LITERATURA, LEITURA E A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS
ELMITA SIMONETTI PIRES (FAFIPA - FAC. EST. DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIAS E LETRAS
DE PARANAVAÍ).
Resumo
“Conte histórias, leia histórias em voz alta, dê livros bons para as crianças lerem
sozinhas. O futuro agradece. O seu, o delas, o da humanidade“. (Ana Maria
Machado) As histórias da Literatura para crianças e jovens lidam com as emoções,
com o prazer, com o espírito lúdico dos leitores estimulando a imaginação criadora,
facilitando o diálogo com o texto sobre a realidade. Em vista desses pressupostos é
indispensável a mudança de atitude por parte dos profissionais que atuam ou
atuarão como animadores/motivadores de leitura, contadores de histórias, como
intermediários entre a criança, o jovem e a obra literária. Visando contribuir nessa
transformação resolveu–se elaborar este projeto – uma parceria entre FAFIPA –
Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí e as Escolas
Municipais de Paranavaí. Os procedimentos para encaminhar uma relação prazerosa
com a literatura pressupõem um percurso metodológico que envolve diferentes
etapas: a formação de acadêmicos como contadores de histórias e motivadores de
leitura; promoção de oficinas de leitura e contação de histórias para crianças de
escolas públicas do ensino básico. Esta comunicação visa compartilhar alguns
resultados obtidos a partir desse projeto de incentivo à leitura e, quem sabe,
motivar futuros profissionais das letras, sugerimdo–lhes idéias que lhes sirvam de
pirlimpimpim em seu trabalho.
Palavras-chave:
LITERATURA, INCENTIVO A LEITURA, ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS.
A ARTE DE NARRAR E O ENCANTO DA LEITURA NA FORMAÇÃO DO LEITOR
Embora nenhum de nós vá viver para sempre, as histórias conseguem.
Clarissa Pinkola Estés
Conte histórias, leia histórias em voz alta, dê livros
bons para as crianças lerem sozinhas. O futuro
agradece. O seu, o delas, o da humanidade.
Ana Maria Machado
Que importância têm as histórias na vida do homem neste início do século
XXI?
Estamos no início do século XXI, o mundo está ligado na internet, mas a narrativa
oral ainda existe e resiste. Por que ainda se busca essa comunicação artesanal? Por
que as histórias ainda seduzem crianças, adultos e idosos? Afinal, que importância
têm as histórias na vida do homem neste início de século?
Quando ainda viviam pela tradição oral, na Europa Oriental era costume responder
às perguntas com histórias. A primeira história quase sempre evocava outra, que
chamava uma outra, até que a pergunta era respondida por várias histórias. De
acordo com essa tradição oral européia, peço-lhes permissão para começar a
responder contando uma antiga história que conheci lendo a escritora e psicanalista
Clarissa Pinkola Estés. A história é sobre o grande sábio Bal Shem Tov. Esta história
possui muitas versões diferentes que ainda são contadas:
O amado Bal Shem Tov estava à morte e mandou chamar seus
discípulos.
_ Sempre fui o intermediário de vocês e agora, quando eu me for,
vocês terão de fazer isso sozinhos. Vocês conhecem o lugar na
floresta onde eu invoco a Deus? Fiquem parados naquele lugar e
ajam do mesmo modo. Vocês sabem acender a fogueira e sabem
dizer a oração. Façam tudo isso e Deus virá.
Depois que Bal Shem Tov morreu, a primeira geração obedeceu
exatamente às suas instruções, e Deus sempre veio. Na segunda
geração, porém, as pessoas já se haviam esquecido de como se
acendia a fogueira do jeito que o Bal Shem Tov lhes ensinara. Mesmo
assim, elas ficavam paradas no local especial na floresta, diziam a
oração, e Deus vinha.
Na terceira geração, as pessoas já não se lembravam de como
acender a fogueira, nem do local na floresta. Mas diziam a oração
assim mesmo, e Deus ainda vinha.
