coquetel molotov | abril 2006 | número 2
1
Ilustração: Victor Zalma
Desenhos
Molho 4
Maya Hayuk 66
Teste
Sua caixinha de música: Wander Wildner 10
Entrevistas
Lulina 12
Sally Shapiro 17
Flu 18
Hot Chip 19
Bunny Rabbit 20
Daniel Johnston 22
Grizzly Bear 24
Mellotrons 26
Vijay Iyer 28
Erasto Vasconcelos 30
Electrelane 36
My Cat Is An Alien 38
Bonde do Rolê 39
Girl Talk 42
Resenhas
PELVs 48
Bryan Ferry, Joanna Newsom 50
Menomena, The Stooges, Vamoz!,Yoko Ono
Compactos de Vinil 62
Ao Vivo 64
Mais
Editorial
Invasão Sueca
Diário de Turnê: Fossil
Gogol Bordello
Javiera Mena
Top 20: Alexandre Kassin
Selo: Morr Music
2
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6
7
8
15
16
44
46
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Sem Título (2007)
4
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Editorial do Coquetel Molotov
15 de março, 23h, Ramones ligado, precisamos terminar este editorial.
E o chato é que olhamos para um lado e vemos o novo CD/DVD do
Gang Gang Dance, God´s Money, olhamos para o outro e está o material
do disco Veneer, do José González, pronto para ser lançado, e, ainda,
acabamos de receber de Gilberto Custódio a resenha do novo disco do
Butcher´s Orquestra e não tem mais espaço. As coisas estão assim. A
cada minuto, novidades, e tentamos passar um pouco do que achamos
importante nesses últimos meses.
Esta edição foi feita com muito carinho e está linda! A mooz, mais uma
vez, entregou seu coração para os projetos do Coquetel. Nas páginas a
seguir vocês encontram pedaços de sonhos levados por muita música.
Afinal, apenas por amor a ela e às pessoas em torno dela que isso tudo faz
sentido.
Como tudo do Coquetel, esta revista só existe graças aos esforços de
nossos colaboradores, artistas, leitores e apoiadores. Pessoas que
contribuem com muito mais do que textos e arte. E com esta revista, nos
despedimos de Viviane Menezes, que deixou o Coquetel Molotov e passa
a se dedicar a outros projetos. Vivi se despede com uma colaboração na
matéria de capa de Erasto Vasconcelos. Deixa muitas saudades.
Editorial da mooz
Revista Coquetel Molotov N°2. Dá vontade de ficar repetindo pra cair
a ficha. Agora é real. Depois de mais de um ano, aí está. Não foi fácil
chegar aqui, mas esta revista tem gostinho de vitória, superação e,
acima de tudo, de uma grande evolução.
Vê-la impressa é como receber um certificado de que, aos trancos e
barrancos, estamos seguindo a trilha certa. Desde que começamos
a mooz, há exatos 2 anos, tudo que queríamos era fazer design
voltado para a indústria cultural, e de cara tivemos a oportunidade
de trabalhar com o Coquetel Molotov. Mesmo assim pensamos em
desistir um bocado de vezes. Sério, às vezes parece impossível! Mas
quem se entrega de coração a um projeto de vida, não cai fácil.
É por isso que estamos aí. É por isso que o Coquetel está aí. E é por
isso que a revista está de volta, e em cores. A revista agora é colorida
de cabo a rabo!
Esperamos que tenham uma experiência agradável ao ler e ver cada
página, e que esperem ansiosos (mas não por muito tempo) pela
terceira edição. Boa leitura!
* Esta revista é dedicada a João Nunes da Silva (1917 - 2007)
EXPEDIENTE
Editora: Ana Garcia ([email protected])
Projeto Gráfico: mooz (www.mooz.com.br)
Editor de arte e fotografia: mooz
Co-Editor: Jarmeson de Lima
([email protected])
Resenhas: Tathianna Nunes
([email protected])
Ao Vivo: Coquetel Molotov
Revisor: Filipe Luna (fi[email protected])
e Roberta Holder ([email protected])
Leonardo Faria ([email protected])
Marcos Maia ([email protected])
Patrícia Arvelos (www.patriciaarvelos.com)
Tammy Karlsson ([email protected])
Tuca Siqueira ([email protected])
Sanja Gjenero (www.sxc.hu/profile/lusi)
Ilustradores:
Allan Sieber (www.uol.com.br/allansieber)
Daniel Johnston (www.hihowareyou.com)
David Edmundson ([email protected])
Diego Medina (www.diegomedina.com)
Jornalista Responsável: Jarmeson de Lima Nascimento
Eliane Testone ([email protected])
DRT/PE 2970
Heto (maquinado.org)
Produção: Coquetel Molotov
Human Empire (www.humanempire.com)
Julieta Pillar Japiassú ([email protected])
Editor on-line: Jarmeson de Lima
Luciana Lins ([email protected])
Marcelo Garcia (www.molho.tv)
Colaboradores: Aldemi Souza, Alexandre Kassin, Aluízio Gomes Maya Hayuk (www.mayahayuk.com)
Jr., Ana Lira, André “Balaio” Gomes, Anísio Curtina, Bóris
Rti9 (www.rti9.com)
Orellana, Bruno Dias, Bruno Nogueira, Cleyton Brito, Cristian
Roberto Opalio (www.mycatisanalien.com)
Araya, Dagoberto Donato, Daniela Arrais, Danilo Corci, DJ
Thaís Beltrame (www.fotolog.com/thais_beltrame)
Dolores, Eliane Testone, Endrigo Chiri, Fábio Trummer, Felipe
Victor Zalma ([email protected])
Rodrigues, Filipe Luna, George Frizzo, Gilberto Custódio Jr.,
José Teles, Kiki Ferreira, Luiz Otávio Pereira, Marcelo Damaso,
Fotografia de capa: Tuca Siqueira
Márcio Custódio, Márcio Padrão, Rafael Crespo, Ramiro
Ilustração de capa: mooz
Zwetsch,Thais Coimbra, Thomas Morr, Viviane Menezes
Fotógrafos:
Anderson Brito ([email protected])
Eddie Edmundson ([email protected])
Elder Costa ([email protected])
George Frizzo (www.fossilsoundtrack.com)
Fernanda Chemale (www.wanderwildner.com.br)
Felipe Gurgel ([email protected])
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Impressão: CEPE
Tiragem: 3.000 Exemplares
Agradecimentos: CEPE, CHESF, Prefeitura do Recife, Rádio
Universitária FM, Red Bull, Saraiva Mega Store, Swedish
Institute, UK Pub, Virtuosi, Amplitude, Estereoclipe, Slag, Alf
Olofsson, Bruno Ramos, Diana Gazatti, Diogo Nunes, Eduardo
Pereira, Fred Lasmar, Gutie, João Z, Júlio Cavani, Lívio Meireles,
Pedro Mendes, Silvia Guimarães, Tiago Arantes, Viviane Menezes,
Wendy McNeil, The Evens, Mellotrons, família, amantes, amigos,
bandas, colaboradores e você
Palavras: Coquetel Molotov
Fotos: Tammy Karlsson e
Tathianna Nunes
Ilustração: mooz
Com a parceria mais que bem vinda do Swedish Institute, a Invasão Sueca
já começou. O porta-voz é o Coquetel Molotov que passou a criar bons laços
musicais com o país e trouxe em dezembro de 2006 três grupos de uma só vez.
Jens Lekman, Hell on Wheels e El Perro del Mar foram os primeiros a vir da
Escandinávia para conhecer o caloroso público brasileiro. A invasão começou
em Curitiba, passou por São Paulo e Rio de Janeiro e ainda contou com a
participação especial do norueguês Erlend Oye (Kings of Convenience e
The Whitest Boy Alive). A Invasão Sueca continua neste ano e em abril
ganha um site oficial com diversas novidades do mundo
sueco. As bandas participantes da Invasão
Sueca ainda terão o privilegio de terem
discos lançados no Brasil, a exemplo
do The Odd Church do Hell on Wheels.
O lançamento do disco Veneer de José
González, em maio, marca o início da
Invasão Sueca neste ano, que ainda tem
três turnês com artistas diferentes
na manga! De agora em diante,
qualquer invasão que venha
da Suécia será sinônimo de
boa música!
Coquetel Molotov é: Ana Garcia, Jarmeson de Lima e Tathianna Nunes
mooz é: Daniel Edmundson, Eduardo Rocha, Gustavo Gusmão e
Marina Pontual
Enviar material para:
Coquetel Molotov
Caixa Postal 6280
CEP: 52041-000
Recife-PE
Site: www.coquetelmolotov.com.br
Rádio: Todos os sábados das 11h às 12h na Universitária FM, 99.9
www.tvu.ufpe.br
Esta revista utiliza a fonte Coquetel Molotov, exclusivamente
desenvolvida pela mooz para os títulos das matérias
Todos os textos, fotos e ilustrações estão no CC sob a Licença
Creative Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.0 Brazil
Commons, exceto as fotos de divulgação
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Prefeitura do Recife
A REVISTA COQUETEL MOLOTOV É GRATUITA E NÃO
PODE SER COMERCIALIZADA. LEIA E PASSE ADIANTE
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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preocupação era passar com toda a bagagem e a
parafernália que usamos nos shows - guitarras,
processadores de efeitos, baixo, peças de
bateria – pelo check in sem pagar excesso. Sem
chance. Cada rack de efeitos, as conhecidas
pedaleiras, pesavam o suficiente para nos
preocuparmos. Os instrumentos iam na mão.
26.11, 12° Goiânia Noise Festival Goiânia/GO.
Palavras: George Frizzo
Fotos: Anderson Brito, Elder Costa, George Frizzo,
Felipe Gurgel e Marcos Maia
Ilustração: mooz
A versão oficial dizia que seria
uma mini tour de divulgação do
disco Desconforto (Peligro/Open
Field), primeiro CD do Fossil. Rock
instrumental experimental climático,
vindo do Nordeste do país. Os
números apontavam para 11 shows,
cinco músicas por show, em média,
quatro cidades e 20 dias de viagem.
A versão não divulgada era mais
cruel; horas intermináveis de espera.
Longas distâncias percorridas a pé
carregando instrumentos. Noites
em claro a espera do metrô. E o
pior; alimentação a base de pizza,
macarrão instantâneo e salgados
de padaria. Não há mais glamour
nenhum no rock, muito menos na
música instrumental.
24.11, A viagem - Fossil Tour 2006
começa.
Quatro horas da manhã. Não há ânimo que
sustente quem dormiu pouco. Nosso vôo
para Goiânia sairia em uma hora e nossa
Chegamos a Goiânia, e no caminho do
aeroporto para o hotel passamos por um
Parque dos Dinossauros. Tudo indicava que
estávamos na cidade certa. Mas foi só na
última noite que fizemos o nosso primeiro
show da tour. Era a noite mais pesada, com
Ratos de Porão como atração principal.
Entramos completamente na química do
festival. O show foi explosivo, nos trazendo
uma excelente resposta de público. O que
veio como sorte para os outros shows da
tour, afinal, foi do convite para o festival que
surgiu a idéia dessa viagem.
30.11, Milo Garage - São Paulo/SP
A primeira vez do Fossil na cidade cinza, e
também a primeira vez no Milo Garage. A
noite era de festa, da famosa Festa Peligro,
comandada por Guilherme Barrella. Na
platéia, ilustres nos assistiam, e alguns
amigos também estavam presentes. O show
foi bem à vontade e nos sentimos tocando em
casa. Um bom show, com direito a benção
do próprio Milo. A festa seguiu com uma boa
discotecagem e voltamos para casa só pela
manhã.
09.12, Bar do Zé - Campinas/SP
01.12, Funhouse - São Paulo/SP
Foi unânime, um dos melhores shows que
fizemos na tour. A Funhouse é uma das casas
de shows mais tradicionais de São Paulo. A noite
era de casa cheia, a produção foi muito atenciosa e
retribuímos com um show energético. O público,
bastante receptivo, pediu bis e foi prontamente
atendido.
03.12, Germinal - São Paulo/SP
O Germinal é um restaurante vegetariano,
lugar curioso e totalmente atípico para shows
desse gênero. As bandas que tocaram eram
extremamente pesadas: Fossil (instrumental
experimental), Vincebuz (stoner), Fuzzly
(stoner) e Elma (metal). Nosso show foi
curto, mas intenso, três músicas apenas.
Primeiro show com o Elma, banda que nos
acompanharia por mais uns três shows.
06.12, Clube Berlin - São Paulo/SP
Noite chuvosa, como a maioria das outras
noites. Já comentei que São Paulo é
absurdamente grande? A cidade é tão grande
que permite se fazer vários shows em um
espaço pequeno de tempo, no nosso caso
duas semanas. E sem tocar nos sábados e
domingos, os dias tradicionais para shows.
Nesse show tivemos problemas em uma das
pedaleiras. Pane total na guitarra do Eric.
Terminamos o show como um trio.
07.12, Clube Belfiori - São Paulo/SP
Excelente clube. Ótimo clima para um show
mais intimista. Eu particularmente curti muito
o primeiro show do Cleberdantas, projeto de
dois músicos do Hurtmold (uma de minhas
bandas nacionais preferidas), que dividiam o
palco com o Fossil e o Elma nesta noite. A casa
definitivamente gostou de nós, surgindo o convite
para um outro show, e nós que sem dúvida,
gostamos da casa, aceitamos o convite.
08.12, Espaço Impróprio - São Paulo/SP
Localizado pertinho da Augusta, rua onde ficam
alguns bordéis e casas de shows importantes de
SP. O Impróprio, faz jus ao nome, é pequeno
e pra chegar no lugar do show (que é embaixo
do bar) você desce uma escada muito sui
generis. O show foi legal, tocaram com a gente
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
o Ordinária Hit e o Eu Serei a Hiena em uma
formação compacta (sem baixo e bateria,
apenas duas guitarras). O público reduzido
se mostrou bastante atento. Não pude deixar
de provar o Yakisoba vegetariano super
recomendado que é servido no restaurante ao
lado. Aprovado.
Campinas fica cerca de uma hora de São
Paulo. O Bar do Zé é o point tradicional
do rock campinense, onde quase todas as
boas bandas da capital tocam. Não poderia
ser diferente com a gente, mesmo só de
passagem, fomos convidados pelo Fluid para
fazer a visita. Acontece que não tínhamos onde
ficar, então foi descer do ônibus, tocar, beber,
subir no ônibus e voltar a São Paulo. E assim
foi. O show refletiu o cansaço da banda, lento
e melancólico, a ponto de alguém perguntar se
nos inspirávamos no clima gelado do Nordeste.
Era uma piada, a pessoa havia gostado do show.
12.12, Clube Belfiori - São Paulo/SP
O mais intimista de todos os shows que fizemos.
O Fossil trabalha com o conceito de música
aberta em seu som, dessa forma um show
pode ser mais climático e intimista em
quanto outro mais visceral e pesado, tocando
simplesmente as mesmas músicas nos dois
shows. Tivemos como convidados da noite
os paulistas do Labirinto, climático som
instrumental.
13.12, Black Jack - São Paulo/SP
O contraponto do show anterior. O Black Jack
é (era, pois fechou logo após esse show) tido
como a casa do metal em São Paulo. Não por
menos tocamos com Are You God?, Elma e
Facada, todas de muito peso. Definitivamente
foi o nosso show mais pesado e bizarro, mas
totalmente de acordo com a noite.
16.12, Festival Algumas Pessoas Tentam Te
Fuder - Rio de Janeiro/RJ
Em um ônibus fretado pela produção do Festival
seguimos de São Paulo ao Rio de Janeiro por seis
horas. Fossil (CE), Mr. Spaceman (CE), Grenade
(PR) e Motormama (SP). Fazia sol quando chegamos
na Lapa. O Algumas Pessoas... se dividia em 2 casas,
uma quase ao lado da outra, onde as bandas tocavam
simultaneamente. O show foi bem dinâmico. Plugar
os instrumentos e tocar de forma quase mecânica. A
estrada pode fazer isso, deixar você mais amortecido
com o impacto da ação “tocar ao vivo”, da freqüência
dos shows. Tudo pode se tornar automático. Porém,
com o Fossil cada show é diferente, e isso é excitante.
www.fossilsoundtrack.com
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Testado por: Jarmeson de Lima
Fotos: mooz e Fernanda
Chemale / Divulgação
Ilustração: mooz
Acreditem ou não, Wander Wildner nunca foi punk. Sua vida é que foi assim.
Sentimental e romântico por demais, ele faz essas baladas sangrentas que
qualquer punk gostaria de expressar sem saber. Essa inspiração vem de longe
(de fontes como Zé Ramalho, Ednardo e o Journey to the Center of the Earth,
de Rick Wakeman) conforme pude notar ao ver os vinis que ele adquire nessas
jornadas – que vez por outra viram turnês. Wander é quase um andarilho. De
cidade em cidade ele finca sua bandeira e permanece até o show seguinte, tocando
só ou acompanhado das bandas de seus amigos locais. É quase sempre assim
que ele vem a Recife para tocar e passear um pouco. E foi numa dessas visitas que
me encontrei com ele para testar seu ouvido musical. A cada música, foram sendo
reveladas ótimas histórias e causos inacreditáveis desse punk-brega-rajneesh.
Devo
Frank Jorge
“Satisfaction”
“Vida de Verdade”
É o Devo, não é?! Eu me lembro do clipe
deles. Banda sensacional. Todo mundo no
Replicantes era muito fã deles. Pelas idéias
inventivas, pelos clipes maravilhosos.
Por tudo ser uma brincadeira e não se
levarem a sério. É fazer música e qualquer
coisa por diversão. Afinal, a vida é para
se divertir. Isso de que a vida tem que ser
difícil é uma coisa católica.
É uma pena que estão demorando muito a
relançar esses discos do Devo.
Pois é. O Devo era dos anos 80, daquela
época em que a gente ouvia B-52s e essas
coisas new-wave. Era muito bom! B-52s
é uma dessas bandas que eu mais gosto.
E do Devo eu lembro muito bem dos
clipes porque o (Carlos) Gerbase tinha
um hobby de gravá-los da televisão.
Ele tinha uma produtora de vídeo e,
quando estava em casa na hora em
que passavam esses programas, ele
gravava. Senão programava tudo e
deixava gravando pra depois editar.
Pouco antes de a gente ensaiar, o
Gerbase sempre mostrava os últimos
clipes que ele tinha gravado. Então
posso dizer até que eu já era de uma
geração de videoclipes.
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
(Pausa) Ah, É o Frank! (Pausa) Pra você ver como
é... Eu cheguei a notar um pouquinho de Los
Hermanos no instrumental inicial (risos). E os
arranjos de cordas aí são do Marcelo Camelo, não
é? Muito engraçado, cara.
É do disco solo mais recente dele, Vida de Verdade.
Eu tenho que confessar que ainda não ouvi esse
disco. Ouvi algumas coisas em show e nas rádios
em Porto Alegre. O começo dessa música poderia ser
qualquer coisa. Tem um tom de fanfarra e achava que
poderia até ser um grupo regional daqui.
Achei que tem uma orquestração bem ao estilo Pet Sounds.
É. O Frank é um gênio! É impressionante o trabalho
dele. É coisa de gênio. Engraçado que ele já tocou em
carreira solo com baixo e teclado... Mas teve uma vez em
que eu estava em Porto Alegre e assisti a um show dele
no Ocidente e o vi tocando guitarra! E uma guitarra
violenta, apertando distorção e solando! Caralho,
que maravilha! Nunca tinha visto esse lado de
guitarrista dele assim, tipo Elvis Costello. Ele é um
puta músico e muito foda. Pena que o Frank não
viaja. Não pode muito por causa da família e dos
filhos. Mas eu sinto falta dele mostrar às pessoas
porque a Graforréia foi uma das bandas mais
importantes dali do Sul nos anos 80, ao lado do
De Falla e Replicantes. Essas foram as bandas
mais originais dali. E cada uma numa praia
diferente, com características diferentes. Sinto
falta do pessoal ouvir mais esse tipo de som.
Gostaria que ele estivesse mais na estrada.
Não só ele, mas muita gente também como
o Júpiter Maçã que poderia estar fazendo
mais shows.
Trashmen
“Surfin’ Bird”
Putz, “Surfin’ Bird”! Mas com quem seria?!
Esse é o original?
É sim, eu acho. É do Trashmen.
Ah, Trashmen. Legal. Eu nunca tinha ouvido
essa versão. Mas já ouvi Trashmen em
coletâneas. Inclusive tem uma muito legal de
músicas dessa época. Pena que não vou lembrar
o nome agora. A música do Trashmen que está
na coletânea é outra e não essa. Mas de que ano
é essa música?
Assim de cabeça eu não sei dizer o ano. Deve ser
60 e poucos mesmo.
É bem toscão. E olha o jeito que ele canta.
Tirando um sarro. Tirando sarro total. A voz é
bem peculiar... É o rock, né! Isso é coisa que
veio de Jerry Lee Lewis. Tá na essência do
rock. Dia desses eu tava vendo um DVD com
um filme sobre a vida de Jerry Lee Lewis e
foi impressionante. Nem o conhecia direito,
só de clipes e shows. Mas ele é realmente
impressionante! O DVD tem todas as
primeiras apresentações dele na TV. É
genial! Tem essa brincadeira que é coisa do
comecinho do rock mesmo.
The Playboys
“Big Haule”
Esse eu não conheço. Ainda não ouvi. (Pausa)
Realmente não sei o que é.
É o The Playboys.
Ah é? Que legal.
Você conhecia a galera da banda antes ou só a
partir do Abril Pro Rock de 2005?
Hum... Numa vez em que eu estive aqui eles me
deram um disco. Depois, numa outra vez, eles
me mandaram um pelo correio. E a terceira vez
que os encontrei foi lá no Abril Pro Rock, onde
me convidaram a tocar com eles no Palco 3. Eu
achei muito legal a história e ainda o trabalho
que eles fazem lá no manicômio. No lugar até
tinha uma exposição de fotos desse trabalho.
Eu achei a idéia muito bacana. Mas eu não
conheço eles assim tão bem quanto conhecia
a galera do Paulo Francis Vai Pro Céu. Com
o Paulo Francis eu já tinha trabalhado mais e
o The Playboys estou conhecendo assim, em
doses homeopáticas.
Mas esse é um dos hits da banda. Tirando onda
com o medo das pessoas por tubarão.
Ah! (Pausa) Mas eu tenho medo de tubarão
também. Eu até parei de entrar na praia de
Boa Viagem. Eu estava num hotel por lá, mas
saí. Tinha até passado um dia, mas, como
também não pegava o canal 11 (TVU), eu
saí [risos]. É que não adiantava ficar lá em
Boa Viagem sem poder ir para a praia. Não
faz sentido. É muito ruim isso. Noutro ano
eu vim quatro vezes para cá e nem tomei
banho de mar. Não dá pra você dar mole
assim. Pegaram um tubarão dia desses na
beira da praia. Imagina! Eu prefiro nem
entrar. Mas é uma merda isso.
Olho Seco
“Haver Futuro”
Que tosqueira essa gravação! Nem dá pra
entender nada da letra. Não dá nem pra
ouvir a voz quase. É alguma banda local?
É o Olho Seco.
Putz! Que gravação tosca [risos]. O clássico
do punk rock eram essas gravações toscas.
Veja só como era. Ninguém sabia gravar
essas coisas na época. Não se tinha essa
noção e as bandas nem sabiam direito
o que estavam fazendo. Nem sabiam
tocar direito. Só sabiam fazer música.
E os caras que iam gravar também não
sabiam como fazer. Primeiro porque
não entendiam a música. E se você não
entende a música, não saca o jeito que os
caras estão fazendo. Foi assim no primeiro
LP do Replicantes. Aquelas guitarrinhas,
aqueles riffs de guitarra abelha... Ninguém
sabia como extrair esse som. Ninguém sabia
como gravar aquilo. Os caras nunca tinham
gravado algo assim. Tanto é que o som que
tava no disco era o som que a gente tocava.
Era aquilo mesmo. Era amplificador Gianini
com distorcedor Gianini ligado numa caixa
com três entradas: baixo, guitarra e voz. E
de que jeito é que guitarra, baixo e voz saem
numa mesma caixa? Horrível, né! A gente
não sabia fazer música e aprendeu tocando
mesmo. O Replicantes não sabia como era
um esquema de gravação. Só sabíamos que
havia distorcedor e que era com ele que se
produzia esse barulho pra ficar diferente do
que era o normal, a MPB.
A idéia da banda na época então qual era?
Era fazer música. Era fazer uma banda pra
tocar porque a música que rolava na época era
muito ruim. Isso foi bem no começo, mas eu
ainda não era da banda. Quando entrei, uns
três meses depois, a banda já tinha umas sete
músicas. A idéia era passar o tempo porque o
verão em Porto Alegre é muito quente e não
havia nada para fazer. Isso foi em 83/84 e a
música que rolava nas rádios era muito ruim!
O pessoal do Replicantes sabia que o Sex
Pistols tinha começado a banda sem saber
tocar. Isso foi o bastante pra eles comprarem
baixo, guitarra, a bateria de um amigo e um
amplificador para fazer umas sete músicas
em dois meses. Quando eu entrei, tentei tocar
guitarra e não consegui porque não sabia.
E isso foi engraçado porque nessa época eu
estava em turnê com o Alceu Valença em
“Eles já ouviam Dammned,
Buzzcocks, Dead Kennedys,
mas eu não conhecia isso. A
única referência musical dos
quatro do Replicantes que era
igual foi o Camisa de Vênus”
Wander Wildner
Recife. Eu trabalhava na equipe de luz do
Alceu e a gente estava por aqui. Liguei pra
eles de Recife e uma amiga falou: “Os guris
estão pensando em montar uma banda”.
Quando cheguei em Salvador, uma semana
depois, eu liguei pra ela de novo e ela disse:
“Os guris já compraram os instrumentos
e estão tocando!”. E aí eu falei brincando:
“Legal! Quando terminar a turnê aqui eu
volto e entro na banda!” (risos). Nessa
época, em Salvador, tocava a cada meia
hora no rádio uma música de uma
Erasmo Carlos
“Estou dez anos atrasado”
É o Erasmo Carlos agora. O vocal
nem começou ainda, mas eu sei que é.
É demais isso. Eu conheci melhor a obra dele
no ano passado quando o Carlinhos, do Bidê
ou Balde, me mostrou. Eu fiquei louco. Fui depois
lá na Baratos Afins e comprei o Erasmo Carlos e os
Tremendões (risos). Comprei porque o Carlinhos
tinha ficado de me gravar e esqueceu. Mas depois
ele me copiou esse disco e mais o Carlos, Erasmo.
Esse disco eu acho muito bom.
Isso é incrível! Ele fazia isso na época de uma
carreira paralela a do Roberto Carlos. É outra
concepção de música. Eu coloco isso no nível de
Simonal que está em outro patamar musical.
Essa música, por exemplo, não tem refrão, cara.
Ele só vai contando uma história. Só é uma pena
que ninguém conhece isso direito. Todo mundo
só conhece o Erasmo com o Roberto naquela
época da Jovem Guarda. Os discos mais
clássicos dele não se tornaram populares. Por
isso estou voltando a ouvir tudo em vinil. Como
aconteceu, por exemplo, no caso de Simonal.
Todas as coisas que eu ouvi dele, uma vez
ou outra, foram antigamente, no rádio, e já
nem me lembrava mais. O (Carlos) Miranda
é que me mostrou um dia desses aquele disco
da coleção 2 em 1. Eu ouvi e pensei: “Nossa!
Caramba, o que é isso, cara?!”. Mas agora eu não
tenho mais comprado CD. Estou nessa vontade
louca de ouvir tudo em vinil. Nisso eu acabei
comprando um aparelho Philips portátil antigo,
todo cinza. Lindo! E estou comprando agora coisas
em vinil que ouvi e ouvia quando era menor.
Tenho comprado por aí nessas viagens que faço. E
o que tenho procurado ultimamente de mais raro
são os três primeiros discos em vinil dos Novos
Baianos, que é bem difícil de encontrar.
www.wanderwildner.com.br
banda chamada Camisa de Vênus. E
eu ouvia e pensava: “O que é isso?!”. Eu
nunca tinha ouvido punk rock antes. Eles
já conheciam, mas eu não. Fiquei curioso
e fui numa loja que tinha embaixo do
hotel. Perguntei se tinha o K7 da banda e
comprei pra ouvir no meu walkman. Ouvi
aquilo até o final da turnê. Foi curioso
porque eles também estavam ouvindo isso
em Porto Alegre. Eles já ouviam Damned,
Buzzcocks, Dead Kennedys, mas eu não
conhecia isso. Então a única referência
musical em comum dos quatro era o
Camisa de Vênus. Eu ouvia um rock
mais clássico. Quando eu tinha meus 19
anos, o Gerbase me gravou um disco do
Rolling Stones.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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“Eu fico tremendo”, começa Lulina. “Fico com vontade de
sair correndo e preciso de no mínimo três cervejas para
começar a cantar”.
Palavras: Ana Garcia
Fotos: Leonardo Faria e mooz
Ilustrações: Julieta Pillar Japiassu, Lulina, mooz e Rti9
É, percebemos que você é dolorosamente tímida,
quando você cobre o seu rosto com o seu cabelo e se
esconde por trás da sua guitarra, quando você olha para
baixo quando sorri e praticamente sussurra a música
inteira no microfone. Queremos parar de olhar, mas não
conseguimos. Você é a nossa nova esperança.
Luciana Lins é a cantora, guitarrista e a mente por trás do
que era o seu projeto solo Lulina. Depois de ter se mudado
de Recife para São Paulo, Luciana adicionou alguns outros
músicos – Leo no casiotone, metalofone e percussão;
Bruno na bateria; Six no baixo; e Du (quando não está
viajando pelo mundo com CSS) –, conhecidos como os
Causadores, para os seus shows ao vivo. Criando uma
mistura de letras infantis e apaixonantes, vocais lo-fi e
violão, ela faz o que os próprios definem como “folk
geográfico com arranjos futuro do pretérito”. Exatamente
o que encontramos no último disco caseiro lançado pela
Lulina, Sangue de ET (2005), o primeiro álbum que ela
grava sozinha, no seu computador “Hermeto” (“um
iBook albino”). Ela arriscou tocar sanfona, improvisar
bateria com palitinho japonês em latas de cerveja,
gaitas e teclados e Leo ajudou na mixagem e efeitos.
Lulina está no momento gravando Cristalina, o seu
primeiro disco de estúdio, na YB. Deve ser lançado
ainda este ano pela Slag Records. Enquanto isso, ela
continua com suas produções caseiras, gravando
Aceitação do 14, um disco caseiro com letras mais
diretas “sem tantas metáforas no formato de um
sanduíche: duas músicas são só violão e voz,
envolvendo um miolo de psicodelia e queijo prato,
em 14 faixas dessa vez”. Os seus álbuns podem ser
encontrados pela Peligro Discos.
Quais são as mudanças que você sente quando sobe num palco?
Eu fecho os olhos e imagino que estou cantando sozinha no meu
quarto ou peço para os amigos ficarem na frente da platéia. Fico
imaginando que estou só entre amigos e ninguém vai gritar: “Horrível!
Sai daí, coisa ridícula!”. Musicalmente, as canções ao vivo ganharam
muito com os arranjos dos Causadores e na hora do show existe uma
energia maravilhosa entre nós.
Houve uma mudança drástica na sonoridade depois de ter ido morar em São Paulo?
Sim, o som mudou tanto nos discos gravados em casa, quanto na versão ao vivo
com a banda. Antes eu gravava sozinha. Isso fazia com que as músicas ficassem
básicas, apenas voz e violão. Quando vim para SP, fiquei muito amiga de Leo,
que eu já conhecia de Recife, e ele me ajudou a gravar minhas coisinhas aqui,
já que eu não tinha computador. No início, ele só ligava o programa e me
deixava cantar e tocar sozinha. Aos poucos, fomos nos entrosando e criando
coisas juntos. O álbum Abduzida (2003) é o primeiro resultado
disso. Hoje em dia, eu gravo voz, guitarra e mais alguma
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
idéia de solo na casa de Leo e o deixo produzir o resto
da música. Ele acrescenta o que ele sente que precisa
nos arranjos. Um exemplo disso é o álbum de 2004,
o Bolhas na Pleura, que é bem diferente dos anteriores
porque eu deixei toda a produção nas mãos dele.
A formação com banda foi outra grande surpresa.
Em Recife eu tinha os Pnins, amigos e músicos excelentes
que faziam mágica criando arranjos em véspera de shows (sim, quase
sempre só sobrava tempo para a gente ensaiar um ou dois dias antes de
algum show). Quando vim para SP, tive a sorte de conhecer o Dú. Ele ouviu
os álbuns caseiros e gostou. Graças a ele montei uma banda aqui também,
os Causadores. Montei um esquema que é o que eu sempre quis: a banda
se adapta ao que a música precisa e não o contrário, que é o mais comum.
Nosso esquema é mais solto: usamos guitarras, um casiotone, uma bateria,
um baixo e um computador, mas, se uma música precisa só de um pandeiro
e um metalofone, nós largamos tudo e mudamos de instrumentos. A
mistura dos Causadores ficou muito boa e ainda temos muito a explorar na
sonoridade. Estamos só começando.
Você considera a sua música pop ingênua?
Pop, no sentido de popular e fácil de pegar, eu considero sim. Muitas
músicas têm melodias grudentas e são fáceis de tocar. Já ingênuo não acho
tanto. Se for por causa dos temas, vou usar o mesmo argumento de Erasmo
[de Rotterdan], quando escreveu Elogio da Loucura. Para justificar o fato de o
livro ser aparentemente bobo, ele diz que não é o único a fazer isso: conta
que Homero já escreveu A Guerra dos Ratos e das Rãs, Virgílio já fez um
poema sobre mosquitos e Plutarco compôs um diálogo entre Ulisses e um
grilo transformado em suíno. Ainda termina dizendo: “Se meus censores
não se contentarem com essas razões, então imaginem que já joguei xadrez
e brinquei de cavalinho de pau”.
João Gilberto faz músicas com patos. João Donato tem uma música que eu
acho genial chamada “A Rã”. Assim, eu também faço minhas musiquinhas
sobre ETs, formigas, baratas, “bubararas”, “biriguis” e todo o universo da
Lulilândia, que refletem o que eu sou mesmo, não tenho como fugir disso.
Gosto de poesia e sou uma viciada em metáforas, uso isso nas músicas.
E você sente que é punk rock? Com certeza tem o espírito faça-você-mesmo.
Caramba, eu nunca sei o que eu sou. A melhor definição é a dos
Causadores: folk geográfico com arranjos futuro do pretérito. Esse
é o som. Ora distorcemos guitarras para inventar barulhos de naves
alienígenas, ora fazemos valsinhas e arranjos singelos com metalofone.
Depende do que a música pede. Não gosto de rótulos, todo mundo está
o tempo todo tentando classificar as coisas, usando como parâmetro as
suas próprias referências. Então eu sou qualquer coisa que qualquer
um achar que eu sou, sem problemas. Só eu não sei dizer que som
é esse, não tenho muito conhecimento musical pra classificar o
que eu faço. Eu arriscaria dizer que são “musgas”. Só não
me peça pra explicar o que é isso também.
As suas músicas são sobre o quê?
Sobre a minha vida, real e imaginária. Sobre as coisas
que vejo no mundo e dentro da Lulilândia. Todo ano eu
faço um álbum sobre o que eu vivi, juntando todas as músicas
feitas no período. Começou em 2001 com o Acoustique de
France, um disco onde invento que sou uma cantora famosa
na França. No final de 2002, percebi que várias músicas
minhas falavam de sono e sonho. Então fiz o disco
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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“Em 2004, eu tive,
logo no início do ano,
um problema no
pulmão. O médico
diagnosticou ‘Bolhas
na Pleura’ e na hora
meus olhos brilharam”
Lulina
Cochilândia, gravado numa
madrugada sozinha, cantando
baixinho para não acordar
ninguém. Em 2003, eu fui
para a Amazônia e depois para
SP, de férias, só que acabei
recebendo uma proposta de
emprego e ficando por lá. Foi
o ano do álbum Abduzida,
que mistura a descoberta de
“biriguis” e “bubararas” na
Amazônia com os seres estranhos que me abduziram em São Paulo.
Em 2004, eu tive logo no início do ano um problema no pulmão. O
médico diagnosticou “Bolhas na Pleura” e na hora meus olhos brilharam.
Bolhas na Pleura é o nome do disco de 2004. E, em 2005, a Lulilândia cada
vez mais passou a ser uma cidade só de veraneio. Tive muitos problemas
emocionais, e uma realidade menos fantasiosa e mais observadora começou
a povoar as minhas canções. Daí surgiu o álbum Sangue de ET, nome de uma
bebida que tomei numa festa e que eu inventei ser a salvação para lavar a
alma das desgraças. Já 2006, foi o ano da Aceitação do 14, quando eu aceitei
os problemas e saí do Lexotan à água de côco: depois de passar os piores
bocados da minha vida, eu comecei a viver os momentos mais felizes dos
meus últimos três anos. O 14 realmente me surpreendeu.
e já estava de saco cheio de tocar as mesmas músicas. Aí comecei a
inventar as minhas, compondo baixinho no meu quarto. Com o tempo,
passei a usar a música como válvula de escape: uma forma de conversar
comigo mesma, já que eu não era muito de me abrir com os outros.
Assim fui compondo por anos, sem mostrar para ninguém. Só aos 20
anos a minha família descobriu que eu sabia tocar violão. E só aos 22
tomei coragem e comecei a mostrar algumas composições aos amigos.
Por que você decidiu começar a cantar? A guitarra e o canto vieram juntos?
Eu não decidi, a coisa foi surgindo. Quando eu tinha uns oito anos, fiz
uma bandinha com meu irmão e meu melhor amigo na época. A gente
construiu os instrumentos (duas guitarras de madeira, que a gente mesmo
pintou e colocou umas cordas de nylon, e uma bateria feita com latas de
leite em pó). Isso foi o mais próximo que cheguei de querer um dia tocar e
cantar. Quando comecei realmente a compor com o violão no meu quarto,
foi mais pra desabafar mesmo. Não tinha a pretensão de mostrar pra
ninguém as coisas que eu tocava ou cantava – porque me achava péssima
tocando (aprendi sozinha, ainda hoje toco errado muitas notas) e achava
minha voz fraca, tinha vergonha de tudo. Não achava que um dia ia tocar
guitarra, montar uma banda e cantar minhas músicas por aí. Até hoje acho
tudo isso muito nonsense.
