Leitura e memória: convergências em torno de uma harmonia oculta Fabrício José Nascimento da Silveira A criança está doente. A mãe a leva para cama e se senta ao lado. E então começa e lhe contar histórias. Como se deve entender isso? Walter Benjamin Ao projetar uma resposta para a questão acima levantada, Walter Benjamin1 evoca argumentos oriundos de uma longa tradição edificada em torno do poder curativo das palavras. Para o filósofo, a mãe conta histórias porque estas, em confluência com os gestos que as encenam, engendrariam “o clima propício e a condição mais favorável de muitas curas”. Além disso, ao comparar a dor com uma barragem que se opõe à corrente da narrativa, o pensador visualiza neste ato de acentuado carinho materno uma força capaz de “largar tudo o que encontra em seu caminho ao mar do ditoso esquecimento”. Potencialidade alcançada porque, ao dispor de alma, olho, mão e ouvido em um mesmo campo de percepção e de ação, a mãe, em seu rito narrativo, seria capaz de mobilizar uma conjunção de forças simbólicas que agiriam umas de maneira clara, outras obscuramente. Condições moduladas por meio de práticas que, segundo a filosofia benjaminiana, aproximariam aquele que narra de seu ouvinte: “laço da voz e do gesto, que age tão logo é pronunciada e por sua própria pronunciação, palavra definitiva do rei arcaico que instaura justiça, mas, sobretudo palavra fascinante e mágica do poeta que provoca, a seu bel-prazer, lágrimas e risos no mais virtuoso dos homens”.2 É em consonância com estas proposições que nos tornamos aptos a visualizar as narrativas como universos portadores de uma dimensão do saber capaz de 1 2 BENJAMIN. Conto e cura, p. 269. GAGNEBIN. Narrar e curar, p.11. 1 transformar a vida em trabalho permanente de reelaboração emotiva, de repensamento do acontecido, em espaços de liberdade. Liberdade experenciada, em grande medida, graças aos movimentos sinuosos da memória. De fato, este suposto poder que se encontra associado à voz narrativa só se faz mensurável porque aquele que conta uma história possui a capacidade de, através da memória, mobilizar tanto um saber prático quanto um conhecimento do lugar distante ou de um tempo passado. Razão pela qual a figura do narrador se liga à imagem dos guardiões, dos artífices da memória. Em outras palavras, ele se faz representar como um sujeito que converte as próprias lembranças em medium de atualização do passado no presente. Movimento que inviabiliza, segundo a proposição benjaminiana, a apreensão da memória como uma cópia, um decalque do passado. Isto porque, os acontecimentos, os seres e imagens não se apresentam à memória do narrador como formas acabadas ou perfeitamente delineadas. No momento em que são evocadas, as lembranças ligam-se sempre a outros elementos que, por sua vez, as tornam diferentes. Elementos que não se reportam apenas à história de vida daquele que evoca uma lembrança, mas fazem alusão a todo um conjunto de referências estruturadas coletivamente e vivenciadas no seio da tradição. Tradição que, ao ser percebida por Benjamin como instância ordenadora das relações humanas no presente – não apenas no sentido cronológico, mas, sobretudo sistematicamente – agrega às narrativas uma força hermenêutica portadora de acentuada dimensão utilitária. Tudo isso esclarece a natureza da verdadeira narrativa. Ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida – de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos.3 Faculdade que não tem nenhuma relação com a competência ou a autoridade individual do narrador, uma vez que o único mérito deste é o fato de também ter sido, algum dia, ouvinte de outras narrativas. Sendo assim, ao aproximar a tradição do universo da memória, e esta da esfera da sabedoria, das propriedades do pharmakon, o filósofo talvez tencionasse reforçar a ideia de que a 3 BENJAMIN. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, p. 200. 