. Daí
resulta uma mudança drástica na morfologia das lagunas
que caracterizam esses ecossistemas.
Os caminhões que transportam o material para as usinas
de tratamento causam uma poluição do ar. Um outro fator
poluente são as nuvens de poeira que se formam durante
o processo da extração. Esta poeira que contém altos
teores em minerais, particularmente carbonato de lítio,
é levada para as povoações arredores (por exemplo os
municípios de Socaire e Peine), para as terras de pastagem
e regiões protegidas, prejudicando, deste modo, a saúde
da população e contaminando o solo e a água.
Todas as usinas de lítio estão localizadas em zonas de natureza previamente intacta. Hoje, o aumento na atividade
humana nas usinas e nos seus arredores (poluição sonora,
construção rodoviária, circulação de veículos, máquinas
e trabalhadores, entre outros) vem afetando cada vez mais
os ecossistemas e corredores biológicos, causando a extinção da flora e da fauna nativas, como também a erosão
do solo. Além do mais, as antigas rotas frequentadas,
desde sempre, pelos pastores de gado são bloqueadas e
se tornam inacessíveis.
De ponto de vista social, as usinas de lítio geraram emprego, assim favorecendo uma melhora na situação econômica da população local. No entanto, são principalmente
trabalhos de baixa qualificação que são propostos aos nativos da região. Já o trabalho mais especializado está aberto, primeiramente, para migrantes vindo de outras regiões
do Chile ou de outros países.
Dentro do contexto social ainda se insere a questão complexa do uso e da propriedade das terras. Tradicionalmente,
o território pertencia ao povo do Atacama. Este povo indígena se considera, ao seu entender, como parte integrante
do ecossistema, portanto responsável pela gestão e preservação dos seus recursos naturais, e não aceita, consequentemente, nenhum parcelamento do território. Em
contraposição, a indústria mineira estendeu suas atividades para dentro de regiões como o Salar de Atacama, que
abriga uma biodiversidade frágil e culturas vulneráveis,
com características ecológicas insubstituíveis e de valor
inestimável para a população local.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 13
3. COMÉRCIO
3.1 COMÉRCIO DE MATÉRIAS-PRIMAS E PRODUTOS
Houve um crescimento marcante no volume de comércio mundial nas últimas décadas. A contribuição
das economias emergentes para o comércio mundial aumentou em detrimento aos países europeus
industrializados, que viram sua participação diminuir. Desde os anos 1960, traça-se, a nível mundial,
um quadro relativamente estável no que diz respeito à questão de um país ser importador líquido
ou exportador líquido. Os países industrializados e, mais recentemente, as economias emergentes
aumentaram suas importações líquidas de recursos, sendo que os países em vias de desenvolvimento
fornecem quantidades cada vez mais importantes.
A diferença entre o crescimento do comércio mundial, em
termos físicos e monetários, em 1980 e em 2008, revela
um desacoplamento relativo, mas não absoluto (veja o box
abaixo). O volume de fluxos comerciais se multiplicou por
2,7, enquanto o valor monetário (em preços atualizados)
se multiplicou por quase dez (cf. gráfico 7). O aumento no
comércio mundial se apresentou muito mais estável em
termos físicos do que monetários, o que reflete a influência
e a importância da evolução dos preços dos recursos.
Gráfico 6: O comércio mundial de recursos naturais,
entre 1980 e 2008, em milhões de toneladas (vii)
milhões de toneladas
O comércio mundial em crescimento contínuo. Em
1980, o comércio internacional de produtos e matérias-primas começou a crescer notavelmente, tanto a nível de volume físico quanto em termos de valor monetário. O gráfico
6 mostra o aumento nos fluxos de comércio direto de matérias-primas a nível mundial de aproximadamente 3,8 bilhões
de toneladas, em 1980, para 10,3 bilhões de toneladas, em
2008.
10.500
9.000
7.500
6.000
4.500
3.000
1.500
0
1980 1985 1990 1995 2000 2005 2008
Combustíveis fósseis
Metais
Minerais
Biomassa
DESACOPLAMENTO RELATIVO, ABSOLUTO E DE IMPACTOS
Desacoplamento relativo: A taxa de crescimento do resultado econômico (produto interno bruto – PIB)
é mais alta do que a taxa de crescimento do consumo de recursos.
Desacoplamento absoluto: A taxa de crescimento do PIB é positiva e a taxa de crescimento do consumo
de recursos é negativa.
Desacoplamento de impactos: A taxa de crescimento do PIB é positiva, enquanto os impactos
ambientais negativos diminuem.
14 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
Outros
Gráfico 7: Índice dos volumes comerciais mundiais físicos (à esquerda) e monetários (à direita), de 1980 a 2008, 1980 = 100 (viii)
1.000
1.000
Produtos agrícolas
Metais e minerais
Combustíveis
Produtos industriais
800
600
Produtos agrícolas
Metais e minerais
Combustíveis
Produtos industriais
800
600
400
400
200
200
0
0
1980
1985
1990
1995
2000
2005 2008
As taxas do crescimento comercial de matérias-primas dos
países emergentes marcados por um crescimento rápido,
como o Brasil, a China e a Índia, são as mais altas no mundo,
há duas décadas. Sua participação no comércio mundial
aumentou, enquanto a participação dos países europeus
industrializados diminuiu.14
1980
1985
1990
1995
2000
2005 2008
O Gráfico 8 mostra as matérias-primas inseridas no mercado
mundial, por continente, ou seja, a participação porcentual
de cada região à oferta mundial de determinados tipos de
matéria-prima ou produtos, em unidades físicas, em 2008.
Vale ressaltar que, hoje, a Ásia (especialmente a Rússia e o
Cazaquistão) fornece mais petróleo, gás natural e carvão ao
mercado mundial do que o Oriente Médio.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 15
Gráfico 8: O comércio de recursos e suas origens, em 2008,
com a participação das diferentes regiões à oferta mundial (em %) (ix)
Produtos
agrícolas
Produtos
Produtos
agrícolas
agrícolas
Produtos
Produtosagrícolas
agrícolas
Minerais
Minerais
Minerais
Minerais
Minerais
3%3%
3%
3%3%
3%
1%1%
1%
3%
3%3%
3%1%
1% 17%
17%17%
17%
17%
19%
19%
19%
19%
19%
África
África
África
22%
África
África
22%
22%
Oriente
Médio
22%
22%
Oriente
Oriente
Médio
Médio
Oriente
OrienteMédio
Médio
América
Latina
América
América
Latina
Latina
América
AméricaLatina
Latina
América
América
América
dodo
Norte
doNorte
Norte
América
AméricadodoNorte
Norte
12%
12%
12%
Europa
Europa
Europa
12%
12%
Europa
Europa
24%
24%
24% Ásia
Ásia
Ásia
24%
24% Ásia
Ásia
Oceania
Oceania
Oceania
23%
23%
23%
Oceania
Oceania
23%
23%
33%
33%
33%
33%
33%
Combustíveis
fósseis
Combustíveis
Combustíveis
fósseis
fósseis
Combustíveis
Combustíveisfósseis
fósseis
6%6%
6% 7%7%
7%
6%
6%
7%
7%
20%
20%
20%
20%
20%
30%
30%
30%
30%
30%
8%8%
8%
8%
8%
17%
17%
17%
17%
17%
12%
12%
12%
12%
12%
África
África
África
África
África
Oriente
Médio
Oriente
Oriente
Médio
Médio
Oriente
OrienteMédio
Médio
América
Latina
América
América
Latina
Latina
26%
26%
26%
América
AméricaLatina
Latina
26%
26% América
América
dodo
Norte
América
doNorte
Norte
América
AméricadodoNorte
Norte
Europa
Europa
Europa
Europa
Europa
Ásia
Ásia
Ásia
Ásia
Ásia
9%9%
9%
Oceania
Oceania
Oceania
9%
9%
Oceania
Oceania
Produtos
industriais
Produtos
Produtos
industriais
industriais
Produtos
Produtosindustriais
industriais
África
África
África
África
África
Oriente
Médio
Oriente
Oriente
Médio
Médio
Oriente
OrienteMédio
Médio
América
Latina
América
América
Latina
Latina
América
AméricaLatina
Latina 45%
45%
45%
América
América
América
dodo
Norte
doNorte
Norte 45%
45%
América
AméricadodoNorte
Norte
Europa
Europa
Europa
Europa
Europa
Ásia
Ásia
Ásia
Ásia
Ásia
Oceania
Oceania
Oceania
Oceania
Oceania
O comércio e a distribuição mundial das matérias-primas. O comércio pode ajudar a redistribuir os recursos natu-rais entre os países. Hoje, os países industrializados são, na
sua maioria, importadores líquidos de recursos, enquanto os
países com economias em desenvolvimento e emergentes
são essencialmente exportadores líquidos. Entre todas as
regiões, a UE realiza atualmente as importações de recursos
naturais per capita mais altas (2,5 toneladas por pessoa);
os países em desenvolvimento (excluindo os países menos
avançados e economias emergentes15) efetuam as exportações líquidas mais importantes em termos físicos (-0,4 toneladas por pessoa) (cf. gráfico 9). Os países menos avançados (ou LDCs, do inglês Least Developed Countries) têm
apenas mínimas importações líquidas de recursos naturais.
