História de uma pesquisa que também é a história de um filme
Sheila Ramos da Silva1
Resumo
Este trabalho busca apresentar a história da produção do documentário intitulado
de: Lendas urbanas, contos e assombrações. O documentário representa o método da
realização de uma pesquisa etnográfica, constituindo-se também como parte integrante
da pesquisa monográfica, pois através das narrativas apresentadas no registro audiovisual
viu-se a necessidade do registro na forma textual.
Através do documentário foi possível a compreensão das histórias assombrosas
não somente como compartilhamento de experiências, mas também de sentimentos de
união, respeito e descontração. As potencialidades levantadas pela obra nos faz refletir as
histórias enquanto elemento agenciador de sociabilidade entre parentes, vizinhos e
amigos que se encontravam a noite nas calçadas dispostos a manterem esse intercâmbio
de astúcia.
Com histórias como perna cabeluda e fogo próximo ao rio Mucambinho, no
bairro Padre Palhano, na cidade de Sobral, Ceará, foi possível imaginar a construção de
um documentário, apresentando as histórias conforme as memórias dos moradores do
espaço. Ao realizar mais conversas com os habitantes, a proposta ganhou consistência,
envolvendo o bairro conhecido por Santa Casa.
Realizando o curta, íamos descobrindo mais entrevistados e histórias,
possibilitando utilização de efeitos visuais que permearam uma estética ao documentário.
A pesquisa etnográfica realizada com o documentário ganhou a proporção de um trabalho
monográfico. Este, fator motivador também da elaboração do projeto de mestrado.
Portanto, com a pesquisa antropológica voltada para o audiovisual como forma
de registro de memórias e vivências cotidianas dos moradores dos bairros sobre as
histórias assombrosas, vemos como estas se mantém como foco de resistência ao
individualismo e a violência urbana, impedindo com que as práticas de partilha de
sentimento e experiências tenham sidas enfraquecidas diante do contexto em que as
histórias eram mencionadas.
1
Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e Mestranda
em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Assim, busco apresentar os fluxos e contrafluxos das narrativas contidas nas
histórias, ressaltando aspectos socioculturais e espaciais no qual as histórias acontecem
ou aconteceram.
Palavras-chave: Histórias assombrosas; Pesquisa etnográfica; Produção audiovisual.
Considerações iniciais
O documentário Lendas urbanas, contos e assombrações2 foi realizado a partir
de minha participação em um projeto de Iniciação Científica, no período em que fazia
graduação em Ciências Sociais. O projeto do qual me refiro possui o título de: “Cidade,
bairros e memória: percepção espacial e histórias da cidade de Sobral/ CE contada por
seus moradores” (PIBIC/CNPq/UVA).
Além desse projeto, o documentário teve apoio do edital “Memórias, bairros e
cidades possíveis: narrativas e imagens” aprovado no edital MCTI/CNPq/MEC/CAPES
no 18/2012. A pesquisa contou também com o auxílio do programa de extensão
“Visualidades: identificação e registro audiovisual para preservação do patrimônio
cultural da cidade de Sobral/CE”. Todos esses editais foram aprovados pelo mesmo
professor, Dr. Nilson Almino de Freitas.
O objetivo mais amplo dos projetos acima citados é conhecer outras versões do
patrimônio cultural não contemplados pelo tombamento da cidade como patrimônio
Histórico Nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN
em 2000. O discurso que fundamenta e justifica o processo de tombamento está contido
no documento enviado ao IPHAN batizado de Processo de Instrução apresentando a
cidade com características marcantes como o pioneirismo, a independência social,
política e econômica com relação à capital estadual. Segundo Freitas (2010) esse
argumento de que a cidade apresenta a sobralidade com características exclusivas,
independentes e autônomas, tende a serem imperativas e categóricas, a partir de um
2
O documentário Lendas urbanas, contos e assombrações foi produzido no ano de 2013 tendo
como diretora Sheila Ramos da Silva e como diretor de produção Nilson Almino de Freitas. Neste
apresentamos o depoimento de quatro moradores da cidade de Sobral a respeito das histórias assombrosas
e discutimos as implicações sociais e culturais da contação de histórias. O documentário está disponível
em: https://vimeo.com/87463437.
parecer técnico que tende a desconsiderar a diversidade cultural local, especialmente
aquela localizada nos bairros periféricos.