2 narrativa incorpora em si a presença da experiência coletiva, instância visualizada através das superposições de camadas de sentido tecidas de narrador para narrador. Nesta conjuntura, a memória funcionaria como um grande repertório de significados possíveis que o narrador evoca para motivar seus ouvintes a atentarem para segredos preciosos e indagações pertinentes acerca do presente ou daquilo que está por vir. Gesto que instaura um mundo de sociabilidade no qual os sujeitos se reconhecem enquanto seres sociais, enquanto individualidades atravessadas por “outros” em confluência. A memória é, pois, segundo esta perspectiva, um produto elaborado coletivamente através dos fazeres de indivíduos que interagem entre si no presente. Contudo, é preciso notar, como o fez o próprio Benjamin, que as rápidas e profundas transformações socioculturais levadas a cabo pela expansão do capitalismo e por uma nova maneira de se vivenciar a temporalidade promoveram um movimento de reposicionamento das funções do narrador e do papel da memória enquanto veículos de socialização da experiência no mundo contemporâneo. O que implica ressaltar que, se antes o elemento valorativo de uma história eram as referências que ela trazia do passado, nesta nova conjuntura subjetiva tais referências perdem seu valor de culto em relação a um presente datado, esvaziado de sentido e sempre voltado na direção de um porvir cujas dimensões não se fazem mensuráveis. Neste sentido, o que se percebe é que muitas das inquietações que assombram o homem moderno podem ser sintetizadas na seguinte questão: de que maneira se poderá transmitir alguma coisa para as gerações futuras? Questão de difícil resposta, uma vez que o ato de transmissão aqui em voga diz de uma prática que põe em convergência tanto aquele que transmite o conhecimento, quanto aquele que apreende o ensinamento. Sendo assim, se o pai não transmite mais os segredos de uma vida bem vivida por meio de um conselho deixado como herança; se os moribundos não propagam mais suas experiências através de palavras que subvertem a morte e indicam um sentido de continuidade e se as mães não contam mais histórias para embalar os sonhos e cativar o espírito de seus filhos, como projetar uma possível solução para o problema acima levantado? Talvez possamos indicar um caminho trazendo para a nossa discussão alguns pontos que emanam do diálogo entre leitura e memória. Sendo mais preciso, lançando luzes sobre a oculta 3 harmonia que se funda entre estas duas práticas de apreensão e de atribuição de sentidos para o mundo. Para tanto, faz-se necessário partirmos do princípio de que se a memória é capaz de inspirar, recuperar a graça do tempo, distender conceitos duros, devolver o entusiasmo pelo que era caro e se perdeu, redimir o sagrado e devolver não simplesmente o passado, mas o passado que prometia, a leitura se apresenta como uma arte investigativa que “quase não deixa traços visíveis nem garantias contra a usura do tempo, mas ação produtora que em cada um dos seus encaminhamentos e de fazeres, ao mesmo tempo alteram e conferem existência ao texto [e ao mundo]”.4 É, enfim, apropriação, recriação, ofício que não se restringe a um único conceito, mas sim a um conjunto de práticas difusas e em permanente transformação. A leitura não se define, pois e apenas, como uma operação intelectual abstrata: ela é também o uso do corpo, uma inscrição dentro de um espaço histórico-temporal e uma relação dos leitores consigo mesmos e com os outros. Em outras palavras: A atividade leitora apresenta, ao contrário, todos os traços de uma produção silenciosa: flutuação através da página, metamorfose do texto pelo olho que viaja, improvisação e expectação de significados induzidos de certas palavras, intersecções de espaços escritos, dança efêmera. [...] Ele [o leitor] insinua as astúcias do prazer e de uma reaproximação no texto do outro, aí vai à caça, ali é transportado, ali se faz plural como os ruídos do corpo. Astúcia, metáfora, combinatória, esta produção é igualmente uma “invenção” de memória. Faz das palavras as soluções de histórias mudas. A fina película do escrito se torna um remover de camadas, um jogo de espaços. Um mundo diferente (o do leitor) se introduz no lugar do autor.5 Nesse