Diário de Bordo da primeira Caravana do Programa Cultura em Movimento EPITACIOLÂNDIA – CONSTRUINDO UMA IDENTIDADE CULTURAL Dia 14/10 - PRIMEIRO DIA – REUNIÕES E VISITAS A primeira caravana do Cultura em Movimento partiu de Rio Branco-AC às 6h53min com destino à Epitaciolândiauma, cidade com apenas 16 anos, mas com muita história para contar. Epitaciolándia faz fronteira com Cobija, capital do Departamento de Pando na Bolívia. Nosso grupo era composto pelos artistas plásticos Danilo de S´Acre e Darci Seles, pela atriz Carol Di Deus, pela técnica em gestão Deyse Araújo e pelo motorista James da Silva Campelo que nos conduzia em sua Hillux. A ansiedade em chegar ao município era grande. Em nossa rota passamos pelo município de Senador Guiomar às exatas 7h14min. Nossa primeira parada aconteceu às 7h48min no município de Capixaba para comer a famosa coxinha e quibe de arroz com refresco do Restaurante São José. O tempo estava bom e seguimos nossa viagem com tranqüilidade passando também pelo município de Xapuri às 8h50 e chegando em Epitaciolândia às 9h17min. Na chegada ao município fomos recebidos pelo Secretário Municipal de Educação Sr. Cleomar Eduino e pela Coordenadora do Centro de Cultura e Florestania Sra. Cleidjane. O prefeito reeleito Sr. José Ronaldo não pode estar presente devido a compromissos que ele deveria cumprir em Rio Branco, porém os deixou a incumbência de demonstrar que a prefeitura está disposta a apoiar e desenvolver ações culturais no Município de Epitaciolândia. Conversamos longamente sobre os objetivos do programa e da nossa passagem pelo município com a intenção de estreitar os laços entre estado, município e comunidade para o pleno desenvolvimento de ações culturais em nossa região. Falamos sobre a resolução do Concultura que solicita a indicação de dois membros de cada município para auxiliarem no processo de constituição das Conferências Municipais de Cultura preparatórias para a Estadual. Conversamos sobre o indicativo de datas para as Conferências Municipais e também sobre a e produção cultural no município e como a Prefeitura, Estado e Comunidade podem atuar juntas através do programa Cultura em Movimento. Eles nos contaram que as verbas para a Cultura no município são poucas e também os estímulos externos são escassos. Nos falaram que o movimento de quadrilhas é bastante embrionário, mas merece atenção pelo grande potencial, o teatro está se desenvolvendo através de grupos que tem se reunido de forma continuada e que o jovem município de 16 anos possui uma Fanfarra porém, também devido a falta de capacitação de agentes ela tem perdido a força que tinha. Nos informamos também sobre a dinâmica do Centro de Cultura e Florestania de Epitaciolândia que leva o nome de Raimundo Nonato da Rocha um importante ativista cultural da região. Por lá acontecem os cursos de graduação da UFAC em alguns períodos. Após a conversa na prefeitura seguimos para realizar algumas importantes visitas. A primeira parada foi na Escola Estadual Joana Ribeiro Amed. Conversamos com as Sras Cristina, coordenadora de ensino, e Noêmia, coordenadora pedagógica, que contaram das ações desenvolvidas com os alunos e da vontade de reestruturar a fanfarra da escola. Visitamos em seguida a Livraria e Papelaria Alternativa, que existe no município a três meses como representação da Livraria Paim de Rio Branco. Esta livraria encontra-se em um ponto estratégico da cidade, próximo as Secretarias Municipal e Estadual de Educação, a Escola que apresentamos anteriormente e ao Centro de Cultura e Florestania. Após a visita na livraria seguimos para Brasiléia para divulgar nossa passagem pela região na rádio Aldeia FM 90.3. Epitaciolândia não possui ainda uma rádio local e compartilha o sistema de comunicação com a cidade vizinha de Brasiléia e também com Cobija no país vizinho. Após a parada para almoço seguimos para a Secretaria Municipal de Educação onde nos esperava