Quando você começou a tocar violão? O que te impulsionou?
Eu tinha uns 15 anos quando peguei um violão antigo que morava no
meu guarda-roupa e resolvi tentar aprender algumas músicas, usando
aquelas revistinhas com cifras de violão. Meu
objetivo era aprender umas baladinhas
para impressionar os meninos
da rua. Achei que isso me
ajudaria a conquistar o menino
que eu gostava e funcionou. Só
que eu tinha poucas revistas
Lembra da sua primeira música? Como era? Ainda tem a letra?
Antes de aprender violão eu gostava de criar músicas no colégio. Inventava
canções para facilitar a decoreba de alguns assuntos e acabava espalhando
para os amigos. A música mais antiga que fiz foi para um trabalho da
escola sobre comidas típicas. Eu tinha oito anos, a letra era assim: “O
mungunzá da Lulu é gostoso pra chuchu / mungunzá feito com côco
gaste pouco o seu tutu / meu mungunzá tem uma coisa que outros mil
não têm / é gostoso, economiza e não dá diarréia em ninguém”.
Depois que comecei a compor com violão no meu quarto, a música mais
antiga que me lembro é uma com uma letra estranha, algo como: “A
nossa casa está coberta de pele morta...”. Acho que estava estudando
muita Biologia nessa época, lembro da professora falando que, quando
a gente coça o braço, cai um monte de células mortas pela casa.
Existiam artistas que te impressionavam na época? Você queria ser alguém?
Até hoje me considero uma pessoa com poucas referências musicais.
Quando comecei a compor, ainda na escola, escutava Nirvana, Ramones,
Sepultura e o que os meninos me apresentavam. Quando entrei na
faculdade, minha vida musical mudou. Foi quando conheci Belle and
Sebastian, Velvet Underground, Beat Happening, Vaselines, Cat Power,
PJ Harvey, Stereolab, Yo La Tengo e pirei. Descobri todo um universo
musical novo com o qual eu me identificava completamente.
O que você sente que tem mudado desde então?
O fato de conhecer novas músicas é algo inspirador, só que mais para as
coisas que eu sinto, penso ou escrevo do que para o som que eu faço. A
base das minhas composições continua a mesma: uso um violão ou uma
guitarra e voz, e só depois é que penso se aquilo vai virar um indie rock
ou um samba. A descoberta de sons novos é legal porque acrescenta
experiências à sua vida, que é de onde você vai tirar as composições
de verdade. Mas em termos de sonoridade, as minhas músicas
têm mudado menos por influência do que eu escuto e mais por
influência das pessoas que criam e tocam comigo, que trazem suas
referências musicais e pessoais e acrescentam muito às músicas.
www.myspace.com/lulina
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Palavras: DJ Dolores
Fotos: Divulgação
Ilustração: rti9 e mooz
Perguntado qual seria seu disco de world music favorito, o
auto-intitulado cigano punk, Eugene Ürtz respondeu na hora:
“Fresh Fruits for Rotting Vegetables. No lugar de onde vim,
Dead Kennedys é chamado de world music”. Nada mais
coerente que a resposta desse ucraniano que cultivou sua
cultura rock com toscos LPs piratas prensados em sobras de
radiografia na era de chumbo do regime soviético.
Atualmente radicado em NYC, Ürtz é o cara à frente do Gogol Bordello,
grupo hardcore muito pouco ortodoxo desde o primeiro álbum, Voila Intruder (Rubric, 1999) até o mais recente Underdog World Strike
(SideOneDummy, 2005), produzido por Steve Albini, uma porrada
que mistura folk balcânico, reggaeton, bhangra e hardcore sem freios
ou bom senso. Entre ambos, Multi Kontra Culti Vs. Irony (Rubric,
2002) e o EP East Infection (Rubric, 2005) apenas amadureceram
o conceito adotado por Ürtz: “pense localmente, bote pra f*
globalmente”.
O carismático Eugene Ürtz é uma figura à parte no mundo
performático do rock: espécie de Iggy Pop bigodudo e tão esguio
quanto. Se atira ao público, sobe nas mesas e, frequentemente, faz
a banda terminar os shows na rua, do lado de fora dos clubs, numa
interminável jam session cigana. Sua disputadíssima noite como DJ
– todas as terças, desde 1998 - no Bulgarian Bar, em Nova Iorque,
é tão explosiva quanto suas canções e, reza a lenda, que na primeira
vez terminou com metade das mesas quebradas. Temperamento
ucraniano é fogo!
Mesmo o nome da banda reflete um senso de humor muito especial:
Gogol Bordello ou, traduzindo livremente, Puteiro do Gogol, é uma
homenagem sarcástica ao escritor Nicolai Gogol (Almas Mortas, O
Nariz), que morreu aos 43 anos de idade, louco e ... virgem.
Com os camaradas do Balkan Beat Box - formado por judeus novaiorquinos – há o projeto J.U.F. (Jewish-Ukrainian Friendship) que
toma o caminho do dub/dancehall com zero caloria de afetação em
dois álbuns magníficos, sendo o mais recente, Balkan Reggaeton, em
parceria com o MC Pedro Erazo, do Equador.
Se você acha que a música popular anda muito chata em suas
variações mainstream – pop, rock, eletrônica – dê ouvidos a
periferia do mundo! Esses caras têm uma fome cosmopolita
que me faz lembrar o início da cena manguebeat - ainda sem o
glamour e o bairrismo do presente - no Recife quando a música
era a única janela para o resto do mundo como nos versos
de “Madagaskar – Roumania (Tu Jésty Fáta)”: “Cus even in
Madagascar / we’ll find some shack below radar / put two turntables
and a film projector in that room / and punk rock ‘n’ roll most
faithfully... / It will occure-cure-cure! ... cure cure cure!”
E se o assunto lhe interessou...
Procure Gypsy Beats and Balkan Bangers (Atlantic Jaxx, 2006),
compilação assinada por Felix B (Basement Jaxx) e Russ Jones
(Future World Funk), uma boa introdução ao gênero. O Selo
belga Crammed acaba de lançar Eletric Gypsyland 2 com
remixes inéditos assinados por queridinhos como o Animal
Collective e Nouvellle Vague enquanto o primeiro volume
da série tem Señor Coconut, Arto Lindsay e este humilde DJ
que vos escreve.
Passou batido no Tim Festival, mas você pode – e deve
– procurar os dois discos organizados por Shantel, DJ da
incrível festa Bucovina Club, originalmente de Frankfurt
e agora espalhada como vírus pelo mundo afora. Nesse
caso, uma viagem da música mais tradicional – mas não
menos vibrante – às máquinas contemporâneas.
www.myspace.com/gogolbordello
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Você é romântica como suas músicas sugerem?
Sim!
Você está apaixonada neste momento?
Sim.
Você poderia falar mais sobre o que está
sentindo?
Não sei explicar, mas é um sentimento
muito bom.
Palavras: Cristian Araya Salamanca
Ilustrações: Thais Beltrame
Depois de cinco anos de apresentações
como Erasure ou Boney M. Para ela, não existia a ideologia negativa
no circuito indie de Argentina e Chile,
da música mainstream dos anos 80. Era apenas música. O mesmo
no fim do ano passado, foi lançado
com os compositores melódicos espanhóis dos anos 70, como Manuel
Esquemas Juveniles (Quemasucabeza),
Alejandro. Artistas que ainda esperam um par de gerações para serem
o álbum de estréia de Javiera Mena
considerados cool por algum improvável revival.
– gerando uma onda rara de ódio/amor quase
incondicional. Mas como é possível uma recémEm todo este tempo, Javiera Mena viveu o que alguns artistas não vivem
chegada de 24 anos alcançar reações tão viscerais?
em três vidas. Ela já se apresentou em palcos de punk rock e discotecas
É necessário revisar sua história singular.
electroclash. Chegou a ter um grupo de apoio com uma mini seção
de cordas, para tocar só com dois teclados Casio à moda de alguma
A primeira vez que ouvi falar em Javiera Mena foi em
estrela teen dos anos 80. Desde que seu álbum foi lançado, ela tem
dezembro de 2001. O lugar era uma grande sala de aula da
sido a favorita da imprensa com a cabeça mais “aberta”. Não obstante,
Universidade Católica do Chile, onde tinham mudado as
muitas pessoas dizem que não gostam de Javiera Mena só porque
cadeiras de lugar e se havia posto alguns microfones
alguns dizem que ela é, de longe, o melhor da música chilena em
no local onde fica o professor. Era um tipo de minimuito tempo. E muitos fundamentalistas do indie ficaram perturbados
festival. Quatro bandas novas, gente bebendo cerveja
quando os seus artigos vinham ao lado de Gepe (outro grande músico
e som péssimo, como de praxe. De repente, ela pára
chileno com menos de 25 anos e também baterista da Javiera) como as
em frente ao microfone. Figura miúda, franja sobre o
grandes promessas chilenas do Século XXI.
olho esquerdo, violão acústico na mão. A gente se cala
como se fosse um passe de mágica e Javiera começa
Fui um dos poucos que pôde escutar antes Esquemas Juveniles. Um
a cantar. Ao princípio, muito tímida e depois mais e
trabalho que demorou mais de um ano para ser gravado, sob o
mais segura de si mesma, até que, ao final, um estrondo
atencioso ouvido do produtor Cristián Heyne (responsável por projetos
cheio de admiração e surpresa termina sua primeira canção.
de pop mainstream de impacto em toda a América Latina), e que
Hoje, Javiera Mena continua uma luta com sua voz ao vivo - o grande
argumento dos críticos para falarem mal dela. Dessa menina com
o violão acústico só permaneceram algumas características. Como
se essa imagem fosse apenas o contorno do que Javiera é hoje. Ela
evoluiu vertiginosamente durante os anos e, nestes quatro últimos,
passou por três fases muito diferentes. Desde sua etapa folclórica
pop (e não folk pop) – que remetia diretamente à música tradicional
chilena –, passou pelo tecnopop do início dos anos 80, para
arrematar em sua atual etapa: onde a batida pop manda e que, sem
arrependimentos, poderia remeter a The Carpenters.
Pode parecer estranho quando se vê isso tudo escrito no papel,
mas essas três etapas têm um denominador comum: o pop.
Javiera se iniciou no mundo da música (em público, ao menos)
quando estava terminando o segundo grau. Desde então foi
conhecendo e deslumbrando-se com novos e velhos estilos
de música pop, que, para ela, resultavam em uma
grande novidade. É por isso que eu, que cresci com
a ética indie dos anos 90, ficava com cara de
espanto cada vez que Javiera me contava
como lhe agradavam grupos
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
tomou o tempo que tinha que tomar. Numa decisão arriscada, Javiera
eliminou um álbum gravado em 2002, que dava conta de sua primeira
fase (a etapa folclórica), por já não considerá-lo representativo de seu
som atual. O tempo lhe deu a razão. Aquele álbum gravado num estúdio
caseiro não tem muito a ver com o som pop de hoje. Nem a sua forma de
cantar. Heyne deu às canções de Javiera uma atmosfera sonhadora, cheia
de arranjos de cordas e uma calidez impossível de se conseguir num
estúdio caseiro, além de lhe ensinar a cantar como é devido. Mas Javiera
não é nenhuma mascote de produtor. Ela compôs e fez os arranjos de
todas as músicas e, mais ainda, teve a decisão final sobre todas as canções.
Algo raro, considerando a trajetória de Heyne.
Voltando ao disco, as 10 músicas que estão incluídas nele têm um
resultado comovente do princípio ao fim. Surpreendem porque não se
espera um disco assim de uma pessoa de 24 anos. O lógico é que, nessa
idade, a pessoa esteja ainda identificada com suas influências musicais ou
estéticas e não que esteja cantando como uma femme fatale. O álbum
também é a prova de fogo para todos aqueles que estão falando
muito, no momento, sobre Javiera Mena sem saber quem ela
realmente é.
www.javieramena.cl
O que te faz feliz? E o que te deixa triste?
Com certeza a minha péssima autoestima me deixa triste. Amor me deixa
feliz.
Você é feliz?
Às vezes Sally é feliz, outras vezes não.
Aos 10 anos, que cantora você queria ser?
Acho que Lena Philipson. Ela fazia um
som Swedish 80’s/schlagermusic, (seus
recentes trabalhos estão bem distantes
disso).
Palavras: Tathianna Nunes | Foto: Frida Glingberg / Divulgação | Ilustração: mooz
Existe um mistério em torno de
Sally Shapiro, a mais nova princesa
do ítalo-disco. A moça não faz
entrevistas por telefone, não gosta
que desconhecidos tirem suas
fotos, nunca gravou um clipe e nem
se apresentou ao vivo. Além disso,
pouco se sabe sobre a pessoa por trás
da cantora. Segundo seu parceiro, o
produtor e compositor Johan Agebjörn,
Sally é muito tímida para relevar seu
nome verdadeiro. Timidez que nos leva
a questionar sua existência. Quando
perguntei o que faz além de cantar,
ela respondeu: “Como Sally Shapiro,
sou apenas uma cantora. Em outros
momentos, ando sob a luz da lua
pensando nos meus casos de amor”.
Não me admira a escolha de Sally de
se guardar apenas para ela. Aqui, tanta
restrição, beneficia a música que fala
por si só: sensível e eloqüente por ela
mesma. A inspiração vem da paixão
de Sally e Johan pelo ítalo-disco
dos anos 80. “Acho uma pena que
este estilo maravilhoso tenha sido
esquecido em 1989. Parte do que é
revivido hoje é apenas instrumental,
o lado eletrônico do ítalo-disco, e
tudo isso é bom, mas a possibilidade
de fazer algo com vocais e mais pop é
maravilhosa”, explica Sally.
Tudo começou quando Johan soltou
algumas mensagens no seu site
anunciando o single de estréia:
I’ll Be By Your Side (Diskokaine,
2006). Em seguida veio o elogiado
(e com razão) Disco Romance
(Diskokaine, 2007), álbum de
estréia do projeto. Ambos de
Gotemburgo, Suécia, Sally e
Johan mostram coragem ao
cantar amor nesses tempos de
ceticismo e chamam atenção
por evocar o ítalo-disco em um
mundo que idolatra guitarras.
Por esses, entre outros
motivos, Sally desponta no
universo da música pop como
a mais nova diva nórdica.
O que você acha de trazer de volta o ítalodisco ao mundo da música pop que hoje é
dominado por guitarras?
Realmente, estou muito surpresa
(positivamente) que pessoas que curtem
indie pop também gostam da nossa música.
Nós pensávamos que apenas os nerds da
ítalo-disco iam curtir. Estávamos escutando
muito pop e indie pop, mais até do que
música eletrônica. Às vezes, fico cansada da
total dominação das guitarras nesse gênero
musical. É divertido saber que a nossa música
se espalhou neste meio.
Algum plano de tocar ao vivo?
Por enquanto não existem planos. Sou muito
tímida, mas talvez um dia. Tudo vai depender
do que sentirei depois.
Qual é a melhor e a pior coisa na música
eletrônica atualmente?
A pior coisa está em todo o bolo de música
eletrônica sem melodias ou quando os
temas são repetidos umas 100 vezes. Eu fico
terrivelmente irritada e estressada quando
escuto este tipo de música. A melhor coisa é
que cada vez mais encontramos garotas fazendo
música eletrônica.
Qual a importância de Disco Romance na sua vida?
Não é tão importante. Estar apaixonada é tão
maior.
www.johanagebjorn.info
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Palavras: Jarmeson de Lima
Ilustração: Allan Sieber
Ele é um dos músicos gaúchos mais intrigantes e
irrequietos de que se tem notícia. Não é só porque
ele era do De Falla, saiu da banda e resolveu fazer
um trabalho solo autoral. Também não é apenas
porque ele já compôs trilhas sonoras de diversos
filmes e curtas metragens, alguns inclusive do peculiar
desenhista Allan Sieber. Talvez porque ele tenha
trabalhado com muita gente diferente e de diversos
estilos, produzindo discos e fazendo remixes para:
Nervoso, DJ Dolores, Grilowsky, Instituto e Totonho,
para citar alguns. Com estilo ou sem estilo definido,
procurando se deixar guiar pelas idéias em conjunto com
os computadores, Flu, sozinho ou em grupo, quer fazer
música e continuar com essa alegria.
Como foi a gravação dos seus discos?
Minhas primeiras gravações solo foram num esquema bem caseiro. Na
época do primeiro disco E A Alegria Continua (Trama, 1999), eu tinha um
pequeno estúdio caseiro em Porto Alegre. Era uma salinha com microfone
e amplificador para guitarra. Agora estou num apartamento no Rio e
quando preciso gravar guitarra e voz, eu combino com os amigos. Na época
eu produzi muita coisa no estúdio do Marcelo Fróes, que tocou guitarra
comigo por um bom tempo. Isso ajudou um pouco a alimentar a minha
liberdade artística porque podia criar fora do meio do meu estúdio.
Como é tocar e colocar em prática nos shows a música que você produziu
praticamente em casa?
Em Porto Alegre, já cheguei a tocar e ter uma banda com sete pessoas. Tinha
duas guitarras, duas percussões, bateria, baixo, teclado... Com isso, já estava
saindo da música que estava fazendo para chegar à praia do rock alternativo.
Mas aí eu percebi algumas coisas: a primeira é que eu estava tocando numa
banda muito grande e eu não sei dizer não para as pessoas. E, em vez
de sair gente da banda, eu preferi sair. Eu fui embora de Porto Alegre e,
quando cheguei ao Rio, quis fazer um som com uma banda mais enxuta.
Então fiquei com a idéia de tocar com base eletrônica, guitarra e, quando
possível, bateria. Um trio e um iPod, o que dispara as bases.
Um iPod?
Sim. O ideal seria um laptop, para fazer algo diferente com teclado. É
algo que quero ter e seria importante porque aquela base no iPod já está
gravada, não tem muito como dar uma variada naquilo. Ela funciona
para dar aquelas texturas estranhas. Mas sempre tento animar isso.
Chamo um guitarrista. Toco um violão meio esquisito. E com baterista
faz uma sujeira maior.
E o que você coloca no repertório dos shows?
O show hoje em dia está com repertório de meus dois primeiros
discos e mais algumas covers que ando tocando. Uma delas é “Frique
Comigo”, dos Mutantes, mas que está no disco da Rita Lee, Hoje É o
No Mix
Palavras: Fábio Trummer, Eddie
Ilustração: David Edmundson
Palavras: Ana Garcia e Filipe Luna | Fotos: Divulgação | Ilustração: mooz
Se você ainda não subiu no bonde do Hot Chip, apresse-se para não chegar atrasado.
Impulsionados pelo monstruoso sucesso do cometa “Over and Over”, o quinteto britânico
está bem próximo de chegar à estratosfera do planeta pop. O mantra, repetido tantas vezes
quanto o macaquinho da propaganda da pilha – citado na própria canção – bateu os chimbais,
Primeiro Dia do Resto da Sua Vida. Também estou tocando aquela “Loving
You”, da Minnie Ripperton. E ainda uma versão de “Não Me Mande Flores”,
do De Falla, com uma base mais rock, mais pesadinha.
Como foi sair do DeFalla e fazer um projeto mais eletrônico?
No De Falla teve um disco onde a gente começou a flertar com o eletrônico.
Foi o Kingzobullshit Backinfulleffect, de 92. Foi a partir dali que comecei a
dar uma olhada e dar uma mexida nisso tudo. Mas foi naquele mesmo
ano em que o De Falla tocou no Hollywood Rock. Com isso, em 93 e 94
foram muitos shows, um atrás do outro, sem parar, e não deu pra fazer
muita coisa. Mas aí o Edu acabou indo morar em São Paulo e a banda
ficou parada por um tempo. Nisso, eu e o Marcelo, guitarrista do De
Falla na época, compramos um PC-486 com 270 Mb de HD e 8 Mb de
RAM. Coisa bem básica para época, mas que ajudou a gente a começar a
aprender e flertar com música eletrônica.
Quais as diferenças de estilo entre seus discos? Cada um soa tão diferente.
Esses discos têm aquelas mudanças totais e radicais que parecem
construção de música de rock progressivo. Isso é uma característica
minha desde que comecei a tocar com o Miranda nos anos 80. A gente
sempre foi mais pro lado da pesquisa musical. O King Crimson era uma
banda que a gente sempre admirou por isso e foi uma influência forte.
Foi algo que ficou na minha carreira e na de todos nós ao tentar fazer
umas maluqueiras, misturar guitarras e esses novos elementos.
Mas, no final, como você define a sua música?
No contexto de música eletrônica, rock e MPB, eu acho que sou mais
como um artista experimental. Fico transitando entre os estilos, flertando
com tudo e tentando descobrir minha personalidade musical. Eu estava
tocando numa produção de áudio mais fechada, com trabalhos em
publicidade e trilhas. Eu estava ficando perdido. Tinha dinheiro, pagava
minhas contas, mas não estava feliz com meu trabalho e minha vida
artística. Tive que dar uma fugida da cidade, ficar mal de grana de novo e
começar minha vida do zero para tentar descobrir esses caminhos.
ecoou por pistas de dança do mundo inteiro e colocou a banda de soul eletrônico com teclados
Casio de hip hop crunk a um passo da breve eternidade no carrossel das paradas de sucesso.
The Warning (DFA/Astralwerks), álbum de 2006, que trazia o sucesso acima referido é apenas
o segundo disco da banda – o primeiro é Coming on Strong (Astralwerks), de 2005 – e um passo
definitivo em direção de sonoridades mais populares. “São discos diferentes”, diz Joe Goddard,
metade da dupla fundadora da banda, por e-mail. “The Warning é um pouco mais grandioso, mais
forte, mais sério, mais maduro, mais confiante, mais extremo em termos de ritmo, sonoridade e
emoção”.
Joe fundou a banda junto com Alexis Taylor, nos idos de 2000 em Londres, e não se podia
imaginar parceria melhor para a banda do que as qualidades dos dois. Na verdade, muito do
que define o Hot Chip vem do contraste dos vocais dos dois. Enquanto Alexis canta em doses
de falsetes, sem a afetação ou pretensa grandiosidade de outros cantores pop, Joe rebate num
monocórdico canto quase falado. Uma canção como “Playboy”, de Coming on Strong, exibe
bem a beleza da dualidade vocal da banda e exibe ainda o humor próximo do absurdo da
dupla, numa óbvia tiração de onda com o gangsta rap. A melancolia de Alexis é intercalada
pelo refrão: “Dirigindo o meu Peugeot / com rodas de 20 polegadas cromadas / Yo La
Tengo estourando no som / de rolê com a capota abaixada”. Em vez de pick-ups Escalades,
um Peugeot. Em vez de 50 Cent, Yo La Tengo. “Quando escrevi essa música quis virar do
avesso todos clichês de hip hop: dirigindo um Peugeot (carro menos hip hop) e ouvindo
Yo La Tengo (banda menos hip hop possível)”.
Esse besteirol é sempre balanceado por uma dose sadia de seriedade, mas na medida,
sem muito exagero, e isso é um dos encantos da banda inglesa. Ao mesmo tempo em
que eles gostam de hip hop, têm uma ligação muito forte com a literatura inglesa – grande
influência nas letras da banda. Fãs de autores como Raymond Carver, Charles Bukowski
e Paul Auster, um deles, Alexis, chegou até a cursar literatura na faculdade. Hoje a banda
aumentou, mas a essência ainda permanece porque, no fundo, as duas cabeças pensantes da
banda ainda continuam no controle criativo. “A gente ainda compõe e grava do mesmo jeito de
antes: eu e Alexis no meu estúdio/quarto”, explica Joe. “Depois ensinamos as músicas para a
banda. Gostamos assim porque podemos fazer exatamente do jeito que queremos”. Entenda a
banda por: Felix Martin, baterias eletrônicas; Al Do It, guitarra e sintetizador Roland; e Owen
Clarke, guitarra e sintetizador Korg. Alexis toca o Fender Rhodes e teclado Casio, enquanto Joe
cuida do baixo. A formação ao vivo promete, mas os brasileiros ficam apenas na imaginação por
enquanto. Tentando adivinhar se eles já descobriram como Stevie Wonder vê as coisas, como
diz a letra de “Keep Fallin’”. Enquanto isso, vá procurando o seu lugar no bonde. Logo logo ele
enche...
www.myspace.com/flufli
Tenho escutado um grupo de funk/jazz
africano, do Benin, chamado TP. Orquestre
Poly Rithmo, de 1972/1980. Os caras
fazem um som muito diverso que mistura
influências do funk americano dos anos
70, música cubana, afro beat, dialetos e,
às vezes, até um francês muito particular
acompanhado de umas guitarras nervosas
que mantém a tradição da sempre boa
guitarra africana. Outro CD que guardo
sempre comigo é uma coletânea de
músicas dos Bálcãs, Gipsy beats & Balkan
Bangers que trazem um mix de fanfarras
tradicionais, remix de bons DJs, muita
adrenalina, música para beber e sair
dançando. Algumas delas são hits
em qualquer pista, pode ser nas ruas
de Olinda, no chuveiro ou passando
o tempo no trânsito, ninguém fica
parado.
Por conta dos cem anos do frevo,
estamos trabalhando muito neste terreno
e, por isso, ando escutando muito este
ritmo ultimamente. Os meus prediletos
são os frevos baianos da década de 70 e
80 dos Novos Baianos, Caetano Veloso,
Maria Bethânia e Gal Costa. Gosto muito
do frevo tocado com baixo, guitarra e bateria.
Recentemente, comprei ainda, uma caixa
com uns CDs de Baden Powel, Violão Vadio.
Nesta coletânea tem várias composições dele
com outras pessoas cantando, acompanhadas
ou não por ele. Acredito que deve ter três
ou quatro décadas de diferença da data de
gravação, um apanhado de sua produção,
gravação de estudos, concertos solo com
bandas geniais. O cara era foda!
Outro som que tenho escutado muito,
inclusive nas casas ou carros de amigos,
é um jazz/arrastado que lembra trilhas de
cinema, sons com imagem.
Ethiopiques, acho que seja este o nome
deles. O último trabalho do Mundo Livre
S/A também me pegou de jeito. Fiquei
feliz de ver o samba andando pra frente.
Para mim, este trabalho dos caras de
Candeias e Barra de Jangada é o que
temos de mais moderno e sofisticado no
samba. Muito massa! E é sempre bom
ouvir o Bowie, Pixies, Stooges. Vi os
Yeah Yeah Yeahs!!! E caiu a chapa, outro
que vi e me encantou foi o Cidadão
Instigado, isso!
www.hotchip.co.uk
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Palavras: Ana Garcia
Foto: Divulgação
Ilustração: mooz
BIANCA CASSADY vs MILITIA SHIMKOVITZ
Uma conversa entre as donas do selo Voodoo-EROS
Por: Ana Garcia | Ilustração: Divulgação
forest fire damned liar
tired whore mommy
praying to the moon
wolf god
pack of daughters
just like your father
lined up to the gun
sun-tanned and sticky perm
worms in the biscuit
shake that shit yo
ankle bracelets all sparkly
shinning like feathers
dainty little demons
freebasing dreams on the
dance floor
moppin it up
taste like muther fuck
kill the cops
so what
Recife, Pernambuco, e ela em Brooklyn,
Nova Iorque. “Eu lembro que Black
Cracker gritou comigo. Estava em um bar
no Brooklyn, sozinha e sem inspiração.
O seu brilho se tornou uma droga. Ela é
completamente viciante”. Com uma voz
doce e um sotaque bonito, Bunny conta
um pouco da sua infância e que tudo na
vida é uma influência, inclusive o que ela
escutava fora do seu quarto. “Eu cresci
escutando as sirenes nas ruas, crianças
chorando, saltos das prostitutas batendo
ao ritmo dos cocôs dos pombos batendo
no concreto, sinos de igrejas e canções de
natal”. Os seus ídolos? “Oprah Winfrey,
Henry Darger, Tammy Fay Barker...”.
Como chegaram na Voodoo-EROS? “Elas
estavam correndo pelo bairro causando
problemas. É, gostamos do seu estilo”.
Passamos alguns minutos falando sobre
a cena de Nova Iorque. Ela conta que a
família da Voodoo-Eros e as suas amigas
do CocoRosie estão indo morar na França,
vão se unir de vez com Spleen. Quando
eu pedi para ela contar a história de Lovers
and Crypts ela começa a rimar baixinho
Melisa Rincon é Bunny Rabbit, projeto que
no telefone: “Lugar para adorar os antigos
nasceu no guarda-roupa do estúdio de Black
líderes, amantes da adoração, líderes
Cracker, alias Celena Glenn, uma obscura
controlam o seu destino, Bunny é a nova
produtora conhecida por poucos pelas suas
adoração, Bunny é gangster, Bunny ama você,
apresentações como a beatboxer do CocoRosie
histórias sobre amantes e criptas (adoração
pelo mundo. Junto com Black Cracker, hoje
antiga), amor e adoração, criptas são lugares
a sua parceria de trabalho e de vida, Bunny
para imortalizar os líderes, criptas são uma
Rabbit criou Lovers and Crypts, o primeiro ato
gangue de amantes solitários, procurando
do “Tall Tales of Bunny Rabbit”, um registro
de poesias com batidas escuras e alucinógenas, amor, um sentido de permanecimento, o
propósito da vida, Bunny ama você, não
melodias doces e sedutoras com pitadas de hip
temer a morte, não se sentir impotente, você é
hop, punk e folk, lançado recentemente pela
amado”.
Voodoo-EROS, gravadora coordenada pela
Bianca Cassady e Militia Shimkovitz.
www.myspace.com/loversandcrypts
“Como tudo começou?”, Bunny Rabbit repete
a minha pergunta numa noite qualquer
em que conversamos pelo telefone. Eu em
20
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Bianca: Qual é o seu nome?
Militia: Militia Shimkovitz, aka Alamosa Bill, Melish.
Bianca: Qual é o seu espírito animal?
Militia: Eu pensei que era o grande búfalo branco,
mas recentemente eu percebi que talvez seja um
cachorro. Talvez um Chihuahua cego.
Bianca: O que você faz?
Militia: Eu faço pequenos desenhos e sopa de
matzoball. Eu colo páginas para o site. Eu colo as
mãos de amigas para elas ficarem bem.
Bianca: O que os seus pais desejam que você
estivesse fazendo?
Militia: Pesquisa medicinal, esposa, mãe.
Bianca: Carta livre.
Militia: Eu tenho dois cactos em um pote ao lado
da minha cama. Toda noite eu desejo bons sonhos
para um e chamo o outro de idiota. Como um
experimento. Essa manhã eu percebi que o cacto
que eu tenho chamado de idiota é realmente maior
e mais forte do que o outro. Isso me faz pensar que
muitos organismos são guiados a prosperar apenas
quando empurrados. Talvez nós todos precisemos
de algo que se oponha a nós.
Militia: Qual é o seu nome?
Bianca: O meu nome é Red Bone Slim, o irmão
gêmeo de Tea Cake. A minha mãe me chama de
Loui e o meu amante me chama de Shug.
Militia: Qual é a sua ocupação?
Bianca: Eu canto músicas espirituais para uma
geração de drogas, sou uma poeta viajante.
Militia: Quais são algumas das características do The
Eternal Children (próximo disco do CocoRosie)?
Bianca: Unicórnios, transexuais, animais...
Militia: Quem você mais admira?
Bianca: James Baldwin e Billie Holiday.
Militia: Qual é o seu maior arrependimento?
Bianca: Teve uma vez que eu tentei pular sobre uma
senhora que estava dormindo ao meu lado durante
um vôo noturno. Eu não quis acordá-la, então eu
tentei pular por cima dela, mas ao invés disso
eu caí direto no seu colo, bem forte. Ela acordou
horrorizada e olhou para mim com os olhos tristes
e confusos. Ela não gritou comigo e nem chorou.
Eu acho que ela já passou por tanta coisa na vida e
isso era mais um incidente ruim. Foi tão triste. Eu
queria me matar.
Militia: Carta livre.
Bianca: Ontem à noite tive um bonito sonho em
que eu dava conselhos sobre como conseguir
meninas para um menino no colegial. Eu disse
para ele ser doce porque as garotas amam doçuras
– e se elas não gostam é porque elas gostam
de ser tratadas mal e então ele não deveria se
importar com essas vagabundas.
www.voodooeros.com
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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compartilhá-las e pensava que tinha algo nelas e
queria que as pessoas escutassem isso. Algumas
pessoas não entenderam. Sorte minha que muitas
pessoas entenderam e assim as fitas começaram a
se comunicar.
Palavras: Ana Garcia e Tathianna Nunes
Ilustrações: Daniel Johnston / Divulgação
Qual é a sua primeira memória musical?
Natural de Austin, Texas (EUA), dono de
Primeira memória musical? Como? Nossa! Não sei! Bem, eu nunca
uma voz quase infantil, Daniel Johnston
prestei atenção à música pop até o primeiro grau, quando o meu
é um mito arredio. Sua música é
irmão levava para casa uns álbuns maravilhosos. Muita coisa
incrivelmente honesta, capaz tanto
diferente e boa como Queen, Carpenters, Elton John e, claro,
de sugerir momentos de desconforto
Beatles. Eu escutava tudo o que meu irmão ou minha irmã
quanto de diversão pura, e nasce de seu levavam para casa e amava tudo.
isolamento do mundo. Os seus primeiros K7s eram gravados na casa
dos seus pais no início dos anos 80 – apresentando um vocabulário
Quando você começou a compor?
próprio recheado de obsessões. No início dos anos 90, Daniel foi
Lembro que eu desenhava e escrevia músicas e histórias.
descoberto por outros artistas e teve algumas canções gravadas por
Mas, no começo, não pensava em ser um compositor.
Quando descobri que realmente queria isso – pelo
bandas como Yo La Tengo e The Pastels. Mas ficou para Kurt Cobain o
menos fazer música – estava no segundo grau e vi
crédito de transformar Johnston em um novo herói cult, valendo-se de
uma apresentação de uma banda de rock. Eu
um gesto simples: deixou-se fotografar vestindo uma camiseta com o
desenho do disco de Johnston Hi, How Are You (Homestead, 1983). A realmente enlouqueci, é isso que eu quero fazer!
Quero fazer músicas como essas! Foi maravilhoso.
partir desse momento, grupos como Sonic Youth, Butthole Surfers
e Half Japanese já homenageavam o compositor. No final de
Você está satisfeito com suas composições e álbuns?
2004, a coletânea Late Great Daniel Johnston: Discovered Covered
Satisfeito? Eu não sei. Eu quero que as minhas músicas
reuniu novos adeptos de suas canções. Em 18 faixas, Teenage
sejam cada vez melhores. Eu quero que cada álbum seja
Fanclub, Tom Waits, Beck, TV On The Radio e Flaming Lips,
melhor que o último, mas isso não significa que eu estou
entre outros, se desdobram em reinventar o mundo de
satisfeito com eles. Uma música é o que ela é e as pessoas
amor, dor e situações estranhas do músico.
apreciam ou não. Se elas querem dizer se uma música
Daniel Johnston é sem sombra de dúvida uma das
figuras mais influentes do chamado lo-fi. Produziu
grandes discos, belíssimas canções e vários desenhos
em meio a internações em clínicas psiquiátricas regadas a
doses de medicação pesada. Daniel luta uma batalha diária
contra uma doença mental crônica que o tem contaminado
durante quase toda a sua vida. Esse “demônio”, como o
próprio Daniel costuma chamar, é retratado no documentário
sobre a sua vida: The Devil and Daniel Johnston, lançado em
2005 sob a direção de Jeff Feuerzeig.
Conversamos com Daniel em 2004, época em que a sua
saúde se encontrava mais estável, ele chegou a exclamar: “Eu
não tenho depressão há anos. Finalmente conseguimos o
remédio certo!”. Mas, nos últimos anos, o estado de saúde
de Daniel tem se agravado e a sua família teme que o pior
esteja próximo de acontecer.
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
é boa ou não pelas qualidades ou erros, elas não estão
realmente escutando a música. Eu canto por cantar porque
é o que faço. Eu não sei... A música é uma pintura, ninguém
pergunta a um artista se ele gostaria de pintar melhor. É o que
é. É a expressão de um momento. Sim, eu quero ser melhor,
mas você sabe, sou o que sou.
Tenho a impressão que a base das suas músicas é a sua própria vida.
Sim, eu tenho sorte neste sentido. Eu escrevo sobre a minha vida.
Tudo que eu canto eu senti por experiência e este deveria ser o
caminho para qualquer pessoa que esteja tentando escrever uma
música. Cantar algo que viu, sente ou espera. Caso contrário, não é
realmente uma música.
Você tem idéia do efeito que sua música causa nas pessoas? Ela
afeta você também?
Sim, eu acho, mas não tenho certeza se entendo o efeito
que causa nas pessoas ou não! Quando eu entregava as
minhas fitas cassetes, bem no início, era porque queria
Que artistas conseguiram passar alguma coisa pra você?
Gosta de cantar alguma música de outros músicos?
Bem, eu escuto muita música, mas eu não escuto
rádio ou música pop. Eu não fico sabendo do
que está acontecendo na cena pop mundial.
Não é bom e não vale a pena. Eu escuto muitos
álbuns antigos e estou comprando álbuns antigos
o tempo todo. Às vezes, eu só escuto uma vez.
Eu não faço muitos covers de artistas. De vez em
quando, eu coloco umas linhas de uma música dos
Beatles em um disco ou algo assim porque fica bem.
Mas eu não procuro artistas para fazer um cover.
O que você sente quando uma música é finalmente
terminada?
Bem, quando um álbum é acabado, a sensação
é boa. Mas, quando uma música é terminada...
Eu escrevo muitas músicas. Isso é o que eu
realmente quero continuar fazendo agora. Eu
fico animado em escrever músicas e eu tenho
sorte suficiente de estar fazendo isso o tempo
todo – a não ser quando estou desenhando.
Mas quando uma é terminada eu quero é
escrever outra!
Se você pudesse mudar alguma coisa, o que seria?
