Chico César: um artista da música em
estado de poesia
Linaldo Guedes
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Nascido em Catolé do Rocha, em 1964, Francisco César Gonçalves
se tornou um cidadão do mundo. Como cantor e compositor, virou
referência na nova Música Popular Brasileira desde que surgiu na
mídia com o CD Aos Vivos, ao lado de nomes como Zeca Baleiro e
Lenine. Uma música marcada por melodias que “grudam” em
nossos ouvidos e por letras poéticas que encantaram intérpretes
como Maria Bethânia e Daniela Mercury. Para Nara Limeira, por
exemplo, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal
da Paraíba, as letras de Chico César são “poemas, em ritmo,
sonoridade, temática, estilo, enfim”.
O Correio das Artes foi em busca dessa poeticidade de Chico
César, tentar descobrir suas raízes literárias e compreender melhor
sua poética musical. Na conversa, descobrimos que suas primeiras
leituras, que viriam a influenciar o futuro compositor, começaram
ainda na infância ou já na adolescência? Na infância mesmo, relata.
E começaram com os cordéis ou canções do tipo "A canção da
menina morta" ou a "Canção do lenço", que seu pai trazia da feira
aos sábados junto com os alimentos, o fumo e outros víveres. “Nós
morávamos na zona rural, no sítio Rancho do Povo, a quatro
quilômetros de Catolé do Rocha. Ele trazia e eu lia para a família
sob a luz das lamparinas de querosene. Mesmo sendo o filho
caçula, de sete irmãos ao todo, era eu quem lia”, recorda.
Antes, teve as leituras religiosas de sua mãe em latim sertanejo
cheio de "ora pro nobis" e "miserere nobis". Sua mãe lia aquelas
letras miudinhas ou recitava suas litanias: a salve rainha, mãe de
misericórdia, vida doçura, esperança nossa, por exemplo, com "os
filhos de Eva gemendo e chorando nesse vale de lágrimas". “Era
lindo. É lindo: "eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos
misericordiosos volvei, a vós suspiramos...", suspira. Depois, já
adulto, quando leu Dante Alighieri e seu "Inferno" viu que já tinha
algumas ferramentas para encarar aquilo, diz, expondo seu legado:
“Foi o latim de minha mãe semi-analfabeta que me abriu aquelas
portas universais e misteriosas, de fazer medo até”.
Medo que ele não parece ter tido ao descobrir a Literatura.
Descoberta que veio na infância, com os cordéis e as canções e
logo depois no colégio das freiras alemães, onde foi estudar após
ganhar uma bolsa pelo fato de uma tia trabalhar na escola. Foi por
esta época que conheceu os Irmãos Grimm, as fábulas de Esopo,
La Fontaine, e, claro, Monteiro Lobato. Com seis anos, foi para a
escola das freiras, o Colégio Normal Francisca Mendes, antigo
internato para moças das famílias de bem da região. Com oito anos
começou a trabalhar numa loja de discos que era (ainda é) livraria e
foto. Ali, leu de tudo, muito garotinho ainda e sem entender quase
nada: do "Auto da Compadecida" ao "Relatório Hite", passando pelo
"Menino do Dedo Verde", "Meu Pé de Laranja Lima", "De onde vem
os Bebês", "Ubirajara", "Luzia Homem", "Iracema".
“Eu tinha à disposição autores como Guimarães Rosa, José Lins do
Rego, José Américo, Rachel de Queiroz, José de Alencar, João
Cabral de Melo Neto”. È, muitos regionalistas, mas não só. Todos
da José Olympio Editora, da Ática, da Vozes. “Tinha modernistas e
até realismo mágico, o que combinava com a vida comezinha do
sertão e nossas histórias de conhecidos que viraram papa-figos,
outros que se transformavam em lobisomens nas noites de lua
cheia, almas que apareciam nas encruzilhadas. Eu devorava esses
livros da capa ao miolo, passando pela contracapa e as orelhas, e
eles me devoravam por dentro, me tiravam o sono”, relata. Entre o
fim da infância e o começo da adolescência, leu mais romances.
Depois, passou a ler mais poesia e atualmente está na fase de
gostar de ler biografias.