A nível mundial, o quadro geral dos fluxos comerciais (se um
país é importador líquido ou exportador líquido de recursos
naturais) se mantém relativamente estável, desde o início
dos anos 1960 (quando a ONU começou a compilar estatísticas relativas ao comércio). Enquanto isso, os valores absolutos de exportações e importações líquidas aumentaram.
5%5%
5%
3%3%
3%
5%
5%
3%
3%
1%4%4%
0%0%
0% 1%1%
4%
1% 6%
0%
0% 1%
6%
4%
4%
6%
6%
6% 8%
8% 8%
8%
8%
36%
36%
36%
36%
36%
África
África
África
África
África
Oriente
Médio
Oriente
Oriente
Médio
Médio
Oriente
OrienteMédio
Médio
América
Latina
América
América
Latina
Latina
América
AméricaLatina
Latina
América
América
América
dodo
Norte
doNorte
Norte
América
AméricadodoNorte
Norte
Europa
Europa
Europa
Europa
Europa
Ásia
Ásia
Ásia
Ásia
Ásia
Oceania
Oceania
Oceania
Oceania
Oceania
Gráfico 9: Balanços comerciais físicos de
diferentes regiões, por pessoa, 2008 (x)
-1.0
0.0
1.0
2.0
3.0
toneladas per capita
Países menos avançados (LDC)
Outros países em desenvolvimento (não LDC ou emergentes)
Países emergentes
OCDE (não-UE-27)
UE-27
16 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
3. COMÉRCIO
3.2 COMÉRCIO DE ÁGUA
Com o crescimento do comércio internacional, o uso de água embutida, ou virtual, também cresce constantemente, já que muitas mercadorias exigem água para a sua produção. Se um país importa produtos
que exigem muita água em sua produção, provavelmente seu consumo nacional de água subirá de modo
significante. Essas importações podem servir de fonte complementar de água, portanto diminuindo a
pressão exercida sobre os recursos hídricos do país. Por outro lado, a importação desse tipo de mercadorias a partir de países que já sofrem escassez de água pode, ao mesmo tempo, intensificar a pressão
já existente sobre os recursos hídricos locais.
Água embutida em produtos: a pegada hídrica. O uso
nacional de água se baseia, de modo geral, em estatísticas
sobre a captação de água por setor. Esta informação é relevante, especialmente em relação aos recursos hídricos disponíveis no país, mas não reflete a quantidade de água doce
necessária para satisfazer os hábitos de consumo da população. A pegada hídrica de um país (ou de uma pessoa)16 se
define como volume total de água doce usada para produzir
os bens e serviços consumidos pelos habitantes do país em
questão (ou pelo indivíduo).17
A água embutida em produtos, ou água virtual, é de elevada
relevância, quando formos analisar os impactos do nosso
consumo sobre o meio ambiente. No caso de países que importam uma grande quantidade de produtos que exigem
muita água em sua produção, a pegada hídrica pode ser
muito mais alta do que a captação nacional de água. Em
contrapartida, um país que realiza fortes exportações de
água virtual pode ter, de fato, uma demanda de consumo
doméstico inferior àquela sugerida pelas estatísticas.18
Os fluxos de água entre os países. Acompanhando o aumento nos fluxos comerciais, houve também um acréscimo
marcante no volume de água virtual. O uso de água para a
fabricação de produtos de exportação contribuiu fortemente
para modificações nos sistemas regionais de abastecimento
de água.19 Nosso consumo pode, portanto, exercer uma
pressão indireta sobre os recursos hídricos em outros países. A importação de água virtual (por exemplo, embutida
em alimentos importados) pode ser interessante para países
que dispõem de recursos hídricos limitados, pois fornece
fontes alternativas de água e ameniza a pressão sobre os
recursos hídricos domésticos.20
É possível quantificar os fluxos de água virtual entre bacias,
regiões ou países, usando a metodologia da pegada hídrica.21
Uma pesquisa internacional (incluindo todos os países), referente ao período de 1997 a 200122, mostrou que 16% da
água utilizada mundialmente é destinada à produção de bens
de exportação, e não ao consumo doméstico. Entre estes
16%, 61% podem ser atribuídos ao comércio de produtos
agrícolas e seus derivados; os produtos pecuários respondem
por 17%; e os produtos industriais, por 22% (Gráfico 10).
Gráfico 10: Distribuição mundial – Comparação entre
a pegada hídrica externa e interna (WF, do inglês “Water
Footprint”), 1997-2001 (xi)
Cultivo e
produtos
agrícolas
61%
Pegada
hídrica
interna 84%
Pegada
hídrica
externa 16%
Produtos
pecuários
17%
Produtos
industriais
22%
Os principais exportadores de água virtual no mundo são os
EUA, o Canadá, a França, a Austrália, a China e a Alemanha.
Os principais importadores de água virtual são os EUA, a
Alemanha, o Japão, a Itália e a França (Gráfico 11).23 Devido
essencialmente às diferenças nas estruturas econômicas,
alguns países são ao mesmo tempo grandes exportadores e
importadores de água virtual. A Alemanha, por exemplo, importa grandes quantidades de produtos agrícolas e exporta
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 17
grandes volumes de produtos industriais que exigem muita
água em sua produção. Em alguns países, as importações são
até superiores aos recursos hídricos renováveis. A Jordânia
importa 287 milhões de m3 – um volume de água cinco vezes
maior do que o disponível no país.
Semelhante ao balanço comercial monetário de um país, é
igualmente possível calcular o balanço comercial hídrico subtraindo do volume de importações o volume de exportações.
O gráfico 11 mostra os fluxos de água virtual entre as diferentes regiões do mundo. A maior parte das Américas, da
Austrália, da Ásia e da África Central realizam exportações
líquidas de água virtual, enquanto os principais importadores
líquidos de água virtual são a Europa, o Japão, a África do
Norte, a África Austral, o Oriente Médio, o México e a Indonésia. A Austrália apresenta a maior exportação líquida de
água virtual, devido à forte exportação de produtos agrícolas
e pecuários (73 bilhões de m3).24
Gráfico 11: As regiões do mundo como importadores e exportadores líquidos de água virtual (xii)
Países com recursos hídricos limitados deveriam, de modo
ideal, priorizar a produção de bens que não exigem muita
água e, por outro lado, a importação de bens com alto
consumo de água no processo da sua produção; um país
abundante em recursos hídricos, no entanto, deve se especializar na exportação de bens que exigem muita água em
sua produção. Paradoxalmente, nosso sistema econômico
mundial e nosso zelo por produtos cada vez mais baratos
fizeram com que vários países originalmente ricos em água
dependam hoje de importações de água virtual provenientes
de países com recursos hídricos limitados. Os casos de
escassez de água local já existentes podem se agravar, por
conseguinte, e a competição pela água se intensifica. Para
assegurar uma distribuição justa dos recursos hídricos,
tanto os países produtores quanto os consumidores terão
de assumir um maior grau de responsabilidade pelo desenvolvimento de uma melhor gestão da água mundial.
18 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
A VIAGEM DE UMA CAMISETA DE ALGODÃO NO MERCADO MUNDIAL
Uma camiseta de algodão percorre longas distâncias pelo mundo antes de chegar às nossas lojas: a partir da
lavoura, o algodão passa por vários processos, inclusive a colheita, o descaroçamento, a carda, a fiação, a tecelagem, o branqueamento e o tingimento, antes de se transformar, afinal, em uma peça confeccionada em tecido
estampado nas prateleiras. Ao olhar as principais indústrias de produção têxtil e de algodão, revela-se uma rede
complexa de fluxos de materiais e água, e podemos ver uma ilustração clássica do comércio mundial.
Uma camiseta de algodão comum tem uma pegada hídrica de 2.700 litros.25 Para obter 1 quilograma de tecido de
algodão acabado, é preciso um total de, em média (mundial), 11.000 litros de água.