sentido, as pistas lançadas pelo autor acima citado nos indicam que nenhum leitor é confrontado com textos abstratos, ideais ou desligados de uma materialidade espaço-temporal. Ao contrário, eles manipulam objetos, ouvem palavras cujas modalidades governam a leitura e a escrita. Fazendo isso, deixam transparecer que a leitura constrói um espaço entre o imaginário e o real, desmontando a clássica oposição binária entre ilusão e realidade, entre história e ficção e, neste movimento, dão a ver que não existe nada simultaneamente mais real e mais ilusório do que o ato de ler. Sendo assim, lemos, mesmo se ler não é indispensável para viver, porque a vida é mais cômoda, mais clara, mais ampla para aqueles que leem que para aqueles que não leem. Por quê? 4 5 CHARTIER; HÉBRARD. A invenção do cotidiano: uma leitura, usos, p. 32. CERTEAU. A invenção do cotidiano, p. 49. 4 Primeiramente, em um sentido bastante simples, viver é mais fácil para aqueles que sabem ler, não somente as informações, os manuais de instrução, as receitas médicas, os jornais e as cédulas de voto, mas também a literatura. Além disso, supôs-se por muito tempo que a cultura literária tornasse o homem melhor e lhe desse uma vida melhor: com a literatura, o concreto se substitui ao abstrato e o exemplo à experiência para inspirar as máximas gerais ou, ao menos, uma conduta em conformidade com tais máximas. A literatura, instrumento de justiça e de tolerância, e a leitura, experiência de autonomia, contribuem para a liberdade e para a responsabilidade do indivíduo. 6 Ler é se apossar do texto para dotá-lo de existência, visto que todo signo passível de leitura se abre a infinitas possibilidades de significação. Não por acaso, todo leitor dispõe do poder de desvelar uma verdade que não seja transparente, mas latente, potencialmente presente, escondida fora da consciência, imanente, singular e, até aí, inexprimível. Ler é, em suma, experimentar possíveis. Experimentar possíveis. Talvez este seja o ponto de convergência que aproxima de maneira inequívoca o universo da memória e o conjunto das práticas de leitura. Como excede a mente humana, a memória se alimenta de imagens, sentimentos, idéias e valores que circulam na esfera do social, transfigurando-se, em um segundo movimento, num construto coletivo resultante da interação entre indivíduos no presente. Em cada evocação um mundo se abre. O presente, o passado e o futuro se mesclam nas lembranças, podendo surgir fatos reveladores para as novas gerações. Entretanto, a memória não é feita apenas de fatos, mas também de desejos e sonhos. Desejos e sonhos que acalentamos e compartilhamos durante toda a nossa vida, seja através de uma conversa fortuita entre amigos; das promessas de amor que talvez jamais sejamos capazes de cumprir; dos sons, aromas e sabores impregnados em nossos sentidos e que dizem de uma maneira muito própria de viver uma vida; ou, ainda, através dos itinerários que pacientemente tecemos enquanto leitores do mundo, como o bem demonstrou Proust em seu ensaio Sobre a Leitura: Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido. [...] Quem, como eu, não se lembra dessas leituras feitas nas férias, que íamos escondendo sucessivamente em todas aquelas horas do dia em que eram suficientemente tranquilas e invioláveis para abrigá-las.7 6 7 COMPAGNON. Literatura para quê?, p. 29-35. PROUST. Sobre a leitura, p. 9-10. 5 Abrigar os sonhos e irmaná-los com a ação, distender nossa capacidade de apreender e de dialogar com o outro, todas estas atividades se mostram potencializadas pelas práticas de leitura, da mesma forma como o devaneio, o lúdico, o desejo e o silêncio se constituem em ingredientes importantes para pensarmos a memória como força motriz que define os contornos de nossa ação no mundo. Além disso, é impossível deixar de perceber que ambas alargam e incrementam os recursos que cotidianamente nos valemos para aprender, ensinar, ouvir e transmitir as mais distintas experiências que emergem como uma espécie de comunicação “íntima” na qual observamos o outro e a nós mesmos. Eis aí a bela harmonia