P
ossivelmente a melhor parte em estudar jornalismo é a certeza de que não
importa o semestre ou disciplina cursada, não haverá rotina. Não é um daqueles
cursos regrados, com provas complexas,
gente surtando e professores vilões. Está
bem, vez por outra alguém até surta e alguns
professores até assustam um pouquinho, mas
não chega a ser um estigma do curso. Acima de qualquer coisa jornalismo é um curso
prático. Estudar comunicação é algo que precisa ser prático. Não se aprende jornalismo
teorizando e esperando o momento certo de
aplicar o que aprendeu. Claro, a teoria é imprescindível etc, etc e tal, contudo jornalismo
se aprende fazendo. Testando recursos, buscando novas possibilidades e principalmente
se experimentando. A proposta de fazer um
jornal em um período aproximado de quatro
meses, parece simples. Fica mais fácil ainda
quando você descobre que vai fazer apenas
uma matéria. Afinal no mercado de trabalho
a missão é produzir uma ou até mais matérias
em um dia. As vezes em horas. Mas, porém,
entretanto e contudo não é bem assim.
Embora soe como heresia, o excesso de
prazo é um vilão e tanto. Sonhamos em ter
todo tempo do mundo para fazer uma boa matéria, bem apurada, com infográficos e diversas fontes. Como já disse, prazos longos são
vilões, uh, e dos piores. Ele começa te dando a falsa sensação de segurança: “Está tudo
sob controle. Temos todo tempo do mundo.
Amanhã eu faço.” E quando você se dá conta
o “amanhã” durou meses. Você mal foi atrás
das fontes. Resolve abrir mão do infográfico,
e começa até rezar pra pauta escolhida não
cair. E a duas semanas do prazo final. A pauta
cai. Nem toda teoria do mundo te salva disso.
Mas, vale cada segundo da experiência – isso
claro, se tudo terminar bem.
Roger Busetti Torres
B
runo e Bianca vivem juntos há 15
anos. Ele é advogado. Ela é analista
de sistemas. Naquela noite eles se arrumaram com esmero para ir à festa. Vieram
de Porto Alegre até Caxias do Sul, juntamente
com um casal de amigos para participar de
uma balada liberal,
como também são
chamadas as festas
que ocorrem nas casas
de swing. A equipe
do Textando acompanhou uma dessas festas, que são realizadas
semanalmente em Caxias, e mostra como
se desenrolam esses
encontros, onde muitos casais experimentam
novas formas de se relacionar.
O evento ainda é novidade na cidade onde
“caxias” não é apenas o nome do município.
O conservadorismo ainda faz com que práticas, como o swing, sejam vistas com receio
por grande parte dos moradores e ocorram
sem muita divulgação.
A reportagem, que pode ser caracterizada
pelo estilo de Hunter Thompson, o jornalismo gonzo, nos permitiu
uma liberdade narrativa onde abandonamos
a objetividade para nos
misturarmos ao ambiente para narrar de
forma mais pessoal a
nossa experiência.
Desejamos
uma
prazerosa (individual,
a dois, a três, a quatro...) leitura a todos.
Sol Maia
Vagner Barreto
GABRIELA ROSSETTI
[email protected]
D
entro do contexto de crescente urbanização global, podemos destacar o aumento
das construções civis e a verticalização
das cidades. Construções de grandes edifícios,
que antes eram associados com as metrópoles,
hoje também modificam o visual de cidades interioranas.
Caxias do Sul também faz parte desta realidade. Conforme dados da prefeitura e do Sindicato
da Indústria da Construção Civil (Sinduscon),
Em Caxias do Sul, a altura máxima de um edifício é calculada
pela soma da largura da via com o
afastamento frontal efetivo multiplicado por 1,5. Ou seja, quanto
mais distante da via, mais andares
podem ter. Assim a arborização e a
ventilação não ficam prejudicadas.
Além do cálculo aplicado, a altura máxima permitida depende da
zona de construção que pode ser
residencial, industrial ou comercial.
As zonas residenciais também podem interferir no tamanho do edifício.
Por exemplo, os bairros Cinquentenário e Colina Sorriso, conforme o Plano Diretor, são estritamente residenciais. Isso limita a
altura dos prédios que não podem
ultrapassar dez metros.
Como calcular a altura máxima
permitida de um prédio em Caxias do Sul:
* h (máx) = 1,5 x (L(via) + A(fe)
* h (máx) = altura máxima permitida
* L(via) = largura da via
GABRIELA ROSSETTI
* A(fe) = Afastamento frontal efetivo
em 2009, foram quase 900 mil metros quadrados
de construções aprovadas. Em 2012 esse número
aumentou para mais de um milhão.
Basta observarmos ao redor da cidade. São
construções e mais construções, principalmente
de prédios que já extrapolaram as áreas centrais.
Somente até abril deste ano mais de 320 mil metros quadrados de área já tinham sido aprovados.
Mas, isso seria um problema?
Segundo o secretário de Urbanismo de Caxias
do Sul, Fabio Scopel Vanin, o excesso de edificações seria um problema apenas se fosse associado
com o aumento populacional. Porém, o número
de construções que mais cresceu foi na área comercial. O aumento foi de 13,81%, comparado ao
ano de 2009. “Se aliarmos a construção de prédios
com a sustentabilidade urbana não há problemas”,
diz o secretário.
Por isso, é preciso trabalhar o projeto de construção em harmonia com a situação do transporte público e arborização das cidades.
Para evitar danos, existe o Plano Diretor Municipal onde constam algumas regras que os
construtores devem seguir. Por exemplo, antes
de erguer um prédio, uma construtora precisa da
aprovação do projeto.
MIRNA MESSINGER
[email protected]
O
simples fato de ouvir uma música
causa sensações de
diferentes formas e níveis a
um indivíduo. Independentemente do gênero, a simplicidade de cada melodia nos
afeta de maneira particular,
e traz benefícios comuns a
qualquer um.
Mas, mais do que divertir,
entreter ou meramente servir de companhia, a música,
em alguns casos, também
serve como terapia. Muitas pessoas têm escolhido o
embalo de algumas canções
para buscarem a cura de seus
males. Assim, alia-se o gosto
pela música à necessidade
de obter resultado em algum
transtorno específico.
Em Farroupilha, a Maria
Carolina Musicoterapia e Escola de Música, em funcionamento desde 2010, além
de oferecer aulas de canto e
instrumentos, também recebe pacientes que buscam
solucionar problemas psiquicos. De acordo com a
proprietária, a musicoterapeuta Maria Carolina Grazziotin Brites, de 22 anos, o
motivo de maior procura na
clínica é para encontrar soluções para déficit de atenção
e falta de limites. “A música
é uma linguagem universal
que pode auxiliar qualquer
pessoa”, afirma. Além disso,
conforme explica a profissional, as canções podem servir
de remédio para pessoas de
qualquer idade, como bem
exemplifica a própria clínica,
onde o menor deles tem um
ano e cinco meses, e o mais
velho 75. “Não tem limite de
idade”, reforça a musicoterapeuta.
Maria Carolina explica
que não é possível delimitar uma quantia específica
de sessões necessárias para
alcançar um resultado efetivo. “O tratamento depende
do objetivo que queremos
alcançar e das respostas obtidas nas sessões”, explica.
Segundo ela, as consultas
possuem uma sequência semelhante, mas cada paciente
recebe um atendimento específico. Antes de dar início
à sessão, o especialista preenche uma ficha onde constam informações como: as
músicas de preferência do
paciente, se existe, ou não,
algum músico na família,
as canções ou instrumentos
que a mãe ouvia durante a
gestação, a idade, a causa da
procura pela musicoterapia,
se o paciente toma alguma
medicação, entre outros dados. A partir deste parecer, é
formada a denominada ISO
(identidade sonora) do pa-
MATEUS BRITES
Atualmente, cerca de 900 profissionais em todo o País estão aptos para atuarem na área, em diversos segmentos
ciente. Assim, com estas informações, Maria Carolina
prepara cada sessão. “Não
existe uma fórmula de cura,
cada paciente é diferente”, salienta.
Conforme detalha a musicoterapeuta, durante as
sessões, os pacientes tocam
ou cantam – conforme o objetivo a ser atingido –, tendo
a possibilidade de utilizar os
instrumentos de percussão,
teclas, cordas e sopro. “É legal deixar claro que o paciente não precisa saber tocar ou
cantar, basta apenas gostar
de música”, destaca.
QUEM E DE QUE FORMA ATENDE
O
musicoterapeuta pode atuar
individualmente ou junto à
equipe de saúde, em atendimento a pacientes na clínica, no
ambulatório, na internação hospitalar ou ainda em centros voltados a
clientelas específicas, de acordo com
a presidente da Associação Gaúcha
de Musicoterapia (Agamusi), Maria
Helena Rockenbach. “É o profissional
que atua na promoção, prevenção e
reabilitação de pessoas, seja no campo da saúde mental, da reabilitação
física em outras áreas e seus desdo-
De acordo com a presidente
da Associação Gaúcha de Musicoterapia (Agamusi), Maria
Helena Rockenbach, em 1975
foi graduada a primeira turma do Curso de Graduação
em Musicoterapia, no Brasil,
no Conservatório Brasileiro
de Música do Rio de Janeiro.