A viagem do algodão começa no momento da produção. O algodoeiro é um arbusto nativo de regiões tropicais e
subtropicais no mundo inteiro. Em 2009, a China e a Índia foram os maiores produtores de algodão. Em 2008, os
Estados Unidos ocuparam o primeiro lugar como exportador (3,9 milhões de toneladas), enquanto a Ásia foi, de
longe, o maior importador de algodão (5,6 milhões de toneladas), seguido pela América Latina com apenas 0,6
milhões de toneladas.
Em torno de 45% da água embutida em têxteis de algodão é água de irrigação consumida (evaporada) pela usina,
41% é água de chuva evaporada na lavoura durante o cultivo e 14% é a água necessária para diluir os fluxos de
águas residuais resultantes do uso de fertilizantes na lavoura e de produtos químicos na indústria têxtil.
A indústria têxtil praticamente deixou de existir nos países desenvolvidos e se deslocou com suas fábricas para
países emergentes e em desenvolvimento na Ásia, que é, de longe, o maior importador de algodão. A cidade de
Daca, capital de Bangladesh, abriga em torno de 3.000 usinas têxteis, nas quais os trabalhadores (sobretudo
mulheres) produzem cerca de 250 camisetas por hora e ganham, em média, 42 Euro ao mês.26 A indústria se
caracteriza por níveis elevados de poluição ambiental e consumo de energia e, ao mesmo tempo, um padrão socioambiental precário. Portanto, não é surpreendente que o preço que o consumidor final paga pela camiseta está
geralmente muito abaixo dos custos sociais, ambientais e econômicos resultantes de sua viagem.
nosso consumo
ameaça
os recursos
hídricos
do planeta
EXPLORAÇÃO
DA ÁGUA | 19
WATER Como
EXPLOITATION
How our
material
consumption
threatens
the Aplanet‘s
water resources
A IMPORTÂNCIA DO COMÉRCIO DE
ALGODÃO EM CAMARÕES E NO TOGO
exemplo) e permitindo aos agricultores o acesso a serviços
sociais (educação e postos de saúde, entre outros).
O algodão é um importante produto de exportação em
grande escala para muitos países na África Ocidental.
A região produz cerca de 5% do algodão mundial e responde
por 15% do comércio mundial da fibra de algodão. Camarões
e o Togo são dois países para os quais a exportação em
grande escala do algodão é de grande importância. Os dois
exportam o algodão principalmente para outros países
do Sul, entre os quais a China, o Paquistão, a Malásia e o
Marrocos.
A produção de algodão envolve riscos sérios para o
ambiente e a saúde. O algodão é tipicamente cultivado
em monocultura e exige uma terra fértil e o uso de muitos
produtos complementares, como fertilizantes minerais,
herbicidas, inseticidas e fungicidas, afetando gravemente
a saúde dos trabalhadores. Em muitas partes da África
Ocidental, a expansão do cultivo de algodão se deu à custa
do desmatamento de árvores e várias espécies de ervas,
resultando em uma perda de biodiversidade e fertilidade
do solo, sua erosão e desertificação.
Não obstante, os agricultores de algodão na África Ocidental continuam entre os mais pobres no mundo.
Muitos deles dependem, para seu sustento, totalmente do
algodão. Em Camarões e no Togo o algodão é amplamente
cultivado em pequenas agriculturas (familiares) onde o
trabalho infantil é frequente. Seria impossível tirar lucro do
cultivo de algodão sem a participação (não remunerada) da
família. Os fertilizantes utilizados para a produção são
muito caros e os preços do mercado para o algodão continuam baixos devido à grande oferta de algodão subvencionado proveniente de países industrializados. Portanto,
é difícil para os agricultores africanos serem competitivos.
Em Camarões e no Togo, o crescimento da produção de
algodão trouxe também benefícios para a economia
rural, contribuindo para o desenvolvimento da infraestrutura rural (rodovias, escolas, hospitais, furos e poços, por
Ao longo dos últimos 5 a 10 anos, Camarões e o Togo
viram sua produção de algodão diminuir. Muitos anos
de uso de pesticidas e fertilizantes químicos são responsáveis por esse fenômeno. O uso de estrume em lugar de
fertilizante químico poderia ajudar na regeneração do solo,
mas ainda não é muito frequente.
A produção de algodão e seus impactos sobre os recursos hídricos. Mais de 80% da pegada hídrica de algodão
consumido na União Europeia está localizada fora da Europa,27 com grandes impactos para os países produtores.
Recursos hídricos podem sofrer esgotamento e/ou poluição. Na África Ocidental, a irrigação de campos de algodão
é feito como no caso de Camarões e Togo com água da
chuva. O principal problema é a poluição das águas pelo
uso de fertilizantes químicos e pesticidas.
20 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
4. CONSUMO
4.1 CONSUMO DE MATÉRIAS-PRIMAS
Não apenas a extração e o comércio, mas também o consumo de recursos naturais aumentou substancialmente durante as últimas décadas, causando danos ambientais e sociais. O consumo de recursos
por pessoa quase se multiplica por dez, de um continente para outro. Embora se discuta um nível de
consumo sustentável, ainda não há acordo sobre objetivos para um consumo individual máximo.
Desigualdades marcam o consumo por pessoa de matérias-primas no mundo. Uma comparação de dados relativos à extração e ao consumo per capita no mundo torna
evidente que são os europeus, norte-americanos e habitantes
da Oceania que mais dependem da importação de recursos
de outras regiões do mundo para poder manter seu nível e
seu modo de consumo (veja a comparação nos gráficos 2 e
12). Em 2004, extraíram-se em torno de 34 kg e consumi-
ramse 55 kg de recursos por pessoa, diariamente, na Europa.
Os norte-americanos e habitantes da Oceania consumiram
ainda mais recursos por pessoa, por dia (por volta de 102 kg
e 79 kg, respectivamente). Há um contraste acentuado em
relação a outros continentes: Na Ásia, aproximadamente 15
quilogramas se extraíram e foram consumidos por pessoa,
por dia. Na África, a extração de recursos por pessoa, por
dia, formou um total de 15 kg; o consumo, de 11 kg.
Gráfico 12: O consumo de matérias-primas por pessoa, por dia, em 2004 (xiii)
Consumo de matérias-primas
55
102
15
EUROPA
ÁSIA
AMÉRICA
DO NORTE
24
AMÉRICA
LATINA
11
ÁFRICA
79
OCEANIA
1 mochila cheia = 20 kg de consumo de matérias-primas por pessoa, por dia
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 21
Durante a última década, houve o mais forte crescimento
do consumo de recursos por pessoa nos países industrializados. Em 1997, a América do Norte consumiu aproximadamente 95 kg de recursos por habitante, seguido pela Oceania (74 kg) e Europa (48 kg). Em contraste, no mesmo ano, a
América Latina consumiu 30 kg, a Ásia 14 kg e a África 12 kg
por habitante.
não renováveis).30 Ekins et al. (2009) sugerem fixar o consumo máximo de recursos não renováveis em seis toneladas
por pessoa, por ano, como meta a ser atingida até 2050, o
que implicaria uma redução absoluta significativa em relação aos níveis de consumo atuais nos países europeus. No
entanto, ainda não há dados científicos que sustentem a
proposta.
Modos de consumo dos recursos. Essas disparidades
referentes ao uso de recursos por pessoa refletem clara-mente os diferentes estilos de vida e modos de consumo
próprios aos habitantes de cada continente, por exemplo
as diferentes formas de habitação, o tamanho dos carros e
os hábitos alimentares. Mais de 60% do consumo total de
recursos na Europa é destinado a habitação e infraestrutura
(31%), alimentação e bebidas (25%) e transporte (7%).28 São
estes três setores que causam, também, a maior pressão
sobre o meio ambiente.29
Impactos dos níveis e modos de consumo sobre o meio
ambiente. Há tempo, os países industrializados chegaram
a níveis e modos de consumo que provocam uma pressão
ambiental considerável. Esses modos se caracterizam, sobretudo, pelo amplo uso de matérias-primas e fontes de
energia dificilmente renováveis pela natureza, com algumas
poucas exceções. A mudança climática é a consequência
mais conhecida disso. Entre os outros problemas consta
ainda o consumo excessivo de fertilizantes químicos na agricultura, responsável por alterações nos ciclos do nitrogênio
e do fósforo que causam a poluição dos nossos rios, lagos,
oceanos e atmosfera. Quanto à mudança climática, à perda
de biodiversidade e aos níveis de nitrogênio, já passamos do
ponto crítico de irreversibilidade; agora estamos prestes a
enfrentar novos pontos críticos iminentes, quanto ao consumo da água doce, à acidificação oceânica, ao uso da terra e
aos níveis de fósforo.31
Os níveis do uso sustentável de recursos. As imensas
desigualdades no uso de recursos por pessoa observadas
entre os diferentes países e regiões do mundo desencadearam debates entre os cientistas a respeito de uma meta
mundial por pessoa para limitar o consumo de recursos não
renováveis a um nível sustentável (Observe que o gráfico 12
representa os níveis dos recursos tanto renováveis quanto
22 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
4. CONSUMO
4.2 CONSUMO DE ÁGUA
O consumo de água é desigual entre os diferentes setores assim como entre as regiões do mundo. A
nível mundial, o setor que mais consome água é a agricultura. A quantidade de água que consumimos
direta ou indiretamente depende, sobretudo, das dimensões e dos hábitos do nosso consumo, mas
também das condições climáticas e práticas agrícolas no país produtor. Enquanto um norte-americano
consome, em média, a maior quantidade de água (7.650 litros/dia), já um africano consome menos da
metade (3.350 litros/dia).
