Ano IV nº17 Outubro/Novembro 2008 Não-violência contra a mulher Entrevista com Maria da Penha Página 14 Papel de Mulher Viver sem Violência Crochê em lacre de latinhas Página 4 Página 8 Página 17 EDITORIAL MULHER, HOMEM Não-violência contra a mulher : um compromisso de todas(os) Precisamos do e mulher não se mete a colher”. envolvimento de toda sociedade Por que pespara enfrentar, resoas que consideduzir e eliminar a ram muito grave violência contra as as mulheres serem mulheres. Ações agredidas acreisoladas contriditam que não buem, mas só a devem “meter a união de todas(os) colher”? Quantas poderá atender tão mulheres continuimportante e com- Célia Regina Lara, coordenadora do arão a ser agrediConsulado da Mulher de Rio Claro plexa demanda. das, violentadas e Enfrentar e vencer essa ques- mortas para que saibamos que tão exige entender a complexida- sim, devemos “meter a colher” e de que está contida nela, como fazer alguma ação para reverter entender que a solução vai muito essa situação? além de punir o agressor. Passa Precisamos dar cada vez mais também pela mudança dos nos- visibilidade e promover o debate sos padrões culturais e comporta- sobre a violência doméstica. Essas mentos machistas. ações têm sido feitas por moviEsse conflito entre o que con- mentos e organizações sociais e sideramos correto e o que re- mais recentemente também pelo produzimos de padrões da nos- poder público, por meio do Pacsa cultura fica evidente quando to Nacional de Enfrentamento à comparamos dados recentes da Violência contra as Mulheres. Pesquisa Ibope/Instituto Patrícia Uma forma de colaborar é diGalvão, que afirma que 91% vulgar o 180 – Central de Atendidas pessoas consideram muito mento à Mulher, número para o grave o fato de mulheres serem qual podemos ligar gratuitamenagredidas por companheiros/ te e denunciar violência contra as maridos, enquanto 66% acre- mulheres ou solicitar orientações ditam que “em briga de marido sobre como proceder. 2 REVISTA DO INSTITUTO Nossas vidas sem Violência Vivemos um tempo crítico dos valores humanos, em que homens e mulheres estão cada vez mais violentos(as). E esta violência dá-se a partir da agressão moral e física. Mas, antes de analisar este conflito que persiste na atualidade, precisamos analisar a raiz do problema. Quando falamos de violência contra a mulher, a partir das origens históricas, temos um assunto ainda muito comum: o aspecto cultural da sociedade com relação ao mito da força centralizada na figura masculina, em que homem tem de ser “bravo” e a mulher “frágil”. Estes mitos permanecem, ofuscando a realidade dos valores humanos. E esses casos de violência são mais comuns do que a gente pensa. Segundo uma pesquisa feita no ano passado pelo Instituto DataSenado, de cada 100 mulheres brasileiras entrevistadas, 15 disseram viver ou terem passado por situações de violência doméstica. E o mais grave disso tudo: segundo a mesma pesquisa, menos da metade das mulheres em situação de violência denunciaram seus agressores. CONSULADO DA MULHER Este quadro, ao contrário do que podemos imaginar, pode nos motivar a transformar esta situação! Como? Todas(os) temos dentro de nós a essência da vida, e fazemos uma representação interna que nos permite escolher a forma como vamos nos comportar na sociedade. E como raramente escolhemos o que nos causa dor, o que podemos fazer é nos colocar no lugar da(o) outra(o), em um exercício constante de refletir sobre a questão: “eu gostaria de sofrer essa agressão?” Além disso, entender a situação dessas mulheres, apoiá-las nesses momentos difíceis, denunciar os agressores e oferecer às(aos) nossas(os) filhas(os) uma educação livre de preconceitos, com respeito às mulheres e aos homens são atitudes que contribuirão, e muito, para eliminar a violência de nossas vidas para que se tornem histórias de felicidade. 