Por meio desse discurso observamos que os principais envolvidos no processo
de construção da cidade, especialmente aqueles que moram nos bairros periféricos, não
foram ouvidos.
Com essas considerações, a equipe dos projetos citados (orientador e bolsistas)
acredita que é necessário ouvi-los sobre o que tem a acrescentar para conhecer a história
da cidade e avaliar com eles o que merece ser reconhecido como patrimônio cultural.
Não se afirma na pesquisa que a versão oficial enviada ao IPHAN esteja incorreta, mas
sim que pode haver outras formas de pensar o patrimônio.
Diante disso, nós bolsistas (no caso eu e Clarisse Mendes3) fomos direcionadas
para bairros periféricos da cidade para a busca de possíveis narradores que pudessem
enriquecer, com suas experiências, os modos de percepção sobre a história do espaço
em que vivem, enriquecendo assim, a história da cidade. Os articulistas, como dito,
iniciaram a reflexão sobre as histórias assombrosas no bairro Padre Palhano.
O bairro Padre Palhano, de acordo com o documento de territorialização
realizado pelos profissionais de saúde da família em 2008, localiza-se na porção sul de
Sobral, limitando-se com os bairros Sumaré e Dom José. Está entre a Av. Senador José
Hermínio de Moraes, baixa das Carnaúbas e BR 222.
Diante de tais fatos, além de ir à busca dos possíveis narradores, nós (bolsistas)
tinha também como objetivo à produção de um documentário sobre algum tema que
envolvesse o bairro, pois é comum cada bolsista de Iniciação Científica produzir um
curta-metragem no espaço em que estuda. A pesquisa considera o método videográfico
como um modelo em que também é possível o registro das atividades cotidianas que
expressam percepções sobre o espaço e sobre o tempo.
Foi nesse contexto mais amplo descrito que o objetivo de analisar as histórias
assombrosas surgiu. Vale a pena detalharmos melhor esse acontecimento.
Primeira vez que ouço
3
Clarisse Mendes de Sousa também era bolsista de Iniciação Científica e integrante do mesmo
projeto que fiz parte. Nós duas fomos designadas aos bairros periféricos da cidade. Fiquei responsável pelo
bairro Padre Palhano e ela por Tamarindo. A bolsista me acompanhou nos primeiros meses e compôs a
equipe de produção do documentário.
Ao iniciar os estudos no bairro Padre Palhano foi adotado como estratégia para
reconhecimento do lugar e das pessoas que habitam o espaço o acompanhamento com as
agentes comunitárias de saúde durante as visitas. A partir delas, pude ir estabelecendo os
primeiros contatos. A escolha desse mecanismo ocorre pelo fato de elas serem moradoras
do espaço e por manterem relações com os moradores do local.
Passei aproximadamente cinco meses na companhia delas. Saíamos (eu e
Clarisse) com agente de saúde diferenciada em cada dia da semana. Nesses momentos
de visitas íamos sendo apresentadas como pesquisadoras aos moradores. As agentes falam
sobre a tarefa que tínhamos na busca por moradores que se dispusessem a complementar
a história da cidade a partir da perspectiva temporal e espacial do ambiente em que se
situam.
A cada manhã acompanhava uma agente de saúde, mas na manhã do dia 24 de
outubro de 2012 ao sair com a agente Raquel tive uma das manhãs mais produtivas tanto
na pesquisa do projeto de Iniciação como no futuro trabalho que iria ser realizado sobre
as histórias assombrosas. Foi nessa manhã que ouvi as primeiras histórias que se
passavam no espaço no qual estava pesquisando.
Ao andar pelas ruas, Raquel e eu, íamos conversando sobre diversos temas. Foi
quando ela me questionou se eu já tinha ouvido falar sobre as lendas que envolviam o
bairro. De imediato respondi que não, e fiquei curiosa para saber quais eram. Raquel
começa a me contar sobre a história de uma perna cabeluda que circulava pelas ruas do
bairro. As mães moradoras do espaço, contavam para os seus filhos como forma de impor
medo e fazer com que eles ficassem comportados.
No decorre do discurso Raquel me falava sobre a história da porca com corrente.
Esta seria um homem transformado em porca que sairia também pelas ruas em busca de
amedrontar as pessoas que o vissem. Além dessa história há também sobre a de um fogo
que percorria um rio que há no bairro, o rio Mucambinho. Neste havia um fogo que
impossibilitava os transeuntes irem de um lado para outro. Segundo Raquel ninguém
sabia como o fogo surgia, já que se tratava de um local que havia água.