Eu não sei. Eu acho que gostaria de ser rico ou
magro ou alguma coisa assim. Mas eu não sei
se iria mexer com o destino. As coisas são da
forma que são. Eu posso dizer que gostaria que
tivesse sido melhor. Eu acho que gostaria que eu
tivesse a energia criativa que eu tinha quando eu
era mais jovem. A minha arte era melhor naquela
época também. Eu gostaria de não ter problemas
com depressão ou de não ter perdido tempo em
instituições. Eu não desejo isso pra ninguém.
Você consegue pensar em piores ou melhores momentos?
Os melhores momentos são provavelmente
enquanto eles estão acontecendo. E você não
consegue reviver isso ou ter algo melhor. Alguns
dos meus grandes momentos foram algumas
aparições na MTV em que eu me sentia bem
na época. Trabalhar com ótimos músicos
como Brian Beatty ou Mark Linkous foi muito
excitante. Eu gravei na BBC de Londres, no
estúdio onde grandes bandas já gravaram antes,
e isso foi legal. Momentos ruins tiveram muitos
também, mas isso é depressão crônica. Muitos
altos e baixos.
O que faz você triste?
Não poder comprar histórias em quadrinhos
ou discos. Eu realmente gosto de colecionar
HQ e estou sempre procurando por uma
oportunidade para sair e comprar música e HQ.
Eu moro em uma cidade pequena que não está
perto de nada interessante. Então é difícil sair.
O que deixa você com raiva?
Eu não sei. Eu não sinto muita raiva.
O que faz você sorrir?
THE DEVIL AND DANIEL JOHNSTON
Uma menina bonita. Uma pessoa com um
Direção: Jeff Feuerzeig
rosto doce que parece ter muita bondade dentro Palavras: Jarmeson de Lima
de si. Só o seu sorriso ou a forma como ela anda
Ainda hoje a música de Daniel Johnston incomoda,
ou vira a sua cabeça. Eu gosto de uma menina
causa estranheza e ainda assim encanta as
bonita. Isso me fará escrever uma música.
Country ou Blues?
Oh, eu sou blues, com certeza. Eu não tenho
nada contra música country, mas eu sou blues.
Você nunca pensou em deixar a música para
trabalhar apenas nos desenhos?
Eu desenho muito, é a única forma que eu
recebo um trocado. Eu uso hidrocor. As pessoas
pedem acrílico, mas eu fico confortável em usar
hidrocor. Eu desenho desde a alfabetização.
Os meus pais sempre me mantiveram bem
equipado com papéis e lápis para me ocupar
e eu vivia os meus desenhos como eu vivia as
minhas músicas.
Eu vi que você tocou no Benicassim, na Espanha,
há alguns anos. Você gosta de festivais?
Oh, eles são OK. Eu me sinto muito sob
pressão com um público muito grande, mas
todo mundo é ótimo. Todo mundo tem
sido ótimo em todos os lugares que fomos.
Estávamos no Benicassim, mas também em
outros nove shows na Europa um mês antes
disso e tivemos alguns shows na Inglaterra e
na Escócia. Eu não gosto de viagens de avião
demoradas. Eu não gosto de esperar e viajar,
eu fico sempre querendo chegar em casa para
poder trabalhar nos meus projetos. Eu só
quero ficar em casa e escrever músicas, mas
as pessoas falam que eu preciso sair de casa e
ser visto e eu acho que isso é verdade.
A música é...
A minha salvação. Como eu teria conseguido
sobreviver alguns momentos se não pudesse
cantar sobre o que estava acontecendo? Eu
conheço muitas outras pessoas que falam a
mesma coisa quando passam por momentos
difíceis, então eu sei que existe algo nisso. A
música é algo que eu tenho que fazer. É uma
compulsão. É a minha vida.
www.hihowareyou.com
pessoas. Se sua música carrega tantos elementos
contraditórios e díspares, é porque assim podemos
concluir que foi a sua vida. Pelo menos enquanto
foi retratada no excelente documentário The Devil
and Daniel Johnston. O filme tenta recontar toda
a trajetória de Daniel, desde o começo de suas
tentativas de composição musical, em sua casa
– sendo atordoado pela repressora educação cristã
de seus pais – até este período atual de sua vida.
Dispondo de muito material do arquivo pessoal
de Daniel, o que inclui gravações em fitas K7 e
imagens em super-8, o diretor Jeff Feuerzeig
reconstitui certos episódios que marcaram a
adolescência do jovem cantor – que em tom
autobiográfico usava seu gravador portátil como
um diário. Nesse mesmo diário, ele já cantava
músicas para seus amores platônicos. Mas antes
do espectador pensar em algo do tipo “já vi esse
filme antes”, há alguns episódios na vida de
Daniel que não aconteceriam com ninguém mais
e a nenhum outro artista além dele.
Episódio memorável No 1: Enquanto era empregado
da McDonalds em Austin, Daniel copiava suas
fitas musicais e entregava aos amigos e às pessoas
que conhecia. Numa dessas, a MTV americana,
em seus primórdios, veio realizar um show na
cidade com as bandas locais. Como Daniel era
bastante conhecido no local, chamaram-no para
o evento. Nesse momento ele conhece a fama e
o mundo conhece Daniel, que solta na TV sua
famosa frase: “Eu sou Daniel Johnston e esta é
minha música”.
Episódio memorável No 2: Daniel viaja para Nova
York, onde é acompanhado pelo Sonic Youth.
Andando pela cidade junto com a banda, Daniel
tem um surto e entra em pânico, querendo sair de
lá a qualquer custo. A medicação dada não resolve
e a banda não sabe mais o que fazer com ele.
Episódio memorável No 3: Já nos anos 90, Kurt
Cobain aparece na MTV com a camiseta Hi,
How Are You. Nesse momento vemos pela
segunda vez o impacto que a Music Television
teve (in)voluntariamente em sua carreira. Surge
um grande hype em torno do nome de Daniel
Johnston e seu nome é disputado por duas das
maiores gravadoras dos EUA. Mas devido ao seu
recém-adquirido fanatismo religioso cristão, ele
se nega a assinar contrato com a Elektra porque o
Metallica faz parte da gravadora e ele acredita que
a banda tem pacto com o diabo.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
23
as suas 18 músicas e com as formas e estilos
diferentes que ela tinha. Era como uma grande
jornada épica, pelo menos para mim. Algumas
das músicas mais simples que ela escreveu,
me fazia pensar em como poderia escrever
músicas simples que ainda podem ser grandes,
por isso, fui atrás de uma guitarra. Quando
consegui, comecei a estudar música.
Você lembra da sua primeira música?
A primeira música que escrevi foi no segundo
grau, mas não lembro muito dela. Eu lembro
que escrevia MUITAS músicas ruins, mas
eram prolíficas. Eu escrevi uma dúzia delas. Foi
engraçado pensar nelas recentemente. Depois eu
parei por um tempo e voltei a escrever material
novo. Por mais estranho que seja, a PRIMEIRA
música que eu escrevi era chamada de “Frolic”,
mas a música nunca foi usada para nenhum
lançamento. Permanece não ouvida por muitos,
apenas alguns amigos a têm. Não é muito boa.
Palavras: Ana Garcia e Tathianna Nunes
Fotos: Divulgação e Sanja Gjenero
Ilustração: mooz
“Minhas primeiras memórias
musicais seriam escutar meu avô
e minha avó cantando clássicos
em um piano velho e desafinado.
Por alguma razão, aquelas vozes
estranhas, mas maravilhosas, em
conjunto com o desafino do piano,
soavam perfeitas. Acabei usando este
piano em “Shift”, música de Horn of
Plenty (Kanine, 2004)”. Desde pequeno,
Edwart Droste já elucidava seu interesse
em fazer parte de um mundo paralelo na
música, onde tecnologias duvidosas se
aliam aos clássicos para criar algo
belo e precioso. Tendo como base
uma família musical, - “minha mãe
acaba de se aposentar, mas passou
boa parte de sua vida ensinando
música a crianças, e meu avô foi,
durante um bom tempo, uma das
cabeças do Departamento de Música
de Harvard”, - Droste cria uma série
de composições que compilam
24
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
colagens e misturam samplers de
sons descompromissadamente
encontrados com várias vozes,
pianinhos, banjos, barulhos e outras
coisinhas.
Posso estar enganada, mas o grupo
nova-iorquino Grizzly Bear, projeto do
lindíssimo multi-instrumentista Ed
Droste com seus amigos Christopher
Bear, Daniel Rossen e Chris Taylor
(também maravilhosos e, melhor de
tudo, solteiros), não é algo temporário.
Com dois discos lançados, Horn of
Plenty e Yellow House (Warp, 2006),
eles são inesquecíveis não apenas
pelo cuidado nos detalhes de sua
música, mas pela preocupação que
dividem na forma como sua arte
se comunica e reflete sensações e
sentimentos. Estamos diante de
uma música intensa de coração e
melodia. Ao mesmo tempo, intimista
e sedutora. Com composições que
vão além do freak folk que já estamos
familiarizados, Droste encanta ao
criar uma música experimental
com amor por clássicos, valores e
inovações.
Oi. Poderia se apresentar e contar uma história?
Oi, o meu nome é Edward Droste e cresci
em Boston, MA. Passei verões em Cape Cod
comendo lagosta e fazendo todo tipo de coisas,
infelizmente eu nunca fui muito macho e não
sabia nada sobre passear de barco. Uma vez
peguei um pequeno barco de motor para
andar, mas as ondas não paravam de
bater e tive que ser rebocado para casa.
Foi muito embaraçoso. Eu estou aqui no
momento e por isso que lembrei dessa
história.
Quando você começou a tocar? Por quê?
Comecei com minhas aulas de guitarra
no segundo grau logo depois que descobri
o primeiro álbum da Liz Phair chamado
Exile in Guyville. Fiquei tão surpreso com
Qual era a sua motivação na época? E hoje?
Motivação sempre muda. Mas durante boa parte
da minha vida a música tem sido um processo
bastante terapêutico. Muitas vezes era como se
fosse uma página do meu diário, uma forma de
processar os meus sentimentos. Claro que agora,
que as coisas estão ficando um pouco maiores
para a banda, existem outras motivações que me
inspiram, mas música é sempre sobre sentir
algo, e poder botar algo para fora.
Que instrumentos você toca? Gostaria de tocar
outros?
Eu toco guitarra, uma harpa automática (que
qualquer um pode tocar), e um pouco de teclado,
mas honestamente considero a minha voz o meu
instrumento e eu não quero, realmente, tocar
mais. Eu gosto mesmo de escrever músicas e
cantar.
Você cresceu escutando o quê?
A minha mãe escutava muita música folk
escocesa. A minha primeira fita cassete era
Labour of Love (II) do UB40, eu acho. Era
chamado de (II)? Ou número 2? Tinha vinho
tinto nele. De qualquer forma, eu escutava muito
enquanto a minha mãe me dava banho!!! O
meu primeiro show foi do Violent Femmes em
Boston. Depois eu fiquei mais velho e comecei a
escutar todo tipo de música. Pixies, Jeff Buckley,
Breeders, U2 e coisas típicas da sétima série. E
Nirvana, é claro!
Você se sente ligado a alguma cena musical de
Nova Iorque?
Sinceramente, não. Eu não sinto que a nossa
música necessariamente é ligada a alguma
cena ou local. E eu realmente não sinto
essa “comunidade” que todo mundo fala,
principalmente porque não tenho tocado
com muitas das bandas da “cena” e não
conhecemos muitas pessoas. Talvez, se mais
pessoas nos convidassem para tocar com
elas, eu me sentiria mais parte de alguma
comunidade, mas honestamente só me sinto
parte do meu ciclo de amizades.
O que você pode falar sobre os outros integrantes?
Somos todos tão diferentes. Chris Bear, o
baterista, é o mais calmo e pacifista da banda,
ele nunca entra em uma discussão ou arruma
algum problema e é o que deixa as mulheres
loucas. Chris Taylor tem uma personalidade
forte e é uma pessoa maravilhosa que está
sempre com novas idéias. Daniel é o gênio
musical e um verdadeiro compositor, mas
muito tímido e quieto.
Você acha que está crescendo como músico?
Sim, muito. Ao mesmo tempo em que é
imensamente difícil trabalhar com três outras
pessoas e tê-las sempre te desafiando e te
confrontando, é também incrivelmente excitante
porque sempre cria algo bem mais dinâmico
do que algo que compus sozinho. Acredito que
nesse disco, Yellow House, estamos estreando
como banda. Horn of Plenty é ótimo, mas não é
mais o Grizzly Bear que existe agora.
Agora, uma pergunta muito importante: o que faz
Grizzly Bear sorrir?
Ah, eu só posso falar por mim, mas ficar com o
meu cachorro, namorado e amigos me faz feliz.
Conhecemos a sua música através do grupo
dinamarquês Efterklang. Como foi a sua turnê na
Europa com eles?
Fazer turnê com eles foi uma das melhores
experiências que já tivemos. Eles são músicos
muito talentosos e a Europa é incrível. Eu não
estava esperando ninguém nos shows, mas
acabaram sendo fantásticos. Você é tão bem
tratado na Escandinávia e na França e isso faz
você querer voltar e fazer tudo novamente. O
público é carinhoso, as casas noturnas e os
promotores também. O dinheiro é bom. A
comida é deliciosa.
Vocês se apaixonaram?
Bem, eu sou o único na banda que é gay e o
único que está em um relacionamento. Eu
estou com o meu namorado agora, tirando
férias em Cape Cod, os outros meninos ainda
são solteiros! Garotas, podem espalhar!
www.grizzly-bear.net
PROGRAMA DE RÁDIO: SUPER 45
Palavras: Boris Orellana
Foto: Eddie Edmundson
The Legends – “Lucky Star”
Johan Angergård é o principal compositor do The
Legends (ele é também o dono da gravadora sueca
Labrador). Eles começaram com um som mais
orientado para o rock e se tornou um projeto solo
eletrônico a la Junior Boys com um pouco mais de
força. O último álbum Facts and Figures (Labrador,
2006) é uma boa recomendação.
Contriva – “Number Me”
O trio alemão já lançou três álbuns. Eles eram
relacionados com o post rock de Chicago, mas se
tornaram mais pop e “Number Me” é um bom
exemplo de como um pop sofisticado deveria ser.
Javiera Mena – “Perlas”
Uma jovem chilena cantora e compositora explora
os lados interessantes do pop: indietronics,
orquestração, sonhos e folk. Javiera e Gepe, outro
compositor chileno, são umas das melhores
revelações do pop chileno.
The Early Years – “So Far Gone”
Uma grande banda de space rock que segue a
tradição do Spiritualizaed e o início do Stereolab.
Jarvis Cocker – “Fat Children”
Ele voltou para formar o “Scott Walker do século 21”,
o álbum de estréia Jarvis é definitivamente forte e
“Fat Children” é incrível!
Fat Jon & Styrofoam – “Acid Rain Robot Repair”
A mistura perfeita de música eletrônica para os
indies e hip hop. Uma verdadeira mistura de estilos
que podem ser encontrados no álbum The Same
Channel. Este é o disco que Notwist e Themselves
nunca conseguiram fazer.
Booka Shade – “Body Language”
Textos leves de electro para as crianças, esta faixa é
pop e dançante.
Eric Matthews – “Our house”
Eric é um cantor e compositor pop que estava
fora da cena durante seis anos. Ele finalmente
voltou com um grande álbum, Foundations
Sounds, que inclui alguns tesouros do pop como
“Our House”. É essencial para o fã de pop
orquestrada.
Super 45 vai ao ar todas as quintas-feiras pela
Radio Concierto, do Chile, sob a produção de
Boris Orellana e Patrício Urzua.
www.super45.cl
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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três amplificadores na sala, aí foi “liga nesse”,
“liga naquele som que está melhor”.
Haymone: Tinham umas dez guitarras, três
baixos...
Ênio: E aí foi um problema porque a gente
achava que Zé Guilherme iria produzir o disco
sozinho, mas, como Leo e William (do estúdio
Mr. Mouse) também são produtores, o choque
era muito grande. Eles têm visões muito
diferentes.
Palavras: Márcio Padrão
Ilustração: David Edmundson
Haymone e Ênio, o par de guitarras e
vocais da banda recifense Mellotrons,
estão à vontade. Depois de dez anos
de estrada e recentes mudanças na
formação, os músicos parecem felizes
com o primeiro CD homônimo e
dispostos a ampliar consideravelmente
suas influências. Com composições
próprias, as mais antigas cantadas em
inglês e as mais recentes em português, os
Mellotrons passeiam entre a sonoridade
do My Blood Valentine e Sonic Youth, que
marcaram o início de suas atividades
como banda, e as referências ao Clube
da Esquina e Gang of Four. Está mais
do que na hora dos Mellotrons levarem
sua música para além das fronteiras
de Pernambuco. Coca-Cola, crítica e
autocrítica, distorções, garfos, reggae
e inquietações pós-adolescentes
aparecem aqui como cenário ideal
para relembrar os dez anos de banda
e sobre os planos desses recifenses
de conquistarem o mundo.
O primeiro disco do Mellotrons saiu no ano
passado depois de... Quantos anos de carreira?
Oito? Nove?
Haymone: A banda começou em 97.
Dez anos.
Haymone: Os dez anos são dez anos de banda
reunida.
Ênio: E pararam um ano por causa de
vestibular...
Na teoria, quando a banda começou?
Haymone: César, baterista da banda, é meu
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
primo. Quando eu comecei a tocar violão e
guitarra, ele tocava teclado, depois foi tocar
bateria. A gente começou a se interessar por
música juntos.
Ênio: Ele estudou música junto com Rafael
Guerra (atual baixista) ainda quando
crianças.
Haymone: A música sempre esteve
presente na nossa vida, bem como a vontade
de ter uma banda. Eu tocava junto com ele
na minha casa...
Quando era isso?
Haymone: Guri, não sei nem dizer.
Comecei a banda com 15 anos. Acho que
quando eu tinha 12, ia pra casa de César
e lá tinha uma bateria fuleira. Levava meu
amplificador e guitarra e ficava tocando
Nirvana, volume no talo. Paralelamente,
César tinha conhecido Henrique e Marcos
no colégio, e era uma galera que também
gostava de rock. Não sei exatamente dos
detalhes, mas César e Henrique marcaram
no estúdio para ensaiar e César disse:
“tem um primo meu que toca também”.
O primeiro ensaio da banda foi esse, em
16 de maio de 1997. Eu numa guitarra,
Henrique na outra e César na bateria. Só.
Depois Marcos foi se incorporando...
Ênio: Marcos é irmão de Henrique, que
hoje toca guitarra no Vamoz!.
Vocês gostavam das mesmas coisas?
Haymone: Mais ou menos, tínhamos
muita coisa em comum. Como as bandas
grunge, pós-grunge, e coisas velhas como
Beatles, Pink Floyd...
Ênio: Henrique tinha uma pegada bem
anos 70 na guitarra.
Haymone: Ainda tem.
Vocês falam que a primeira fase da
banda é a shoegazer, o que encontramos
no disco. Poderiam comentar o que esse
disco significa para a banda?
Haymone: A idéia nem era mostrar
a fase shoegazer, mas de ser o registro
dessa primeira fase, que tem algumas
características musicais bem específicas.
A guitarra tem mais ênfase que os outros
instrumentos, as letras são em inglês, e o som é
bem calcado em influências como Sonic Youth.
Ênio: Na verdade é o fechamento da fase
em inglês, porque não é o shoegazer apenas.
“Tongue” é uma música mais anos 80, “Slow
Motion” é mais climática, meio dream pop...
Então é mais a fase em inglês que, dentro dela,
tem algumas coisas shoegazer e outras coisas
diferentes também. “Dreams” é bem mais
popzinha.
Haymone: Mas acho que tem também uma
mudança de foco da banda. Antigamente as
músicas eram mais guitarras. E hoje em dia
acho que é mais equilibrado, sabe? Temos mais
instrumentos, como o teclado; há um cuidado
maior com baixo e bateria. O paradigma com o
qual construímos as músicas ficou diferente.
Como foi a produção do disco, todos os percalços,
desde a idealização até a finalização?
Haymone: A gente queria gravar há muito
tempo. A maioria das músicas tem quatro,
cinco anos. Aí o primeiro problema foi grana.
A gente resolveu juntar dinheiro, trabalhar,
tocar e participar de concurso, esse tipo de
coisa, e gravar um disco de verdade.
Ênio: Quando Zé (Guilherme) se dispôs a
produzir nosso disco, começamos a garimpar
instrumentos com a galera. Guitarras de
um, amplificadores de outro, juntamos uns
pedais. Às vezes gravávamos a guitarra com
Quem era o produtor? Zé Guilherme, Léo ou
William?
Ambos: Era Zé!
Haymone: Zé é um cara que conhece a banda
há muito tempo, ele mesmo disse que queria
produzir a banda. Foi meio óbvia a escolha.
Só que Leo e William têm muito orgulho de
trabalhar como se fossem um integrante extra
da banda.
Ênio: Eles querem colocar o “som Mr. Mouse”
em qualquer disco que for produzido lá no
estúdio deles. Mas às vezes a banda não quer.
Eles nos pediam nossas referências, a gente
levava e eles desprezavam tudo.
Haymone: Lembro que a gente levou o
Loveless, do My Bloody Valentine...
Ênio: Falaram que o disco jamais seria
gravado daquele jeito.
Haymone: Disseram que o som da bateria
parecia uma caixa de sapato.
Mas, pela descrição de vocês, o modo de
gravação se assemelha muito ao das suas
influências. Foi uma imposição?
Ênio: Queríamos a maior gama de
possibilidades.
Haymone: O atrito começou mais na parte
de mixagem e masterização. Na gravação
foi tranqüilo. O mago (apelido de Ênio) foi
gravar “Colors to Remind Me” e tava tão alto
que a luz do estúdio e os LEDs dos pedais
começavam a apagar.
Ênio: Você não conseguia ficar dentro da sala
de jeito nenhum sem fone de ouvido.
Haymone: Isso foi o material bruto. Mas
quando foi mixar...
Ênio: Gravar foi uma paz, bicho. Na hora
de sentar e dizer “vamos organizar esse som
aqui”, o pau comia solto. Eles paravam e
ouviam o disco do The Killers como referência,
essas bandas novinhas pós-punk e a gente: “Pô,
não é isso! Vocês estão com a visão errada da
coisa.”
Haymone: Foi um processo meio áspero.
Ênio: E como tecladistas, eles queriam
adicionar teclado em tudo. “The Line” foi um
caso clássico. Tinha um som de teclado que eles
queriam, e até hoje eu não sei se tem no refrão.
Até hoje eu escuto.
que a gente. Agora, eram ofuscadas pela cena
mangue porque, em primeiro lugar, essas
Acho que o som do disco é muito bom. Têm
bandas mangue eram melhores, não há como
algumas coisas que eu faria diferente. Ainda
negar isso. Mas também havia um apelo
acho que as guitarras talvez devessem ter um
maior da mídia por conta do regionalismo,
pouco mais de destaque, a bateria também
do orgulho, num momento em que o Estado
poderia soar diferente, o baixo está muito
estava com a auto-estima baixa pra caralho. O
discreto.
som que a gente faz sempre existiu, e, desde
Ênio: Mas a gente conseguiu um marco, bicho,
os anos 80, havia aqui bandas com referências
porque o noise no final de “Hear/Listen” é a
semelhantes às nossas.
coisa mais cavalar que já ouvi em uma banda.
Ênio: Tempo Nublado, pô.
Das próprias bandas que eu gosto, nunca tinha
Haymone: Não vou dizer que fomos
ouvido nada tão brutal.
influenciados por essas bandas, porque
mal chegamos a ver os shows delas. Mas
As influências mais atuais, como o reggae, sempre
eu lembro do Supersoniques, que foi meio
existiram?
que uma banda de transição. Lembro muito
Haymone: Acho que veio aos poucos. Hoje
de Ênio olhando pro palco, pros pedais de
ouvimos muita música eletrônica, disco music,
Gomão (o guitarrista). Sobre representar,
electrofunk, Afrika Bambaata, freestyle...
acho que não represento porra nenhuma.
Ênio: Olhe, freestyle eu escuto desde pirralho.
Só a mim mesmo. Acho que essa busca por
Foi a primeira coisa que ouvi na vida, antes
representatividade foi muito herdada do
mesmo de rock. Ia para baile funk quando era
modelo do manguebit. Pernambuco sempre
mais novo.
foi um Estado muito bairrista. E não é que a
Haymone: Marcos sempre gostou muito
gente negue ou não goste da Nação Zumbi.
de reggae. Acho que veio por ele, tenho essa
Nós somos fãs da Nação Zumbi, vamos
impressão.
pros shows.
Ênio: Os caras são foda.
As canções mais recentes, “Equador”, “Mirante”
Haymone: Mas a gente acha que essa idéia
e as demais dessa safra têm influências diferentes
da representatividade, isso é uma opinião
além do shoegazer mais explícito. Quais foram os
minha, virou discurso oficial. Tipo, Hino
motivos dessa mudança de linha?
de Pernambuco versão mangue, versão
Haymone: Eu tenho uma tese de que há
guitarra. E o pessoal aplicava aquele modelo
dois tipos de banda: a banda círculo e a
de representatividade do mangue para uma
banda espiral. A primeira vai se desenvolver
cena e um pessoal que não se preocupava
sempre o máximo que está dentro daquele
com isso. E aí vêm as frases feitas, “Recife é
círculo; nunca vai sair deste círculo e sempre
mangue, mas também é asfalto” ou frases de
estará se aperfeiçoando neste limite. A banda
efeito como “Somos a nova geração!”. Nova
espiral é aquela que, antes de completar o
geração o caralho. O som que fazemos já se
círculo, vai iniciar outro, depois outro, e vai
fazia. Querer juntar todo mundo em uma
sempre renovar esse paradigma. Acho que
unidade e uma cena é mais interessante pros
o Mellotrons é uma banda espiral, e não vai
jornalistas do que pras bandas. E uma outra
parar. A forma como ouvimos e sentimos
coisa totalmente inventada pelos jornalistas - e
música é muito inquieta.
eu sou jornalista, ou quase jornalista - que acho
Ênio: Como diria Ed O’Brien, do Radiohead:
nojenta é: “e essa cena indie?”. Aí teve outro
“você tem que fazer algo que tenha medo. O
jornalista que fez “indie x Olinda”, pra rolar as
importante é não saber o que está fazendo”.
diferenças entre a “galera Olinda” e a “galera
indie”. Mas a gente é amigo da galera de Olinda!
O Mellotrons vem sendo considerado pela
Ênio: Parece coisa dos mods contra os rockers.
imprensa como uma das bandas representantes
Haymone: Somos amigos de André da
de uma nova geração do pop de Recife que, de
Bonsucesso (Samba Clube), de Júnior Black da
um modo geral, não se apegam à musicalidade
Negroove, tá ligado? Música é música, minha
da Nação Zumbi e Mundo Livre - bandas que
gente. São sete notas, bemol, sustenido... Essa
representam a geração anterior - e buscam uma
mania de querer tribalizar as coisas e dividir
diversidade mais universal e menos regional. Quais
em grupos é uma besteira.
são as verdades e falácias por trás dessa definição?
Ênio: O negócio é cada um se preocupar com
Haymone: A primeira falácia é que as bandas
o seu e fazer bem direitinho. É esse o conselho
mangue representam a geração anterior. Nessa
que eu tenho para a cena indie do Recife.
geração havia bandas que cantavam em inglês,
guitar bands, que ouviam as mesmas coisas
www.mellotrons.net
Haymone: Mas o resultado agradou a gente.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Mas eu gosto de relaxar na praia também. Barcelona é amável porque
tem uma cultura de cidade e de descanso, ao mesmo tempo. Melbourne e
Vancouver são ótimas também.
Conheço diversos músicos daqui e notei que muitos americanos com
descendências diferentes estão numa procura pelas suas raízes através de livros,
música e arte em geral. Por que isso está ficando cada vez mais forte?
Talvez porque os EUA estejam se tornando mais tolerantes a certos tipos de
diferença, de modo que essas pessoas que você menciona podem ser elas
mesmas mais completamente. Contudo, não é tão fácil se engajar nesse
processo de aprender as nossas raízes e criar algo novo. As pessoas que
são “diferentes”, às vezes, têm um relacionamento complicado com a sua
“diferença”. Algumas pessoas as enfatizam cinicamente porque pensam
que isso vai ajudá-las a ganhar popularidade. Você normalmente pode ouvir
que eles não fazem música do coração. Mas quando você se coloca nesse
processo de aprendizagem da sua herança de uma forma honesta, enquanto
ainda mantém a sua individualidade, te ajuda a desenvolver algo novo e
pessoal.
Palavras: Kiki Ferreira
Ilustração: mooz
Sentada no balcão do bar, olhando todas aquelas garrafas
enfileiradas na estante, eu só conseguia sentir pena de
mim mesma porque o amor da minha vida da semana
passada tinha sido indiscreto o suficiente para entrar
no meu apartamento sem bater, naquela manhã, e me
encontrar vestindo as cuecas de outrem. Consegui perdoálo pela intromissão, ele não foi magnânimo o suficiente
para perdoar-me pela fornicação. O que há de se fazer?
Garçom, scotch duplo, sem gelo.
E para piorar eu estava em Williamsburgh – o bairro que
mais me enoja no mundo. Recheado de novos bichos grilos,
artistas modernetes e masturbadores intelectuais. É o canto
mais descolado do Brooklyn e eu não ousava por os pés ali
– back off bitch, meu negócio é Manhattan – a não ser que
houvesse alguma promessa de bagaceira. E essa noite eu
tinha ido porque meu amigo Mike Ladd quase me obrigou.
Num breve intervalo de minhas lágrimas ao telefone, ele
achou uma brecha para me forçar a ir a um bar ver um de
seus amigos tocar, um tal de Vijay Iyer. Parece que eles
tinham gravado muitas coisas juntos. Uns discos meio
experimentais, brincando com hip hop e free jazz. Eu não
tinha parado muito para ouvir, eu só dizia que gostava das
músicas de Mike para colocá-lo na horizontal. Por mim
ele podia até fazer o que quiser. Não estava nem aí...
Poucas pessoas estavam no bar e ele desculpou-se por
não ter trazido seu quarteto completo. Por isso tocaria
poucas músicas de sua autoria. A fraca luz iluminando
o rosto concentrado de Vijay era muito excitante, ainda
mais quando via seus dedos percorrerem carinhosamente
as teclas do piano. Às vezes ele ia devagar, repetindo o
mesmo acorde pacientemente, ou desenhando melodias
que me arrepiavam a espinha. Uma ou outra hora ele
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
ficava intenso e então parava. Eu não conseguia acreditar,
parecia que o rio São Francisco corria debaixo de mim. Eu
precisava daquele homem, e era logo!
Acabado o show, levantei e fui até a mesa onde ele
dava autógrafos. Olhei para ele que retribui e me
encarou doce, mas firmemente. Não sabia o que dizer,
era a primeira vez que um homem me deixava sem
palavras. Comprei um dos discos que estavam na
mesa e arrumei um pretexto para falar com ele – vou
pedir uma entrevista.
Oi Vijay, conheço pouco a sua história, mas amei o seu show. Você mora
aqui?
Obrigado por gostar de minha música. Sim, moro aqui mesmo em
Nova Iorque. Os meus pais são imigrantes, da Índia; vieram aos EUA
nos anos 60.
Você gosta de morar aqui? Pensa em se mudar?
Obviamente as lideranças políticas dos EUA têm sido terríveis nos
últimos anos, então isso é embaraçoso às vezes. Mas nós também
temos uma quantia saudável de discórdia e debate, e eu realmente
acredito que essa sanidade prevalecerá. Eu amo viajar, já estive no
mundo inteiro e claro que tenho raízes internacionais, mas me sinto
mais em casa aqui em Nova Iorque. Naturalmente, a cidade é muito
diferente do resto dos EUA; Nova Iorque tem cultura, inteligência,
diversidade, progressividade e é viva com suas atividades. Você sabe.
Verdade. Eu também não sou daqui, sou brasileira e uma pianista frustrada.
Ver você tocar me faz querer tentar de novo. Você começou a tocar muito cedo?
Ah, sim, desde os meus quatro anos. Eu lembro de um momento
quando eu tinha seis anos de idade. A minha irmã e eu já tínhamos
aulas de música havia dois anos: piano para ela, violino para mim. Às
vezes eu tocava o seu piano escondido, “descobrindo” melodias usando
apenas o meu ouvido. Um dia a minha irmã e eu improvisamos um
dueto para quatro mãos. Lembro da excitação do processo colaborativo
e exploratório musical, e lembro sentir o instrumento vibrar quando
golpeei a oitava inferior. Mais tarde eu implorei-a para tentar
novamente. Ela recusou, então eu continuei esta busca sônica sozinho.
Essa é ainda a sua motivação?
Eu não sou motivado por fama nem dinheiro – só espero fazer música
que faça diferença nas vidas das pessoas. Sou interessado em fazer algo
que gosto de escutar e eu só gosto de música que me surpreende, então
isso se torna um desafio. Mas eu também quero dar uma experiência
singular para as pessoas, e, idealmente, fazê-las repensar o que elas
acreditam sobre o mundo. E eu também sou interessado em música
como forma de acessar estados diferentes da consciência.
O que levou você ao jazz?
Suponho que foram diversas coisas: o meu interesse no piano; a emoção
de improvisação; o ritmo, a ciência e o poder dele; as possibilidades
de se expressar como individual ou coletivo; e também o som de luta
da comunidade afro-americana, que ressoou em mim – uma pessoa
descendente da Índia.
Como você consegue fazer música que não cai numa categoria?
Nenhum dos meus heróis musicais jamais se preocupou com
categorias, então nunca tive uma preocupação com limites. Eu
toquei muitos tipos diferentes de músicas durante a minha vida:
em orquestras e quartetos de cordas; em bandas de rock e hip
hop; estudei percussão africana, música japonesa de corte,
música indiana do Norte e do Sul; já toquei música pop; estudei
e toquei repertórios de toda a história do jazz; e eu trabalhei
como compositor, improvisador, teórico, pianista e tecladista em
formatos variados.
Como as suas idéias surgem?
Muito da minha música é inspirado por problemas políticos ou
sociais, ou por experiências da minha própria vida. Passo muito
tempo desenvolvendo novos trabalhos antes de estar pronto para
executá-los – gosto de explorar muitas possibilidades diferentes.
Eu gosto especialmente de desenvolver idéias com os meus
colaboradores, que são todos muito criativos e inteligentes.
Foi um pulo gigantesco dos seus trabalhos de jazz para a sua
colaboração com o meu amigo Mike Ladd em In What Language?
Aprendi muito do meu trabalho de estúdio com grupos diferentes
de hip hop, e também com o meu próprio trabalho com a
banda de funk rock Burnt Sugar, com o poeta Amiri Baraka e
o saxofonista Steve Coleman. Suponho que a oportunidade de
compor música com texto falado me fez pensar além da idéia
normal do jazz como um fórum para improvisadores. Para este
projeto, qualquer improvisação tinha que operar em serviço dos
poemas e do significado do projeto – caso contrário iria distrair a
atenção da mensagem geral. Então eu tinha que pensar muito mais
na composição vendo a forma como cada elemento operaria – isto
é, mais como um produtor da área de rock ou pop. Mike também
quis evitar a idéia de rappers rimando sobre batidas e quis que
estes poemas trabalhassem como palavras escritas. Eu também não
queria fazer muitas melodias cantadas demais, porque quis a música
mais difusa para este projeto. Permitimos que os ritmos livres de
texto falado pulassem fora dos ritmos cíclicos da minha música.
E passamos muito tempo no estúdio para esculpir o som, o que é
diferente do som normal, “ao vivo”, do jazz. Acabou sendo um pouco
diferente do jazz ou hip-hop ou qualquer outra coisa que um de nós
havia feito.
Imagino... E você volta para casa sozinho hoje?
Ah, sim, mas eu tenho que dormir.
www.vijay-iyer.com
Nessas suas viagens, você tem gostado de que locais?
Amei as partes da Índia e África por onde estive. Amo o sudeste da
Ásia, como Malásia e Singapura, lugares que trazem elementos do sul e
do leste da Ásia. É ótimo ver o hibridismo cultural em ação! Eu gosto de
cidades onde encontro cultura interessante, onde a população é densa.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Vocês fumam?
Palavras: Ana Garcia e Viviane Menzes
Fotos: Tuca Siqueira
Ilustrações: mooz
Quer um bolinho, quer?
Quer um cafezinho, quer?
Diga o que você quer, que eu lhe dou
Levamos um bolinho de chocolate e
guaraná para a casa de Erasto Vasconcelos,
um pequeno apartamento em Maranguape I.
A simples moradia esconde um senhor que
participou ativamente da história da música
popular brasileira nas últimas três décadas. O
sobrenome ficou famoso através de seu irmão,
Naná, que experimenta o reconhecimento desde
sua juventude. Assim como ele, Erasto tocou
com todo mundo que era alguém nesses mais de
30 anos (incluindo Milton Nascimento, Gilberto
Gil, Lô Borges, Caetano Veloso, Alceu Valença).
Mas o destino lhe reservou um reconhecimento
tardio, apenas nesse milênio, quando o músico
já beira os 60 anos de idade. Homem de bom
coração, talentoso, espirituoso, com uma
vivência assustadora e em nada amargurado,
Erasto sempre desfrutou do respeito dos artistas
de sua e de nossa geração. Mas apenas esses
últimos conseguiram registrar a musicalidade
natural desse homem em disco. Jornal da
Palmeira (Candeeiro), sua estréia, foi lançado
em 2005. Para o público, uma revelação de 59
anos, para outros músicos, um mestre, um igual,
que finalmente tinha o seu trabalho entregue de
maneira definitiva ao mundo. Uma história que
poucos conhecem e que ele teve o prazer de nos
contar, depois de rodar o mundo e pousar no
humilde bairro de Maranguape. Erasto recebeu
nossa visita com uma música improvisada em seu
berimbau e magnetizou a diminuta platéia que se
acomodava nervosamente em sua sala. Findo o
privado espetáculo, senta em seu sofá e acende
um cigarro...
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Como foi a sua infância?