De ponto de vista hidrológico, o consumo de água representa
a quantidade de água de fato perdida em um ecossistema
durante um processo de produção (ou seja, equivale à diferença entre a água captada e a água redirecionada ao
mesmo ecossistema após o uso). Na Europa, 67,4% do consumo total de água é consumido pela indústria, seguido
pelo setor doméstico (18,9%) e pela agricultura (13,7%). A
nível mundial, porém, traça-se um cenário completamente
diferente: a agricultura responde por 92,2% do consumo de
água, o setor doméstico, por 4,1%, e apenas 3,7% do consumo
de água é usado pela indústria (Gráfico 13).
Gráfico 13: O consumo de água, por setores,
na EuropaDoméstico
(em cima) e no mundo (em baixo) (xiv)
(19%)
Doméstico
(19%)
Agricultura
(14%)
Agricultura
(14%)
Agricultura
(92%)
Agricultura
(92%)
Indústria
(67%)
Indústria
(67%)
Gráfico 14: A distribuição do uso doméstico
de água em um lar médio austríaco, em 2010 (xv)
Limpeza 5%
Lavadora de
louça 5%
Alimentação
3%
Jardinagem
6%
Higiene
pessoal 6%
Lavadora de
roupa
16%
Banho de
chuveiro e
banheira
35%
Descarga
sanitária
20%
Ao usar produtos e serviços que exigem muita água para sua
produção, consumimos a água também indiretamente (o
cultivo de algodão, a geração de energia, o uso de dispositivos eletrônicos, etc. – cf. capítulo 3).
Nossa pegada hídrica e a do nosso país dependem
de quatro fatores principais:32
Doméstico
(4%)
Doméstico
Indústria
(4%)
(4%)
Indústria
(4%)
Consumimos, em nosso dia a dia, a água direta e indiretamente. Usamos a água diretamente para cozinhar, beber, tomar banho, fazer faxina e outras atividades quotidianas. Nos países industrializados, o consumo diário de água
por pessoa está muito acima da média mundial. A título de
exemplo, o gráfico 14 mostra o consumo doméstico de água
para os diversos usos quotidianos em um lar médio austríaco.
•Aquantidadedoconsumo: Quanto maior a riqueza de
um país, maior também seu consumo de bens e serviços
e, por conseguinte, sua pegada hídrica.
•Nossos modos de consumo: Quanto maior o nosso
consumo de carne e produtos industriais, mais água será
necessária.
•Ascondiçõesclimáticasnopaís: Condições climáticas
adversas à agricultura, devido a alta evaporação, aumentam
a pegada hídrica da produção agrícola.
•Aeficiênciadousodeáguanaproduçãoagrícola:
Quanto mais eficientes os sistemas de irrigação utilizados,
maior também o volume de água economizada.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 23
Os exemplos apresentados no gráfico 15 mostram os recursos hídricos necessários para a produção de diferentes produtos.
Gráfico 15: A pegada hídrica de diferentes produtos (xvi)
1 par de sapatos
1 camiseta
1 maçã
1 xícara de café
70 l
140 l
2.700 l
8.000 l
1 gota cheia de água = 100 litros de água extraída/consumida
A pegada hídrica resultante dos nossos hábitos de consumo
é bem mais importante do que a do nosso uso direto de água.
Sua importância é determinada, em grande parte, pelo consumo de alimentos e outros produtos agrícolas cuja produção
exige não apenas irrigação, mas também água de chuva.
A nível mundial, a pegada hídrica média por pessoa é de
aproximadamente 1.400 m3 ao ano, sendo que as pegadas
hídricas médias variam consideravelmente entre os países:
2.840 m3 nos Estados Unidos da América, 1.380 m3 no
Japão e 1.070 m3 na China.33 Por dia, um habitante norteamericano tem, em média, a maior pegada hídrica (7.650
litros/pessoa), um habitante da Ásia, a menor (3.300 litros/
pessoa) (Gráfico 16).
Gráfico 16: O consumo de água por pessoa, por dia, em 2004 (xvii)
Consumo de água
AMÉRICA
DO NORTE
7.650
EUROPA
4.750
ÁSIA
ÁFRICA
AMÉRICA
LATINA
3.300
3.550
4.850
OCEANIA
5.950
1 gota de água cheia = 1.000 litros de água consumida por pessoa, por dia
24 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
Consumo de água engarrafada
A água engarrafada se tornou uma grande indústria mundial envolvendo bilhões de dólares. A nova commodity
– isto é, a água engarrafada – não se diferencia muito da água da torneira tratada, e não mudou dos anos da sua infância, há 40 anos, para cá. Hoje, envolve enormes mercados nos países mais ricos, assim como nos mais pobres.
A água engarrafada se tornou um símbolo de escolha, do capitalismo e do nosso estilo de vida corrido e acelerado,
cheio de compromissos.34
Ressalta-se que, em alguns países, a água é engarrafada e transportada para os habitantes de áreas que dispõem
de recursos hídricos suficientes, causando um impacto ambiental considerável devido ao processo de engarrafamento e ao transporte. O processo de engarrafamento consome grandes quantidades de água, energia e materiais,
ao mesmo tempo que produz emissões. Para gerar um litro de água engarrafada, por exemplo, são necessários
nove litros de água durante o processo.35
A menos que elas sejam recicladas, o descarte das garrafas PET também causa um impacto imenso sobre o meio
ambiente. Quando incineradas, liberam dióxido de carbono derivado de combustíveis fósseis para a atmosfera,
causando a mudança climática. Quando são jogadas no chão ou no mar, como lixo, o plástico se degrada, pela exposição ao sol, em muitos fragmentos minúsculos que podem, portanto, ser encontrados disseminados no mundo
inteiro. Uma única garrafa de um litro pode se degradar em partículas tão ínfimas que seria possível colocar uma
delas a cada quilômetro de praia que existe no mundo inteiro.36 Hoje, no meio do Oceano Pacífico, há seis vezes
mais plástico do que plâncton de superfície.37 Esta área que ficou conhecida como “A grande Mancha de Lixo no
Pacífico” abrange um volume estimado de 3,5 milhões de toneladas de lixo, sendo que 90% é de plástico (sapatos,
embalagens diversas de Take Away e tampas de garrafa, para citar apenas alguns exemplos).
Estima-se que 100.000 mamíferos marinhos e mais de um milhão de aves marinhas morrem a cada ano depois de
ter engolido plástico por confundi-lo com comida. Além disso, as substâncias químicas contidas no plástico fazem
com que o uso de garrafas plásticas tenha efeitos ainda desconhecidos sobre a saúde humana. Mais bebedouros
públicos, água gratuita da torneira em bares e restaurantes e o uso mais amplo de garrafas reutilizáveis representam
possíveis alternativas à água engarrafada.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 25
A USINA HIDRELÉTRICA DE
BELO MONTE NO BRASIL
O consumo mundial de energia cresce, e dobrou entre 1974
e 2009. Recentemente, a energia hidrelétrica vem sendo
considerada cada vez mais como uma das formas mais
limpas para satisfazer essa demanda. Porém, a energia
hidrelétrica pode também ter fortes impactos negativos
sobre o meio ambiente. O projeto da barragem de Belo
Monte no estado brasileiro do Pará prevê a construção
de uma usina hidrelétrica no Rio Xingu, no meio da região
amazônica. Com a capacidade máxima prevista de aproximadamente 11 gigawatts (GW) (ou seja, o equivalente a
cerca de 11 usinas nucleares), a usina hidrelétrica de Belo
Monte seria a terceira maior no mundo, atrás apenas da
Barragem das Três Gargantas na China e da Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional, localizada na fronteira entre
o Brasil e o Paraguai. Mas, devido às longas estações de
seca na região (provocando, inclusive, a estiagem dos
rios), é apenas garantida a geração de 4,5 GW, ou seja,
39% da capacidade máxima. A energia produzida na usina
seria destinada ao consumo público (até 70%) e ao uso nas
indústrias mineiras e de transformação de minerais, que já
adquiriram as concessões necessárias para a instalação
de suas usinas nas proximidades imediatas ao local da
construção da barragem.