Com o detalhamento dessas histórias apresentei curiosidade e ficava envolvida
com as histórias mencionadas. Em vista disso, coloquei essa experiência de campo no
relatório semestral do projeto de Iniciação Científica e com a observação do orientador
do projeto surgiu a discussão de transformamos o tema sobre histórias assombrosas em
documentário.
Começando os trabalhos
Durante a semana escolhíamos um dia para nos reunirmos e discutirmos assuntos
referentes ao projeto. Líamos textos, assistíamos documentários e numa dessas reuniões
em que estavam presentes as bolsistas de pesquisa e o orientador do projeto começamos
a discutir sobre a possibilidade de fazer o documentário. Vimos alguns vídeos na internet
que pudessem nos auxiliar na elaboração do pré-roteiro.
Ao descrevermos o que iria compor a primeira cena pensamos em colocar
imagens de um quadro de um programa de televisão que trabalhava com o tema lendas
urbanas. Contudo, apesar de termos algumas histórias que foram mencionadas por Raquel
ficava vago, necessitando de mais detalhes e de mais entrevistados. Com esse fato,
tivemos que retornar a campo para conseguir mais narradores.
Ao ir em busca de Raquel para saber se ela aceitaria marcar uma entrevista para
participar do documentário, encontramos no caminho mais duas agentes comunitárias de
saúde e pergunto se elas haviam visto Raquel. Ambas respondem que não e ao perguntar
sobre o que queria com ela, falo sobre a possibilidade de marcar uma entrevista para um
documentário que trataria de apresentar histórias de terror. Com minha fala elas se olham
e começam a rir e simultaneamente me falam sobre as histórias que já ouviram ser
comunicadas.
Nesse momento, encontro uma das entrevistadas do documentário, Ruthnéia
Pinto. Ela de início mostrou receio ao ceder uma entrevista na linguagem audiovisual,
temia que o público a ridicularizasse e interpretasse suas histórias como falsas e
mentirosas. Houve todo um processo de convencimento para conseguir essa entrevista.
Inclusive, foi uma das dificuldades enfrentadas durante todo o processo de produção do
documentário.
Em outros momentos anterior a entrevista Ruthnéia, em conversas informais ela
me fala sobre pessoas conhecidas que poderiam me ajudar na produção do documentário.
Eram seus antigos vizinhos, estes moram em outro bairro da cidade, chamado Santa Casa.
Com suas indicações fui a procura dessas pessoas.
Com essa situação, a pesquisa não ficou limitada somente aos moradores do
Padre Palhano. Houve uma junção, e até mesmo, complementação das histórias relatadas
anteriormente. Algo positivo, já que seria mais proveitoso explorar as histórias
assombrosas a partir do ponto de vista dos moradores da cidade de Sobral, mais
especificamente dos bairros periféricos da cidade, apesar de não ser objetivo encontrar
histórias que são exclusivas da periferia.
No bairro Santa Casa encontrei uma amiga de Ruthnéia que foi mais uma das
narradoras no vídeo - Dona Maria Furtado - do total de quatro pessoas. Além dela fui em
busca de outros conhecidos da ex-moradora do espaço. Essas pessoas também
apresentaram medo ao dar a entrevista e não consegui convencê-los. No entanto, também
fui indicada por estes a procurar outros moradores do local que poderia contribuir.
Em meio a essas dificuldades já estava perdendo a esperança de conseguir mais
entrevistados nesse bairro. Foi quando ao conversar com uma senhora sobre o que estava
tentando encontrar, ela começa me contar de seus afazeres diários e ao irmos à cozinha
em que ela desejava me mostrar as gorduras que utiliza para fabricar sabão conheço seu
esposo, o senhor José Osmar, mais um entrevistado.
Já tínhamos assim três narradores, ainda assim havia necessidade de mais
pessoas. Fomos em busca no bairro que Clarisse pesquisava (Tamarindo). Entretanto, não
encontramos. Continuei a procura no bairro Padre Palhano, onde lá encontrei mais uma
narradora, Dona Maria Calixto, responsável pelas inúmeras histórias que nos fazem rir.