a professora Nilcilene que coordena o ensino nas escolas rurais ligadas ao município de Epitaciolândia. Com ela visitamos duas escolas da região. A primeira a ser visitada foi a escola Santa Terezinha. Lá, conhecemos a professora Jaciane que tem estimulado atividades culturais na escola e se prepara para lançar a primeira Feira da Bugiganga. Essa feira tem o intuito de comercializar produtos produzidos pelos alunos e seus familiares. Nossa segunda parada foi na escola rural Presidente Castelo Branco onde fomos recebidos pelo professor Genésio (diretor da Escola) que nos contou sobre a Feira Cultural desenvolvida na escola que reuniu trabalhos de jovens talentos da região. Pudemos conferir um grande painel que media 3mx2m, confeccionado por um jovem talento chamado Antônio Flávio, aluno da escola, com o apoio de sua professora de Ciências Orlenilda e também diversos quadros que retratavam o folclore da nossa região onde foram explorados materiais retirados da natureza como folhas, galhos, sementes e terra. Retornamos a cidade e visitamos o Consórcio de Desenvolvimento Intermunicipal do Alto Acre e Capixaba – CONDIAC e fomos recebidos pelo Sr. Silton responsável pela instituição, traçamos uma longa conversa, expusemos nossos objetivos com o Programa Cultura em Movimento e ele nos demonstrou seu apoio falando da importância das caravanas e também da urgência de chegarmos a todos os municípios com este projeto. Falou da importância de investimentos em áreas como o Icuriã e também para observarmos as questões inerentes à valorização das comunidades indígenas presentes nesta região. A conversa foi muito proveitosa e nossa equipe saiu estimulada a prosseguir. Nossa próxima visita aconteceu a um artista e estudioso Sr. Lucena que esculpe em madeira, trabalha com papel machê e pinta quadros. Sr. Lucena é carioca, tem 72 anos e veio para o Acre em busca de ser reconhecido pelo seu trabalho que envolve o desenvolvimento de várias teorias baseadas nos hieróglifos egípcios. Uma grande viagem que se pararmos para prestar atenção perceberemos a lógica de suas explicações e teorias e a magia dos seus trabalhos... Seguimos então para a casa do Sr. Francisco Eduino Ferreira Filho de 85 anos, onde fomos recebidos com muito carinho e muitas histórias de onças, cobras, danças, patrões, catraias e saudade... saudade de um tempo de amizades verdadeiras... Seu Francisco chegou à região vindo do seringal Paraguaçú (hoje Assis Brasil) em 1936 e é a história viva de um município novo, onde muitas histórias ainda serão contadas. Saímos de lá abastecidos de muito conhecimento e de uma tamanha alegria. Fechamos nosso dia encontrando o artista, vereador e presidente da Câmara Sr. Raimundo Lacerda que hoje reside no município de Brasiléia e que reviveu para nós antigas histórias de velhos artistas e de como a cultura se movimentava quando ele chegou a nossa região, trazido por um circo. Lacerda, como é conhecido pelos amigos, trabalhou na Fundação Cultural nos anos 80 e chegou à região de Brasiléia-Epitaciolândia para ministrar uma oficina teatro e dali nunca mais saiu. Nosso dia encerrou às 23h15min após muitas histórias, muita conversa e importantes momentos! Dia 15/10 SEGUNDO DIA – OFICINA RODA DAS ARTES O Segundo dia da passagem pelo município iniciou às 7hs da manhã com a entrevista na Rádio Líder FM no programa apresentado por MJ (Esta rádio fica no país vizinho). Este foi um dia de intenso trabalho que gerou propostas e debates sobre a cultura no município de Epitaciolândia. Participaram da oficina um total de 30 pessoas entre produtores, agentes, professores e artistas locais, entre eles Queila Gomes do Grupo de Teatro Juventude Artes e Etc. e Tal, nosso jovem artista Antônio Flávio que veio junto ao seu professor Genésio e Agleison Rodrigues coordenador do Centro de Juventude do Município . O entusiasmo era grande, tanto da nossa parte, quanto dos participantes. A