Olha, eu tive uma infância pobre, no Sítio Novo. Parecia uma aldeia
Fumamos, podemos todos acender um cigarro.
africana, com casas de palha. Hoje em dia está tudo arrumadinho, é outra
Bebem também?
coisa. Mas até que era muito bonito porque tinha dois sítios, tinha aquele
braço de mangue, antes de chegar a Peixinhos, o que era muito verde. Tinha
Um pouco, quase trouxemos um vinho, mas achamos melhor trazer um
um curtume e um matadouro, as únicas sujeiras do local, e que era um
bolinho com guaraná.
pouco saudável para os crustáceos. Os produtos químicos não afetavam muito
Eu não bebo, nem vinho eu tomo. Sabia que estou há 20 anos sem beber?
o mangue, que só veio a morrer depois que criaram a fábrica de fosfato, que
era adubo para a agricultura. Hoje você vê que não fizeram nada, plantaram
Não, ainda bem que não trouxemos.
nada. Então, eu tive uma infância muito saudável. Eu gostava muito das
Eu tive que radicalizar mesmo, eu tinha muita depressão quando bebia.
manifestações populares, tinha um Coco de Roda com três cantadores, até
Eu pegava o violão e ficava tocando as minhas músicas... Chorando.
hoje eu canto o Coco deles. Descia um Boi de Casa Amarela, eles alugavam
uma casa no bairro e saiam de porta em porta dizendo que ia acontecer o
Por que você foi morar nos EUA?
espetáculo no sábado e as pessoas davam o dinheiro. Eu ia pro SESI no Sítio
Eu queria saber como funcionava a política negra no Harlem, Nova
Novo, que hoje está fechado. Eu acho isso um crime. Era o melhor prédio de
Iorque. Era muito hostilizada. Agora não é mais. Hoje os negros são
todos os SESI. Tinha um salão maior do que o Clube Atlântico, tinha um
“Afro Americans”, não é mais “Black Americans”. Eu cheguei a morar
palco do tamanho do Teatro do Parque e uma quadra esportiva. Tinha uma
em três lugares diferentes em Nova Iorque.
assistente social chamada Maria de Lurdes Vieira da Cunha, que eu conheci
um dia que estava no SESI com um amigo e ela disse para jogarmos bola.
Os EUA têm problemas raciais sérios, especialmente em cidades como Boston.
Ela colocou a bola na mão e disse: “É muito importante ganhar e perder.
É bem acirrada. Eu conheci Boston também, Washington, Connecticut,
Então, ganhando ou perdendo, os dois têm que apertar as mãos e se
que é uma cidadezinha a quatro horas de Nova Iorque e é uma
parabenizarem”. Eu peguei essa frase dela e levei isso para toda a minha
comunidade portuguesa, dominada há 400 anos. Uma vez eu fui fazer
vida. A minha infância foi no SESI. Tinha também o Matinée, que eu
um baile e eu sentei ao lado do presidente do clube. Perguntei como
adorava para dançar. A música cubana na época, antes de Roberto
estava sendo morar no EUA e ele respondeu: “Olha, estamos aqui há
Carlos, era a música mais tocada. Nós éramos mais latinos, a verdade
400 anos, ganhamos isso aqui na porrada”. Na época, Manhattan era
é essa. Nos anos 60, teve a infiltração da música americana, apareceu
o melhor lugar para morar, hoje em dia eu já não acho. Cidades como
a guitarra, aquele jeito de cantar em forma de protesto. Eu lembro que
essa e Londres, Paris, Milão, estão todos sob o estado de tensão por causa
no Rio de Janeiro iam fazer uma passeata contra a guitarra. O meu pai,
dessa guerra com os terroristas que é estimulada pelo Bush.
Pierre de Holanda Vasconcelos, pegou uma guitarra logo. Ele tocava
manolo, cavaquinho e escrevia arranjos. Era muito interessante, todos
Como foi essa experiência de morar nos EUA?
os dias às 15h ele sentava para tocar os clássicos com Jacó (do Bandolim)
Eu trabalhava muito, das 8h às 18h e ia pro cinema, o Cinema Itália, o
e Pixinguinha. Eu já estava solfejando na época, sabia tudo direitinho.
que era um estudo para mim. Era interessante porque antes de passar
Eu também adorava ouvir muito frevo de rua. Até hoje eu adoro. Eu fui
o filme, tinha conferências com atores, diretores, cineastas ou alguma
muito fã das bandas militares. Eu não perdia um 7 de setembro antes de
pessoa ligada ao segmento do cinema. Tinha um lugar para fumar, o que
1964. Depois eu parei. Houve uma comemoração do exército, depois da
era importante. Você podia fumar um baseado também, eu era muito
revolução, e eu fui à avenida ver as bandas e ouvi um oficial dizer: “Agora
amigo da menina que fazia a programação e sempre levava uns três. Eu
nós ganhamos essa porra, vamos botar pra f...”. Eu fiquei indignado e parei
ia todos os dias. Isso foi uma coisa muito legal na minha vida, deu um
de ir.
enriquecimento muito grande para compor.
Você tem quantos irmãos?
O que mais foi importante para você compor?
Seis, eu sou o caçula. São quatro homens e duas mulheres, um faleceu.
Quando eu me senti um compositor, eu acho que o elemento mais forte
foi a pintura.
A sua mãe teve um papel importante?
Teve.
Ah, você também pinta?
Não, não. Eu desenho como uma criança, é bem primitivo. Mas eu
Inclusive tem uma música...
comecei a compor porque acompanhei muitos pintores. Eu morei no
Tem, a música “Coentro, Cebolinha, Tomate, Pimentão” é da minha mãe.
Rio de Janeiro uns 15 anos e conheci Aluísio Zaluar, um pintor carioca
Eu fiz apenas musicar o que ela diz: “Menino vai comprar coisa na feira
muito conceituado. Um dia, durante uma das nossas conversas, ele
/ coentro, cebolinha, tomate, pimentão / filho meu vá ver coisa ligeira”.
disse que eu deveria conhecer os pintores do Sítio Histórico de Olinda.
Ela teve um papel muito importante porque era uma pessoa que também
Então eu fiz isso. Conheci Thiago Amorim primeiro, nos anos 70, depois
gostava muito de dançar. Todas as coisas que eu fiz na infância, ela fez
Luciano Pinheiro, estive algumas vezes com João Câmara e ia para
também. Ela tinha uma formação muito boa de terreiro, de histórias.
algumas exposições. Depois eu tive uma oportunidade de vender Gênios
da Pintura, quando trabalhava no Abril Cultural. Os Gênios da Pintura
Você tem também uma paixão por passarinhos, verdade?
vendia que só. Eu trabalhei muito para subsidiar a música, viajar, pagar
“Pio da Galera”, uma música com flautas, fala sobre passarinhos. É
apartamento, essas coisas, e para fazer o trabalho que eu queria.
uma grande leitura da minha infância, eu me vendo correndo atrás
dos passarinhos, conversando com eles. E essa coisa de saber estilo,
O que mais foi importante?
característica de cada um, canto, isso facilitou muito a compor. Fui muito
O primordial para compor foi a minha infância.
ligado a passarinho, criava. Queria matar o passarinho e nunca conseguia.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Você começou a tocar o quê?
O meu primeiro instrumento foi o melê, feito com uma latinha de
leite. Você conhece a tabla? É o instrumento da formação clássica da
Índia. Inclusive o Sgt. Pepper’s... tem. O melê tinha um som parecido
e fazíamos a la ursinha, como todos os garotos faziam. [Erasto canta]
“Oh minha a la ursinha onde você vai / vou brincar o carnaval / não volto
mais / e sobe ladeira / e desce ladeira / é gente boa”. Eu brincava muito de
a la ursinha.
Qual foi a sua primeira composição?
Foi para botar um apelido em um amigo, no vizinho, porque ele
encabulava todo mundo. Era assim: “Quando o samba é brasileiro,
ui / na cabeça um pandeiro / biringueta e guaxela / e soltou o paxulé
/ faz o samba ferver / chora pai / chora mãe / chora a cabeça de Duda
também”. Era ele, Duda, o cabeção. Eu compus esse samba para ele e
todo mundo ria. Era uma loucura. Eu gostava muito de cantar. O meu
pai era um músico organizado e ele recebia da União Brasileira dos
Compositores os cadernos com as letras e as partituras. Eu pegava esse
caderno e ligava o rádio porque naquela época as músicas saíam com
muita antecedência e aí eu ficava cantando junto.
Você chegou a trabalhar muito jovem?
Sim, eu entregava bolsa de filé aos 13 anos. Ia pro Mercado São José às
4h da manhã e passava o dia andando de ônibus fazendo entrega. Mas
foi no Mercado que eu conheci Capiba e Nelson Ferreira. Também
trabalhei com ouro, relógio, jóia, lapidação. Inclusive cheguei ao Rio
com todo esse conhecimento de relógio. Também trabalhei como
vendedor de livros, como eu disse, e fazendo música.
Como foi morar no Rio de Janeiro?
Em 1968, Naná escreveu uma carta no dia das mulheres falando que
eu tinha que ir pro Rio. Eu peguei uma carta de apresentação e fui.
Precisei trabalhar, mas eu queria música. Já acompanhava a cena
musical desde o fim da Bossa. Naná disse que estava no Tropicalismo e
eu disse que vinha acompanhando ao pé da letra. Lembro da primeira
vez que vi Caetano, ele cantou “Um Dia”.
(Erasto começa a cantar)
“Luz de sol, janela aberta / Festa e verde o teu olhar / Pé de avenca na
janela / Brisa verde, verdejar / Vê se alegra tudo agora / Vê se pára de
chorar / Abre os olhos, mostra o riso / Quero, careço, preciso / De ver
você se alegrar / Eu não estou indo-me embora / Tô só preparando a
hora / De voltar”.
Quando eu ouvi isso a primeira vez, fiquei apaixonado. Não deu outra:
todos os artistas que pensei em conhecer, conheci todos. Da velha guarda
conversei com Pixinguinha, Cartola, Ismael Silva, e até toquei com ele.
Depois que cheguei no Rio, no dia seguinte, já estava na casa do Milton
Nascimento. Naná disse para ele: “Esse cara sabe de tudo”. Milton olhou
para mim e disse “Então, eu vou embora, não vou ficar aqui não”. Ele foi
mesmo.
Que outras lembranças você tem dessa época?
Tinha um rapaz que ainda está vivo, graças a Deus, chamado Maurício
Maestro, do Boca Livre. Todo mundo ensaiava na casa dele, inclusive
Milton e Toninho Horta. Tinha um cara também que era baixista, ele
tinha um grupo de rock chamado Soma e a Bolha. Eu toquei com eles,
foi o meu primeiro show no Rio. O pessoal navegava com o concretistmo
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mineiro e a Bossa Nova, depois o Tropicalismo. O que eu não gostava na
época é que cada um tinha uma bandeira na mão, sempre perguntavam
se a pessoa estava no grupo baiano ou mineiro. Fui para Bahia porque
eu quis saber como era a cultura de lá, já que eu tinha a formação dos
terreiros. Mas tive a oportunidade de conviver com os dois grupos, não
só com o pessoal do Tropicalismo depois que eles voltaram, mas também
com o grupo mineiro. Em 76/77, dividi uma casa com Lô Borges em Santa
Tereza. Era Márcio Borges, Lô e eu. A casa tinha um quintal enorme.
Como foi morrar com Lô Borges?
Mineiro é o seguinte, passa
um dia e ele não diz nada,
passa outro... Lô estava assim,
uns dois anos sem tocar. Todo
mundo reclamando porque ele
não ia fazer show, mas era uma
coisa bem saudável. O Márcio
escrevia também. Pintava todo
mundo na casa, que ia ser um
teatro e eu transformei em um
salão onde o pessoal ensaiava
“Existe uma discussão que
eu acompanho há mais de
30 anos: a minha música
não toca no rádio. Todas
as gerações que eu tive a
oportunidade de conhecer
reclamavam disso e hoje
tocam.”
Erasto Vasconcelos
e eu dava as minhas oficinas
de percussão. Fazíamos festas
juninas reunidos no quintal e eu chamava o pessoal do morro. Eu tive
uma universidade muito rica. Então, tinha que dar a minha interpretação.
Você ficou satisfeito com a sua trajetória? Teve um reconhecimento merecido?
É muito interessante essa sua pergunta... Existe uma discussão que eu
acompanho há mais de 30 anos: a minha música não toca no rádio. Todas
as gerações que eu tive a oportunidade de conhecer reclamavam disso e
hoje tocam. Após 20 anos. Você olha pro Brasil, analisa a política e sabe
o que vai acontecer em 10 anos, quem será presidente, etc. Na música,
isso ocorre também. Houve até briga entre artistas porque tinha mais
conceito. Hoje em dia até gravadora está falindo e a nova geração tem
mais acesso à informação. É lamentável dizer que essa geração foi quem
produziu o meu disco, Jornal da Palmeira, ou que tomou a iniciativa.
Eu não culpo ninguém por isso. Sei como é o sistema, mas também
sei a qualidade do meu trabalho. Então, não saí para procurar alguém,
sinceramente. Não pedi para gravar um disco. Eu sempre... Tem
músicas gravadas que fiz há mais de 30 anos. Eu acho que se o trabalho
está aí em cima, então vai aparecer um dia alguém... E aconteceu
exatamente isso.
Quem foi atrás?
Não é que foi atrás... Tudo gera através de trabalho. Eu fiz o Jornal da
Palmeira solo e chamava um artista convidado. Convidei o Bonsucesso,
Eddie, Comadre Fulozinha, Naná... O Marcelo Soares (Estúdio Muzak e
Candeeiro Records) foi lá e Fabinho tinha dito que estava interessado em
fazer algo. Eu já conhecia Rogerinho (Bonsucesso Samba Clube) porque
eu via ele garoto passando com um baixo e um dia perguntei para onde
ele ia, e ele disse que ia tocar com a Eddie. Eu nem sabia o que era. Um
dia encontrei com Rogerinho e outros meninos em Olinda, isso há 10
anos, e eles disseram que tinham uma banda. Eu disse: “De rock de
garagem”. E eles: “Não, é boa, tem talento e tudo”. Eu pedi uma fita, era
o roteiro do Sonic Mambo. Eu gostei e disse que faria uma música para
eles. Estava com uma idéia de um baixo que eu tinha ouvido no rádio,
era uma mistura de música country da Califórnia com black music do
Harlem. Fiz uma música para eles, mas terminou que saiu nada do que
eu tinha imaginado.
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Quando eles gravaram?
Fizeram outro arranjo. Eu fiz uma fita mesmo, era uma coisa bem
orgânica, já que o nome do grupo é Eddie e Eddie para mim é Éden
– que é cinema. Eles gostaram e chamaram para fazer uma turnê. Aí eu
fiquei tocando com o Eddie, viajei pro Norte, Nordeste. Foi assim que
Fabinho me conheceu bem, ouviu muitas coisas minhas, já toquei várias
coisas para ele - violão, flauta... Ele disse que queria produzir um disco e
eu deixei. O Marcelo foi
lá ver e eles fizeram um
projeto. Eles perguntaram
o que eu queria gravar,
conversamos e fizemos
um roteiro. Eu compus o
meu Jornal como um jornal
sonoro mesmo, uma coisa
bem digestiva. Não tem uma unanimidade, mas várias pessoas gostaram, é
difícil fazer uma coisa que agrade todo mundo.
“Essa postura de terceiro
mundo eu não assumo, eu
vivo no terceiro mundo, mas
não sou o terceiro mundo.”
Erasto Vasconcelos
Agradou você?
Sim, sou muito exigente comigo mesmo. Tenho uma dificuldade de
querer gravar. Eu tinha um professor de música, que conheci em Ouro
Preto, chamado Conrado. Tocamos juntos, eu tocava Calimbe e ele ficava
impressionado. Ele adoeceu, fui visitá-lo no hospital e ele tinha visto eu
tocar com o grupo Bendegó, da Bahia. Ele achava que seria bom se eu
fizesse gravações de estúdio, apesar de cortar a minha criatividade. Fiz
muita gravação de estúdio, mas não dexei de fazer shows. Poderia gravar
para novelas, ser um percussionista exclusivo. Para viver no Rio de Janeiro
tem que fazer estúdio, gravar com todo mundo. Eu toquei com todo
mundo, mas não gravei com todo mundo. O importante foi que todos me
trataram com muito carinho e eu ouvi com muita atenção. A poesia era
muito importante, a poesia musicada. Eu fazia através delas, com a minha
composição, o meu protesto, os meus discursos, esculhambava e nego não
sabia. Tudo que passava na minha cabeça, através do som eu passava o
meu recado.
Alguma história?
Por exemplo, no “Poema da Paz”, quando eu digo “paz” e ponho o maracá
dos índios, eu digo uma coisa a mais. Peço paz para os índios. Quando
fiz esse poema, comecei a fazer isso ao vivo com os instrumentos. Fiz
um show na Escola das Belas Artes e teve um impacto muito forte.
Naquela época, até hoje, estão aí os índios tendo que demarcar as terras.
A dificuldade de adaptação é uma coisa... Corre um risco muito grande,
podemos perceber isso quando saímos daqui e vamos morar num outro
lugar. Ou educa ou deixa como ele está. Sempre fica no meio termo.
Todas as minhas composições contam uma história. É como se fosse
um quadro. Ela tem que ter começo, meio e fim. Eu tenho uma história,
como todo músico. Eu sou compositor por isso.
Na verdade, eu queria saber se aconteceu alguma injustiça.
Olhe, sou uma pessoa muito feliz pelo que sou. Isso resolve tudo. Moro
aqui em Maranguape 1, no único lugar que deu para comprar. Pretendo
sair, quero morar numa casa que tenha uma mangueira ou jaqueira
para poder ficar no quintal olhando para a cerca e para o muro. Claro
que se você levar para esse lado a vida, você vai encontrar uma série de
tropeços, injustiças, mas eu não os guardo. Eu só guardo as coisas boas
que eu posso contar para você aqui. Prefiro nem lembrar as coisas ruins.
Ontem, estava dizendo para um amigo, se eu quiser o meu violão chora, a
minha flauta canta... Levanto a hora que quero, durmo a hora que quero.
Eu não sou melhor nem pior que ninguém. Gosto dessa nova geração
que estou curtindo agora como Mundo Livre, Nação Zumbi, Mombojó,
Bonsucesso, Eddie e A Roda. Eu acho que esse pessoal universalizou mais
as coisas, serão mais conhecidos que a geração anterior. Eles irão fortalecer
mais essa coisa da indústria da música. Porque o cara brigava tanto para
que a música vendesse ou tocasse, que esquecia o universo. A geração de
hoje está antenada no universo. Essa postura de terceiro mundo eu não
assumo, eu vivo no terceiro mundo, mas não sou o terceiro mundo. Eu acho
que tudo é uma coisa só. Só que um tem dinheiro e outro não tem, mas a
miserabilidade você encontra em qualquer lugar.
Então, como surgiu a idéia do Jornal da Palmeira?
Eu compus o Jornal da Palmeira em um sitio chamado Bonsucesso,
precisava de um lugar para relaxar essas depressões que eu tinha. A
história já tinha começado no Jardim Brasil. Eu tinha um hábito de ficar
horas olhando para uma coisa para ver o que iria acontecer, o que iria se
transformar ou quem iria chegar. Comecei pelo mar durante uma viagem
de 25 dias de navio. Olhava tanto para o mar e todos os dias escrevia um
poema. Quando cheguei em Nova Iorque, tinha um musical pronto. Foi de
ficar olhando que compus o Jornal da Palmeira. É sobre o relacionamento
dos seres que a Bíblia cita, a caça e o caçador. Fiquei admirado quando
comecei a ver as coisas mesmo, como é a vida, o seu ciclo. Ela tem um
negócio de jacaré comendo cobra, cobra comendo cobra.
Você nunca teve uma instrução musical?
Eu já tive com professor no que diz respeito a poesia. Mas os meus
professores foram Torquato Neto, Conrado, João das Neves, Geraldo
Tomas, esses foram os meus reais professores, de poesia, de vida. Se
você ver, na formação da música popular brasileira da minha geração, é
isso mesmo. Ninguém tem uma universidade explícita. Até hoje é isso.
Eu estou começando. Esse é o meu primeiro CD, Jornal da Palmeira. Foi
além do que esperava, hoje está no Japão, na França, saiu uma crítica
boa no Jornal do Brasil. Aprendi que de uma hora para outra tudo pode
acontecer. Aí volto a Maria de Lurdes Vieira da Cunha com a bola na
mão, preciso saber ganhar e perder.
Você está conformado?
Não é conformismo. Eu poderia já nos anos 70 ter um CD pronto. Não
sei se foi timidez, só sei que não rolou. Eu comecei a organizar musicais.
Você fez essa pergunta se eu estou feliz ou se sou reconhecido, eu
não me preocupo com isso. Antônio Carlos Jobim disse que, quando
ele gravou “Garota de Ipanema”, achava que iria atingir o quarteirão
e atingiu o universo. Vou fazer 59 anos, então se eu morro amanhã e
alguém perguntar o que é que eu fiz, eu tenho tudo organizado. Tenho
tudo gravado, já fiz mil coisas com mil pessoas. Eu tenho uns 5 prontos
aí, mas foi o Jornal da Palmeira que rolou. Eu acho importante ter feito
isso e não as pessoas me conhecerem.
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Mia: Alguns dos artistas e grupos que têm me influenciado
musicalmente são: Joy Division, Kyuss, Deerhoof, Liars e Felt. Os meus
guitarristas favoritos são Guy Picciotto do Fugazi, Scout Niblett e Brace
Paine da banda The Gossip. Outras inspirações e influências na minha
vida têm sido os textos de Jorge Luis Borges e Yevgeny Yevtushenko e
fotografias de Robert Frank e Gabriel Garcia Lorca.
Foi natural a banda construir esse som peculiar e único? Como isso aconteceu?
Emma: Bem, as outras podem não concordar, mas eu acho que,
embora tivéssemos uma idéia do “som” que queríamos, realmente
aconteceu naturalmente. Especialmente agora, parece muito natural
tocarmos juntas e parece muito específico para o grupo o tipo de
pessoas que somos.
Mia: Eu acho que a forma como Electrelane soa é muito natural.
É algo que parte da nossa forma individual de tocar e de como
escrevemos músicas. Se alguém da banda saísse ou fosse substituído,
eu acho que seria completamente diferente. Embora passemos muito
tempo desenvolvendo a nossa música (tanto compondo como ao
vivo), não é algo que realmente planejamos ou discutimos muito.
Então como tem sido tocar com Ros, depois que Rachel Dalley saiu?
Emma: Rachel não queria fazer mais turnês e eu acho que foi tudo
bem natural quando Ros se juntou à banda. Era estranho, no começo,
tocar com alguém novo, mas agora eu já me acostumei.
Mia: Ter Ros na banda tem sido ótimo. A forma dela tocar baixo
realmente adiciona muita coisa na estrutura das nossas músicas e ela
é uma pessoa maravilhosa.
Palavras: Eliane Testone e Filipe Luna
Ilustração: Eliane Testone
A primeira vez que ouvi Electrelane foi na pior situação possível
para se escutar uma banda nova. Foi no carro, durante uma saída
para resolver coisas do trabalho. Eliane Testone, a Eli, estava junto
comigo e ela havia trazido um disco para ouvirmos. Era Power Out
(Beggars Banquet, 2003), segundo trabalho das meninas de Brighton.
Eram quase dez da noite e estava cansado e com fome, por isso digo
que era a pior situação possível. Mas o lance é que tem pessoas que
conseguem mudar seu estado de espírito – principalmente quando
o assunto é música. Se você não conhece Eli, deixa que eu te explico.
Ela é guitarrista do Lava, toca também no Hats e foi do Pin-ups.
Trabalhamos junto numa revista, ela é designer e dona de um carisma
insuperável, criando as situações mais engraçadas que você possa
imaginar (pergunte da vez em que ela entrevistou Tommy Lee e
Dave Navarro – é hilariante). E é Riot Grrrl de carteirinha.
Devaneios de lado, preciso dizer que meu queixo caiu quando
ouvi o som das Electrelane. É daquelas bandas que têm “aquilo”
que ninguém sabe definir, mas que todo mundo sabe o que
é quando escuta. Mistura delicadeza, agressividade e aquela
batida contínua, meio krautrock, de um jeito inusitado. De vez
em quando as músicas têm letras mesmo, noutras os vocais
são apenas mais um instrumento. Emma Gaze, Mia Clarke, Ros
Murray (substituta da antiga baixista, Rachel Dalley) e Verity
Susman fazem um som original. Cutucado por Eli, resolvi colocar
a nossa guitar hero para entrevistar a metade da Electrelane. Eu só
dei uma ajudinha.
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Quando foi o primeiro show da Electrelane? Como foi?
Emma: Na verdade, foi muito, muito engraçado.
Vínhamos ensaiando há tanto tempo, antes mesmo de
pensar em fazer um show. Fizemos um monte de fitas
demos para entregar e realmente entregamos. Estávamos
andando pela cidade um dia e vimos o nosso nome em
um pôster – mas eles escreveram errado, eu acho que
estava escrito “Electrolaine”, então ficamos na dúvida. De
qualquer forma, depois descobrimos que era realmente a
nossa banda e ficamos com muito medo. Eu acho que não
dormi direito durante semanas. Isso foi em 6 de junho de
1999... Ou talvez 1998, eu não consigo lembrar agora.
Mia: O meu primeiro show com Electrelane foi em
outubro de 2000, junto com a banda Le Tigre. Eu fui
muito influenciada por Kathleen Hanna na época, e foi o
meu primeiro show! Eu estava extremamente animada e
nervosa, mas eu lembro que deu tudo certo.
Quais as influências da banda, musicais ou não?
Emma: Eu sempre fui inspirada pela coleção de disco da
minha mãe, quando era criança. Entrava escondida na sala
e tocava Rolling Stones, Roxy Music, Neil Young. Também
entrava nos quartos dos meus irmãos – e sempre levava
bronca. Eles tinham ótimos 45”, como Martha and the
Muffins, Joy Division, The Jam e muitos discos do selo Two
Tone. Eu tenho sete irmãos mais velhos, então sempre
tinha muita música pela casa. A minha mãe era hippie, as
crianças eram os mods.
O que é mais importante para vocês, concentrar nas gravações ou fazer
muitos shows?
Mia: Eu acho que ambos são importantes. Certamente gostamos de
tocar ao vivo. Muito. E eu acho que o nosso som ao vivo é bem mais
forte que as nossas gravações.
Vocês conseguem viver da banda?
Mia: Ganhamos muito pouco com Electrelane. Eu também escrevo
sobre música para várias revistas e jornais na Grã Bretanha e nos EUA.
Primeiro vocês criaram o próprio selo, a Let’s Rock!, para lançar os próprios
discos, mas depois decidiram assinar com a Too Pure. Vocês fizeram diferente
de todas as outras bandas, por quê?
Emma: Eu fico feliz que tenhamos feito da forma que fizemos. Temos
mais conhecimento agora sobre como as coisas funcionam. Não é fácil
fazer isso, na verdade, e, depois de alguns anos, tudo fica mais claro.
Mia: Tivemos muita sorte por fechar um negócio de distribuição com
uma empresa chamada 3MV. Eles também providenciam fundo para o
Let’s Rock!. Então não era como se cuidássemos do nosso próprio selo.
Era mais sobre ter um controle criativo da nossa música e arte. Ainda
temos essa oportunidade com a Too Pure, o que é ótimo.
Bem, sendo tão lindas e tudo, vocês têm tido problemas durante os shows com
homens mal educados?
Emma: Isso é engraçado. Não recentemente. Originalmente, eu acho
que tínhamos problemas com homens que não estavam nos levando a
sério e com certeza nos sentíamos intimidadas porque, na verdade, não
sabíamos muita coisa. Ninguém sabe quando começa. É tentar e errar.
Mas agora, porque temos tanta confiança, rimos das coisas que nos
colocavam para baixo, ou dos comentários de algumas pessoas. O que
poderia talvez estragar o show inteiro alguns anos atrás, hoje nos faz
rir. Geralmente, assim que começamos a tocar eles ficam envergonhados!
Meio “Ooooh...”. Isso é um bom sentimento.
Mia: Bem, infelizmente, situações com homens mal educados acontecem
em qualquer lugar, mas não acontece constantemente nos shows.
Como funciona o processo criativo?
Emma: É muito improvisado. Entramos no estúdio e tocamos até algo
aparecer, o que é muito divertido. Às vezes as pessoas levam idéias, mas
normalmente é um esforço das quatro e depois trabalhamos na estrutura
– Verity é muito boa para direcionar essa parte.
Como tem sido gravar com Steve Albini?
Emma: Foi ótimo. Ele é TÃO rápido que chega a ser ridículo. Ao contrário
da crença popular, ele é muito simpático e doce. Gostamos muito dele.
Precisamos fazer um disco mais barato dessa vez, então não iremos voltar
para lá. Mas fizemos dois discos com ele, Axes e Power Out, então eu acho
que essa foi uma boa experiência com Albini. O profissionalismo dele é
impressionante. Ele é o que todo engenheiro de som sonha em ser. Sabe
exatamente o que cada pessoa faz e como conseguir o melhor som de
qualquer coisa.
Mia: As duas vezes que gravamos com ele foram maravilhosas – e muito
diferentes da forma que gravamos o nosso primeiro álbum, Rock It To The
Moon, por causa da sua experiência e conhecimento de engenheiro.
A banda morou em diversos lugares como Londres, Brighton, Berlin...
Como cada cidade influencia a sua criatividade? Onde vocês estão
morando no momento?
Emma: No momento estamos morando em Berlin durante todo
o verão, trabalhando no novo disco, o que é ótimo. Eu divido meu
tempo entre Brighton e Los Angeles. Eu acho que tem sido algo
muito positivo morar em diversos lugares – dá mais espaço a
todas, além de uma vida diferente por um tempo, o que é muito
importante porque, se estamos fazendo turnê para promover um
disco ou escrevendo/gravando, é muito intenso e eu acho que
todas gostam quando ficamos longe da banda e fazendo coisas
completamente diferentes.
Mia: Eu estou morando em Chicago agora. Antes eu estava morando
em Praga. A cidade que cada uma mora tem um efeito enorme na
criatividade, então é muito importante morarmos onde queremos.
Vocês gostam de outro tipo de arte?
Emma: Eu tiro fotografias e geralmente sou encarregada da arte
– seja fazendo ou pedindo para outras pessoas fazerem. Normalmente
faço as fotos e a arte das capas. Mia tem feito algumas coisas também.
Eu acho que nós duas iremos fazer uma colaboração para o próximo
álbum.
Mia: Sim, somos todas muito interessadas em arte. Eu tiro muitas
fotografias e faço curtas em Super-8.
O que vocês têm escutado ultimamente?
Emma: Fomos ao show da banda The Gossip na semana passada – eu
sei que não é nova, mas eu tinha que dizer porque é completamente
incrível. Eu ainda estou pensando sobre isso. Tenho ouvido muita
música folk americana antiga no momento, não é muito da moda...
Mia: Eu estou amando os novos discos do Metallic Falcons e Grizzly
Bear. Têm muitas bandas incríveis de Chicago no momento, como
Sterling, Coughs, Lichens, Voltage e Russian Circles.
www.electrelane.com
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Palavras: Ana Garcia
Ilustração: Heto
Palavras: Ana Garcia
Fotos: Ramona Panzini / Divulgação
Ilustração: Roberto Opalio
O duo espacial dos irmãos Maurizio
e Roberto Opalio tem um catálogo
prolífico como My Cat Is An Alien
(MCIAA) em diversos selos de
países diferentes desde 1997. Ambos
tocam praticamente os mesmos
instrumentos: guitarra e uma grande
variedade de percussão. Maurizio
ainda pega na guitarra acústica, no
mini-xilofone e no velho acordeom
que era da sua mãe, enquanto o seu
irmão utiliza brinquedos com uma
sonoridade espacial, pianos, teclados
e faz o vocal.
A primeira experimentação do MCIAA
foi em 1998, um CD-R todo coberto
por fios elétricos, com uma arte
exclusiva de Roberto, que parou na
mão do Thurston Moore, do Sonic
Youth. Ele gostou tanto do disco
que convidou o grupo para abrir a
turnê da sua banda na Itália e lançar
discos pelo seu selo Ecstatic Peace.
Isso também ajudou os irmãos a
começarem novos projetos com
músicos abstratos e experimentais
de todo o mundo, como a série de
splits que eles criaram no próprio
selo Opax intitulada From the
Earth to the Spheres. Não demorou
para Jackie-O Motherfucker, Jim
O’Rourke, Thuja e muitos outros
participarem também.
O último show do MCIAA, em Torino, foi com
Keiji Haino. Como foi essa experiência?
Roberto: Conhecemos Keiji Haino no
festival Music Lover’s Field Companion,
em Newcastle, e alguns dias depois
nos encontramos no CCA (Centre for
Contemporary Arts), em Glasgow. Foi uma
experiência incrível, já que ele é um dos
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artistas que mais admiramos. Depois, a nossa
colaboradora Ramona Ponzini conseguiu
trazê-lo para a Itália por conta de sua
primeira apresentação ao vivo no nosso país.
Foi uma noite fantástica.
Com que outros artistas vocês têm tido boas
experiências musicalmente?
Maurizio: Uma das melhores colaborações
que fizemos foi com Tom Greenwood, do
Jackie-O Motherfucker. Fizemos o primeiro
contato quando ele pediu para MCIAA
aparecer no U-Sound Archive vol. 19. Então
pensamos em convidar Jackie-O para
participar das nossas série de splits From
the Earth to the Spheres. No ano retrasado,
ele pediu para Roberto, eu e Ramona
fazermos uma turnê na Europa como a
banda de abertura temporária do Jackie-O.
Foi a primeira vez que tocamos todos juntos
e encontramos uma mágica imediata entre
nós quatro. Para fazer música improvisada, o
elemento essencial é ter uma boa ligação entre
os artistas.
Vocês também colaboraram com Sonic Youth.
Como isso aconteceu?
Maurizio: Tocamos algumas vezes com Sonic
Youth na Itália e na Europa. Tudo começou
quando terminamos de gravar o primeiro
CD-R do MCIAA. Como o Sonic Youth foi a
primeira banda a abrir as nossas mentes para
novas concepções de sons – e de arte como
um todo – quando éramos adolescentes,
influenciando a nossa forma de ver a vida e
expressão, decidimos mandar uma cópia para
eles em Nova York. Isso parecia ser a forma
mais direta de dizer “obrigado”. Claro que não
esperávamos nada, mas fomos convidados para
abrir a turnê de 98 na Itália.
Para criar as suas experimentações espaciais, o
visual tem um papel importante?
Roberto: Pessoalmente, eu não encontro
nenhuma linha de separação entre música e
arte visual; ao mesmo tempo em que não vejo a
necessidade de ser interconectada. Às vezes a
música pode explicar algo que nenhuma outra
forma de arte pode... Bem, de qualquer forma,
eu normalmente não consigo separar o visual
da música. Durante o último ano, fiz muitas
pinturas no meu estilo espacial, onde a forma
livre abstrata utilizada com acrílico, cera e
vários outros materiais, incluindo fragmentos
reais de meteoritos, se encontraram com
a minha imagem de ícone alienígena. Eu
gosto da idéia de colocar pinturas, filme e
instalações junto com projeções em uma
galeria onde MCIAA poderia fazer um show.
Esse espírito de lançar discos e fazer música o
máximo possível mudou com o tempo?
Maurizio: Desde quando começamos, a nossa
necessidade de lançar, de uma forma fácil e
direta, coisas que pudessem se encaixar com
a nossa urgência de criatividade nos levou
a criar a Opax Records. Então começamos
a fazer lançamentos em CD-Rs limitados
com capas artesanais. Só agora, com a
série de splits From the Earth to the Spheres,
começamos a fazer LPs em vinil. Apesar
dos lançamentos caseiros com desenhos
artesanais tomarem muito tempo e energia,
amamos fazer essas edições especiais.
A motivação continua a mesma ou mudou?
Roberto: As nossas motivações para fazer
música e arte com certeza nunca mudaram
durante esses anos. Na verdade, eu acredito
que nascemos para nos expressarmos através
da arte. Não é uma escolha realmente. Isso é
apenas o que sabemos fazer. E algumas vezes
não é fácil de aceitar, porque é um destino
difícil... Você normalmente sente que está em
uma isolação psíquica... Mas a arte é a única
parte verdadeira de você mesmo. A vida sem
arte não tem muito significado para nós. A
arte fala das perguntas sem respostas. Arte é
liberdade total. Arte é “O Signo”.
Rodrigo Gorky está esperando ansiosamente o visto de trabalho chegar para
poder acompanhar Marina Ribatski e Pedro D’Eyrot, que já deram início a
mais uma turnê européia do Bonde do Rolê. Eles mal conseguiram dormir
depois do inacreditável show no Rec-Beat, festival que acontece durante o
carnaval de Recife, e já tiveram que partir para abrir shows de bandas como
Junior Boys e The Gossip. Na quarta-feira de cinzas, decidimos ficar em casa e
tomar uma cerveja na minha varanda. Rodrigo começa a contar a sua história.
Antes do Bonde do Rolê você estudava Letras e era sempre começávamos uma competição de quem “Robot Rock”. Ao mesmo tempo, a gente ainda
levava a sério um outro projeto que se chamava
DJ da cena electro. O que você pode dizer sobre
descia mais o nível. Começava com funk carioca
Géssica.
essa cena no Brasil?
e ia para as coisas bregas dos anos 80. Um dos
Do Montage? (Risos). É meio besteira, mas
DJs de rock tentava subir o nível e tocava uns
Como Marina entrou na história?
toda a cena electro no Brasil tem normalmente
rockinhos dos anos 50, daí eu descia o nível de
A gente queria alguém para cantar e tinha que
a pessoa que faz e a pessoa que não recebe
novo e tocava coisas a la Jovem Pan dos anos 90,
ser menina. Eu tinha conhecido Marina uma vez
os créditos devidos. Isso acontece muito com
tipo Corona.
num boteco. Ela falou que estava interessada em
a pessoa que faz a festa e o DJ da festa. Em
fazer alguma coisa diferente do que ela tinha
Curitiba, eu era o DJ que ficava reclamando
Então, a festa ajudou a criar o Bonde do Rolê?
feito até o momento: bandas de rock de menina
porque as pessoas não viam a minha importância.