Com seu jeito brincalhão desenvolvemos no documentário efeitos especiais sobre as
histórias mencionadas. Vale salientar que muitos dos efeitos utilizados foram usados com
o devido cuidado para não causar ridicularização perante os entrevistados, logo a ênfase
maior é fazer com que o público perceba que o nosso intuito é apresentar a visão que os
moradores possuem frente a experiências com as histórias assombrosas.
Diante dessas descrições, vemos sucintamente como cada contato foi
estabelecido com os narradores do documentário e como o processo de pesquisa foi sendo
estruturado. Agora passemos a analisar o conteúdo transmitido pelos entrevistados e
aprendizados que obtivemos com a produção da obra audiovisual.
A produção do documentário e sua importância para a pesquisa
Tomando conhecimento de mais histórias íamos observando como cada narrador
transmitia as histórias de acordo com a experiência que tinha, seja do lugar onde moram
ou moravam, em temporalidades bem situadas e distintas. O que contribui para entender
que a percepção dos narradores diante das histórias assombrosas é influenciada pelos
hábitos e comportamentos praticados nos diversos lugares e tempos nos quais mantiveram
relações.
A primeira entrevista feita para o documentário, confesso que foi uma das mais
reveladoras durante o processo de pesquisa, porque Ruthnéia além de contar as histórias
das quais tinha ouvido falar e até mesmo as que havia sido testemunha, fez uma reflexão
sobre como essas eram comunicadas no tempo em que era possível uma maior
solidificação dos laços, onde segundo ela havia mais respeito e amor entre as pessoas,
visto que era possível sentar na calçada e ficar horas conversando de forma tranquila. Um
dos motivos associados a perda das histórias agenciadas pela transmissão oral nos bairros
estaria relacionada a violência. Vejamos o que a entrevistada fala:
era a minha mãe que contava e assim também quando a gente ficava num
grupo de amigo. Assim elas começava a contar e a gente ficava contando
uma... Aí tinha uma senhora que ficava também que morava perto da minha
mãe e sempre contava e a gente ficava à noite sentado no terreiro da casa
dela. Assim da casa dela é porque mudou né? O tempo mudou as coisas
mudaram não é porque as coisas não é mais como era a gente ficava sentada
lá no terreiro. As brincadeiras... aí não são mais como era as brincadeiras
de hoje aí a gente ficava brincando até tarde, de bola, de pega-pega. Aí
quando era na época das fogueiras. A gente ficava ao lado da fogueira aí
elas ficavam contando, ficavam contando, era bom. (FERREIRA, 2013).
Em outra entrevista Ruthnéia comenta sobre a falta de união entre as pessoas por
causa da violência:
Assim o desamor que está muito grande entre as pessoas. É a violência
também acho que não tem mais respeito entre pai e mãe, os irmãos não tem
mais aquela história de ver um irmão sentado conversando o que você vê
é só os irmãos brigando se matando. É a filha brigada com a mãe, com o
pai. Ai eu acho que com o tempo assim acho que também o mundo tá
mudando ou são as pessoas que tão mudando, e eu acredito assim também
que as pessoas a maioria não tem. Mais fé em Deus não é mais. Eu acredito
assim que não é como era mudou demais. Eu acho assim, que as histórias
unem é um momento de descontração, um momento de brincar, você
contar suas experiências. (FERREIRA,2013)
Anterior a essa entrevista, pensávamos que iria somente registrar as narrativas.
Contudo, fomos apreendendo que não se trata somente de uma reprodução de histórias.
Vai mais além, há uma associação destas com os momentos de lazer, de encontro e de
partilha de sentimentos como os de amor, união, descontração, entre os ouvintes e os
contadores.
Uma informação importante que merece ser destacada é que durante as
gravações assim quando era possível sermos acompanhadas do orientador do projeto
utilizávamos duas câmeras: uma para o primeiro plano, que ficava parada e uma segunda
câmera em que era possível mover, onde esta seria utilizada para dar uma dinâmica ao
filme, capturando imagens das mãos e pés que seriam os detalhes mais subjetivos, pois
entendemos que estes gestos também fazem parte da emissão de algum sentido durante o
discurso do entrevistado. Servem também como modo de se comunicar.
Além desses recursos captamos o áudio tanto pelas câmeras como pelo gravador
digital através da utilização do microfone lapela. Uma das coisas mais difíceis em um
documentário é a captação do áudio, principalmente quando se trata de fazer gravações
em ambientes abertos.