oficina na avaliação de nossa equipe conseguiu cumprir seu papel e trabalhar propostas para a formação, difusão, produção e incentivo à atividades artísticas no município. Nosso encontro seguiu seu roteiro apresentando pela parte da manhã a estrutura da Fundação Elias Mansour, as propostas do programa Cultura em Movimento e organizando grupos temáticos para a dinâmica da tarde. Na parte da tarde os grupos trabalharam na construção de propostas para o seu município e realizaram uma breve explanação para todo o grupo. Após o término da oficina a Conselheira Carolina Di Deus apresentou o Sistema Nacional de Cultura e falou sobre os trabalhos do Conselho Estadual de Cultura – CONCULTURA e da Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour – FEM para a realização das Conferências Municipais de Cultura preparatórias para a Estadual. Leu a resolução do Conselho que visa escolher em cada município dois membros temporários para auxiliar no desenvolvimento desta ação. Após todas as explicações realizamos a escolha de um membro da comunidade ficando o Sr. Luciano Nascimento de Oliveira indicado pela comunidade para representá-los perante o CONCULTURA. Encerramos nosso encontro com uma roda de música e a entrega dos certificados aos participantes da oficina. ASSIS BRASIL – RIQUEZA CULTURAL E DIVERSIDADE Dia 16/10 - PRIMEIRO DIA – REUNIÕES E VISITAS 7h15min saímos de Epitaciolândia em direção a Assis Brasil, município acreano que faz fronteira com dois países Bolívia e Peru. Nossa viagem demorou exatamente uma hora. Chegamos à cidade às 8h15 da manhã e seguimos diretamente para a Secretaria Municipal de Educação onde nos reunimos com a Sr. Angela Araújo Secretária Municipal de Educação, a Coordenadora do Centro de Cultura e Florestania e representante da UFAC no Município Sra.Francisca Gadelha, o Sr. Jerry, locutor e funcionário da Secretaria e a Sr. Ivanir diretora da Escola Iris Célia Cabanelas Zanini. Nossa reunião seguiu o protocolo e conversamos longamente sobre os objetivos do programa e da nossa passagem pelo município com a intenção de estreitar os laços entre Estado, Município e Comunidade para o pleno desenvolvimento de ações culturais em nossa região. Falamos sobre a resolução do Concultura que solicita a indicação de dois membros de cada município para auxiliarem no processo de constituição das Conferências Municipais de Cultura preparatórias para a Estadual. Conversamos sobre o indicativo de datas para as Conferências Municipais e também sobre a e produção cultural no município e como a Prefeitura, Estado e Comunidade podem atuar juntas através do programa Cultura em Movimento. Deixamos todas as informações com a Sra. Angela que se comprometeu em repassá-las ao prefeito e também a prefeita eleita. Informamos também sobre a dinâmica do Centro de Cultura e Florestania de Epitaciolândia que hoje funciona a representação da UFAC no Município com diversos cursos de graduação. Nessa conversa a Secretária confirmou a divulgação da caravana entre os artistas e nos relatou sobre a mobilização para a participação na oficina Roda das Artes. Pedimos que eles indicassem artistas que pudéssemos visitar para conhecer o trabalho e também gente antiga da terra que pudesse nos contar histórias de Assis Brasil. Eles nos falaram sobre os antigos e nos indicaram vários artistas. Após esta conversa seguimos rumo às visitas. Nosso trabalho do dia foi orientado pelo amigo Junior. Junior é artista plástico, representante da AAPA no município e também tocador de violão e teclado. Ele nos contou que desde a visita da Caravana do III Salão Hélio Melo de Artes Plásticas onde ele foi eleito representante da Associação em seu município, ele tem buscado mobilizar seus colegas. Contou também que já possuem um local para constituir sua sede e que muito em breve estarão organizados e representados naquela região. Nossa primeira parada foi na casa do artista plástico H. Corvera