Sim, junto com alguns outros fatores... Era a
de protesto, sabe? “Corta o pinto dos caras”,
Isso ajudou a criar o Bonde, porque eu estava
festa, eu querendo montar um projeto com
umas coisas assim. Em nota, Marina não é
insatisfeito com as festas em que tocava e recebia
Pedro, Diplo indo tocar no Milo – todo mundo
sapatão. Então, a gente acabou chamando ela.
pouco. Então, comecei a fazer festas e convidar
falando que ele era o máximo porque tocava
Eu e o Pedro pegamos um CD e gravamos
os amigos – Pedro era um deles. Acho que uma
funk carioca com música eletrônica ao mesmo
todas as coisas que queríamos que ela colocasse
das últimas festas que a gente fez foi do Duelo
tempo, coisa que eu já fazia há muito tempo. Ah,
o vocal. Mostramos e ela gostou muito. Isso foi
do Rockfest Eletrônico – dois DJs de eletrônico
e minhas idas para faculdade com Pedro, a gente
em março/abril de 2005. A gente normalmente
de um lado (eu e Pedro) e dois DJs de rock
estudava na PUC à noite, falando um monte de
conta como maio de 2005 o começo da banda,
do outro lado da pista com outro setup. A
besteira. Pedro dizia: “qualquer dia desses vamos
quando a gente fez o primeiro show. Mas,
gente ficava zoando, baixando o som deles
gravar um funk, eu tenho as letras” – e ficava
quando fomos ver as coisas sérias, um era mais
e tocando música em cima. Meio que
cantando. A gente pensou em fazer uma com Daft
preguiçoso que o outro – a gente não conseguia
batalhazinha besta, mas era superdivertido.
Punk, já que Diplo estava pegando todos os ouros.
fazer nada. Até que decidimos beber um pouco.
Mais ou menos 4h da manhã, já bêbados,
Assim, gravamos a primeira, só eu e Pedro, que é o
Começamos a beber, beber, e aí a gente fez
outro funk. Marina chegou lá e pegou a caneta,
já tinha uma base ali e gravamos na hora.
Onde era o ensaio?
O ensaio era lá em casa. Pedro morava comigo
e a Marina foi lá um dia para gravar. Ligou o
microfone no computador e gravou. Isso foi com
a “Ventoinha”, que tem o sample do Darkness.
A gente faz os falsetes e tudo mais. Na mesma
época, eu estava indo tocar em Florianópolis com
o povo da Devassa. Era uma permuta de
www.mycatisanalien.com
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
39
Eram shows para quantas pessoas?
festas: eles levavam a gente para Florianópolis e
ele foi na nossa casa, levou os apetrechos e
Entre 400 e 600 pessoas. A receptividade
a gente os levava para Curitiba. Era uma festa de
gravamos tudo direitinho. Nessa mesma época,
era grande. O show do Barbican foi bem legal,
electro, eles devem ter tido Montage já... Ah não,
Diplo ficou no Brasil depois do Tim Festival
estava cheio de gente, foi no mesmo dia que
teve o Bondage, que é um pouco menos gay,
para uma turnêzinha como DJ e a gente estava
tem umas meninas na banda. A gente foi para
ouvindo o povo falar “meu, sabe aquele funk que o povo da Orquestra Imperial refez o disco
Tropicália. O Devendra (Banhart) estava lá, o
Florianópolis e toquei a música. Os meninos
tem Alice in Chains no meio? Então, o Diplo
Gruff (Rhys) do Super Furry Animals também
perguntaram o que era e eu disse que era a
tocou vocês na balada ontem”. Quando Diplo
estava lá no meio. Eu lembro que no camarim eu
minha banda. No mês seguinte eles iam fazer
foi a Porto Alegre, o Fredi deu um CD para ele e
estava o tempo todo em cima do Gruff, mas ao
a festa de aniversário e a gente foi fazer o show.
nós começamos a conversar pelo MySpace e por
invés de falar que sou muito fã, eu ficava “e como
Foi num iate, ele saía no meio da festa, andava
e-mail. Foram nessas conversas que ele falou que
está Euros”? Euros (Childs) é o cara de uma banda
até um ponto e voltava. A idéia era muito boa,
estava abrindo um selo. Eduardo Ramos ficou
chamada Gorky que eu gosto muito do País de Gales
mas a gente só tomou nesse show, trataram a
megaempolgado. Foi tudo na mesma época, ai o
e eles são amigos.
gente como cocô, foi horrível.
disco saiu em março do ano passado, em vinil.
Qual foi o próximo passo?
Ah, sim, e logo em seguida vocês começaram uma
Gravamos as músicas e colocamos no Trama
turnê, certo?
Virtual. Mas o site não aceitou por causa dos
Nessa mesma época, Diplo tinha voltado pro
samples. Seis, oito horas depois já estava
Brasil e disse que estava combinando com o
fora do ar. Ou seja, eles ouviram. Eu achei
booking agent dele da Europa para viajar com
isso superlegal. Então, a gente colocou no
o Bonde em maio. E ao mesmo tempo o Dú
MySpace, esperando que não desse problema
estava dizendo que no meio do ano iria rolar
e até hoje não deu. Em agosto de 2005,
turnê nos EUA com CSS e Diplo. Passamos
Fredi, da Comunidade Nin-Jitsu - do “tive,
um mês, ônibus com cama e tudo mais.
tive, detetive”!, nos escreveu. Todo mundo
As coisas iam acontecendo super rápido. E
ficou megaempolgado porque o cara tinha
aí, teve a entrevista da Rolling Stone. Eles
gostado do som. A gente não tinha nenhuma
estavam fazendo uma matéria e queriam
pretensão de gravar isso porque seria
colocar o Bonde como uma das dez bandas
impossível conseguir a liberação de todos os
de 2006, que Wolfmother, TV on the Radio
samples, mas queríamos, pelo menos, ter
estavam na lista. O Dú conseguiu nos escalar
algo gravado direito. Combinamos de gravar,
no Barbican, o festival da Tropicália. Aí voltamos
pro Brasil já com o pensamento: temos que fazer
o disco.
Do Gorky’s Zygotic Mynci?
Isso, vem daí o Rodrigo Gorky. Eu estava meio sem
noção e meio travado. Muita gente famosa e a gente no
camarim, não tendo que ficar ali na porta esperando
uma abertura, que nem no show do Tom Zé ontem.
Abria a porta e tinha umas dez cabeças olhando para
dentro. Aí a gente ficou entre maio e julho, depois a
gente viajou para os EUA com o Cansei. Ficávamos
trocando e-mails coletivos, dizendo que quando
chegássemos em NY íamos fazer tal coisa. “Vamos
beber toda noite, vamos fazer acontecer”.
Como foram os primeiros shows lá fora?
É que no Brasil ou o povo já conhecia e ficava se
divertindo ou o povo ficava de braço cruzado olhando
pra a gente com cara de nojo. E o povo da Suécia, por
exemplo, é louco, louco, louco, pulando e dançando
um monte, gritando. Foi que nem aqui em Recife.
Ficamos mal-acostumados com esse público da Suécia.
Foi assim?
Foi. A gente bebeu bastante, sofreu bastante com o
calor, os shows foram muito, muito bons e outros
muito, muito ruins.
Por quê?
Não sei, o primeiro show, em Buffalo, foi bem
mais ou menos. O mais engraçado é que eles estão
chamando a gente para fazer outro show. Então
a gente acha que essa coisa de show ruim para a
banda é muito relativa.
O que faz um show ruim?
Hum... O timing ruim, por exemplo, eu começar
uma música e um dos dois pede para parar ou
diz que não era essa a música que queria tocar.
Ou quando um deles está emburrado, fica de
cara fechada no show ou quando erra demais as
letras.
Então é culpa da banda?
Porque mesmo que tenha cinco ou dez pessoas
na platéia... Agora mesmo fizemos um show,
em outubro, que tinha 10 pessoas na platéia e
dissemos que eles tinham que ficar do nosso
lado para fazer o show, sabe? Não importa a
quantidade, mas, basicamente, quando o show é
ruim a culpa é da banda e não do público, porque
o público faz milagres.
40
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
O fato de cantar em português não dificulta?
explicava que o funk meio que ia e saía de moda aqui Voltando ao timeline...
O público não canta, mas eles vão na vibe da no Brasil, menos no Rio. Aí eu encaixava o Bonde,
Em julho de 2006, em Montreal, o Dú já era
coisa. Eles vêem os dois lá pulando, porque
que a gente pegou tudo o que sabia de funk com as
o nosso empresário e assim como ele correu
eu não fico pulando muito, é algo divertido,
influências desse pessoal do sul e tentou fazer algo atrás pro Cansei lá fora, ele estava correndo pra
se contagiam com isso. As batidas são boas
diferente, indo um pouco além.
gente. Ele conseguiu o interesse do Laurence
para dançar. Eles nunca reclamaram que não
(Bell), um dos donos da Domino, que foi até o
estavam entendendo as letras. No começo
Como foi para Marina que veio de um background
nosso show em Montreal. Ele ficou chocado,
rolava um pouco deles não entenderem nada
diferente?
adorou o show, e começou a negociar com o
que falamos mesmo... Até teve um problema
Marina só ouvia o que tocava na TV, acho que
Dú sobre o Bonde sair pela Domino. Isso só
mais sério, Marina e Pedro começaram
ela levou bem na esportiva no começo. Mas se
se concretizou em outubro, quando a gente já
a chamar o povo de caipira e a falar um
pegar a Deize ou a Tati, elas são bem do rock
estava quase terminando o disco. Nessa época,
monte de bosta em português. Teve um
também. Elas gritam bastante. Eu lembro que fizemos outra turnê na Europa. Em novembro/
show em Bristol que estava uma bosta e o
as instruções eram: “Marina grita mesmo,
dezembro, a gente quase fecha o álbum e o disco
povo estava lá porque era o lugar da moda
tem que ser barraqueira, fingir que está
sai em Junho, mas o primeiro single sai agora
e a bebida era barata. O DJ que estava
quebrando barraco mesmo, amanhã você vai
em março. A gente gravou o clipe para “Solta o
tocando antes era quem tinha chamado a
estar morta”.
Frango” no Rio, com um diretor inglês chamado
gente para tocar, acho que ele é do Rio, e
Barney Clay – ficou bem legal. Vamos gravar
no meio do show Marina vira e fala que não
Mudou o seu conceito de banda?
o segundo clipe que é do “Office Boy” e ainda
precisa dessa porra. Tinha um cara comendo
Eu acho que as coisas agora estão mais
estamos vendo os lados-b. Aliás, estou com um
um salgadinho na frente dela pouco se
profissionais. No começo era realmente...
e-mail para responder sobre os lados-b e remixes.
importando se estava tendo show e se ela
estava se esgoelando ou não. E do meu lado
Marina sempre foi assim no palco?
A quem você pediu para fazer remix?
estava o cara que falava português. Foi muito
Ah, desde o começo. Hoje eles são bem mais
Eu mandei uma lista bem legal, coloquei o pessoal
feio, coisas que não se repetirão. Em New
desinibidos. A gente já fez um monte de show,
do Simian Móbile Disco, Peaches, e coloquei
Orleans todo mundo falou besteira. Marina
então eles estão melhorando nisso. Eu também,
umas bandas meio nada a ver, de amigos. No
chamou o povo de caipira, a Love (do CSS)
um pouco. Antigamente eu não saia lá de trás, eu Brasil não tem ninguém porque é mais fácil a
falando do Katrina, umas coisas sem noção
fazia questão de ficar escondido. Alguns truques
gente pedir colaboração do que fazer um remix...
que não precisava... Mas fora isso, eu acho
a gente vai aprendendo de interação, de pedir para Ah, mas tem Adriano (Cintra do CSS). Em março
que instiga um pouco as pessoas a tentarem
cantarem o refrão junto, fazer piadinha entre as
estaremos fazendo EUA e Canadá, vamos tocar
descobrir o que a gente está cantando.
músicas.
no South x Southwest e em abril, se tudo der
certo, vamos abrir a turnê do Klaxons nos EUA.
Já falaram algo absurdo sobre vocês lá fora?
O que você pode falar de Marina e Pedro, já que não
Depois fazemos mais algumas datas na Europa
Até hoje a crítica mais forte foi uma do primeiro
estão aqui.
e, em maio, voltamos pro Brasil. Dependendo
vinil falando que é uma menina berrando com
Eles são muito novos: Pedro tem 23 e Marina,
a gente faz um festival que eu não posso falar...
uma base mal feita, com Alice in Chains por
22. Ainda vão aprender bastante com os erros,
(aponta para a cerveja Skol).
baixo, sabe? Se não me engano foi a resenha do
mas estão bem melhores que há um ano atrás.
Pitchfork. Mas a gente é isso mesmo!
Já fizeram alguma comparação nada a ver?
Normalmente eles ficam falando do Beastie Boys
e ficam perguntando como são as favelas. Mas a
gente diz que não é das favelas, que é da classe
média de Curitiba. O que eu tento fazer é não
classificar... Eu explico como ondas do funk.
A primeira onda surgiu por volta de 89 com o
DJ Marlboro e ele fez um monte de versões de
clássicos do Miami Bass. Aí chegou 94 e eles
começaram a fazer um tipo de funk, usando
samples assim e assado. Em 98, um pessoal do
Rio Grande do Sul, que não tinha nada a ver com
a cena, usou de influência aquilo – aí eu citava
Edu K e a Comunidade Nin-Jitsu. Eu explicava
que esse povo é bem separado do que acontece
nas favelas, mas eles estavam antenados com o
que estava acontecendo. Em 2000 já não tinha
mais nada a ver com aquela primeira onda de
funk carioca que tinha aparecido em 89, porque
a sonoridade já era bem diferente, as letras
começaram a ficar mais de putaria. Eu também
Muitas coisas ruins aconteciam entre a gente no
começo. Falta de paciência, um estourar com o
outro sem motivo aparente. Coisas pequenas do
relacionamento – nesse caso são três pessoas.
Marina verá mais a gente que o namorado dela
este ano. Isso não deve deixar ela muito feliz, mas,
querendo ou não, é o relacionamento que tem com
a gente. O Pedro é mais farra, você viu aqui... Pedro
se joga na platéia, sai beijando, ele está pouco se
ferrando porque não é um rapaz comprometido.
Ele aproveita, os olhos dele brilham quando vamos
para Europa, “ai Suécia, wow, meninas bonitas a
qualquer lado”. Nos EUA as meninas são... Aliás,
não vou falar...
São fáceis.
É. Não sei se posso falar isso, mas ele disse que é
a terra do boquete. Que é muito fácil, as meninas
não têm apego. Ele disse que as meninas do Brasil
são bem mais difíceis. As de lá, estão ficando com
a pessoa e é natural: está beijando, espera um
pouco, faz um boquete e vai embora. Aqui dão
um beijo e pronto. Ele acha isso o máximo.
Bem, eu conheço Eduardo há alguns anos e sei que
é um sonho para ele ter uma banda na Subpop e
outra na Domino. Não é surreal?
É muito surreal. Em dois anos ele conseguiu
fazer coisas que quase ninguém conseguiu
fazer, ele pegou duas bandas mais ou menos
novas e fez isso... Uma na Subpop e outra na
Domino, que são selos que ele sempre cultuou.
Só faltava colocar o Grenade na Merge e
fechava os sonhos dele. Ah, e o Tony da Gatorra
na Warp. Se isso acontecer ele morre no dia
seguinte de tanta felicidade. Ele ainda vê as
coisas bem deslumbrado, qualquer coisinha ele
super se empolga. Eu meio que me acostumei,
não tem mais aquele teor de novidade que
tinha. Toda semana tem Cansei na NME, sei
lá... Eu achei um pouco estranho no começo,
mas estou me acostumando.
www.myspace.com/bondedorole
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
41
Palavras: Ana Garcia e
Filipe Luna
Fotos: Divulgação
Ilustração: mooz
Girl Talk é o pseudônimo do DJ Greg Gillis. Nativo de Pittsburgh,
trabalhando como engenheiro biomédico durante o dia, ele canaliza
suas outras energias criativas no projeto Girl Talk, onde cada
música é construída a partir de samples facilmente reconhecíveis
de sucessos recentes, recontextualizados em uma nova canção.
Pertence a geração pós-Napster, mais interessada em samplear
canções e “confrontá-las” com o trabalho de outros artistas.
Violar direitos autorais e royalties aos artistas sampleados são
necessidades dessa brincadeira. Ele absolutamente detona as
noções de mash-up no seu terceiro álbum, o violentamente
alegre Night Ripper (Illegal Art, 2006). Gillis costurou mais de
uma centena de canções que fluem perfeitamente durante os
41 minutos da mixagem. Batidas e rimas fornecidas por artistas
como G-Unit, Jermaine Dupri, the Ying-Tang Twins, DJ Assault,
Junior Mafia e Mobb Deep, junto com pedaços de canções de
Smashing Pumpkins, Pavement, Michael McDonald, Fleetwood
Mac, Britney Spears e Sonic Youth. Nos agradecimentos de Night
Ripper estão todas as 164 bandas e artistas que “emprestaram” seu
talento ao álbum. O ritmo do disco é impressionante. Com a teoria da
“Longa Cauda” (do livro The Long Tail), agora quase um evangelho,
tem algo de engraçado e profundo no jeito em que ele junta a cultura
pop: Nas sente a paranóia dos Pixies, Trina ganha um salve das riot
grrrls, rappers de Houston relaxam em The OC, e a única coisa que
se interpõe entre você e a união mundial é a RIAA. Night Ripper é
um ousado trabalho artístico que se arrisca a levar centenas de
processos de violação de direitos autorais.
Alguns podem tentar desvalorizá-lo por falta de originalidade, mas
a atitude esquizofrênica de Gillis para com a música pop é tão
excêntrica que não dá para ficar com raiva. Não apenas um nerd
de estúdio, Gillis também é um maníaco e intenso performer ao
vivo, conhecido por suas incitações frenéticas ao microfone e
pela tendência de se despir durante as apresentações enquanto
dança ao redor do seu laptop. Ele leva o conceito de mash-up
para um novo patamar e está quase confirmado como uma das
atrações musicais para a próxima edição do festival Resfest,
que acontece em abril.
42
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Você tem boas memórias musicais de quando era criança?
Pode contar algumas?
Eu lembro amar “Pour Some Sugar On Me” de Def
Leppard e “Unskinny Bop” do Poison. É muito engraçado
porque ambas são lentas, músicas sexual de rock com
um tempo de hip hop. Depois, eu lembro de gostar de
new jack swing. Eu ganhei um walkman e a fita Poison
de Bel Biv Devoe de Natal. Eu não parava de tocar a fita
e decorei todas as músicas em uma semana.
Então você cresceu escutando isso?
É, eu escutei principalmente rap e grunge. Eu comecei
a gostar de música mais pop relativamente cedo,
como Kriss Kross e Bel Biv Devoe. Eu lembro por ter
ficado fascinado escutando N.W.A. e Public Enemy
pela primeira vez. O meu amigo conseguiu algumas
fitas do seu irmão e achávamos que eram coisas bem
underground, porque eram tão crua e vulgar. Eu não
tinha idéia de que estava mudando a cultura pop. Depois,
eu vi Nirvana na MTV em algum momento e pensei que
era estranho e ótimo. Eu lembro ter ficado um pouco
envergonhado pela sua estranheza inicialmente, eu não
queria mostrar para os meus amigos.
Qual é a sua era musical favorita?
Provavelmente o inicio dos anos 90: new jack swing,
gangster rap, grunge e techno-pop.
Você tem alguns pensamentos sobre a era musical que estamos
vivendo agora?
É sempre difícil colocar o seu dedo no som de hoje. Eu
amo a maioria da música pop que está sendo lançada e eu
sinto que tem muita energia criativa boa na máquina da
música pop. No lado underground da coisa, eu acho que
estamos em um momento incrível de mudanças. Veículos
como MySpace e You Tube estão equalizando o campo da
música e qualquer pessoa pode estar em uma banda de
sucesso. Isso é ótimo.
Quando o Girl Talk começou? A idéia inicial mudou?
Eu comecei o projeto em 2000, logo depois de
me formar no segundo grau. Eu estava em uma
banda experimental de barulho no colégio e
mexemos um pouco com sampling, trabalhando
com manipulações de 4 canais e usando CDs.
Mas quando a banda terminou, eu pensei
que seria ótimo começar um projeto que era
completamente baseado em manipular a música
pop. Nessa época, eu era mais interessado em
música de vanguarda. O meu material tem ficado
um pouco mais acessível com os anos, mas eu
acho que a idéia geral tem permanecido igual:
recontextualizar música familiar em novas
formas.
Como funciona as questões legais? Você conhece
algo sobre o Creative Commons?
Eu tenho que limitar os meus comentários
sobre este assunto por razões óbvias. Mas não
tivemos nenhum problema legal até agora.
Eu acho que as pessoas na indústria musical
estão começando a entender que música como
as minhas não estão machucando ninguém
e que, se alguma coisa, é uma ferramenta de
promoção que faz com que as pessoas fiquem
animadas com música pré-existente que elas
podem não ter conhecido previamente. Eu
toquei recentemente num show beneficente
para o Creative Commons, em Nova Iorque,
com Diplo e Peeping Tom. Lawrence Lessing
também fez um discurso curto.
Deve ter feito bastante sentido lançar o disco pela
Illegal Art. Certo?
Illegal Art é um selo ao qual eu era familiar
quando estava no colégio por causa da sua
compilação, Deconstructing Beck. Eu mandei
uma demo quando eu comecei a fazer música
e eles foram bem receptivos. Desde então, eles
lançaram três discos e têm dado muito apoio a
todas as músicas que eu já fiz, apesar do estilo
ter mudado tanto.
As coisas têm mudado tanto, desde Night Ripper?
Sim, definitivamente. Eu costumava fazer
shows uma vez por mês. Agora, eu pulo em
um avião toda sexta-feira para fazer um fim
de semana de shows. Eu ainda tenho o meu
trabalho durante o dia, mas isso tem sido
mais difícil de manter. Eu faço entrevistas
quase todos os dias agora. Eu estou sempre
ocupado trabalhando com remixes e
conseguindo material novo preparado para
os shows ao vivo. Tem sido maravilhoso, mas
extremamente trabalhoso.
Como são os shows ao vivo?
Eu venho de um background de tocar com
“O meu material tem
ficado um pouco mais
acessível com os anos, mas
eu acho que a idéia geral
tem permanecido igual:
re-contextualizar música
familiar em novas formas.”
Greg Gillis
bandas de rock, grupo de rap e essas
coisas. Então naquela época, eu sempre
senti que era necessário fazer algo de
entretenimento nos shows, mesmo se eu
estiver fazendo tudo no meu laptop. Eu
tento interagir com o público o máximo
possível e, recentemente, os shows têm
sido completamente loucos. As pessoas
chegam já preparadas para enlouquecerem
e ter um bom momento, então
normalmente é uma mistura de show de
rock com house party.
Quando você escuta uma música, você já sabe
o que irá utilizar?
Normalmente eu consigo escutar as partes
que eu sei que irão funcionar bem em
algum outro contexto, mas no contexto que
irei usar é um mistério. Eu estou sempre
sampleando material e catalogando, não
me preocupando de como eu irei utilizá-lo.
Depois eu passo por um processo de erro e
acerto, tentando combinações diferentes e
eventualmente encontro o que eu gosto.
Quais são as suas influências e quem são
algumas pessoas que você admira?
Eu sou influenciado por todos que eu
sampleio. Eu acho que alguns dos meus
heróis musicais são Dr. Dre, Merzbow e
Kurt Cobain. As minhas influências não
musicais são principalmente os meus
amigos. Eu sempre faço faixas pensando se
os meus amigos irão gostar ou não.
Você já quebrou o coração durante alguma
turnê?
Eu tive pequenos problemas de
relacionamentos por estar na estrada, no
passado, mas nada de partir o coração. Eu fiz
turnês por todo o EUA, mas as minhas turnês
recentes têm sido relações de fim de semana,
então não é tão extremo.
www.girl-talk.net
Agradecimentos: Allmusic, Folha de S.Paulo,
Pitchfork, Popmatters, Spin e Stylus Magazine.
DEBATENDO A MÚSICA
Palavras: M. Collective
Ilustração: mooz
Imagine várias cidades de cerca de 60 países,
com suas diferenças, discutindo música ao
mesmo tempo. Depois, visualize, em cima
do melhor dessas discussões, um grande
encontro mundial para troca de experiências e
informações que retornam para estas cidades.
Não bastasse isso, imagine um ambiente
descontraído e criativo. Este parece o cenário
perfeito para fomentar idéias que ajudem no
desenvolvimento da produção musical como
um todo. E assim, em cima deste cenário, a
Red Bull Music Academy e suas Info Sessions
procuram criar um momento que estimule
a interatividade entre diversos contextos
culturais.
No Brasil, as Info Sessions acontecem em nove
cidades durante os meses de março e abril. Porto
Alegre, Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro,
Brasília, Goiânia, Belém, Fortaleza e Recife
serão visitadas por importantes nomes ligados
à produção musical do país. Entre palestras,
workshops, música, conversas e bate-papos,
profissionais da música trocam conhecimentos
sobre diversos temas do universo musical
- história, tecnologia, habilidades, mercado,
direitos autorais, distribuição e métodos de
produção. Acredito que uma das vantagens desses
encontros esteja na possibilidade de estreitar
fronteiras entre os diversos centros de produção
musical. Fazer com que a música de Belém do
Pará, por exemplo, fique conhecida em outras
regiões e vice-versa.
Outra vantagem, é que as Info Sessions
funcionam como uma prévia do Red Bull
Music Academy, um dos maiores encontros
internacionais de música. Afinal, quem
realmente faz música no Brasil tem a
possibilidade de levar os problemas e as
qualidades da produção musical do país para
uma mesa de debate internacional. Ao todo,
30 artistas de países diferentes, escolhidos
previamente nas Info Sessions, terão a
chance de trocar experiências com experts
das mais diversas vertentes musicais. Este
ano, a Academia completa 10 anos e vai para
Toronto, Canadá. As atividades do encontro
são realizadas em duas fases, divididas
entre os meses de setembro e outubro. Se
você é um Dj, músico ou produtor procure
participar.
Informações no site:
www.redbullmusicacademy.com.br
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
43
Palavras: Alexandre Kassin
Ilustração: Diego Medina
Missão ingrata escolher 20 discos. É muito
difícil dizer o que eu gosto mais, porque
sempre fica baseado no que eu estou
ouvindo na hora. Acho que para qualquer
um que gosta realmente de discos, fica
muito difícil decidir os prediletos sem
deixar algo de fora. Hoje mesmo, relendo
o que eu escrevi, já acho que muita coisa
poderia ter entrado e não entrou, de
qualquer jeito, pra quem curte música,
nessa lista abaixo tem boas dicas de
discos, outras que não têm nada de
especial, mas que realmente eu estava
ouvindo naquele momento. O que
importa é que, como em qualquer lista,
aqui tem uma parte de meus gostos.
Takako Minekawa
Cloudy Cloud Calculator (Universal/Polygram)
Adoro esse disco. Sempre ouço e sempre
lembro dele. Tive a sorte de poder falar isso
pra Takako pessoalmente. Comprei o disco
em São Paulo e por muito tempo foi a música
que tocava no meu carro. Gosto dos outros
discos dela também, mas esse tem algo especial,
talvez por ser pouco produzido. Parece algo que
qualquer um faria em casa. Aliás, já estava na
hora de vir um disco novo dela. Demorou.
Sleeps with Fishes (Quakebasket)
Eu os conheci no Percpan. Glenn é baterista do
Wilco e Darin é baixista do Jim O’Rourke. Eles
fizeram esse duo de música abstrata, que ao
vivo é uma grande experiência, na qual Glenn
toca vibrafone e tem um set de percussão
bastante inventivo, com vários instrumentos
feitos por ele ou planejados. Caixas com molas,
baquetas com guizos, e Darin tocando baixo
acústico e programações e barulhinhos. Foi
bastante impressionante esse show ter passado
despercebido, ninguém comentou nada nos
jornais e nem em lugar nenhum.
Doiseu Mimdoisema
Nunca Mais Vai Passar O Que Eu Quero Ver
(Independente)
Diego Medina sempre foi mais avançado que o
Ween, e olha que Ween pra mim é das melhores
bandas. Algum dia alguém deveria lançar uma
coletânea de tudo que Diego já fez, desde a Opera
Rock sobre Tchambie e a caneca de Café, as
demos da Video Hits, os discos de barulho. Isso
sem contar que talvez ele seja um dos grandes
ilustradores nacionais. Pra quem não conhece vale
conferir a página dele: www.diegomedina.com.
Bob Marley
Catch a Fire (Tuff Gong)
Melhor do mundo. Voltei a ouvir recentemente,
depois de alguns anos de enjôo pela exaustão. É
impossível não gostar. E olha que aqui no Rio se
cada banda hippie que faz cover de Bob Marley
desse um real pra Etiópia talvez a miséria acabasse.
Mas ouvindo o próprio, dá pra entender que, fora
as canções serem brilhantes e alçarem ele ao posto
de único Pop Star terceiro mundista, a banda que
tocava com ele era formada por alienígenas. É
indescritível o som dos Wailers, muito estranho e
muito experimental de um certo jeito.
Moacir Santos
Força Bruta (Universal)
Jorge Ben é o grande cara. Fica até difícil não
botar uns cinco discos dele aqui nessa lista. Esse
disco especialmente tem uma idéia bem particular,
violão, percussão e cordas. Se todo mundo que acha
o Melody Nelson do Gainsbourg impressionante
ouvisse o Força Bruta sem barreiras, talvez Jorge Ben
estivesse na lista dos caras mais cool do planeta.
Music Machine
Kraftwerk
Turn On: The Best of the Music Machine (Collectables)
Não conhecia Music Machine até pouco tempo
atrás. Lembro de ter visto muito quando lançaram
essa coletânea, mas não prestei muita atenção,
depois comprei e hoje acho um grande clássico de
todos os tempos. Engraçado como várias bandas
que começaram na cola dos Beatles na verdade
fizeram um trabalho muito mais relevante do que
os próprios. Um bom exemplo são os Mutantes,
para mim eles são muito melhores que os Beatles,
embora talvez eles não achem isso.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
On Fillmore
Bite (Dimension 5)
Têm vários discos do Haack que poderiam estar
aqui, mas ultimamente tenho ouvido muito esse.
Quase todos os vocais são com Vocoder, essa já
é a fase final desse pioneiro do eletrônico. Vale
conferir também o filme sobre ele chamado Haack.
O filme é muito engraçado e tem Mouse on Mars,
DJ Me DJ You, Money Mark, Tipsy, falando sobre
Bruce. Tem também imagens dele em programas
de televisão nos anos 50 tocando seus instrumentos
como o Dermatron, instrumento que consistia num
piano de cauda com um pianista, um amplificador,
vários cabos ligados ao pianista e ao braço de Bruce
de maneira que, enquanto o pianista tocava, Bruce
conseguia fazer sons como um Theremin tocando
na TESTA do pianista.
Choros e Alegria (Biscoito Fino)
Disco novo, mas um clássico instantâneo. Coisas
(1965) foi um disco que ouvi muito na vida.
Também gosto dos outros, mas sempre achei Coisas
um marco e totalmente moderno no sentido que
essa palavra perdeu. Coisas é fora de seu tempo,
é de qualquer época. Esse disco traz esse frescor
de volta. Para mim, está entre os melhores discos
lançados nessa década.
Jorge Ben
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Bruce Haack
Minimum Maximum (Astralwerks)
Disco ao vivo do Kraftwerk. É muito bom, uma
frieza cirúrgica e festiva. Com esse disco você tem
a certeza de que o que eles estavam fazendo há 30
anos ainda é, não só relevante, mas ponto central
da cultura de massa. Os maiores movimentos de
música recente têm Kraftwerk na sua essência, e
isso fica muito claro nesse disco duplo. Tudo veio do
Kraftwerk. Se existe a expressão Mãe África, deveria
existir a Mãe Germânia.
Cody Chesnutt
Headphone Masterpiece (Ready Set Go)
Masterpiece. Eu lembro o dia que o Miranda me
mostrou esse disco no carro dele em São Paulo.
Cada música que entrava, era uma pedrada nova
na minha cabeça. Realmente genial esse disco.
Tomara que venha um novo dele logo e que não
tentem fazer dele um cara pop produzidão.
João Donato
Quem É Quem (Odeon)
Obra Prima. Som de bateria pequenininho, piano
Rhodes e aquelas músicas inacreditáveis. É o
melhor dos muitos discos do Donato, e olha que
são muitos ótimos discos - o psicodélico Bad Donato
(1970), Lugar Comum (1975), Leiliadas (1986),
Muito À Vontade (1963), o cara só tem clássicos.
Impressionante também que esse é o primeiro
disco que ele canta, por sugestão do Marcos Valle,
que é também produtor do disco.
Merzbow
Tentacle (Alchemy Records)
Vi um show dele e foi estranhamente relaxante,
sério mesmo. Tinha Aube (projeto de Akifumi
Nakajima) abrindo. O show do Aube, que também
é barulho, não foi nada relaxante, mas o do
Merzbow foi. Era muito alto, mas foi relaxante
e tinha dinâmica. Tinham uns caras dançando
do meu lado, isso talvez tenha sido um pouco
exagerado, mas com certeza posso dizer que
não senti agressividade no show, dava pra ver,
conversar e entrar dentro da música.
Cidadão Instigado
Método Tufo de Experiências (Slag)
Disco do ano, no hit parade do meu coração.
Já conhecia o Catatau há tempos, temos alguns
amigos em comum e lembro dele quando tocou
no Rio de Janeiro, mas acho que ele mudou
bastante daquela época. Talvez eu também. Hoje,
eu o acho sem sombra de dúvida um dos melhores
guitarristas do Brasil, fora isso, os músicos que o
acompanham no disco e no show são memoráveis.
Cansei de Ser Sexy
Bingo Miki & The Inner Galaxy
Orchestra
Back to the Sea (Three Blind Mice)
Jazz japonês, são umas suítes com
moogs super arranjadas. O jazz japonês
tem uma característica forte, não parece
música de lugar nenhum, é difícil dizer
de onde veio aquilo, pode ter sido de
qualquer lugar. Uma música inrotulável.
Quem me indicou Bingo Miki foi Ed Motta
e os próprios japoneses não sabem muito
dele.
Miho Kei
Kokeratzu Suíte (MCA / Universal)
Também suítes de jazz japonês, mas a
formação é koto (instrumento japonês mais
tradicional), guitarra fuzz em linha, bateria,
piano elétrico e uma cantora lírica muito boa
e com um som único. Mesmo caso do anterior,
não é de lugar nenhum, podia ser um disco do
Mike Patton ou uma trilha de desenho animado
francês psicodélico. Tem outra banda dos anos
50 de lá no mesmo caso, que são os Tokyo Cuban
Boys de Cuba, que só tem a intenção, mas isso de
alguma maneira soa bastante refrescante.
Sam Prekop
Who’s Your New Professor (Thrill Jockey)
Sam é do Sea and Cake (junto com Archer Prewitt,
John McEntire e Eric Claridge). Seu disco solo é
muito bom, esse disco é ótimo e o outro, homônimo
de ‘99, também vale a pena. Essa cena atual de
Chicago é bastante interessante, muitas bandas boas
e muitas bandas feitas em análise combinatória que
sempre é legal.
Black Mountain
Black Mountain (Jagjaguwar)
Um grande disco de rock. Que bom que tem rock de
novo, o mundo já estava ficando chato.
Glenn Gould
Bach / Not Bach (Sony)
Estou curtindo ouvir Glenn Gould, é como se o João
Gilberto fosse pianista clássico. Cada nota tem a
maior importância. Acontece comigo um lance que
acontece quando eu ouço João Gilberto também,
eu não consigo dormir, mesmo a música sendo
relaxante. Aquela perfeição me deixa bastante tenso
e eu não consigo desligar torcendo por ele a cada
compasso.
Justin Timberlake
Future Sex Love Sounds (Jive)
Comprei o disco do Justin Timberlake por causa
do Timbaland. Quase tudo que o Timbaland
faz eu dou uma olhada, achei que não fosse
curtir muito este disco, mas o disco é ótimo e
Timbaland sempre se supera.
Cansei de Ser Sexy (Trama)
Torço por eles, são uma grande banda e,
principalmente, muito divertidos. O disco tem
uma coisa que eu gosto muito, o som é macio, não
é eletrônico duro, muito bem mixado. Acho que
melhores discos estão por vir ainda, na medida em
que eles pegarem a confiança e extrapolarem os
seus limites.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Palavras: Morr
Ilustração: Human Empire
Pop é um som. Pop é uma melodia. Pop é um
sentimento; sentimento minúsculo, excelente e gigante.
Um sentimento, quando no seu melhor, pode durar
por muito tempo. Neste caso especial, já tem durado
oito anos, armazenando sons de Berlin, Prenzlauer Berg,
Raumerstrabe. Realmente, o endereço não é tão importante.
O que importa é a música de pessoas de Weilheim,
Munique, Viena, Antwerp, Oakland e, cada vez mais, de
Berlin. Às vezes, uma música melancólica típica de outono,
às vezes frutos do nascer do sol. Aqui, tem igualmente música
contemporânea, como, também, momentos jorrados de pop,
white noise, música folk, hip hop abstrato e eletrônico.
Foi Thomas Morr que encontrou esses sons. Ele os colheu e
os mantêm trazendo repetidas vezes para ouvintes em todos os
cantos do mundo. Esses sons são lançados pelo seu selo Morr
Music que, gradativamente, tem-se tornado referência para a
“eletrônica”. Tem sido com o Powerbook se tornando a nova
guitarra e a guitarra se tornando o novo Powerbook. Quando o
som exigiu a canção, a música eletrônica fez o seu caminho do
hard disc para o contexto de banda. O resultado deste processo
são álbuns maravilhosos de compositores parcialmente digitais
como Lali Puna e seu Scary World Theory de 2001 ou Masha
Qrella com Unsolved Remained, tanto quanto Tied & Tickled
Trio com as suas paisagens ilimitadas de jazz que envolvem
os irmãos do Notwist, Markus e Micha Archer. Ou a cool e
escura interpretação dos anos 80 do Tarwater, como no seu
disco The Needle Was Travelling.