Segundo ela, os cursos de graduação em Musicoterapia têm
reconhecimento do Ministério da Educação (MEC), mas
a profissão não é regulamentada, somente consta no Código Brasileiro de Ocupações.
Segundo Maria Helena, oito
- Pacientes em longos períodos
de internações hospitalares
- Saúde do trabalhador
bramentos”, diz Maria Helena.
- Oncologia-Hemato
- UTIs
São eles:
- Dependentes químicos
- Saúde mental
- Pessoas com transtornos alimentares
- Capacitação de profissionais
(anorexia, bulimia)
- Pessoas portadoras de transtornos de - Portadores de hemofilia, pacientes de
desenvolvimento e síndromes em geral hemodiálise
- Gestantes e bebês
- Pessoas em situação de risco Social
- Reabilitação motora e global (indiví- (moradores de rua, presidiários, entre
duos portadores de deficiências, lesa- outros)
dos medulares, TCE, AVC)
- Estresse e depressão
- Portadores de AIDS
- Terceira Idade
instituições de ensino superior
no País oferecem o curso de
graduação em Musicoterapia.
No Rio Grande do Sul, a
graduação é ofertada somente nas Faculdades EST (Escola
Superior de Musicoterapia),
em São Leopoldo. Atualmente, estima-se que haja cerca de
900 profissionais em todo o
País, habilitados para atuar na
área. Maria é musicoterapeuta
da AACD, doutora em Letras
pela PUC/RS e especialista em
musicoterapia pelo Conservatório Brasileiro de Música do
Rio de Janeiro.
ROGER BUSETTI TORRES
[email protected]
O
vocábulo “deficiente”
é pesado. É uma daquelas tais palavras
ambíguas que mesmo sendo
fortes ao mesmo tempo carregam um estigma de delicadas. Não é o conjunto de fonemas tampouco a grafia. É
o significado. Ser “deficiente”
contrapõe-se a eficiente, palavra mais leve e que serve até
como elogio. Deficiente embora também adjetivo, vem
na contramão. Quase sempre
usado como rótulo, o sentido
empregado sugere que a palavra está correlacionada a insuficiente. O termo e sua aplicação não estão errados. Mas,
também não estão certos. Por
quê? Já explico.
Vamos falar primeiro sobre
Lucas Borba, 21 anos, estudante de Jornalismo da UCS e
cego desde o nascimento. Ele
nunca enxergou. Sabe que o
conceito de cores existe, mas
não sabe o que elas representam. Sabe o que são formas,
mas ele não precisa delas. O
rapaz está imune a todo estímulo visual que o mundo ostenta e usa como atrativo. Podemos até acrescentar que ele
está acima disso. Lucas aprendeu a não precisar da visão.
Pode dar-se ao luxo de sentir
o mundo, não só enxergá-lo.
E isso já é mais do que muita gente consegue. No quarto
semestre do curso de jornalismo, afirma que tem sido muito bem recebido pelos colegas
e professores. Em nenhum
momento, sentiu-se limitado.
Sim, teve medo. Receio de encarar um mundo novo, cheio
de desconhecidos. Mas, nada
que o tenha convencido a desistir. Elogiado por todos professores, Lucas participa mais
nas aulas do que muitos outros
alunos videntes – denominação dada a quem enxerga. Nas
apresentações em grupo e seminários de aula mostra uma
poder de memória e domínio
do conteúdo fora do comum.
É capaz de citar trechos inteiros de livros e artigos lidos
sem se perder, gaguejar ou
confundir informações. Isso é
tudo? Não. Lucas é estagiário
da Agência Experimental de
Comunicação da UCS a quase
seis meses, e está dando conta do recado. Redige notícias.
Entrevista. Produz conteúdo
para o portal da agência. Produz textos de todos tipos e assuntos. E, quando convidado,
até já participou de um programa de rádio – também parte da agência – dando dicas de
filmes. Sim, filmes. Lucas não
se deixou dobrar pelas aparentes limitações ou como alguns
definem, deficiência. Reuniu
forças. Se manteve aberto. E
adaptou-se.
Para a assistente social Kátia Pasquali Dosso, 54 anos,
pessoas com baixa visão ou
cegas não são incapazes. Precisam sim de adaptação e
atenção específica em alguns
momentos. Mas de forma alguma possuem menos capacidade de ação. Muitas vezes,
não é que um deficiente visual
não pode realizar determinada tarefa, ele pode, só que de
uma forma diferente. Na sua
trajetória de 20 anos prestando auxílio a cegos, ela afirma
que é gratificante ver a superação e evolução pessoal de pessoas com deficiência visual.
“Não tem satisfação maior do
que ver alguém, antes deprimido e com dificuldade de se
encaixar no mundo, conquistando um emprego, casando,
tendo um projeto de vida”,
acrescenta ela. O preconceito
ainda é o maior vilão. Para
Kátia, capacitar e incluir socialmente pessoas com deficiência visual é uma batalha.
Ela diz: “São muitas as formas
de preconceito, as pessoas são
fechadas de mais e não querem se abrir para novas possibilidades.” A assistente social
ainda aponta também a falta
de acessibilidade urbana. É
pouco e quase nenhum o investimento público e também
privado na implementação
de padrões de acessibilidade.
Ainda há muitas batalhas a
serem vencidas. Uma pessoa
cega, que fala bem, tem bom
nível intelectual e está dentro
do ambiente acadêmico, chama sim muita atenção. Entretanto o preconceito ainda
impede que um cego ou deficiente visual seja considerado
capaz – pelas pessoas a sua
volta – de executar atividades
cotidianas tais como vestir-se
sozinho, alimentar-se, interagir socialmente de forma ade-
quada, competir no mercado
de trabalho, casar-se e ser um
cidadão realmente ativo. Desenvolvimento intelectual é
importantíssimo. Mas, ainda
há muito a crescer nas ativi-
Quer ajudar?
Saiba como:
go pela rua
Ao guiar um ce
tente
não puxe, nem
ovimentos.
m
us
se
ir
conduz
pessoa em
da
Coloque a mão
ado - que
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o
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ela acompanh
seu corpo.
movimento do
Trate com iguald
ade.
O deficiente vis
ual faz as
mesmas coisas
que você,
mas usa técnica
s diferentes.
No convívio social ou
profissional, não exclua
as pessoas com deficiê
ncia
visual das atividades nor
mais.
Deixe que elas decida
m como
podem ou querem par
ticipar.
Proporcione às pessoa
s cegas
ou com deficiência vis
ual a
mesma chance que voc
ê tem
de ter sucesso ou de
falhar.
dades da vida diária. Isto é,
respeita-se a pessoa como ser
intelectual, mas ainda há muita dificuldade em enxergar o
cego, como alguém capaz e independente.
om
essoas c
pre as p
Nem sem visual precisam
ia
deficiênc o encontrar
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de ajuda
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Fique
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um tom de vo
Ao falar, use
a
cego é um
normal. Ser
outra.
o
rd
su
a,
cois
CAMILA BAGGIO
[email protected]
U
ma forma de organização que
tem como diferencial promover
o desenvolvimento econômico e
bem estar social simultaneamente, o cooperativismo é baseado na união de pessoas, sendo esse o seu maior capital. No
setor vitivinícola, as pequenas cantinas fecharam as portas devido à dificuldade na
venda dos estoques, que aumentam a cada
ano. A solução está na união e gestão - no
cooperativismo.
No Brasil, a prática do cooperativismo
teve início no final do século 19, mas a
cultura já poderia ser observada desde a
época colonial. Ela se desenvolveu tanto
LARISSA VERDI
no meio urbano quanto no rural, tendo
forte influência das culturas alemã e italiana, principalmente na área agrícola. Os
imigrantes trouxeram de seus países de
origem a bagagem cultural, o trabalho associativo e a experiência de atividades familiares comunitárias, que os motivaram
a organizar-se em cooperativas.
A Cooperativa Nova Aliança tem mais
de 80 anos de experiência no cooperativismo. São cinco tradicionais cooperativas vitivinícolas da Serra gaúcha: Aliança
e São Victor (de Caxias do Sul), Linha
Jacinto (de Farroupilha), Santo Antônio
e São Pedro (de Flores da Cunha), que
juntas decidiram se transformar em uma
única família, reunindo pessoas e valores.
Hoje a cooperativa agrega mais de 800 famílias associadas.