que confecciona as próprias molduras das suas pinturas com uma técnica toda especial e acabamento de primeira. Seu Corvera estava viajando, mas fomos carinhosamente recebidos por sua esposa Dona Maria do Socorro que foi logo apresentando e mostrando orgulhosa o trabalho do marido para nossa equipe. Após muita prosa seguimos para a casa de Dona Augusta Veloso de Souza e Seu Raimundo Nonato de Souza, ela com 82 anos de idade e ele com 77 anos. Durante quase uma hora tivemos uma aula sobre Assis Brasil com direito a cantoria e tudo, seu Raimundo além de ser um antigo morador dos tempos do Seringal Paraguaçú era um grande tocador. Cantou muito emocionado uma música em espanhol e outra em português e nos mostrou em seguida orgulhoso exibiu seu retrato de reconhecimento por ser um Soldado da Borracha. Também através de fotos ele e Dona Augusta nos apresentaram seus cinco filhos que criaram sempre com muito carinho e fartura. Dona Augusta foi uma das primeira professoras da região. Contou-nos que seu conhecimento foi aprendido aos poucos com a ajuda de professoras que passavam pela região, mas que pouco ali permaneciam. Ela ensinou a muitos dos professores que lecionam hoje na região e segundo ela, suas aulas eram recheadas com o aprendizado de trabalhos manuais, ela além de professora é uma excelente costureira. A vontade de ficar ouvindo mais e mais histórias era grande, mas, nos despedimos do casal e de sua família e seguimos para conhecer Josafá, sua esposa e seu filho. Josafá é artesão veio de São Paulo e pesquisa materiais da região. Foi oficineiro do Projeto Taboca onde multiplicou seu conhecimento e prática na confecção de móveis de bambu. Nosso artesão também trabalha com marchetaria e faz belíssimos trabalhos com retalhos de madeira. Após breve pausa para almoço, seguimos para o país vizinho onde participaríamos de uma entrevista no programa de rádio apresentado por Zé do Baguel, porém chegamos por lá e estava faltando energia e a agenda teve que ser cancelada. Aproveitamos para conhecer um coreto pintado por H. Corvera que é peruano, casado com Dona Socorro e que mora em Assis Brasil. Retornamos para Assis Brasil e visitamos outro artesão chamado José Marinho que aprendeu sozinho a confeccionar miniaturas de barcos, batelões, garças e cobras utilizando como matéria prima o algodoeiro. Sua esposa mediou à conversa porque nosso artista é deficiente auditivo mas ele participou com entusiasmo da conversa e nos mostrou fotos de sua produção. Ela nos contou que José desde pequeno trabalha esculpindo na madeira do algodoeiro. Contou também das técnicas que ele vem testando para fazer durar seus produtos. Enfim, esse trabalho nos encantou de tal forma que levamos toda a produção do artista conosco. Nossa próxima parada foi na praça central onde encontramos muita gente especial a começar pelo Sr. Joatam de 86 anos e sete meses, como ele mesmo diz que foi pracinha, lutou na Segunda Guerra, onde ficou no front durante quatro meses, e após retornar ao Brasil seguiu para o Acre trabalhar com a Seringa. Conhecemos também Seu Antônio Camelo sanfoneiro que animava os bailes da cidade e também seu Cirilo, Seu José e outros tantos senhores que nos animaram com suas histórias de antigamente. Pedimos para ouvir alguma cantoria e eles nos fizeram outro pedido o de reunir outros senhores que também tocam na cidade para fazer a cantoria. Encontro marcado. Fomos atrás de reunir os outros tocadores para nossa cantoria marcada para o fim do próximo dia. Encerramos nosso dia comendo pizza no Peru. Lá, encontramos o fotógrafo Jivago que nos mostrou o belíssimo catálogo lançado pelo SEBRAE sobre o artesanato acreano. Dia 17/10 - SEGUNDO DIA – OFICINA RODA DAS ARTES Chegamos bem cedo no Centro de Cultura e Florestania às 8hs. Quando começaram a chegar os primeiros participantes tudo já estava preparado para iniciar. A oficina teve poucos participantes, mas todos muito