Com tantas leituras, seria difícil apontar um autor que o influencia
na hora de compor suas letras? Chico César mostra que não tem a
angústia da influência e aponta logo Zé Limeira como sua principal
referência. Para ele, o Poeta do Absurdo é uma grande influência,
por resumir a presença do Nordeste desembestado sem pé e sem
cabeça, ou com a cabeça enluarada dos cantadores presepeiros e
sem peias. “Isso dá uma liberdade danada, uma sensação de
estado alterado que pega tudo: do bucolismo de quem vem da zona
rural como eu, passando pelo simbolismo, até o lisérgico mesmo e
todas as nuances do surrealismo. Limeira é dadaísta e constrói tudo
com despedaços, é uma luz e tanto. Limeira é uma boa invenção e
um santo remédio para intuitivos como eu”, teoriza.
Mas suas influências não se restringem a Zé Limeira. Pedro Osmar,
Paulo Ró, Jaiel de Assis, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, a
atriz pornô Cicciolina, Wilza Carla, Odair José, Jomard Muniz de
Brito, Pinduca, Glauber Rocha, Elino Julião, Jimi Hendrix, Nego Lula
que cantava no conjunto Os Mustangs de Catolé do Rocha, a banda
de baile Impacto Cinco do Rio Grande do Norte, o futebol de
Garrincha e Jairzinho, Claudionor Germano, Evaldo Braga e
Mallarmé, entre outros, compõem o caleidoscópio lítero-musical de
Chico César.
E na hora de compor, surge primeiro a letra ou a música? Chico
César afirma que o primeiro aviso é uma coceirinha, que pode vir de
um jeito ou de outro, avisando ou sem avisar. “Às vezes você não
sabe e já está fazendo a música com uma conversa que nada tem a
ver com música, um xaveco, uma discussão de bar, a leitura de
uma placa de rua, uma espécie de soluço que depois vira uma
levada ou um groove como dizem os internacionalistas. Varia
mesmo. Só sei que uma coisa puxa a outra. E às vezes não puxa: o
texto fica só texto, sem música, ou a levada com melodia e tudo fica
sem texto nenhum. Para sempre, ou durante anos, décadas, para
todo o sempre”.
Para sempre seja louvado, como a velha polêmica de que letra de
música não é poesia. Chico César entende que há um lugar que é
só da poesia, da palavra escrita e falada. Música, no seu
entendimento, é som, canção é palavra cantada. Assim, mesmo
que o texto seja bom, a letra, ainda é canção. “Mas há um lugar
comum às duas manifestações, a canção e a poesia: o poético, que
está em tudo e tem mais a ver com a abordagem, um jeito de ver o
mundo e ver-se nele, inserir-se nele pela linguagem. Na verdade,
esse viver poético está, inclusive, em quem não faz e vive a obra
artística e a própria vida por um viés cheio de poesia: o público. A
poesia está em tudo, em todos os lugares, trazendo uma luz
especial ao ambientes. Inclusive fora da arte”.
Chico César vê uma supervalorização da palavra em nossa música
popular, o que faz com que algumas pessoas pensem que uma
canção é boa se a letra for "boa" ou cabeçuda. “Uma canção é boa
quando letra e música casam-se, completam-se e dão conta do
recado. As pessoas que supervalorizam a palavra acabam sem
entender nada da melodia, da harmonia. E de elementos
superimportantes como o ritmo, o timbre. E a performance. A
performance apresenta a canção, a torna presente. É ela, a
performance, que nos dá a sensação de que a música está
acontecendo agora, mesmo que nós já a tenhamos escutado mil
vezes. Creio que sempre haverá as pessoas que fazem belas
canções, com esse espírito de frescor e com letra e melodia que se
completam. Algo que não seja música para leitores de livros nem
para ouvintes de jazz ou música erudita. E há sempre novos
compositores com o pendor da canção, felizmente”.
Na geração atual da Música Popular Brasileira, o paraibano aponta
alguns nomes que produzem composições com forte influência da
literatura. Como Wado, que é um paranaense que vive em Alagoas,
e Jonathas Pereira Falcão, paraibano que lidera o Coletivo Seu
Pereira. Há também, destaca, Dani Black, de São Paulo. “São todos
ótimos fazedores de canção, cancionistas de mão cheia”, elogia.