O segredo é união e confiança
Para o diretor-presidente da Cooperativa Nova Aliança, Alceu Dalle Molle,
o cooperativismo é a única solução para
as pequenas cantinas, uma cooperativa
acompanhada de confiança e união. “A
alternativa para que o pequeno agricultor
continue trabalhando e produza otimizando a estrutura que já tem é de forma
associativa. O modelo cooperativista seria
o mais fácil e inteligente para esse processo. O que o produtor precisa é se organizar, como fazer compras conjuntas,
utilizar uma estrutura de contabilidade,
técnica e enológica em comum”, explica
o empresário, que também é presidente
CAMILA BAGGIO
da Federação das Cooperativas Vinícolas
do Rio Grande do Sul (Fecovinho) e integrante do Instituto Brasileiro do Vinho
(Ibravin).
A confiança e a união são pontos fundamentais na formação de uma cooperativa – é o que o diretor da Nova Aliança
chama de “gestão confiança”. “Se você não
tem gestão e não tem confiança no seu
parceiro é melhor fechar as portas. É preciso ter essa capacidade de trabalhar em
sociedade, caso contrário, fica realmente
muito difícil”, acredita. Atualmente, a venda do vinho a granel sofre com a baixa do
preço, o que poderá mudar nos próximos
anos, mas que depende dessa organização
para ter benefícios. “Essa futura melhora
na rentabilidade vai beneficiar quem estiver mais organizado. Essa é a lógica de
unir esforços: gastar menos e procurar ganhar mais”, orienta Dalle Molle.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Flores da Cunha
e Nova Pádua, Olir Schiavenin, destaca o
cooperativismo como fundamental para a
sobrevivência e crescimento do setor vitivinícola. “A organização do pequeno produtor em cooperativas é um dos únicos
caminhos para fazer com que o agricultor
tenha sucesso e uma atividade de futuro.
Se não for em grupo e com organização
é muito difícil a sobrevivência”. O presidente cita o exemplo da safra 2012/2013,
onde muitos produtores ficaram sem
colocação de suas uvas no mercado, em
uma cooperativa isso não aconteceria. “A
força não está somente na comercialização, mas também na compra de insumos,
na própria produção e na dificuldade de
mão de obra. É através da cooperação,
da união e da organização de grupos que
teremos mais potência. São passos mais
largos para o futuro. Sozinho o agricultor
fica prejudicado”, destaca o sindicalista.
S
er sócio de uma cooperativa garante ao agricultor outro fator importante: a tranquilidade. Esse é um ponto fundamental para o produtor Gilberto Verdi, 51
anos, morador da comunidade de São Vítor, em Flores da
Cunha. Há mais de 25 anos ele é sócio da Cooperativa Nova
Aliança e faz uma lista de vantagens no sistema cooperativo. “Temos três grandes pontos fundamentais: o primeiro
é o preço. Em uma cooperativa temos um preço definido
para nossa uva, o que no mercado livre infelizmente não
existe. O segundo fator é o acompanhamento profissional.
São agrônomos e engenheiros que visitam a propriedade
periodicamente, garantindo a qualidade dos produtos. O
terceiro e mais importante é o lugar garantido para entregar
a produção”, garante Verdi. Juntamente com a esposa Neide, 48 anos, o produtor trabalha com três hectares de uvas
americanas.
Para Verdi, o cooperativismo está conquistando muitos
agricultores, diferente de alguns anos atrás. “A confiança e
tranquilidade na cooperativa está crescendo. Antigamente
quem fazia parte de uma cooperativa era taxado de ignorante, mas hoje quem é cooperativo está garantido. E essa
visão que está mudando pode até conquistar outros produtos vindos da uva, agregando ainda mais produtores, mais
qualidade e mais consumidores”, acredita o agricultor. Verdi tem como carro chefe a uva, mas conta também com a
produção de mel, criação de gado e reflorestamento.
Empresas e agências de comunicação descobrem um novo canal de mídia, com mais impulso
à publicidade nas redes sociais, para consumidores na Internet
ANA ROMANI
[email protected]
A
internet soma mais e mais
adeptos e abre as portas
para um universo de possibilidades de negócios. Na América
Latina, nenhum país gasta mais
tempo online que o Brasil. Os brasileiros passam em média 27 horas na
Internet por mês. Os dados são da
empresa ComScore, líder global em
medições e análises digitais.
“O cenário digital brasileiro mostrou uma mudança significativa em
2012, causada pela forte ascensão
das redes sociais”, declara Alex
Banks, diretor executivo da ComScore para o Brasil e vice-presidente
na América Latina, em nota no site
da empresa. “À medida que esses
veículos continuem a crescer, estarão promovendo novas e excitantes
oportunidades para meios de publicação que querem atrair audiências
e empresas que desejam alcançar
consumidores.”
Outro enorme potencial da web é a
interatividade, o que faz a cabeça de
anunciantes e consumidores. “Hoje
os consumidores não querem mais
ser passivos das marcas, esperando
uma oferta ou um contato”, afirma
Eduardo Pezzi, professor e consultor de marketing. “Eles querem
produzir junto, ter voz e falar sobre
suas experiências, ou para a marca
ou para seus amigos”.
As ferramentas da chamada Web
2.0 deram impulso à interatividade
na internet ao garantir ao internauta acesso a serviços de fácil uso e a
maioria deles gratuitos. A ideia da
Web 2.0 é tornar o ambiente online
mais dinâmico e fazer com que os
usuários colaborem para a organização de conteúdo. Estão nessa
categoria blogs, sites de compartilhamento de fotos e vídeos, publicação de comentários em portais de
notícias e sites de comércio eletrônico.
Planejamento
O usuário brasileiro é interativo
e busca diversas formas de acessos constantemente. Para Patrícia
Claus, mídia da Laymark Propaganda de Caxias do Sul, o maior desafio
de fazer um planejamento de mídia
digital é acertar os canais para criar
o maior número de impactos no
público alvo desejado. “Para uma
atuação de sucesso no meio digital
é preciso planejamento, estratégia e
conhecimento de mercado.
Embora ainda pequeno se
comparado ao valor destinado a
mídias tradicionais, o investimento
dos anunciantes em internet tem
crescido. “Em janeiro e fevereiro
de 2013 os investimentos publicitários em internet já ultrapassaram
o montante veiculado em revistas.
Enquanto o faturamento do bimestre em revistas foi de R$ 188,42
milhões, a web recebeu R$ 189,7
milhões, excluindo deste montante
redes sociais e buscadores”, afirma
Patricia. Segundo ela, “neste mesmo
bimestre o investimento já garantiu
o terceiro lugar no ranking de participação de mercado com 4,74% do
share de investimento total. Até o
fim de 2013, acredito que os investimentos em mídia digital já terão
alcançado o segundo lugar entre os
anunciantes”, defende Patricia.
O crescimento da
mídia digital no Brasil
O Brasil deve chegar ao fim de 2013 com
cerca de US$ 20,3 bilhões investidos em publicidade online, e isso vai dobrar até 2016,
afirma estudo do eMarketer.
Estima-se que o investimento em publicidade digital este ano será 13,7% maior que
o de 2012, o que colocaria o meio digital
na segunda colocação entre os anunciantes,
atrás apenas da TV aberta.
Esse crescimento no volume de anúncios
nos meios digitais tem como explicação o
crescimento do uso de internet nas residências brasileiras e o aumento do poder
aquisitivo das famílias.
*Fonte: Digital Signage Brasil
cio do ano e costuma receber
muitas visitas à noite.
Tínhamos horário marcaVAGNER BARRETO
[email protected]
do com os sócios da casa, dois
casais. Chegamos uma hora
antes do início da festa para
conversármos tranquilamen– Posso ir vestida assim?
te. E lá estávamos parados na
rua, entre a discrição do local
– De vermelho? Claro que e a luz forte que irradiava da
não! Esqueceu as aulas de se- lancheria, quando um homem
miótica?
nos abordou e perguntou se
éramos os universitários.
alerta de amigo e, naA primeira impressão ao
quela noite, par, fazia entrar na casa era de uma festodo sentido.
ta tradicional, impressão essa
Não era exatamente algo que se prolongaria por toda a
chamativo. Na verdade, era noite. Fernando Martines, 33
uma blusa vermelha muito anos, um dos sócios, se encarbem comportada e de gola regou de nos apresentar o loalta. Por cima, um blazer pre- cal, que, não fosse pelo andar
to.
superior, passaria como uma
Acabamos indo com rou- balada qualquer.
pas parecidas. Ela, uma caSubindo as escadas, os
miseta preta (que, mais tarde, quartos nos davam uma pernos explicaram não ser a blusa cepção mais próxima do que
mais segura, pois botões são iríamos presenciar. Um devulneráveis e fáceis de abrir), les, sem porta, abrigava uma
uma calça preta, um casaco grande cama redonda que,
verde musgo e cabelo pre- mais tarde, descobrimos conso. Ele, blusão listrado roxo ter uma regra bem rígida:
e azul, blazer verde musgo e sentou, está disponível. Ainda
uma calça jeans
azul.