3 MIRE-SE NO EXEMPLO MIRE-SE NO EXEMPLO Papel de Mulher Dica do Papel de Mulher: união, respeito e cuidado são valores fundamentais para superar as dificuldades. “Construindo histórias, reciclando a vida” Tudo começou com uma iniciativa do Programa de Educação e Defesa Ambiental Ângela de Cara Limpa – Reciclângela e de um Seminário promovido pela Sociedade Santos Mártires sobre meio ambiente no Jardim Ângela, bairro da zona sul de São Paulo, que despertou nas mulheres, que hoje formam o grupo Papel de Mulher, a vontade de se emancipar e recomeçar. Elas viram na reciclagem e na arte com o papel a oportunidade de gerar sua própria renda e, principalmente, de conhecer pessoas novas e compartilhar experiências. O trabalho do grupo começou com cursos para que as partici4 pantes aprendessem o processo de fazer papel, antes de colocarem a mão na massa. Nessa etapa, elas contaram com o apoio de Sulália de Souza e Gabriel Menezes, idealizadores(as) do projeto. Hoje, depois de um ano, elas recebem uma bolsa como ajuda de custo do Programa Operação Trabalho, resultado da parceria com a Secretaria Municipal do Trabalho, para assegurar a sobrevivência, enquanto ainda não têm renda própria, por estarem em processo constante de aprendizado. Há, aproximadamente, três meses, o grupo teve suas ferraREVISTA DO INSTITUTO mentas básicas de trabalho roubadas. Mas não desistiram. “Ficamos desanimadas quando vimos, mas não abaixamos a cabeça, recomeçamos todo o trabalho e nos descobrimos fazendo outras coisas”. Desde então, elas têm desenvolvido capas para bloco de notas e porta-retratos. Naquele momento também foi criado o lema “Construindo histórias, reciclando a vida”, que acompanha o grupo até hoje. No início das atividades do Papel de Mulher, o fato de o trabalho não gerar renda também era CONSULADO DA MULHER um problema. “Meu marido não gostava porque eu não recebia, e uma hora ele me disse assim: Ou eu ou esse grupo”, comenta Geralda, uma das participantes do Papel de Mulher. “Escolhi o grupo, porque acredito nele e hoje sou muito mais feliz”, explica. Para a maioria delas, o grupo veio como uma luz. “Eu vivia na escuridão, depois que entrei no Papel de Mulher tudo clareou. É como se eu tivesse nascido de novo”, explica Antonia, que considera o grupo uma família. Com o apoio do Consulado da Mulher, a expectativa é de que o grupo aprimore suas técnicas para a geração de renda para crescer ainda mais! 5 QUENTINHAS DO CONSULADO QUENTINHAS DO CONSULADO São Paulo (SP) SENAC e Consulado da Mulher trabalhando juntos Joinville (SC) Consulado na comunidade Dom Gregório Até fevereiro do ano que vem, o Consulado da Mulher, em parceria com o Banco do Brasil, realizará oficinas de auto-estima, artesanato, customização de roupas e reaproveitamento de alimentos na Comunidade Dom Gregório, em Joinville. Para mais informações sobre essas oficinas, ligue para (47) 3433-3773. Consulado comemora 6º aniversário No próximo dia 25 de novembro, o Consulado de Joinville comemora seis anos de atividades, troca de experiências e histórias de felicidade na vida de inúmeras mulheres. Você que faz parte dessa trajetória, celebre junto com toda a equipe mais este ano cheio de conquistas! 6 A parceria entre Consulado da Mulher e SENAC se consolida a cada dia. Após começar por Manaus, com ação conjunta para formação de dezenas de mulheres para o mercado de trabalho, agora é a vez de São Paulo. Na capital paulista, a parceria atende 40 grupos de geração de trabalho e renda a partir do diagnóstico e elaboração de planos de negócio. Essa mesma experiência começa a ser implantada também na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo. A intenção é criar cada vez mais parcerias que possibilitem a geração de trabalho e renda e a construção de mais histórias de felicidade. Manaus (AM) I Feira de Empreendedorismo Coletivo Acontece em Manaus de 3 a 5 de dezembro a I Feira de Empreendedorismo Coletivo no Centro de Convivência da Família Padre Pedro Vignola, organizada pelo Sebrae. O Consulado da Mulher, como um dos parceiros do evento, estará presente, junto com os empreendimentos apoiados, que terão um espaço para comercializar seus produtos solidários. O Centro de Convivência fica