Na quarta geração, ninguém se lembrava de como se acendia a
fogueira, ninguém sabia mais que local exatamente da floresta
deveriam ficar e, finalmente, não conseguiam se recordar nem da
própria oração. Mas uma pessoa ainda se lembrava da história sobre
tudo aquilo e relatou com voz alta. E Deus ainda veio (ESTÉS, 1998,
P. 8-9).
Como na história do sábio Bal Shem Tov, que é uma metáfora da história da
humanidade, o dom da história tem dois aspectos essenciais: que no mínimo reste
um ser humano que saiba contar a história e que, com essa narração, esse
contador de história continuamente invoque a se fazer presentes no mundo, as
forças maiores do amor, da generosidade e da perseverança.
Um outro dado fundamental do contar histórias, hoje, está em resgatar a qualidade
das relações humanas tão deterioradas ultimamente, devido ao grande número de
aparelhos eletrônicos que nos seduzem com suas inovações e que agem como
distanciadores das relações entre as pessoas, colaborando para que elas sejam
menos sociáveis, mais solitárias e pouco reflitam sobre a existência.
Contadores de histórias, escritores, pesquisadores, psicanalistas e profissionais que
lidam na área da leitura, há muito tempo e hoje ainda, fazem afirmações sobre a
importância das histórias na vida do ser humano.
Malba Tahan (Tahan, 1966) faz dele as palavras do sábio latino Quintiliano, do seu
tríplice conselho ao falar de narradores e narrativas: "ut doceat, moveat, delectet instruir, comover e agradar" (p. 10).
Em Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar (1974), há um fragmento em
que o imperador romano relembra e registra aquilo que recorda, para o seu
sucessor Marco Aurélio (mais tarde imortalizado como escritor e sábio), a quem
dirige uma carta:
Um novo projeto absorveu-me durante muito tempo e ainda não
deixou de fazê-lo: o Odeon, biblioteca modelo, provida de salas para
cursos e conferências, que seria em Roma um centro de cultura
grega, (...) Trabalhando para isso, penso frequentemente na bela
inscrição que Plotina mandou colocar no limiar da biblioteca instalada
por sua determinação em pleno Fórum de Trajano: Hospital da alma
(YOURCENAR, 1974, p.194).
O maior estudioso da alma humana, Freud, com certeza concordaria com o velho
imperador romano evocado pela escritora belga. A literatura sempre sobreviverá.
As histórias orais e escritas continuam vivas. O próprio Freud comenta sobre "o
sentimento de segurança com que seguimos o herói ao longo de suas aventuras
cheias de perigo".
Machado (2007) nos fala de um personagem da literatura clássica que associa
literatura e crescimento - Peter Pan. A autora sabiamente reflete sobre a tragédia
deste personagem que finge não querer crescer porque não consegue crescer,
porque não tem memória, esquece de tudo e vive num eterno presente, e é por
isso que precisa buscar salvação na memória alheia, ouvindo toda noite as histórias
que a senhora Darling conta aos filhos. E é por isso que convence Wendy a ir com
ele para a Terra do Nunca onde ela passa a ser aquela que conta histórias e é
guardiã da memória. E a autora conclui sua reflexão com essas palavras:
Poucas histórias nos falam de modo tão radical sobre o papel
fundamental desempenhado pela narrativa, pela literatura e pela
história no crescimento. (...) É um livro que nos deixa essa herança
contundente: estar alijado da memória e da narrativa é um fardo
pesado, um motivo de sofrimento e angústia para a criança, algo que
ela não é capaz de formular com clareza e consciência, mais a deixa
perdida e sem referências (MACHADO. 2007, p.144).
A arteterapeuta pesquisadora e escritora Alessandra Giordano (2007), falando
sobre o fascínio e a importância dos contos da tradição oral, faz as seguintes
considerações:
A maior parte da literatura voltada para o estudo dos Contos de
Tradição Oral informa que não há país, cresça ou etnia cuja tradição
não tenha suas histórias e lendas. Contos sempre fascinaram a gente
de todo o mundo. (...) As histórias desde há muito, são formas de
confrontar, mostrar caminhos, ensinar e aprender com idéias
infinitamente sábias (GIORDANO, 2007,p.2).