O namorado
dela emprestou
a aliança. A intenção era parecermos um casal. E ainda com
algum receio,
saímos em direção a uma casa no mesmo quarto, havia duas
de swing em uma fria noite de cabines que poderiam abrigar
sábado.
com conforto dois casais em
A casa, que fica curiosa- cada. Buracos na parede permente a 50 metros de uma mitem que voyeurs (pessoas
das mais conhecidas igrejas que sentem prazer em olhar
de Caxias do Sul, é muito bem outros fazendo sexo) obserlocalizada, fugindo um pouco vem de fora ou até participem.
do Centro da cidade. O local
Outro quarto (esse com
discreto contrasta com a luz porta) tinha uma cama ainforte de uma lancheria, do da maior, com uma cabeceira
outro lado da rua, onde olhos adaptada que incitava o pocuriosos ainda buscam pistas pular “de 4”, algemas presas à
do que se trata a casa cercada parede, uma iluminação baixa
com madeiras, aberta no iní- e vermelha e espaço para, com
SOL MAIA
[email protected]
O
um pouco de boa vontade,
uns dez casais. Além dos buracos que também permitiam
o voyerismo e interação entre quem está dentro e fora.
Um terceiro quarto, oferece
a opção de privacidade para
quem não estiver a fim de ser
visto e pode ser alugado por
hora – sim, mesmo no swing
existe privacidade.
em
Festa s
máscaras
Após conhecer o local, iniciamos a entrevista sentados
ao redor do bar. Nos apresentamos brevemente e começamos uma conversa informal,
que sanou nossas primeiras
curiosidades. Dois casais de
Santana do Livramento que
perceberam a necessidade e,
principalmente, a capacidade
de Caxias em absorver o negócio. Nos contaram que não
praticam swing, nem dentro
nem fora da casa, mas gostam
de observar.
- No teu dia a dia tu tens
uma máscara, que
aqui no meio do
swing não existe –
afirma Rafael Fontoura, 23 anos, sócio do local.
Enquanto conversávamos, chegaram os dois primeiros casais, vindos de São
Leopoldo e Porto Alegre. A
noite era de integração com
outras casas da região metropolitana do Estado, que realizaram excursões para seus
clientes. Eram pessoas jovens
e realmente bonitas, daquelas
que trabalham ali na mesa ao
lado da sua. Uma coisa que
realmente surpreendeu foi o
quanto eles foram simpáticos
e receptivos. Nos pareceram
tão sinceros que optamos por
não fingir ser um casal, o que,
O amor livre e longe de padrões pauta o cotidiano daqueles que criam uma no
na nossa visão inicial, facilitaria a aproximação com os participantes e resolvemos esclarecer quem éramos e o porquê
estávamos ali. Incentivados
pelos donos passamos para
a pista de dança, ainda vazia,
para conversarmos.
Anderson e Ana (nomes
fictícios) contam que namoram há nove anos e a curiosidade surgiu quando a irmã
dela comentou, em um almoço familiar, a naturalidade que
as relações sexuais deveriam
ser tratadas. Eles pensaram
no assunto e resolveram criar
um perfil em uma rede social
específica para troca de casais.
As primeiras tentativas não
deram certo e foram seguidas
de um período de dois anos
sem que se relacionassem com
outros casais, mas a vontade
voltara há alguns meses e lá
estavam eles.
O segundo casal, Bruno e
Bianca (nomes fictícios) teve
um início mais intrigante.
Estão juntos há 15 anos e são
praticantes de swing há nove.
Ela perdeu a virgindade com
ele, aos 24 anos e, após seis
anos de relação, descobriram
as casas de swing:
– O nosso acordo começou da
seguinte forma: ela queria ir
para uma casa noturna dançar. Eu detesto dançar, mas
eu gosto de ver filme pornô,
então eu descobri que havia
lugares que poderia ver sexo
ao vivo – comenta Bruno em
meio a risos.
– Ele ia ver as pessoas fazendo sexo e eu ia dançar – completa Cláudia.
Quando, um dia, Bruno a
surpreendeu com uma pergunta:
– Como você sabe que sexo é
ova forma de relacionamento onde o que importa é a confiança, o prazer e a entrega mútua dos parceiros
bom comigo se você não tem
nenhum parâmetro?
O questionamento inesperado os levou à pratica da troca de casais.
– A autoestima dela melhorou
muito – afirma Bruno.
Eles defendem a ideia
de que a prática faz muito
bem para a relação e aproxima o casal, pois propicia o autoconhecimento.
– O melhor sexo é o do casal
depois que chegam da festa –
aponta Ana.
Enquanto conversávamos,
a música começou a tocar e a
pista a lotar, sem que notássemos. Em minutos, estávamos
imersos em uma balada bem
tradicional. Música, flertes,
pessoas dançando, dificuldade
de locomoção. Tudo caminhava como de costume.
A festa começou a apresentar suas peculiaridades
quando um grupo de mulheres subiu ao pole dance. Lá,
há um certo endeusamento
das mulheres. Pouco a pouco
seus companheiros as colocavam lá, onde dançavam, se
beijavam e trocavam carícias
quentes com direito a pequenos strips.
– Toda a festa gira em torno
das mulheres – nos explicavam.
E, de fato, elas provocam,
flertam, fazem a aproximação
e ainda, segundo eles, têm a
última palavra.
– Normalmente o homem
topa qualquer coisa, então, é a
mulher quem decide – afirma
André.
Claro que o “topam qualquer coisa” é muito relativo.
O bissexualismo feminino
está por todos os lados. Mas o
masculino, ao menos publicamente, não existe. A todos que
xual questionada está muito
presente no meio swing. Os
anúncios da internet que incluem fotografias quase sempre retratam as mulheres em
posições diversas e algumas
vezes relacionando-se com
mulheres, mas raramente os
homens – reflete Olivia.
Na casa, elas continuam
no pole dance, onde vale destacar que, enquanto estão lá,
nenhum homem toca nelas
ou tira proveito da situação
de alguma forma que não
com os olhos. Alguns esposos orgulhosos tiram fotos de
suas esposas que, mais tarde,
irão para alguma rede social
de swing com as identidades
devidamente preservadas.
Depois da performance, as
mulheres já com poucas peças de roupa, dão lugar à banda. O show da noite fica por
conta da dupla de rock swing
BardoeFada. Sim, também
nos perguntamos sobre o que
seria um rock swing. A dupla
também é um casal fora dos
palcos e, mais do que isso,
participa das trocas depois do
show, mas Fada se relaciona
apenas com mulheres. Eles,
que se declaram o “primeiro
casal pós-romântico”, cantam
letras sobre liberdade sexual
e fantasias que, na verdade,
fizeram lembrar bandas de
rock gaúchos como Cascavelletes e afins. O show, que
ocorre no mesmo “queijinho”
do pole dance, também provoca o público. A vocalista
dança sensualmente enquanto mulheres a tocam e até tiram algumas de suas roupas.
fizemos esse questionamento
ouvimos a mesma resposta:
– Não, homens não ficam!
Ninguém soube dar uma
resposta convincente sobre o
Mas é, após o show,
porquê desse comportamento.
Uns dizem que os torna me- que a festa realmente conos homens, ou que não seria meça. Em minutos, a pista de dança estava vazia e
tão “bonito de se ver”.
o andar superior lotado.
Normalmente, as abordagens
ocorrem durante o show e,
quando ele termina, os pares
de casais já estão formados.
Nos quartos, não havia espaço
para muitas cerimônias. No
A antropóloga Olivia von quarto maior, conseguimos
der Weid, ao pesquisar a prá- contar cerca de nove casais que
tica do swing para sua disser- optaram por manter a porta
tação de mestrado, teve esse fechada e a luz apagada, o que
mesmo estranhamento sobre dificultava a vida dos curiosos
como a feminilidade e a mas- que se revezavam para obserculinidade são vistos de forma var a ação pelos buracos, mas
não impedia que se visse o que
diferente entre os swingers:
– O medo de ser acusado de estava ocorrendo lá dentro.
‘gay’ ou de ter sua posição se- Nos corredores que cercam os
Tudo éido
permit ada é
N
obrigatório
quartos, a música alta dá lugar
a um silêncio perturbador. A
ideia é realmente não atrapalhar os casais. É como se fosse
a apreciação de alguma arte
exposta em um museu.
No outro quarto (aquele
onde não havia porta), a cama
redonda permanecia vazia. Lá,
a regra é clara e mais incisiva:
não é um lugar de descanso. É
o lugar para incitar aproximações e pedir por sexo.
– A festa começa assim que o
primeiro casal tomar a iniciativa – diz André.
E foi o que aconteceu. Passado uns 30 minutos, cerca de
cinco casais dividiam o espaço
observados por cerca de dez
pessoas. Nas cabines, nunca
faltava casais, sempre de dois
em dois, e a maioria do tempo permaneciam com as luzes
apagadas.