Morr Music começou em 1999. Thomas Morr conseguiu
juntar no seu selo tradições diferentes da música popular
(e não muito populares) e utilizou a narrativa da história
do faça-você-mesmo para se administrar. Em seguida, ele
utilizou uma narrativa bem britânica aproveitando o melhor
de uma terra pop maravilhosa cheia de sentimentos fortes
e empáticos. Não é sem razão que um pôster do Morrissey
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
está colado em cima do jukebox do seu escritório: a
primeira compilação do selo de 2000 foi chamada Putting
the Morr Back into Morrissey. E a segunda, dois anos
depois, foi intitulada de Blue Skied An’ Clear, uma clara
homenagem aos shoegazers britânicos Slowdive. Morr
Music conquista bastante pelo convencimento do som. Morr
Music lança casos amorosos para o coração.
Se uma pessoa procurasse seguir o caminho da Morr Music
com um dedo no mapa do mundo, uma rota específica
logo estaria determinada. Bem construída, mas não muito
pisada, é o caminho para Munique/Weilheim onde reside
Lali Puna, M.S. John Soda e o Tied & Tickled Trio. Outra
rota levaria para Bélgica, para The Go Find e Styrofoam. Em
Viena iria encontrar Ernhard Fleischmann. Outros caminhos
levariam para Oakland (Man’s Bestfriend) e Londres (Isan),
Copenhagen (Thomas Knak aka Opiate), Itália (Populous),
Nova Iorque e Seattle (Andrew Kenny e Benjamin Gibbard),
ou ao norte da Islândia (Múm).
Isso tornou possível uma ligação permanente com as cenas
locais. Trabalhando cada um igualmente, mas ocupando uma
idéia global. Apesar das diferenças no som, eles dividem uma
atitude que caracteriza uma falta de confiança no mercado da
música pop. Em outras palavras: Morr Music não procura pela
próxima promessa, mas encontra músicas esplêndidas.
Essas músicas estão cobertas pelas capas e livretos do artista
gráfico Jan Kruse (Human Empire), um amigo de infância
de Thomas Morr. Jan é alguém que brilhantemente entende
como visualizar o sentimento Morr, às vezes com caracteres
cativantes, como um esquilo melancólico ou um “monstro
cabeludo” com headphones. Mais que isso: ele desenha mapas
do mundo da Morr Music. Aquele que seguir, pode se perder.
www.morrmusic.com
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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PELVs
Anotherspot (Midsmumer
Madness, 2006)
Inspirados antes de
qualquer coisa pela
beleza das praias
e das mulheres do Rio, mas também
compartilhando do mesmo interesse por
música, cinema e cerveja, quatro amigos de
infância montaram uma banda para se divertir
e fazer o que, na descrição de Gustavo Seabra,
seria uma “música cheia de guitarra achando
que é surf music”. Passados 15 anos e três
discos lançados, Seabra (guitarra e voz),
Rafael Genú (baixo), Ricardo Mito (bateria)
e Gordinho (guitarra e voz) convidaram os
guitarristas Daniel Develly e Clínio Jr e o
tecladista André Saddy para gravar seu quarto
e melhor disco: Anotherspot.
À primeira vista, a quantidade pode assustar,
mas no disco as quatro guitarras se alinham,
formando um som singular e consistente, que
mantém a coerência com o restante da carreira
do grupo. A adição de duas guitarras ajuda a
enriquecer Anotherspot em detalhes. Arranjos muito
bem feitos, além da ótima qualidade de gravação e
produção, com destaque para a primeira faixa, “Baby of
Macon” – dez minutos de um novo arranjo para uma
antiga demo. O disco está com um som mais cheio
que os anteriores e o mérito é da produção, dividida
entre a banda e o experiente engenheiro de som
Chico Donghia, ex-técnico de P.A. de Tim Maia.
Sem desmerecer a coesão e qualidade do restante
da discografia do PELVs, este novo disco afasta
aquela impressão de que algumas músicas são
bem parecidas. A variação dos temas agora
fica mais evidente, principalmente quando
o clima é menos melódico e mais etéreo em
faixas como “Keep Your Music Away” e “The
Ballad of Tom Cody and Ellen Aim”. Para
fechar o pacote, destaca-se o projeto gráfico
de Anotherspot, que repete a dobradinha de
Península (Midsummer Madness, 2001), com
um design detalhista de Fernando Valente
sobre fotos do baixista Rafael Genú.
Com esse disco, a PELVs acerta mais uma vez
ao trabalhar bem suas melodias.
ENTREVISTA com Gustavo Seabra
Qual a importância desse disco na sua vida e no seu
trabalho?
Cada disco é um marco para uma banda.
Principalmente para uma banda independente
em sua essência como a PELVs. Não é fácil existir
tempo suficiente para lançar quatro discos. É um
grande orgulho conseguir isso. E o orgulho é ainda
maior quando percebemos uma nítida evolução
no trabalho. Provavelmente não são todos que
concordariam, mas, este é o nosso melhor disco.
Você poderia contar um momento inesquecível para você
durante a gravação deste disco?
O processo de gravação desse disco não foi muito
diferente dos dois últimos. Gravamos no estúdio
Freezer, demoramos mais de um ano para terminar.
Tudo dentro do normal. A diferença básica foi a
presença, durante quase todo o processo, de um
técnico de som e grande amigo Chico Donghia.
Chico foi técnico de P.A. do Tim Maia durante
muitos anos e tem uma veia analógica muito forte,
o que nos ajudou muito a chegar na sonoridade que
queríamos.
Faz um tempo que vocês têm uma parceria com a
Midsummer Madness. Como é a relação de vocês?
Excelente. O MM nos acolheu numa época em que
não existiam muitos selos interessados em bandas
que cantavam em inglês. Éramos amigos antes do
selo existir e continuamos amigos. Como tudo em
relação à PELVs, fica tudo em casa.
Para vocês, qual a vantagem de estar ligados a um selo?
Acho que a maior vantagem é estar ligado a pessoas
como o Lariú e o Lethier que realmente gostam
da banda e fazem as coisas por prazer. Acho que
a importância de estar ligado a um selo está se
tornando cada vez menor. No nosso caso só nos
ajuda, mas, sinceramente, não sei se nos ajudaria
estar ligado a qualquer outro selo independente. É
cada vez mais possível realizar as coisas sem precisar
de um selo por trás. Mas aí também depende dos
objetivos de cada banda...
Como são feitas as suas composições? O que te inspira?
Geralmente em casa, com um violão. Acho que a
própria música inspira. A necessidade de superação.
Acho que o Rio de janeiro também nos inspira de
alguma forma, sei lá...
Qual é a sua música favorita do novo disco?
“Lia”. Trabalhar com aqueles reverbs e efeitos exige
um cuidado especial. É perigoso. Se passar do ponto
ou for mal feito estraga tudo. Pode soar brega. Acho
que achamos o ponto. A sensação de recompensa é
maior.
Depois do disco lançado, o que vem por aí?
Estamos começando a trabalhar em um projeto de
um DVD comemorativo de 15 anos de banda. O
conteúdo ainda...
Uma dica para uma banda nova e independente que
pretende gravar um disco...
Faça você mesmo, com prazer e por prazer. Se for
por dinheiro, faça um concurso público.
Palavras: Tathianna Nunes
Ilustração: mooz
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Bryan Ferry
Dylanesque (Virgin)
No meio tempo em que lançava os primeiros discos do
Roxy Music, Bryan Ferry tocava sua carreira solo,
regravando canções de seus ídolos tal qual um crooner
bizarro nascido de uma mistura de Humphrey Bogart
com Frank Sinatra. Em 1973 muitos fãs de Bob Dylan
torceram o nariz para sua versão do folk de protesto “A Hard Rain’s A-Gonna
Fall”, carregada do glam rock num arranjo que ia além do violão e da gaita e
adicionava backings femininos e efeitos sonoros que remetiam à guerra do
Vietnam que se desenrolava naquele momento. Até hoje muitos fãs de Dylan
ainda detestam essa regravação. O que eles não sabiam é que Ferry sempre
quis gravar um disco inteiro dedicado ao repertório de Dylan e, apenas agora
conseguiu prestar sua homenagem. Em Dylanesque encontramos um Bryan
Ferry distante do som, cheio de texturas e reverberações, que o fez conhecido
no mundo inteiro em hits como “Slave to Love” ou “More than This”. Aqui,
ele busca um som mais cru e urgente. Não à toa, o disco foi todo gravado
em uma semana com a banda tocando ao vivo em estúdio, talvez numa
tentativa de remeter aos primeiros discos de Bob Dylan em que tudo era
resolvido rapidamente sem preocupações maiores em aprimorar os arranjos
das canções. Segundo Ferry, a seleção das faixas foi baseada simplesmente
em seu gosto pessoal, assim boa parte do disco traz canções da primeira fase
da carreira de Dylan, a exemplo de “The Times They Are A-Changin” e “All I
Really Want to Do”. O disco guarda algumas surpresas como a participação do
antigo colega de Roxy Music, Brian Eno em “If Not for You” e uma releitura
da já batida “Knockin’ on Heaven’s Door”, que incrivelmente consegue evitar
o lugar comum. Por outro lado, a revisão de “All Along the Watchtower”, que
fecha o disco, não consegue fugir da inevitável comparação com a gravação
definitiva que Jimi Hendrix fez em 1968. Enfim, Bryan Ferry nunca conheceu
Bob Dylan pessoalmente e só veio a assistir a um show do segundo no ano
passado. Quando perguntado sobre o que diria caso se encontrasse com o
homenageado, responderia “eu espero que você não se importe”.
Anísio Curtina
ilustração: mooz
!!!
Myth Takes (Warp)
Apesar de reconhecer os méritos do
LCD Soundsystem, acredito que
o ponto fraco da banda de James
Murphy está nas canções longas
demais com poucas variações na
base. Portanto, a sensação que
tive ao ouvir esse Myth Takes,
terceiro disco do !!!, é que eles
são um LCD melhorado. Os
arranjos são mais encorpados
e detalhados, mas sem deixar
de lado a pegada dance em
nenhum momento. Também
lembra um pouco as canções
mais rave do XTRMNTR,
disco clássico do Primal
Scream. Quase todas as
faixas podem animar
sua festa na boa, mas
destacaria a matadora
seqüência “Must Be
the Moon” e “A New
Name”.
Márcio Padrão
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Air
Amy Winehouse
Pocket Symphony (EMI | Virgin)
O duo Air está caminhando para
se tornar como aqueles artistas,
tipo Ramones e Björk, que
não tem pretensão de alternar
estilos a cada novo trabalho,
mas sim se aprimorar dentro
do universo que eles mesmos
criaram. Pocket Symphony
continua no mesmo caminho
da trilha sonora do filme
Virgens Suicidas e de Talkie
Walkie. Para quem ainda
gosta dos tecladinhos e
climinhas suaves dos
franceses, está tudo lá
com a qualidade de
sempre, como se fosse
uma viagem de 47
minutos repartida em
12 canções/suítes. Para
quem já enjoou, passe
longe.
Márcio Padrão
Back to Black (Universal | Island)
Um antigo agente tentou colocar Amy
Winehouse, 23, em uma clínica de
reabilitação. Ela rejeitou o convite. Manteve
o álcool em níveis constantes - sempre
esclarecendo que não era alcoólatra. Lançou,
aos 21, o disco Frank (Island, 2003). Depois,
passou um ano e meio sem conseguir
escrever nada. Até que encontrou o
produtor Mark Ronson (que já trabalhou
com Lily Allen, Christina Aguilera, Kanye
West) e, quando estava contando a ele que
não tinha problemas com álcool, e sim
“apenas um problema com ela mesma,
que vinha à tona quando ela bebia” (então
tá!), a cantora inglesa compôs “Rehab”.
A música virou o primeiro single do seu
aclamado disco Back to Black, que vai do
jazz ao soul, passando por reggae e hip
hop, e lhe rendeu o prêmio de melhor
cantora do ano passado, no Brit Awards.
Com ecos de Motown e embalada por
uma voz de diva soul dos anos 60
(muitos discos de Etta James, Aretha
Franklin e Diana Ross na infância,
talvez), “Rehab” mostra Amy em sua
melhor forma. Ela repete “they tried to
make me go to rehab, but I said no, no,
no”, e a gente concorda que é melhor
deixar essa menina solta pelas ruas de
Londres, escrevendo letras certeiras
sobre desilusão, angústia, incerteza,
álcool, drogas e coração partido.
Tudo ao som de arranjos vintage, que
misturam harpa, trompete, sax, violino
e percussão. Para acompanhar, um
drink, por favor.
Daniela Arrais
Apples in Stereo
New Magnetic Wonder (Yep Roc)
Eu não vou esquecer que a primeira
referência que tive do Apples foi um
clipe das Garotas Superpoderosas. Fã
de desenhos, isso contou a favor.
Mas a experiência do disco completo
supera. Disse isso só para dar uma
“visualização” melhor de como as
músicas parecem. Calma, não tem
nada bobo (demais) ou fofo (demais).
Power pop com jeito de festa indie
– daquelas mais vazias – dos anos 90.
O melhor exemplo é “Can You Feel
It”, que abre o disco. O bom é que
ele pode ser todo ouvido no site da
banda (www.applesinstereo.com), sem
esperar um download chato. Um player
simples, desses que vivem aparecendo
em blogs, é atração central. Design
divertido, com naves especiais que,
novamente, lembram as Garotas
Superpoderosas. Essa banda é um dos
tantos motivos pelo qual não consigo
pensar mais em falar de novos grupos
sem comentar também os sites.
Bruno Nogueira
Arcade Fire
Neon Bible (Merge | Slag Records)
Neon Bible coloca-nos mais uma
vez diante da música única, forte
e cheia de personalidade dos
canadenses do Arcade Fire. Com
a já conhecida atmosfera sombria
e pesada do grupo, o disco nos
insere, novamente, no meio de
questões religiosas sobre morte e
vida pós-morte. A assustadora faixa
título “Neon Bible” (“Neon Bible,
Neon Bible, not much chance for
survival”) poderia ser tranquilamente
trilha sonora de uma historinha de
terror infantil (Só pontuando: essa
é uma das que mais me assustam).
Pessoalmente, gosto bastante da
levada tensa e pop de “Black Mirror”,
primeira música disco. Nela, os
vocais e a constante repetição de
Black Mirror, aliada aos ruídos que
lembram um dia tenso de chuva,
criam uma melodia única e rica
em movimentos. A evolução desses
canadenses como banda está no
aperfeiçoamento técnico e na
produção. Mas, ao mesmo tempo
é estranho o grupo ter resgatado
“No Cars Go”, do primeiro EP,
para este disco agora. Tudo bem
que eles a transformaram em um
verdadeiro arranjo melodramático
de cordas, vocais, baterias, enquanto
a primeira era quase lo-fi. Uma
curiosidade em torno deste disco
foi a compra de uma igreja para sua
gravação que propiciou, segundo
a banda, um ambiente acústico
perfeito. Às vezes penso no Arcade
Fire como uma seita religiosa
que, em um show, vai sugerir um
ritual de suicídio coletivo. Fora
isso, acho que estamos diante de
uma das bandas mais completas e
inovadoras dos últimos anos.
Tathianna Nunes
Beirut
Gulag Orkestar (Ba Da Bing)
No fim do ano passado, Zach
Condon foi hospitalizado por causa
de uma estafa. Não é para menos.
De uma hora para outra, ele deixou
de ser um simples nerd do interior
do Novo México (EUA) para virar a
mais intrigante surpresa da música
alternativa. Ele é a Beirut, banda que
alarga as fronteiras do pop americano.
Foi depois de uma viagem à Europa que
Zach se apaixonou pela música cigana da
península balcânica. No álbum de estréia,
Gulag Orkestar, ele gravou piano, voz,
percussão, clarineta, bandolim, acordeão
e trompete. Fez praticamente sozinho
o disco, em seu quarto de dormir. O
garoto de vinte anos se cercou em
seguida de diversos músicos amigos
para uma extenuante seqüência de
shows e para o lançamento do EP Lon
Gisland (Ba Da Bing) no fim do ano
passado. Estas são duas obras repletas
de belas e sinuosas melodias, que
parecem trilhas sonoras de filmes de
Emir Kusturica (Não é à toa que Goran
Bregovic é uma clara e reconhecida
influência). A música da Beirut vai da
melancolia a espasmos de alegria em
pouco tempo. Viagem.
André Balaio
The Berg Sans Nipple
Along the Quai (Team Love)
Antes da dupla franco-americana
lançar o disco Along the Quai
oficialmente, a gravadora americana
já tinha distribuído cópias para
algumas rádios universitárias dos
EUA. Foi assim que quando um dos
colaboradores do site chileno Super
45 visitou a sua terra natal, Santiago,
trouxe diversos discos, incluindo essa
preciosidade. Fomos todos encontrálo, na casa de um dos editores do site,
para descobrir as novidades para este
ano. Ele abriu uma bolsa enorme
com diversos discos e todos pegavam
logo o que lhes interessavam. Alguns
passaram pela roda umas três vezes,
incluindo o Along the Quai. Fiquei
observando de longe, rezando para
que ninguém se interessasse e que o
disco acabasse na pilha dos rejeitados.
Quando vi o disco deixado de lado,
peguei-o e abri imediatamente.
Não acreditei! O Berg Sans Nipple
realmente lançou mais um disco. A
capa é toda marrom, com uma chama
cortada, tem desenhos tribais dentro
do encarte com suas três folhas soltas
de textos e lindas imagens. Peguei a
chave do carro e fui escutar o disco
enquanto os outros continuavam
na casa. O Berg Sans Nipple criou
o som mais gostoso da música
eletrônica. Como no anterior, os
teclados continuam presentes. Talvez
esteja um pouco mais pesado na
percussão, com diversas camadas de
feedback, melodias deliciosamente
pop com pitadas de dub. A dupla
está um pouco mais calma e mais
sonhadora. As vozes, sempre ao
fundo, estão cheias de efeitos. Com
certeza um pouco influenciada pela
sua passagem pelo Brasil em 2005.
As faixas são todas conectadas em
44 minutos. “Mystic Song”, “Of
the Sung” e “Along the Quai” são
minhas favoritas.
Ana Garcia
Bloc Party
A Weekend in the City (Wichita
Records)
Na primeira audição, o disco
novo do Bloc Party, banda
revelação de meados de 2005,
pode decepcionar e nos levar
aos clichês: imitou a fórmula do
CD anterior Silent Alarm, não
tem nenhum grande hit e não
correspondeu às expectativas.
Porém, também creio que essas
são formas apressadas e injustas
de ouvir A Weekend In The City.
Em primeiro lugar, acho que a
banda conseguiu manter sua
pegada nervosa, o que é um
mérito; dá aquela sensação legal
de estar ao vivo. Segundo: de
fato, as músicas estão meio
parecidas umas com as outras e
lembram muito o primeiro disco,
mas ainda assim interessantes.
Principalmente as instigantes
“Song for Clay (Disappear
Here)” e “Waiting for the 7.18”
e as mais calmas “Kreuzberg”
e “I Still Remember” que tem
a suavidade necessária para
criar um bom contraste com as
outras. Se tudo correr bem, a
banda ainda deve render ótimas
canções pelos próximos discos.
Márcio Padrão
Blonde Redhead
23 (4AD)
Kazu Makino e os gêmeos Simone
Pace e Amedeo Pace preparam o
lançamento de 23, o oitavo disco
do Blonde Redhead. Disponível
na web, o álbum é uma odisséia
conservadora do grupo, que faz uma
releitura de seu próprio material.
Depois da obra-prima Misery is a
Butterfly (4AD), de 2004, e dois
anos de silêncio, já na faixa epônima
eles mostram que aquele toque de
Wolfgang Press e bandas climáticas
da 4AD são o barato do trio. Kazu,
com sua vozinha bonitinha, divide
os vocais com Simone. Faixas como
“Dr. Strangeluv”, “The Dress” e
“SW” lembram bastante o trabalho
anterior. Já “Spring and By Summer
Fall”, “Top Ranking” e “Silently”
flertam com o roquinho indie mais
fuleiro. “Publisher” insere teclados e
new wave em farelos agradáveis. “My
Impure Hair”, batidona de violão, e
“Heroine” são os pontos altos de 23,
pela variação e inovação. Se não é o
melhor álbum do Blonde Redhead, 23,
definitivamente, deve ser um material
para ser ouvido com atenção, já que
mostra novas possibilidades musicais mesmo que embebido em referências
oitentistas - para o tão homogêneo
cenário roqueiro dos anos 00.
Danilo Corci
Busdriver
Roadkillovercoat (Epitaph)
Cansei de dizer a Regan que com esse
nome ele não vai comer ninguém.
Depois vem reclamar a falta de
groupies. Esses MCs cabeçudos e suas
músicas difíceis. Quem se importa
com refugiados? Quem vai dar para
um motorista de ônibus? Não posso
nem falar, mas a primeira vez que
brinquei com Regan foi meio como
ouvir esse seu disco novo. Ele tinha
todas as ferramentas: negão, boas
idéias, bem equipado de repertório.
Mas a carapuça enganou essa pobre
garota aqui. Às vezes não parece hip
hop, não tem balanço, é caretinha
como esse indie pop chato de hoje em
dia. Quando ele chegava num lugar
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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que eu dizia: “é isso aí, meu filho!
Agora sim!”, logo mudava de idéia e
partia para outra. Regan nunca me
tirou de órbita e já tinha desistido
dele. Dizem que ele era melhor no
passado, mas o que eu conheci não
me agradou. De qualquer maneira fui
ouvir seu disco novo e tudo continua
do mesmo jeito. No disco, senti coisas
diferentes porque é uma verdadeira
orgia, com produção de Nobody e do
delicioso Boom Bip (esse sim preciso
conhecer logo!). Embora a estrada
em que esse ônibus passeia continue
cheia de buracos, alguns momentos
são umidificantes, como a ótima “The
Troglodyte Wins”. Está melhor do
que os anteriores, mas ainda não me
convenceu. Apesar de negro de cor, na
cama e na vitrola o motorista dirigiu
meu ônibus como mais um branquelo
desajeitado.
Kiki Ferreira
Cabaret
Cabaret (Rastropop Records)
Sabe aquela frase do Homens de Preto
quando Will Smith pergunta a Tommy
Lee Jones “Sabe qual a diferença entre
eu e você?” e responde “eu fico bem
nessas roupas”?. O Cabaret começa
mais ou menos por aí. Rock com afeto,
vindo do Rio de Janeiro, que estréia
num disco fundamental lançado pela
independente Rastropop. É formada
pelos personagens Marvel, Petter
Glitter, Myself Deluxe e De La Foca.
Sensíveis e maquiados, prontos para
fazer uma explosão de más intenções
em forma de rock de guitarras fortes.
Nessa epopéia do romântico moderno,
o disco começa na noite e termina
na cama, já de botas, pronto para
voltar ao show. “Rockstar Baby”, em
meio ao repertório, esconde a melhor
introdução ao palco. Voz radiofônica e
riffs deliciosos formam uma equação
perigosa para o sucesso.
Bruno Nogueira
Charlotte Gainsbourg
5:55 (WEA/Atlantic)
Não deve ser fácil ser filha do
polêmico cantor e compositor Serge
Gainsbourg e da atriz e cantora Jane
Birkin, mas Charlotte Gainsbourg
parece tirar isso de letra. Ela começou
a cantar profissionalmente aos 13
anos (mesma idade que atuou em seu
primeiro filme) e, aos 15 anos, gravou
“Lemon Incest”, um dueto memorável
com seu pai, cuja letra sugeria um
relacionamento sexual incestuoso e,
no próprio vídeo da música,
pai e filha dividem a mesma
cama. Fazia alguns anos que não
ouvíamos falar de Charlotte como
cantora, mas, ao lado dos franceses
Nigel Godin e Jean-Benoît Dunckel
(ambos do Air), ela volta com 5:55.
Além dos franceses, Charlotte
convidou o legendário baterista
nigeriano Tony Allen e contou,
ainda, com a ajuda do produtor Nigel
Godrich. Para completar o time,
Jarvis Cocker (ex-Pulp) e Neil Tenant
(Divine Comedy) que nos truxeram
o melhor do cinismo inglês. Ao todo
foram 11 músicas irônicas e sensuais
levadas pela voz sussurrante de
Charlotte. Destaque para “Operation”,
na qual ela interpreta a anatomia do
fim de um relacionamento; e para as
sensuais e obsessivas “Beauty Mark” e
“Everything I Cannot See”.
Tathianna Nunes
Carla Bruni
No Promisses (Naive)
Se no primeiro disco, Quelqu’um Má
Dit (Naive/V2, 2003), a ex-modelo
italiana Carla Bruni cantava em
francês, agora em No Promisses se
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
mas muito pop. E com
animadores resquícios de
Lou Reed, Talking Heads
e Flaming Lips. Some Loud
Thunder respondeu bem às
expectativas do difícil segundo
disco, trazendo um grupo
mais maduro e de sonoridade
mais rica, usando até alguns
efeitos eletrônicos junto aos
instrumentos acústicos da
banda. Em uma época em que
quase toda música é feita para
dançar, o disco do CYHSY é para
ser ouvido com atenção e notado
em cada detalhe. Como na linda e
intrincada “Goodbye to the Mother
and the Cover”, que é desde já uma
das grandes músicas do ano.
André Balaio
volta ao inglês. Sua relação com a literatura
irlandesa, inglesa e norte-americana não a
fizeram apenas escolher uma nova língua
para cantar, como também é a principal
inspiração deste disco. Yeats, Auden, Emily
Dickinson, Christina Rossette e Dorothy
Paker têm seus versos sussurrados e
declamados por Bruni. Acompanhada de
um violão, ela é esperta ao não se arriscar
com tons altos desnecessários, e, assim,
faz mais um disco belo e simples.
Tathianna Nunes
Clap Your Hands Say Yeah!
Some Loud Thunder (Wichita)
Não é apenas o nome que é brilhante.
O Clap Your Hands Say Yeah! faz
música áspera, nervosa, cerebral,
Joanna Newsom
ilustração: mooz
Ys (Drag City)
Joanna Newsom se tornou um dos nomes mais
cultuados dos últimos anos no mundo da música
alternativa. Isso porque, sua música segue sem paralelo
nos dias de hoje. Harpista com formação clássica,
mas também com influências de música Celta e do
Country de seu país (EUA), Joanna debutou em 2002 com o lançamento de seu
primeiro EP Walnut Whales. Desde então, lançou mais um EP, assinou com
o Drag City e, finalmente, lançou seu esperado primeiro disco, o sensacional
The Milk-Eyed Mender (Drag City, 2004). Nesta fase, com um punhado de
canções folk, escritas num fomato pop convencional e emoldurado em uma
voz quase infantil, Joanna encantava exatamente por sua simplicidade e
espontaneidade. Caso que não se repete em Ys. Aqui, ela nos encanta de outra
forma. As músicas estão mais complexas, com arranjos de cordas que ficaram
a cargo de Van Dyke Parks, que já trabalhou nos anos 60 com The Beach
Boys, The Byrds, entre outros. O arranjo de Van Dyke dá um clima de musical
da Broadway ao disco. Gravado por Steve Albini (produtor do Nirvana, Pixies,
ex-Big Black e guitarrista do Shellac) e mixado por Jim O’Rourke (guitarrista e
produtor do Sonic Youth, Wilco, Smog, Beth Orthon entre outros), Ys cria um
clima de conto de fadas nas cinco músicas que, de longas, alcançam 16 minutos.
As letras contam fábulas sobre bichos que agem como humanos e sobre seres
imaginários. Um universo quase Shakespeariano. Ouvir o disco é fazer uma
viagem ao mundo de Joanna, que, por mais que pareça fantástico e místico,
ela insiste em dizer que é real e que suas letras falam sobre fatos de sua vida.
Daí talvez o grande mérito da artista, ao invés de soar como uma alucinaçãopsicodélica-datada-bicho-grilo, o álbum soa incrivelmente consistente e real.
Rafael Crespo
não é pop, não é MPB nem bossanova, mas é acolhido por fãs de todos
esses estilos. Destaques para a músicatítulo “Revirando o Sótão”, “Veneza”,
“Brechot do Brega” e “Dentro da
Caixa”.
Marcelo Damaso
Dinosaur Jr
Beyond (Fat Possum Records)
Discos de retorno não costumam
agradar. Mas, vou te falar, que coisa
linda de se ouvir, este disco novo do
Dinosaur Jr – com os três membros
originais, é bom frisar. J Mascis, Lou
Barlow e Murph, uma das formações
mais disfuncionais que se tem registro
no rock, mas que conseguiu produzir
três álbuns impressionantes antes que
Lou fosse mandado embora da banda e
o Dinosaur Jr se tornasse praticamente
um projeto solo de J, definhando em
importância e qualidade até o final do
grupo. Agora os caras voltaram batendo
um bolão. O disco parece ter sido feito em
1990, entre o Bug (SST, 1988) e o Green
Mind (Blanco y Negro/Sire, 1991). Tudo está
no lugar certo, tudo perfeito. Parece que
a fórmula ficou guardadinha em algum
lugar, apurando, esperando por este
Deerhoof
Friend Opportunity (Kill Rock Stars)
Beyond. Tome o de sempre: os vocais
Desde que escutei este disco pela
preguiçosos e solos imbatíveis do J,
primeira vez, cada música me
a tensão e o senso melódico do Lou.
pegou de um jeito que fiquei sem
Resumir é fácil, explicar é difícil. Faz
reação. Posso dizer que estamos
assim: é fã de Husker Du e Neil Young?
diante da junção ideal de um
Escuta o disco. É fã de Nirvana e Built
vocal twee-pop com transgressões
to Spill? Escuta também. Quer só ouvir
melódicas e guitarras de riffs
bom guitar rock? Escuta.
Dagoberto Donato
quebrados e algo mais. O algo
mais fica por conta de batidas
minimalistas, teclados, sinos e
sons delicados que completam
a textura de cada uma das
músicas. Tudo bem que as letras
e intervenções são bastante
esquisitas, mas estão dentro
daquele parâmetro de regular
sanidade que pode conquistar
Érika Machado
fãs dos igualmente freaks
No Cimento (Indie Records)
Flaming Lips. Títulos como
No Cimento é o disco oficial de estréia
“Believe E.S.P”, “Whiter the
da artista plástica mineira Érika
Invisible Birds?” e “Kidz Are
Machado. Oficial, porque antes ela
So Small” dizem algo nesse
havia gravado um CD ao vivo em
sentido para você? Satomi
seu quarto chamado Baratinho, que
Matsuzaki, que empresta
vendeu mais de 700 cópias nas feiras
sua doce voz para a maioria
de camelô de Belo Horizonte. Para
das faixas, tem aquele jeito
gravar No Cimento, Érika conseguiu
japonês de cantar que
um “dinheirinho” através da Lei de
dá um charme maior às
Incentivo Estadual e não pensou duas
músicas. E mesmo com
vezes na hora de chamar o conterrâneo
cada uma delas sendo
John Ulhoa (Pato Fu) para produzir
tão diferentes entre si,
o disco. A parceria resultou em
percebemos o quanto o
músicas suaves, ricas em detalhes e
Deerhoof não está nem
mergulhadas no universo infantil.
aí para isso tudo. É um
Pensando em imagens, Érika compõe
disco que lhe leva para
baladinhas bem descritivas, como
aqueles áureos tempos
a “Secador, Maçã e Lente” e “No
do indie-pop dos anos
Cimento”. É um disco muito delicado,
90 quando nem tudo
mas que ainda tem espaço para as
precisava ser hype ou
guitarras sujas como podemos escutar
“the-next-big-thing”.
na divertida “Robertinha”.
Jarmeson de Lima
Tathianna Nunes
The Eternals
Heavy International (Aesthetics)
O rock já não depende das guitarras
– e faz tempo. O The Eternals talvez
seja um dos melhores exemplos
disso: no esquema baixo, teclado,
vocal e bateria, mais comum ao jazz,
a banda alarga as fronteiras do estilo
sem parcimônia. Provavelmente
ciente de que sua música desafia os
rótulos, esse trio de Chicago batizou
a primeira faixa do seu terceiro disco,
Heavy International, com uma alcunha
sugestiva: “The Mix Is So Bizarre”. A
bizarrice escorre, de fato, ao longo da
audição das 13 faixas e bate em cheio
no ouvido de quem fareja a vanguarda.
A obviedade passa longe e a alquimia
escancara um leque de influências
que contempla o dub, o hip hop, a
eletrônica e algo do jazz. E trata-se de
um disco de rock, não se esqueça. Uma
das vantagens do The Eternals é de ter
bons músicos em sintonia com todo o
aparato digital. Sua abordagem sobre
a tecnologia foge às tendências das
batidas dançantes ou da sobreposição
de efeitos. “Beware the Swordbat”,
por exemplo, quebra tanto a cadência
que seria praticamente impossível
dançá-la. A faixa, com mais de sete
minutos, atinge o ápice da ousadia:
baixo e bateria iludem o ouvinte num
fragmento introdutório e logo somem
para dar espaço a um falsete vocal,
que flui nas estranhezas de uma
base tão eletrônica quanto torta. De
repente, muda o clima: baixo e bateria
reaparecem num groove duro e a voz
adota um timbre fantasmagórico. O
arranjo evolui envolto em teclados e
backing vocals – tudo em seu devido
lugar, sem excesso. Heavy International
é cheio de segundas intenções e, por
isso, requer mais do que uma rápida
orelhada. Ouça duas ou três vezes e,
quando menos esperar, se verá envolto
pela mistura bizarra do The Eternals.
Ramiro Zwetsch
A Euterpia
Revirando o Sótão (Ná Records)
Revirando o Sótão é o disco de abertura
desta banda paraense que traz em seu
som influências de Tom Zé a Patife
Band. Sonoridade ímpar. Não é rock,
The Evens
Get Evens (Dischord)
Ian MacKaye é um músico, que por
sua trajetória e trabalhos no Fugazi
e Minor Threat, dispensa maiores
introduções. Por isso, vamos ao que
importa, que é falar de sua nova
banda: The Evens e seu segundo
disco Get Evens. Digamos que o
nome da banda cai bem pelo sentido
que a tradução lhe dá. Na banda, Ian
MacKaye e sua esposa Amy Farina se
tratam em pé de igualdade mesmo
tocando instrumentos diferentes. O
diálogo guitarra/bateria aqui passa
longe dos clichês pré-formatados
do rock’n’roll atual. Em compassos
diferentes, refrões e com uma pegada
hard-folk, Amy e Ian alternam os
vocais principais em faixas que
lembram Minutemen, os primeiros
trabalhos de PJ Harvey e, claro,
Fugazi. Por que ouvir? Basta dizer
que “Everybody Knows”, “Eventually”
e “Dinner with the President” foram
as músicas que passei dias lembrando
após ter ouvido uma única vez.
Jarmeson de Lima
Explosions in the Sky
All of A Sudden I Miss Everyone
(Temporary Residence)
Explosions in the Sky vai fazer você se
arrepiar e ter todas aquelas sensações
estranhas ao mesmo tempo com
seu recente All of A Sudden I Miss
Everyone. “The Birth and Death of the
Day” abre o disco de forma explosiva
e vai ficando mais até se ligar em
“Welcome, Ghosts”, estabelecendo
uma continuidade que pode ser
nomeada por assim dizer...Vanguarda
pura. O que realmente surpreende,
entretanto, é a forma como a banda
conseguiu inserir o piano em
suas músicas: tudo permeado por
ambientações oriundas de efeitos
sonoros. Parece exagero,
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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mas não é. A introdução de “It’s Natural to
be Afraid”, por exemplo, ficou arrasadora.
“What Go You Go Home To?” é quase toda
no piano. “Catastrophe and Cure”, “So
Long” e “Longsome” também estão a todo
vapor. As músicas do Explosions in the Sky
sempre seguiram aquele modelo: começam
calminhas e vão se construindo com riffs
lentos e novos sons, até explodirem em
fúria e beleza no final. Algumas fazem o
oposto, mas é basicamente isso. Já em All
of A Sudden I Miss Everyone, nota-se que
as músicas são feitas de “momentos”
- constroem-se rapidamente, explodem,
e voltam a se construir diversas vezes
durante a música, transformando-se em
um conjunto de pequenas canções.
Cleyton Brito
logo no primeiro. A nossa
sorte é que recebemos um
depois de eu ter enviado um
e-mail dizendo que “In the
Shape” é a melhor música de
2007... até o momento. Mas
realmente é. Provavelmente,
você ainda não ouviu falar da
banda, mas a melhor coisa
que as outras bandas, um
pouco mais populares, podem
fazer é colocar na lista do “Top
Friends” do MySpace a banda
desconhecida amiga. Foi assim
que Grizzly Bear fez e isso tem
ajudado esses meninos de Los
Angeles a tocar mais e lançar esse
maravilhoso disco. Para quem
gosta de guitarras, riffs pegajosos,
bom vocal sem aquele sotaque
inglês e dançar sozinho no quarto
– Foreign Born é uma ótima
pedida. Aproveite para baixar
algumas faixas no blog: http://
foreignbornmusic.blogspot.com.
Ana Garcia
Expresso Monofônico
Expresso Monofônico (Baratos Afins)
A mais nova aposta do lendário selo
paulista Baratos Afins é o Expresso
Monofônico, também da capital, que
faz um som remanescente dos anos
70, principalmente da MPB da época,
fato que já pode ser observado pelo
nome de algumas canções, como
“Araçá (Para Caetano)” e “Cadê
Meu Disco Voador?”, que cita letra
de Arnaldo Baptista. Sonoramente
lembram uma versão mais contida
dos Mutantes ou mesmo Tom Zé,
mas sem a força e carisma de ambos.
O vocal feminino é extremamente
afinado e profissional, o que tranca
o restante da banda de sair para
vôos mais psicodélicos. No geral é
um disco longo e rico em ritmos,
indo da canção pop mais tradicional
a experimentalismos sonoros
influenciadas pela vanguarda paulista
dos anos 80 – Arrigo Barnabé, Jards
Macalé e afins. São ao todo 15 canções,
dentre as quais umas melhores que as
outras. Um disco que fica na média,
não é ruim, nem bom.