Giordano comenta em sua obra que hoje "nossas vidas estão cheias de televisão e
carentes de histórias". Podemos observar que nesse século que inicia, já não se
valoriza estar com os seus, no aconchego de encontros, para escutar uma história;
a maioria das famílias opta pelas imagens da TV, porque mais fáceis, porque
prontas e acabadas. E o que permanece é um estranho e incômodo silêncio, que vai
afastando uns dos outros.
Certa ocasião, conversando com um grupo de crianças de 6 a 7 anos, solicitei que
me contassem uma coisa de que gostassem muito. As respostas vieram
prontamente e variadas: chocolate, sorvete, dormir na casa da avó, jogar bola.
Porém, intrigou-me a resposta de um menino que disse gostar quando, à noite,
faltava energia e ficava tudo no escuro. Perguntei-lhe se não tinha medo do escuro.
Não respondeu, mas explicou que quando isso acontecia ficavam todos juntos na
sala e o avô, o pai e a mãe contavam "causos". A fala desse menino me fez
perceber que felizmente podemos acreditar que as histórias têm seu lugar de
direito na vida humana. Como se estivessem adormecidas na memória do ser
humano há muitos e muitos anos e que de repente podem despertar, e não há
criança, adulto ou idoso que não se encante com uma boa história.
Por uma arte de contar e ler histórias
A arte de ler e contar histórias é acessível a todos que se interessam em instaurar e
transmitir momentos de magia para outras pessoas. Desde que o ser humano
habita a Terra, ele teve a felicidade de descobrir, na linguagem oral, uma forma de
comunicação que expressa os seus anseios, emoções e crenças de acordo com a
sua experiência de vida, permitindo uma troca de vivência com os outros. Uma
experiência que a todo momento revela uma busca de sentido para a vida. Nessa
linha de pensamento, o contador de histórias é alguém que compartilhou diversas
experiências significativas de outras pessoas e as expressa com um carisma todo
especial através da oralidade. Este magnetismo, estas histórias ficam marcadas na
memória e emoção de cada ouvinte.
O contar histórias instaurou e instaura ainda hoje o ser humano aprendiz, o
enxergar a vida como um constante aprender e reaprender, o estar aberto ao
vivenciar novas experiências a cada instante. Mas o homem inventou a linguagem
escrita, dando chance ao registro dessas histórias. A linguagem escrita surgiu com
um código próprio mais formal e rigoroso que se distanciou da linguagem oral e
adquiriu grande importância na nossa cultura e em outras civilizações humanas,
mas o homem, logo percebeu, que a linguagem escrita aceita de bom grado a sua
transposição para a oralidade, perdendo em rigor e ganhando em espontaneidade,
vivacidade e persuasão.
É enriquecedor utilizar, em determinadas situações de forma simultânea, a
linguagem escrita e a linguagem oral, em um intercâmbio em que o dinamismo da
linguagem oral enriquece a escrita, dando novo sentido e novas cores para ela.
Ao contar histórias, o narrador faz uso do instrumento da voz e das linguagens não
verbais (gestos, espaço físico, olhar, músicas, cheiros, toque); e conta com
audição, visão, olfato e tato, quando do ponto de vista do ouvinte. É um momento
que efetiva uma vivência social que é ao mesmo tempo coletiva e individual,
consciente e inconsciente, efetivando uma experiência de aprendizagem informal na
vida dos ouvintes como também na do contador.
Daniel Pennac (1998) em seu ensaio sobre leitura e formação do leitor, aconselha:
Mas ler em voz alta não é suficiente, é preciso contar também,
oferecer nossos tesouros, desembrulhá-los na praia ignorante.
Escutem, escutem e vejam como é bom ouvir uma história. Não há
melhor maneira de abrir o apetite de um leitor do que lhe dar a
farejar uma orgia de leitura (PENNAC, 1998, p.124).
