8º Congresso de Pós-Graduação A PRÁTICA DE CONTAR HISTÓRIAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES Autor(es) BRANCA MONTEIRO CAMARGO Orientador(es) RENATA CRISTINA BARRICHELO CUNHA 1. Introdução O tema abordado neste artigo é a formação e prática de professores de Educação Infantil do ponto de vista de uma atividade comumente oferecida aos alunos dessa faixa etária: a atividade de contar histórias. A temática é relevante porque além de contribuir para o aumento do conhecimento da área, pode ajudar a refletir sobre uma prática pedagógica extremamente importante para a inserção da criança na história cultural e das significações de seu grupo social (CHINEN, 1987). O foco no papel do professor traz contribuições importantes para conhecer as rotinas de sala de aula e pensar sobre a formação de professores no que se refere à temática da atividade de contar histórias. É importante destacar que o presente texto refere-se a um recorte de minha pesquisa de Dissertação de Mestrado que venho desenvolvendo junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIMEP. Para a realização do estudo tomei como base alguns autores que discutem a linguagem e que me auxiliam na reflexão proposta deste estudo, como Vygosty (1984, 1987) e Bakthin (1995, 2003) e autores relacionados especificamente à literatura infantil, tais como Chinen (1987), Bettelheim (1980), Machado (2004), entre outros. Vygosty (1984, 1987) e outros autores da perspectiva histórico-cultural revelam a importância de estudos que considerem as relações sociais, o papel do outro e a análise de processos para compreender o funcionamento e o desenvolvimento humano e, assim, estabelecer relações entre os processos de ensino-aprendizagem e o contexto macro social em que elas ocorrem. Segundo ele, na tentativa de atender suas necessidades, os homens, por meio da sua ação sobre a natureza, produzem seus meios de vida, transformando a natureza e recriando a si próprios. Isso significa que os homens vivem para fazer história, mas também são constituídos pela história da humanidade. A cultura é compreendida como a prática social que ocorre nas relações sociais entre os sujeitos que vivem em sociedade e, ao mesmo tempo, é fruto do trabalho social. Assim, a cultura é a totalidade das produções humanas, quer dizer, tudo aquilo que é construído pelo homem (técnicas artísticas, científicas, tradições, instituições sociais e práticas sociais). Considerar as histórias contadas e compartilhadas pelos professores e seus alunos sob a perspectiva histórico-cultural significa analisar os processos de interação vivenciados relacionando-os com o contexto histórico e as experiências vivenciadas individual e coletivamente. A perspectiva enunciativo-discursiva de Bakthin (2003) traz contribuições relevantes que ajudam a entender a dinâmica dialógica e a construção dos sentidos nas interações verbais que se realizam nas enunciações. Normalmente, o professor lê um livro ou conta uma história oral e conversa com os alunos sobre o tema abordado. Os alunos e o professor compartilham seus conhecimentos e nas interações dialógicas significam e constroem novos sentidos. A atividade de contar histórias pode ser analisada a partir desta concepção de linguagem em que o professor participa de uma interação dialógica com seus alunos. Nas histórias contadas temos as vozes do grupo social maior do qual fazemos parte. Os valores, as tradições e os costumes aparecem na voz do professor e são compartilhadas pelo grupo em sala de aula. Por sua vez, as trocas entre o grupo refletem outras vozes que são das famílias, das experiências de cada aluno e do professor e que vão compor os enunciados de todos e de cada um. Bakhtin nos lembra que inicialmente é do outro que me são dados os sentidos e os significados que farão parte de mim mesmo. "Tudo o que me diz respeito, a começar por meu nome, e que penetra em minha consciência, vem-me do mundo exterior, da boca dos outros (da mãe), etc. e me é dado com a entonação, com o tom emotivo dos valores deles. Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão à formação original da representação que terei de mim mesmo." (BAKHTIN, 2003, p. 373) Os alunos se constituem a partir dos significados e sentidos produzidos a partir das atividades desenvolvidas em sala de aula e o professor é quem oferece os sentidos e significados iniciais que servirão para a formação da representação que terão de si mesmos. Autores como Chinen (1989), Bettelheim (1980), Machado (2004) e outros que se dedicaram ao estudo da literatura infantil me ajudam na discussão sobre a importância da literatura infantil na construção de conhecimentos e valores e no desenvolvimento da imaginação e do afeto. Conforme já explicado anteriormente, este texto apresenta um recorte de um estudo maior e, portanto, meu objetivo aqui é apresentar as análises e resultados parciais sobre o tema proposto. 