na Avenida Gandu, nº 119, no bairro Cidade Nova, em Manaus. A entrada é gratuita. REVISTA DO INSTITUTO Rio Claro (SP) Jantar para voluntárias(os) No dia 5 de dezembro, Dia Internacional do Voluntariado, o Consulado irá celebrar a participação cidadã de homens e mulheres que constroem inúmeras histórias de felicidade todos os dias: as(os) voluntárias(os). E, como de costume, o Consulado da Mulher de Rio Claro realizará um jantar especial para as(os) voluntárias(os) na Usina do Trabalho. Não perca! Retire seu convite na recepção e, para mais informações, ligue para (19) 3532 4801. Reunião Geral de Voluntariado No dia 11 de dezembro, acontece a Reunião Geral para as(os) voluntárias(os) do Consulado da Mulher de Rio Claro. O objetivo do encontro, feito na Usina do Trabalho, é fazer um resumo do ano de 2008 e apresentar propostas e sugestões para o próximo ano. Se você é voluntária(o), não perca a oportunidade de colaborar para o crescimento e amadurecimento do Consulado! CONSULADO DA MULHER 1ª DECOR-ARTE O grupo de artesanato Rota da Arte, com o apoio do Consulado da Mulher, realizará dos dias 3 a 15 de novembro a 1ª DECOR-ARTE no Shopping Center de Rio Claro. A mostra de artesanato contará com exposição e venda de trabalhos em bambu, patchwork, tecido, crochê, bordado, pintura em tecido e seda, decoração em madeira, mosaico, biscuit, fuxico, vela, feltro, meia de seda, bonecas, jogos educativos, papel reciclado, entre outros. A feira é aberta ao público de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, do meiodia às 20h. Não deixe de prestigiar este lindo trabalho! Mais informações pelo telefone (19) 9739-3982, com Dulcinéia. 7 EU POSSO EU POSSO Viver sem Violência Por conta de uma gravidez inesperada, Helena* casou-se aos 17 anos. Os primeiros momentos de agressão aconteceram poucos meses depois do nascimento do bebê. Irritado com o choro da criança, o pai agredia mãe e filha. Enquanto as surras ficavam mais freqüentes, ela achava tudo normal porque, afinal, “estava casada com ele”. A história de Helena choca, mas saiba que ela é mais comum do que você pensa. Ela pode fazer parte da vida de uma amiga, de uma colega de trabalho ou de uma vizinha. E nem sempre na forma de uma agressão física, que é apenas mais uma forma de violência. Foi o caso de Márcia*, quando descobriu que o companheiro mantinha outra família. Ameaçada, foi obrigada a sair de casa e recomeçar a vida em outro lugar. As duas histórias são situações extremas, mas que começaram com atitudes que podem fazer parte da vida de muitas mulheres. Algumas são impedidas de estudar, outras de trabalhar fora de casa, e a maioria é responsável por cuidar dos serviços de casa sem a ajuda do companheiro. 8 foi fundamental para resgatar a auto-estima e recomeçar. “Hoje, já posso ver uma luz no fim do túnel, e estou muito feliz com minha nova vida. Espero, com essa experiência, ajudar outras pessoas a não terem medo de recomeçar, independente da situação que estiverem passando, pois uma porta sempre se abre”, explica. Se você vive uma situação de violência, ou conhece alguma mulher que passa por isso, não se cale. Veja algumas formas de buscar ajuda: É seu direito viver sem violência! Todas essas situações são formas de violência contra a Mulher. E eliminá-las não depende apenas da mulher que passa por essa situação. É preciso apoio e coragem de todas(os), para não nos calarmos, nem fecharmos os olhos diante da violência. No caso de Helena, a ajuda veio de uma professora da filha que, ao ver as marcas da agressão na menina, encaminhou-a para o Conselho Tutelar. Lá, Helena e o companheiro contaram com acompanhamento psicológico. Durante as terapias, ela descobriu que ele também sofrera maus-tratos do pai durante a infância. Hoje, Helena começa a mudar sua história. “Comecei a reagir a partir do momento em que a escola acionou o Conselho Tutelar. Agora eu descobri do que sou capaz, agora eu não aceito mais sofrer”, diz ela. Com Márcia, o contato com as oficinas e as outras participantes do Consulado