Com as dificuldades algumas vezes assumia o papel de pesquisadora e de
cineasta capturando imagens como, por exemplo, na entrevista que fiz com Dona Maria
Furtado onde gravava e realizava as perguntas simultaneamente, pois nem todos os
membros da equipe do documentário conseguiam se fazer presente. Isso me faz lembrar
do que nos fala Comilli (2009) sobre a facilidade que atualmente o antropólogo tem de
conseguir ser um antropólogo-cineasta.
Com essas considerações, tínhamos em mente apresentar as histórias a partir do
ponto de vista dos moradores do espaço, já que eles situavam as ruas em que as histórias
se passavam e até mesmo os personagens que na maioria das vezes eram seus vizinhos.
Analisemos uma das histórias relacionadas a rua do bairro em que a entrevistado mora e
identifica seu vizinho como protagonista da história:
Aí o papai sempre dizia pra mim, meu filho sempre acontece esse vizinho
que mora “acolá” lá em baixo chamava João Rufi, chama João Rufi, sendo
que ele era casado tinha uma família aqui embaixo. Aí ele tinha o pai dele,
ele morava aqui, mas o pai dele morava lá na beira depois do Coco Loco.
O pai desse velho, João Rufi, morava lá chamava Mané Rufi morava mais
em cima da nossa casa. Aí o papai... rapaz esse cara vira bicho o João Rufi.
Aí o pai dele aí, eu digo vira bicho mesmo papai?. Vira! É porque eu
novinho com dezesseis anos de idade. Aí eu disse papai o seguinte: Quando
esse filho dele passar aqui no rumo debaixo virado bicho você me chama.
Eu quando tinha os cachorros grande lá em casa, os cachorrão grande,
começava a latir. Aí o papai disse: Rapaz lá vem ele. Aí abria a porta e
ficava na calçada. Aí ele passando vinha os cachorro pra cima dele, aí saia
as orelha dele bem grandona parecia assim um bezerro sabe. Aí saia os
cachorro botando nele, aí dava chibatada no cachorro. Ele se mandava aí
foi passando. Aí o papai disse assim, olha ele ali vira bicho também o pai
dele morava do Coco Loco pra lá, umas seis casas mais ou menos aí tinha
outro irmão dele chamava Capuxi. Sabe que nós morava lá pra banda da
estação, pra acolá. Esse velho, Mané Rufi quando o filho saia, isso era só
de quinta para sexta isso aí sabe é de quinta para sexta. Quando o filho dele
saia para namorar com uma moça que estava lá. Aí o velho ia lá, ele ficava
lá esperando. Ele lá, acolá para baixo na estação vira bicho lá, aí ficava lá.
Quando eu vinha embora para casa aí o filho dele, rapaz aquele bicho atrás
dele e ele eu olhava para o filho dele que chegava estava dentro de casa. O
velho, pai dele aquele bicho ele não sabia que era o pai dele passava pelo
oitão da casa, ia para de trás da casa ficava bem de trás, ali perto da
estação... ali a linha do trem. Ai então o velho, pai desse cabra disse que
via um jumento, um animal vendo aí quando um pedacinho quando o pai
dele vinha lá do oitão da casa quando um segundo lá vinha o velho vestido
a roupa e tudo aí quando o papai disse: O teu pai vira é bicho, o papai
dizendo pra ele né? É por que eu sei nós mora pertinho. O papai sempre
foi um cara também do interior morou, muito corajoso. Rapaz teu pai vira
bicho, aí o cara filho dele disse assim: Rapaz eu não acredito não, mas
virava mesmo o velho, pois é o João Rufi, a mãe dele morreu. Aí ele
arrumou uma coroa que chamava Zélia, vieram morar aqui, só tinha essa
minha casa aqui aí a casa vizinha aqui para li era terreno tudo liso, tinha
um gado dele aí, vinha morar aí vizinho aí o velho. Aí o velho dizia assim
rapaz eu chegava duas horas da manhã todo dia. Eu chegava aqui de
madrugada todo dia, todo dia, mas quando eu era só pegava ela aqui no
meio da rua, era de quinta para sexta de madrugada, quando eu chegava
estava ele aqui aí ficava olhava aí encostava a bicicleta chamava a mulher
aí ela entrava para dentro. Quando era no outro dia é rapaz estou morto de
cansado. Aí eu digo, mas você correu muito aí eu dizia para ele, mas você
correu muito. Ele achava era graça o velho, sabe o velho. Aí eu também
fiquei nessa arrumação tinha uma amizade e para mim se ele fazia as coisas
errada pra mim não tinha nada a ver com as coisas né? Que ele fazia aí
quando foi com um tempo aí que ele vira bicho ele, o velho, e, a Zélia né?