Os dois casais que nos
acompanharam toda a noite,
e ajudaram a entender as regras subliminares da festa, se
entregaram à cama redonda
no fim da noite, onde trocavam carícias entre eles e com
a dupla/casal que fez o show.
Era a nossa hora de sair, naturalmente, à francesa.
Apesar da tentativa de passarmos despercebidos, houve duas abordagens – de um
homem e de uma mulher (de
casais diferentes). As duas situações foram resolvidas de
forma tranquila e ambos respeitaram a negativa.
Vale ressaltar que nunca
nos sentimos tão seguros em
uma festa. Diferentemente de
festas tradicionais, os homens
não são agressivos nem invasivos e souberam perfeitamente
respeitar o espaço e a opção
de estarmos ali como meros
expectadores.
A impressão que fica é de
muito respeito e de uma grande “festa de família”, a diferença é que você não levaria a sua
mãe.
Fotos:
Sol Maia
Produção:
Vagner Barreto
As imagens utilizadas
nesta reportagem
são ilustrativas e
produzidas pelos alunos
LUANA MARQUES PAIM
[email protected]
D
elegacia de Polícia para Mulher. São 14 horas de uma
quarta-feira. Uma senhora de
aproximadamente 45 anos entra na
sala e declara que seu filho a espanca.
“Eu gostaria de fazer uma denúncia
contra meu filho”. E começa a chorar.
A atendente pede a ela que se acalme,
que logo será atendida.
Até o mês de abril deste ano, 768
inquéritos foram instaurados e 412 é
o número de termos circunstanciados
(crimes de menor potencial ofensivo
com pena inferior a dois anos), na
Delegacia para Mulher de Caxias do
Sul. Em 2012, três mil procedimentos
foram encaminhados ao juiz e o mês
que mais houve denúncias foi dezembro.
A delegada Carolina Valentini Tomiello, 34, está no município há pouco
mais de um mês. Antes de assumir a
Delegacia de Polícia para a Mulher de
Caxias do Sul ela era a única delegada
de Guaporé - RS. Segundo Carolina,
mesmo que ela tenha vindo para uma
área específica, o volume de ocorrências é grande. “Não lidamos com crimes complexos. Neste meu primeiro
mês aqui não houve nenhum caso
chocante, mas temos um número expressivo de ocorrências e é importante
destacar que aproximadamente 70%
dos casos são relacionados ao uso de
drogas e ao alcoolismo”, explica.
O trabalho de delegada é mais
burocrático,
mais “atrás da
mesa”,
para
cuidar do andamento das
investigações.
“O contato direto com as vítimas só acontece quando
é necessário
que eu auxilie
a policial que
cuida do caso,
ou quando se
trata de um
caso de maior
g r a v i d a d e “,
explica.
Os crimes contra a mulher são
variados. Os mais denunciados são:
ameaça, lesão corporal, vias de fato
(agressão que não deixa marcas), perturbação da tranquilidade e crimes
contra a honra (agressão verbal, que
inclui injúria, calúnia e difamação).
Destes, o de maior gravidade é o crime de lesão corporal, que pode resultar em uma pena de até 12 anos.
Depois que uma mulher decide
abrir uma ocorrência na Delegacia de
Polícia para a Mulher, os passos do
inquérito são: registro da ocorrência,
quando a vítima relata o que aconteceu; pedido de medidas protetivas;
envio da ocorrência para a Coordenadoria Municipal da Mulher; procedimento de ouvir as testemunhas, se
houver; arrecadação de provas; e, por
fim, o encaminhamento do relatório
feito pela delegada para o Judiciário.
Deve-se destacar que, de acordo com
a Lei Maria da Penha, não é possível
como pena de crime contra a mulher
o pagamento de multa, nem cesta básica.
Em janeiro de 2012 ficou decidido
que a vítima de lesão corporal não poderá mais retratar-se, ou seja, desistir
da denúncia. O que, segundo a delegada, é muito comum que aconteça.
“Temos um problema muito grande
com isso, que desestimula nosso trabalho. A maioria das mulheres acaba
desistindo de prosseguir. Penso que
isso aconteça principalmente por dependência emocional e financeira”, lamenta. De acordo com a delegada, as
denúncias normalmente são feitas em
momentos de raiva e depois há arrependimento.
Porém, quando há seguimento na
investigação, a mulher é encaminhada
ao Centro de Referência para a Mulher, que é vinculado à Coordenadoria Municipal da Mulher. O Centro
de Referência tem como objetivo pro-
mover o atendimento a mulheres em
situação de violência, orientando-as
nas áreas psicológica, social e jurídica,
buscando a reintegração da mulher e
orientá-las sobre seus direitos.
Até junho de 2013, 42 mulheres foram assassinadas no RS. “Falta para as
mulheres entender o tamanho da seriedade da violência doméstica e denunciar”, finaliza Carolina.
COMO IDENTIFICAR
A VIOLÊNCIA
- Ter medo do homem com quem se vive.
- Ser agredida e humilhada.
- Sentir insegurança na sua própria casa.
- Ser obrigada a manter relações sexuais.
- Ter seus objetos e documentos destruidos ou escondidos.
- Ser intimidada com arma de fogo ou
faca.
- Ser forçada a “retirar queixa”.
Conviver com siontomas como esses é ser
vítima da violência!
LIGUE:
3221-1357/ 3202-1921
e denuncie!
ANDRESSA GALLO
[email protected]
E
le não é um esporte apenas de meninas. Entretanto, elas predominam entre os praticantes. Ele não é um esporte de corrida ou luta,
porém exige força e resistência. O esporte caiu nas graças dos brasileiros entre 2007 e 2008, quando era exibida, pela Rede Globo, a novela Duas Caras. No folhetim, a personagem de Flávia Alessandra era uma
respeitada enfermeira durante o dia, porém à noite dançava em um bar e
despertava o fascínio masculino.
A dança que encantou o público e ascendeu como esporte é o pole dance. Muito mais que uma simples dança, hoje o pole dance é um esporte em
crescimento no Brasil e a cada ano ganha novos adeptos. Em 2009, devido ao
grande número de praticantes
e de estúdios voltados para a
prática do pole, a modalidade esportiva ganhou uma
federação nacional, responsável pela formação de
instrutores e atletas, além
de organizar e participar de
competições internacionais.
De acordo com a presidente da Federação Brasileira de
Pole Dance (FBPOLE), Vanessa Costa, a entidade foi pioneira
mundial na elaboração do Livro de
Regras, criando um código de obrigatoriedade de movimentos e seus níveis de
dificuldade, além de um Livro de Arbitragem com fundamentos básicos
da estrutura do esporte. “Além da elaboração de regras, a nossa federação
também é responsável por organizar a Pole World Cup, anualmente, no Rio
de Janeiro”, afirma.
A última edição do Pole World Cup ou Copa do Mundo de Pole Dance
ocorreu em novembro de 2012 e reuniu mais de cem atletas da modalidade
de 26 países. “A 1ª Pole World Cup, que ocorreu em 2011, foi um marco
no esporte, por ter sido o primeiro Campeonato Mundial totalmente direcionado para o aspecto desportivo da modalidade. O evento é considerado
como um ponto de partida para a criação do Primeiro Ranking Internacional de Pole”, ressalta Vanessa.
Após ter vencido muitos preconceitos e conquistados
diversos adeptos, o desafio da Federação Brasileira é tornar o pole dance um esporte olímpico, mas esta luta
ainda pode ser longa.
Atração na Serra
Em 8 de outubro de 2012 foi aberto o primeiro
estúdio de pole dance em Caxias do Sul. O Rosa Studio, além de ser o primeiro da cidade, também
foi o primeiro do Rio Grande do Sul federado. O local surgiu com dois
grandes desafios: atender
as pessoas que tinham
interesse e quebrar com
preconceitos sobre a
prática do pole na cidade.
A mineira, casada
com um caxiense,
Emilia Del Guadio
viu na cidade a chance de expandir sua paixão pela modalidade e compartilhar conhecimento. Sabendo das inúmeras cobranças e discriminação
que poderia enfrentar em Caxias do Sul, a decisão foi seguir as exigências à
risca. “A ideia de fazer o estúdio regulamentado surgiu para evitar preconceitos e mostrar que é uma coisa correta e que segue padrões. No sudeste
as escolas são grandes e reconhecidas, diferente do que ocorre em Caxias”,
explica.
A federação do Rosa Studio traz benefícios para quem deseja abrir um
espaço para a prática de pole dance. No local são oferecidos cursos de especialização e formação de instrutores em parceria com a Federação Brasileira. “Tivemos visitas de pessoas de Canoas, Vacaria e outras cidades do
interior que também pretendem abrir estúdios de pole dance, então quem
tem interesse pode procurar esses cursos para se profissionalizar”, esclarece
Emília.