Margot Sunderland (2005), fala com muita propriedade sobre a importância de
contar e ler histórias para crianças:
As crianças não tem recursos interiores para processar e digerir
sozinhas seus sentimentos perturbadores. Elas precisam de ajuda.
Quando a criança não expressa seus sentimentos dolorosos e
inquietantes ela pode passar a ter comportamentos difíceis e
provocadores ou até neuróticos. (...) Uma boa proposta é tratar os
sentimentos da criança usando a história como principal recurso.
Ajudar a criança a refletir sobre seus sentimentos problemáticos por
meio da história e impedir que esses sentimentos se avolumem e se
transformem numa terrível confusão interior. Em outras palavras,
quando bem usadas, as histórias são uma parte vital da saúde do
sistema digestivo emocional da criança (SUNDERLAND, 2005, p.11).
Curiosamente, nesses últimos anos, nas diversas ocasiões que fui convidada a
conversar ou ministrar cursos para profissionais que atuam na área da leitura na
região Noroeste do Paraná, descobri com eles mesmos que a maioria se lembrava
emocionada ter ouvido contos de fadas na infância. Nessas ocasiões costumo lhes
contar uma história verdadeira, à moda de um conto de fadas que li certa ocasião
no livro O fio da memória: do conto popular ao conto para crianças, da
pesquisadora portuguesa, Maria Emília Traça (1998):
Era uma vez um famoso físico chamado Albert Einstein, que um dia
encontrou uma senhora extremamente desejosa de ver seu filho
triunfar numa carreira científica. A senhora pediu ao sábio que lhe
desse conselhos sobre a educação do seu filho, em particular sobre o
tipo de livros que deveria ler. "Contos de fadas", respondeu Einstein
sem hesitar: "Está bem, mas o que deverei ler-lhe em seguida?"
"Mais contos de fadas", replicou o grande cientista acenando com o
seu cachimbo como um feiticeiro que prenuncia um final feliz para
uma longa aventura.
Com certeza não foi só essa mãe que aceitou o conselho de Einstein e sim
praticamente toda a humanidade. E por quê? Cito resumidamente BETTELHEIM
(1980) quando diz que os contos de fadas levantam questões com as quais todo o
indivíduo que vive em sociedade se vê confrontado: rivalidade de gerações,
integração dos mais novos no mundo adulto, tabu do incesto, integração irmão e
irmã. Os contos de fadas lidam com etapas fundamentais da vida como o
nascimento, o namoro, o casamento, a velhice e a morte. Referem-se a fenômenos
em pares contrastantes, numa visão maniqueísta: O Bem contra o Mal, o êxito
contra o fracasso, a pobreza contra a riqueza, a fortuna contra a desgraça, a vitória
contra a derrota, a modéstia contra a vaidade. Os contos de fadas lidam com
episódios, emoções e sentimentos característicos da vida da maior parte das
pessoas, daí a sua perenidade.
Antropólogos comentam que nas sociedades africanas tradicionais, o contador de
histórias era uma figura benquista por toda a comunidade e reunia jovens e velhos
ao seu redor, quando, então, narrava os casos. Sua aparição era como uma
entrada em cena em um espetáculo teatral. Acompanhado por tambores e
instrumentos musicais, não só contava as histórias oralmente, mas também as
representava. Conferia vida a seus contos com mímicas, gestos, imitações das
vozes dos animais e do jeito de falar das pessoas. À sua representação os
espectadores reagiam com gritos, perguntas ou manifestações emotivas. O
contador de histórias era um misto de trovador, comunicador e testemunha do
presente e do passado dessas sociedades tradicionais.
Sempre que discorro sobre a arte de contar histórias com acadêmicos e
professores, ou nos cursos sobre o assunto, acho interessante narrar O Baú das
Histórias, um conto africano recontado por Gail E. Haley (2004), que podemos
denominar como uma "metáfora do contador de histórias". É um conto que
atravessou o Atlântico nos navios cruéis que traziam escravos para as Américas.
Seus descendentes até hoje narram essas "histórias de Ananse", que contam como
homens ou animais pequenos e frágeis superam outros pela inteligência, vencendo
grandes dificuldades.