oculta que emana da convergência entre leitura e memória e também as razões pelas quais, às vezes, cedemos a seus encantos com o intuito de ultrapassar a solidão, os medos e os sofrimentos que por ventura nos assolem. Razão pela qual, ao atentar para tais possibilidades, nos tornamos capazes de perceber que a convergência acima explicitada demanda e incorpora em si, para além da dimensão teóricoafetiva que a circunscreve, uma conformação prática. Eis o que se pretende demonstrar ao longo das páginas que se seguem. Intento que buscamos contemplar a partir da descrição de dois projetos cujas ações estão diretamente vinculadas ao universo da memória e da leitura, a saber: Programa memória local, idealizado pelo Instituto Avisa Lá e o Museu da Pessoa de São Paulo; e o Projeto estação memória, em funcionamento desde 1997 na Biblioteca Infanto-Juvenil Álvaro Guerra, também em São Paulo. Além desses, apresentaremos dois livros e um site que indicam outros caminhos para se pensar e se mobilizar os elos de congruências entre leitura e memória conforme explicitado até aqui. Quando histórias anônimas proporcionam uma leitura do coletivo: o Museu da Pessoa e o Programa memória local O Museu da Pessoa é um museu virtual que coleta, preserva e divulga histórias de vida. Fundado em 1991 na cidade de São Paulo, tem por objetivo prover os meios para que toda e qualquer pessoa registre e preserve sua história de vida como parte da memória social, uma vez que acredita que “essas histórias constituem fontes de informação que permitem intervenções 6 sociais em diversas áreas como a pesquisa, a educação, a cultura, a formação de políticas públicas e a produção de conteúdos para as mídias de comunicação”.8 Neste sentido, ao longo de todos estes anos, já desenvolveu mais de 100 projetos focados seja na preservação de memórias institucionais, seja na promoção do desenvolvimento local a partir da coleta de histórias de vida, ou aqueles voltados para ações educacionais cujo mote pedagógico estrutura-se em torno de oficinas de formação e capacitação concebidas a partir de experiências práticas de aplicação da história oral. É justamente nessa última vertente que se insere o Programa memória local. Implantado no ano de 2001, o projeto tem por objetivo formar professores para o trabalho com a memória, com foco na história da própria comunidade. Segundo Zilda Kessel, o projeto se preocupa ainda com a área da linguagem, razão pela qual inclui atividades de leitura, escrita e oralidade, o que contribui de forma decisiva para a aprendizagem da leitura e da escrita por parte das crianças envolvidas. Para ela, essa contribuição se dá porque: A história [de cada grupo social] é construída pelas crianças que atuam na pesquisa, no resgate de histórias de idosos da comunidade por meio de entrevistas, produção de textos e imagens e edição de produto final. O processo é socializado por meio da construção de um site e de uma exposição, além de produtos realizados por cada uma das salas envolvidas.9 Mas como funciona o projeto? Ainda segundo a autora acima citada e de acordo com informações disponibilizadas no site do próprio museu (www.museudapessoa.net), o primeiro passo para a realização do Programa memória local é apresentá-lo à secretaria de educação do município onde o mesmo será implantado. A partir daí, faz-se uma breve exposição de seus objetivos, mecanismos de ação e os resultados que se pretende alcançar para os gestores, seguido de uma oficina em que os professores e coordenadores das escolas têm a oportunidade de conhecer os conceitos norteadores do projeto e experimentar algumas atividades referentes ao trabalho com memória individual e coletiva. Em seguida, processa-se uma pesquisa prévia sobre o bairro ou cidade onde as ações se desenvolverão. O intuito aqui é identificar elementos que marcaram a história da comunidade 8 9 WORCMAN, 2007, p.1 KESSEL, 2006, p.112 7 escolar, tais como: festas, personalidades, o imaginário simbólico que perpassa o cotidiano da mesma, entre outros. A próxima etapa, que tem por base o material coletado, consiste