O João Rufi e a Zélia que era dona dele, era uma lourona bem forte que
virava bicho. Eu ficava na minha né? Aí eu disse eu sou um cara
meio...digo também igual o papai eu só acredito nas coisas que eu vejo, se
eu vê eu digo eu digo na minha, mas seu eu ver que o cara que quer desfazer
de mim eu digo na cara mesmo eu não num né? Aí eu digo seu João eu vi
dizer que você vira bicho mais a Zélia como é que aí ele disse assim: Como é que tu sabe?. Ora todo mundo fala... aí ele achou graça quando ele
achou graça eu disse se entregaram porque (risos) mas dizia ele virava
mesmo bicho. Aí o velho morreu. Ela foi morar bem dizia ele virava
mesmo bicho. Aí o velho morreu. Ela foi morar bem acolá, dentro do
campo numas casas velhas. Aí eu acho que ela continuou nessa arrumação,
mas é coisa, e, é coisa do passado. (NASCIMENTO, 2013).
Como no pré-roteiro havíamos imaginado uma sequência durante a pesquisa
víamos que a continuação desse não fazia sentido. Nesse momento, a pesquisa foi
moldando o que deveríamos colocar na montagem da obra.
Na primeira sequência fizemos imagens trêmulas da câmera percorrendo a rua
do bairro Santa Casa, no período da noite. Essa rua era responsável por muitas das
histórias em que os entrevistados citavam, entre elas do lobisomem, da trouxa de roupa e
do assoviador. No final da rua surgi a imagem da lua cheia, representando simbolicamente
alguns detalhes das histórias. Após esse cenário há também a imagem de uma igreja
intercalada por um grito causando terror. Toda essa sequência é acompanhada por uma
trilha musical que deseja envolver o público já nos primeiros minutos.
Após a abertura, colocamos todos os entrevistados falando histórias em comum,
cada um a seu modo revelando aspectos significativos, há uma complementação, um
acréscimo de detalhes. Na história do lobisomem, por exemplo, Dona Maria Calixto
coloca que o animal seria uma mulher se transformando. Já para Ruthnéia, o lobisomem
seria um homem conhecido com as seguintes características: gordo, baixo, orelhudo e dos
pés inchados, em que os animais como cachorro gostavam de lhe acompanhar. Para seu
José Osmar, seria um vizinho em que tanto ele como seu pai se transformavam em animal
e posteriormente sua esposa também.
Ainda no exemplo do lobisomem é acrescentado detalhes de como acabar com
o desencanto do animal. Este teria que ser furado com a mão esquerda, causando sangue
haveria a destransformação, como informa Dona Maria Calixto. Geralmente a
transformação do homem em animal ocorre de quinta para sexta no horário meia noite,
segundo informa seu José Osmar.
Assim, a cada entrevista a pesquisa etnográfica ia se solidificando e o filme ia
sendo construído, as histórias eram compartilhadas aumentando as reflexões. Tomemos
como contraponto a pergunta feita ao seu José Osmar se ele acreditava ou não nas
histórias. Ele responde que “sim”, e ao questionar sobre os motivos que estariam
associados a perda da “contação” dessas histórias nos dias atuais. Ele reponta que ocorre
pelo fato das ruas de Sobral terem se tornado iluminadas. O que dificultaria o surgimento
de tais acontecimentos, e que o aumento da população impediria os lugares se tornarem
mais desertos e difíceis de ocorrerem essas práticas. Vejamos o trecho da entrevista:
Não. Era porque na cidade aqui não tinha energia não, era tudo escuro
nessa época não tinha energia em Sobral aqui não pra cá não tinha energia
não. Aí foi depois que a fábrica de tecido, o Padre Palhano ganhou aí foi
prefeito aí ele botou da fábrica só tinha energia da fábrica de tecido pra lá,
mas esse subúrbio aqui não tinha energia de jeito nenhum. Aí botou uns
“portizim”4, mas que era tudo escuro aí nisso aí e coisa desse pessoal que
faz essas coisas é verdade mesmo, existe mesmo, existia que eu hoje não
sei por que hoje a população cresceu tanto que ninguém sabe.