da Mulher REVISTA DO INSTITUTO • Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 – o atendimento é gratuito! • Casa Sofia de São Paulo: (11) 5831-3053 - Rua Dr. Luis Fernando Ferreira, 06 - Bairro Sonia Regina - Jardim Ângela - São Paulo - SP • Casa Viviane dos Santos: (11) 2553-2424 - Rua Antônio Cari, 17 Guaianases - São Paulo - SP • Delegacia da Mulher de Rio Claro: (19) 3524-9503 - Rua 6, 557 Centro • Delegacia da Mulher de Joinville: (47) 3433-4714 e (47) 3433-9737 Rua Dr. Plácido Olímpio de Oliveira, 843 - Bucarein • PAMVVI – Programa de Atendimento a Mulheres Vítimas de Violência - Joinville: (47) 3439-2870 - Rua Urussanga, s/n - antigo Lar Abdon Batista - Bucarein • Delegacia da Mulher de Manaus: (92) 3236-7012 - Rua Recife, 3395 • Para a ver a lista de todas as Delegacias da Mulher do país, acesse o site http://www.violenciamulher.org.br * Os nomes foram alterados para preservar as mulheres Grupo de costura Conquistando Sonhos Sacolas e bolsas retornáveis produzidas com tecidos ecologicamente corretos, logo da empresa serigrafado ou bordado, aventais, camisetas customizadas, uniformes empresariais e outras variedades. Encomendas de brindes institucionais para feiras, exposições de final de ano e presentes em geral. Rua Nova Ponte 49 - Vila Progresso - Zona Leste - São Paulo - Fone para contatos: (11) 6864 4669 - cel. 7512 0358, falar com Lourdes. CONSULADO DA MULHER 9 PARA TRABALHAR E RENDER PARA TRABALHAR E RENDER Cooperanti, um modelo de sucesso em Joinville Renda, fundo para empréstimos e recolhimento de INSS são “Com o que ganhei, consegui pagar a conta da luz da minha casa” [...] “a gente não vê a hora de ir para a cooperativa trabalhar.” “Deus nos livre de fechar a cooperativa...” “Hoje estou construindo a minha casa.” Essas são frases presentes no dia-adia do grupo Cooperanti - a Cooperativa Amiga do Meio Ambiente que atua na periferia de Joinville e tem como missão reduzir contrastes sociais, por meio de ações voltadas para a educação. O grupo, que há seis anos atrás começou a se reunir para trabalhar com uma horta comunitária e em contrapartida, recebia ajuda do Projeto Resgate, iniciou suas atividades com material reciclado nos fundos da casa de uma integrante e, após alguns meses, 10 já necessitou de um espaço maior para trabalhar. Durante oito meses o Consulado da Mulher contribuiu com o grupo no pagamento do aluguel de um espaço até que pudessem assumir suas próprias despesas. Pouco depois, o grupo decidiu que compraria um terreno, pagando em prestações com base no salário mínimo. Através da doação das horas trabalhadas, as(os) integrantes deram entrada no terreno e construíram um pequeno galpão para trabalhar. algumas das conquistas da Cooperativa Amiga do Meio Ambiente pequena cozinha no galpão, e hoje fazem a comida ali mesmo, um almoço em grupo. A compra dos alimentos é feita coletivamente e paga pelo empreendimento. com a aposentadoria, mas sim com um “seguro”, pois caso algum(a) integrante ficar doente ou sofrer um acidente, não ficará desamparado(a). Poderá recorrer ao INSS. Outro grande avanço foi a criação de um fundo de reserva só para fazer empréstimos às(aos) integrantes. Quem usa o benefício pode pagar em até 10 prestações e os “juros” são apenas uma taxa de R$ 10,00 pelo empréstimo. “Trabalhar na Cooperanti me ajudou muito. Sou sozinha para criar quatro filhos menores, e tiro o sustento da família com o suor do meu trabalho. E agora essa satisfação é ainda maior, já que estamos pagando INSS e temos nossa alimentação coletiva garantida”, comenta Aparecida de Jesus de Nascimento, 37 anos, integrante do grupo. A conquista mais recente foi o recolhimento de INSS entre todas(os) as(os) integrantes. A preocupação não é apenas Além do espaço, as conquistas da Cooperanti continuaram. As mulheres, que são a maioria do grupo, perto do horário do meio-dia tinham que parar de trabalhar para poder fazer o almoço em suas casas. O grupo resolveu então construir uma REVISTA DO INSTITUTO CONSULADO DA MULHER 11 EXPRESSÃO DE