2. Objetivos Como os professores avaliam a atividade de contar histórias? Como realizam essas atividades? Qual o papel que representam em suas práticas pedagógicas? Quais as suas próprias experiências de vida com relação às histórias infantis? Essas foram algumas das perguntas iniciais para a realização desse estudo tendo em vista compreender quais os sentidos atribuídos pelos professores da Educação Infantil para a atividade de contar histórias e a relação dessa prática com suas historias de vida. 3. Desenvolvimento O trabalho de campo consistiu na realização de entrevistas com professores de uma Escola de Educação Infantil – EMEI do interior do Estado de São Paulo. A escola funciona em dois períodos, sendo que de manhã ocorrem as atividades pedagógicas e à tarde, na companhia de monitoras, as crianças têm o horário do sono, horário de brincadeiras e lanche. Entrei em contato com as professoras Sueli e Patrícia (os nomes são fictícios para preservar a identidade dos sujeitos) do Pré III A e B (5 anos), que se dispuseram a participar desta pesquisa, assinando o termo de consentimento livre e esclarecido que assegura os cuidados éticos e garante o anonimato dos participantes. As entrevistas foram abertas e realizadas com base em um roteiro elaborado previamente contendo as principais temáticas a serem desenvolvidas pelos professores. Este roteiro pedia que as professoras falassem sobre a atividade de contar histórias que desenvolvem com os alunos; como a atividade de contar história se localiza na rotina geral da sala de aula; como elas participam da atividade de contar histórias; como elas avaliam a participação das crianças nessa atividade; quais as dificuldades que elas consideravam importante destacar relacionadas ao contar histórias e também quais os benefícios que elas avaliam que esta atividade pode proporcionar. Procurei introduzir esses pontos com ambas as professoras e deixar que elas falassem livremente sobre o assunto. Só tomava a palavra quando percebia que já haviam esgotado o que gostariam de dizer. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. Para a análise defini dois eixos temáticos que permitiriam responder aos meus principais questionamentos iniciais: a prática de contar histórias – importância e espaço na educação infantil; as experiências vividas pelas professoras – histórias de vida e formação. 4. Resultado e Discussão A prática de contar histórias – importância e espaço na educação infanti: Com relação a esse primeiro eixo, as professoras revelaram que consideram a atividade de contar histórias uma prática importante para o desenvolvimento das crianças. Disseram que sempre contavam histórias para seus alunos. Patrícia informou que passou a contar menos depois que foi implantado o ensino obrigatório de nove anos. Para ela isso trouxe outras exigências que não permitem tempo para contar histórias. Em suas palavras: “Antigamente eu contava mais histórias, depois dessa mudança que teve de ensino de 9 anos a cobrança veio muito em cima do Pré III, então a responsabilidade, o medo da aprovação automática, a cobrança, lição; então infelizmente, a gente não tem tanto tempo como tinha antes pra poder contar história”. Sobre como planejam e realizam as atividades as professoras disseram que quando contam histórias normalmente pensam em histórias fáceis e que podem incentivar o dialogo, a redação e o conhecimento do alfabeto. Sueli destacou que: “Eu folheio (o livro) primeiro e vejo pelas palavras, a história que não tenha muitas palavras difíceis, porque assim muitas vezes eles não entendem o que a gente fala. Tem um que eu tava olhando que é em forma de verso, mas tem umas palavras que tem que procurar o significado, pra eles como são pequenos, aí fica difícil. Então eu procuro na maioria das vezes pelas palavras que tem pelo português, né?” Patrícia contou que: “Eu conto história mais pra poder puxar mais a conversa com as crianças porque eles estão sempre participando ou fazendo alguma pergunta, ou participa conversando na hora do português, da redação e muitas vezes até identificar alguma palavrinha, puxando a letra do alfabeto”. Em relação à maneira como realizam a atividade, as professoras revelaram formas peculiares de organização. Sueli afirmou que: “A gente faz uma roda, sentamos no chão e aí, na maioria das vezes, é história de animais, eu conto e vou mostrando as figuras dos desenhos, as ilustrações dos livrinhos pra eles e durante a história eu já vou conversando, perguntando se alguém tem algum bichinho ou perguntando alguma coisa relacionada a história, depois que eu conto eu mostro pra eles todas as figuras e depois peço pra eles desenharem.” Já Patrícia acrescentou que: “Quando eles estão muito agitados eu ponho a minha cadeira do meio da sala e cada um fica sentado na sua mesinha mesmo, depende muito do dia da sala. Eu gosto muito de trabalhar com eles em círculo na