Além das aulas de profissionalização de instrutores, semanalmente,
são ministradas 50 aulas para atender cerca de 60 alunos que se dividem na
prática do pole dance flex, fitness, mastil e glamour. As três primeiras modalidades são voltadas para a formação de atletas, já o pole dance glamour
auxilia na elaboração de coreografias.
Atletas caxienses
Dentre tantos alunos do estúdio não existe um perfil específico das
pessoas que buscam praticar o pole dance. Porém, entre os homens a modalidade ainda é um tabu na cidade. Em maio, apenas seis homens praticavam o esporte. Um dos alunos que treina no Rosa Studio é o consultor
Ismael Vicente Spadetto Rosa, 26 anos. Ele iniciou no pole dance em novembro de 2012 por gostar de atividades físicas
diversas. “Eu já gostava de ginástica e
assistia campeonatos de pole dance.
Então, eu vi que tinha a modalidade masculina e fui para Porto Alegre
fazer uma aula experimental, porém
quando vi que tinha um estúdio em
Caxias decidi fazer aqui”, recorda.
Ismael, no entanto, não pretende
ficar apenas em treinos. Ele afirma que
pretende competir até 2014. Para isso
treina no estúdio de duas a três vezes
por semana. Além dele, a instrutora do Rosa Studio, Tisiane
Tieppo também pretende participar de
competições,
mas isso
ainda deve demorar mais alguns meses. “Pretendo competir no futuro, mas não num futuro tão
próximo. Até porque as meninas que competem praticam o pole há quatro ou cinco anos, então preciso aprimorar
muita coisa ainda”, sintetiza.
Mesmo que não programe participar de competições num período
próximo, Tisiane possui uma rotina puxada, entre aulas e treinos. Por
semana, ela ministra entre 15 e 17 aulas de pole dance. Além disso, treina em separado para aprimorar os movimentos e aplicá-los em aula.
“Eu treino à parte umas três vezes por semana e a cada três meses faço
cursos de especialização e capacitação”, esclarece.
Tisiane começou a praticar o pole dance diariamente em outubro
de 2012. Contudo, desde 2011 já participava de cursos e qualificações
no sudeste do país. Formada em educação física, ela atuava na área de
musculação e decidiu buscar um novo esporte para praticar. A escolha
pelo pole dance, segundo ela, é simples. “É uma atividade diferente, desafiadora, benéfica e trabalha a parte artística e física”, destaca.
Exercício sem
academia
Não existe um perfil
das pessoas que praticam o
pole dance em Caxias do Sul,
mas a maioria afirma que procurou a modalidade pelo simples
fato de não se adaptar ou não gostar da rotina de uma academia. Diferente dos exercícios puxados e resultados demorados das academias, o pole
dance gera resultados rápidos, dando resistência, força e eliminando
as gorduras tão indesejadas.
Entre as praticantes que corroboram com essa opinião está
a analista de recursos humanos
Jéssica Flores Locks, que há oito meses
viu no pole dance a “fuga” da academia. “Na verdade odeio academia e
o pole é como se fosse uma, porque trabalha tudo. É um esporte completo,
passa autoconfiança, é diferente e inovador”, ressalta.
Na mesma linha de Jéssica, está a desenvolvedora de sistema Nicole Rocha, que há cinco meses descobriu uma nova paixão e três vezes por semana
treina pole dance. “Nunca fui fã de academia, faço por necessidade, pois tenho
problema no joelho. Mas, descobri uma paixão, não largo por nada e faço isso
por mim”, afirma.
Nicole ainda está no início dos treinamentos, porém não descarta totalmente a possibilidade de um dia tornar-se atleta. “Para competir não sei se
tenho força, agora não penso nisso. Já treinamos coreografias, mas é muito
difícil, é muita força. As meninas que competem fazem tudo no alto, então a
força fica duas ou três vezes maior”, finaliza.
TAIS SILVA
[email protected]
P
ode parecer coisa de ficção, mas
muitas mulheres acabam na mira
de relacionamentos infelizes, ao se
envolverem com parceiros que levam uma
vida perigosa.
O assunto já virou tema de minisséries,
filmes e outros produtos culturais. As mocinhas que se apaixonam por bandidos estão cada vez mais ganhando as telas e garantindo a audiência, mas esse dilema não
é apenas coisa de novela e nem sempre
tem um final feliz. Tatiana (o nome é fictício, mas a história é verdadeira) já viveu
as consequências de um relacionamento
desse gênero. Eles se conheceram em uma
festa, por meio de amigos em comum.
Segundo ela, o rapaz parecia ser um homem romântico, culto e de posses. Quando começaram a se envolver ela descobriu
quem realmente se tratava. “Ele começou
a ficar agressivo, sem motivos aparentes.
Bebia muito. Eu imaginava que também
se drogava. O pior não era isso: eu descobri que, além de tudo, ele se envolvia com
tráfico e lavagem de dinheiro. Foi aí que
entendi porque ele sempre estava com a
carteira cheia de dinheiro”.
Tatiana conta que diversas vezes ele
chegou a agredi-la, tanto verbalmente
quanto fisicamente, mas ela tinha vergonha de contar para a própria família sobre a situação. O medo também foi o que
fez com que continuasse sustentando essa
relação. ‘’Eu contava para poucas pessoas o que acontecia. Ele quebrava minhas
coisas, dirigia em alta velocidade e não sei
como não nos matou. No fundo eu tinha
esperança que ele mudasse, pois apesar
de tudo gostava dele. Mas confesso que o
medo é o que fez com que eu resistisse por
mais tempo a tudo.’’
Segundo a mãe de Tatiana, o rapaz
nunca chegou a frequentar a casa da família. Quando soube de tudo, ficou agoniada
pela filha. “Eu temia que ele matasse ela.
Não dormia enquanto não chegava, e fazia
questão de buscá-la na faculdade e ligar
diversas vezes para me certificar de que
realmente estava bem. Foi um pesadelo”.
O pesadelo só acabou por que Tatiana
se formou pouco tempo depois e resolveu
se mudar para o Rio de Janeiro. Mesmo
assim, o medo de que ele fosse atrás ainda
lhe preocupou por algum tempo. Felizmente isso não aconteceu e ela está feliz
e cheia de planos ao lado do novo namorado. “Eu consegui sair daquela relação,
graças a Deus. Percebi a loucura na qual
eu havia me metido. Meu atual namorado
é uma pessoa de bem. Agora sinto que realmente estou no caminho certo. Não vale
a pena insistir no que só faz mal”. Mesmo
após mudar de Estado, ela ainda toma
precauções sempre que vem visitar os familiares em Caxias do Sul.
Deslumbrada pelo perigo
Mas e quando a atração nasce e a mulher já conhece os antecedentes do homem
pelo qual está apaixonada? É o caso
da Roberta
(nome fictício). Ela
conheceu o
namorado
através de
uma página
policial. Era
2006 quando Roberta
folheava o
jornal e viu
a foto de um
estuprador que havia sido preso e cumpriria pena também por mais dois assassinatos. Foi paixão à primeira vista. Ela ficou
encantada pela beleza do rapaz e decidiu
visitá-lo na penitenciária. A jovem, com
23 anos na época, se declarou para o rapaz
e começaram a se corresponder por cartas. Sempre que tinha tempo ela ia lhe visitava, inicicalmente, como amiga, e com
o tempo as visitas se tornaram íntimas.
Foi quando o casal começou a namorar.
“Ele era encantador. Não combinava em nada com o que diziam dele nos
jornais, sempre me tratou muito bem,
inclusive se arrependeu de tudo que fez
e mudou de vida, minhas orações deram
certo”. Roberta relata que foi muito difícil enfrentar a sociedade e que foi recri-
minada por ter escolhido amar um preso.
“As pessoas me condenavam, me achavam
louca, mas o que elas não entendem é que
o amor supera qualquer barreira e que as
pessoas podem sim mudar quando realmente encontram um amor de verdade.
Eu tive que passar por cima de muitas
barreiras para ficar com ele, mas não dei
ouvidos às más línguas, o que importava
era o que sentíamos um pelo outro”.
Apesar de passar por cima do preconceito, a relação do casal terminou dois anos
depois quando a moça teve de mudar de
cidade para cuidar do pai que estava doente. “A distância começou a pesar demais
e decidi por um ponto final no nosso namoro. Ainda assim não me esqueço dele.
Acho que foi um dos homens que mais
amei na vida”. Quanto a ele, Roberta conta
que a última notícia que teve é que ele está
quase cumprindo a pena e deve
deixar o presídio
em breve, mas
que mesmo em
liberdade não
pensa em revê-lo. “É uma página virada em
minha
vida.
Foi importante
mas passou”.
Vínculo que dura para sempre
Nem sempre é possível quebrar o vínculo com uma relação, muitas vezes por
conta dos filhos que acabam unindo para
sempre o casal. A vendedora Andreia
(nome fictício), 27 anos, é um exemplo
disso. Ela conheceu o primeiro namorado
durante um show em Caxias do Sul. O romance engatou rapidamente e quando viu
já estavam namorando. Ela observava que
ele tinha algumas atitudes estranhas, mas
o que não imaginava é que se tratava de
um ladrão e que seria pego pela polícia.