interessados e participativos. Estiveram conosco três artistas plásticos, a diretora da Escola Irís Célia Cabanelas Zanini, integrantes da fanfarra, alunos de arte que tem se articulado para a formação de um grupo de teatro no município, nosso amigo locutor Zé do Baguel e a Secretária de Educação do Município totalizando 13 participantes sem contar os funcionários do Centro que estiveram conosco durante todo o dia dando suporte às atividades. A oficina cumpriu o roteiro de apresentações previsto pela parte da manhã e na divisão de grupos optamos por criar um único que problematizasse os quatro eixos identificando o problema central e organizando propostas de melhoria para o município. Para nossa surpresa, ainda não havíamos apresentado o Plano Nacional de Cultura, mas o grupo destacou a urgente necessidade da criação de um órgão municipal que represente a cultura de Asssis Brasil. Outros pontos de destaque levantados apontaram a falta de estímulo aos artistas não só de verbas, mas principalmente de valorização do fazer artístico. Segundo a artista plástica Eliene Rodrigues ela demorou muito para conseguir mostrar seus trabalhos pela crítica que recebia em relação ao seu ofício, considerado pelos amigos e próprios familiares “coisa de quem não tem o que fazer’’. Destaco também a discussão sobre organização de Associações e Entidades representativas que segundo o grupo é uma coisa extremamente urgente e necessária para que a classe possa opinar, participar, propor e cobrar ações dos governos. Após apresentação dos problemas e propostas do grupo partimos para a apresentação do Sistema Nacional de Cultura e como sentimos que aquele grupo era pequeno, mas representativo iniciamos o processo de escolha do Membro Temporário para o Conselho Estadual de Cultura. Lemos o regulamento e escolhemos um Presidente e um Secretário para organizar o momento. O processo era simples ou a própria pessoa manifestava interesse pela candidatura ou era indicada por uma outra pessoa. Quando o presidente abriu para indicações a professora Ivanir Oliveira de Lima foi indicada pela artista plástica Eliene Rodrigues esta indicação foi apoiada por todos os presentes que defenderam a participação dela no Conselho por ser uma grande incentivadora da cultura no município e articuladora da Feira Cultural que após seis anos de existência tem deixado de acontecer por falta de incentivo financeiro. Como a professora é Diretora de uma Escola e nesta condição deveríamos consultar o Conselho se ela poderia ser a representante comunitária elegemos uma suplente que fará às vezes em caso de impedimento, ficou eleita como suplente Thammara Silva Gonçalves. Após a escolha finalizamos os trabalhos do dia agradecendo todo o empenho do grupo, a Secretária Municipal de Educação também falou ressaltando que agora, no final dos trabalhos todos eles puderam perceber a importância do programa para o nosso Estado e reforçou que se empenhará sempre em divulgar as ações e estimular a participação da comunidade! Mas nosso dia não terminou por aí, no dia anterior tínhamos marcado um encontro na praça com o Sr. Antônio, o seu Joatam, seu Cirilo e os tocadores. Eles nos receberam com xote, vaneirão e muita alegria. E assim nos despedimos de Assis Brasil. ICURIÃ – 30 ANOS DE HISTÓRIA PRA CONTAR Dia 18/10 - PRIMEIRO DIA – UMA NOVA DINÂMICA Partimos de Assis Brasil às 8h30min a caminho da Reserva do Icuriã, localizada a 74KM do nosso ponto de partida. Foram duas horas e meia de ramal até chegar à reserva. Fizemos uma ótima viagem, a estrada estava seca com alguns pontos de atolamento. Fomos acompanhados por um batedor enviado pela Secretaria Municipal de Educação que nos guiou até a última bifurcação do ramal. Nossa equipe ficou maravilhada com a bela paisagem composta por plantas das mais diversas espécies, pássaros, calangos, macacos. Na chegada fomos recebidos pela Dona Oscilene, pelo Seu Francisco, que há 