CIDADANIA EXPRESSÃO DE CIDADANIA Compartilhar conhecimentos é transformar a sociedade O que é, o que é: quanto mais se divide, maior fica? As(os) voluntárias(os) do Consulado respondem: aprendizado e troca de saberes! Rio Claro Joinville São Paulo Manaus “Em 2005, participei de uma oficina de culinária com a voluntária Renata, e gostei tanto que decidi compartilhar meus conhecimentos com outras pessoas e me tornar voluntária do Consulado. Isso ajuda a desenvolver meus próprios talentos e faz com que sejamos menos egoístas. Acho que através do trabalho voluntário, melhoramos as relações com outras pessoas, fazemos novas amizades e, além de ensinar, eu aprendo muito”. “Ser voluntária é ser cidadã porque, nas atividades de artesanato que desenvolvo, consigo estimular e orientar as(os) participantes para também terem atuações em comunidades, seja em associações de moradores ou em alguma instituição. A atuação voluntária permite-nos participar ativamente na sociedade, contribuindo e transformando”. “Nunca tinha realizado uma oficina como voluntária para o Consulado, somente para um grupo de terceira idade da igreja da minha comunidade. Gostei da experiência, as participantes foram ótimas e já estão pedindo outras oficinas”. “Eu não tenho palavras para expressar o sentimento de ser voluntária. Ser voluntária é amar a(o) próxima(o) como a si mesmo, é se doar sem esperar receber, é cooperar para um mundo melhor em que todas as pessoas venham a ter qualidade de vida. Amo ser voluntária e amo o Consulado da Mulher” . Ligia Maria Jesus dos Santos Mendes, 47 anos, voluntária do Consulado da Mulher de São Paulo Tamy Regina de Souza, 42 anos, voluntária do Consulado da Mulher de Joinville Shirlene Martins Dias, 42 anos, colaboradora da Whirlpool e voluntária do Consulado da Mulher de Manaus Margareth Rosa de Jesus Luiz, 35 anos, voluntária do Consulado da Mulher de Rio Claro. 12 REVISTA DO INSTITUTO CONSULADO DA MULHER 13 PÁGINAS COLORIDAS PÁGINAS COLORIDAS Lei Maria da Penha: o que mudou em dois anos Maria da Penha Maia Fernandes. Este é o nome da mulher que, por meio de sua história de superação, deu nome a lei que revolucionou as políticas de enfrentamento à violência doméstica. Após dois anos de aprovação da lei, ela conversou com a Revista do Consulado e fez um balanço sobre as mudanças proporcionadas pela nova legislação. Em agosto deste ano, foram completados dois anos da aprovação da lei que leva seu nome. Como você avalia o impacto dela hoje? Muito positivo, principalmente na conscientização das mulheres. Onde a lei foi bem implementada, está atendendo perfeitamente essas mulheres. Em um evento, uma representante do movimento de mulheres chegou para mim e disse: “Olhe, fui a uma Delegacia da Mulher e fiquei tão feliz quando vi uma mulher jovem, recém-casada, acompanhada do marido, dizer - Olhe, a Maria da Penha disse que no primeiro empurrão, eu tenho de vir pra Delegacia”. Fiquei feliz de ver a mulher empoderada desse jeito. Após sua aprovação, a Lei Maria da Penha foi criticada por algumas pessoas. Há algum ponto que pode ser melhorado? 14 A lei, hoje, atinge os objetivos de punir os agressores e prevenir a violência doméstica, e no local onde ela está sendo bem implementada, está funcionando. Infelizmente, ela está sendo bem implementada apenas nas grandes cidades. Existe, claro, um ou outro problema relacionado à cultura machista, como as(os) juízas(es) que dizem que a lei é inconstitucional. Mas isso é de se esperar, pois essa é a cultura da sociedade brasileira. E o que a lei precisa para ser bem implementada fora das grandes cidades? Há a necessidade da criação dos Centros de Referência da Mulher e das Casas-Abrigo, as Delegacias da Mulher, e os Juizados de Violência Doméstica e Familiar. Com esses quatro órgãos de apoio, a lei funciona. Também é muito importante a capacitação de todas(os) as(os) envolvidas(os). A(o) policial, REVISTA DO INSTITUTO Na maioria dos lares brasileiros existe a violência doméstica, e já foi constatado em estudos que o lugar