Andreia ficou grávida e sozinha. Tem
passado uma vida difícil para criar a filha
que hoje tem 5 anos de idade. “Sempre
que posso vou vê-lo no presídio e recebo uma ajuda para as despesas, que nem
sempre é suficiente, por isso trabalho em
dois empregos”.
Ela diz que não teve coragem de abandonar o companheiro mesmo sabendo o
que ele cometeu: “Eu não defendo. Sei que
cometeu um crime e tem que pagar por
isso, mas ainda assim gosto dele, é o pai de
minha filha e lhe devo fidelidade”.
A mulher também evita eventos sociais e se dedica exclusivamente à casa.
“Eu acho chato eu ir para uma festa sozinha. Sei que ele tem amigos aqui fora que
podem contar e eu acho que ele certamente não iria gostar”.
As aparências enganam
Marília (nome fictício), universitária,
23 anos, também viveu há pouco mais de
um ano, um intenso amor bandido. O casal se conheceu em uma balada sertaneja
de Caxias do Sul e começaram a sair. Segundo a moça, ele era perfeito, se vestia
bem, era simpático e doce. “Ele me comprava chocolate, me levava para passear
no parque e me mostrava as casinhas de
João de Barro”.
Um dia o rapaz ligou dizendo que iria
caçar com o pai e sumiu por alguns dias.
Em um dos encontros que tiveram ela viu
algumas armas no carro, mas não deu importância. “Ele fazia questão de me deixar
em casa, dizia que poderia ser perigoso e
por isso também andava armado”.
Quando completou um mês que estavam juntos, ele sumiu novamente, desta
vez sem voltar a dar notícias. Mais tarde
ela abriu o jornal e ficou surpresa ao ver a
foto do amado estampada em uma página
policial acusado de nove crimes, como assalto à mão armada em residências.
“Meu mundo caiu. Tenho ótimas lembranças dele, mas sei que não presta é um
marginal que assaltou pais de família e
não sou cega para não reconhecer que o
lugar dele é na cadeia’’. Quando soube, a
estudante entendeu porque o namorado
sempre tinha dinheiro e o motivo dos sumissos sem explicação. “Os dias que ele
sumiu foram justamente os que assaltava.
Num deles, inclusive, ele me ligou contente dizendo que havia conseguido algo que
queria muito. Claro que não me contou o
que era. Para comemorar sugeriu que fóssemos jantar”.
RAQUEL FRONZA
MARCELI DUTRA DA SILVA
[email protected]
O
Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves – RS, localizado na Serra Gaúcha, é o
cenário perfeito para passear e admirar belas paisagens. Por isso, foi
pensado na criação de uma ciclovia
para atender o sonho de tantos moradores da cidade. A via Também
proporcionará mais uma atividade
aos visitantes, já que a região é beneficiada pelo turismo, devido às grandes vinícolas presentes no trajeto.
O início das obras para criação da
ciclovia ainda não tem data marcada,
já que o projeto não foi aprovado no
orçamento do governador do Estado,
Tarso Genro. Sendo assim, a Aprovale
(Associação dos Produtores de Vinhos
Finos do Vale dos Vinhedos), com o
intuito de que os governos estaduais
e federais tirem o projeto do papel,
criou um abaixo-assinado com o objetivo de recolher 400 mil assinaturas.
O projeto inclui 8,25 km de ciclovia para que as pessoas possam
pedalar com segurança em um ambiente propício para esse tipo de
atividade. A construção deve começar no entroncamento com a RSC470 e seguir em direção à cidade de
Monte Belo do Sul, finalizando na
Vinícola Cave de Pedra. No sentido, a pista ficaria na direita e com
um canteiro de 0,5 metro de largura
entre a ciclovia e a pista de carros.
A obra já entrou em licitação
duas vezes: em maio de 2010, sendo anulada em outubro do mesmo ano e, depois, em dezembro de
2010, desta vez, tendo uma empresa
vencedora. O valor estimado ficaria em R$ 5,4 milhões. Segundo o
Daer – Departamento Autônomo
de Estradas de Rodagem – o assunto proposto está em análise na Diretoria de Infraestrutura Rodoviária.
Segundo Juarez Valduga, presidente da Aprovale, as diretorias da
associação mudam, mas as reivindicações e os sonhos continuam os
mesmos. O pedido da ciclovia foi um
dos primeiros pensado pela associação, há 17 anos, e aprovado também
por todos que fazem parte do Vale,
produtores, agricultores, hoteleiros e proprietários de restaurantes.
A ciclovia poderia funcionar não
só para os ciclistas como também
para aqueles que desejam ter um local para caminhadas, importante
aliado do bem estar e saúde humana. Faz parte do projeto, os hotéis
disponibilizarem bicicletas para os
turistas passearem pelo Vale e depois devolverem no mesmo local.
Quem for a favor da obra da ciclovia também podem participar do abaixo-assinado. Para mais informações,
acesse: www.valedosvinhedos.com.br.
Vinhedos
O Vale abrange áreas dos municípios
de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul
Bento Gonçalves: 60%
Garibaldi: 33%
Monte Belo do Sul: 7%
Altitude média: 742 metros
Perfil territorial
Área total: 81,123 km²
Área com vinhedos: 26%
Área com florestas: 43%
Área para plantio: 31%
VITÓRIA LOVAT
[email protected]
A droga consumida
pelas classes média
e alta financia o
mercado clandestino
dos narcóticos
Fumar um baseado ou
cheirar uma carreira, há muito
tempo são práticas que deixaram as favelas e também estão presentes no cotidiano da
classe média e alta. Esta classe,
que Artur, como vamos o chamar, conhece bem, ele trafica
maconha de Porto Alegre para
Farroupilha e conta como é a
realidade dos adolescentes e
adultos consumidores da droga.
“A grande maioria das
pessoas para quem eu vendo
trabalha e sustenta seu vício.
Alguns adolescentes fumam
apenas para aparecer, mas estes têm pais que os sustentam
e financiam a droga sem ter o
conhecimento. A faixa etária
da galera que compra é bem
variada, de 13 a 50 anos, então
há todos os tipos de consumidores”, relata Artur. O rapaz
não é um traficante que lida
com crimes ou que é foragido
da Polícia, ele trabalha, estuda
e leva um vida normal, mas
também busca maconha em
Porto Alegre para vender na
cidade apenas sob encomenda.
Artur conta que é apenas
maconha que ele traz para
a serra gaúcha e não drogas
mais pesadas. “Na favela o que
predomina é crack e cocaína,
aqui não. Os usuários da classe média normalmente têm
preconceito com essas drogas,
mesmo que sejam semelhantes e com o mesmo processo
químico. O que ocorre com
alguns usuários de maconha é
a opção por drogas sintéticas
como Ecstasy e LSD”, destaca.
Artur lembra que a demanda é sempre maior do que a
oferta, principalmente porque
os compradores sabem que o
produto que vai chegar é de
qualidade.
Ele não se considera traficante, mas um terceiro, aquele que compra do traficante e
vende para os usuários diretos, pois é difícil que cada
usuário vá até a boca, que é
o local da venda, para efetuar
a compra. “Os terceiros normalmente são usuários comuns, apenas se disponibili-
zam para buscar e distribuir,
porém alguns traficantes vivem desse mercado e estão
neste meio para ganhar dinheiro, são capazes de comprar qualquer briga com um
possível concorrente ou um
usuário que seja um mau pagador”, relata o rapaz.
Sobre a legalização da maconha no Brasil, Artur destaca que não apenas o consumo deveria ser liberado, mas
também o cultivo da planta.
“Acredito que uma empresa
já possui a patente de uma
marca de maconha chamada Marley para comercializar os cigarros legalmente.
Certamente o governo iria se
beneficiar com esta medida
referente à alta taxa de impostos aplicados e o valor de
uma carteira de baseado seria inacessível, sendo assim
não diminuiria a ilegalidade
e o tráfico continuaria sem
controle”, explica. Porém, ele
lembra que apenas algumas
pessoas estariam preparadas
para a mudança, como quem
fuma com consciência, paga
o seu baseado e não parte
para as drogas mais pesadas,
mas a cultura italiana, como
temos aqui na região e as
famílias conservadoras não
saberiam como lidar com a
inserção da maconha livre na
sociedade.
A legalização da maconha
não é uma discussão recente e a
sua tomada movimentaria muitos mercados e acarretaria mudanças no Brasil. O promotor de
justiça Henry Wagner Vasconcelos defende que a legalização
não pode acontecer pois o Brasil correria o risco de ficar sob
o domínio dos traficantes, que
então, seriam grandes empresários. “Quem quer a liberação
da maconha é o intelectual ou
o universitário, pessoas da classe média”, afirmou o promotor.