na elaboração de um roteiro de entrevista a ser efetuada pelos alunos e professores junto a um grupo de idosos da cidade. As entrevistas têm o objetivo de, mesmo que parcialmente, conhecer um conjunto de lembranças que acabam por se desdobrar em ponto de ancoragem da comunidade, uma vez que são recordações de uma época, de uma geração da cidade. Finalizada esta etapa, cada aluno é instigado a confeccionar textos, desenhos ou algum outro tipo de material gráfico sobre o tema, sobre o entrevistado e sobre as passagens da história por ele coletada. Posteriormente a escola realiza uma exposição que, invariavelmente, se converte em espaço de socialização entre alunos e idosos, e entre estes e a escola. Neste momento, selecionam-se alguns exemplares para serem expostos no portal Museu da Pessoa que assegura a publicação do material em uma coleção específica que pode ser visitada por todos. Mas em que medida se mensura o envolvimento e a validade desta experiência para os vários agentes que dela participam? Zilda Kessel, que desenvolveu sua dissertação de mestrado tendo como objeto de análise o projeto aqui em voga, ressalta que em todas as cidades onde o Programa memória local foi realizado, o mesmo demonstrou ser uma experiência que deixou marcas importantes para a instituição escolar e para os participantes – professores, alunos e entrevistados – seja pela melhoria nos processos de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita, seja no fortalecimento de sua auto-estima. Para a pesquisadora, tal melhoria se deu porque ao “ver suas histórias de vida e suas experiências tratadas como temas dignos de serem trabalhados pela escola, num projeto de formação, apresentados num site ou numa exposição, foi para todos um momento emocionante, sentido como gesto de valorização de suas experiências”.10 Como marco da relevância dessas experiências aponta-se, ainda, o forte vínculo criado entre idosos e crianças, muitos dos quais permaneceram para além do término do projeto. Condição também visualizada no programa Estação da memória que apresentamos a seguir. Estação memória: um lugar para se aproximar destinos e intercambiar histórias 10 KESSEL, 2006, p.114 8 O projeto Estação memória é, segundo Edmir Perrotti, um projeto de pesquisa científica que tem por objetivo integrar ações práticas e teóricas que levem em consideração a ampla e complexa gama de questões que surgem do imbricamento entre os universos da memória, da informação e da educação. Para tanto, se propõe a ser um ambiente novo de informação e cultura, de caráter intergeracional, constituído por meio da coleta, da organização, da preservação e da disseminação das experiências de vida de pessoas com 70 anos de idade ou mais, residentes no bairro de Pinheiros, onde se encontra a Biblioteca Infanto-Juvenil Álvaro Guerra, que desde 1997 acolhe e mobiliza as atividades e os resultados do projeto. Neste sentido, o que norteia a atuação do Estação memória é um conjunto de ações que visam tornar possível a comunicação direta e indireta entre crianças, jovem e pessoas de idade em prol da preservação de suas experiências de vida e da constituição de um quadro de referências sócio-históricas que permitam o reconhecimento destes sujeitos como agentes responsáveis pela elaboração dos discursos que estruturam a memória social de uma dada rua, de um determinando bairro, ou mesmo da cidade como um todo. Trata-se, pois, “de um ambiente especialmente concebido e desenvolvido, em seus diferentes aspectos espaciais, informacionais e culturais, com o objetivo de permitir o intercâmbio de narrativas entre diferentes gerações”.11 Sendo assim, e por objetivar ainda atuar na educação das novas gerações utilizando como instrumento pedagógico o contato com os idosos, o projeto coleta, registra, reelabora e dissemina por meio de diferentes suportes e linguagens – gravações sonoras, fotos, vídeos, CD-ROMs, textos manuscritos, textos eletrônicos, exposições, dentre outros – uma série de depoimentos que ressaltam suas experiências de vida, fazendo transparecer os vínculos afetivos, sociais, políticos e culturais que tais personagens mantém com a história do seu bairro e da cidade onde habita. Além disso, o Estação memória promove uma série de encontros (rodas de histórias, oficinas de memória e derivas pelo bairro) que reúnem pessoas das mais variadas idades como estratégia de socialização e de intervenção direta na constituição do imaginário e da paisagem cultural ao qual as mesmas se vinculam. 