Desde o início, o projeto de Belo Monte vem sendo alvo de
veementes críticas nacionais e internacionais. O Rio Xingu
se localiza em meio a uma zona de floresta virgem que
abriga uma biodiversidade abundante de valor inestimável
e que coincide, aliás, com o território de numerosas tribos
indígenas. Em decorrência da construção da barragem, o
rio teria a vazão consideravelmente reduzida e recuaria das
margens ao longo de um trecho de aproximadamente 100 km
a jusante, impedindo a pesca e a navegação e afetando,
deste modo, gravemente a vida de milhares de pessoas.
Um estudo sobre os impactos ambientais do projeto chegou à conclusão de que será necessário escavar 130 mi3
lhões de m de terra e 45 milhões de rocha para viabilizar
a construção da barragem – um volume comparável ao que
foi retirado na construção do Canal do Panamá. Ainda se
desconhece o destino desse material. Até agora não foi
apresentada proposta alguma em relação à gestão dos
resíduos nem à questão dos serviços básicos (educação,
saúde, alimentação, segurança, entre outros) que serão
indispensáveis na área da construção quando os trabalhadores migrantes – estimado em 100.000 pessoas – começarem a se instalar.
Além das objeções acima referidas, os críticos ainda alegam
a falta de avaliação suficiente para provar a viabilidade
econômica do projeto, assim como a extrema ineficiência
da geração de energia. Além disso, supõe-se que a construção da Usina de Belo Monte será apenas o primeiro
passo em uma série de outras barragens futuramente
construídas rio acima, causando impactos ambientais e
sociais ainda mais graves.
Os conflitos entre as comunidades locais e o consórcio
Norte Energia, responsável pela construção da barragem,
estão apenas começando. Belo Monte será construída
para atender às demandas das indústrias eletrointensivas,
entre elas a produção de alumínio. O projeto da hidrelétrica
já provocou a concessão de terras para a especulação
mineira, projetos de expansão de indústrias já existentes
e a instalação de siderúrgicas. Ao permitir a construção
da usina, sugere-se uma gestão altamente contestável
dos territórios amazônicos – justificando a exploração de
pessoas e da natureza através de uma concepção restrita
do que seria desenvolvimento. Apesar dos danos sociais e
ambientais causados pela usina, seria permitida a venda
de créditos de carbono pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), criado pelo Protocolo de Quioto.
26 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
5. EFICIÊNCIA
5.1 EFICIÊNCIA DE MATÉRIAS-PRIMAS
Os avanços a nível da eficiência de recursos realizados até hoje não foram suficientes para atingir
reduções absolutas no uso dos recursos. Os países com a maior eficiência de recursos no mundo são
também, na maioria dos casos, aqueles que consomem mais.
Uma melhora em termos relativos, mas não em termos
absolutos. Conforme ilustrado no gráfico 17, a intensidade
dos recursos (matérias-primas usadas para render um Euro
ou Dólar) vem melhorando ao longo das últimas décadas. O
desacoplamento entre a extração dos recursos e o crescimento econômico constitui uma tendência positiva e mostra, em termos relativos, que melhoramos nossa eficiência
dos recursos. Na UE, o desacoplamento relativo foi dinamizado, primeiramente, pelo crescimento nos setores de serviços (os quais necessitam menos recursos que os setores
primários como agricultura e mineração) e, além do mais,
pelas mudanças nos modos de geração de energia em vários países (que passam a utilizar fontes de energia menos
intensivas que o gás ou energias renováveis para substituir o
carvão).39 A nível mundial, porém, as quantidades absolutas
de extração e consumo dos recursos continuam em alta.
Gráfico 17: Desacoplamento relativo entre crescimento
econômico e consumo de recursos, 1980 – 2007 (xviii)
Índice : 1980 = 100
Eficiência de recursos, desenvolvimento econômico e
sustentabilidade. A eficiência de recursos se obtém usando
menos recursos para o alcance de um rendimento igual ou
superior.38 A eficiência dos recursos de um país está fortemente ligada à sua estrutura econômica e ao nível do rendimento, mas não reflete exatamente o desempenho ou a sustentabilidade ambiental total do país. Os países com a maior
eficiência de recursos no mundo são geralmente aqueles
que extraem e consomem mais. Uma baixa eficiência de recursos é comum nos continentes com pequenos setores de
indústria e serviços (África) ou nos continentes que se especializam na extração e exportação de recursos (América Latina,
Oceania). Acontece que um país ou uma região abundante em
recursos naturais registra níveis menores de produtividade e
desenvolvimento humano do que outros países ou regiões que
dispõem de menos recursos; este fenômeno é conhecido
como “maldição dos recursos” ou “paradoxo da abundância”.
225
200
175
150
125
100
75
50
1980
1985
1990
1995
2000
2005
PIB
Extração de recursos
População
Intensidade material
A eficiência de recursos não é, no entanto, o objetivo
final. Há, de fato, um potencial para subir os níveis de eficiência de recursos no mundo, mas isto levaria apenas à redução dos recursos necessários para a produção da mesma
quantidade de mercadorias e produtos para o nosso consumo. Embora seja uma tendência positiva que, aliás, já está
se realizando, o resultado seria uma melhora dos níveis de
eficiência de recursos em termos relativos, mas não em
termos absolutos. Ou seja, até mesmo utilizando menos recursos de uma forma mais eficiente, o crescimento contínuo
das nossas economias levaria a um aumento líquido no uso
dos recursos.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 27
5. EFICIÊNCIA
5.2 EFICIÊNCIA HÍDRICA
Nossos recursos em água são limitados; portanto não será possível suprir infinitamente nossa demanda
crescente por água doce. É primordial que comecemos a usar nossos recursos hídricos de forma mais
eficiente em todos os níveis – na indústria, na agricultura, em residências e sistemas de abastecimento
de água.
Gestão de abastecimento e demanda. Atualmente, a
resposta à crescente demanda por água doce tem-se concentrado em ampliar o abastecimento por meio de poços
adicionais, represas e reservatórios, dessalinização e infraestruturas de grande dimensão para a transferência de água.40
As mudanças climáticas e a escassez de água reduzem, porém, as possibilidades de continuar aumentando, no futuro,
o abastecimento de água em muitas regiões do mundo, inclusive dentro da própria UE. Por conseguinte, a gestão do
abastecimento deve ir de mão dada com um melhor gerenciamento da demanda e uma redução no uso da água.41
Certas estimativas indicam que, na UE, até 40% da quantidade total de água poderia ser economizada simplesmente
por melhoras tecnológicas. Mudanças no comportamento
humano e nos modos de produção poderiam contribuir para
economizar mais ainda.42
Produzir o mesmo, com menos água. São muitas as possibilidades para economizar água no setor da manufatura,
por exemplo por práticas de reciclagem e reutilização, por
ajustes nos processos de produção, pelo uso de tecnologias
mais eficientes, assim como pela introdução de medidas
para reduzir vazamentos.43 O preço da água sendo, porém,
relativamente baixo em geral, estas medidas ainda não despertaram o devido interesse.
Um estudo sobre a diferença entre algodão orgânico e algodão convencional, no que se refere ao uso de recursos,
mostra que um quilograma de algodão orgânico contém
metade da água virtual contida na mesma quantidade de
algodão convencional. Esta diferença se explica, primeiramente, em função dos diferentes métodos aplicados no
cultivo do algodão e pelo consumo indireto de água pela
eletricidade utilizada para a produção de linha.44
A contribuição da agricultura para uma maior eficiência hídrica. A nível mundial, a agricultura é, de longe, o maior
consumidor de água (especialmente, se considerarmos não
apenas a captação de água, mas também a absorção de
água de chuva).45 O gráfico 18 dá uma ideia geral sobre a
eficiência média da irrigação no mundo. Um aumento da
eficiência no setor agrícola modificaria consideravelmente
o quadro geral relativo ao uso de água. Uma opção seria
voltar-se para técnicas eficientes de irrigação (como aspersores e sistemas subterrâneos ou de irrigação por gotejamento) e programar a irrigação conforme as necessidades
reais nas lavouras. Uma outra opção seria alterar o tipo de
plantação, permitindo uma adaptação à disponibilidade de
água e às condições climáticas. Espécies de plantas específicas poderiam ser cultivadas em regiões onde menos água
é necessária para a colheita.