mais perigoso para uma mulher ficar é a sua própria casa. A geração de renda entre as mulheres pode contribuir com o fim da violência contra a mulher? Acredito que é mais uma questão de conscientização do papel da mulher. Se não gente rica não apanhava. Apenas a diferença é que a mulher rica proMaria da Penha, líder de movimentos cura a Delegacia da Mulher com de defesa dos direitos da mulher. o apoio de um(a) advogada(o). É possível dizer, então, a(o) delegada(o), a(o) juiz(a), a que a educação atual esti(o) psicóloga(o), todas(os) têm mula a violência contra a de estar afinados em relação ao mulher? problema da violência doméstiNão dá para dizer isso. Não ca, para que a lei funcione. se bota isso propositadamente, Muitas mulheres vítimas já vem na cultura. Um exemplo: de violência enfrentam pre- por que a mãe pede para a filha conceito da soarrumar a cama ciedade, dito em “Infelizmente, a Lei Maria dela e a do irmão, frases como: “a da Penha está sendo bem e não o contrário? implementada apenas mulher apanha nas grandes cidades” Tem algum recaporque quer”. do para as muComo você enxerga isso? lheres leitoras da Revista do Se essa pessoa tem esse pre- Consulado? conceito, é porque ela não enQue elas se conscientizem tende o problema da mulher víti- de que devem buscar seus dima de violência doméstica, talvez reitos. Busquem, em suas ciporque teve a sorte de viver em dades, os movimentos de muuma família onde isso não existe. lheres, para que juntas possam Dessa forma, ela não pre- reivindicar a implementação da senciou o problema, então, vai lei em seu município, para que dar uma opinião errada, porque ele tenha condições de atender o caso da família dela é uma ex- a todas essas mulheres vítimas de violência. ceção. CONSULADO DA MULHER 15 HA HA HA PRATIQUE A IDÉIA DA Santina Crochê em lacre de latinhas Simples e barata. É assim que a técnica usada por Santina Menon, 51, voluntária do Consulado da Mulher de Joinville, pode ser descrita. Com criatividade e habilidade no crochê, lacres de latinhas de alumínio e linha de algodão transformam-se em bolsas, carteiras e até tiras de chinelos. ticipantes para que aprendam a fazer artesanato e já comecem a gerar renda”, explica Santina. “Tudo isso pode aumentar a renda. Sempre incentivo as par- Obs.: Durante o trabalho, é utilizado o Ponto Baixo* Você vai precisar de: • Lacres de latinhas de alumínio • Linha para crochê/tricô (prefira as mais finas) • Agulha para crochê 1.0 mm Cantinho X Alimentação Av. Visconde de Rio Claro 150, esquina da Rua 2 Rio Claro - SP - Fones (19) 3525-6189 ramal 21 e (19) 9778-3139 (falar com Rita) REVISTA DO INSTITUTO colecione esta idéia Dicas Salgados assados, coxinhas, lanches, pastéis, sucos, caféda-manhã e muito mais! Aceitamos encomendas de salgadinhos para eventos e festas. 16 Santina, voluntária do Consulado. CONSULADO DA MULHER • O *Ponto Baixo é uma das técnicas mais comuns e usadas no crochê. Se você ficou com dúvidas em como fazêlo, acesse o site do Consulado da Mulher, no endereço www.consuladodamulher.org.br, e confira uma explicação sobre esse tipo de ponto. • A artesã Santina Menon, além de oficinas, também comercializa seus produtos. Para falar com ela, ligue para (47) 8406-3434 17 PRATIQUE A IDÉIA DA Santina CARTA DE LEITOR(A) Crochê em lacre de latinhas “Gosto de ler a Revista do Consulado da Mulher, pois está sempre atualizada, com notícias e informações importantes para serem utilizadas no dia-a-dia, incluindo as informações sobre geração de renda e cidadania. É uma ótima oportunidade para atualização das informações e comunicação entre os(as) participantes e voluntários(as) das diferentes casas.” 1. Passe o fio por dentro do lacre com a ajuda da agulha e amarre. Guilheme Minoru Takeda, 26 anos, voluntário do Consulado da Mulher de Rio Claro. “Fiquei bastante motivada com as informações da revista, principalmente porque mostra a realidade da comunidade feminina. Esses relatos podem ser tomados como exemplo e nos encorajar para que possamos conquistar nosso espaço na sociedade.” Miracy Tavares, 63 anos, participante do Consulado da Mulher de Manaus. 