11 PERROTTI, 2006, p.128 9 Possibilidade que, ainda segundo Edmir Perrotti, faz do Estação memória um projeto que valoriza a polifonia cultural e a memória no plural como categorias constitutivas da história, seja esta individual ou coletiva. Assim, ao se apresentar como um trabalho que coleta e faz circular a memória, as experiências e as histórias de vida dos sujeitos, o Estação memória acaba por inserilos “num circuito sócio-cultural, ressiginificando não só a memória, mas o próprio sujeito e seus vínculos presentes”.12 Nuances também observadas no trabalho de Lilian Lacerda, Álbum de leitura: memórias de vida, histórias de leitoras, como tentaremos demonstrar a seguir. Álbum de leitura: memórias de vida, histórias de leitoras : uma apresentação “Andei pelo passado através de papéis. Papéis antigos, saídos de sótão, com aspecto velho... Desses papéis, a memória reconstrói lembranças de lugares, de pessoas e de práticas sociais como um velho álbum de família, cujos retratos permitem reconstituir o ontem, o antes de ontem e os antes de antes de ontem”.13 Talvez esta seja a sentença que melhor sintetize o trabalho de Lilian Lacerda. Trabalho de lapidação e bricolagem, no qual a autora faz emergir para a cena pública as estratégias e os vestígios da forma feminina de se relacionar com a leitura ou de apropriar-se dela, bem como as marcas da circulação do impresso nos espaços da rua, da cidade, das escolas e das fazendas antigas. Sinais efêmeros, por vezes evanescentes, mas que em seu conjunto dizem de um modo muito peculiar de contemplar a importância da leitura no cerne das rotinas domésticas, dos hábitos familiares e das práticas culturais do passado. Para tanto, a autora elegeu como universo analítico as histórias de vida e de leitura de um grupo de 12 mulheres nascidas entre os anos de 1843 e 1916. Histórias depositadas em diários, cadernetas, cartas e velhos livros amarelados que em seu conjunto narra e reconstitui de maneira lapidar as condições de acesso ao escrito, as imagens e percepções femininas sobre a leitura, os usos e práticas sociais em torno dos textos e impressos, além dos modos de recepção, transmissão e representação do universo simbólico de toda uma geração. 12 13 PERROTTI, 2006, p.130 LACERDA, 2003, p.27 10 Estruturado em cinco capítulos, o livro analisa desde questões teóricas acerca da literatura memorialística e da importância dos diários e autobiografias como fontes históricas, até a função social e afetiva da leitura no desenvolvimento das principais fases da vida dessas mulheres: a infância, a mocidade, a vida adulta e a velhice, assim como o que elas revelam, sejam em termos individuais ou em experiências coletivas – suas brincadeiras e afazeres domésticos, a vida escolar das meninas-moças, os períodos de namoro e casamento, a maternidade e o trabalho, a formação religiosa e a velhice. Urdido com grande sensibilidade, este trabalho de Lilian Lacerda fornece, assim, segundo Roger Chartier, uma contribuição preciosa e original à reavaliação da escrita autobiográfica e os caminhos e anseios que levam alguém a escrever sua vida. Para, além disso: O conjunto dos textos coletados convida, igualmente, a refletir sobre as censuras impostas a uma escrita que, no entanto, ultrapassa as coerções habituais que regem as condutas femininas. Elas são de duas ordens. As censuras da memória fazem com que certos episódios da existência passada sejam esquecidos, recalcados pela consciência, enterrados num segredo que o próprio indivíduo não pode revelar. Quanto às censuras da escrita, eles excluem da narrativa de vida o que não pode ser dito, mesmo num texto que não é destinado à publicação, e mesmo