28 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
Gráfico 18: Eficiência média de irrigação no mundo (xix)
,
,
,
,
,
,
,
,
,
Perdendo a nossa água preciosa – vazamento de água.
Devido a vazamentos nos sistemas de abastecimento de
água, a perda de água é elevada no mundo, mas varia consideravelmente. Alguns países europeus atingiram limites técnicos e econômicos, por exemplo a Alemanha e Dinamarca,
onde as taxas de vazamento são menores que 10%. Todavia,
as perdas em sistemas públicos de abastecimento de água
na Espanha, França e Irlanda situam-se em torno ou acima
de 20%,46 enquanto na Bulgária perde-se 50% da água devido a vazamentos. O gráfico 19 dá uma ideia geral sobre as
perdas de água devido a vazamentos, em países europeus
escolhidos.
Gráfico 19: Perdas de água em redes urbanas de abastecimento (xx)
Alemanha (1999)
Dinamarca (1997)
Finlândia (1999)
Suécia (2000)
Espanha (1999)
Reino Unido (2000)
Eslováquia (1999)
França (1997)
Itália (2001)
Romênia (1999)
Rep. Tcheca (2000)
Irlanda (2000)
Hungria (1995)
Eslovênia (1999)
Bulgária (1996)
0
10
20
30
40
50
Taxas de perda em % do abastecimento de água
O aumento da eficiência hídrica como oportunidade.
É possível melhorar a eficiência hídrica aumentando a produtividade por volume e reduzindo o desperdício de água.
Isto exige tanto o desenvolvimento de tecnologias quanto o
aprimoramento da gestão de água, com base em metodo-
logias efetivas de monitoramento de processos e dados. O
aumento da eficiência de água não é apenas uma adaptação
essencial às mudanças climáticas, mas também representa
uma oportunidade para obter benefícios econômicos e promover a proteção do meio ambiente.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 29
Como melhorar a eficiência dos nossos recursos e da água
Há muitas medidas que podemos tomar para melhorar o nosso consumo de recursos e água:
Uso de recursos:
Combate ao desperdício e melhor gestão do lixo: a adoção de uma política de “desperdício zero” pode
dar resultados rápidos, por exemplo ao minimizar o desperdício e maximizar a reutilização e reciclagem.
Reformas fiscais ecológicas: uma redistribuição de impostos sobre o trabalho para recursos naturais,
visando um aumento na eficiência dos recursos e a redução no seu consumo total.
Eco-inovação para material: desenvolvimento de produtos, técnicas, serviços e processos de produção que
favorecem o uso eficiente de material. Há um grande potencial para empresas usarem melhor os recursos nos
processos de produção e, ao mesmo tempo, ainda cortar despesas.
Aumento das Compras Públicas Ecológicas: sendo grandes consumidores de bens e serviços, as autoridades públicas podem servir de catalisador à mudança. Implementando critérios normativos para o mercado,
as autoridades podem estimular a demanda por produtos e serviços de baixo consumo de recursos e levar
empresas a reduzir o seu impacto ambiental.
Mudança dos hábitos de consumo: em países com um nível elevado de consumo por habitante, os consumidores podem contribuir para redistribuir o uso dos recursos globais de maneira mais justa. Podem, por exemplo,
reutilizar e reciclar ao máximo possível e optar por mercadorias duráveis ou com um baixo consumo de recursos.
Rótulos facilmente legíveis indicando os recursos utilizados ao longo do ciclo de vida do produto em questão
(matérias-primas, água, solo e emissões carbônicas) podem orientar o consumidor na sua escolha.
Pesquisa e desenvolvimento: o apoio à pesquisa e ao desenvolvimento, especialmente nas áreas de pesquisa
e estratégias ligadas aos recursos e à água, contribuirá a encontrar soluções para reduzir nosso consumo de
recursos.
Uso de água:
Melhorar a gestão da água: a Gestão Integrada de Recursos Hídricos (IWRM, do inglês Integrated Water Resources Management) abrange tanto a demanda por água quanto o seu abastecimento. Esta abordagem exige
que as necessidades dos diferentes consumidores e as demandas em ecossistemas sejam consideradas de
uma maneira participativa e que os sistemas de abastecimento sejam aprimorados.
Eco-inovação para a água: em várias áreas, a inovação em processos industriais poderia diminuir a pressão
exercida sobre os recursos hídricos; seria possível priorizar modos de produção que exigem menos água,
explorar fontes alternativas de água (como a dessalinização) ou aperfeiçoar as práticas de tratamento de água.
Diminuir a pegada hídrica pessoal: há várias estratégias para reduzirmos consideravelmente nosso consumo
direto e indireto de água, por exemplo tomar banho de chuveiro e não de banheira, instalar reguladores de fluxo
nas torneiras e usar lavadoras de roupa econômicas. Podemos também diminuir o nosso consumo indireto de
água ao evitar ou reduzir nosso consumo de produtos com pegada hídrica grande, como a carne.
30 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
6. VENCER O DESAFIO
Vivemos uma época caracterizada por hábitos de alto
consumo que ultrapassam as capacidades dos ecossistemas mundiais de acompanharem este processo
e se regenerar. O crescimento demográfico é certamente
um fator contributivo para a crescente demanda por recursos naturais e regeneração, mas não é a principal causa dos
problemas ambientais mundiais que temos de enfrentar nos
dias de hoje. De fato, uma proporção relativamente pequena
da população mundial consome a maioria dos recursos
mundiais e é responsável pelos problemas relacionados à
poluição, às mudanças climáticas e à degradação dos ecossistemas e os serviços que fornecem.
É necessário agir com urgência, pois a pressão aumenta
sobre a disponibilidade dos recursos que são necessários para o crescimento das nossas economias.
Aqueles que consomem mais do que seria sua parte justa,
devem reduzir consideravelmente seu consumo por pessoa
a fim de permite às presentes e futuras gerações atingirem
um padrão de vida decente. Uma solução proposta pelas
Nações Unidas seria a de impor um teto de consumo de
recursos aos países desenvolvidos para permitir aos países
no hemisfério sul a continuar seu processo de desenvolvimento.
O modelo atual de crescimento econômico na Europa
está intrinsecamente relacionado aos altos níveis de
consumo contínuo e, por conseguinte, aos altos níveis
de uso de recursos. Este modelo é não apenas insustentável em um mundo de recursos limitados, mas também
destaca a necessidade de interligar o uso dos recursos, o
crescimento econômico e a prosperidade das nossas sociedades. Vários estudos e iniciativas já exploraram esta relação e enfatizaram as diferenças entre o forte crescimento
econômico e o bem-estar das populações.
Para responder ao desafio atual é necessária uma redução geral nos níveis de consumo na Europa. Para que
isto possa acontecer, será fundamental mudar substancialmente os modos de produção e de consumo das sociedades. Alguns exemplos poderiam ser: a redução do consumo
de carne e de laticínios, a promoção de modelos de arrenda-
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 31
mento mercantil, ou leasing, onde as empresas fornecem
antes serviços que mercadorias, a proibição de planejar a
obsolescência de bens e a redução de viagens aéreas e
de carro particulares. Além do mais, será imprescindível
revogar a ideia de que a riqueza material seria sinônimo de
felicidade e bem-estar pessoal.
A diminuição dos nossos níveis de uso dos recursos
não é apenas uma obrigação ambiental, mas também
uma oportunidade econômica. O aumento rápido e a
oscilação dos preços dos recursos mostram que não estamos mais em uma época em que os recursos são baratos.
A dependência da Europa de recursos ultramar faz com que
sua economia se torne extremamente vulnerável. Assim
sendo, as empresas tem que se adaptar reduzindo seu uso
de recursos, o que lhes ajudará, em contrapartida, a economizar em custos e as colocará em uma posição melhor, em
termos de competitividade mundial.