hora da história, porque aí dá pra eu enxergar todos, né! Mas tem dia que eles estão muito agitados”. As duas professoras falaram da ausência de livros adequados na escola e de livros impróprios trazidos pelos alunos como parte de seu material escolar. Patrícia comentou que: “Tem alguns livros (pedidos no material escolar) que trazem que eu acho um pouco complicado pra ler, por exemplo, história bíblica, então ai são livros que eu acabo não lendo”. A partir das colocações das professoras observei que embora a atividade de contar histórias faça parte de suas rotinas escolares e sejam identificadas como importantes, não há uma clareza com relação à relevância da história em si para o desenvolvimento das crianças. As professoras não enfatizam a importância da história para a construção de sentidos (BAKHTIN, 2003), de incentivo a imaginação e de acesso ao conhecimento (CHINEN, 1987). Há uma preocupação com o trabalho de conteúdos escolarizados, como o aprendizado das letras e a redação. As experiências vividas pelas professoras – histórias de vida e formação: Sueli contou que morava no interior do Paraná com os pais que eram agricultores e analfabetos antes de vir morar no interior de São Paulo. Começou a frequentar a escola com 7 anos e até então não tinha tido contato com livros de histórias. Não se lembrou de ouvir histórias quando criança, só “causos” contados algumas vezes por uma avó. Disse que, atualmente, lê a Revista Nova Escola e jornais. Já Patrícia disse que nasceu em uma cidade do interior do estado de São Paulo e que também não se lembrava muito de ouvir histórias na infância. Disse apenas que a mãe contava de vez em quando antes de dormir. Demonstrou gostar de ler aventuras, suspenses e outros tipos de livros. Com relação à formação das professoras, Sueli relatou que se formou em Pedagogia e que começou a trabalhar na escola como auxiliar e depois prestou concurso e passou a dar aulas. Ela trabalha na escola há 8 anos e dá aulas há 6 anos. Sobre a atividade de contar histórias em sua formação diz que assistiu a uma palestra dada por uma contadora de histórias: “E eu achei um show, ela tinha até um tapete contador de histórias, que ela colocava os personagens lá no tapete, e eu acho interessante deixar eles falarem, a gente conta, e eles começam a conversa, um quer contar uma coisa, outro quer contar outra, tem hora que a gente escuta coisas ou vê o desenho nada a ver com o que você contou, está aflorando, desabrochando, né, alguma coisa, está saindo alguma coisa, estão despertando a imaginação, eu acho”. Patrícia contou que fez Magistério em 1999, se formou em Pedagogia em 2008 e em 2009 fez um curso de pós-graduação. Ela revelou que atua na escola há 6 anos, começou na mesma época que Sueli. Diz que já viu algumas contadoras de histórias realizando a atividade, mas falou que sente dificuldade em relação a esta prática. Apoiada na concepção de Vygostky (1984, 1987) e de Bakhtin (1995, 2003), analiso estas experiências de vida e formação das professoras identificando a natureza social de constituição das mesmas enquanto professoras. Em seus relatos revelaram que nas suas experiências de vida, bem como em sua formação, não tiveram muito contato com histórias ou com práticas pedagógicas que as estimulassem a desenvolver esta atividade. Além disso, as professoras revelaram que elas mesmas têm muito pouco contato com a leitura e com livros. Portanto, pergunto: como um professor pode ensinar ou desenvolver práticas pedagógicas com seus alunos sem que estas façam parte de suas experiências de vida e formação? 5. Considerações Finais Este estudo teve por objetivo refletir como os professores avaliam a atividade de contar histórias, como realizam essas atividades, qual o papel que representam em suas práticas pedagógicas e quais as suas próprias experiências de vida com relação às histórias infantis e quais os sentidos dados por eles para a atividade de contar histórias. As entrevistas revelam que a prática de contar histórias tem uma estreita relação com suas experiências de vida e de formação, o que precisa ser considerado e contemplado nos cursos de formação de professores. Referências Bibliográficas BAKHTIN, M. (VOLOCHINOV, V. N.) Marxismo e Filosofia da Linguagem. 7a ed. São Paulo: Hucitec, 1995. BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. 4a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BETTELHEIM, B. A Psicanálise dos Contos de Fadas. (Trad. Arlene Caetano). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. CHINEN, A. B. ....E foram felizes para sempre: contos de fadas para adultos. (Trad. Cecília Casas). São Paulo: Cultrix, 1987. MACHADO, R. Acordais: Fundamentos Teóricos – Poéticos da Arte de Contar Histórias. São Paulo: DCL, 2004. VYGOTSKY, L. S. Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984. VYGOTSKY,L. S. Imaginación y el Arte e Infancia. México: Hispanicas,1987.