Diante da pergunta se algum movimento literário brasileiro lhe traz
mais influência que outros na hora de compor suas canções, Chico
diz crer que a poesia marginal deu o último filtro para ele e para a
sua geração: Paulo Leminski, Leila Miccolis, Chacal, Nicholas Behr,
Alice Ruiz e Iverson Carneiro são os nomes citados. “Mas a
literatura de cordel vai pairar sempre sobre mim como uma nuvem
benéfica que me faz chover. Ela me dá base, está na minha infância
e segue comigo. Sou muito influenciado também pela poesia de
paraibanos como Pedro Osmar, Águia Mendes, Bráulio Tavares e
Lúcio Lins. Eu os conheci na adolescência e a partir daí passaram a
exercer grande influência sobre mim”, revela.
E que contribuições movimentos literários como o Arcadismo,
Barroco, Romantismo, Realismo, Modernismo, Concretismo Poesia
Marginal deram para a Música Popular Brasileira? Chico não se faz
de rogado e declara que letristas como Aldir Blanc, Capinan, Noel
Rosa, Waldick Soriano, Vitor Ramil, Texeirinha, Catulo da Paixão
Cearense, Lupicínio Rodrigues, Humberto Teixeira, Ataulfo Alves,
Maysa, Bráulio Tavares, Zé Dantas, José Marcolino, Luiz Tatit,
Itamar Assumpção e Tim Maia deram e dão imensa contribuição a
MPB no sentido de valorizá-la como canção mesmo.
“Mais que qualquer movimento literário, esses e outros autores
espalhados pelo Brasil real e pelo tempo ampliaram o universo da
canção brasileira, mostrando que ela não é uma coisa só. Nem
pode ser. O Tropicalismo, de certa forma, pegou o máximo de Brasil
possível naquele momento e pôs no liquidificador. Isso foi bom. E
depois veio o pessoal do hip hop com o rap, mais na frente
incorporado pelo manguebit. Acho que os movimentos literários tem
sua importância para a literatura, claro. Nem podia ser diferente. A
canção obviamente bebe à seu tempo tanto nas fontes da literatura
quanto nos movimentos da música erudita. Por exemplo: Tom
Jobim é bastante influenciado pela música de Debussy e Vila
Lobos. É parceiro de um grande poeta: Vinicius de Moraes. Mas
será sempre um imenso cancionista por saber que o lugar da
canção é específico e especial, além de ser só dela”, analisa.
Livro de cabeceira, o artista não tem um em específico. “Não sou
uma pessoa de muitas devoções”. Nos últimos tempos, no entanto,
um está sempre ao alcance da mão - o Bhagavad-Gita, por não
conseguir terminá-lo. “Eu sempre leio um capítulo de vez em
quando e vou seguindo. É como construir uma catedral, só que
dentro de mim. Parece que não acaba nunca. É um livro enorme,
com letras pequenas e assunto muito complexo. Então às vezes
volto aos capítulos anteriores. Recomeço”.
Chico César revela que nunca foi um leitor de livros e autores
estrangeiros. “Nunca aprendi direito uma língua estrangeira e vivi
cercado de literatura brasileira na loja em que trabalhava”. Lógico
que havia pelas prateleiras da loja autores estrangeiros, e ele lia
Baudelaire, Mallarmé, Pablo Neruda, Maiakovski. Aliás, diz que uma
coisa meio Che Guevara que há Maiakovski sempre lhe comoveu.
“Na adolescência, e mesmo depois, ele aparece como um herói pra
mim, um herói do lance de poesia junto com vida e transformação
social. Acho que o pessoal da poesia marginal bebe nele, na
atitude, na poesia que fala da transformação e ela mesma é um
pouco instrumento dessa transformação. Bertolt Brecht também,
mas ele parece mais sério, mais "careta" pra criar identificação
assim num adolescente. Ah, claro, eu tenho "meu cashcoeur
mallarmaico"... Também nunca me liguei muito em música
estrangeira, apesar de ouvi-la diariamente na loja e no rádio. Ela
acabou me influenciando mesmo assim”, enfatiza.