se seu único leitor é aquele ou aquela que o redige.14 Conjunto de preocupações que também se fazem presentes na coletânea de textos que compõem o livro História falada: memória, rede e mudança social, conforme poderemos visualizar em sequência. História falada – memória, rede e mudança social: algumas considerações É possível pensar uma dimensão da história que contemple de maneira análoga as vozes dos múltiplos sujeitos que cotidianamente ajudam a edificá-la? Para, além disso, como fazer dos relatos de vida um meio para a construção de um mundo baseado no respeito pelo outro? Questões aparentemente insolúveis, mas que foram corajosamente tratadas por uma gama multivariada de pesquisadores e ativistas sociais no ano de 2003 em um seminário internacional 14 CHARTIER, 2003, p.21 11 promovido pelo Museu da Pessoa e o SESC de São Paulo, cujo resultado final pode ser conferido no livro História falada: memória, rede e mudança social, não por acaso publicado com o mesmo título do evento. Estruturado em três partes: Memória, rede e mudança social: desafios e perspectivas; Como fazer um projeto de história oral; e Preservação da memória e patrimônio: relatos de experiências, o livro busca ressaltar a importância que a memória assume no âmbito das políticas culturais do mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo, defende e reafirma as potencialidades da história oral enquanto abordagem que corrobora para o processo de apreensão e interpretação dos vários pólos que compõem a vida social por enfatizar que todo sujeito é portador de uma história que merece ser compartilhada porque esta possui em si um valor. Valor que, para ser apreendido e mobilizado, deve ser socializado pelos mais distintos meios possíveis, inclusive pela Internet, através das redes que nela se formam, pois, e as várias experiências relatadas no livro não deixam dúvidas sobre isso, para que essa memória se multiplique faz-se necessário que exista um espaço, um ponto de convergência onde todos os relatos se conectem, um lugar em que estejam organizados e ordenados, de maneira que as histórias que a compõe possam ser utilizadas como fonte e instrumento de educação, ou mesmo como recurso de ação política. Neste sentido, adotando por princípio que articular pessoas por meio da produção e do reconhecimento de suas histórias é fundamental para romper o isolamento de alguns grupos e sujeitos sociais, bem como para impulsionar processos de mudanças culturais, políticas e econômicas, o livro História falada: memória, rede e mudança social se converte em um valioso ponto de partida e em um útil repositório de experiências para se lançar mão sempre que se queira demonstrar que “ouvir o outro é o primeiro passo para respeitá-lo, [uma vez que] a pessoa, a comunidade, o grupo que conta sua história, percebe a dimensão do que realizou e reafirma sua capacidade de decidir e participar”.15 Repositório de experiências, eis uma designação adequada para o próximo projeto a ser apresentado. Trata-se do site Memória de leitura, desenvolvido e mantido por pesquisadores brasileiros vinculados ao Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP. 15 WORCMAN, 2006, p.9 12 Memória de leitura: um site sobre história do livro e da leitura no Brasil O site Memória de leitura (http://www.unicamp.br/iel/memoria/) é uma grande base de dados que traz ao público os principais resultados de pesquisas desenvolvidas por estudiosos brasileiros cujos objetos de trabalho relacionam-se diretamente com os seguintes temas: leitura; história da leitura; formação de leitores; o livro e sua circulação no Brasil; a importância do impresso para a constituição, preservação e circulação da cultura nacional; políticas públicas para o livro e a leitura no Brasil, entre outros correlatos. Para tanto, apresenta uma interface que permite fácil acesso às suas principais seções: cronologia; bibliografias, projetos e resultados; e pesquisadores. Na primeira delas o usuário encontra um conjunto de listas ordenadas de maneira cronológica que trazem informações sobre textos, iconografias, acontecimentos