Para aproveitar esta oportunidade ao máximo é decisivo que
a UE e os seus Estados-membros criem um quadro atraente
em termos econômicos e políticos para incentivar à diminuição do uso de recursos. Assim poderíamos caminhar em
direção a um futuro sustentável, em que o consumo europeu
não seria um peso para as outras nações. Este quadro deve
se basear em dois pilares:
1. Uma visão global para garantir a credibilidade das
soluções políticas. Embora os recursos sejam consumidos
principalmente nas nações desenvolvidas, outros lugares
sofrem os impactos, devido à globalização das cadeias de
suprimento. Políticas confiáveis devem seguir uma abordagem holística; devem garantir que soluções localizadas
em uma fase específica no processo da produção de uma
mercadoria não aumentem o consumo de recursos em outra
fase do ciclo de vida. Além disso, estas políticas devem
evitar pôr em risco a disponibilidade de recursos para as
futuras gerações. Temos que maximizar as sinergias e evitar
escolhas em que somos obrigados a abrir mão de uma coisa
em função de outra. Deste modo encontraremos as oportunidades presentes nas várias fases do processo que afetarão positivamente a economia, o meio ambiente e a nossa
sociedade de forma mais abrangente.
biocombustíveis causará um aumento desmesurado no uso
de solo e água. Precisamos medir o uso dos recursos na
Europa, levando em consideração os recursos embutidos
em bens e serviços, para melhor compreender sua natureza
interdependente e inseparável. Deste modo, será possível
evitar trade-offs, isto é, situações de conflito de escolha em
que se resolve um problema acarretando outro, e será possível, afinal, definir metas coerentes para a redução do nosso
consumo de recursos.
A importância política e econômica do uso dos recursos é
amplamente reconhecida e debatida nas diferentes instân-cias políticas; as consequências ambientais e sociais nega-tivas causadas pelo uso dos recursos, entretanto, ainda
não recebem, em geral, a atenção devida em iniciativas e
debates políticos. Infelizmente, ainda não foi dada, até aqui,
nenhuma resposta abrangente por parte da política para
atender a esse grande desafio de forma adequada. As raras
políticas fragmentárias e desconexas que foram formuladas,
até agora, se mostraram insuficientes diante da urgência
dos desafios que enfrentamos hoje. A Europa tem a oportunidade única de ser pioneira na questão de políticas relativas ao uso dos recursos e de indicar o melhor caminho para
criar um futuro mais sustentável para todos e todas nós. Se
aproveitarmos esta oportunidade, poderemos gerar grandes
benefícios para a população, a economia, os governos e as
empresas, diminuindo, ao mesmo tempo, a pressão sobre os
recursos naturais do mundo.
2. Um quadro político que integre as interligações
entre os recursos. Como já vimos anteriormente neste
relatório, a extração de recursos, a produção e o consumo
são intrinsecamente ligados ao uso da água, provocando
diferentes consequências de cunho ecológico e social. Nossos sistemas de produção registram inumeráveis casos que
bem o ilustram: por exemplo, o aumento no consumo de
32 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
REFERÊNCIAS (GRÁFICOS)
(i)
SERI Global Material Flow Database. Versão 2008. Fonte: www.materialflows.net
(ii)
SERI Global Material Flow Database. Versão 2008. Fonte: www.materialflows.net
(iii)
Fonte: www.worldwater.org
(iv)
Dados indisponíveis para Chipre em 1990
(v)
EEA. The European Environment. State and Outlook 2010. Copenhague: Agência Europeia do Ambiente, 2010a
(vi)
EEA. The European Environment – State and Outlook 2010. Water Resources: Quantity and Flows.
Copenhagen: Agência Europeia do Ambiente, 2010b; ETC/WTR baseado em dados do Eurostat
(vii)
Cálculo baseado em: DITTRICH. Physical Trade Database. Version 2011; baseado em: UN Comtrade
(viii)
Fonte referente ao índice dos volumes do comércio físico: Cálculo baseado em: DITTRICH. Physical Trade Database.
Version 2011; baseado em: UN Comtrade. Fonte referente ao índice dos volumes do comércio monetário: UN Comtrade
(ix)
Cálculo baseado em: DITTRICH. Physical Trade Database. Version 2011; baseado em: UN Comtrade
(x)
DITTRICH, M.; BRINGEZU, S. The Physical Dimension of International Trade.
Part 1: Direct Global Flows between 1962 and 2005. In: Ecological Economics 69, pg. 1838-1847, 2010
(xi)
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. The global component of freshwater demand and supply: an assessment of virtual water
flows between nations as a result of trade in agricultural and industrial products. Water International 33, pg. 19-32, 2008
(xii)
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. Water Footprint of Nations. Volume 1: Main report. UNESCO-IHE: Delft, Países Baixos, 2004
(xiii)
SERI Global Material Flow Database. Versão 2008. Fonte: www.materialflows.net
(xiv)
MEKONNEN, M. M.; HOEKSTRA A. Y. National water footprint accounts: the green, blue and grey
water footprint of production and consumption. UNESCO-IHE: Delft, Países Baixos, 2011
(xv)
http://images.umweltberatung.at/htm/trinkwasser-info-wasser.pdf
(xvi)
HOEKSTRA, A.Y.; CHAPAGAIN, A.K. Water footprints of nations: Water use by people as a function of their consumption pattern.
Water and Resource Management 21, pg. 35-48, 2007
(xvii)
MEKONNEN, M. M.; HOEKSTRA A. Y. National water footprint accounts: the green, blue and grey
water footprint of production and consumption. UNESCO-IHE: Delft, Países Baixos, 2011
(xviii)
SERI Global Material Flow Database. Versão 2008. Fonte: www.materialflows.net
(xix)
Adaptado segundo ROHWER et al. Development of functional irrigation types for improved global crop modelling.
PIK Report No. 104. Alemanha, Potsdam, 2007
(xx)
EEA. Estimated losses from water networks. Copenhague: Agência Europeia do Ambiente, 2003
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 33
REFERÊNCIAS (TEXTO)
1
Para uma análise detalhada do uso de recursos e da sua evolução
histórica, veja SERI – Sustainable Europe Resource Institute;
GLOBAL 2000; Friends of the Earth Europe. Overconsumption?
Our use of the world‘s natural resources. Viena/Bruxelas, 2009.
Disponível em: www.seri.at/resource-report (disponível em inglês
e alemão)
2
Fonte: www.materialflows.net
3
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and drought. Copenhague: Agência Europeia do Ambiente, 2009
4
EEA. The European Environment. State and Outlook 2010.
Copenhague: Agência Europeia do Ambiente, 2010a
5
EEA. The European Environment. State and Outlook 2010.
Copenhague: Agência Europeia do Ambiente, 2010a
6
EEA. The European Environment. State and Outlook 2010.
Copenhague: Agência Europeia do Ambiente, 2010a
7
ALDAYA, M. M.; GARRIDO A. et al. The water footprint of Spain.
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www.earthworksaction.org
11
HOWARTH R.W. Assessment of the Greenhouse Gas Footprint
of Natural Gas from Shale Formations Obtained by High-Volume,
Slick-Water Hydraulic Fracturing. Cornell University, Department
of Ecology and Evolutionary Biology, 2011. Disponível em: http://
www.technologyreview.com/blog/energy/files/39646/GHG.
emissions.from.Marcellus.Shale.April12010%20draft.pdf Acesso
em: 11/jun/2011
12
FLAVIN, C.; KITASEI, S. The Role of Natural Gas in a Low-Carbon
Energy Economy. Briefing Paper. Worldwatch Institute, 2010
13
Baseado em uma pesquisa realizada pela Amigos de la Tierra
Chile, maio 2011
14
DITTRICH. Physische Handelsbilanzen. Verlagert der Norden
Umweltbelastungen in den Süden? Kölner Geographische
Arbeiten: Colonha, 2010
15
O grupo dos países emergentes abrange a África do Sul, a Arábia
Saudita, a Argélia, a Argentina, o Brasil, a China (incl. Hong Kong
e Macau), Cingapura, a Costa Rica, o Egito, os Emirados Árabes
Unidos, a Índia, a Malásia, a Rússia, Seicheles, a Tailândia, a
Tunísia e o Uruguai.