O conto fala de um tempo em que na Terra não existia nenhuma história para
contar. Todas as histórias pertenciam a Nyame, o Deus do Céu, e ele as guardava
num baú de ouro ao lado do trono. Ananse, o homem-aranha, queria conseguir
essas histórias, trazê-las de volta à Terra e presentear as pessoas do vilarejo onde
vivia. Então ele teceu uma teia até o céu. Quando Nyame ouviu o que Ananse
queria ele riu e disse: "O preço das minhas histórias é que você me traga Osebo, o
leopardo-de-dentes-terríveis; Mmboro, os marimbondos-que-picam-como-fogo; e
Mmoatia, a fada-que-nenhum-homem-viu". Tarefa impossível para um ser humano,
ainda mais sendo ele velhinho, pequeno e fraco. Mas Ananse curvou-se diante de
Nyame e respondeu: "Eu pagarei o preço com prazer". Ananse voltou ao vilarejo, e
sábio e inteligente que era conseguiu os tesouros, teceu uma grande teia,
envolvendo nela Osebo, Mmboro, e Mmoatia, colocando-os aos pés de Nyame.
"Então, Ananse levou o baú de ouro cheio de histórias de volta à Terra, para as
pessoas do vilarejo. E quando ele abriu o baú todas as histórias se espalharam
pelos cantos do mundo, até chegarem aqui".
Assim como o pequeno Ananse, o homem-aranha, tece uma grande teia para
envolver os tesouros que Nyame exige por suas histórias, assim como a aranha
tece a teia para aprisionar sua presa, o contador de histórias também tece uma
trama para aprisionar o ouvinte/leitor nos fios da narrativa.
O projeto Literatura, Leitura e a Arte de Contar Histórias: relato de
experiências.
O projeto "Literatura, leitura e a arte de contar histórias" tem o objetivo de
incentivar a leitura da literatura na escola de ensino básico, séries iniciais, e ainda,
sensibilizar e capacitar os acadêmicos de Letras, futuros profissionais que atuarão
na área da leitura, para a importância do ato de ler e contar histórias, como
elemento integrador da personalidade, atendendo aos interesses e necessidades
dos alunos dessa faixa etária. As histórias da Literatura infantil e juvenil lidam com
as emoções, com o prazer, com o espírito lúdico dos leitores, estimulando a
imaginação criadora, facilitando o diálogo com o texto sobre a realidade. Em vista
desses pressupostos é indispensável a mudança de atitude por parte dos
profissionais que atuam ou atuarão como animadores/motivadores de leitura,
contadores de histórias, como intermediários entre a criança, o jovem e a obra.
Visando contribuir nessa transformação, resolveu-se elaborar este projeto - uma
parceria entre a Faculdade Estadual de Paranavaí e escolas municipais de
Paranavaí, projeto que vem se desenvolvendo desde 2002, e que está agora, em
2009, na sua 8ª. edição. O procedimento para encaminhar a descoberta de uma
relação prazerosa com a literatura pressupõe um percurso metodológico que
envolve duas etapas principais: a formação de acadêmicos como contadores de
histórias e motivadores de leitura; a promoção de oficinas de leitura e contação de
histórias para crianças de escolas públicas do ensino básico.
Ao iniciar o projeto, traçamos um cronograma (coordenação e acadêmicos) para a
execução do mesmo por etapas. As etapas iniciais constam de pesquisas
bibliográficas nos seguintes tópicos: análise das condições e problemas da leitura
da literatura a partir de pesquisas recentes sobre as condições da leitura na região
de Paranavaí; revisão de textos teóricos e críticos sobre a leitura da literatura e a
arte de contar histórias; pesquisa, leitura e reunião de acervo da obra literária
infantil e juvenil (clássicos e contemporâneos) de diversas culturas. As etapas
seguintes são: elaboração do projeto; curso de capacitação para os acadêmicos
envolvidos no projeto; encontros mensais de estudo; organização e
desenvolvimento das oficinas de leitura e contação de histórias com as crianças de
escolas públicas; avaliação e relatório final sobre o projeto de extensão.