10 anos coordena o Centro de Florestania e pelo Totozinho que latia sem parar pra gente. Eram 11 horas da manhã e já chegavam as primeiras famílias, das 30 que residem na reserva para participar do nosso encontro que começaria às 14 horas do horário do Icuriã. Francisco nos explicou que eles não adotaram a mudança e continuam acompanhando o horário antigo. Acertamos nossos ponteiros e seguimos para preparar a dinâmica que teve um desenvolvimento todo especial. Após pausa para almoço e breve cochilo iniciamos nossa reunião com as famílias. Primeiro aconteceu um cadastramento que enfocou dados como nome completo, data de nascimento, ofício, quanto tempo reside no local e qual o principal problema que a reserva enfrenta. Levantados os dados iniciamos nossa conversa falando sobre cultura e sobre comportamento, culinária e modo de produzir presente na reserva. Durante essa conversa descobrimos muitos talentos, uma contadora de histórias chamada Maria das Dores, a Doda de Sena Madureira; o professor José Francisco, o Quinha, que toca violão e já possui 36 composições de sua autoria, também seu João Batista, ou Doca como é conhecido, que nos contou muitas histórias da região enfim... e todos os moradores que participaram com muito entusiasmo e alegria. Nossa conversa seguiu no rumo de identificarmos que tipo de atividades poderíamos levar para a reserva que estimularia os talentos já existentes e os capacitasse para serem multiplicadores. Descobrimos que ali todos se tratam por apelido e então, fizemos uma roda de apresentação onde todos diziam seus apelidos e quem os colocou, foi uma farra! Depois pedimos para que nos apresentassem algumas músicas e todos começaram a lembrar de músicas compostas pelos moradores do local. Quinha buscou seu violão e tocou uma de sua autoria. Após a cantoria ouvimos seu Doca contar como tudo começou por ali e de como ele chegou mais a sua família naquela região. Segundo seu Doca numa noite de festa no interior do Rio Grande do Norte em meados de 1910, quando ainda nem se falava em Amazônia seu tio declarou estar partindo para aquela região, montou num burro com a roupa do corpo dizendo estar a caminho do Seringal Guanabara. A família só teve notícias novamente do tio em 1942 quando voltou rico e Coronel, como disse ele. Em 1952 esse mesmo tio mandou buscar 79 pessoas para trabalhar no seringal, seu Doca nessa época era meninote e seguiu com o pai, sua mãe e seus mais de oito irmãos. Esses migrantes ocuparam os antigos seringais Petrópolis e São Francisco e a colocação Bom Sucesso que, segundo seu Doca, hoje constituem a grande Reserva do Icuriã. Conta seu Doca que esse tio morreu cedo antes dos 70 anos e que seus filhos não conseguiram tocar os negócios pela falta de experiência. Nessa época já se produzia no local, além da borracha o que eles chamam de produto branco (arroz, feijão e farinha). No final dos anos 70 seu Doca nos contou sobre a chegada das freiras italianas, ele não lembrava o nome da congregação, elas passaram dois anos e meio realizando trabalhos de evangelização e segundo os moradores foram elas que incentivaram a formação da Associação Icuriã que naquele dia completava 30 anos de existência. Elas tiveram papel fundamental no processo de organização dos moradores da reserva emprestando inclusive dinheiro para a abertura da cooperativa de moradores do Icuriã. Hoje o local se auto-sustenta com sua própria produção que também é comercializada pelos moradores que vendem o produto branco na região vizinha. Tivemos a sorte de provar o arroz, o feijão, a farinha e o queijo produzidos por eles e, diga-se de passagem, tudo é muito saboroso. Outro fato importante que Seu Doca nos contou é que o primeiro empate aconteceu ali entre seringueiros e sulistas que queriam se apossar da região. O caso foi parar no quartel de Assis Brasil. Segundo Seu Doca, não houve mortes porque as freiras interferiram na situação. O desfecho