Chico César não consegue imaginar que alguém queira ser poeta
quando crescer, principalmente porque, segundo ele, os poetas
estão todos mortos quando somos criança. “Eu queria ser artista de
música, mais do que músico. Queria estar na capa dos discos feitos
aqueles caras de quem eu vendia os discos. Era isso mesmo que
eu desejava ser e comecei a ser desde os 10 anos de idade,
quando entrei no grupo Super Som Mirim de meus amigos Arlindo,
Vanilson, Marcelo e Fernando. Eu nunca quis ser poeta e não sou,
apesar de viver cotidianamente a poesia e de escrever letras de
música com a alma de quem vive assim. Está bem: já publiquei dois
livros de poesia e tem outro a caminho. Mas são livros de poesias
de um não-poeta, de um letrista de música que vive em estado de
poesia”, explica.
Seu poema inesquecível não poderia ser outro – Morte e Vida
Severina, de João Cabral de Melo Neto. Quando tinha 14 anos foi
convidado por amigos, ainda lá em Catolé do Rocha, para integrar o
grupo teatral Chão Pó Poeira, criado e dirigido pelo ator Edilson
Dias. “Com esse grupo nós levamos esse texto em leituras
dramáticas para mercados públicos, escolas e calçadas sertanejas.
Ainda hoje sei trechos de cor. É um poema muito bonito, essencial
para iniciar-se em João Cabral”.
Chico César acredita que fizemos um bom sobrevôo sobre as
relações entre literatura e música. E define: “Creio que a literatura é
importante para a formação de todas as pessoas. Imagino que um
bom médico será melhor se tiver lido e se deixado habitar pela
poesia, pela literatura, o sonho. O mesmo vale para um bailarino ou
um artista de música como eu”.
Esse habitar-se pela literatura está numa música já gravada por
Maria Bethânia, “Estado de Poesia”, que, segundo Chico César,
tem a ver com esta conversa com o Correio das Artes:
“para viver em estado de poesia
me entranharia nestes sertões de você
pra me esquecer da viver da vida que eu vivia
de cigania antes de te conhecer
de enganos livres que eu tinha por queria
por não saber que mais dia menos dia
eu todo me encantaria pelo todo do teu ser
pra misturar meia-noite e meio-dia
e enfim saber que cantaria a cantoria
que há tanto tempo queria
a canção do bem-querer
é belo, vês, o amor sem anestesia
dói de bom, arde de doce
queima, acalma
mata, cria
chega tem vez que a pessoa que enamora
se pega e chora do que ontem mesmo ria
chega tem hora que ri de dentro pra fora
não fica nem vai embora
é o estado de poesia”.
Sobre Chico César
Nascido no município de Catolé do Rocha, interior da Paraíba,
Chico César veio para João Pessoa aos dezesseis anos, onde se
formou em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba. Nessa
época, entrou para o grupo Jaguaribe Carne, o qual fazia poesia de
vanguarda.
Aos 21 anos, mudou-se para São Paulo. Trabalhando como
jornalista e revisor de textos da Editora Abril, aperfeiçoou-se em
violão, multiplicou as composições e formou seu público.
Em 1991, foi convidado para fazer uma turnê pela Alemanha, e o
sucesso o animou a deixar o jornalismo para dedicar-se somente à
música. Formou a banda Cuscuz Clã e passou a apresentar-se na
casa noturna paulistana Blen Blen Club. Em 1995 lançou seu
primeiro disco Aos Vivos e seu primeiro livro Cantáteis, cantos
elegíacos de amizade (ed. Garamond).
Em 2007 participou do filme Paraíba, Meu Amor, do cineasta suíço
Jean Robert-Charrue, cuja música tema é de sua autoria.
Chico César foi presidente da Fundação Cultural de João Pessoa
(Funjope). Desde janeiro 2010 é Secretário de Cultura do estado da
Paraíba e atualmente tem seu nome cotado para assumir o
Ministério da Cultura no Governo Dilma Roussef.
(Matéria publicada no Correio das Artes, encartado no jornal A
União, em novembro de 2014)
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