e números que ilustram a história do livro e da leitura no Brasil. Na seção seguinte, bibliografia, são apresentados uma ampla e variada gama de referências textuais – tanto impressas, quanto virtuais – sobre os temas que mobilizam as atividades dos pesquisadores envolvidos no projeto. As fontes bibliográficas estão ordenadas alfabeticamente e as entradas estabelecidas a partir do sobrenome de cada autor. Devido à sua exaustividade, este é um dos espaços que mais chamam a atenção dos visitantes deste site. Atenção que também deve se voltar para o ícone Projetos e resultados, onde o usuário encontrará informações preciosas sobre pesquisas finalizadas ou em fase de desenvolvimento pelos professores filiados ao Instituto de Estudos da Linguagem. Além disso, são disponibilizados gratuitamente ensaios, dissertações e teses concebidas por alunos vinculados aos cursos de história, letras, linguística e educação da UNICAMP, cuja problemática ou objeto de pesquisa se aproxime das temáticas que mobilizam o projeto. Por fim, se o usuário do site quiser aprofundar-se em um assunto mais específico, o mesmo poderá entrar em contato com alguns dos responsáveis pelo projeto acessando informações como e-mail, áreas de interesses, currículo, entre outras através do espaço Pesquisadores. Recurso que amplia a sensação de interatividade dos usuários, ao mesmo tempo 13 em que confere ao site uma maior visibilidade enquanto base de dados referencial para os estudos sobre o livro e a leitura no país. Experiências como estas, que se aliam a outras atividades desenvolvidas nos mais recônditos cantos do país e fora dele, constantemente reforçam a crença de que a leitura e a memória ocupam um lugar tão fundamental em nossas vidas que, para além de suas possibilidades práticas, acabam por se converter em matéria de salvação, tal qual um unguento mágico capaz de amenizar males sem cura aparente. Pensemos no papel que a leitura ou a recordação de textos lidos desempenharam para tantos deportados nos campos de concentração nazistas, ou para os que resistiram ao degredo stalinista. Primo Levi recitava Dante a seu amigo Pikolo, em Auschwitz, e os companheiros de Robert Antelme se lembravam dos poemas que transcreviam em pedaços de cartão, encontrados no depósito da fábrica. Brodsky, condenado a trabalhos forçados em um lugar próximo ao círculo polar, lia Auden, de onde retirava forças para sobreviver e enfrentar os carcereiros.16 Depoimentos que nos leva a reevocar o gesto materno enunciado logo no início deste texto. Por que mesmo que a mãe conta uma história para a criança doente? Talvez por acreditar que as narrativas que evoca possuem uma força capaz de edificar um universo distante das adversidades do mundo. Um refúgio onde nem mesmo as doenças seriam capazes de penetrar. Mas será mesmo que a criança se salvou? A esta questão nem Benjamin, nem nós seremos capazes de responder. Podemos apenas conjecturar que através das palavras que profere, a mãe mobiliza toda a sua vida em prol da salvação de sua cria. Gesto redentor que, se tiver surtido efeito, será certamente repetido por muitas e muitas gerações, tal qual cantado em outras histórias. Histórias que talvez um dia sejam recuperadas por algum leitor, adquirindo assim a capacidade de cativar outras memórias. Movimento semelhante ao que tem sido promovido pela maioria das ações práticas aqui relatadas. Ao incentivar a recuperação e a preservação de memórias de vida, bem como sua socialização por meio da leitura e da internet, estes projetos prestam uma importante contribuição ao sujeito humano: compor um conjunto de referências comuns onde o reconhecimento de si se potencializa pelo olhar do outro, onde a minha memória encontra ressonância na do outro, e onde as doenças do espírito e do mundo se curam coletivamente. 16 PETIT, 2009, p.15-16 14 Referências BENJAMIN, Walter. Conto e cura. In: Rua de mão única. 5. ed. São Paulo: Brasiliense, 1997, p.269. (Obras escolhidas; 2). BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. ed. 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