Gilberto Custódio Jr
Foreign Born
On the Wing Now (Independente)
Ainda não foi lançada a versão oficial
deste disco. Os meninos fizeram
500 cópias artesanais para vender
durante os seus shows, mas esgotou
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Frida Hyvönen
Until Death Comes (Secretly
Canadian)
Esta loura sueca esta transando
com o seu piano. Sério. Ela expõe
sua vida, com a maior facilidade,
utilizando apenas a sua linda e
inconstante voz e o seu parceiro, o
piano. No começo, até achava que
Frida era toda bonitinha, fazendo
um pop fofo e tal, mas na verdade
ela não tem nada de inocente.
Conta, sem pudor, quando teve pela
primeira vez um pau esfregando
na sua cocha, canta sobre as suas
ficadas, relações amorosas e até
dos homens que levou para casa.
“I am making sure that he gets
home / The sun is shining / I
have everything / The strength to
see him off / With no promise of
his return”. Tem até música meio
homo-erótico, cuja Frida fala sobre
uma tal Valerie que a amou mais
que qualquer outra pessoa. Bem,
até que eu estava suspeitando da
galega quando escutei Djuna. Com
certeza ela está se referindo a escritora
Djuna Barnes, que tratava bem os
temas sobre lesbianismo. Se autoexplorando sexualmente para compor,
Frida lançou seu álbum de estréia
originalmente pelo selo escandinavo
Licking Fingers. Depois o seu amigo
Jens Lekman ajudou a sueca a entrar
na família da Secretly Canadian e dar
os seus primeiros passos fora do gelo
nórdico. Com pequenas semelhanças
com Blue de Joni Mitche ou Tapestry de
Carole King, pela gravação crua, Until
Death Comes é um disco curto de 29
minutos, mas com muitas histórias.
Sempre no piano, Frida consegue
variar os ritmos e as melodias das
músicas, não há nada melhor que
pegar as letras e cantar junto!
Ana Garcia
da voz grave e cheia de sentimento,
o músico australiano tocou sua
guitarra tosca, piano e órgão tendo o
apoio da guitarra e violino sujos de
Warren Ellis, do baixo pulsante de
Martyn Casey e da bateria tribal de Jim
Sclavunos, seus velhos conhecidos.
Tudo a serviço de belas canções. Além
de rocks sujos e irados como “Get
it on” e “Love Bomb”, o disco tem
baladas comoventes e cheias de soul,
como “Chain of Flowers” e “Vortex”.
Diamante bruto.
André Balaio
de Bob Dylan e do som cru do Hüsker
Dü (talvez porque seus integrantes
tenham morado em Minneapolis,
terra do seminal power trio). E as letras
têm influências literárias. O nome do
último disco, Boys and Girls in America,
é uma citação de On The Road – Pé na
estrada, de Jack Kerouac. É sonzão, para
sair ouvindo numa velha camionete
em uma estrada empoeirada de um dia
quente de verão.
André Balaio
The Go Find
Stars on the Wall (Morr Music)
A primeira coisa que eu amo sobre
todas as bandas da Morr Music é a arte
criada pela Human Empire. Elas são
normalmente tão coloridas, tão doces
e me lembram um sorriso de bebê. É
por isso que eu ainda acredito no CD e
é por isso que eu fico tão feliz quando
recebo todos os seus lançamentos. Ah,
a música normalmente é maravilhosa
– sempre um pop sofisticado puxando
para o eletrônico. Aqui, Dieter
Sermeus pegou a sua banda ao vivo
que tem o acompanhado no palco nos
últimos três anos e entrou no estúdio
para criar o segundo lançamento Stars
on the Wall. Os loops criados no laptop
de Dieter encontrado no lançamento
de Miami (Morr Music, 2004) agora
estão um pouco mais sutis. O baixo e
a bateria estão mais na cara e na maior
parte do tempo encontramos guitarras,
às vezes até acústica, vozes doces com
órgão Hammond e sintetizadores
analógicos, palminhas e delays.
Pegajoso, mas ao mesmo tempo um
pop melancólico gostoso para escutar...
agora.
Ana Garcia
Hell on Wheels
The Odd Church (Hybris | Coquetel
Molotov)
Este é o quarto disco deste trio
maravilhoso da Suécia e o primeiro
a ser lançado no Brasil. Em The
Odd Church, a voz de Åsa está bem
angelical, o estilo único de Ricka de
cantar e tocar está mais marcante e
a bateria de Johan parece mais livre,
embora bem moldada nas melodias e
vocais. A primeira música, “Heard You
on the Radio”, é um charmoso indie
pop que não faz mal nenhum se ficar
grudado na sua cabeça por algumas
horas. “Alexandr”, apesar da letra um
pouco surreal, chega perto do melhor
do rock. “Come on”, “As We Play”,
“Perversion” e “Stealing Notes from
the Devil’s Notebook” trazem um rock
poderoso e cativante. Aqui, o Hell on
Wheels encontrou sua melhor forma.
Thais Coimbra
The Hold Steady
Grinderman
Grinderman (Anti)
Por que um cantor cultuado como Nick
Cave, com uma sólida carreira de mais
de vinte e cinco anos, formaria uma
nova banda? Em primeiro lugar, não se
pode esperar de Cave atitudes de um
típico rock star. Ainda bem. Porque
a Grinderman, sua nova “banda de
garagem” apareceu com uma urgência
que poucos ousam ter hoje em dia. No
disco homônimo recém-lançado, além
Boys and Girls in America (Vagrant)
Há quanto tempo você não ouve um
rockão, daqueles com altos riffs de
guitarra, acordes de piano em tom
maior, órgãos Hammond flamejantes
e vocais gritados, sem achar isso
ridículo ou démodé? Pois pode
se preparar. The Hold Steady não
inventou a roda, mas faz um som
inteligente e empolgante como há
muito não se ouvia. Esses novaiorquinos conseguiram juntar o hardrock setentista do Thin Lizzy ao típico
som universitário dos anos 80, feito
por um R.E.M. ainda jovem e cheio de
viço. Há ainda vestígios do folk-rock
I’m From Barcelona
Let Me Introduce My Friends (EMI)
Tem como não gostar ou pelo menos
não se afeiçoar a uma galera que canta
sobre querer construir uma casa na
árvore (“Treehouse”) ou sobre completar
sua coleção de selos (“Collection of
Stamps”)? E olhe que a galera que canta
isso é grande. Estou falando dos 29 suecos
que fazem parte do I’m From Barcelona
com suas canções alegres e cheias de
vida. Trilha sonora para pessoas felizes
– Bem que esse poderia ser o subtítulo do
disco desses suecos, que fazem melodias
assobiáveis e refrões para cantar juntos. É até
desnecessário tentar definir o som de uma
banda pop com influências do folk que traz
tanta gente para gravar um disco que tem
acordeom, violas, trompa, violinos, palmas e
muitos coros. Por isso, a comparação
é freqüente com grupos do tipo The
Polyphonic Spree e Broken Social
Scene. É a música pop até o talo
conquistando novos fãs como se
tivessem lido livros do tipo “Como
conquistar amigos e ser popular”.
Não à toa o nome do disco deles é
“Let Me Introduce My Friends”. Bem
apropriado, não?!
Jarmeson de Lima
Irreversíveis
impregnadas de cotidiano. Recursos
eletrônicos no meio de uma formação
de baixo, guitarra e bateria com algo
do indie rock, e que se aproxima aqui
e ali da mpb menos tradicional. O
uso de programações eletrônicas e
samplers pode apontar na direção
da ficção científica, gênero tão caro
a Wells, mas há algo de nostálgico
nisso tudo.
Luiz Otávio Pereira
rotina do dia-a-dia e no amor, Dorion
trabalha suas nuances diárias. Como
na afetuosa relação mãe-filha: “Almost
every night between two and four/ She
rolls out of bed and onto the floor/
Sometimes I have to go in/ And put
her back into her bed again”. Aqui, ela
canta com uma doçura indescritível.
Ao cantar o cotidiano (“So maybe
this coffee is a bad idea/ And maybe
this might not work out for me”), ela
tende a simplicidade, quase medíocre,
mas a execução e a delicadeza de suas
pequenas canções carregam um peso
artístico inestimável.
Tathianna Nunes
Julie Dorion
H.G. Wells (Bolacha Discos)
Talvez uma banda fazer um disco todo
em referência a um escritor pareça
algo pretensioso, como se quisessem
mostrar que têm cultura por terem
lido toda a obra de um determinado
autor. Muita gente enxerga desse
jeito por tomarem literatura como
um tipo de cultura posta em um
pedestal, que não deveria se misturar
com música pop. No entanto, para
a banda carioca Irreversíveis, lançar
um disco intitulado H.G. Wells é algo
simples, afinal, literatura faz parte da
vida de um monte de gente. E nesse
caso específico, os temas trabalhados
por Wells fazem parte de uma cultura
pop que nem é preciso ter lido os
livros dele. Isso fica claro nas letras tão
Woke Myself Up if These Trees Could Talk
(Jagjaguwar)
Este disco promove o reencontro
da canadense Julie Dorion com
seus antigos colegas de banda Mark
Gaudet, Chris Thompson e Rick
White (que, por sinal, produz o disco).
Todos ex-Eric’s Trip que desde 1996
haviam se separado tocando projetos
distintos. A reunião não serviu apenas
para matar a saudade, e sim resultou
nos melhores arranjos de Dorion
que, por vezes, recaem no Eric’s Trip
ao trazer canções mais simples e, ao
mesmo tempo, reflexivas. A tristeza
melódica e temática do inacreditável
Goodnight Nobody continua presente
com nas letras, nas cordas poderosas e
nas batidas marcantes. Inspirada pela
Menomena
Klaxons
Myths of the Near Future (Universal)
Quando o hype se confirma, aqueles
chatos de plantão são obrigados a
destorcer o nariz. E foi exatamente
isso que aconteceu com o Klaxons.
Líderes do tal movimento new rave
(rótulo inventado por um de seus
membros, Jamie Reynolds), o Klaxons
fez muito barulho no final de 2006,
com shows coloridos por bastões de
neon, músicas dançantes, e alguns
singles esgotados. Conclusão: criou-se
desconfiança que só foi quebrada após
o lançamento do primeiro álbum,
foto: divulgação
Friend & Foe (Filmguerrero | Barsuk)
Menomena é um trio de Portland, Estados Unidos,
formado por três amigos de longa data. Justin é
carpinteiro, Brent trabalha como garçom e Danny ganha a
vida como artista gráfico. Gastos com shows, turnês e gravações acumularam uma
dívida que passa de cinco mil dólares. Situação bem comum no mundo da música
em qualquer parte do planeta: basta alguém ter uma idéia e resolver colocá-la para
frente que chegam as dívidas. O estranho aqui é que Menomena já lançou dois discos
muito bem recebidos por crítica e público. Mas, por falta de um empresário-produtor
decente, o máximo que eles fizeram até agora foi cruzar a fronteira até o Canadá.
A despeito de não terem uma pessoa que os ajude a projetar uma carreira, eles
contam com o talentoso Craig Thompson, um designer incrível, responsável pela arte
maravilhosa do último disco. Não fosse pelo apoio emocional e financeiro de seus pais,
esposas e amigos, nunca teríamos a oportunidade de conhecer Friend & Foe, que, até
agora, é um dos melhores discos lançados em 2007. A forma de criação do Menomena é
basicamente a seguinte: o trio grava o que toca e depois reprocessa tudo num programa
de computador que produz loops ou repetições a partir dos sons originais. À primeira
vista, pode soar amador e até bem experimental, mas a combinação das experimentações
do grupo com melodias pop se torna irresistível. Neste disco novo é possível identificar
dois momentos diferentes: um primeiro, mais abstrato e instrumental como na faixa
“Muscle ‘n Flo”, que traz uma bateria barulhenta acompanhada de um leve som de piano,
e um segundo momento dedicado a um pop orquestral, em canções como “My My” e
“Wet and Rusting”. A última pode ser um exemplo de canção pop perfeita, fazendo uso
de guitarras, baterias, assobios, vozes distorcidas e de parafernálias eletrônicas para criar
diferentes climas e atmosferas. No restante do disco, ainda aparecem palmas marcando
o ritmo e saxofone a la Morphine. Este disco novo do Menomena sai por uma gravadora
nova. Resta-nos torcer para que Friend & Foe também renove a sorte do trio e que muito
mais discos venham por aí.
Tathianna Nunes
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Myths of the Near Future. O disco
reforça as influências da rave britânica
de Stone Roses e Happy Mondays, e
começa arrebatador: “Two Receivers”,
“Atlantis to Interzone” (um dos singles
esgotados, faixa mais dançante do
disco), e “Golden Skans”, essa uma
balada perfeita para FMs. Na seqüência
há uma caída, que é levantada por
“As Above, So Below”, “Magick” e
“Gravity’s Rainbow”. Música para
dançar sem se preocupar com o futuro
próximo.
Bruno Dias
LCD Soundsystem
The Stooges
ilustração mooz
The Weirdness (Virgin)
Pessoalmente, acho muito chato quando uma banda
que fez história resolve voltar. Achei isto dos Sex
Pistols, acho isto de Os Mutantes e tô achando dos
Stooges. Com boa parte de sua formação original - Ron
Asheton, na guitarra, Scott Asheton, na batera, e Mike
Watt (ex- Minutemen), no baixo, em lugar do falecido Dave Alexander; The
Stooges acabam de lançar The Weirdness, que como indica o título, uma
tronchura. Aqui, não vejo mais a visceral música que se podia ouvir entre 1969
e 1973. Nem Iggy Pop, com aquela cara de quem vai saltar em cima de você
a qualquer instante, mete mais medo, nem a música que faz contém aquela
mesma urgência, de quem quer acabar o show antes que o mundo termine. As
primeiras faixas do disco, “Trollin”, “You Can’t Have Friends”, “ATM”, “Idea of
Fun”, poderiam estar em qualquer banda que persiste naquele punk californiano,
de motto shakesperiano: much ado for nothing, em tupiniquim: muita zoeira
por nada. Iggy Pop soa como um David Bowie tocando num som com bateria
fraca. Onde o velho raw power, dá as caras é em “Free and Freaky”, que parece
ter sido apanhada no fundo do baú, um ótimo, outtake de 1973. Nas letras, o que
se poderia esperar de Iggy Pop? Fala do próprio dardo de Eros, com perdão do
eufemismo castiço, (my dick is like a tree), detesta a humanidade (o que não é
nenhuma novidade), canta a vida boa do sexo, drogas and rock and roll. O rolo
compressor só volta a funcionar em “Mexican Guy” que, mesmo assim, está mais
para o rock épico do Led Zeppelin do que para o menos é mais do antigo Stooges.
Em “Passing Cloud”, a Iguana pop volta a lembrar o Camaleão Bowie, com a voz
pastosa, pela cobertura de marshmallow de Steve Albini. Sacana como é, Iggy
Pop pode até cometido mais uma sacanagem com os que queriam os Stooges de
volta. Não estavam a fim de ver a banda reunida? Pois aí está esta porcaria, e o
nome do disco é como vocês também queriam, The Weirdness, A tronchura!
José Teles
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Sound of Silver (DFA)
James Murphy continua um passo
à frente da música. Sound of Silver
deve ser o primeiro disco feito para
ouvir exclusivamente com fones de
ouvido. Não faria efeito nem mesmo
na mais potente caixa de som, mas é
perfeito para bombar uma pista em
silêncio, apenas com iPods (ou, ok,
os genéricos) no volume mais alto.
Tem pelo menos uns cinco hits aqui,
sendo “North American Scum” o mais
potente. Batidinha rápida, viciante. A
descartável, e isso é esquisito, é justo
a que dá nome ao disco. Disco que,
bom citar, revela a vontade do LCD em
transformar as festas em algo político,
recheado de mensagens do primeiro ao
último refrão. E como um cara à frente
de nosso tempo, Sound of Silver só vai
ser lançado daqui uns meses, já velho e
com clima de “so last week”.
Bruno Nogueira
poucos, a canção vai ganhando corpo
e adiciona clarinetes, flautas e um
baixo. No final, estamos dançando e
cantando junto com ele. Para mais
ou para menos, todas as músicas de
Loney, Noir trazem consigo a mesma
áurea irradiante. Até em faixas meio
melancólicas como “I Will Call You
Lover Again” quando chegam ao fim,
deixam a mesma sensação de um
chocolate quente no inverno ou de um
sorvete de baunilha no verão.
Tathianna Nunes
The Loveninjas
The Secrets of Loveninjas (Labrador)
Anders, Dennis, Olle e Tor são quatro
amigos de 20 e poucos anos que
dividem seus interesses por gueixas,
ninjas e música pop. Juntos formam
o grupo sueco The Loveninjas.
Inspirados pela produção musical
e pelos excessos sexuais comuns à
Suécia, esses amigos resolveram
pescar idéias na pornografia da
literatura dos Mangás japoneses
para compor seu disco de estréia:
The Secrets of the Loveninjas. Aqui
ainda encontramos um pouco de
romance nas dez músicas que
falam de amor, corações partidos,
encontros e desencontros. Mas
tudo isso emoldado em um clima
sujo a la sexo, drogas e rock’n’roll.
A melodia é um capítulo à parte.
Estamos diante de um delicioso
indie pop com toques de um
eletrônico lo-fi. Este é um disco
maravilhoso, extremamente pop e
viciante. Destaque para a fantástica
“I Wanna Be Like Johnny C” e para
a quase fofa “Do Me”.
Tathianna Nunes
Loney, Dear
Loney, Noir (Sub Pop)
Com Loney, Noir entramos no
mundo simples, doce e imensamente
charmoso de Emil Svanängen, o nome
por trás de Loney, Dear. Se prepare
para se apaixonar, como num passe
de mágica, pelas músicas pop e fofas
deste sueco. Os melhores momentos
em Loney, Noir são incandescentes,
apressados e viciantes. O primeiro
single do disco, “I Am John”, é um
pop irresistível e alegre que combina
uma guitarra acústica aos falsetes da
voz maravilhosa de Svanängen. Aos
sem meias-palavras. Poesia dura que
impressiona e prende atenção de
qualquer um. Difícil alguém passar
batido pela música do Ludovic.
Podem até não gostar, mas indiferente
ninguém fica. Sonoramente eles
emulam Sonic Youth, Foo Fighters
e Black Flag, sem exatamente copiar
ninguém em particular. O álbum
– ainda bem – quase não conta com
nenhuma balada, é tudo rápido e
rasteiro. É excelente. E ao vivo é ainda
melhor. Eles conseguem multiplicar
a intensidade do álbum por cem,
simplesmente imperdível.
Gilberto Custódio Jr.
The Magic Numbers
Those the brokes (EMI | Heavenly)
O quarteto britânico The Magic
Numbers é tão doce que enjoa.
Quando apresentaram ao mundo
“Forever Lost”, música do primeiro
disco homônimo, parecia que
iam conquistar o título de novos
queridindos. A canção tinha tudo
que precisa para ser um hit: melodia
empolgante, backings vocals
lindos (aprenderam direitinho com
o Mamas & Papas) e um refrão
incrivelmente chiclete. Infelizmente,
o resto do disco não acompanhava,
mas quando notaram isso o estrago
já estava feito. Um ano depois o
quarteto ataca novamente e lança seu
segundo álbum, Those The Brokes.
Nele, resolvem adicionar mais soul e
combinar com country, folk e pop. Dá
certo em “Boy”, onde eles mostram
que também freqüentaram a escola
Jackson 5/Smokey Robinson & The
Miracles. As demais, especialmente
na segunda metade do disco, são de
uma pieguice que lembra o pior do
R&B americano. Morrissey e Stuart
Murdoch aprenderam a cortar doce
com boas doses de cinismo. Romeo,
líder do grupo, ainda precisa aprender
essa lição.
Aluísio Gomes Jr
Ludovic
Idioma Morto (Travolta Discos)
Intensidade é a palavra que melhor
resume esse novo e segundo
álbum da banda paulista Ludovic.
O vocalista Jair canta e grita
como se não houvesse amanhã
e fica explícito que o que sai de
sua boca vem lá de dentro, do
coração, da alma. As letras em
português são fortes e diretas,
Mastodon
Blood Mountain (Reprise)
Mastodon voltou!!! O quarteto de
Atlanta voltou no ano passado com
o terceiro álbum Blood Mountain
pela Reprise, da Warner, e já estão
confirmados em todos os grandes
festivais, recebendo as melhores
críticas possíveis – até das mídias que
normalmente prestam atenção na
próxima novidade indie pop. Se bem
que não há nada mais indie hoje em
dia que bandas de metal! Quem já viu
o público dos shows do Sunn O)))?
Mastodon é aquele tipo de banda que
deveria estar lotando todas as arenas
do mundo. No momento, não estão,
mas tudo indica que essa situação
não se prolongará por muito tempo.
Dizem que o forte deles são mesmo
os shows ao vivo e um grande público
pode conferir isso durante a turnê
com Slayer em 2004. Mas, eles
também são bons de estúdio. O disco
Blood Mountain é uma jornada épica
que inclui canabalismo, diversoso
mostros e criaturas, com poder e
criatividade levando todas as barreiras
da música pros limites, mas ainda
mantendo verdadeiro para o som
do Mastodon. Seguindo a tradição
dos temas - nos discos anteriores,
Remission (Relapse, 2002) era fogo,
Leviathan (Relapse, 2004) era água.
Blood Mountain é terra. Imagina o
que nos espera para Vento... Isso
lembra da época que o meu irmãop
jogava Dungeons and Dragons. O
álbum ainda traz participações de
Scott Kelly, vocalista do Neurosis,
Josh Homme do Queen of the Stone
Age e Cedric Bixler-Zavala do Mars
Volta, enquanto eles continuam
com o mesmo produtor Matt Bayles,
ex-Minus the Bear.
Ana Garcia
Maxïmo Park
Our Earthly Pleasures (Warp)
Quando o mundo do pop viu como
o Maxïmo Park era legal no palco,
resolveu dar mais uma chance a
banda. O primeiro disco meia-boca
não fechou uma porta sequer para
eles. Todos queriam acreditar na
banda. E, bom, durante a turnê,
parece que foi legal acreditar.
Agora, com Our Earthly Pleasures,
o segundo, a banda manda uma
mensagem clara para todos que
gritaram “Maxïmo, Maxïmo”, no
Reading Festival. E a mensagem
estampa, em letras enormes,
“nosso negócio não é fazer discos”.
“Girl Who Play Guitars” e “Our
Velocity” abrem de maneira
viciante e deliciosa, mas ficam
quase que esquecidas no restante do
disco. Pensando com calma, talvez
o Maxïmo devesse se livrar dos
excessos. 12 músicas, para eles, parece
ser demais. Our Earthly Pleasures
consegue fácil destacar seis faixas que
poderiam ser lançadas antes. “Russian
Literature”, “The Unshokable”, “By
the Monument”, “Parisian Sky” e as
duas primeiras. Pronto, ta aí uma
ótima compilação que não queimaria
o filme da banda. Se o Maxïmo Park
sabia que o disco chegaria antes na
Internet, eles não precisavam ser
julgados por 12 faixas. Um single
aqui, outro ali e – insisto – seis faixas.
A banda não teria a tal sombra do
Franz Ferdinand que, na real, não
tem nem nada a ver com o som
deles. O disco acaba desanimando
porque nos faz pensar que, justo essas
bandas, que deveriam estar anos-luz
de nosso raciocínio pop, continuam
apostando em formatos tão datados.
Que o excesso do Maxïmo vire a
trilha sonora para o protesto “abaixo
o disco”.
Bruno Nogueira
Mzuri Sana
Ópera Oblíqua (Trama)
“Era uma vez três amigos, três vidas,
três almas, três homens, três famílias,
contra gente sem calma. Escute-me,
ajude-me, mova-se, reflita se puder.
Eu te pergunto o que é? Se puder
descubra. Descubra se puder. Então
bem pense o que quiser. Hip hop é
forma de expressão e não de repressão.
Presta atenção na rima, cada frase
aqui te ensina ritmo e poesia, mas é
sem hipocrisia. Dizem que eu rimo
complicado, não, eu rimo iluminado.
O beat nunca atravessa, sempre faz
barulho a beça. A festa é ele quem
começa. Raciocínio quebrado, porém
nunca mal gravado. O que dá forma
a nossa arte é a criação e a inovação.
M-Sana, firmamento, se firmando na
colônia. Lógico! Rap de raiz.” E isso
tudo não sou eu quem está dizendo.
É Parteum e Secreto, sobre as bases
do Suissac, nas faixas do tão esperado
primeiro disco do Mzuri Sana, Ópera
Oblíqua. Precisa dizer mais alguma
coisa?
Endrigo Chiri Braz
Mula Manca & a Fabulosa
Figura
Amor e Pastel (Independente)
Amor e Pastel é um disco muito bem
cuidado. Esta é a sensação transmitida
da primeira à última faixa do novo
álbum da Mula Manca & A Fabulosa
Figura, que, além do nome, trocou o
ar quixotesco pela novela romântica,
sem medo. O nome do disco,
inclusive, é bastante sugestivo: remete
às histórias de amor cotidianas, que
acabam pasteurizadas nos folhetins
televisivos e revistas populares.
Contudo, o disco da Mula Manca não
é um pastelão romântico gratuito e
mal feito. Pelo contrário, as letras,
melodias e arranjos mostram um
resultado requintado. Isso pode ser
visto em canções como “Outro Par”,
“Fórmula 1” e “Dinheiro”, que deve
ser o grande sucesso, embora haja
composições como “Terra, Água e
Sal” e “Deita Aqui” para deixar o
ouvinte em dúvida. Esta última, por
sinal, mostra a bela voz da cantora
paraibana Eleonora Falcone, que
traz o tom intimista necessário à
canção e revela critério até na escolha
dos convidados. Não resta dúvida
que foi a dedicação do grupo que
transformou Amor e Pastel em disco
tão bonito.
Ana Lira
Nouvelle Vague
Bande a Part (Justin in Time)
Há algo de mágico no Nouvelle
Vague. Os produtores do grupo, Marc
Collin e Oliver Libaux, conseguem
recriar mundos estéticos sem perder a
essência das canções originais. Assim
como em sua estréia homônima,
Bande a Part reúne mais uma série de
músicas que vai do punk, pós-punk
ao tecnopop da década de 80, e as
transformam em bossa nova, jazz, pop
francês dos anos 60 e outros estilos
que caem elegantemente nos nossos
ouvidos. “Killing Moon”, dos ingleses
do Echo & The Bunnymen, abre o
disco com uma melodia singela e
lúdica. Nela, Melanie Pain não canta,
sussurra docemente acompanhada
por violão, acordeão e xilofone. E
nas versões de “Even Fallen in Love”
de Buzzcocks e “Blue Monday”
do New Oder, Collin e Libaux não
economizam nos detalhes e nos
efeitos sonoros enriquecidos pela
interpretação suave de Melanie.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Outro ponto alto do disco está no
som tranqüilo da versão de “Heart of
Glass”, clássico das pistas dos anos 80
do Blondie, levada na percussão, violão
e no vocal de Gerald Toto. Algumas
versões não são tão estimulantes,
como “Waves” de Blancmange e “Bela
Lugosi Dead” do Bahaus, mas não
afetam a graciosidade do disco.
Tathianna Nunes
Of Montreal
Hissing Fauna, Are You the Destroyer?
(Polyvinyl)
Depois de enfrentar um divórcio,
ficar longe de sua filha e enfrentar
uma depressão, Kevin Barnes, líder da
banda americana de nome canadense,
mostra como o sofrimento faz bem
à arte no seu oitavo disco, Hissing
Fauna, Are You the Destroyer? Aqui,
Barners está cínico e, como se tivesse
colocado no papel o resultado de
sessões de terapia, nos insere em um
universo de sentimentos vulneráveis
que procura algo, desesperadamente,
nas drogas, na religião ou até mesmo
na violência. A primeira faixa do disco,
“Suffer for Fashion” constrói, com seu
ritmo e melodia, um pop frenético e
contagiante, mas, nas letras, esconde
momentos de grande tristeza. E assim,
“Heimdalsgate Like A Promethean
Curse”, “She’s A Rejector” e “Faberge
Falls for Shuggie”, continuam o disco
até serem interrompidas no krautrock
de “The Past Is A Grotesque Animal”.
Nela, Kevin Barners lamenta, em
épicos doze minutos de duração,
sua solidão: “It’s so embarrassing to
need someone like I do you / How
can I explain I need you here and not
here too”. Hissing Fauna, Are You
the Destroyer? é uma fonte infinita de
suplícios de cortar o coração, que tenta
ser disfarçada pelo talento de Barners
de compor melodias contagiantes. E
isso tudo vem dentro de uma caixinha
linda e fofa.
Tathianna Nunes
Panda Bear
Person Pitch (Paw Tracks)
Fato: o Animal Collective é uma
das bandas mais importantes da
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coquetel molotov | abril 2006 | número 2
atualidade. Goste você ou não,
entenda você ou não, queira você
ou não, conheça você ou não. Isso
porque eles são o tipo de banda que
muda vidas, que altera perspectivas,
que leva à redefinição de conceitos,
que soa nova, perigosa, desafiadora,
instigante. E é esse tipo de banda
que influencia gerações e gerações,
mesmo que pouco ouvidas por seus
contemporâneos. Panda Bear é um dos
integrantes do Animal Collective, aqui
em seu segundo trabalho solo. A linda
“Comfy in Nautica”, que abre o disco,
funciona como manual prático para
o som do cara. Panda Bear põe em
contato universos díspares ao levar as
harmonias celestiais de Brian Wilson
aos subterrâneos dos ruídos caseiros
e loops mântricos. É experimental, é
estranho, é lo-fi, mas é absurdamente
melódico e cativante. Pop, diria, se
isso fosse possível.
Dagoberto Donato
Patrick Wolf
The Magic Position (Loog | Universal)
Este é o terceiro disco do multiinstrumentista britânico Patrick
Wolf. Mantendo a tradição de mudar
a cor do cabelo a cada lançamento,
Wolf aparece ruivo na capa de
The Magic Position, montado em
um veadinho de um carrossel
colorido e cheio de animais. Por
mais bizarro que possa parecer,
é uma capa bonita e intensa que
combina perfeitamente com as
músicas inquietas do disco. Mais
uma vez, Wolf mergulha em
suas tragédias pessoais (filho
adotivo, apanhava no colégio,
crises existenciais etc.) para
dar profundidade e paixão à
sua composição. “Overture”,
a música de abertura, é
exatamente o que se espera de
Wolf: uma mistura perfeita
de violinos, viola, teclados,
entre outros instrumentos.
Aqui, ele consegue recriar
uma abertura tão perfeita
quanto “The Libertine”
foi para Wind and Wires
(Tomlab, 2005). Em “The
Magic Position” e “Accident &
Emergency” encontramos um
Wolf mais eletrônico e animado
do que estamos acostumados. E
“Magpie” amplia a diversidade do
disco ao aparecer calma conduzida,
lindamente, por pianos e violinos.
Tathianna Nunes
mensagens anti-religiosas e que, por
vezes, ridicularizam o presidente. O
disco é bom e é o melhor em músicas
e arranjos do The Thermals até então,
embora, acredite que Harris e sua
turma precisem diversificar mais nas
melodias. Fica um pouco repetitivo.
Tathianna Nunes
com a balada psicodélica “Live in sunshine”.
Pedaços de canções que a gente ama.
André Balaio
Perrosky
Supercordas
El Ritmo y la Calle (Algo)
Assim que cheguei ao Chile, no
início deste ano, fui avisada que eu
não poderia voltar sem ter escutado
algumas bandas. Perrosky foi uma
delas. Quer uma prova? Cheguei a
receber três discos de três pessoas
diferentes insistindo que eu escutasse
a banda. Escutei, claro. Estou aqui
escrevendo, não estou? Agora é a
sua vez, podem até conferir algumas
músicas no MySpace. Os irmãos
Álvaro (guitarra e voz) e Alejandro
Gómez (bateria) dão vida ao duo
chileno Perrosky. Eu já conhecia a
dupla do grupo Guiso, uma ótima
banda para quem gosta de rock
de garagem. Mas parece que eles
cansaram do barulho e decidiram
criar um projeto influenciado por
blues, folk, country, jazz, Mississippi,
Johnny Cash, Elvis, Violeta Parra,
cantora folk chilena dos anos 50,
com direito a gaita e tudo. Este é o
segundo disco e contém 17 músicas
originais e sete breves introduções,
muitas pegando emprestado os
diferentes ritmos de Santiago.
Ana Garcia
Seres verdes ao redor: música para
samambaias, animais rastejantes e anfíbios
marcianos (Trombador Discos)
Parece que os integrantes do Supercordas
foram congelados na década de 60. Quando
escaparam das cápsulas, perdidas em
um campo qualquer, trouxeram à tona
o espírito psicodélico da época em que
haviam pegado no sono. A isso acrescente,
ao segundo disco da banda, insetos, flores,
sapos, luz, sol, vento, enfim, tudo o que se
pode achar nas matas. Aqui, o Supercordas
ignora o que vinha fazendo e ressurge
com jeito de banda nova. As guitarras
dissonantes, um teremim bem sucedido
e um teclado Hammond coberto de
camadas compõem um climax de passeio
nostálgico pelo ar livre, com direito a
canções completamente instrumentais
em “Mangue”, “E o sol brilhou sobre o
verde”, e “Musgo”. Ainda há espaço para
faixas inquietantes como “Ruradélica”,
“A charneca”, “Fotossíntese” e a animada
cantada em caipirês “Frog rock”. Nas
faixas instrumentais, o Supercordas
continuam experimentando, porém,
parece que o grupo anda antenado com
as boas novas experimentações que
acontecem ao redor do globo. Digamos
assim: no novo disco, o conteúdo veio
menos experimental, mas conquista uma
sonoridade bem mais contemporânea.
Psicodelia e futurismo navegando na
mesma nave.
Cleyton Brito
Romulo Fróes
Cão (YB Music)
Nesse disco se ouve elementos do samba
da velha-guarda, Caetano Veloso, chorinho,
Cartola, tudo envolto pela voz macia e
aconchegante de Romulo, que acrescenta
uma melancolia saudosista tocante e muito
bonita. Apesar das referências serem todas
de décadas passadas, Cão de forma alguma
soa datado, talvez pelo fato de apostar
num estilo de música atemporal, com
ares de clássica. Outro fato que contribui
para deixar o disco com aspecto atual é
o acréscimo, de forma bastante discreta,
de influências “roqueiras” – no release
Romulo cita Smiths, Sundays e Cure. No
disco a guitarra fuzz de Lanny Gordin
vira e mexe aparece solando. Atualmente
festejado pelo público indie paulista,
Romulo Fróes tem tudo para alçar sua
MPB triste sobre fãs dos Los Hermanos,
Marisa Monte e outros grandes nomes
atuais. O futuro é promissor.
Gilberto Custódio Jr.
Transistors
1 Segundo (Pisces | Ordinary)
Os Transistors fazem parte da
efervescente cena das bandas de
garagem da zona lesta da capital
paulista, que também inclui Os
Skywalkers, Laboratório SP, Os
Haxixins, Os Migalhas e outras. Este
é o 2° disco e temos algumas notáveis
diferenças em relação ao debut,
principalmente nas letras, que agora
são em português (no disco temos
duas em francês, cantada pelas garotas
da banda). Os vocais do Alberto, que,
talvez pelo fato de cantar na língua
pátria, agora estão muito mais seguros
e pessoais, como podem ser conferidos
em “Algo Errado”, um dos grandes
hits do disco. Outros destaques são
“Não Mais”, que lembra o The Charts,
saudosa banda mod da cidade, e “Doce
Vida”, com sua referência lisérgica
na letra. Ao todo são oito faixas, sem
espaços para baladas ou qualquer
outro devaneio. Simples e direto, o
álbum deverá agradar em cheio fãs do
bom e velho garage rock.
Gilberto Custódio Jr.
The Shins
The Rapture
Pieces of the People We Love
(Universal)
É o melhor rock feito para dançar?
Ou a melhor dance music para
agitar? Alguns podem tachá-los de
modernosos demais, mas o fato é
que the Rapture aponta os caminhos
que o rock e a música eletrônica
tomarão nos próximos anos. Seu
novo disco, Pieces of the People We
Love, mostra que o som da banda
continua impactante. É música
que só podia vir de Nova Iorque:
gente antenada que ouvia Stooges
e Giorgio Moroder, Sex Pistols e
Chic. É disco-punk de primeira,
música de festa com riffs potentes,
irreverência e baterias envenenadas.
O disco abre com “Don Gon Do It”,
irresistível convite à dança. E avança
alegremente com pérolas como “Get
myself into it” e “Whoo! AlrightYeah...Uh Huh” para terminar
Wincing the Night Away (Sub Pop)
Desde o álbum de estréia, The Shins vem
se mantendo fiel a sua habilidade de
criar um universo pop, belo e expressivo.
E, em seu terceiro disco Wincing the
Night Away, Mercer continua compondo
músicas majestosamente pop, mas,
o que faz deste um álbum especial
estaria na estranheza de suas letras
que transcende a dos antecessores. Nos
títulos e no corpo, Mercer possui uma
habilidade peculiar em brincar com a
lógica de qualquer um. Em “A Comet
Appears”, ele canta “Every post you can
hitch your faith on/Is a pie in the sky/
Chock full of lies/A tool we devise/To
make sinking stones fly,”. Nem todos
conseguem adaptar uma metáfora
a uma melodia e fazer disso uma
reflexão existencial. Infelizmente, nem
todos os devaneios funcionam, mas
é um disco delicioso que, de repente,
acaba te enfeitiçando e fazendo você
cantar e dançar junto.
Tathianna Nunes
The Thermals
The Body, the Blood, the Machine (Sub
Pop)
O terceiro disco do The Thermals traz
o melhor do rock de garagem em 36
minutos de severas críticas políticas
e religiosas. Não restam dúvidas de
que Hutch Harris, líder do grupo,
está com raiva e questiona Deus, seu
Governo e suas relação com eles.