(NASCIMENTO, 2013).
Com essas análises sendo abordadas a partir da linguagem audiovisual acredito
que a pesquisa etnográfica atuou como modo de registro das vivências dos moradores de
um modo amplo, logo a imagem como afirma Piault (2000) é revolucionária. Para este
autor ela se expressa como uma forma diferente de apreensão, de elaboração e de
comunicação, abrindo outros formas de análise.
Assim, através da utilização da imagem técnica é possível uma diferente
observação sobre os fenômenos que abrangem a realidade múltipla. Como adverte Piault
(2000), o cinema e os métodos audiovisuais são tanto instrumentos de observação,
instrumentos de transcrição e de interpretação das realidades sociais diferentes quanto
instrumentos para ilustração e difusão de pesquisas.
Usar esse método da “arte visual” proporciona alcançar um novo modelo de
trabalhar principalmente com o campo de pesquisa. Permite-nos demonstrar além do que
as palavras em um texto, voltar e observar o que os nossos olhos não conseguiriam captar,
no desenrolar dos acontecimentos. Como no caso, da utilização da segunda câmera
capturando os gestos subjetivos e o ambiente em que o entrevistado se encontra. Permite
ao espectador uma maior riqueza de detalhes.
Através do registro das experiências cotidianas dos moradores por intermédio do
audiovisual a pesquisa sobre as histórias assombrosas se tornou algo amplo pelo fato de
4
Conforme o entrevistado mencionou.
atingir um público maior do que através da linguagem escrita, pois a obra audiovisual
apresenta-se como um modo rápido e acessível.
Portanto, vemos a importância que a produção audiovisual apresentou para a
pesquisa, permitindo levar a produção para cada um dos entrevistados do documentário
como uma forma de retorno ao que foi transmitido por eles e a obra também está
disponibilizada em um canal pela internet. Além disso as entrevistas estão acessíveis no
arquivo permanente do LABOME (Laboratório das Memórias e Praticas Cotidianas),
laboratório coordenado pelo professor dos projetos citados no trabalho.
Com a produção do documentário e diante da aceitação que este teve tanto pelo
público, como pelo afeto que tive em campo, senti que a temática deveria ser explorada
no trabalho de conclusão de curso. Assim, a pesquisa surgida através do audiovisual
ganhou outra forma de registro com a produção do trabalho monográfico, havendo assim
uma transposição da linguagem cinematográfica para a escrita.
Uma temática abordada principalmente por causa da produção do documentário
em 2013, hoje constitui-se o objeto de estudo que me permitiu ser selecionada no
mestrado em Antropologia Social da UFRN. Desse modo, ressalto a imensidão que o
documentário enquanto método de registro da realidade representou em minha formação
acadêmica e pessoal.
Considerações Finais
Através do que foi apresentado aqui observamos que a partir de minha
participação em um projeto de Iniciação Científica foi possível a realização do
documentário.
O Documentário por sua vez permitiu com que a equipe de produção fosse
apreendendo de que não se tratava somente dos registros de histórias assombrosas que
teriam o objetivo de causar um certo terror no ouvinte, mas também através da partilha
dessas histórias existia o momento de repercussão de sentimentos entre os ouvintes e
narradores muitas vezes agenciados nos espaços que vai desde a calçada até os quintais.
O processo de produção se apresentou como algo revelador e instigante, pois a
partir de cada história novos fatos iam sendo revelados de acordo com as experiências
dos narradores, o que possibilitou dar uma estética ao documentário com a criação de
efeitos e com a utilização de câmeras captando os aspectos subjetivos de cada narrador.
Com essa experiência videográfica as histórias assombrosas ganham um outro
sentido, outro prisma. Elas não têm como objetivo simplesmente passar medo aos que as
ouvem, como a equipe pensava antes. Há algo mais além, uma simbologia e uma sinergia
que envolve pessoas, provocando partilha ou tensão de sentimentos, de conhecimentos,
experiências, busca por reconhecimento social e prestígio.
Dessa modo, vemos que a obra não foi uma repercussão do projeto de Iniciação
Científica, mas um meio, uma forma encontrada para expressar o que foi encontrado em
campo. Portanto, a história da pesquisa culmina com o processo de produção do
documentário, onde cada entrevistado com exceção de Ruthnéia foi encontrado no
momento em que o filme era produzido.