foi o juramento dos sulistas de que não se apossariam daquela região. Foram muitas histórias contadas pela visão do Seu Doca, morador mais antigo da Reserva do Icuriã. Depois de muito aprender mostramos para eles o vídeo do Hélio Melo com lendas e histórias do nosso múltiplo artista. O encanto foi geral. Enquanto o filme passava corri pra me trocar e quando voltei todos se assustaram era a Sinira que entrava com seu guarda chuva molhado espirrando água por todo o lado. Fechamos o dia com muitas histórias, música e alegria. A saudade do Icuriã já é grande! Neste dia dormimos cedo era nossa intenção pegarmos a estrada cedo. Para uns a noite foi tranqüila e para outros já nem tanto... Dia 18/10– CINCO HORAS E MEIA DE RAMAL Nossa equipe acordou por volta das seis e meia da manhã e caia uma chuva fina que era o suficiente para melar o ramal. O chuvisco durou cerca de uma hora. Por volta das sete o tempo estabilizou, aguardamos mais uma hora para ver se ele firmava de vez e por volta das nove horas da manhã tentar atravessar o ramal. Foi aí que começou nossas cinco horas e meia de aventura. A estrada estava escorregadia e caminhávamos a aproximadamente 20 km por hora entre curvas e barrancos e a mesma paisagem que tanto nos encantou na chegada agora nos deixava tensos e apreensivos. Com mais ou menos uma hora de ramal fizemos uma curva e o carro derrapou caindo em uma ladeira. Quanto mais tentávamos tirá-lo de lá mais ele caía. Foi quando resolvemos dividir o grupo. Carol, Darci e Deyse saíram à procura de ajuda e Danilo e James continuaram na tentativa de desatolar o carro. Caminhamos 30 minutos no ramal que cortava a mata fechada e nada de chegar a algum lugar, decidimos então voltar e ficar com nossa equipe até que passasse ajuda. Enquanto caminhávamos Danilo e James conseguiram subir com o carro na ladeira. Santo motorista, Santo Danilo e Santa Hilux... Continuamos a viagem no clima de tensão, cada curva era um frio na barriga, ninguém falava nada e permanecemos por muito tempo calados e somente com os nossos pensamentos. Foram quase duas horas assim e mais alguns percalços no caminho. No final da viagem o ramal começou a melhorar, casas começaram a aparecer e após nossas cinco horas e meia comemoramos a chegada na alfândega Brasil-Peru. Seguimos rumo a Rio Branco e chegamos ao nosso ponto de partida às exatas sete horas e quarenta minutos. Diário de Bordo escrito por Carolina Di Deus Colaboradora: Deyse Araújo Equipe: Darci Seles, Danilo de S´Acre e James Campelo CIDADE EQUIPE EM VISITA VISITA A PREFEITURA E PRODUTORES LOCAIS DATA DA OFICINA Epitaciolândia Carol Di Deus, Deyse, Darci e Danilo 14/out 15/out Assis Brasil Carol Di Deus, Deyse, Darci e Danilo 16/out 17/out Icuriã Carol Di Deus, Deyse, Darci e Danilo //// 18/out Acrelândia Assis Pereira, Luciana Abreu, Dalmir Ferreira e Rubisclei 21/out 22/out Capixaba Assis Pereira, Luciana Abreu, Dalmir Ferreira e Rubisclei 23/out 24/out Porto Acre Assis Pereira, Luciana Abreu, Dalmir Ferreira e Rubisclei 28/out 29/out Bujari Assis Pereira, Luciana Abreu, Dalmir Ferreira e Rubisclei 30/out 31/out Mâncio Lima Carol Di Deus, Alba de Castela, Cleber Barros, Karla Martins e Charles André 20/out 21/out Rodrigues Alves Carol Di Deus, Alba de Castela, Cleber Barros, Karla Martins e Charles André 22/out 23/out Cruzeiro do Sul Carol Di Deus, Alba de Castela, Cleber Barros, Karla Martins e Charles André 24/out 25/out Porto Walter Carol Di Deus, Alba de Castela, Cleber Barros, Karla Martins e Charles André 27/out 28/out Marechal Thaumaturgo Carol Di Deus, Alba de Castela, Cleber Barros, Karla Martins e Charles André 29/out 30/out Jordão Carol Di Deus, Karla Martins e Manoel Luiz (Assis Pereira ou Daniel) 3/nov 4/nov Santa Rosa do Purus Carol Di Deus, Karla Martins e Manoel Luiz (Assis Pereira ou Daniel) 5/nov 6/nov Manoel Urbano Carol Di Deus, Karla Martins e Manoel Luiz (Assis Pereira ou Daniel) 7/nov 8/nov