Ao mesmo tempo em que procura
suas respostas, Harris grita com sua
guitarra em um disco inquieto e
raivoso, não apenas nas letras, mas
no punk versátil de levada pop do
grupo. Em “I Might Need You to Kill”
e “A Pillar of Salt”, por exemplo,
Harris jorra agressividade e difunde
Walden
Walden (Pisces)
Walden é o nome de um romance
de Henry David Thoureau aonde ele
descreve o período em que se isolou do
mundo numa floresta. O subtítulo do
livro é “A Vida nos Bosques”. Walden
é o pseudônimo do músico paulista
César Zanin, que também é partidário
do isolamento em pró da reflexão e
criação artística. Mas enquanto um
se isola no mato, o outro se isola no
quarto. Enquanto um escreve, outro
compõe canções. O resultado é esse
álbum, com 15 faixas, todas gravadas
num porta-estúdio antigo, o Tascam
424. César canta, toca baixo, guitarra
Vamoz!
foto: divulgação
Damned Rock and Roll (Coquetel Molotov | Fire Baby |
Monstro Discos)
A partir deste ponto, o segundo disco da banda Vamoz!
já não é mais novidade. Soa bonito associar tudo às
influências bacanas que eles têm do Teenage Fanclub
e todas essas bandas de indie rock modernosas, etc. Mas,
confesso que depois de ouvir tudo, meu cérebro, num impulso de futilidade
bêbada de vinho barato puxou o Mr Jones do Couting Crows em algum
momento. E, aqui sim, uma confissão sem vergonha, fiquei bem mais feliz que
se fosse o primeiro caso. Consigo pensar numa festa cheia de gelo seco barato
daqui a mais 20 anos, com algum marmanjo bêbado, dançando qualquer uma
das músicas desse disco enquanto nossos netos vão pensar “que brega”. Porque,
no fundo, é isso que é o verdadeiro rock n’ roll. Pense em AC/DC, Motorhead e
todas as bandas que no, primeiro espirro, as revistas gritaram que o rock acabou.
Pensou? Com Damned Rock and Roll, agora você pode por a Vamoz! nesse filão.
Botas de cowboy, whisky, óculos escuros em plena arena do show. A identidade
sonora da banda é mansa, mas intimidadora.
O material, desses que deixam o queixo cair de verdade, se completa com um
DVD. São seis seções. “Vamoz! na Montanha”, com um show acústico gravado
na Livraria Cultura (mais nove músicas do primeiro disco e deste segundo disco);
um documentário com a gravação do Damned Rock and Roll, um clipe da música
“Beside”, fotos da banda e um vídeoclipe para a música “Fire Baby”, mesmo nome
do novo selo que se junta a Monstro e ao Coquetel Molotov para lançar este disco.
Bruno Nogueira
e faz as programações da bateria
eletrônica. O resultado é espetacular.
Influenciado tanto por Field Mice
como por Guided By Voices, assim
como João Gilberto e Flying Saucer
Attack, César atinge o que muitos
procuram, mas poucos conseguem
hoje em dia: um trabalho autoral e de
qualidade. Todas as canções são boas,
todas contêm um certo apelo lo-fi
intimista que cativam pela aparente
simplicidade e despretensão bucólica.
Impossível resistir.
Gilberto Custódio Jr.
The Zincs
Black Pompadour (Thrill Jockey)
The Zincs são de Chicago via Londres,
Inglaterra. Eles sempre fizeram um
pop sombrio com uma vibração
peculiar e sem muitos aparatos. Era
acompanhado apenas da voz barítona
de James Elkington, de um violão,
teclados e, ocasionalmente, de uma
harmônica. Mas, depois do segundo
álbum Dimmer (TJ, 2005) e da longa
turnê pelos EUA, uma importante
mudança aconteceu. Foi tão forte
que assim que voltaram para casa,
decidiram gravar um novo disco
que refletisse essa nova fase. O som
acústico do Dimmer evaporou e o
brilho dos instrumentos eletrônicos,
agora, dominam as músicas. Pense
nas bandas dos anos 80 do Postcard
e Rough Trade, um pouco da cena
minimalista inglesa e nos órgãos
dos anos 60 de New York. Ainda
assim, você terá apenas uma idéia do
que a banda é hoje. Para melhorar,
Black Pompadour foi gravado e
mixado no estúdio Soma, do nosso
querido John McEntire, e traz uma
participação especial de Edith Frost
nas três músicas “Hamstrung and
Juvenile”, “Rice Scars” e “Lost Solid
Colours”.
Ana Garcia
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Expressas
Palavras: Ana Garcia
Foto: Divulgação
Antibalas | “I.C.E.”
Consegue imaginar uma das melhores bandas, Antibalas,
com um dos melhores produtores, John McEntire, trancados
no estúdio durante um mês? Security é a resposta, o quarto
lançamento do coletivo de Nova Iorque.
Battles | “Atlas”
A batida da bateria nessa música é quente. A música em si
é ótima, tive que escutar umas três vezes para realmente
entender, mas o vídeo é fantástico!!! Estão todos trancados
(foto) em um cubo de espelho tocando. Imagina esses meninos
ao vivo... Devem ser incríveis, de parar a respiração. Ainda são
lindos... Mas bem, essa música está no novo disco Mirrored que
deve sair em breve pela Warp.
Yoko Ono
ilustração: mooz
Yes,I’m a Witch (Astralwerks)
Yoko Ono irá pro túmulo (ou crematório) carregando o
estigma de ter contribuído para a dissolução da maior
banda de rock de todos os tempos. Desde que se
envolveu com John, Yoko foi alvo de preconceitos.
De racismo, por ser japonesa (portanto, feia no conceito
ocidental de beleza feminina), e machismo, por ser uma mulher que se
imiscuía no trabalho do marido, ousando fazer música logo com um gênio
do pop. Artista plástica, da turma da vanguarda nova-iorquina, ela nem sabia
quem era John Lennon quando o conheceu. Tampouco precisava da grana dele.
Era filha de banqueiro japonês. Claro que suas intervenções experimentais em
meio às canções cartesianas de Lennon não poderiam deixar de desapontar
fãs do Beatles e acirrar ainda mais os ânimos contra a japonesa atrevida.
Mas Yoko Ono aprendeu em tempo recorde a chegar ao rock, ou pop, básico.
Suas composições trazem esta coisa oriental da concisão. Ouça, por exemplo,
o álbum Fly (1972), certamente o melhor que lançou nos anos 70. Lennon
revelou que decidiu voltar a gravar quando estava de férias, nas Bahamas,
com o filho Sean, e escutou o B-52 no rádio. O som era idêntico ao que Yoko
fazia e a crítica, com raras exceções, destratava. Yes, I’m a Witch, um disco de
remixes, faz justiça à música de Yoko Ono. Em cima dos vocais originais, uma
pá de figurinhas carimbadas dá nova roupagem às canções da odiada japonesa.
Cat Power, Peaches, DJ Spooky, Polyphonic Spree, Le Tigre, Jason Pierce
of Spiritualized, entre outros, exorcizam as composições de Yoko Ono e
ratificam que o bicho não era tão feio quanto foi pintado. O baladão “Death
of Samantha”, com colaboração da inglesa Porcupine tree tem o tempero
certo para não passar da balada à baba, é tão boa quanto Mr.Lennon,
balada do álbum Fly . Ótima, a suingada “Kiss, kiss, kiss”, com a
Peaches. O mesmo para Lê Tigre com “Sisters O Sisters”, da fase
engajada de Yoko, início dos anos 70. Yoko Ono canta, na faixa título:
“Sim, sou uma bruxa/ uma puta /Não ligo pro que dizem/Não vou
morrer por vocês/ encarem a realidade/ vou estar por aqui ainda
por um tempo”. Tomara que sim. Aos 74 anos, Yoko Ono ainda
tem cara e coragem de enfrentar preconceitos, dogmas, cria
tendências, não as segue. Os jovens artistas, que fazem música
com ela neste disco, tiveram que se virar com o que havia no
caldeirão da bruxa.
José Teles
60
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
CocoRosie | “Promise”
Elas estão cada vez mais influenciadas pelo hip hop e, aqui,
encontramos Bianca rimando algo do tipo “I will bathe
you in the crystal light / That sleeps between my thighs” e
Tez (o beatboxer do No Ar 2006) fazendo uma batida que
faz qualquer um mexer a cabeça junto. Mas os pontos altos
acontecem quando Sierra bota a sua voz de cantora de ópera
para fora. Uma música linda, não consigo esperar para escutar
o novo disco The Adventures of Ghosthorse and Stillborn que sai
ainda neste mês.
Dungen | “Gor Det Nu”
Os suecos estão preparando o novo disco Tio Bitar (dez pedaços)
que deve sair em breve pela Subliminal Sounds. Quem gostou
de Ta Det Lugnt (Subliminal Sounds, 2004), provavelmente
vai gostar deste próximo lançamento. A psicodelia continua
presente, porém a bateria parece mais densa e ofuscada. Os fãs
do Dungen têm tudo para gostar, afinal as marcas da banda,
como o pianinho de fundo, baixo, muita guitarra e Gustav
cantando em sueco ainda estão lá.
Feist | “My Moon, My Man”
Leslie Feist irá lançar o seu terceiro disco solo, The Reminder,
em maio, mas os curiosos já podem ter uma noção do que
esperar com esta música. Destaque para o seu lindo vocal
acompanhado de uma instrumentação impecável. Para quem
não a conhece, Feist tem estado bem ocupada desde o seu último
lançamento Let it Die (2004), colaborando com a sua metade
– Broken Social Scene -, gravando com Peaches, Postal Service e,
ainda, conseguiu lançar um disco só com lados-b!
Savath & Savalas | “Apples”
Guillermo Scott Herren está se preparando para lançar o terceiro
álbum do seu projeto Savath & Savalas no início do segundo
semestre pela Anti Records. Com certeza a nova casa, antes era
a Warp, dará o devido valor a este projeto que é todo cantado em
espanhol e nada convencional para quem está acostumado com
o seu mais famoso, aliás, Prefuse 73. Aqui, encontramos um
Guilhermo mais folk, cantando em espanhol com o sueco José
González. Mais uma linda música de amor.
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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DCV
Nessa coluna, escolhi escrever somente sobre os compactos lançados por
gravadoras nacionais, pois felizmente houve um alto número desses lançamentos
de uns tempos para cá. E a tendência é haver cada vez mais. Tenho informações
de que mais gravadoras irão se dedicar a esse formato. E é óbvio que as que
já investem no vinil vão continuar lançando. Caso você se interesse por algum
desses disquinhos, é só digitar o nome da gravadora ou da banda na Internet e
entrar em contato. É fácil, e os compactos geralmente são baratos. A maioria
custa somente 10 reais.
Palavras: Gilberto Custódio Jr.
Ilustração: mooz
MQN
Buzz in My Head (Monstro Discos)
A banda de Goiânia MQN foi quem tomou a atitude mais sensata e
digna de aplausos de tempos recentes: aboliu o CD e a partir desse
compacto só vai lançar música no formato vinil e digital. Além
disso, disponibilizou toda a discografia em mp3 no próprio site.
Esse compacto foi o primeiro da série intitulada sugestivamente de
“Fuck CD Sessions”, que terá cinco volumes, a serem lançados no
decorrer dos próximos meses. Todos eles serão prensados em vinil
colorido, com capas feitas por designers e artistas plásticos, como é
o caso desse 1o volume, que contém a excelente “Buzz in My Head”
com “Speed Bullet” no lado B, ambas típicas MQNianas, ou seja, um
stoner rock aditivado e grandioso. Fodão.
Ação Direta | Contrasto
Split 7” (Pecúlio Discos)
O Ação Direta existe há 18 anos e já
tem sete discos na bagagem. Veteranos
do punk hardcore paulista, a banda
também já excursionou diversas vezes
pela Europa. Esse é o single mais
recente, um split com a banda italiana
Contrasto. Duas músicas de cada. Do
lado do Ação Direta, o destaque fica por
conta da cover do Wolfpack (obscuro
hardcore sueco), que é uma verdadeira
castanhada na cabeça de tão pesada e
furiosa. Uma beleza! Já o Contrasto
consegue ser ainda mais agressivo e
– pasmem! – rápido. Fica até difícil
entender o que acontece no meio
de tantos riffs ultra velozes e berros
raivosos, mas como está descrito no
release que a praia deles é um “fastcore
cheio de distorção, bem noise mesmo”,
quem sou eu para criticar? Vai ver não
entendi nada mesmo.
62
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Armagedom
Apogeu da Insanidade (Absurd Records)
Clássica banda punk paulista que
começou no início de tudo, lá em
82. Lançaram o 1o álbum em 86,
intitulado Silêncio Fúnebre. Esse
mesmo álbum foi relançado em CD e
LP recentemente, sendo que a versão
em vinil é azul, com direito a capa
dupla e pôster da banda, um trabalho
bastante caprichado da Absurd
Records, gravadora de Osasco, cidade
grudada a São Paulo. Essa mesma
gravadora lança esse single em vinil
7” picture-disc, que marca a volta do
Armagedom (a banda ficou um tempão
sem tocar) em grande estilo e com um
som mais rápido e pesado, definido
pelos próprios como deathcore.
Nesse single temos cinco sons nesse
esquema de bateria bate-estaca, vocal
podrão, letras em português e bastante
peso nas guitarras.
Autoramas | Tormentos
Double Trouble Split EP (Monstro
Discos | Scatter Records)
O Gabriel dos Autoramas é um
grande defensor dos sete polegadas,
ao ponto de reservar as melhores
canções de sua banda para os
disquinhos – a melhor música
deles, “H.C.I.”, só foi lançada em
vinil, há cinco anos. Nesse split,
encontramos a inédita “Change”.
Segue a tradição, canção ótima e
exclusiva, talvez um pouco mais
pesada e encorpada do que estamos
acostumados a ouvir da banda, ou
seria essa impressão um efeito do
próprio formato? Pode ser também
o efeito fuzz das guitarras. Aposto
que é a junção dos dois – fuzz em
vinil é o que há! A outra música é uma
versão ao vivo para “Mais ou Menos”,
do 2o álbum. Chatinha. Já disse que
o vinil é laranja opaco? Então. A capa
também é bem legal. Ah sim, do outro
lado encontramos os Tormentos,
considerada a melhor banda de surf
60’s da Argentina. Confesso que essa
é a primeira vez que os escuto. A 1a
música tem vocal, a 2a é instrumental e
ambas seguem aquele esquema típico
das bandas de surf music.
Bonde do Rolê
Solta o Frango | James Bonde (Batidão)
Esse single foi lançado numa tiragem
super limitada pelo Batidão, um dos
tentáculos da gravadora paulista Slag
Records. O disquinho não tem nem
capa, ele vem somente protegido por
um papel branco, e é considerado
uma edição promocional. Foi
distribuído gratuitamente para
alguns poucos sortudos, que no
futuro poderão revendê-lo no Ebay
por uma pequena fortuna. A essa
altura do campeonato todos já
sabem quem são o Bonde do
Rolê, então nem preciso dar mais
detalhes.
Clangor | Eyehatelucy
Split EP (Absurd Records)
Clangor é uma banda paulista
de hardcore que foge da
mesmice acrescentando diversos
elementos enriquecedores em
seu som, como microfonia,
mudança brusca de ritmos,
passagens mais silenciosas, tudo,
lógico, tendo como premissa um
som barulhento, lo-fi e rápido,
flertando com o grind/crust.
Já o Eyehatelucy é ainda mais,
digamos... Experimental. Eles
são da Alemanha e fazem
uma espécie de doom bastante
lento, quase um drone, com
vocais guturais e clima sinistro.
Temos só uma música, intitulada
“Klaustrophilia”, que a própria
banda define como self-hatecore. O
compacto acompanha um encarte
de oito páginas em PB, com letras e
textos políticos diversos.
Jazz Rock (Gravadora Discos)
Por falar no Gabriel (Autoramas), ele
curte tanto os vinilzinhos que resolveu
criar uma gravadora especializada neles,
batizada criativamente de Gravadora
Discos. Já lançou dois 7”, um deles é
o Jazz Rock do DCV, que apesar do
nome não tem nada de jazz rock. O que
ouvimos nas seis canções é o bom e
velho punk rock com pitadas de brega e
letras em português com boas sacadas.
Lembra bastante Wander Wildner,
Camisa de Vênus, talvez um pouco
de Walverdes ou Stuart. Eles são de
Uberaba, MG, e esse é o primeiro
lançamento da banda, um vinil
amarelo mesclado com vermelho.
Derange Insane | Unholy Grave
Split EP (Bucho Discos)
Derange Insane é extremamente brutal
e assustador. Crianças certamente terão
pesadelos se ouvirem essa banda. O
vocal gutural parece saído da boca de
um monstro bem gosmento, numa
linha meio gore que lembra Carcass.
O ritmo é tão rápido que me deixa na
dúvida se eu realmente posso chamar
os quatro sons de canções. Isso não
é música, mas é legal pra cacete. Eles
são de Londrina, Paraná. Já o Unholy
Soul vem do Japão e também pratica
o bastardo grindcore. Só de imaginar
os japoneses soltando esses vocais
monstruosos já me deixa com um sorriso
no rosto. Hilário. A gravadora Bucho
Discos é de Santo André-SP e já lançou
diversos compactos nessa linha extrema.
Esse é um dos mais novos.
Discarga
Que Venha Abaixo (Pecúlio Discos)
Discarga é um clássico trio hardcore
paulista. Estão na ativa há mais ou
menos 10 anos. Esse single foi gravado
no Estúdio Rocha (conhecido por ser a
casa do Hurtmold e amigos) e produzido
pelo Fernando Sanches (baixista do
Againe/CPM 22). São três canções de cada
lado, todas enveredando pelo lado mais
rápido do hardcore, com um peso que
beira o thrash. Influenciados por bandas
paulistas da primeira geração do punk,
como Cólera, Olho Seco e Hino Mortal, o
Discarga consegue mandar o seu recado.
Industrial Noise | Fahrenheit
AGX.
Split EP (Absurd Records)
O slogan da banda paulista Industrial
Noise é “grindcore até a surdez!”. Por aí
já dá pra ter uma idéia do que é o som
dos rapazes, que nesse vinil azul detona
cinco sons ultra rápidos e agressivos,
mas com uma certa pegada melódica,
um peculiar “groove”, pelo menos até
onde o estilo permite. Talvez devido
a pequenas variações de velocidade
e mudanças de ritmo. A música
“Infância em Andamento” é o
que podemos chamar de hit, um
encontro de Napalm Death com
Biohazard. Já o Fahrenheit AGX é
da Bélgica, mas eles não parecem
ter muito orgulho disso, já que
no encarte chamam o próprio país
de Hellgium e na música “Belgian
Politics” metem o pau num estilo
metralhadora giratória, com frases
tipo “liberal rabitt”, “socialist up
my ass” e “christian whore”. O som
deles é thrash core 80’s e a banda
conta com membros da lendária
Agathocles, banda grindcore na ativa
desde os anos 80.
Júpiter Maçã
Beatle George (Monstro Discos)
É sempre bom ouvir mais um novo
single de uma das melhores bandas do
Brasil, o Júpiter Maçã, que ressurge
agora nesse vinil branco mesclado
de vermelho e azul. A embalagem
perfeita para a psicodelia pop do
gaúcho com fama de maluco. São
duas músicas que seguem o padrão
Jupiteriano de ser, com as letras
fritas de sempre e um som que
remete aos anos 60. A ótima “Beatle
George” tem direito a uma cítara
onipresente na canção inteira.
Genial. No lado B temos “Scotch
and Coffee at Regent Street”,
que já vale por esse nome, mas
sonoramente abre ainda mais os
parâmetros freaks do rapaz, com
direito a voz forçada feminina e
letra em inglês. Doidera.
Kvoteringen
Roffarens Marknad (Terrötten)
Essa é uma banda sueca que lança
esse single por uma gravadora
brasileira (de Porto Alegre), o
que faz certo sentido, já que eles
lembram bandas punk/hardcore
brasileiras dos anos 80, como
Lobotomia e Ratos de Porão.
Claro que essas influências são
turbinadas com traços de Discharge
e Anti Cimex, e o que temos é um
som bastante sujo e barulhento. A
produção é bastante crua, soa como
gravação ao vivo. Indicado somente
para fãs mais dedicados do estilo.
Lafayette & Os Tremendões
O Pão Duro / Pare o Casamento
(Gravadora Discos)
O tecladista Lafayette é considerado
o co-inventor da Jovem Guarda.
Na ativa desde meados dos anos
60, ele (res)surge agora com Os
Tremendões, banda formada por
membros de bandas cariocas como
Acabou La Tequila, Carbona, Leela,
Canastra e Autoramas. Esse single
contém duas regravações de velhas
canções nacionais: “O Pão Duro” (de
Getúlio Cortes) e “Pare o Casamento”
(famosa com Wanderléa e Kid
Abelha), com vocais do Nervoso e
Érika Martins, respectivamente. Nada
de muito genial, mas que certamente
agradará fãs do Rádio de Outono,
Penélope e jovem guarda em geral.
Mesrine | Archagathus
Split EP (Bucho Discos)
Mais um compacto da Bucho,
gravadora paulista especializada em
grind, noise, crust e extreme metal.
Basicamente só lança vinil, como
manda o figurino. Nesse split
temos duas bandas do Canadá que
tocam grind/crust. O Archagathus
apresenta quatro faixas, sendo
que a melhor, curiosamente, é
cover de “Russian Roulette”, um
hit dos paulistas Rot, grandes
representantes mundiais do
estilo. O Mesrine tem de curioso
o fato de serem de Quebéc, uma
província do Canadá cuja língua
principal é o francês, tanto que
entre essas quatro músicas,
todas gravadas ao vivo, o
vocalista conversa com o público
em doce francês, para logo em
seguida vomitar letras em inglês
em cima de todos. Um esporro,
um murro no meio do rosto do
mais desavisado, uma facada na
cara. Apropriadamente o EP se
chama Live Murder.
My Own Lies |
Betercore!
Split 7” (Pecúlio Discos)
Pecúlio Discos é a gravadora
do Boka, baterista dos Ratos de
Porão. Oriunda de SantosSP. É uma das únicas do
país que ainda lança discos
de vinil, tanto no formato 7”
quanto no de 12”. É muito
óbvio que Boka não vai
lançar bandas de indiepop
ou electro, mas somente
vertentes mais agressivas do
punk rock, como grind, crust,
hardcore, thrash etc. É o caso
desse single, que ainda tem a
peculiaridade de ter somente
bandas gringas prensadas
no vinil: os holandeses do
Betercore! e os alemães do
My Own Lies. O primeiro
toca crustcore politizado ao
ponto de botar um manifesto
anti-guerra no encarte (aliás,
encarte bastante generoso: duas
páginas), enquanto os alemães
detonam um hardcore rápido
com uma influência notável de
thrash metal, principalmente nas
guitarras. Violência sonora pura.
Recomendado somente para fãs
do estilo.
Retrofoguetes
O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes
(Monstro)
A história desse compacto é a seguinte:
a banda baiana gravou 5 canções
natalinas para depois presentear os
amigos com cópias em CD-R. Mas
o resultado ficou tão bacana que a
Monstro resolveu botar tudo num vinil
vermelho sete polegadas. A produção
é o que mais chama a atenção: está
muito bem gravado. E a banda também
não deixa por menos: utilizou guitarra
de 12 cordas, piano, guizos, guitarra
havaiana e contrabaixo acústico para
enriquecer aquilo que já é naturalmente
belo, que são as tradicionais canções
de natal, apresentadas aqui de forma
instrumental (a não ser a “E Nasceu
Jesus”, que é um dueto da Nancyta e
Jorginho Kig Cobra). Esse single é tão
bom que todo mundo deveria comprar
pelo menos umas 4 cópias para no final
do ano presentear os camaradas que têm
toca-discos. Presente melhor não existe.
Simbiose | Driller Killer
Split EP (União Positiva Discos)
Essa gravadora de Campinas-SP
lança seu 3o compacto, um split com
as bandas Simbiose de Portugal e o
Driller Killer da Suécia. Ambas as
bandas detonam um grindcore com
fortes influências crust e um pouco
de metal, principalmente o lado do
Simbiose, que se chama “Terrorismo
de Estado” e apresenta dois sons com
as características de sempre: vocal
gutural e ritmo ultra-rápido com
bateria bate-estaca dando o tom.
O lado do Driller Killer se chama
“Ruled By None” e também apresenta
dois sons, com uma pegada um
pouco mais lenta do que a da banda
portuguesa. Essa banda sueca é
famosa para quem curte esse tipo de
som. Eles têm diversos lançamentos.
Prato cheio para fãs do estilo e custa
baratinho.
Vários Artistas
Brasil Instro/Surf Vol. 1 (Mondo 77)
Olha só que belíssima idéia: quatro
bandas nacionais tocando quatro
canções instrumentais, todas
influenciadas pela clássica surf music
de Dick Dale e afins. Para completar
o fetiche, o vinil é vermelho.
Idealizado pelo Gabriel do Autoramas
e patrocinado pelo selo paulista Mondo
77, essa compilação certamente agitará
qualquer festa na praia: todas as bandas
apresentam canções dançantes e com
boa pegada. São elas: Dead Rocks,
Psicotrópicos Deluxe, Super Stereo Surf,
além de lógico, o próprio Autoramas,
que bota no vinil uma de suas melhores
músicas, a desde já clássica “Multiball”
(presente no último álbum da banda). Um
verdadeiro hit! Que venha o volume dois!
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
63
José González
Eternal, Austin
Ele tem influência de tropicália, é sueco, os pais
são argentinos, canta em inglês e faz intersecção
sonora com uma dupla bizarra como o The Knife.
Banquinho e violão, voz suave e quase baixa de não
se ouvir, adora fazer do seu modo umas releituras
pop de Joy Division a Kyle Minogue, mas como
se o João Gilberto as estivesse cantando. Quase
todas as suas músicas têm a palavra “heart” no
meio, absolutamente todas são carregadas por
umas dedilhadas de violão que podem machucar.
Você olha do lado e vê um barbudão new-folk
maravilhado, do outro tem um indie-kid atento.
Olha para a frente e vê um cara sentado, mexendo
o mínimo possível em seu instrumento, mexendo
o mínimo possível sua boca para cantar. E ainda
assim com um poder de deixar todos vidrados
nesse não-movimento. José Gonzalez, junto
com caras como o americano Willy Mason, são
andarilhos do som acústico que fazem Bob Dylan
não parar de ser cool jamais. Numa hora ou outra
seus ouvidos precisam dele.
Lúcio Ribeiro
Guillemots
Brixton Academy, Londres
Palavras: Marcio Custódio
Fotos: Patricia Arvelos
Ilustração: mooz
A sonoridade do Guillemots sempre esteve ali no meio termo: não é
comercial, mas também não dá para dizer que é experimental. O que
não sabíamos era se a atitude deles se espelhava no mainstream ou
no underground. Até esse show no Brixton Academy. A jornada até
aqui durou cerca de um ano e meio, desde que assinaram com uma
gravadora e iniciaram turnê, até chegarem à casa de shows de maior
prestígio na indústria da música britânica. A lógica seria a banda tocar
os hits e presentear o público de cinco mil pessoas com o que eles
realmente queriam ouvir. Mas não. Ao invés disso, decidiram fazer
uma apresentação não convencional, sem nenhuma combinação com a
grandeza do Brixton Academy e os cinco mil fãs presentes.
Os roadies preparavam o palco vestidos de cientistas, com avental
branco. Alias, o palco inteiro estava branco. O telão da turnê anterior,
onde projetavam lindas imagens para o deleito dos presentes, não estava
ali. Uma pena. A banda entrou, todos vestidos de branco. A primeira
meia hora foi marcada por canções lentas, algum b-side e faixas novas.
Tudo muito devagar. Se estivessem tocando numa casa menor, mais
intimista, faria sentido. Mas como estavam no Brixton Academy, tudo
ficou fora de lugar. A bonita “Made Up Love Song No.43” deu uma
animada, mas não foi suficiente, assim como “Through the Window
64
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
Pane”. Assisti o Guillemots uma porção de vezes antes, todos em
locais menores, e sei do grande potencial que possuem ao vivo.
Mas, hoje à noite, algo estava errado. A química tinha se dispersado
pelo vasto espaço do Brixton.
Alguns números excepcionais que são a marca registrada dos
Guillemots e que estavam sendo apresentados até a turnê passada,
como “Who Left the Lights Off, Baby?”, foram deixados de fora,
infelizmente. No lugar acrescentaram faixas fracas como “She’s
Evil”. Era de se imaginar que, quando os hits fossem tocados, tudo
iria ficar mais agradável. Mas o Guillemots inventou de mudar tudo.
A épica “We’re Here” deixou de ser épica e foi tocada acústica, apenas
Fyfe Dangerfiled no palco, voz e violão. “Annie Let’s Not Wait” jogou
fora sua maestria e foi encapsulada junto a um remix tosco. E “Trains
To Brazil” foi tocada muito bem, mas aí era o final do show e muita
gente já estava no bar, assistindo de longe, fora do clima. Nem “São
Paulo”, o último número, conseguiu levantar o ânimo. O clima disperso
do local, aliado a um repertório mal escolhido, culminou na primeira
apresentação decepcionante do Guillemots que testemunhei. Depois
dessa, é melhor que voltem as suas raízes e retornem ao underground.
Definitivamente não combinam com uma casa de show grande.
Gordin toca com emoção, técnica e transgressão a ponto
de colocar riffs em um volume muito alto. Que delícia
ouvir toda a distorção que Lanny produzia com sua
guitarra e pedal no Teatro de Santa Isabel.
Jarmeson de Lima
Mellotrons | The Dead Superstars | Sweet
Fanny Adams
Casarão Sabor de Pernambuco, Recife
Certos shows são mais legais em lugares pequenos. Ter
a oportunidade de ver shows intimistas, em locais com
pouca gente lhe faz compartilhar e presenciar momentos
bem mais agradáveis num show. Até mesmo os erros,
as conversas com a platéia e as pausas entre as músicas
dão um sabor especial a shows assim. Num desses bons
momentos, três bandas amigas se reuniram na mesma
noite para marcar a breve despedida de um amigo.
Eram o Mellotrons, The Dead Superstars e Sweet Fanny
Adams, que devido ao grau de intimidade e brodagem,
poderiam, se o palco permitisse, formar a banda Sweet
Dead Mellotrons. Quando a noite de fato começou,
o Mellotrons abandonou a timidez, que muitos lhes
disseram ter sido a marca do show que fizeram no
Rec-Beat e entre músicas e outras, passaram a brincar
também com os presentes. Estavam lá “You and I”,
Lanny Gordin
“Ano Novo”, “Equador” e a hipnotizante “Galáxia”,
Teatro de Santa Isabel, Recife
além de uma cover que fizeram do The Cure com a
Acredito que a maioria dos apreciadores de música
colaboração de Helder, do Sweet Fanny Adams. Logo
gostaria de congelar no tempo e imortalizar seus
em seguida, The Dead Superstars apresentando o
artistas preferidos no seu auge. Só assim teríamos
conhecido repertório de seu EP com as já consagradas
sempre discos legais e inspirados de Gal, Caetano e
“Like a Mouse”, “Electrotank” e músicas novas como
Gil, por exemplo. Em comum a eles, em suas fases
“21”. Desta vez, Haymone (Mellotrons) e Diego (Sweet
mais criativas, tivemos a participação da guitarra
Fanny Adams) sobem ao palco para encerrar o show
alucinada de Lanny Gordin na Tropicália. E para
tocando “100%” do Sonic Youth, influência assumida de
mim, que nunca tive a chance de ver os shows desta
dois dos três grupos. E como a noite estava apenas na
galera naquela época, ter visto Lanny Gordin ao
metade e todos a essa altura do álcool já se conhecem
vivo foi um acontecimento incrível. Bem que tinha
e são bem amigos, ninguém mais se importa se um
ouvido os rumores do estado de saúde deste lendário
instrumento fica com volume maior que outro ou se
guitarrista, mas não sabia ao certo o que teríamos
há distorção de mais ou de menos. Encerrando a noite,
ao vê-lo tocando. O show começa e Lanny adentra
Sweet Fanny Adams traz momentos mais dançantes
no palco com um trio de músicos bastante jovem.
com músicas como “Pretending” e “Once Again” e
Ali, naquele momento silencioso no Teatro de Santa
novamente chama músicos das bandas amigas para
Isabel - cada um dos instrumentistas se posiciona
tocar junto algumas covers. Jam sessions, álcool
e Lanny, com sua guitarra, começa a tocar sem ter
e diversão unida pela amizade. Se todos os shows
pronunciado nenhuma palavra para saudar o público.
fossem assim, não haveria necessidade de se falar em
Nos primeiros acordes de sua guitarra, o timbre
“mercado musical”, até porque a música de verdade
característico que marcou os discos daquela geração
não precisa ser comercializada e apenas sentida.
tropicalista invadia aquele secular teatro. O trio que
Jarmeson de Lima
o acompanhava, chamado Projeto Alfa, executou de
forma bem interessante uma releitura instrumental
de alguns hits tropicalistas com guitarra,
ruído/mm | Debate
contrabaixo acústico e set de bateria/percussão. No
James Bar, Curitiba
repertório do show, “Baby”, “Tropicália”, “Atrás do
Depois de dias de sol, Curitiba acordou novamente
Trio Elétrico” e diversas incursões improvisadas de
de mau-humor. O dia, nublado desde cedo,
cada músico pelo free jazz, progressivo, post rock e
prometia. A temperatura nem estava tão baixa,
psicodelismo.
mas o frescor de uma brisa fez os primeiros
casacos de 2007 saírem do armário. Bons
Lanny Gordin ao vivo é moderno, contemporâneo,
presságios?
experimental e um mestre, que se permite até
mesmo ter seus pequenos deslizes. Na metade do
O tédio da quinta-feira, aquela que funciona
show, os músicos deixam Lanny no palco para um
apenas no horário comercial, já havia acabado.
solo. Ali no centro das atenções de todos, Lanny
Começa a quinta-feira sem lei. O caos que se
afinando a corda de seu instrumento, deixa a
aproximava. Um “tapa” para entrar no grau, uma
tarracha do graço da guitarra cair no chão e, meio
cerveja para embalar. Seguindo reto pela Vicente
sem entender o que se passava, tenta recuperar a peça
Machado - três, quatro quadras, na contramão
para colocar na guitarra novamente sem sucesso. Ao
dos automóveis -, encontra-se o James Bar.
receber outra guitarra e voltar a tocar, Lanny Gordin
As portas da percepção estavam abertas. Já na
fala pela primeira vez no show para os presentes e
entrada, com o bar ainda completamente vazio,
fala em tom de desculpa: “É a vida! É a vida...”. Mas
é possível escutar os micro-ruídos que mais
isso não afetou o restante do show e sua performance.
tarde se transformariam em macro.
Bastante concentrado e com precisão afiada, Lanny
Se lá fora o trânsito já não faz tanto
barulho, dentro do bar o ruído/
mm contamina o ambiente com a
sua parafernália eletrônica. Vozes,
combinações, pedais afinados, teclado,
acordeon. E o microfone mágico, que parece
transmitir as mensagens dos deuses da
distorção. O álcool sorvido logo vira coadjuvante
tamanha é a massa de som chapante que sai
pelas caixas. E era apenas a passagem de som. E o
público foi chegando, chegando...
Últimos preparativos. As luzes principais se apagam
e as luzinhas dos pedais iluminam aqueles que se
concentram perto da banda. Um acorde aqui, outro
ali e o paredão sonoro vai se formando pouco a pouco.
Eis que surge “Baixo e Guitarra”, música já clássica
dentro do repertório do ruído/mm. O novo arranjo
deixou a música mais dançante. Sim! Dançante.
O ruído/mm já foi cinza e direto. Hoje, está mais
solto e animado, ao vivo a energia corre nas veias. As
músicas se completam em uma sucessão de operetas
construídos na base do primor técnico e do improviso.
Os instrumentos mudam de mão, são trocados. A
variedade e a intensidade de sonoridades aumentam.
Os ouvidos pouco acostumados estranham. Os já
treinados se deliciam no vai e vem da microfonia.
Mais um show daqueles, sempre mais do que se
espera.
Depois dos curitibanos ruidosos, quem começa o
espetáculo é a paulistana Debate. Uma definição para
o som? Porrada. E das boas. Acachapante, envolvente,
enérgica e bem trabalhada. A dinâmica perfeita. A
banda deve ser muito elogiada pelo cuidado com
que prepara as suas apresentações. Profissionais ao
extremo, o grupo trouxe todo o seu equipamento, que
era suficiente para estremecer todo o quarteirão. Som no
talo. Gritos, quebradas de ritmo perfeitas e um destaque
especial para o baterista Ricardo Ribeiro. O “homem
polvo” faz movimento sobre-humanos - sem erros - numa
velocidade impressionante. Às vezes é difícil compreender
como faz tudo aquilo com apenas dois braços e duas
pernas! O público balançava a cabeça, dançava. Lembranças
de Fugazi, At the Drive In e Hurtmold passavam pelo
pensamento. Improviso e feeling. No debate entre
curitibanos e paulistas, quem saiu vencedor foi o público.
Felipe Rodrigues
Vanguart
Cais da Alfândega, Recife
Antes mesmo do Vanguart pisar no palco do Cais da
Alfândega no Rec-Beat 2007, a enorme galeria de fãs da
banda de Cuiabá tinha certeza de que aquele show seria
memorável. Músicas em português, músicas em inglês,
covers e muitas palavras de agradecimento. Todas elas
se misturavam à euforia da banda e do público para
transformar aqueles minutos no festival em momentos de
êxtase delicadamente pontuados por violões e guitarras de
uma melancolia que ainda por cima contrastava com o
carnaval. Mas todo carnaval tem seu lado triste, poético,
que é tão introspectivo quanto uma marchinha saudosa.
E naquela noite, o Vanguart, que já possuía um bom
fã-clube antes mesmo de fazer um show na cidade,
aumentou sua legião de fãs em umas 10 vezes. No RecBeat 2007, ao ver a quantidade de gente que cantava
junto as músicas que estavam na Internet, e que foi
atrás deles após o show manifestar seu carinho, a
banda de Hélio Flanders pode ter certeza de que
ganhou no Recife uma segunda casa.
Jarmeson de Lima
coquetel molotov | abril 2006 | número 2
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Love Doves (2006)
Ilustração: Maya Hayuk
www.mayahayuk.com
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