16
HOEKSTRA, A.Y.; HUNG, P.Q. Virtual water trade. A quantification of
virtual water flows between nations in relation to international crop
trade. Delft, Países Baixos: UNESCO-IHE, 2002
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18
HOEKSTRA, A.Y.; CHAPAGAIN, A.K. Water footprints of nations:
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Water and Resource Management 21, pg. 35-48, 2007
19
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. The global component of
freshwater demand and supply: an assessment of virtual water
flows between nations as a result of trade in agricultural and
industrial products. Water International 33, pg. 19-32, 2008
20
ALLAN, J.A. Fortunately there are substitutes for water; otherwise
our hydro-political futures would be impossible. Priorities for
water resources allocation and management. ODA: London, 1993;
ALLAN, J.A. Overall perspectives on countries and regions. In:
ROGERS, P.; LYDON, P. (Org.), Water in the Arab World: perspectives
and prognoses. Harvard University Press: Cambridge, pg. 65–100,
1994
21
HOEKSTRA, A.Y.; CHAPAGAIN, A.K.; ALDAYA, M.M.; MEKONNEN,
M.M. Water Footprint Manual - State of the Art 2009. Water
Footprint Network: Enschede, Países Baixos, 2009
22
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. The global component of
freshwater demand and supply: an assessment of virtual water
flows between nations as a result of trade in agricultural and
industrial products. Water International 33, pg. 19-32, 2008
23
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. The global component of
freshwater demand and supply: an assessment of virtual water
flows between nations as a result of trade in agricultural and
industrial products. Water International 33, pg. 19-32, 2008
24
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. The global component of
freshwater demand and supply: an assessment of virtual water
flows between nations as a result of trade in agricultural and
industrial products. Water International 33, pg. 19-32, 2008
25
Veja a descrição detalhada da pegada hídrica de uma
camiseta em: http://www.waterfootprint.org/?page=files/
productgallery&product=cotton
26
UCHATIUS, W. Das Welthemd. In: Die Zeit, 2011. Disponível em:
http://www.zeit.de/2010/51/Billige-T-Shirts
27
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y., SAVENIJE, H.H.G.; GAUTAM,
R. The water footprint of cotton consumption: An assessment of
the impact of worldwide consumption of cotton products on the
water resources in the cotton producing countries. In: Ecological
Economics. 60(1), pg. 186-203, 2006
34 | A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta
28
Cálculo baseado em: MOLL, S.; WATSON, D. Environmental
Pressures from European Consumption and Production. A study in
integrated environmental and economic analysis. European Topic
Centre of Sustainable Consumption and Production: Copenhague,
2009
29
EEA. The European Environment. State and Outlook 2010.
Copenhague: Agência Europeia do Ambiente, 2010a
30
Veja por exemplo: Behrens, A.; Giljum, S.; Kovanda, J.; Niza, S.
The material basis of the global economy: Worldwide patterns of
natural resource extraction and their implications for sustainable
resource use policies. In: Ecological Economics 64(2),
pg. 444-453, 2007; Krausmann, F.; Fischer-Kowalski, M.; Schandl,
H.; Eisenmenger, N. The global socio-metabolic transition: past and
present metabolic profiles and their future trajectories. In: Journal
of Industrial Ecology 12, pg. 637-656, 2008
31
32
33
Rockström, J.; Steffen, W.; Noone, K.; Persson, A.; Chapin, F.S.;
Lambin, E.F.; Lenton, T.M.; Scheffer, M.; Folke, C.; Schellnhuber,
H.J.; Nykvist, B.; de Wit, C.A.; Hughes, T.; van der Leeuw, S.; Rodhe,
H.; Sorlin, S.; Snyder, P.K.; Costanza, R.; Svedin, U.; Falkenmark,
M.; Karlberg, L.; Corell, R.W.; Fabry, V.J.; Hansen, J.; Walker, B.;
Liverman, D.; Richardson, K; Crutzen, P.; Foley, J.A. A safe operating
space for humanity. In: Nature 461, pg. 472, 2009
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. The global component of
freshwater demand and supply: an assessment of virtual water
flows between nations as a result of trade in agricultural and
industrial products. Water International 33, pg. 19-32, 2008
MEKONNEN, M. M.; HOEKSTRA A. Y. National water footprint
accounts: the green, blue and grey water footprint of production
and consumption. UNESCO-IHE: Delft, Países Baixos, 2011
34
http://www.allaboutwater.org/environment.html
35
SERI – Sustainable Europe Resource Institute. Pesquisa
exploratória sobre a ECR. Relatório do projeto não publicado, 2008
36
http://killedbyplastic.blogspot.com/2008/01/greenpeace-article.html
37
Kostigen, Thomas M. The World’s Largest Dump: The Great Pacific
Garbage Patch. In: Discover Magazine, 10/jul/2008. Disponível
em: http://discovermagazine.com/2008/jul/10-the-worldslargest-dump
38
Os termos de eficiência de recursos e produtividade de recursos
são frequentemente empregados como sinônimos. De um ponto
de vista técnico, a eficiência de recursos se refere ao uso reduzido
dos recursos para atingir o mesmo ou um melhor rendimento
(normalmente por meio de inovação tecnológica). A produtividade
de recursos, no entanto, se refere a lucros econômicos realizados
graças à eficiência de recursos (por exemplo Euros / tonelada),
indicando a efetividade econômica do uso dos recursos naturais.
Neste relatório entendemos os dois termos como permutáveis.
Todos os dados são relativos à produtividade dos recursos,
também nomeada de produtividade das matérias-primas).
39
Bleischwitz, R. International economics of resource productivity–
Relevance, measurement, empirical trends, innovation, resource
policies. In: International Economics and Economic Policy, pg.
1-18, 2010. EIO. The Eco-Innovation Challenge: Pathways to a
resource-efficient Europe. Eco-Innovation Observatory, fundado
pela Comissão Europeia, DG Ambiente. EIO: Bruxelas, 2011 (obra
acima citada).
40
EEA. The European Environment – State and Outlook 2010. Water
Resources: Quantity and Flows. Copenhagen: Agência Europeia do
Ambiente, 2010b; ETC/WTR baseado em dados do Eurostat
41
Comissão Europeia. Addressing the challenge of water scarcity and
droughts in the European Union. Comunicação da Comissão ao
Parlamento Europeu e ao Conselho. Comissão Europeia: Bruxelas,
2007
42
Dworak, T.; Berglund M. et al. (2007). EU Water Saving Potential.
Comissão Europeia: Bruxelas, 2007, ENV.D.2/ ETU/2007/0001r
43
Comissão Europeia. Addressing the challenge of water scarcity and
droughts in the European Union. Comunicação da Comissão ao
Parlamento Europeu e ao Conselho. Comissão Europeia: Bruxelas,
2007
44
BURGER, E.; Reisinger, H. Resultado final do projeto BRIX, 2010
45
CHAPAGAIN, A.K.; HOEKSTRA, A.Y. Water Footprint of Nations.
Volume 1: Main report. UNESCO-IHE: Delft, Países Baixos, 2004
46
EEA. The European Environment – State and Outlook 2010. Water
Resources: Quantity and Flows. Copenhagen: Agência Europeia do
Ambiente, 2010b; ETC/WTR baseado em dados do Eurostat.
Como nosso consumo ameaça os recursos hídricos do planeta A EXPLORAÇÃO DA ÁGUA | 35
SOBRE NÓS
REdUSE é um projeto que conta com a participação de GLOBAL 2000, Sustainable Europe Research
Institute, Amigos da Terra Europa e dos grupos-membros nacionais de Amigos da Terra dos seguintes
países: Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte; República Tcheca; França; Itália; Hungria; Brasil; Camarões;
Chile e Togo. O projeto visa sensibilizar para a quantidade de recursos naturais consumidos na Europa e
para as consequências negativas que o consumo excessivo provoca no meio ambiente e nas sociedades
no Sul global.
Para maiores informações veja: www.reduse.org
A organização GLOBAL 2000 foi fundada em Viena, em 1982, e é membro da rede internacional de
Amigos da Terra, desde 1998. Com 60.000 membros, a GLOBAL 2000 é a maior e mais conhecida
organização ambientalista na Áustria. Por meio do seu trabalho, a GLOBAL 2000 não apenas revela
escândalos ambientais e defende a responsabilidade da Áustria de contribuir para a solução dos
problemas ambientais no mundo, mas também oferece soluções sustentáveis.
Para maiores informações veja: www.global2000.at
O Sustainable Europe Research Institute (SERI; “Instituto de Pesquisa sobre a Sustentabilidade na Europa“
– tradução não oficial) é uma instituição privada de pesquisa e assessoria com o objetivo de estudar as
opções de um desenvolvimento sustentável para as sociedades europeias. O SERI contra entre os principais institutos europeus nas áreas de gestão do uso de recursos, elaboração de cenários sustentáveis,
indicadores para o desenvolvimento sustentável e políticas para o uso sustentável de recursos.
Para maiores informações veja: www.seri.at
A Friends of the Earth Europe é a seção europeia da Amigos da Terra Internacional. É a maior rede de
entidades ambientalistas na Europa, unindo grupos nacionais e grupos ativistas em mais de 30 países
europeus. Representando a voz dos cidadãos e cidadãs da Europa, defendemos soluções sustentáveis para
beneficiar o nosso planeta, a humanidade e o futuro. A Friends of the Earth Europe participa ativamente
na reestruturação das políticas da União Europeia e europeias; atua em prol de uma sensibilização por
assuntos relacionados ao meio ambiente.
Para maiores informações veja: www.foeeurope.org
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