2. Faça o Ponto Baixo de acordo com a foto por oito vezes, para fechar o lacre. “A revista traz muitas informações interessantes como as dicas, receita, o passo-a-passo, as histórias das mulheres de coragem e isso era o que estava faltando para incentivar outras mulheres. E a revista nos encoraja a praticar o que ela nos oferece.” 3. Pegue outro lacre vazio, emende e faça o mesmo processo em ponto baixo, dos dois lados do lacre. Não esqueça de “arrematar” (amarrar o fio) no final. colecione esta idéia Maria de Nazaré Vital, 43 anos, participante do Consulado da Mulher de Manaus. 4. Para emendar outros lacres formando uma malha, pegue um novo, faça quatro pontos baixos e, com a ajuda da agulha, passe o fio no meio de outro lacre pronto. Por fim, preencha com mais quatro pontos, para fechar o lacre. Colecione esta idéia! 18 REVISTA DO INSTITUTO “Achei muito importante a entrevista com a ministra Nilcéia Freire, falando sobre a participação da mulher na política. Temos que mostrar nossa capacidade para a vida pública, tanto quanto os homens!” Sueli Libardi, 54 anos, participante do Consulado da Mulher de Joinville. “A revista fala de tudo um pouco, ainda ensina a fazer artesanato... E isso é bom porque a gente vê as mulheres aumentando sua auto-estima, gerando renda, montando seu próprio negócio. É um meio de informação e de aprendizado.” Edjane Gomes de Lima, 30 anos, voluntária do Consulado da Mulher de Joinville. “Acredito que a revista agradou pelo seu modo simples e dinâmico de colocar os temas. Acompanhar as publicações é aprender muito. A Revista do Consulado da Mulher tem muita informação sobre empreendimentos solidários, microcrédito, desenvolvimento social e o papel da mulher na sociedade.” Luciana Bolognini, 36 anos, participante do Consulado da Mulher de São Paulo. ERRATA - Na edição nº16 da Revista do Consulado da Mulher, erramos ao incluir a palavra “Públicas” ao nomear a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) na capa da publicação. O texto já foi corrigido na versão eletrônica da revista. Participe com comentários e anúncios Comente matéria(s) e/ou a revista. Se você é um(a) participante do Instituto e também quer falar sobre seus produtos ou serviços, envie-nos seu anúncio. Ele será avaliado, dentro da filosofia do Consulado, para divulgação. As cartas ou e-mails devem ser enviados com nome completo, RG, endereço e telefone. A revista se reserva o direito de, sem alterar o conteúdo, resumir e adaptar os textos publicados. As correspondências devem ser endereçadas à seção Cartas, na Rua Olímpia Semeraro, 675, Jardim Santa Emília, CEP: 04183-901, aos cuidados da Comunicação do Consulado da Mulher, pelo e-mail [email protected], ou entregues diretamente na recepção das unidades do Instituto em Rio Claro (SP), Joinville (SC) e Manaus (AM). CONSULADO DA MULHER 19 Ano IV Nº 17 Outubro/Novembro 2008 A Revista do Consulado da Mulher é uma publicação bimestral do Instituto do Consulado da Mulher. Coordenação da publicação Bruno Galhardi e Inês Meneguelli Acosta. Conselho editorial Célia Regina Lara, Christiano Basile, Dayla C. Souza, Iara Honorato, Leda Böger, Marina Stern , Melissa Pin Lucheti, Louise Assumpção, Mônica Souza, Paula Watson e Renata Watson. Fotos Marcelo Caetano (Joinville - SC); Edilson Gusson (Rio Claro - SP); Mônica Souza (Manaus - AM); Páginas coloridas: Bruno Galhardi. Textos Iara Honorato e Melissa Pin Lucheti: educadoras sociais; Célia Regina Lara: coordenadora do Consulado de Rio Claro; Juliana Durães: voluntária de SP; Paulo Dalfovo: coordenador de programas sociais; Louise Assumpção e Mônica Souza: estagiárias. Projeto gráfico, diagramação e ilustrações Traço Comunicação (www.watsons.com.br) Tiragem 6.000 exemplares Instituto Consulado da Mulher • Núcleo São Paulo SP: (11) 3566-1665 • Unidade Rio Claro SP: (19) 3532-4801 • Unidade Joinville SC: (47) 3433-3773 • Unidade Manaus AM: (92) 3651-1556 www.consuladodamulher.org.br