Durante todo o ano letivo são atendidas mensalmente nas oficinas em torno de 500
crianças da faixa etária de 5 a 12 anos. No final de novembro de 2008 solicitamos
que as crianças envolvidas durante aquele ano letivo fizessem uma avaliação do
projeto, a partir da resolução de questões escritas que lhes foram propostas. A
quase totalidade das crianças nos devolveu a ficha de avaliação preenchida com
respostas esclarecedoras sobre o resultado do projeto no que foi positivo e com
críticas pertinentes do que não gostaram.
Para comprovar o resultado do que foi desenvolvido em 2008, nada melhor que dar
voz às crianças: principais sujeitos e razão de ser deste projeto de extensão, que
tão vivos, atentos e entusiasmados se mostraram em dele participar. Para tanto
seguem em anexo algumas tabelas e gráficos onde as crianças expressam sua
impressão de leitura, avaliam, opinam, criticam e dão sugestões para melhorar as
próximas edições do projeto (Anexo 1).
Como a responsabilidade na motivação de leitura e formação de leitores está quase
exclusivamente a cargo da escola, ficou evidenciado que em algumas turmas os
alunos estavam motivados para ouvir histórias. Nas turmas onde o trabalho escolar
é difícil e pouco compensador, encontramos dificuldades em motivá-los e para se
concentrarem no momento que a história era contada ou lida.
Outra questão preocupante é que um grande número de alunos, até de 3ª. e 4ª.
séries, ao serem convidados para uma leitura em voz alta, liam com dificuldade,
sem ritmo, sem expressão e entonação, dificultando a compreensão do lido para os
ouvintes e para eles próprios.
Estamos cientes que a leitura é um dado cultural, que o brasileiro em geral pouco
lê, que o homem poderia viver perfeitamente sem a leitura e, durante séculos, foi
isso mesmo que aconteceu. No entanto, depois que os sons foram transformados
em sinais gráficos, a humanidade enriqueceu-se culturalmente e tornou-se cada
vez mais importante para o homem saber ler para absorver o conhecimento
guardado e transmiti-lo às novas gerações.
Os objetivos propostos no projeto até aqui, acreditamos que foram atingidos:
acadêmicos mais responsáveis, comprometidos, melhor preparados como futuros
profissionais da área da leitura, mais conscientes da importância do ato de ler e da
necessidade da busca de metodologias dinâmicas para a formação de novos
leitores.
Outro ponto a se destacar foi o interesse progressivo da maioria das crianças
envolvidas, notório a cada encontro ocorrido, onde puderam, de forma lúdica,
ampliar e enriquecer sua experiência de leitura e de vida.
Este projeto nos remete a vários escritores e folcloristas que abrem seus baús de
tesouros, tesouros de histórias, que os envolvidos ouvem e lêem e depois contam
para quem gosta de ouvir. Nossa vontade é que cada contador de histórias
encontre, neste projeto, idéias que lhe sirva de pirlimpimpim em seu trabalho.
Histórias que vão passando de boca em boca, guardadas no baú do pensamento,
como relíquias dos dias vividos por ancestrais. Esse pensamento que guarda
histórias e de vez em quando as tira para tomar sol.
Em vista do que foi visto até aqui é indispensável finalizar-mos com mais uma
história. Os Irmãos Grimm (1966), pioneiros da pesquisa folclórica, que passaram
para a escrita os contos que ouviram em sua cidadezinha alemã na virada entre os
séculos XVIII e XIX, num de seus livros de contos há uma história que fala de um
baú:
Num dia muito frio de inverno, quando a neve estava alta no chão,
um menino pobre foi mandado à floresta para juntar lenha, que
deveria colocar num pequeno trenó e levar para casa. Quando o
trenó ficou cheio, o menino estava com tanto frio que resolveu fazer
uma fogueirinha para se aquecer antes de pegar o caminho de volta.
Então ele raspou a neve do chão e encontrou uma chavezinha de
ouro.