O estudo apresentou tamanha relevância tanto em minha vida pessoal, visto que
foi modificada pelas histórias assombrosas, onde anteriormente não me permitia ouvi-las,
como em minha vida acadêmica, logo modifiquei o tema da pesquisa de conclusão de
curso.
Através do processo de pesquisa foi o momento em que percebi era mais
prudente abordar as histórias assombrosas. Com essa modificação consegui transpor o
que havia sido expresso na linguagem audiovisual para o texto escrito, permitindo
dialogar com diversos autores tanto das Ciências Sociais como da História Oral.
O trabalho escrito composto por três capítulos promoveu a reflexão sobre todo
o processo de pesquisa promovido pelo documentário desde o encontro com cada
entrevistado como porque eles contam essas histórias e como relacionam essas histórias
com o mundo em que vivem partindo do lugar de onde vivem ou viveram associando ao
tempo em que tais histórias ocorreram.
Após apresentação desse trabalho e com a contribuição da banca verifiquei o
quanto se torna pertinente o estudos sobre as histórias assombrosas, pois estas devem ser
registradas antes que caia no esquecimento. Como foi observado na fala dos entrevistados
ao longo da pesquisa as histórias só estariam sendo lembradas como causa de resistência
ao individualismo e a violência urbana, onde estas só estariam sendo comunicadas porque
eu estava fazendo com que eles promovessem essa reflexão.
Com todo o incentivo que tive para continuar a pesquisa decidi abordar essa
temática com um projeto para ser desenvolvido no mestrado, acreditando que a partir de
mais entrevistas e de mais leituras conseguiria promover mais pensamentos sobre o
assunto.
O retorno que obtive com esse estudo foi tão enriquecedor que permitiu a mim
uma pessoa considerada medrosa rever meus valores, minhas pré-noções a partir de cada
história, de cada entrevistado. Antes não me permitia ouvir as histórias apresentadas no
programa de televisão, mas no momento em que estava em campo era diferente conseguia
me envolver imaginando como seria o momento em que as histórias aconteciam, chegava
a sentir arrepios e muitas vezes quando era questionada pelos entrevistados se eu queria
ter presenciado algumas histórias ou se acreditava em alguma delas fazia com que de
modo algum pudesse permanecer imparcial diante das perguntas.
Foi um processo de longo aprendizado intermediado pela produção do
documentário em que me possibilitou realizar tamanho feito desde essa produção até a
conclusão de curso para além com a elaboração do projeto de mestrado e a inserção dentro
deste.
Espero ter conseguido com esse trabalho promover outras reflexões envolvendo
narrativas sobre histórias de assombração como elementos agenciadores de uma
sociabilidade entre ouvintes e narradores. Não somente partilha de histórias, mas também
de sentimentos.
Como nenhum trabalho encontra-se inacabado e passível de crítica desejo em
outros momentos abordar as questões que aqui não foram exploradas de um modo devido.
Referências
COMOLLI, Annie. Elementos de método em antropologia fílmica. In.: FREIRE, Marcius.
LOURDOU, Philippe (Org.). Descrever o visível: cinema documentário e antropologia fílmica.
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Estudo de Territorialização sob a Coordenação da Residência Multiprofissional em Saúde da
Família Visconde de Sabóia. Sobral, Produção Núcleo.com, 2008.
FREITAS, N. A. (Org.); HOLANDA, Virgínia Célia C de (Org.); MARIA JUNIOR, Martha
(Org.). Múltiplos olhares sobre a cidade e o urbano: Sobral e região em foco. 1. ed. Sobral:
UECE/UVA, 2010. v. 750.
FERREIRA, Ruthnéia Pinto. (depoimento, 20.08.2013). Sobral, Laboratório de Memórias e
Práticas Cotidianas, 2013.
PIAULT,
Marc-Henri.
Antropologia
e
cinema.
Disponível
no
site
http://pt.scribd.com/doc/92678391/Piault de PIAULT, Marc-Henri (2000), Antropologie et
Cinéma, Paris: Nathan Cinéma.
NASCIMENTO, José Osmar do. (depoimento, 02.07.2013). Sobral, Laboratório de Memórias e
Práticas Cotidianas, 2013.
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História de uma pesquisa que também é a história de um filme