Vasconcelos disse ainda que o
Brasil é um Estado falido e a liberação seria o primeiro passo
para que a total falência se concretizasse.
A maconha, uma planta extraída da natureza, é utilizada
como narcótico após passar por
processos de secagem e se tornar
uma pasta que é usada por meio
do fumo e de ingestão. A planta
se popularizou no Nordeste do
Brasil nos anos 50, quando era
consumida pela parcela pobre
da população, negros, índios e
mestiços. Foi a partir dos anos
60 que ela passou a ser consumida também pela classe média
e como uma forma de protesto
à situação política, assim a comercialização ficou popular.
Conforme André Barros, ad-
vogado da Marcha da Maconha
no Brasil, até os anos 80, a maconha era a única droga vendida nas bocas de fumo, mas logo
se conheceria também a cocaína, heroína e o LSD. Foi com a
chegada das novas drogas que
a maconha saiu das bocas de
fumo e passou a ser vendida nos
portões de escolas e universidades.
De acordo com um levantamento realizado pelo Departamento de Psicobiologia da
Universidade Federal de São
Paulo e pelo Centro Brasileiro
de informações sobre Drogas
Psicotrópicas (Cebrid) em mais
de 100 cidades a maconha é a
terceira droga mais consumida,
ficando atrás apenas do álcool
e do tabaco. A colocação é justificada devido a ilegalidade da
venda do produto.
Dos entorpecentes ilícitos e
ilegais ela é a mais consumida e
a mais presente entre os adolescentes de 12 a 18 anos. A diretora do Centro de Referência em
Álcool, Tabaco e Outras Drogas
(CRATOD) defende que o uso
ainda no início da adolescência
traz danos maiores do que para
um adulto por afetar o desenvolvimento do cérebro e por ter
mais facilidade de causar dependência.
A
pesar das roupas sujas, resultado de um
dia de trabalho, o sorriso era contínuo e simpático.
O olhar combinava com o
sorriso e transparecia sinceridade. O semblante brando ia
além da barba por fazer e das
reclamações de cansaço dentro do ônibus lotado das 18
horas. No trajeto de Bento a
Farroupilha, Marco Antônio,
como vamos chamá-lo, escolheu por espontânea vontade
relatar a sua história. Talvez
pela sensação de solidão, a
qual citou algumas vezes possuir.
Marco Antônio é pai de
duas crianças e as educa sem
auxílio da esposa, que é viciada em crack. Os filhos têm
seis e quatro anos e, segundo
“Eu ia pra Porto Alegre
aproximadamente duas vezes
por semana, trazia maconha,
cocaína e crack. Vendia tudo
no mesmo dia. Às vezes eu
conseguia vir pra serra bem
carregado, aí começava em
Garibaldi e Carlos Barbosa,
passava por Bento Gonçalves,
Farroupilha, Caxias Flores da
Cunha e até São Marcos. Aqui
sempre vendia bem”, lembra
o ex traficante. Ele conta que
foi nesse meio que conheceu
a esposa e que passaram a viver juntos, em Farroupilha.
Marco era reconhecido pela
Polícia Civil de toda a Região
por um apelido curto, quatro
letras, mas suficiente para saber que se tratava de tráfico.
“Eu só vendia, nunca tive
intenções de roubar, matar
o pai, são as almas mais doces as quais ele já conheceu,
e não se cansa de repetir que
mudaram a sua vida. E mudaram mesmo. Marco já foi
um dos principais traficantes
de drogas da Serra Gaúcha.
Foi preso duas vezes e tem
diversas passagens pela polícia de todo o Rio Grande do
Sul, porém mudou de vida
a partir do momento que se
tornou pai.
ou cometer qualquer dessas
alucinações. Vender drogas
me dava dinheiro, bastante
dinheiro. Até já andei armado algumas vezes, mas por
segurança, quando estava
em Porto Alegre ou na Região Metropolitana. Sinceramente, eu mal sabia disparar
aquilo. Nunca matei nem um
animal, imagina uma pessoa”,
relata Marco. Ele afirma que a
venda era realizada para tra-
ficantes menores, nos bairros
das cidades que repassavam a
droga para os usuários.
A cada frase dita, Marco
lembrava dos filhos, contava que a menina tinha olhos
azuis, iguais aos dele, e que
a janta daquela noite seria
macarrão instantâneo e, para
a sobremesa, ele havia com-
prado mamão, fruta preferida da filha. O homem que
antes vivia clandestinamente
e fugindo dos olhos da polícia, hoje voltava de mais um
dia de trabalho e falava com
orgulho sobre a sua mudança de vida. “Quando minha
mulher pariu, eu olhei para
aquele bebezinho e soube que
dali em diante eu viveria para
ele”, lembra.
Marco conta que, dois
anos depois, o casal ainda
vivia junto, porém ela não
trabalhava e continuava a se
drogar, o que impedia que ela
cuidasse bem das crianças.
“Peguei meus filhos, coloquei
embaixo do braço e fui embora. Se ela não soube ser mãe,
eu seria pai. Nessa época eu
trabalhava e o pouco que
ganhava era suficiente para
deixá-los alimentados e bem
cuidados. Eu não usava mais
pó, mais nada, na verdade,
não dava tempo, quando eu
não estava trabalhando, estava dando banho nas crianças,
comida e brincando”, resgata.
O homem conta que hoje as
crianças estão saudáveis, passam o dia na escolinha e visitam a mãe a cada 15 dias.
“Minhas crianças sabem
que eu não posso oferecer
luxo, mas eu faço questão de
ensinar que o amor do pai é
maior do que dinheiro. Eles
entendem. No mês passado,
aniversário do menino mais
novo, eu tinha apenas 20 reais. Comprei uma pizza no
mercado, um refrigerante e
algumas frutas. Cantamos
parabéns e, antes de dormir,
ele me deu um abraço e disse
que tinha sido o melhor aniversário da vida dele. Admito
que chorei”, relata. O ex-traficante é mais um dos tantos
que vivem clandestinamente
trabalhando no mercado ilegal e sendo financiado pelos
consumidores.
As imagens são ilustrativas
e produzidas pelos alunos.
Os nomes dos
entrevistados preservados.
VAGNER BARRETO
[email protected]
C
axias do Sul passa
por um boom imobiliário. É uma cidade que cresce. Para os
lados. Para cima. Prédios
antigos caem para que
novos cresçam, quase que
da noite para o dia, ainda
maiores que aqueles que
sepultam. O fenômeno é
visível, qualquer um que
fizer um passeio pelo seu
bairro, seja ele qual for,
perceberá que pelo menos
uma obra está em andamento.
Incorporadoras,
arquitetos, engenheiros civis, empreiteiras, designers
de móveis, vivem seu momento de glória.
Flyers, maquetes e outdoors mostram lugares
espaçosos,
arborizados,
iluminados, com pessoas
felizes passeando com os
filhos e cachorros, que, teoricamente, morarão em
apartamentos tão pequenos onde não caberão todos. Sorte dos cachorros
que ocupam menos espaços que crianças.
Casas antigas, que por
décadas abrigaram famílias inteiras, de repente dão
espaço para prédios com
nomes suntuosos e distantes da realidade, como:
Via Láctea, Antoine de
Saint-Exupéry ou Cambridge. É o progresso que
por meio de seu amigo, o
capital, mobiliza fluxos e
movimentos, nem sempre
positivos.
Certo dia, em um hotel, ouvi o gerente reclamar
que a tentativa de comprar
algumas casas vizinhas
não havia tido sucesso, a
recusa de duas senhoras
que ocupam aquele lugar
– por elas chamado de “lar”
há mais meio século – foram mais fortes que qualquer proposta financeira.
As casas e as senhoras permanecem lá, altivas e de
pé, o projeto do hotel foi
alterado, deixando a obra
em formato de “U”, obrigados a abraçar àquelas casas
que queriam demolir.
Vivemos um processo
de verticalização da cidade
onde a altura dos prédios
parece ser fator importante
para sua propaganda. Andares e mais andares, que
afastam da rua, das pessoas, dos sons. Não à toa
Caxias ostentou por muitos anos “o maior prédio
do Rio Grande do Sul”. Na
prática, morar neste prédio
deve ser algo bem ruim:
somos uma cidade fria e
coberta de névoa boa parte
do ano, os moradores dos
andares mais altos devem
se lembrar do sol de maneira difusa e distante ao
longo do inverno.
Interessante perceber
que muitas dessas novas
construções têm apartamentos com apenas um
quarto, quando não são
todas quitinetes. São as
construtoras que estão determinando a nossa forma
de nos relacionar, nos isolando em pequenas caixas
de sapatos, cada vez mais
apertadas? Ou são eles visionários que constataram
antes de qualquer sociólogo que a solidão é o nosso
futuro?
FOTOS: VAGNER BARRETO
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