- Ah - disse para si mesmo - onde há chave, há fechadura. - E seguiu
cavando a neve até que encontrou um baú de ferro.
- Agora, se a chave couber na fechadura, com certeza vou encontrar
todo tipo de coisas preciosas dentro desse baú.
Por um longo tempo o menino procurou, até que enfim descobriu
uma fechadura, tão pequena que mal se conseguia vê-la. Ele
experimentou a chave e viu que ela servia perfeitamente. Girou-a
devagar, devagar, bem devagar e - se a gente tiver a paciência de
esperar até que ele termine de girar a chave e abra a tampa, bem, aí
a gente vai descobrir o que há dentro do baú!
Nas oficinas, depois de contar essa história, quando perguntamos às crianças "o
que será que tem dentro do baú?", as respostas vêm rápidas e variadas: uma
fadinha, outro baú fechado, uma viola, um livro de histórias, ouro e jóias, minha
chupeta, minha boneca Lilica que sumiu. Percebemos então que esse conto torna
palpável a capacidade de enxergar com o olho interior, a partir desse baú meio
cheio e meio vazio. Meio cheio porque guarda as relíquias da memória e da cultura.
Meio vazio porque tem espaço para imagens e vozes novas.
Todos os encontros de estudos, capacitação e reflexão sobre essa arte, todas as
oficinas com acadêmicos e com crianças, que desenvolvemos ao longo desses anos,
foram pequenos baús de experiências, muitas vezes com fundos falsos que se
abriram para o desconhecido. Esperamos que todos os envolvidos possam também
ser chaves para os baús onde cada um de nós guarda suas próprias relíquias, sua
memória, suas experiências e sua voz.
Este projeto tem a pretensão de despertar o contador de histórias que vive
adormecido dentro de nós, para que comece a semear a vida com a magia das
histórias, alimentando a imaginação do seu ouvinte/leitor a ponto de levá-lo a
viajar pelo universo fantástico e inesquecível dos contos, do qual ele sempre sai
enriquecido e dono de uma experiência de vida e emoção únicas, ficando com a
sensação de ter recebido um tesouro.
Referências Bibliográficas
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1980.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente.
Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
GIORDANO, Alessandra. Contar histórias: um recurso
transformação e cura. São Paulo: Artes Médicas, 2007.
arteterapêutico
de
GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Household stories. New York: Mc Graw - Hill,
1966.
HALEY, Gail E. O Baú das Histórias. São Paulo: Global, 2004.
MACHADO, Ana Maria. Balaio: livros e leituras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2007.
PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
SUNDERLAND, Margot. O valor terapêutico de contar histórias: para as crianças,
pelas crianças. São Paulo: Cultrix, 2005.
TAHAN, Malba. A arte de ler e contar histórias. Rio de Janeiro: Conquista, 1966.
TRAÇA, Maria Emília. O fio da memória: do conto popular ao conto para crianças.
Porto: Porto Editora, 1998.
YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano. Paris: Editora Ulisseia, 1974.
A autora é mestre em Estudos Literários pela UEL-2000. Professora da Faculdade
Estadual de Paranavaí. E-mail: [email protected]
ANEXO I
Projeto: LITERATURA, LEITURA E ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS – ANO 2008
Instituições proponentes: Faculdade Estadual de Paranavaí/Escola Munic. Hermeto Botelho
Total de alunos entrevistados: 495
Faixa etária dos alunos entrevistados
30,00%
25,00%
20,00%
15,00%
10,00%
11 a 12 anos
9 a 10 anos
0,00%
8 a 9 anos
5,00%
7 a 8 anos
9,49%
19,19%
27,68%
22,42%
20%
1,21%
100,00%
6 a 7 anos
47
95
137
111
99
6
495
5 a 6 anos
5 a 6 anos
6 a 7 anos
7 a 8 anos
8 a 9 anos
9 a 10 anos
11 a 12 anos
Total
A história que causou maior impressão
As casas que fugiram de casa
- Sylvia Orthof
De Morte! - Angela Lago
História de TATEKALANKÊ
- Bia Bedran
A galinha que criava um
ratinho - Ana Maria Machado
Bulunga, o rei azul - Pedro
Bandeira
O domador de monstros - Ana
Maria Machado
O macado e a onça - Ricardo
Azevedo
A vaca Mimosa e a mosca
Zenilda - Sylvia Orthof
Chapeuzinho Amarelo Chico Buarque
Panela de Arroz - Luís
Camargo
O touro da língua de ouro Ana Maria Machado
A galinha que criava um
ratinho - Ana Maria Machado
A noiva do diabo - Celso
Sisto
O menino Nito - Sônia Rosa
Forró no Céu - Ricardo
Azevedo
Quem tem medo de monstro?
- Ruth Rocha
A periquita e o cachorro do
mato - Ricardo Azevedo
Por que a galinha d'angola
tem pintas brancas? - Rogério
Andrade
A arara cantora - Sônia
Junqueira
O macaco e a velha Braguinha
Outras
Não citaram
Total
126
45
25,45%
9,09%
40
8,08%
32
6,46%
30
6,06%
28
5,66%
25
5,05%
20
4,04%
16
3,23%
12
2,42%
11
2,22%
11
2,22%
10
8
2,02%
1,62%
6
1,21%
6
1,21%
5
1,01%
5
1,01%
5
1,01%
30,00%
25,00%
5
22
27
495
1,01%
4,44%
5,45%
100,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%
O que mais agradou nas oficinas
Gostei das histórias
Gostamos dos contadores de
histórias
Tudo agradou
O teatro de varetas
Os fantoches
O jeito que as histórias são
contadas
Das atividas depois das
histórias
O teatro de sombras
Ouvir histórias
Desenhar
O teatro da vaca
A atenção, a alegria e o
respeito dos contadores
Os personagens das histórias
As imagens das histórias
A leitura das histórias
As horas agradáveis que
passamos
Trabalhar com argila
Quando fomos as
personagens
As histórias de humor
O conhecimento que adquiri
com as histórias
Gostei de sentar no chão para
ouvir as histórias
Não opinaram
Total
167
68
50
29
24
33,74%
13,74%
10,10%
5,86%
4,85% 35,00%
33
6,67%
19
30
11
11
9
3,84%
6,06%
2,22%
2,22% 30,00%
1,82%
9
8
7
3
1,82%
1,62%
1,41%
0,61%
3
2
0,61% 25,00%
0,40%
1
2
0,20%
0,40%
1
0,20%
1
7
495
0,20%
1,41%
100,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%
O que não agradou nas oficinas e gostaria que mudasse
11,72%
37
7,47%
16
3,23%
9
8
1,82%
1,62%
7
1,41%
5
5
104
495
1,01%
1,01%
21,01%
100,00%
50,00%
45,00%
40,00%
35,00%
30,00%
25,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
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58
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49,70%
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246
T udo
Tudo agradou, não mudar
nada
Algumas histórias não
agradaram
Gostaria de mais histórias
engraçadas
Histórias de ladrão, capeta e
morte
A sala, gostaria que mudasse,
é pequena
A bagunça dos meninos
Queria que todas as histórias
fossem teatro
Mudasse o nome do grupo de
contadores
Aumentasse as brincadeiras
Não opinaram
Total
A tipologia das histórias que mais agradam as crianças dessa faixa etária (Poderiam assinalar
mais de uma tipologia) - 2338 citações
14,00%
12,00%
10,00%
8,00%
6,00%
4,00%
2,00%
Tri ste
s
Curta
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Histó
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6,07%
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142
74
60
2338
mi sté
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9,28%
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217
16,00%
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ventu
ra
15,74%
14,16%
13,73%
13,00%
12,49%
9,79%
adas
368
331
321
304
292
229
Eng r
aç
Engraçadas
De aventura
De medo e mistério
Alegres
Longas
De amor
História curta e muito
desenho
História longa e pouco
desenho
Curtas
Tristes
Total
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literatura, leitura e a arte de contar histórias elmita simonetti pires